“Busanhaeng” (“Train To Busan”) Sang-ho Yeon (2016) Coreia do Sul


O que se pode dizer de mais um filme de zombies que ainda não tenha sido dito sobre o género ?…
Bem para começar, [“TRAIN TO BUSAN”] terá sido o primeiro filme com mortos-vivos a sair de Cannes com uma reputação melhor do que a que tinha quando chegou ao festival e agora que Hollywood vai fazer um remake disto; ( para quê ?!!! ), recomendo vivamente que o procurem e vejam-no quanto antes.
E sim, é tão bom quanto parece no trailer.
Aliás, é melhor.

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É verdade, o que se pode dizer de mais um filme de zombies que ainda não tenha sido dito sobre o género ?…
Bem sobre [“TRAIN TO BUSAN”] pode dizer-se que não tem um pingo de originalidade no conceito, pois obviamente que todos nós já vimos isto milhões de vezes antes mas conta logo á partida com uma coisa que o cinema oriental sabe fazer muito bem e que o difere de todos os plásticos que Hollywood poderá produzir quando aparecer o inevitável remake
[“TRAIN TO BUSAN”] tem personagens verdadeiramente cativantes.

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Como habitualmente no cinema oriental, nem o caos de uma história como esta, nem o monte de efeitos especiais que isto mete faz com que a pirotecnia se sobreponha aquilo que importa. Os personagens.
Contrariamente ao que acontece normalmente no cinema espectáculo de Hollywood onde os bonecos estão lá apenas para enquadrar as cenas de porrada, efeitos e acção, em [“TRAIN TO BUSAN”] são as cenas de porrada, os efeitos e a acção que enquadram um grupo de pessoas.
Pessoas com que começamos por nem ter grande empatia, mas que sabe-se lá como a meio do filme já estamos realmente a torcer pelas suas histórias pessoais.
Em alguns momentos isto faz lembrar inclusivamente outro grande filme de monstros Sul Coreano, o excelente “THE HOST” de que já falei por aqui há alguns anos.

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[“TRAIN TO BUSAN”] não tem absolutamente nada de original a não ser o facto de ser cinema puramente oriental precisamente na forma como consegue humanizar cada uma daquelas pessoas que acompanhamos e talvez tenha sido por isso que causou tanto impacto em Cannes, pois o público ocidental não está habituado a acompanhar personagens bem construídos neste tipo de cinema saído de Hollywood e por isso terá ficado bastante surpreendido.
[“TRAIN TO BUSAN”] é um daqueles filmes que quando acaba nos deixa completamente exaustos psicológicamente e mais do que torcermos pelos heróis da história , torcemos pela história daquelas pessoas que a meio do filme esquecemos por completo que são ficção.

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Estranhamente [“TRAIN TO BUSAN”] irá agradar até a quem se calhar não gosta de filmes com zombies, especialmente se essas pessoas tiverem visto e adorado outro filme Sul Coreano fabuloso, o drama “HOPE”. Quem gostou de “HOPE” irá gostar deste; apenas este mete mortos vivos pelo meio.
Á primeira vista podem não ter nada a ver mas [“TRAIN TO BUSAN”] cria exactamente o mesmo tipo de empatia que aquela outra história também sobre pai e filha conseguiu criar em toda a gente que apanhou com ela de surpresa quando saiu e a tornou já no filme de culto oriental que é.
Portanto meus amigos, mesmo que os mortos vivos não sejam a vossa coisa favorita, se calhar eu espreitava quanto antes [“TRAIN TO BUSAN”].
Especialmente antes de Hollywood vomitar cá para fora mais um remake atroz de outro filme oriental e os trailers gringos lhes estragarem o suspense todo.
Não percam [“TRAIN TO BUSAN”] enquanto este ainda é único.

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Consta que este filme já se tornou no maior êxito comercial de todos os tempos por aquelas bandas da Coreia do Sul o que só demonstra que para algo assim ter acontecido, [“TRAIN TO BUSAN”] tem mesmo que ter muito mais conteúdo e conseguir criar mais empatia do que se apenas fosse o típico filme de zombies em que toda a gente passa o tempo todo a correr de mortos vivos.
E mais uma vez, [“TRAIN TO BUSAN”] não tem nada de original. 
A sua originalidade está na empatia que cria pois ficamos mesmo a gostar dos personagens.

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[“TRAIN TO BUSAN”] é capaz de ter sido dos filmes com mais adrenalina que vi pelo menos nos últimos dois anos dentro de um certo tipo de thriller.
É o tipo de filme que nos deixa a tremer por todos os lados com cada situação que apresenta. Não só pela forma como a montagem cria uma sensação de claustrofobia fantástica mesmo em espaços abertos como principalmente na forma variada como apresenta e inventa situações de nos fazer roer o sofá de uma ponta á outra pois nunca temos bem a certeza se alguém irá morrer a seguir.

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Até porque depois [“TRAIN TO BUSAN”] também não é propriamente politicamente correcto.
Aposto tudo o que vocês quiserem em como Hollywood quando refizer isto, irá sem qualquer sombra de dúvida mudar o final, porque os americanos não irão aguentar o contexto dramático verdadeiramente intenso desta história e que mais uma vez a distingue do habitual.

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[“TRAIN TO BUSAN”] é um excelente cruzamento entre, a adrenalina de “SNOWPIERCER” ou de “THE TERROR LIVE“, o contexto de “THE HOST” ( curiosamente ambos do mesmo realizador ), o suspense de “MIDNIGHT FM” , a tensão de “FLU” e a empatia de “HOPE”; apenas mete mortos vivos á mistura.
Se gostaram de qualquer um dos filmes que mencionei atrás, irão gostar de [“TRAIN TO BUSAN”] porque tal como em todos esses filmes também o espectador nunca tem bem a certeza do que irá ver a seguir.
É essa a grande mais valia de [“TRAIN TO BUSAN”].
Numa história já vista mil vezes consegue ser imprevisível em muitos aspectos, especialmente a nível de destino de personagens.
Não se livra dos clichés é certo, mas esses vêem inevitavelmente por arrasto com a fórmula deste tipo de filmes com mortos vivos e se fossem evitados [“TRAIN TO BUSAN”] já não seria um verdadeiro filme de zombies.

