The Grandmasters(s) (Yi dai zong shi) Wong Kar Wai (2013) China


Quem não conhece o trabalho de Wong Kar Wai enquanto realizador e parte para [“The Grandmaster(s)”] convencido pelo trailer americano de que isto vai ser um filme de Kung-Fu ou uma aventura do Ip Man no reino da porrada de criar bicho cedo descobre que foi enganado pela forma como o filme lhe foi vendido e talvez isso explique o apedrejamento que esta incrível obra prima visual está a sofrer em praticamente todos os forúns públicos pela internet fora aqui no ocidente. Ou melhor, mais pelo lado americano como não podia deixar de ser.

grandmaster01

Felizmente não por toda a gente, mas é certo que o público do cinema de acção genérico (leia-se -á americana-) parece estar a descarregar bem a sua raiva por lhe terem vendido um filme que é bem mais do que a típica aventura de artes marciais a que estamos habituados no ocidente.
E desta vez até lhes dou razão.
Não há dúvida que [“The Grandmaster(s)”] não é de todo o filme de porrada que aparenta nos trailers. Em particular nos trailers remontados nos estados unidos. Há um então com aquela voz gringa estilosa do costume que é de cair a rir ou de chorar consoante a perspectiva.

grandmaster13

Os distribuidores americanos parece que pensaram que a melhor maneira de vender [“The Grandmaster(s)”] no ocidente seria enganar o público e tentar levar o máximo de gente ás salas convencidos que iam ver um filme de aventuras ou cinema de artes marciais como os americanos pensam que os filmes de artes marciais devem ser.
Resultado, o público tem toda a razão em sentir-se enganado e se calhar eu também protestava.

grandmaster16

Na minha opinião, no entanto estão a escolher o alvo errado. Se calhar em vez de apedrejarem o filme, deveriam mas era apedrejar a distribuidora gringa que resolveu ocidentalizar o trailer de forma a meter o maior número de pessoas nas salas pensando que iam ver um blockbuster.
Isto porque está a acontecer uma coisa interessante que não deixa de ser sintomática da forma como Hollywood formatou e estereotipou –o gosto– dos frequentadores de salas de centro comercial nestas últimas décadas.
Quem ataca o filme por ser uma seca, ter história a mais e porrada de menos, não são sequer a maioria dos apreciadores do puro cinema de artes marciais oriental pois muito desse mesmo público tenta inclusivamente defender [“The Grandmaster(s)”] perante os ataques de muitos “cinéfilos” ocidentais a espumarem desapontamento pelos blogs, youtube e afins.

grandmaster20

Quem ataca o filme são essencialmente aqueles espectadores que tanto foram ver isto por ter karaté pelo meio como iriam ver outro blockbuster qualquer saído dos enlatados que Hollywood lhes mandasse ver nesse fim de semana. Aliás, praticamente toda a gente ataca o filme porque ele no trailer ocidental parecia um blockbuster épico de cacetada e pontapés nas trombas e no fim saiu um épico sim senhor, mas um drama épico. Ainda por cima um drama com uma estrutura narrativa totalmente fragmentada que não transporta o espectador pela mão da cena A à cena B mas pede-lhe que esteja atento e construa por si próprio a narrativa; o que deixou logo muita gente desconcertada porque veio ver porrada e depois ainda teve que pensar…e pior, o filme não tem maus nem bons, nem nada !!! Onde está o vilão ?!!!

grandmaster26

O que eu acho absolutamente fascinante é [“The Grandmaster(s)”] estar a ser tão atacado por ter paleio a mais e porrada a menos quando cenas de acção é coisa que não falta neste filme.
É que [“The Grandmaster(s)”] tem porrada de criar bicho sim senhor; apenas não está colocada dentro de uma história linear à americana e esse facto desorienta logo 90% dos espectadores americanos e americanizados que de repente ficam tão baralhados ao (não) tentarem perceber o que se passa na história que nem notam que o que não falta neste filme são sequências de acção !
E nem são tão pequenas assim. A história conta com inúmeros duelos muito variados espalhados por todo o lado e portanto esta ideia de que o filme é uma grande seca porque não tem acção –bem feita- só demonstra o quão formatadas pelo pior de Hollywood estão as audiências ocidentalizadas.

grandmaster10

Por entre as duas horas e meia de drama não linear, [“The Grandmaster(s)”] conta com muitos e largos minutos de fabulosas cenas de artes marciais.
Talvez, o problema aqui seja porque o filme em muitos momentos até usa essas cenas de porrada para contar uma história e é isto a que o público ocidental não está habituado.
Esta coisa de se usar artes marciais como veículo narrativo do que se passa no argumento deixa muita gente baralhada sem saber a que deve prestar atenção.
Isto porque no ocidente estamos habituados a que as cenas de acção sejam quase o intervalo das histórias. Ou seja no cinema de Hollywood, as cenas de acção são qualquer coisa que serve para “descansar” da história, são aquilo que se passa no meio de qualquer coisa e normalmente não tem mais porpósito do que tentar impressionar as plateias com o efeito especial da moda.

The Grandmaster Zhang Ziyi

Acontece que em [“The Grandmaster(s)”] isso não é bem assim. Se calhar não se irão aperceber a um primeiro visionamento porque o filme apanha-nos realmente de surpresa, (até mesmo a quem está habituado ao cinema de Kar Wai), mas uma das coisas mais fascinantes neste filme sobre artes marciais é a forma como usa as próprias artes marciais para falar delas.
As artes marciais aqui não estão no écran apenas para impressionar as plateias comedoras de milho ocidentais mas são a alma do próprio filme. Aliás são quase como poesia visual.
A forma como a luz é usada por vezes provoca mais adrenalina do que a própria sequência de acção ao mesmo tempo que a torna totamente única e visualmente poética pois inclusivamente as artes marciais afectam a própria vida dos personagens a muitos mais níveis do que apenas terem levado uns tabefes e ficarem com vontade de se vingarem.
Uma das grandes mais valias deste filme está na forma como apresenta as artes marciais como sendo um modo de vida, uma herança cultural de um povo e não apenas um conjunto de socos e pontapés que o “heroi” aprende num daqueles “mosteiros de Shaolin” estereotipados por Hollywood como costumamos ver no cliché mais piroso.

grandmaster21

[“The Grandmaster(s)”] é um filme sobre artes marciais.
Não é um filme de artes marciais.
Até eu fiquei desorientado ao inicio, pois a primeira meia hora de filme parecia-me muito hermética e pensei seriamente que não iria atribuir uma classificação tão boa a isto quanto acabei por achar que merece.
Eu que detesto filmes sobre Máfia, gangsters; todo aquele ambiente sobre “Famílias”, rivalidades entre Clãs e universos semelhantes, durante a primeira meia hora estava a começar a ficar farto da atmosfera pois fazia-me lembrar “O Padrinho” de Coppola a todo o instante e pensei que isto não iria muito longe.

grandmaster38

[“The Grandmaster(s)”] ao início constrói um universo muito semelhante á volta da honra, da rivalidade entre chefes de clãs e tudo aquilo que remete imediatamente para a atmosfera do filme de máfia tal como Coppola o recriou nos seus clássicos e isso começou a afectar seriamente a minha atenção e predesposição para continuar a ver o filme, pois eu realmente detesto coisas sobre famílias do crime e pensei sinceramente que esta obra não ia passar de mais uma sobre honra e vingança entre clãs rivais, em versão Hong Kong e estereotipada atá ao limíte. Coisa que felizmente logo percebi a tempo que não seria de todo.

grandmaster22

Ao contrário do que é habitual no cinema de Kar Wai, desta vez a atmosfera do filme constroí-se pelos rostos, pelas pessoas, pelos retratos e não pela envolvência do cenário o que torna logo o filme bastante fechado em termos visuais. Se isso me apanhou de surpresa, imagino a cara do público que foi ver isto ao cinema pensando que era mais um título de aventuras ou um novo episódio da série –Ip Man– que lida essencialmente com cenas de kung-fu.
Essencialmente [“The Grandmaster(s)”] é um filme de interiores, um estudo visual sobre rostos humanos,  sobre fotografias paradas no tempo mas também uma história sobre sentimentos…o que para quem esperava ver uma aventura apenas com pontapés nas trombas imagino como se deve ter tornado frustrante.

