Wong Ka Yan /Wang jia xin (Wong Ka Yan) Wai-Hang Lau (2015) China


Não parece pelo trailer, mas  [“Wong Ka Yan”] é um filme menos adolescente do que aparenta ser na apresentação. Ou pelo menos não trata os adolescentes como burros.
É verdade que tudo gira à volta de uma paixão adolescente, de uma busca por um amor ideal mas este curioso pequeno filme chinês vai mais além do que se calhar precisaria ter ido para levar o público alvo às salas.

wong-ka-yan-01

[“Wong Ka Yan”] é uma daquelas histórias de amor muito simpáticas e há muito tempo que não via uma história aparentemente tão simples conter tantos pormenores emocionais significativos; os mesmos que se calhar só serão verdadeiramente interiorizados pelo público mais adulto pois a história aborda temas mais maduros sem nunca se fazer notar o seu peso.
Daí [“Wong Ka Yan”] ser um pequeno produto que irá agradar tanto a quem procura uma simples história de amor adolescente como quem admira o cinema romântico oriental pela forma como humaniza personagens e situações a um nível de simplicidade que nunca encontramos nos enlatados pseudo-românticos formuláticos saídos de Hollywood.

wong-ka-yan-02

É precisamente na humanização das pessoas que [“Wong Ka Yan”] brilha enquanto argumento romântico. Parte de uma simples história de amor adolescente para depois contar uma boa mão cheia de pequenas histórias paralelas que dão verdadeira alma aquilo que supostamente seria o centro do filme. Troca-nos as voltas com personagens que supostamente parece que vamos odiar e depois humaniza-os quando o espectador está desprevenido por exemplo. Tudo à volta de uma história central muito simples mas muito bem executada e cheia de carisma.

wong-ka-yan-09

Um dia um rapaz conhece uma rapariga que vende bilhetes num cinema de Hong Kong e apaixona-se por ela. Quando tenta contactá-la novamente descobre que esta já não trabalha no local e a partir daí , o nosso heroi (com a ajuda de uma amiga) entra numa demanda pessoal para tentar reencontrar a sua paixão com todos os meios ao seu dispor.
A rapariga que ele procura chama-se Wong Ka Yan, o que logo dificulta as coisas, pois aparentemente este é um nome comum tanto para raparigas como para rapazes lá pelas bandas de Hong Kong, o que o leva a cruzar-se inevitávelmente com essas pessoas “erradas” e sem querer a sua presença pelos motivos errados, muda as vidas de muita gente pelos motivos certos.

wong-ka-yan-15

O que há partida seria mais uma história de amor adolescente sem chama extremamente aborrecida para o público adulto, ganha vida quando de repente percebemos que a cruzada pessoal do heroi não é mais que um motivo para mostrar como pessoas de todos os estratos sociais com histórias de vida individuais podem ser tocadas e unidas por um acontecimento exterior às suas próprias vidas. [“Wong Ka Yan”] é um filme simpático com muitos momentos bonitos que nos deixa a pensar e nos faz ponderar se também a história pessoal de alguém que não conhecemos ainda algum dia poderá mudar as nossas próprias vidas no momento certo. É um filme sobre encruzilhadas e principalmente sobre o tempo certo para que as coisas aconteçam.

wong-ka-yan-08

[“Wong Ka Yan”] está cheio de personagens fantásticos mas muito simples mesmo.
No entanto, é fascinante como até mesmo aqueles que apenas têm um par de minutoso de tempo de ecran conseguem cativar-nos pela sua personalidade e nunca nos lembramos que por detrás daquelas pessoas estão actores; (inclusivamente grandes actores populares dos tempos aureos do cinema de Hong Kong que (dizem os entendidos) neste filme têm breves cameos).

wong-ka-yan-17

São essas pequenas histórias que depois nos agarram. Temos o senhor do cinema que se tornou porteiro do mesmo, um dia 35 anos atrás só porque também se apaixonou por uma miúda nessa época e espera até hoje que ela regresse para verem mais um filme juntos (um toque de argumento que irá agradar a todos os fãs do Cinema Paradiso), temos a rapariga desencantada com o mundo e que se limita a gerir um restaurante familiar tradicional agora ameaçado pela abertura de um restaurante de luxo mesmo em frente, temos o guitarrista que sonhou ser uma estrela dos Beatles e agora finge-se de estrangeiro para poder cobrar mais dinheiro como professor de guitarra e mais um par de pequenas histórias que serão ligadas quando o jovem heroi do filme se cruza com os seus protagonistas durante a sua própria busca pessoal por um amor sonhado.