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Tal como aconteceu quando o muito intenso “28 Days Later” de Danny Boyle estreou anos atrás, irá haver gente que acusará [“TRAIN TO BUSAN”] de não ser um verdadeiro filme de mortos vivos porque também aqui estes mortos correm como o raio e não andam feitos estúpidos em modo … ehm, zombie em câmera lenta pelos cenários.
Estes mortos estão muito vivos, extremamente activos e incrivelmente raivosos o que dá a [“TRAIN TO BUSAN”] uma adrenalina raramente encontrada no género.

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Não só a realização é fantástica pois todo o ritmo narrativo está excepcionalmente bem cozinhado para nos ir perturbando apenas quanto baste antes de nos jogar com baldes de adrenalina em cima, como [“TRAIN TO BUSAN”] nem precisa de pregar sustos com SOM ALTO para meter medo.
Aliás, este filme não recorre a nenhum desses truques baratos, porque nem precisa.
A meio da história já estamos tão arrepiados com o sobe e desce dos níveis de adrenalina que qualquer coisa nos assusta.
Nem o filme precisa de ser particularmente gore embora não fuja dele.

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Curiosamente [“TRAIN TO BUSAN”] não é mesmo muito gore.
Consegue assustar e meter impressão sem precisar de meter propriamente nojo e por isso nunca abusa dos efeitos prostéticos ao contrário do que costumamos ver neste tipo de cinema hoje em dia.
 Não precisa.
[“TRAIN TO BUSAN”] tem uma coisa diferente. Não sei se terão contratado contorcionistas para alguns papeis de zombies mas a expressão corporal destes mortos vivos é não só completamente original como extraordinariamente expressiva.
Muitos deles arrepiam-nos só com os movimentos que fazem.
[“TRAIN TO BUSAN”] tem definitivamente uma das melhores coreografias no que toca a movimento de multidões que vi ultimamente neste tipo de cinema.

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É também o filme perfeito para quem ficou muito decepcionado com aquele vazio chamado “World War – Z” ( talvez uma das piores adaptações de um bom livro de sempre também ).
Brad Pitt não entra nisto, nem precisa.
Um bom filme de mortos vivos só precisa de criatividade nas situações e de saber como provocar grande adrenalina no espectador. Nesse campo mais do que meter medo [“TRAIN TO BUSAN”] mete-nos os nervos em franja até mais com o que imaginamos do que com aquilo que vemos e essa subjectividade é aquilo que fará sempre um bom filme de terror.

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CLASSIFICAÇÃO

[“TRAIN TO BUSAN”] é obrigatório se gostam de filmes com zombies.
Já viram isto mil vezes mas se calhar ainda tem muita coisa que não viram.
Se para vocês o cinema de terror tem que ter mais coisas para mostrar do que apenas coisas que metem medo então vão adorar a empatia que cria com os personagens ao melhor estilo que só o cinema oriental é capaz de nos dar.

Cinco Tigelas de Noodles e um Gold Award


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Pode não ser um daqueles filmes para rever muitas vezes, pode já nem ter suspense á segunda vez que o virmos, mas da primeira é uma verdadeira montanha-russa emocional e de adrenalina que diverte do princípio ao fim e não precisa mais do que isso para ser excelente.

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A Favor: a adrenalina que provoca, o suspense, não é politicamente correcto, as cenas de acção, a humanização dos personagens, a criancinha actriz é fantástica, intercala de forma excelente o drama com o thriller de zombies.

Contra: já viram isto mil vezes em termos de conceito. Vai ter remake americano sabe-se lá para quê…

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILER

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Está em pre-order na amazon uk. Sai em bluray no mês de Fevereiro.
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IMDb

http://www.imdb.com/title/tt5700672

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E se gostaram deste não vão querer perder:
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Midnight FM (Simya-ui FM) Sang Man Kim (2010) Coreia do Sul


Este deve ser um dos meus thrillers favoritos dos últimos tempos e curiosamente não faz mais do que aquilo que é costume vermos na habitual história com psicopatas.
Então porque é que [“Midnight FM“] resulta tão bem ?

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A começar, pela simplicidade. Parte de um conceito tão simples como o facto de um psicopata obcecado por um programa de rádio, resolver invadir a casa da locutora e fazer reféns todos os seus familiares, ameaçando-os de morte caso a protagonista não conduzir a emissão da forma que este acha que deve ir para o ar.

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Conceito aparentemente simples, mas na verdade muito bem trabalhado, pois [“Midnight FM“] sem atirar nada à cara do espectador, nem tentar sequer ser um thriller politico acaba pelo meio de todo o seu suspense, por introduzir muitos temas pertinentes e tal como aconteceu em “The Terror Live” fazer também um excelente estudo sobre o poder dos media para influenciar tudo em redor; não sendo estranho o personagem do psicopata ser influenciado pelo filme Taxi Driver.

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Aliás tudo em [“Midnight FM“]  funciona em redor do filme de Martin Scorcese com Robert De Niro e é também aqui que este argumento brilha, pois a história avança na forma como faz constantes referências a esse clássico e se mantem em paralelo com Taxi Driver na forma como usa esse título para dar vida também agora a mais este psicopata urbano fascinado com o poder da radio.

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Se olharmos para a história e para a estrutura de [“Midnight FM“], à primeira vista isto não pedia mais do que ser a habitual aventura de suspense em estilo Hollywood e onde o que importaria seriam apenas mesmo as cenas de acção e pouco mais. Acontece que aqui a coisa vai um pouco mais além. O filme conta com algumas sequências de acção excelentes mas nunca esquece que por detrás de tudo estão bons personagens e é precisamente aqui que mais uma vez o cinema sul coreano brilha.

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Não só os protagonistas são excelentes, como depois todo o seu mundo é suportado por um elenco de secundários que são absolutamente importantes para o desenrolar da história num argumento onde não existem personagens supérfulos e na verdade nem herois nem vilões. Há sempre uma motivação por detrás de cada acção e por isso todo o suspense resulta, até nas parte mais intensas que poderiam retirar-nos por completo de dentro do filme mas tal nunca acontece.