grandmaster30

Eu confesso que levei pelo menos 45 minutos a recuperar do choque. E olhem que eu não esperava um filme de acção. Esperava um Wong Kar Wai mais aberto em termos de espaço cénico e toda aquela intimidade de espaço quase claustrofóbico desconcertou-me bastante ao início.
Até que de repente fez-se um clique cá dentro.
Assim que percebi o quanto [“The Grandmaster(s)”] era realmente um filme sobre artes marciais fiquei absolutamente fascinado pois nunca tinha visto nada assim antes dentro do género e já não consegui sair de frente do écran.
Mesmo que quisesse a partir de certa altura as verdadeiras pinturas de luz com que Wong Kar Wai inunda o écran cativaram-me por completo e o filme poderia ser sobre relva a crescer que se a relva tivesse sido tão bem filmada quanto este filme o é eu teria continuado a ver na mesma.

grandmaster18

Eu próprio também condicionado pela ideia que temos de artes marciais aqui pelo ocidente (até por culpa dos clubes desportivos também e da imagem sobre (blargh) desporto em geral), nunca me tinha passado pela cabeça de uma forma realmente consciente que por detrás de toda a espectacularidade  haveria um lado muito profundo, bem para lá do aspecto contorcionista da coisa que normalmente é a única vertente explorada pelo cinema de acção. Nunca me tinha apercebido o quanto as artes marciais na china fizeram inclusivamente parte de um modo de vida e definiram o rumo de gerações. O que é muito bem retratado nestea obra e por o fazer de forma visualmente extraordinária está a ser atacada por muita gente que não pedia mais que isto fosse apenas um titulo de karaté nas fuças.

grandmaster31

[“The Grandmaster(s)”] mesmo que não prestasse para mais nada, é fabuloso na forma como explica ao espectador o que está na verdadeira essência das artes marciais.
É fabuloso na forma como nos apresenta toda a alma e principalmente como demonstra muito bem o quanto é extraordinária esta tradição que se ramificou numa dezena de estilos que chegaram até nós claramente deturpados, bem longe da carga filosófica original e acima de tudo da importância cultural que este filme tão bem reproduz.
Eu que pensava que já tinha visto tudo sobre artes marciais e não tinha qualquer interesse no tema pois sempre o vi mais como uma temática desportiva alimentada por pseudo-paleio-new-age de treinadores ocidentais, fiquei absolutamente surpreendido com a profundidade desta história e com o que o filme nos ensina sobre esta verdadeira herança cultural da humanidade.

grandmaster25

Quem pensa que sabe tudo sobre artes marciais e quem pensa que as artes marciais não são mais do que técnicas de luta deve ver este filme sem sobra de dúvida, pois se calhar irá surpreender-se com a carga inimista, filosófica e até sentimental que muitas destas tradições carregam afinal em milénios de história.
Wong Kar Wai está de parabéns por ter feito um filme que realmente mostra as artes marciais como nunca se tinham visto até hoje no cinema. E ainda por cima mostra-o sem evitar um estilo mais comercial apenas este está disfarçado de cinema de autor ou vice-versa. E resulta ? Se resulta !!
Adoro a envolvência dos personagens e acima de tudo consegue ser um filme sobre vingança que não envolve os habituais clichés, até na forma como não utiliza sequer -um vilão.
O verdadeir mau desta fita é a modernidade que chega com o passar dos anos e a forma inevitável como o tempo acaba por destruir tudo o que um dia foi importante para alguém.
Na verdade se há um tema central neste filme é o de que o tempo tudo consome mas tudo tem o seu tempo.

grandmaster29

E o realizador consegue passar tudo isto de uma forma muito simples e acima de tudo, de uma maneira totalmente despretensiosa.
Comarem este “cinema de autor” com coisas verdadeiramente atrozes e pseudo-intelectualoides como “Visage” e vão notar uma grande diferença certamente.
Wong Kar Wai para mim actualmente é uma das melhores portas de entrada para o chamado cinema de autor, mas cinema de autor que não se tenta armar em inteligente. Apenas tem uma forma diferente de contar uma história.
Neste momento acho que o trabalho do realizador se encontra exactamente entre o comercial e o menos comercial, sendo [“The Grandmaster(s)”] o perfeito exemplo desse equilíbrio tão fascinante do seu cinema actual.
O filme na realidade parece mais complexo e intimista do que na realidade é. Apenas tem um estilo que não é americano. Nada mais.
Mal o espectador aceita as regras da história e percebe o que o realizador está a tentar passar sobre a tradição das artes marciais, o filme parece que se abre a um universo totalmente novo perante os nossos olhos.

grandmaster17

As cenas de acção são absolutamente incríveis, não pelas coreografias mas pela forma como estão filmadas. Quem conhece bem o estilo Kar Wai vai adorar a forma como ele mais uma vez cria poesia visual em cada frame.
E imagens lindíssimas é coisa que não faltam neste filme. Sejam, segmentos com chuva a cair, gotas de sangue contrastando com o azul do chão, nevoeiro que cria cenários de sonho ou a forma como filma cada rosto até no meio das mais intensas cenas de acção, [“The Grandmaster(s)”] tem imagens que vão ficar na vossa cabeça durante dias após terem visto o filme.
É uma espécie de cruzamento entre “2046” e “In the mood for love” com um novo look ainda mais intimista mas sempre baseado em luz e sombra como só Kar Wai consegue criar actualmente no cinema.

grandmaster37

Sendo um filme sobre pessoas, a maneira como Kar Wai filma cada figura humana é incrível e pelo menos eu nunca tinha visto nada assim. Há frames em que parece que até o figurante mais simples tem uma história por contar.
Há enquadramentos com figurantes que nos fazem querer ficar a saber mais sobre as suas vidas.
Kar Wai consegue com uma imagem de um figurante anónimo criar mais alma num “personagem” do que mil linhas de guião o fazem naquele tipo de filmes que os espectadores ocidentais gostariam de ter visto em lugar deste.

grandmaster24

[“The Grandmaster(s)”] tem a melhor colecção de retratos e imagens extraordináriamente poéticas sobre pessoas que eu vi em cinema em muitos muitos anos.
Cada rosto, quase que conta uma história por sí só e quando um filme como este vive de rostos expressivos e incrivelmente bem filmados, temos ambiente para dar e vender.
Algumas imagens parecem verdadeiras pinturas a óleo e só apetece passar o filme todo a carregar no botão de pausa, pois é quase inacreditável o nível de detalhe que está presente em muitas imagens que não chegam a estar no écran mais do que um segundo apenas. No entanto ficam na memória e é esse o poder do cinema de Wong Kar Wai que também aqui não deixa os seus créditos por mãos alheias.

grandmaster03

Este filme tem a melhor colecção de imagens inesquecíveis de que me recordo de ver desde…se calhar desde o “In the Mood for Love” ou “2046” do mesmo realizador.
E mais uma vez não só temos imagens belíssimas a todo o instante como acima de tudo temos personagens que nos parecem seres humanos de verdade. Não só alguns figurantes parecem ter uma história de vida para contar como inclusivamente até os personagens secundários têm uma identidade bem marcada, com actores sólido por detrás de cada um deles e onde há sempre um momento para brilharem na história.

grandmaster23

Muito público ocidental parece ter ficado bastante chateado por [“The Grandmaster(s)”] não ser mais outro filme com o “super-heroiIp Man na linha mais comercial que tem feito parte de uma série bastante popular.
No entanto, [“The Grandmaster(s)”] é um filme sobre artes marciais em que um dos personagens é o Ip Man, nada mais do que isso.
Não é um filme de artes marciais com o Ip Man.
E isto porque Ip Man é incontornável na história das artes marciais e sinceramente estava mais que na altura de alguém explicar ao ocidente quem era este homem que muitos conhecem apenas por ter sido a pessoa que treinou o jovem Bruce Lee (que aparece brevemente representado enquanto criança no final do filme num pequeno segmento fascinante).
Conhece-se a técnica, extrapolaram-se muitas das suas “aventuras” mas nunca tinha havido um filme sobre essencialmente aquilo que ele representava. Sobre a sua alma e de que forma a tradição o moldou. [“The Grandmaster(s)”] é esse filme.