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A cada minuto que passa ficamos mais agarrados a esta história e se calhar nem deveria ser, pois não vão ver aqui nada que já não tenham visto mil vezes na típica história de raptos e terroristas ameaçando vitimas inocentes. Só que lá está, a fórmula é simples, mas o conteúdo é detalhado e cheio de texturas por explorar, integrando muito bem dentro da acção principal temáticas que acabarão por ficar como tópicos de conversa muito depois do filme acabar.

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[“Midnight FM“] é por isso um thriller pensado ao mílimetro. Nada aparece por acaso, há algumas boas reviravoltas, tem conteúdo muito bem integrado nas cenas de suspanse e ainda consegue dar-nos um par de cenas porrada com muita adrenalina para compor o conjunto final. E por falar em final, este filme consegue expandir o final, por vários momentos e esticar o suspense até quase ao último segundo culminando tudo num desenlace perfeito para esta história.

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Não há muito mais que eu possa dizer sobre isto sem lhes estragar o filme todo, por isso se procuram um thriller de suspense de temática semelhante ao que podem ver em “The Terror Live” mas com uma execução particularmente diferente e que embora mais standart e mainstream não deixa de ser extraordinariamente eficaz, então não percam de todo [“Midnight FM“].

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A realização é fantástica, a montagem é absolutamente perfeita e as interpretações são excelentes por todo o elenco (até das criançinhas). Os personagens não são particularmente simpáticos (num estilo cinematográfico) o que é uma abordagem bastante natural , mas vão ganhando empatia connosco à medida que a história se desenvolve e portanto isto não é um argumento com bonecos estáticos. Toda a gente nesta história, muda, evolui e irão gostar de acompanhar cada um dos personagens envolvidos.

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Se gostam de histórias passadas no mundo da rádio, esta é uma excelente opção que não devem perder. Em alguns momentos fez-me lembrar até “Talk Radio” de Oliver Stone, o que só lhe fica bem pois esse é outro daqueles filmes imperdíveis para quem gosta da temática e em particular se gostam tanto do género da -talk radio- quanto eu, pois devoro inúmeras emissões americanas  enquanto trabalho em ilustração diáriamente.

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CLASSIFICAÇÃO:

Este é outro daqueles filmes que para mim valem a nota máxima.
[“Midnight FM“] na minha opinião tem a particularidade de conseguir desenvolver um argumento detalhado a partir de uma ideia simples. Além disso faz tudo bem para nos deixar a roer cadeiras e almofadas até ao último segundo, sendo portanto uma verdadeira montanha russa do príncipio ao fim sem nunca perder o fôlego um segundo sequer.
Se gostaram de “The Terror Live” têm aqui um excelente complemento numa vertente diferente mas não menos intensa.

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Cinco tigelas de noodles e um Golden Award porque [“Midnight FM“] é outro daqueles que se revê inúmeras vezes e a intensidade nunca se perde pois está carregado de adrenalina.

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A favor: a realização, os actores, o argumento, a montagem, a adrenalina.
Contra: á partida poderá parecer algo que já vimos mil vezes no que toca à história central mas não é por aí que perde pontos de qualquer forma.

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILER


IMDB

http://www.imdb.com/title/tt1825955

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E se gostaram deste não vão querer perder:
Capinha_the terror live 
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Kim Bok-nam salinsageonui jeonmal (Bedevilled) Chul-soo Jang (2010) Coreia do Sul


Quando eu me preparava para ver apenas mais um exploitation movie daqueles bem chungas em que uma tipa limpa com uma foice metade de uma aldeia eis que apanho uma das surpresas do ano no que toca a cinema oriental.

Já conhecia o filme pelo nome há algum tempo, mas nunca tinha visto sequer o trailer ou lido qualquer review sobre ele e portanto parti para [“Bedevilled“] completamente ás escuras, apenas porque não tinha nada de particularmente interessante para ver no momento e apetecia-me ver um filme de porrada e carnificina japonesa para descomprimir e que não me fizesse pensar muito para além de contar o numero de braços decepados ou cabeças rolantes.
Essencialmente estava com vontade de ver uma comédia e não pedia que este filme fosse algo mais do que um grande mau-filme ao pior estilo série-b oriental, pois estava plenamente convencido que o era.

Acontece no entanto que ainda [“Bedevilled“] mal tinha começado e muito para minha surpresa já eu não conseguia tirar os olhos do ecran.
A personagem pricipal dava-me cabo dos nervos, mas os pormenores da história pareciam cada vez mais cativantes a cada cena que passava e  dei por mim a pensar que se calhar este filme era bem capaz de ser bem mais interessante do que parecia á primeira vista.
Quanto mais não fosse porque em meros minutos conseguiu criar logo suspanse de cortar á faca e ainda por cima construiu um personagem com carísma suficiente para deixar qualquer espectador intrigado. Até porque não percebemos bem se gostamos daquela gaja ou não e por isso temos mesmo de continuar a ver.

De repente aquilo que começa quase como um qualquer thriller policial  entra por um registo diferente e o filme muda para um cenário rural que nada parece ter a ver com o que se passou nos primeiros dez minutos e damos por nós a perguntar o que raio vai acontecer a seguir em [“Bedevilled“] e qual será a direção da história. O que é bom.
Há que dizer que apesar de todo o ambiente rural bucólico que nos aparece pela frente, há qualquer coisa na própria realização do filme que aponta para uma atmosfera claustrofóbica. Não só os próprios enquandramentos até nos exteriores parecem sempre algo contidos como logo se percebe na história que a claustrofobia também será psicológica para condizer com tudo o resto e contrastar totalmente com o ambiente rural em estilo mundo perdido onde tudo se passa.

E de um mundo perdido é aquilo que essencialmente [“Bedevilled“] trata no fundo.
Um mundo perdido daqueles que ainda hoje existe em muitas partes do globo terrestre onde os valores conservadores ultra tradicionais e comportamentos morais que quase se podem considerar primitivos, ainda fazem parte do dia-a-dia de muita gente em muitas comunidades rurais isoladas  onde a mulher ainda é vista como uma espécie de gado.