grandmaster04

Mas não só, essencialmente [“The Grandmaster(s)”] sendo um filme sobre a tradição das artes marciais, é também uma história sobre todos os mestres que décadas atrás tanto lutaram para que as suas tradições  familiares não se vulgarizassem, tendo Ip Man acabado por se tornar talvez no último dos grandes símbolos desses tempos onde as artes marciais ainda representavam uma filosofia, uma tradição e um modo de vida e não eram apenas tema de paleio “new age” de treinadores de Karaté nos ginásios modernos; muitos dos quais certamente acharão o filme uma seca, aposto.
Toda aquela aura a fazer lembrar filmes como “O Padrinho” parte precisamente dessa introdução inicial da história, pois o filme começa essencialmente por nos apresentar esse universo tão fechado e secreto, apresentando-nos muitos dos anciões que guardam cada segredo familiar a sete chaves. Cada golpe é um mistério, cada técnica um tesouro e quase um acto sagrado. Portanto o filme não é apenas sobre mortes e vinganças, mas sim sobre tradição.
Apesar de ser um filme de interiores, por vezes abre-se em vastas paisagens momentâneas que quase pertencem a uma outra obra mas não deixam de ser benvindas em certas alturas, pois ajudam a narrativa a respirar.

grandmaster33

Como não podia deixar de ser no cinema deste realizador, [“The Grandmaster(s)”] é também uma história de amor e como também não podia deixar de ser nas mãos de Wong Kar Wai, é mais uma das grandes histórias de amor do cinema.
Novamente temos o extraordinário Tony Leung a fazer par com a não menos incrível Zhang Ziyi que não contracenavam juntos desde “2046”; novamente num par romântico totalmente real perante um romance impossível como seria de esperar.
Grande parte do epílogo final desta história é precisamente sobre a relação destes dois personagens e sobre a forma como as artes marciais inclusivamente definiram o percurso do seu amor.
Esta ideia está realmente bem desenvolvida e dá a esta história de amor uma vertente diferente do que encontramos habitualmente, que culmina num pequeno monólogo fantástico de Zhang Ziyi e coloca este filme também como uma excelente proposta para aqueles que chegam a este blog procurando por cinema romântico oriental.

grandmaster32

Apesar de estar sempre subjacente á história ao longo do filme por acaso não esperava que Kar Wai fosse entrar pela pura história de amor no momento em que o fez, mas ainda bem que assim foi, pois um filme dele sem um grande romance nunca seria o mesmo.
Inclusivamente seria um desperdício de dois personagens que se tornam ainda mais inesquecíveis porque enquanto espectadores torcemos por eles até ao último minuto de uma forma que me fez recordar “A Time to Love“, pela sua atmosfera de melancolia e saudade de algo que nunca aconteceu em pleno.
Mais uma vez a ideia de um amor impossível está presente numa história de Kar Wai e ninguém filma a saudade de momentos que nunca poderiam ter existido como este realizador.

grandmaster36

Portanto, eu passei-me com este filme.
Os primeiros 45 minutos foram-me difíceis pois não estava mesmo a ver qual a ideia por detrás de tanta aura “mafiosa” no tom da história até que de repente me caiu um piano em cima e eu finalmente acordei para o filme.
A partir daí agarrou-me por completo.
Inicialmente apenas pelas incríveis cenas de acção (que não são tão poucas como os descontentes afirmam), depois pela forma poética como Kar Wai filma cada pormenor mas principalmente como mostra cada rosto e cada alma; também pelo fascínio que conseguiu transmitir a propósito do mundo hermético das verdadeiras artes marciais e por último com a bonita história de amor entre os dois rivais que fechou em grande esta narrativa que não me sai da memória dois dias após ter visto o filme.
Só o visual do filme, aliado á vertente romântica da história vale o tempo que dispenderem a tentar habituar-se a ele. Se gostarem de filmes de Wong Kar Wai, então nem hesitem pois este é imprescindível.

grandmaster05

Se não gostam de filmes de Kung-Fu, então passam a gostar.
Correndo o risco de me repetir, nota alta para todo o visual do filme. [“The Grandmaster(s)”] tem visuais absolutamente incríveis e para mim enquanto ilustrador consigo encontrar pelo menos umas vinte ou trinta cenas neste filme que me irão servir de inspiração nas próximas décadas.
Há de tudo em [“The Grandmaster(s)”], desde ambientes á chuva, interiores incrivelmente iluminados e como não podia deixar de ser num filme oriental, cenas de tirar o fôlego em estações de comboio.
Muitas das imagens neste filme fizeram imediatamente lembrar-me das cenas mais intimistas e até da estética de Blade Runner. Nomeadamente a forma como os rostos estão iluminados e as cenas na estação com a Zhang Ziyi num estilo a fazer lembrar a “Rachel” no filme de Riddley Scott décadas atrás.

grandmaster02

Aliás mais uma vez Wong Kar Wai cria uma personagem feminina ao mesmo tempo forte e frágil, com montes de personalidade; ter a actriz perfeita para o papel também ajudou certamente pois mais uma vez a actriz rouba todas as cenas em que entra.
Há sequências fantásticas em que o personagem nem precisa de falar. Basta caminhar em direcção à câmera e mesmo sem explosões atrás em estilo Michael Bay consegue transmitir mais identidade e alma do que todos os bonecos de cartão que costumamos encontrar no cinema plástico que inunda os nossos centros comerciais todas as semanas.
Zhang Ziyi é definitivamente uma actriz com presença e se para tal ainda houvesse dúvida bastaria confirmar-mos o seu trabalho nesta história.

grandmaster09

Em termos narrativos, em certos momentos este filme é bastante parecido também a “Ashes of Time” um dos primeiros filmes de Hong Kar Wai e portanto fica aqui o aviso: quem detestou esse muito provavelmente terá bastante dificuldade em conseguir suportar o tipo de narrativa que está agora em  [“The Grandmaster(s)”]. Ambos os filmes funcionam bastante por flashbacks, narrativas fora de ordem cronológica e vivem muitas vezes de silêncios.
Curiosamente não me recordo da banda sonora…nem me lembro se o filme tem música para dizer a verdade.  O que só pode querer dizer que é tão perfeita a criar ambiente que eu nem notei que lá estava ou então que pura e simplesmente quase não deve ter existido e eu nem dei pela falta…

grandmaster19

Recomendo vivamente que vejam o cut de duas horas e meia, pois consta por aí que Hollywood pretende remontar o filme para  video e fazê-lo caber em 90 minutos, se calhar para deixar apenas as cenas de porrada como é costume. Por isso é vê-lo na integra enquanto podem, pois se os cortes acontecerem, é bem provável que a edição que chegar em dvd a Portugal possa ser a versão cortada (tal como aconteceu com The Big Blue de Luc Besson anos atrás e nem consigo imaginar como um filme tão incrível como [“The Grandmaster(s)”] seria sem as suas cenas mais intimistas, poéticas e filosóficas que lhe dão tanta alma e que tornam as cenas de kung-fu ainda mais espectaculares por contraste de adrenalina.

—————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO

Já entrou para a lista de filmes da minha vida também.
Depois do fabuloso e americano “My Blueberry Nights” Wong Kar Wai regressou a Hong Kong e ainda bem que o fez.
Juntamente com Makoto Shinkai na animação Wong Kar Wai é para mim actualmente o melhor realizador do mundo em filmes –live action– (nesta vertente semi-comercial talvez) e mais uma vez não me desapontou.
Poderá não ser um filme para todos os tipos de público, especialmente para aqueles que se deixarem enganar pelos trailers remontados no ocidente, mas é o filme perfeito para quem se interessa realmente por artes marciais pois garanto-vos que nunca viram nada assim; e não estou a falar da porrada.

grandmaster27

Contém no entanto cenas de acção incríveis e é um excelente exemplo de um filme que fica perfeitamente com o pé em dois mundos; tanto no mundo do cinema comercial como no mundo do cinema de autor.
É uma excelente introdução a esse universo que normalmente está cheio de filmes estúpidos e pretensiosos, por isso é refrescante ver que ainda há gente a fazer cinema intimista sem qualquer carga intelectual pindérica para impressionar intelectuais de café e ratos de festivais cinéfilos.
Ignorem as reviews negativas de muitos comentários espalhados pela net (especialmente no youtube) pois muita gente foi ver o filme pensando que era apenas mais uma aventura de artes marciais e ficou compreensivamente frustrada tendo descarregado no filme injustamente.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award para o melhor filme que vi este ano até agora.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg gold-award.jpg

A favor: é uma enciclopédia fascinante sobre o verdadeiro mundo e tradição das artes marciais, tem cenas de acção fascinantes e cheias de adrenalina, é cinema de autor sem ser pretensioso, está carregado de personagens verdadeiramente humanos, tem imagens inesquecíveis espalhadas pelo filme todo, muito poético e cheio de momentos em que só apetece fazer pausa para contemplarmos as imagens, óptima história de amor intensamente romântica no estilo mais trágico e clássico, os actores são incríveis, contém diálogos excelentes especialmente na história de amor, personagens que não se esquecem tão cedo, duas horas e meia passam num instante pois a narrativa pode ser diferente e fragmentada mas não é de forma alguma confusa ao contrário do que muita gente diz pela net, quem gosta do estilo de cinema do Wong Kar Wai vai ficar plenamente satisfeito com o que vai encontrar neste filme também que a meu ver merece plenamente o 12 prémios que ganhou pelo oriente, é tão bom ou melhor quanto “Ashes of Time” (o qual faz lembrar bastante em certos momentos), “In the Mood for Love”, “2046” ou “My Blueberry Nights”(embora bem diferente deste último em todos os aspectos). Acima de tudo é realmente um filme diferente e com muita alma. Se não gostavam de Kung-Fu passam a gostar.