Portanto, se procuram um filme que constroi todo o suspanse com base nos extremos a que a condição humana pode chegar e nos comportamentos que podem ser atribuidos a tradições quase das cavernas, [“Bedevilled“] é o vosso filme.
Na aldeia bucólica vão encontrar de tudo; escravidão, violência doméstica, violações, prostituição, pedófilia, pedófilia com incesto, crueldade social e todo o tipo de violência fisica e psicológica que só os orientais poderiam colocar num filme e ainda por cima fazê-lo de forma convincente, aterradora e completamente cativante no sentido cinematográfico.

Não porque este seja um grande filme, mas porque soube como poucos pegar num argumento que tinha tudo para ser apenas chunga e quase pornográfico na forma como mostra a violência e no entanto dá-nos uma visão humana totalmente inesperada que nos agarra do primeiro ao último segundo.
Nem sequer se pode dizer que será um filme com vilões, pois até o mais desprezivel parolo desta história parece pertencer áquele lugar, o que automáticamente lhe dá logo uma carga dramática humanizada no sentido em que ninguém é caracterizado como uma besta só porque é mau, mas percebe-se que houve ali a intenção de tentar mostrar como pode o isolamento de uma comunidade presa a valores morais completamente afastados do mundo moderno contribuir para criar pessoas para quem a crueldade é apenas a sua forma de vida. Como alguém diz no filme, não há nada de anormal nas pessoas da ilha porque a vida é mesmo assim.
É esta “normalidade” que acaba por ser a coisa mais assustadora deste argumento.

[“Bedevilled“] é um daqueles filmes com um argumento tão bem apresentado que nem nos lembramos que o realizador existe, o que pode criar á partida aquela ideia de que não há nada de especial com esta obra quando no entanto se calhar está aqui uma das suas grandes mais valias.
O realizador “apaga-se” totalmente para deixar as personagens respirar…ou neste caso, violar, gritar, gemer, chorar ou pior ainda,- ignorar- e dar-nos cabos dos nervos a cada segundo de tensão que passa.
Não encontrarão em [“Bedevilled“] um daqueles filmes com imagens inesquéciveis; com excepção talvez da inesperada imagem da ilha que fecha com chave de ouro uma história que foi muito além do que seria de prever e que tem a ver directamente com o enquadramento imediatamente anterior com a actriz protagonista.

Também não encontrarão uma montagem , digamos, “moderna”. Nem sequer nas sequências de gore ou acção que compõem o climax do filme o que o torna ainda mais surpreendente.
Todo o filme é construido com base numa estrutura perfeitamente clássica e sem recurso a grandes inovações estilisticas ou sequer estilizadas e como tal também é um bom antídoto para quem procura um titulo oriental moderno que não tem pretenções a estilo Anime e sabe contar uma história da forma mais tradicional possível sem recorrer a montagens podres de chiques ou designs arrojados em modo gráfico histérico. [“Bedevilled“]  não necessita de nada disso para ser arrepiantemente eficaz e nos dar cabo dos nervos a cada segundo que a sua história avança em direcção ao sangrento desenlace.

Para quem como eu apenas esperava encontrar apenas um banho de sangue e cabeças abertas com uma montagem estilosa em estilo Anime fiquei bastante surpreendido até na forma como o gore e o sangue é usado nos ultimos 40 minutos de filme. Mantendo-se fiel á estrutura do resto do filme até então, também no apocaliptico e totalmente entusiasmante acto final desta história ultra violenta o suspanse é totalmente controlado de uma forma eficaz e [“Bedevilled“] não entra apenas em modo gore com sangue aos litros mas equilibra toda a tensão com a própria carga dramática que foi construindo á volta dos personagens, (muitas vezes até sem o espectador se ter apercebido).

O que não quer dizer que o filme não tenha um genial banho de sangue no final, porque tem. Quem gosta de decapitações com foices vai curtir [“Bedevilled“] até ao último segundo.
No entanto a grande força do filme está não na violência e no acto final, mas principalmente na forma como usa tudo isso para construir personagens excelentes com particular destaque para as duas protagonistas.

A personagem da tipa toda coquete que nos dá cabo dos nervos é a chave do desenvolvimento dramático em todo o filme e o registo contido da própria interpretação da actriz poderá até parecer mais apagado do que o que se torna evidente na outra protagonista que é alvo de todos os abusos ao longo da história, mas ambas têm um trabalho fantástico que equilibra as duas prestações e contribui em muito para que a tensão da história a partir de certa altura chegue a níveis quase insuportáveis.
Se gostam de filmes em que lhes apetece mandar qualquer coisa contra o televisor, não percam este.
Ainda por cima é um daqueles titulos que compensa plenamente o espectador até ao último segundo por ter acompanhado aqueles personagens que ficam na memória.

Curiosamente devido ao seu tom de extrema violência fisica e psicológica, notei que o filme é algo menosprezado em algumas reviews por o considerarem demasiado exagerado no que toca ao que acontece á rapariga que é abusada e maltratada por toda a aldeia. Muita gente parece achar que algo assim seria impossível nos nossos dias.
Apenas como nota curiosa, posso garantir-vos que o tipo de pensamento e o tipo de tratamento social de extrema crueldade pela parte que me toca ainda estava bem vivo bem no interior do meu Portugal há alguns anos atrás.
Por incrivel que vos pareça, a minha mulher há 17 anos a quando de um anterior casamento que a “raptou” literalmente para as brenhas interiores do distrito de Viseu numa aldeia totalmente isolada, passou por situações tão extremas quanto muitas das coisas que poderão ver representadas neste filme e pelo que ela me relatou, só não acabou por ter a mesma reacção que a protagonista de [“Bedevilled“] porque tinha o filho ainda bébé e conseguiu fugir uma noite de volta para o Algarve escondida de tudo e todos, inclusivamente dos familiares do marido que tinham exactamente a mesma forma de pensar que poderão agora encontrar representada nos personagens das velhas senhoras da aldeia deste fabuloso argumento sul-coreano.

Por isso meus amigos, para quem duvida que este tipo de situações e de aldeias apresentadas no filme realmente possam existir, eu garanto-vos que ainda haverá certamente por este Portugal fora, muito local onde os primos casam com as manas e a tias e o cruzamento de genes não ajudará muito á própria evolução cerebral de certos habitantes. Isto aliado a velhas tradições machistas como as que se podem ver neste filme, (entre marido e mulher não se mete a colher/a mulher tem que fazer o que o marido manda / ir ás putas é de homem, a mulher se apanha nos cornos é porque fez alguma coisa errada, etc), de vez em quando dá numa daquelas notícias em que uma mulher se passa e abre uns buracos no marido com a faca de cozinha.
Por isso podem ter a certeza do que lhes digo [“Bedevilled“] não é de todo um filme exagerado. Vão por mim.

Posto isto, o que posso eu dizer mais sobre este fantástico thriller de suspanse sul coreano extremamente intenso ?
Primeiro não parece um thriller de suspanse, mas também não é um drama própriamente dito. Tem momentos mais arrepiantes que muitos filmes de terror daqueles assumidos mas também não será um filme de terror apesar das decapitações e baldes de sangue. Não será uma aventura, mas vocês passarão toda a parte final a torcer pela protagonista.

Não será um filme erótico, mas tem mais sexo do que seria de esperar embora muito violento mesmo; o que me surpreendeu bastante porque não é algo habitual no cinema oriental e em particular do Japão ou Coreia do Sul mais mainstream.
Aliás, não me lembro de ter visto até agora um filme com uma tensão sexual tão grande quando a que está presente em [“Bedevilled“] e isto de várias formas que os irá deixar em tensão total. Eu disse, tensão.

Não só as cenas de sexo pela sua violência quase que nos parecem explicitas como depois há uma carga dramática envolvendo uma espécie de história de amor lésbica não assumida ao longo de alguns momentos chave nas caracterizações das personagens principais. E isto para nem falar na tensão á volta da pedófilia que está absolutamente arrepiante, pois também aqui mais uma vez o realizador parece que nem lá está e deixa a situação falar por si.

Fiquei muito surpreendido com [“Bedevilled“] e não estava nada á espera disto.
Não será um filme a rever tão cedo, embora continue a não me sair da memória e já o vi há dias atrás; nem será se calhar uma obra prima do cinema ou particularmente um grande filme. Por outro lado se calhar até é.
A verdade é que não lhe consigo apontar qualquer falha relevante pois tudo o que faz, faz muito bem e acima de tudo mantem o espectador agarrado do primeiro ao último minuto com personagens excelentes e uma tensão constante que culmina num final inesquecível, onde ainda há espaço para pequenos pormenores e um par de twists inesperados no epílogo fechando tudo da melhor maneira possível.

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CLASSIFICAÇÃO:

Já disse tudo no texto acima, mas basta só realçar mais uma vez que isto foi a surpresa do ano pois não estava nada á espera que me saísse um filme assim.
Um filme completamente inclassificavel que passa por vários géneros e mistura-os de uma forma fantástica criando uma história cheia de personagens memoráveis com um desempenho extraordinário por parte das protagonistas, nomeadamente a rapariga que é maltratada pela comunidade. O argumento é excelente na forma como liga todos os pormenores invisiveis do filme e como nunca deixa o espectador respirar um segundo , mesmo isto sendo um filme relativamente calmo que não agradará de todo a quem estiver á espera de um filme de terror com psicopatas ou apenas á procura de uns baldes de sangue.
Um grande filme mais pela sua eficácia do que propriamente por ficar na memória cinéfilamente falando.
Fantástico e totalmente recomendado a quem quiser ver um filme de vingança inesquecível e cheio de carísma com sexo e sangue quanto baste. O cinema Sul Coreano continua vivo e de boa saúde até quando não faz filmes de amor fofinhos.
Só quero ver os americanos terem coragem para fazer um remake disto !
Cinco tigelas de noodles e um golden award porque vai deixá-los – on the edge of your seats – garanto-vos.

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A favor: a originalidade da estrutura da história, a frieza e a coragem de se escrever uma história assim, os personagens e as incriveis interpretações especialmente da actriz principal, a tensão sexual da história, a forma como se move entre géneros sempre de forma coerente, a tensão de roer as unhas a cada minuto que passa, os ultimos 40 minutos são fantasticos, montes de sangue também, optimo final, o realizador apaga-se e deixa a história falar por si.
Contra: pode ser demasiado calmo para quem procura um thriller ou um filme de terror apenas.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
NOTA: NÃO VEJAM O TRAILER ANTES DE VEREM O FILME.
*Contem SPOILERS* que nunca mais acabam !
http://www.youtube.com/watch?v=eBq0SLWNF-E&feature=related

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Em Bluray ou então em DVD baratinhos na amazon.uk

Download aqui com legendas em PT/Br

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1646959

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Se gostou, poderá gostar de:

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Kokuhaku (Confessions) Tetsuya Nakashima (2010) Japão


Num par de reviews algures pela net alguém disse que assistir a [“Confessions“] é como ser atropelado por um Iceberg.
Eu próprio não poderia ter escolhido melhor expressão para classificar o impacto deste filme.

Refere-se também que este é um daqueles filmes que apesar dos prémios e de todo o reconhecimento que está a ter pelo mundo fora, muito certamente continuará a ser totalmente ignorado nos estados unidos e principalmente não se prevê uma distribuição americana tão cedo.
O que quer logo dizer que continuará desconhecido em Portugal porque nunca chegará ás salas “americanizadas” do resto do mundo. Especialmente no nosso país será um daqueles  filmes que estará condenado a aparecer um dia editado em dvd, retalhado em 4:3 e á venda naqueles cestos de promoções de kung-fu que os hipermercados têm por tendência classificar como cinema oriental por altura do Natal e afins.

O que é pena, pois [“Confessions“] é um daqueles filmes que nos faz perceber que afinal se calhar ainda não vimos tudo no que toca a cinema criativo e ainda existem maneiras cativantes e originais de se contar uma história. Especialmente uma história como esta que há partida não pedia mais que uma típica abordagem quase policial até.