Contra: Quem o vir pensando que é um novo filme de acção e aventura da série Ip Man pode ficar muito decepcionado e até irritado com a carga poética e intimista de grande parte deste filme.

—————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

Trailer
https://www.youtube.com/watch?v=8Ngxn9NzLzs

grandmaster39

Comprar
Acho que ainda não há uma edição europeia…

Trailer americano…
https://www.youtube.com/watch?v=uC5amKLgnFU

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1462900

——————————————————————————————————————

Se gostou, vai gostar certamente dos seguintes filmes abaixo.
Aliás, mesmo que não tenha gostado deste  vai gostar dos filmes abaixo.

capinha_ashes-of-time-redux capinha_a-time-to-love

——————————————————————————————————————

Cinema_oriental_no_facebook

Dung che sai duk (Ashes of Time “Redux”) Kar Wai Wong (1994) China


Por falar em Wong-Kar-Wai ( a propósito do último post), lembrei-me que ainda não tinha visto a nova montagem do velhinho “Ashes of Time”, agora intitulada, [“Ashes of Time – Redux“].

O original é um daqueles meus filmes favoritos de que me esqueço por completo e de cada vez que me lembro de o rever parece que estou a ver um filme novo, sabe-se lá porquê.
Talvez seja do próprio tom hipnótico, da suas histórias fragmentadas e da narrativa em puzzle visual, mas este filme nunca me fica na memória por muito tempo.
Ou talvez seja porque se calhar não é só o vinho que é mágico na história de [“Ashes of Time – Redux“] e o próprio filme apaga também as nossas memórias passadas. O que é fixe.

[“Ashes of Time – Redux“] na sua versão original, sem o “Redux” á frente no título e com mais uns 8 minutos de duração há uns anos atrás era um dos dvds mais dificeis de encontrar no mercado; só havia uma cópia atroz disponível que acabei por comprar na PlayAsia na altura e é definitivamente uma das piores edições que alguma vez me passaram pela frente. A um ponto tal que o dvd nem tem menu nem nada, a qualidade de imagem parece para aí a vigéssima cópia pirata de um original em vhs gravado da TV e a legendagem queimada na imagem está ao mesmo tempo em Cantonês e Inglés sempre presente no ecran.

Por isso foi com grande agrado que soube que Wong Kar Wai reviu o filme e supervisionou finalmente uma cópia como deve de ser desta pequena grande obra dentro daquilo que se convencionou chamar Cinema de Autor.
Parece que havia no mercado tanta montagem alternativa deste filme, que o próprio realizador se viu na obrigação de colocar ordem na casa e revisionar o seu trabalho numa versão definitiva e foi assim que surgiu no mercado [“Ashes of Time – Redux“].
Uma versão ligeiramente reduzida, pois já não conta com uma atabalhoada sequência de acção inicial presente nas cópias maradas e entra logo pelo tom mais intímista a dentro para assustar a malta, mas que resulta plenamente.
Primeiro porque não engana ninguém e quem chegar a este filme a pensar que é mais um Wuxia de Artes Marciais comercial muda logo de ideias nos primeiros cinco minutos e ainda tem tempo para procurar algo mais comercial e depois porque torna o tom filosófico do filme mais imediato.

Além disso [“Ashes of Time – Redux“] está devidamente restaurado com uma qualidade incrível a nível visual. As diferenças a nível de cor e imagem são tão grandes que eu tive ontem que ir comparar esta nova versão com a antiga lado a lado, pois nem me lembrava de 90% dos enquadramentos que me estavam a passar pela frente e tudo aquilo me parecia um filme completamente novo.
Talvez porque também a banda sonora foi substituida o que ainda moderniza mais o filme, embora na minha opinião tão “má” seja a música nova como a antiga. Isto porque não me habituo de todo a sonoridades sintetizadas em filmes supostamente medievais e isso aqui também não é excepção. Embora não seja particularmente incomodativa neste caso e não é tão foleira quanto a música presente em “Musa the Warrior” por exemplo. Isto porque é mais usada para acentuar o tom intimista do filme do que própriamente para ilustrar cenas de acção.

E por falar em cenas de acção, [“Ashes of Time – Redux“] não parece, mas está cheio delas. São muito breves e estilizadas, como se as estivessemos a ver através das lentes de uma qualquer máquina do tempo, mas são todas espectaculares no que toca ao cuidado com a coreografia, o que as transforma mais numa espécie de bailado de emoções do que própriamente em cenas de acção e porrada habituais. Por isso fica desde já aqui o aviso ao pessoal que procurar algo com mais aventura pois não é esse de todo o espírito de [“Ashes of Time – Redux“].

Esta obra será talvez a coisa mais próxima de um “Era Uma Vez no Oeste” de Sergio Leone que alguma vez apareceu no cinema oriental e é muitas vezes comparado com isso, embora [“Ashes of Time – Redux“] seja ainda bem mais introspectivo e intimista. Por isso se aquele tipo de cenas filosóficas em que os personagens dissertam os seus pensamentos para a câmara os incomoda se calhar é melhor evitarem este filme a todo o custo pois todo o seu coração é composto por momentos desses alternados com sequências de acção que os complementam.

Toda a história é intensamente fragmentada de propósito para servir o tema central do filme a propósito do facto da memória humana ser a grande responsável por tudo o que há de mau na nossa existência e por todo o sofrimento das pessoas. A premissa é a de que se não houvesse memória, todos nós começariamos o dia sem qualquer mágoa e tudo poderia ser bem mais simples e feliz nas nossas vidas.
Como tal, o próprio filme parece fazer questão de baralhar a nossa memória constantemente, recorrendo a saltos na narrativa, flashbacks de personagens e acontecimentos, ou então avançando no tempo e voltando ao presente para no final ligar todos os acontecimentos e personagens num puzzle que cabe ao espectador desvendar e juntar as peças para poder apreciar devidamente toda a profundidade de [“Ashes of Time – Redux“].

No entanto, apesar de ser Cinema de Autor, isto poderia ter degenerado em algo extremamente pretencioso e intelectualoide mas não acontece de todo. [“Ashes of Time – Redux“] é chato, ou melhor, pode ser chato para muita gente, pois não é de todo um Wuxia comercial, mas não tem aquela carga de – “Ó para mim como sou um filme inteligente.” – que muitas vezes abunda no género.
O que acaba até por justificar o sucesso comercial que teve na altura, o que não deixa de ser mesmo estranho pois aqui no ocidente um filme como estes jamais levaria o público comum ás salas da forma como aparentemente aconteceu no oriente.

[“Ashes of Time – Redux“] segundo rezam as crónicas por causa disso e de toda a sua original abordagem ao género Wuxia, acabou por se tornar numa das grandes obras inspiradoras de “O Tigre e o Dragão” que depois veio relançar o género no ocidente de uma forma já mais comercial, mas onde se nota apesar de tudo uma tentativa de lhe atribuir um toque ou dois de intimismo ao nível do que Wong-Kar-Wai apresentou neste titulo originalmente lançado em 1994.

Portanto, [“Ashes of Time – Redux“] não será para todos, mas quem se interessar por filosofia, tem aqui um filme obrigatório que explora muitas questões interessantes sobre todos nós, contém imagens absolutamente fabulosas e ainda por cima consegue ser mais uma vez intensamente romântico mas desta vez com uma grande aura melancólica. Não esperem uma história de amor fofinha ao estilo comercial oriental. Se esperarem uma aura romântica intensamente assombrada e não tiverem medo de acompanhar o estilo fragmentado do filme vão adorar todo o seu ambiente, seja nas histórias de amor cruzadas ao melhor estilo Wong Kar Wai, seja no ambiente desencantado mas muito realístico e vão curtir o estilo visual das cenas de acção Wuxia pois [“Ashes of Time – Redux“] contêm momentos intensamente poéticos.