Essencialmente [“Confessions“] começa quando uma professora de liceu no último dia de aulas perante a sua turma refere que a sua pequena filha de quatro anos foi encontrada afogada morta há pouco tempo numa piscina. Todos os indícios segundo a policia apontaram para que tudo não tenha passado de um acidente quando a criança caiu na água, mas na verdade a jovem professora tem outra explicação. A sua pequena filha foi assassinada num acto de bullying, os assassinos são precisamente dois alunos da sua própria turma, ela sabe quem eles são, em que carteiras estão sentados e preparou uma vingança inesquecível para fazer pagar bem caro a morte da sua bébé.

Digam lá se isto não é uma ideia fantástica para um filme de suspanse ?
E mais politicamente incorrecta não poderia ser. Se há um filme que jamais seria feito em Hollywood seria este e por isso ainda bem que existe cinema Japonês que mais uma vez marca pontos não só pela audácia como pela própria originalidade como todo o filme está estruturado.

Quem pensa que já tem uma ideia de como a história irá evoluir ,então é porque ainda não viu [“Confessions“].
Quem ainda não viu [“Confessions“] pensa que já viu tudo e não poderá ser surpreendido.
Este filme tem logo muita coisa boa á partida. Muitas vezes o cinema moderno é minimizado pela crítica por questões técnicas , por se parecer mais com um videoclip ou um anúncio publicitário do que com aquilo que é a formula clássica de se filmar e montar um filme.

É verdade que o estilo MTV ou a estética – “comercial de shampoo“- muitas das vezes é a morte de um bom projecto. O que não falta por aí , particularmente saído de Hollywood são videos musicais podres de chiques ou comerciais gigantes disfarçados de cinema mais interessados na estética que vende os produtos cuidadosamente colocados no meio das cenas do que em contar uma história e por isso é bom de repente encontrar pela frente um filme como [“Confessions“].

Estamos perante um trabalho que não só não esconde as suas influências visuais como as sabe usar de uma forma fascinante para criar um clima de tensão ainda mais angustiante do que esperariamos. Isto porque todos nós estamos habituados a ver nos comerciais e videoclips aquelas imagens fantásticamente estilizadas mas estas normalmente estão associadas ao prazer. A algo que nos querem vender ou a uma atmosfera de divertimento ou até sensualidade.
É aqui que [“Confessions“] também brilha.

Como se já não bastasse a história ser fantástica e com uma estrutura labirintica fascinante que os vai colocar a pensar sobre o assunto da violência infantil e a justiça de uma vingança, [“Confessions“] usa uma estética que normalmente associamos a coisas positivas para nos causar ainda mais arrepios na espinha á medida que a história se vai desenrolando e as revelações macabras se vão sucedendo.
Este filme pode inclusivamente ser considerado um filme de terror. Não assusta mas arrepia até á medula e apenas pela forma como desenvolve todos os pormenores referentes a uma das melhores e mais perturbantes vinganças que vi filmadas até hoje.

[“Confessions“] está cheio de imagens absolutamente fascinantes. É um daqueles filmes que apetece fazer pausa de cinco em cinco segundos só para apreciar o cuidado de cada imagem e há aqui milhares de frames que lhes ficarão na memória de certeza absoluta. A sua estética incialmente muito estranha aliada a uma estrutura narrativa ainda mais original poderá parecer-lhes á partida algo muito artificial, mas garanto-vos que quando chegarem ao fim nem se lembram de criticar esta obra por ser mais um daqueles produtos –made in photoshop– que muitas vezes aparecem pelo mercado.

O filme é frio como o raio, mas ao mesmo tempo é gélidamente poético. Está carregado de sequências lindissimas , muitas em slow-motion que os fará por momentos esquecer até a temática arrepiante do argumento. Nota máxima também portanto a nível visual.
[“Confessions“] pela sua estrutura bastante diferente do habitual poderá não ser um filme para todos, pois não deixa de ser automáticamente inserido numa certa categoria de cinema-de-autor pois de outra forma não poderia deixar de ser porque isto é comercial mas ao mesmo tempo é tão diferente que poderá não ser bem assim.

[“Confessions“] é comercial no sentido em que o fabuloso “Magnólia” de Paul Thomas Anderson também o (não) era.
Aliás, se gostaram de “Magnólia” pela forma como entrelaçou a estética, a história e a música não vão mais longe, [“Confessions“] é o vosso filme.
Imaginem um “Magnólia”  sobre psicopatas infantís, misturado com um ambiente gélido próximo de um “Requiem for a Dream” de Darren Aronofsky e uma pitada de “Battle Royale” sem esquecer um cheirinho de cinema de autor próximo do “All About Lily-Chou-Chou” ; e tudo isto cozinhado dá exactamente [“Confessions“] sem tirar nem pôr.

Pode ser um filme complicado de ser seguido para quem está habituado a um estilo mais ocidental, mas experimentem porque certamente a sua história cheia de momentos arrepiantes irá agarrá-los concerteza e duvido que alguma vez vejam um remake americano disto. Muito menos ganhará um Oscar apesar de ser um dos filmes concorrentes por melhor filme estrangeiro.

Tem uma estética fabulosa, uma montagem fragmentada fascinante e interpretações mágnificas onde não se pode sequer destacar ninguém pois desde a personagem da professora até aos jovens assassinos, todos brilham num argumento particularmente dificil com interpretações que os irá surpreender. Se houvesse um prémio para uma interpretação colectiva num filme, se calhar o elenco de [“Confessions“] merecia levar todas as estátuas para casa pois toda a gente está absolutamente perfeita neste filme.

Como nota menos positiva, na minha opinião apenas falha na sequência final onde todo o novelo da intriga vai sendo revelado. Não pela forma como as revelações nos são apresentadas, mas porque penso que é a única altura do filme em que o estilo visual quase que se sobrepõe á substância.
Todo aquele momento deveria ser principalmente sobre a história e o seu climax final mas acaba por ter que competir pela atenção do espectador com o estilo visual pois é nesses últimos dez ou quinze minutos onde o realizador mais abusa da própria artificialidade de uma estética de comercial de TV que na minha opinião deveria ter dado lugar de destaque á história e não ao visual por muito bom que ele continue a ser.