Wong Kar Wai diz que tentou fazer um filme sobre os típicos herois Wuxia, mas contando as suas histórias e apresentando o seu passado antes destes se tornarem os habituais herois que vemos nos filmes e penso que a ideia além de ser bem interessante foi plenamente realizada.
Precisamente porque uma das coisas mais fascinantes e hipnoticas em [“Ashes of Time – Redux“] é precisamente sentirmos que a qualquer momento aqueles personagens podem ser apresentados como os típicos herois que conhecemos de outras aventuras Wuxia, mas ao mesmo tempo nunca sabemos bem quando isso irá acontecer ou sequer se irá acontecer.

Todos os personagens de [“Ashes of Time – Redux“] são os estereotipos que conhecemos; o guerreiro solitário, o assassino profissional, a princesa, a rapariga em busca de ajuda, a mulher amada que nunca foi de quem a amava, etc
Agora a genialidade da narrativa está precisamente em ter pegado tudo isso que conhecemos de outros lados e ter nos mostrado o lado humano desses personagens tipo. A partir daqui e depois de vermos [“Ashes of Time – Redux“] parece que todos os filmes de aventura Wuxia que virmos a seguir contam com estes personagens pois podemos imaginar os seus passados como algo semelhante mesmo que estes não sejam muito desenvolvidos noutros filmes.

[“Ashes of Time – Redux“] não será um filme para todo o público, mas quem curtir, vai curtir mesmo muito.
É não só um bom antidoto para uma dose de Wuxias mais comerciais, como acima de tudo é um complemento excelente para esses filmes de aventura.
É uma obra intensamente pessoal e filosófica e no entanto não é pretenciosa o que lhe dá logo muitos pontos na minha opinião e quem gostou de coisas como “In the Mood For Love” ou “2046”, poderá encontrar aqui a origem de muitos dos pormenores visuais que conhecem da obra mais recente do realizador pois [“Ashes of Time – Redux“] foi um dos primeiros filmes antigos dele onde o seu novo estilo se começou a fazer notar.

Nota-se e como ! Visualmente contém imagens estonteantes. Desde á fotografia das paisagens de deserto, aos interiores e á forma como os pormenores são filmados, onde o jogo de luzes e sombras está cuidadosamente planeado para amplificar ainda mais toda a filosofia e emotividade das caracterizações dos personagens.
Se gostam do estilo visual de Wong Kar Wai e nunca viram [“Ashes of Time – Redux“] nem sabem o que perdem, pois isto contém quadro atrás de quadro. Não só os enquadramentos são fantásticos como a própria cor do filme é fabulosa, especialmente no contraste entre o ceu azul e o amarelo do deserto.

Mesmo quem achar o filme uma seca mas gostar de espreitar imagens fascinantes, vai querer ver este filme.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Não posso deixar de dar a nota máxima a este filme também, apesar de na verdade não recomendar a toda a gente que o vá a correr ver, porque não é de todo um filme que irá agradar a todo o público. No entanto se estiverem numa de cinema de autor e quiserem ver um filme fascinante dentro do género e ainda por cima passado em ambiente Wuxia onde não faltam algumas cenas de acção fantásticas se calhar não irão perder o vosso tempo em espreitar [“Ashes of Time – Redux“].
Então para fãs do Wong Kar Wai que nunca tenham visto isto e muito especialmente para quem só viu a cópia ultra rasca que andava por aí á venda em dvd, esta nova versão é totalmente obrigatória pois nem irão reconhecer o filme.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award porque sim.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg gold-award.jpg

A favor: o ambiente visual, a carga filosófica sem ser pretenciosa, os personagens e o desempenho fantastico dos actores, a estética nas cenas de acção, excelentes sequências de acção embora muito breves mas bem equilibradas com o lado intimista.
Contra: se não conseguem ver cinema de autor pela frente fujam, a banda sonora podia complementar bem melhor o filme.

—————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=XFh55NaFVLc

Comprar Versão Redux em Blu-Ray
http://www.amazon.co.uk/Ashes-Time-Redux-Blu-ray-DVD/dp/B001L4I1VE/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1306786553&sr=8-1

Comprar Versão Redux em DVD
http://www.amazon.co.uk/Ashes-Time-Redux-Leslie-Cheung/dp/B001L4I1VO/ref=sr_1_2?ie=UTF8&qid=1306786553&sr=8-2

Download aqui Versão Redux remontada em 2008 com legendas em PT/Br

Download aqui Versão original de 1994 com legendas em PT/Br

OST da versão de 1994

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0109688

Entrevista com Charlie Yeung
Entrevista com Carina Lau
Entrevista com Tony Leung

Entrevista com Wong Kar Wai – Parte 1Parte 2Parte 3

Entrevista com Christopher Doyle – Parte 1Parte 2

——————————————————————————————————————

Se gostou, vai gostar certamente dos seguintes filmes abaixo.
Aliás, mesmo que não tenha gostado deste  vai gostar dos filmes abaixo.

——————————————————————————————————————

There´s Only One Sun – Wong Kar Wai


No outro dia perguntaram-me por esta curta metragem por isso apesar de eu já ter colocado o link para ela nos outros fabulosos filmes de Wong-Kar-Wai, nomeadamente em “In The Mood For Love”, “2046” ou “My Blueberry Nights” fica aqui agora o post em destaque para quem quiser espreitar esta fascinante produção que é quase um catálogo de todos os pormenores, toques visuais e ambientes presentes nas longas metragens para Cinema deste grande autor.

——————————————————————————————————————

Se gostou, vai gostar certamente dos seguintes filmes abaixo.
Aliás, mesmo que não tenha gostado deste  vai gostar dos filmes abaixo.

——————————————————————————————————————

2046 (2046) Wong-Kar-Wai (2004) China


Quando pensamos em ficção-científica o nome de Nat-King-Cole não será própriamente aquele que nos vem à ideia quando imaginamos um futuro em ambiente Blade Runner, mas eu já não consigo ouvir as suas canções ; (principalmente as canções em Espanhol ) sem imaginar imediatamente prédios imensos rodeados por neons coloridos, carros flutuantes, vielas escuras ou á meia-luz e um ambiente noir intensamente romântico assente numa aura nostálgica de solidão e saudade.
Bem vindos a [“
2046“].

2046_01

Bem-vindos ao terceiro filme de uma trilogia que por acaso até nem existe.

Se [“2046“] fosse cinema Lusitano seria um filme sobre Fado.
Um filme sobre vielas escuras, candeiros á meia luz, almas em câmera-lenta, destinos errantes, amores perdidos e muita Saudade.

 2046_15

[“2046“] pode não ser um filme Português, mas esta história podia ter saído perfeitamente de qualquer poema presente nos nossos Fados.
[“2046“] é verdadeiramente um filme Chinês embora com uma imensa e inesperada alma Lusitana.
Isto apesar do argumento ser também em grande parte uma narrativa de ficção-científica que não fica nada a dever ao universo de Blade Runner.

2046_12 2046_02

Aliás, se alguma vez houve uma “sequela” inesperada para um drama romântico, [“2046“] ganha esse prémio sem sombra de dúvida, pois a última coisa que se esperava era que Wong Kar Wai fosse continuar não só a história de [“In The Mood For Love“] como ainda por cima o fizesse usando um cenário futurista que mete cyborgs ao melhor estilo “replicant” e tudo.
A primeira vez que li a notícia dizendo que [“2046“] daria continuidade a “In The Mood For Love” pensei que seria uma piada de 1 de Abril, pois por mais que tentasse não conseguia conceber como raio se pegava num filme tão classicamente romântico para o transformar numa história com contornos de ficção-cientifica.

2046_18 2046_14

Mal sabia eu que afinal [“2046“] não só, era uma continuação não oficial de “In The Mood For Love” como ainda por cima também uma “sequela” quase directa para [“Days of Being Wild“] outro dos filmes mais antigos do realizador e que por sua vez, também já tinha servido de base para “In The Mood For Love“.
Confusos ?
Ainda não viram nada, mas para saberem mais detalhes sobre tudo isto, recomendo que depois leiam sem falta a minha review sobre – [“Days of Being Wild“] o “primeiro” filme desta “trilogia”, num link que darei mais á frente para não os baralhar agora ainda mais.
Para já voltemos a  [“2046“].

2046_03 2046_36

Lembram-se da famosa cena romântica de Blade Runner em que Rick Deckard seduz a Rachel ao som do icónico tema de saxofone composto por Vangelis ?
Pois bem, em [“2046“] é como se o realizador Wong Kar Wai tivesse pegado nesse ambiente que em Blade Runner dura pouco mais de cinco minutos para criar um filme de duas horas com o mesmo estilo de atmosfera romântica; onde não só as imagens importam mas principalmente a música é absolutamente essencial para traduzir em emoções um argumento que não precisa de diálogos para ser intensamente poético.