De qualquer forma [“Confessions“] é um filme do caraças que vocês não deverão perder, especialmente se o tema do bullying lhes interessa e alguma vez pensaram no que fariam se um dia tivessem um filho que fosse vitima de agressões por parte de colegas até morrer ás suas mãos. Depois disto, irão ficar a pensar, garanto-vos.
E congelados também.

Curiosamente parece que o realizador disto pregou uma valente surpresa a toda a gente, pois até ter feito este filminho de arrepiar a espinha ele apenas tinha filmado comédias ligeiras naquele estilo parvo ultra histérico muito popular no japão, tendo ficado conhecido graças ao sucesso de “Kamikaze Girls” de que falarei mais tarde neste blog.

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CLASSIFICAÇÃO:

Não será propriamente um filme que andarei a rever muitas vezes e provávelmente não o irei ver novamente tão cedo mas não há dúvida que é um daqueles totalmente imperdível e completamente obrigatório para quem pensa que já não haveria muito mais para dizer sobre bullying  juvenil ou infantil.
Cinco tigelas de noodles e um golden award claro, embora congelados…

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg gold-award.jpg

A favor: a originalidade da estrutura da história, a frieza e a coragem de se escrever uma história assim, os personagens e as incriveis interpretações dos actores, a montagem do filme é fantástica, visualmente tem momentos fabulosos que chegam a ser poéticos, é um filme de terror arrepiante sem o ser, é cinema de autor que não se arma em inteligente.
Contra: pode ser demasiado intimista para quem procura uma história  mais comercial ao estilo ocidental, a sequência final abusa demasiado da estética quando o desenlace da história não precisava desse pormenor para dividir atenções.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
Ignorem este trailer estúpido, pois a sua atmosfera não tem nada , mas nada a ver com o que acontece no filme e não se percebe de todo a razão do trailer de um filme como este ter sido montado assim de uma forma que quase parece uma comédia japonesa hilariante.
http://www.youtube.com/watch?v=Vnws8ZymxME
Se calhar talvez para fazer com que [“Confessions“] se parecesse mais com os habituais filmes ligeiros do realizador que desta vez criou algo totalmente inesperado que não deve ter encaixado bem nos planos do estúdio que porventura esperaria mais do mesmo e levou com este bloco de gelo cinematográfico em cima.

Comprar
http://www.amazon.co.uk/Confessions-DVD-Takako-Matsu/dp/B004KISO60

Podem ir buscá-lo aqui com legendas em PT/Br

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1590089/

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Outros títulos semelhantes em tema e estilo:

   

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Ôdishon (Audition) Takeshi Miike (Japão) 1999


O facto de ir agora falar de  mais um filme que poderá ser classificado de terror é pura coincidência novamente e prometo que dentro em breve coloco aqui novidades dentro do cinema mais romântico. Por outro lado…[“Audition“] não deixa também fazer parte do género…por isso vamos a isto…
Desde que inaugurei o blog há um par de anos que a minha intenção sempre foi a de falar deste filme, mas porque na altura [“Audition“] era por demais falado por todo o lado achei melhor guardar esta sugestão para mais tarde.

O que eu gostava era de ter visto a cara de quem primeiro foi ver [“Audition“]  sem saber absolutamente nada dele !
Eu imagino o choque que devem ter apanhado na altura em que nem sequer o cartaz seria particularmente reconhecivel ou pelo menos passaria ao lado de muita gente.
Por isso agora, é pena que as próprias capas das edições dvd dêem logo a entender que isto não será propriamente um filme fofinho pois este é um daqueles titulos que certamente poderiam provocar ataques cardíacos a muita gente que chegasse até ele totalmente ás escuras.

Quando comprei o dvd muitos anos atrás, fi-lo sem querer saber nada sobre a história e apesar de ter uma ideia de que seria algo perturbante consegui no entanto partir para [“Audition“]  sem saber o que me esperava.
E resultou ! A primeira vez que vi este filme conseguiu dar-me mesmo, mas mesmo cabo dos nervos no melhor dos sentidos enquanto produto de tensão absoluta.
Por isso estou agora aqui a recomendá-lo também, especialmente a todos vós que gostam de emoções fortes.
Façam-me apenas uma coisa.

Se nunca prestaram muita atenção a [“Audition“]  ou não sabem nada dele, continuem assim e por favor nem sequer vejam o trailer.
Aliás, se nunca viram este filme, não sabem nada dele e pretendem vê-lo, então recomendo vivamente que parem de ler este texto neste preciso momento e só voltem cá depois de terem visto esta obra fascinante pois não me responsabilizo pelos *SPOILERS* que poderão vir a seguir.
Se ainda não viram o filme, vão vê-lo e voltem cá mais tarde.

Essencialmente estamos na presença de um titulo com uma estrutura muito interessante.
Começa quase como uma comédia romântica ao melhor estilo oriental e termina de uma forma que só visto mesmo para horror de todos aqueles que têm um coração fraco e pensavam que [“Audition“] seria mais um filme fofinho oriental muito romântico e positivo.

Atenção aos *spoilers* a partir daqui, mas há que contar um bocado desta história para poder dar uma ideia mais precisa daquilo que dá grande força a este filme.
Um produtor viúvo e com um filho pequeno, um par de anos após a sua mulher ter morrido de cancro, é convencido por um amigo a procurar uma nova relação para amenizar a sua solidão e ambos resolvem criar um casting para um projecto fictício apenas com o propósito de conhecer algumas raparigas e encontrar aquela que poderá ser a candidata perfeita a ganhar o coração do senhor.

Tudo isto é apresentado com uma atmosfera muito ligeira onde inclusivamente se inserem momentos de humor com sequências que não destoariam daquilo que se vê no pior dos candidatos aos “Idolos” na televisão e que são realmente divertidas. Nesta altura ainda não sabemos, mas isto é uma verdadeira armadilha á predesposição do espectador para depois Takashi Miike, lhe trocar as voltas mais tarde.

O plano dos dois amigos resulta. Encontram uma rapariga que aparenta ser perfeita para o solitário produtor e a partir daqui [“Audition“] entra por um registo de comédia romântica não muito diferente do que estamos habituados dentro do cinema oriental.
Relação bonita, miuda fofinha quanto baste e tudo parece apontar que estejamos na presença de uma grande história de amor.

Tudo, menos uns interlúdios em por breves momentos se mostra o que se passa na casa da rapariga nas alturas em que está sózinha e que faz com que o espectador comece a ter dúvidas de que [“Audition“] seja própriamente o filme romântico que parecia á primeira vista…
Por outro lado, se isto não é um filme romântico o que raio é que o espectador pensa que poderá acontecer a seguir ?…
É este sentimento que Takashi Miike consegue criar no espectador e que faz com que a partir de certa altura já não consigamos tirar os olhos do ecran.

Por um lado queremos acompanhar a relação romântica dos protagonístas e torcemos para que o viúvo alcance a felicidade pois o senhor é apresentado como sendo uma óptima pessoa, por outro sentimos que há por ali um mistério que precisamos desvendar.
Quando a verdade é revelada já é tarde demais, tanto para o protagonista como para o espectador, ambos apanhados na teia de sedução da cativante miuda oriental e é aqui que o filme resulta.

Pessoalmente eu penso que esta rapariga deve ter tido sérios problemas em conseguir arranjar namorado por muito tempo depois de ter participado neste filme !
Por mais que a gente saiba que isto é ficção, eu consigo imaginar a cara do seu namorado na vida real assim a olhar para ela de lado só no caso de…nunca se sabe…

Se [“Audition“] começa de forma ligeira em tom de comédia romântica e vai aumentando de suspanse pelo meio, quando chega ao final torna-se num filme algo indiscritível.
Não porque mostre até muito, afinal há filmes visualmente mais arrepiantes do que este, mas o facto é que o clima de tensão e suspanse criado pelo realizador é tão elevado que  mais uma vez repito, isto não é um filme apropriado para cardíacos de forma alguma.

E tudo ainda se torna mais arrepiante precisamente porque  Takashi Miike não se esqueceu de nos apresentar o personagem principal como sendo uma pessoa excelente e que não merecia de forma nenhuma o que lhe cai em cima, o que cria automáticamente grande empatia com o público e triplica a tensão sem precisar sequer de recorrer a coisas mais chocantes para nos arrepiar.

O acto final de [“Audition“] é fantástico e não vão conseguir tirar os olhos do ecran torcendo para que tudo acabe bem até ao último segundo.
Curiosamente, até aí, o filme tem uma estrutura que o torna algo lento, quase próximo de um registo de cinema-de-autor , mas usa essa fórmula para ir criando tensão bocadinho a bocadinho sem dar a entender ao espectador que é isso que está a acontecer e portanto quando o caótico capitulo final acontece tudo parece ainda mais arrepiante.

Essencialmente [“Audition“] é um filme fantástico em vários sentidos.
Não é algo que nos apeteça rever muitas vezes, mas é um daqueles perfeitos para mostrar a amigos incautos, especialmente aqueles que nunca ouviram falar do filme.
Ah e se gostam de seringas, vão adorar !

Se quando virem isto andarem durante algum tempo a dizer . “kidikidikidikidikidi !” também não se admirem !
Brrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr !
Depois de [“Audition“] vocês vão desconfiar de todas as miúdas fofinhas na histórias de amor orientais, afinal, a gente sabe lá o que pode acontecer por aquelas bandas…

Só para terem uma ideia, parece que quando isto foi apresentado no Festival de Rotterdam em 2000 teve o maior número record de espectadores que abandonaram a sala antes do filme acabar e na estreia na Suiça um deles teve de sofrer assistência médica pois desmaiou durante a projecção ! Lindo !

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CLASSIFICAÇÃO:
Um dos filmes de suspanse e terror mais eficazes que poderão ver e uma história que arrepia sem precisar de recorrer aos típicos clichés do género para nos assustar. Em vez de um filme sobrenatural , Takashi Miike arrepia-nos com uma “comédia romântica” ao seu estilo e é isso que faz com que vocês nunca tenham visto nada como [“Audition“].
É um daqueles filmes perfeitos para mostrar aos amigos que não suspeitarem de nada (ou para matarem parentes ricos do coração) embora o seu registo algo lento possa afastar muita gente desta obra prima da tensão porque não tem uma estrutura de cinema-pipoca a que estamos habituados no ocidente.
Não desistam e serão recompensados com um final absolutamente inesquecível que os fará olhar de lado para as vossas namoradas durante os próximos dias após isto…afinal, nunca se sabe meus amigos…nunca se sabe…
Cinco tigela de noodles por ser perfeito na sua execução e só não lhe dou mais um Gold Award em cima porque não é um filme que me apeteça muito estar sempre a rever…seria doentio…muito doentio…embora isto para muita gente possa até ser considerado uma comédia…malucos.

A favor: quem não conhece nada sobre o filme irá apanhar a surpresa da sua vida no que toca a histórias românticas orientais, como filme romântico resulta e como filme arrepiante idem, a actriz principal disto nunca mais arranja namorado na vida, contém bons momentos de humor bem colocados na história, a parte final é fantástica e vai fazer-vos roer todas as almofadas do sofá, assusta sem precisar de recorrer a psicopátas com faquinhas ou a temáticas sobrenaturais, mete pedófilia quanto baste e seringas á descrição o que mais vocês querem num filme romântico ?
Contra: tem uma estrutura inicial mais parecida ao que se associa ao cinema-de-autor do que própriamente a um típico filme de terror comercial a que estamos habituados no ocidente e isso poderá afastar muita gente que nem chegará ao capítulo final da história, por outro lado se sofrerem do coração este não é um bom filme para verem sózinhos também, pode ser algo doentio para muito boa gente…

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer – contém *spoilers*
http://www.youtube.com/watch?v=yhsrsWcEspc

Comprar
Está á venda na amazon Uk e US , aqui e aqui.

Download aqui com legendas PT-Br

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0235198/combined

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Filmes semelhantes de que poderá gostar:

A Tale of Two Sisters  Dark Water

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