2046_56 2046_13

Mas afinal,  [“2046“] é uma “sequela” para “In The Mood For Love” porquê ?
É muito simples…Tal como em “Days of Being Wild” conhecemos a juventude da personagem interpretada pela actriz Maggie Cheung tanto nesse filme como depois mais tarde em “In The Mood For Love“, também agora aqui em  [“2046“], ficamos a saber de que forma foi afectada a vida do personagem interpretado por Tony Leung após ter encontrado o amor da sua vida nesse “segundo” filme.
Em  [“2046“] ele é um novo homem; passaram-se alguns anos desde “In The Mood For Love“, estamos a meio dos anos 60 em Hong-Kong e longe vão os tempos do jornalista tímido e recatado completamente apaixonado por alguém que sabia nunca poder vir a ter nos seus braços.

2046_50 2046_07

Agora toda a sua vida não passa de uma sucessão de mulheres, casas de alterne, casinos e clubes nocturnos por onde ele se cruza com outras almas tão perdidas quanto a dele, vivendo a vida e a noite ao sabor da saudade, da recordação de amores perdidos e da constante procura desse amor antigo sempre numa nova pessoa errada.
Uma constante solidão colectiva que Wong Kar Wai filma como ninguém e faz deste filme uma experiência cinematográfica inesquecível para todos aqueles que já gostavam de “In The Mood For Love” e querem voltar a encontrar aqueles dois personagens.

2046_17 2046_08

Só que desta vez, Maggie Cheung, já não está presente.
Apenas a sua breve imagem aparece quase como um sonho que percorre alma do personagem de Tony Leung acentuando a eterna saudade que o move por todo este filme e o leva a escrever um conto de ficção-cientifica que na realidade é o espelho do que ele sente mas nunca demonstra a nenhuma das mulheres que agora em  [“2046“] percorrem a sua vida.
Nesse conto, passado precisamente no ano 2046, a humanidade conseguiu criar cyborgs extremamente avançados que se assemelham a humanos, em tudo menos numa coisa.
São incapazes de reconhecer emoções de uma forma imediata.

2046_25

Nesse ano futuro, cujo a data é precisamente baseada no número do quarto onde em “In The Mood For Love” o personagem interpretado por Leung se encontrava com a mulher da sua vida, um rapaz encontra-se apaixonado por um cyborg feminino ao melhor estilo replicant e essa máquina a pouco e pouco também se vai apercebendo que o ama.
Mas existe um grave problema pois a replicant tem uma característica especial e todas as suas emoções contêm um atraso temporal.
Só várias horas depois de viver um acontecimento é que ela reage emocionalmente a esse momento. Antes não o consegue fazer.

2046_24

O que na história provoca um dilema romântico na sua relação com o jovem humano que não reconhece esse facto e julga que estará a desperdiçar o seu amor numa máquina que jamais será capaz de lhe corresponder desconhecendo no entanto que esta também o ama embora só consiga reagir ao seu amor muitas horas depois quando os dois já não se encontram juntos.

2046_34 2046_37

Quem conhece bem “In The Mood For Love” já está aqui a ver o parelelismo entre o amor platónico da “segunda” parte e esta história que o personagem interpretado por Tony Leung tenta agora metafóricamente passar para o papel como forma de confessar secretamente as suas verdadeiras emoções e confessar a saudade que ainda sente pela personagem de Maggie Cheung tantos anos depois.
Isso leva a que seja agora incapaz de viver um novo amor com as mulheres que o rodeiam; mulheres que o amam agora de verdade mas tal como ele, estão condenadas a viver presas á saudade de um amor que nunca poderá existir.
E basicamente esta é a história de  [“2046“].

2046_05 2046_41

Não esperem um filme de ficção-cientifica com aventura, vilões e perseguições mas sim a continuação de uma inesquecível história de amor vista de uma perspectiva completamente inesperada, atmosférica e muito original.
Wong Kar Wai, filma essencialmente -a saudade- e de que forma esse sentimento pode impedir que um novo amor surja na vida de qualquer pessoa que se mantenha pressa ao passado.
Neste campo, uma nota especial, para os trés novos interesses românticos de Tony Leung. Nomeadamente para as actrizes Bai Ling, Zhang Ziyi (que desta vez não anda envolvida em combates de artes-marciais) e Carina Lau que regressa ao universo desta história.
Todas com interpretações emocionalmente extraordinárias que quase fazem esquecer a ausência de Maggie Cheung embora esta esteja sempre presente no tema da saudade que percorre o filme.

2046_49 2046_23

Carina Lau, inesperadamente retoma aqui a personagem que foi anteriormente o centro de “Days of Being Wild”,  o que liga de forma genial todos os três filmes desta trilogia.
Um trilogia, que segundo o próprio Kar Wai nem se pode considerar oficial pois simplesmente aconteceu e nunca foi minimamente planeada.
E quem conhece o cinema do realizador e a forma como ele trabalha, não tem qualquer dificuldade em acreditar nisto.
A verdade é que o resultado mais uma vez não podia ter sido melhor e Kar Wai voltou a criar um filme romântico completamente original que vale por si próprio embora não seja para todos os públicos.

2046_19

Na verdade não é obrigatório que se conheçam “os filmes anteriores” para poderem apreciar  [“2046“], mas podem ter a certeza que se os conhecerem e principalmente se gostarem deles, esta “terceira parte” ganha nova vida e torna-se um filme ainda mais indispensável para quem gosta de cinema verdadeiramente romântico com muita alma e extraordinária poesia visual.

2046_35

Mas atenção; tal como em relação aos “filmes anteriores”, também  [“2046“] é puro cinema-de-autor ao melhor estilo Art-House.
É muito sofisticado, é certo, mas não é de forma alguma cinema comercial romântico ao estilo de um “The Classic“, por isso pode não ser um filme para todas as audiências.
Mas se gostarem de filmes românticos e quiserem experienciar uma história verdadeiramente única dentro do género, não podem de forma alguma deixar de ver pelo menos “In The Mood For Love” e este  [“2046“].

2046_46 2046_20

Até mesmo quem procura um bom filme de ficção-científica tem aqui uma excelente proposta pois esse segmento em ambiente Blade Runner embora seja relativamente secundário dentro da história é no entanto absolutamente fascinante e a actriz que faz de cyborg é simplesmente perfeita  na composição da replicant que perde o seu primeiro amor porque não consegue demonstrar os seus sentimentos quando seria a altura certa.

2046_29

E claro depois disto, terão obrigatóriamente de querer ver “Days of Being Wild” porque a “primeira parte” tornar-se-á verdadeiramente indispensável.
Mas só a devem ver quando virem a “segunda” e esta “terceira” pelo menos uma vez.
Antes não.
Se já estão completamente confusos tudo está explicado aqui na minha review de [“Days of Being Wild“] originalmente publicada no meu site sobre cinema oriental.

2046_39 2046_52

Se conhecem [“My Blueberry Nights“] ( o primeiro filme ocidental do mesmo realizador protagonizado por Norah Jones e Jude Law ) , se gostaram desse filme e do seu ritmo narrativo lento e hipnótico muito baseado na interacção com a banda-sonora então não tenham medo de arriscar ver  tanto “In The Mood For Love” como  [“2046“], pois o estilo visual é o mesmo, embora “My Blueberry Nights” seja ligeiramente mais comercial.

2046_47 2046_30

Se virem os filmes sem ideias pré-concebidas sobre cinema-de-autor, irão descobrir uma trilogia de filmes românticos únicos e inesquecíveis, que podem divertir não pelas explosões mas sim pelas emoções, especialmente se vocês se identificarem com a alma dos personagens.
E mais uma vez, tal como aconteceu com “In The Mood For Love” depois de verem isto, nunca mais vão deixar de associar Nat-King-Cole ao universo de Wong Kar Wai.

2046_40 2046_31

A maneira como ele usa em [“2046“], “The Christmas Song” cria uma atmosfera nostálgica única e é um verdadeiro mini-videoclip para a emoção dessa canção.
Aliás a banda sonora, como acontece sempre no cinema deste realizador mais uma vez é um personagem á parte dentro do filme, pois a forma como é usada para contar a história é um exemplo perfeito da sua forma única de fazer cinema onde a música é tão indispensável quanto a camera de filmar ou o director de fotografia.

E tal como acontece também no seu filme “My Blueberry Nights“, também em [“2046“], o espectador assiste a toda a história como se fosse a passar e por acaso; como se vislumbrasse sem querer uma cena entre duas pessoas ou ouvisse uma conversa que não deveria ouvir. Esta abordagem é verdadeiramente fascinante criando algumas das mais belas imagens que poderão encontrar no moderno cinema romântico seja de onde for.

2046_51

[“2046“] apesar de já ter alguns anos continua a ser visualmente um filme incrível, tal como “In the Mood for Love” já o era; e uma das minhas grandes referências também quando crio qualquer trabalho de ilustração.
E portanto…

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Excelente filme de autor que ganha uma dimensão extraordinária se conhecerem as histórias de “In The Mood For Love” e “Days of Being Wild“.
Se gostaram do mais recente filme de Wong Kar Wai, “My Blueberry Nights” têm aqui algo de que muito provavelmente irão gostar também.

2046_55

Quanto a mim este é mais um daqueles filmes perfeitos. Embora não seja um filme fácil, todo o seu experimentalismo Art-House recompensa plenamente o espectador pelo romântismo que ilustra e será possivelmente um dos melhores filmes sobre – a Saudade – jamais feitos.
Com uma banda sonora extraordinária e uma fotografia absolutamente perfeita que junto com a fantástica e intimista realização de Wong Kar Wai, elevam este filme a um patamar único dentro do cinema romântico e até mesmo dentro da ficção-científica – menos comercial.

Cinco Tigelas de Noodles e um Gold Award

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg gold-award.jpg

Para conhecerem tudo sobre a trilogia de que este filme (não) faz parte, leiam a minha review de Days of Being Wild

A favor: tudo, poesia, personagens, ambiente, banda sonora, romantismo, fotografia, realização e argumento, a maneira como a música é usada, a estética das imagens, o design de produção, as partes de ficção cientifica intimistas, alguns discretos mas inesperados momentos de humor que equilibram a carga dramática do filme, o trabalho das actrizes é fantástico.

Contra: absolutamente nada ! Embora para muita gente este possa ser um daqueles filmes “pa intelectuais” onde não se passa népia e tudo anda muito devagar sem tiros.

——————————————————————————————————————

TRAILER

COMPRAR DVD – REGIÃO 2 – EDIÇÃO UK
dvd
https://www.amazon.co.uk/gp/product/B0007NBJ00/ref=as_li_tl?ie=UTF8&camp=1634&creative=6738&creativeASIN=B0007NBJ00&linkCode=as2&tag=cinaosolnas00-21

IMDb
http://www.imdb.com/title/tt0212712/

Curta metragem (publicitária) inédita de Wong-Kar-Wai para quem quiser ver mais um trabalho deste autor que não se encontra editado em lado nenhum.
http://www.youtube.com/watch?v=gBsbEopulOM&feature=related

——————————————————————————————————————

E se gostaram deste não vão querer perder

capinha_tears-o-the-black-tiger

——————————————————————————————————————

A Fei zheng chuan (Days of Being Wild) Wong Kar Wai (1991) China


Este é o primeiro filme numa trilogia que por acaso até nem existe.
Confusos ? Pois ainda irão ficar mais porque isto é um bocado dificil de se explicar de uma forma simples.

[“Days of Being Wild“], técnicamente será o primeiro capitulo não oficial de uma história que percorre mais outros dois filmes, “In The Mood for Love” e “2046“.
O mais estranho, é que actualmente, para que vocês consigam apreciar devidamente esta “primeira” parte, convém que já tenham visto os dois filmes “seguintes” pelo menos umas duas vezes de modo a captarem todas as referências que depois poderão reconhecer neste “primeiro” filme.
E vice-versa…
Eu avisei que isto seria confuso.
[“Days of Being Wild“], é como o epílogo de um livro que na verade narra a “primeira” parte de uma longa história de amor que acabamos de conhecer.
Por isso antes que vejam este “capítulo”, devem começar pelo “In The Mood for Love” (que é a “segunda” parte) e depois “2046” que é a  “terceira” e funciona como conclusão para todo o arco da história.
Parece estranho não é ?

Pois parece, mas esta é definitivamente a ordem pela qual esta complexa história de amor e saudade deve ser vista.
Por exemplo, se vocês virem “2046” sem conhecerem os “capítulos anteriores”, podem apreciar na mesma o filme e até compreende-lo perfeitamente, mas não estarão a acompanhar esta história na sua plenitude, porque nunca irão notar a incrível quantidade de pormenores que o ligam directamente aos outros filmes “anteriores” e dão um novo sentido a essa “terceira” parte.
Particularmente, um sentido ainda muito mais romântico, porque depois de verem os “capitulos” anteriores vão reconhecer em “2046” pequenos detalhes que completam e enriquecem de uma forma espantosa inúmeras coisas que “ficam em aberto” tanto em “In The Mood for Love” como neste [“Days of Being Wild“].
Mas isto só funcionará se primeiro começarem por ver ou o meio da história em “In The Mood For Love” ou o final em “2046“.
Vejam [“Days of Being Wild“] e se já conhecerem “2046“, da próxima vez que reverem essa “terceira” parte vão descobrir um “2046” completamente novo.

E antes que vocês fiquem mais confusos, o primeiro filme por onde devem começar a ver esta história é o “segundo”, o mágnifico “In The Mood for Love“.
No entanto que isto não os impeça de continuar agora a ler esta review de [“Days of Being Wild“].
Sim, porque isto pode não parecer mas é de [“Days of Being Wild“], que ainda trata este texto.
Acho que preciso de uma aspirina.

E perguntam vocês com copos de comprimidos na mão, – mas porque raio é que eu devo começar a ver isto fora de ordem cronológica ?
Porque a grande magia desta(s) história(s) está não na sua sequência cronológica de acontecimentos, mas em descobrirmos filmes completamentes novos da segunda vez que vemos os capítulos que se seguem a [“Days of Being Wild“],  nesta “trilogia”.
Depois de conhecerem o final das histórias, o verdadeiro prazer cinematográfico está em regressarem ás origens de tudo e descobrirem coisas que lhes renova por completo as “sequelas” da próxima vez que as virem.
Acreditem-me que irão apreciar muito mais esta história assim desta maneira, pois a sua grande magia está na forma como este formato de argumento estilo puzzle nos faz descobrir pormenores que depois tapam todas as “imprecisões” que encontramos nas narrativas de “In The Mood for Love” e “2046” quando os vimos enquanto filmes isolados. É como uma caça ao tesouro cinematográfica interactiva.
E não há dúvida que isto funciona perfeitamente, o que torna estas obras em algo muito surpreendente, especialmente se pensarmos que segundo Wong Kar Wai nenhum dos filmes tinha sido pensado como sequela do que quer que fosse.
O que para aqueles que estão a par da maneira como Kar Wai escreve e filma as suas obras não é nada de espantar, pois ele é conhecido por fazer filmes sem sequer ter argumento e ir inventado á medida que filma.
Ainda está alguém aí ?

Certamente a esta altura os que ainda me leêm gostavam de saber sobre o que trata este [“Days of Being Wild“].
Bem…para explicar isto tenho de voltar a “In The Mood for Love“e a “2046“.
Basicamente [“Days of Being Wild“], retrata a juventude da personagem que a actriz Maggie Cheung interpreta em “In The Mood for Love“. Ficamos a saber como era a vida dela na sua terra natal antes de conhecer o marido, (aquele que a atraiçoa na “sequela”) e antes de ir viver para o quarto de pensão que habita no “segundo” filme já em Hong-Kong. O seu futuro marido, aqui poderá eventualmente ser o personagem do jovem policia que é uma das histórias românticas desta “primeira” parte.

Conta também a história de amor de outra rapariga, uma baliarina que neste caso é a outra personagem feminina “principal”, (se é que isto existe na obra de Wong Kar Wai).
Esta rapariga iremos mais tarde reencontrar em “2046” e ficar a conhecer o rumo que a sua vida tomou após os acontecimento narrados em [“Days of Being Wild“].
O seu personagem é um excelente exemplo daquilo que refiro a propósito dos filmes ganharem uma nova vida numa segunda visão, pois inicialmente se a virem em “2046” esta personagem aparece quase como apenas mais uma mulher como tantas outras na vida do personagem interpretado por Tony leung nessa “terceira” parte. Mas quando vocês virem [“Days of Being Wild“],  essa mulher em “2046” ganha nova vida  e uma nova conotação trágico-romântica que ilustra ainda mais o tema da saudade de um amor perdido, presente no “terceiro” filme.

O terceiro personagem “principal” em [“Days of Being Wild“], e na verdade o “heroi” do filme é um jovem rebelde ao estilo James Dean versão decadente oriental e que é um dos polos centrais do argumento, envolvendo-se românticamente com a jovem bailarina e dando origem á principal linha narrativa deste “episódio”.

E mais uma vez, também aqui [“Days of Being Wild“], se liga agora com “In The Mood for Love“, pois a tia deste jovem rebelde é a mesma personagem secundária que depois na “sequela” estará a viver em Hong-Kong e alugará um quarto aos personagens de Maggie Cheung e Tony Leung que nesse filme já serão as figuras centrais da história e onde já não existem vestígios aparentes deste primeiro filme no argumento.
No entanto este personagem da tia do jovem rebelde, de [“Days of Being Wild“], nunca se cruza nesta parte com os personagens com que depois irá interagir directamente em “In The Mood for Love“. Apenas habitam o mesmo filme como se vivessem num mundo normal e só os espectadores soubessem depois que os seus destinos se iriam cruzar no futuro.
Por causa disso, ao vermos o “In The Mood for Love“, conhecendo o personagem da tia, ficamos a perceber melhor a razões da sua melancolia “sem explicação”.
Simples não é ? 🙂

Mas se querem uma coisa realmente estranha neste filme, então podem encontrá-la no seu final.
E não se preocupem, pois isto nem sequer é um *spoiler*.
Os últimos minutos de [“Days of Being Wild“], não têm absolutamente nada a ver com o que se passa durante o resto do filme todo e subitamente surge no ecrã o personagem interpretado por Tony Leung em “In The Mood for Love” (?) a vestir-se num quarto de hotel obscuro sem nenhuma razão aparente e o filme acaba assim sem sequer concluir qualquer outra das histórias que supostamente tinha iniciado.

Isto sem razão absolutamente nenhuma para o actor sequer entrar no filme, ou o personagem da “sequela” lá estar, pois [“Days of Being Wild“], foi filmado pelo menos 10 anos antes de “In The Mood for Love” sequer ter sido pensado e muito menos o “2046” e como tal a coisa ainda fica mais estranha, embora Kar Wai também seja conhecido por introduzir coisas em filmes presentes que eventualmente depois poderá aproveitar no futuro.
Também filma sempre mais do que precisa pelos mesmos motivos e muitas das vezes como se queixou Maggie Cheung durante os mais de dois anos de filmagens de “In The Mood for Love“, Kar Wai, filma coisas que nem sequer pertencem ao filme ou a qualquer outro que já tenha pensado. Sempre com aquela ideia de ter algo que sirva para ser eventualmente usado no futuro, pois é esse o seu genial método criativo que até agora só deu excelentes resultados com obras intensamente românticas.

Se isto não é uma forma original de contar várias histórias de amor ao mesmo tempo, não sei o que será. Por tudo isto, o melhor é começarem a acompanhar estes personagens pelo “segundo” capítulo, pois garanto-vos que apanharão muito melhor as emoções de toda a história se depois forem descobrindo aos poucos as histórias por detrás de tudo quando voltarem ás origens.
Começar a acompanhar estas histórias românticas pelo início seria o mesmo que ver os Star Wars a começar pelos novos Episode I,II e III, pois a revelação de que Darth Vader é o pai de Luke Skywalker no Império-Contra-Ataca perderia todo o impacto drámatico e deixaria de ser uma surpresa para quem não conhece a história.
E não se preocupem, isto parece mais confuso do que na realidade é.

O problema é que como habitualmente os filmes de Wong Kar Wai não são para ser contados, mas sim para serem vistos e acima de tudo sentidos. Ninguém conta “histórias sobre nada” como Kar Wai o faz e apesar de [“Days of Being Wild“], não ser de forma nenhuma o seu melhor filme é no entanto obrigatório para quem já viu “In The Mood for Love” e “2046“.
Tenham em atenção que o estilo visual deste “primeiro” episódio ainda pertence á fase inicial do realizador e como tal não tem aquela aura refinada e muito trabalhada visualmente que os filmes actuais dele têm. [“Days of Being Wild“], é quase um Won Kar Wai estilo cinema amador experimental onde se sente que o realizador está ainda a aprender a ser aquilo que hoje em dia é.
Para quem não sabe, Wong Kar Wai não vem de qualquer escola de cinema, ou tem qualquer estudo na area. Kar Wai começou como desenhador gráfico a trabalhar numa banal empresa do ramo e tal como Peter Jackson, por acaso diverti-se a a fazer uns filmes “caseiros” com os amigos nos seus tempos livres, tendo conhecido nesse percurso a (agora) actriz Maggie Cheung que na altura trabalhava como caixa num hipermercado e a partir da sua colaboração e amizade fez-se história no cinema oriental.
[“Days of Being Wild“], é um bom exemplo da colaboração inicial dos dois, embora não seja propriamente o primeiro filme do autor.

Como tal, apesar do actual estilo narrativo Kar Wai já se fazer notar, [“Days of Being Wild“], ainda segue aquela estrutura muito fragmentada e crua, tornando este “episódio” mais um objecto de Art-House, (vulgo, Cinema-de-Autor) do que própriamente será um produto cinematográfico acessível aos gostos do publico que procure algo mais comercial no estilo romântico de por exemplo “The Classic“.
Apesar de alguns momentos bastante poéticos, [“Days of Being Wild“], não contêm aquela atmosfera romântica constante de “”In The Mood for Love“, “2046” e “My Blueberry Nights“, sendo essencialmente uma obra fria devido á crueza das imagens e ao próprio low-budget do filme que se nota perfeitamente.
Embora já conte com aquela ligação extraordinária entre imagem e música que hoje é habitual na obra do realizador, mas tudo ainda a um nível bastante mais rudimentar e experimental.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Se virem, [“Days of Being Wild“], sem conhecerem “In The Mood for Love” e “2046“, este poderá parecer-lhes um filme demasiado pretencioso e artístico no pior dos sentidos se estiverem á procura de um produto comercial.
Aliás, este é um daqueles filmes mesmo sem sentido absolutamente nenhum á primeira vista, sem história e sem conclusão.
Um Art-House no pleno sentido da expressão e não se pode propriamente considerar um filme para o circuíto comercial.
Além disso as cópias que existem têm não só um som muito mediano, como ainda por cima a imagem não é nada famosa, reflectindo plenamente a falta de orçamento do filme.
Portanto, se procuram uma típica história romântica mais comercial no melhor estilo oriental, não a irão encontrar aqui se esperam algo mais directo e imediato. Para isso vejam “Be With You“, “The Classic” ou “My Sassy Girl“.
Agora, se gostaram mesmo de “In The Mood for Love” e “2046” este [“Days of Being Wild“],  é não só de visão obrigatória como uma compra essencial que não só completa emocionalmente os dois filmes “seguintes” como é um excelente exemplo do cinema mais antigo de Wong Kar Wai.
Mesmo visto isoladamente é um excelente filme de autor, que embora apesar de frio, contém em alguns momentos suficientemente poéticos para dar vida ao lado romântico da história e onde se nota já aquilo que depois se viria a tornar no melhor das obras futuras de Kar Wai e que actualmente culminou no fabuloso “My Blueberry Nights“.
Um óptimo filme de autor para quem não tiver medo do género e por isso leva trés tigelas e meia de noodles.
Não leva mais porque comparado com fabulosas “sequelas” na minha opinião ainda se nota que não é um trabalho plenamente conseguido.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2emeia.jpg

A favor: a atmosfera, os momentos românticos, a fabulosa enorme sequência filmada num só take a meio do filme, a maneira como a música é usada para ilustrar as emoções da história, ficamos a conhecer o passado dos personagens de “In The Mood for Love” e “2046“.
Contra: pode ser um filme demasiado ilógico para muita gente pois é cinema de autor puro.

——————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

Trailers
Sugiro que vejam os dois, pois dão uma boa ideia do estilo Art-House do filme.
http://www.youtube.com/watch?v=btsJHsuqF24
http://www.youtube.com/watch?v=IBhxLPNdG4o

Comprar
Á venda na Amazon Uk a um preço excelente. É de aproveitar.

Outras reviews
http://www.kfccinema.com/reviews/drama/daysbeingwild/daysbeingwild.html

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0101258/

——————————————————————————————————————

Se gostou deste vai gostar certamente dos seguintes filmes abaixo.
Aliás, mesmo que não tenha gostado deste  vai gostar dos filmes abaixo.

——————————————————————————————————————