wong-ka-yan-03

Mas não se pense que a história principal sai a perder no meio de tanto pormenor secundário interessante; [“Wong Ka Yan”] brilha também porque nos consegue manter agarrados à busca do heroi utilizando um pormenor que nos faz passar todo o filme sem sabermos se desejamos que ele encontre a rapariga por quem está apaixonado, ou não.
Isto porque entre as pessoas que o decidem ajudar na busca, está a outra miuda; também chamada Wong Ka Yan e que imediatamente se apaixona pela preserverança do nosso heroi. [“Wong Ka Yan”] o filme, joga muito bem com essa dinâmica para criar empatia com o espectador. Se por um lado desejamos que o filme acabe bem…por outro lado… a partir de certa altura já não sabemos bem… o que será o filme acabar…bem. Damos por nós sem saber por que lado torcer e nada parece forçado no argumento.

wong-ka-yan-04

Até nos esquecemos que [“Wong Ka Yan”] é apenas uma história. Embora conste que isto foi baseado num popular caso real que aconteceu em Hong Kong precisamente lá pelo início dos anos 90 precisamente o que contribui para dotar este filme de um charme especial que só lhe fica bem.

wong-ka-yan-07

Isto pode parecer um mecanismo de argumento simples já visto várias vezes, mas é aqui que o cinema oriental sabe brilhar. Tudo funciona de uma forma tão natural que nos esquecemos que estamos a ver um filme ou um grupo de actores. Mais uma vez a humanização dos personagens é aquilo que torna outra love story como esta absolutamente cativante. Tem uns pózinhos de Cinema Paradiso e em muitas alturas poderia ser um Anime de Makoto Shinkai pois faz inclusivamente lembrar alguns dos melhores momentos de “5cm per second” não visualmente mas na forma como o argumento está delineado, especialmente lá pelo final da história.

wong-ka-yan-19

Precisamente [“Wong Ka Yan”] para mim só tem um problema. O final.
Não pelo que acontece pois acho que mais uma vez temos um argumento que evita todo o cliché a que estamos habituados a ver no cinema romântico ocidental, mas pela forma como o realizador escolheu filmar e montar a forma como tudo acaba.
Se [“Wong Ka Yan”] tem uma falha, eu por mim concordo com grande parte da crítica que apontou também este pormenor e também acho que “técnicamente” o segmento final deste filme não deveria ter sido resolvido assim. Especialmente porque toda esta história assenta na empatia que o espectador cria com a busca pessoal do heroi e portanto o desenlace da história poderia ter sido abordado de uma forma mais consistente com a empatia que o fime soube criar  quase até ao desenlace quando chega aos minutos finais.

wong-ka-yan-16

Essa “falha” prejudica até o pequeno (e inevitável)twist” presente na história quando algumas pontas soltas se juntam. Isto porque a estrutura do filme parece de repente já não ser a mesma e nós enquanto espectadores sentimos isso, o que nos retira do filme e anula um pouco da empatia que tinhamos sentido até então para com os personagens.

wong-ka-yan-18

Mas não deixem que isto os afaste de [“Wong Ka Yan”].
Se procuram bom cinema romântico oriental este é um título a ver obrigatóriamente. Nunca estará no topo da minha lista de recomendações, mas é uma pequena grande história de amor que vale mesmo a pena verem, especialmente se procuram cinema do género e já viram tudo o que tenho recomendado nos últimos anos.
Curiosamente também, é um filme chinês e não japonês ou sul coreano, o que é de registar. Raramente o cinema chinês produz histórias de amor que ficam na memória quando comparado com a quantidade de titulos fabulosos que existem no cinema do Japão ou da Coreia do Sul e portanto este é um titulo a ver quanto mais não seja para poderem comparar (e se procuram outros titulos românticos chineses bastante especiais, não percam “Love in Space“, “A time to love“,”Fly me to Polaris” entre outros filmes que podem encontrar no meu top de cinema romântico oriental ).

jpeg

[“Wong Ka Yan”] passa-se em 1992 e em 2015 e os dois períodos estão fotografados de forma diferente o que resulta plenamente em termos visuais.
O filme tem uma boa realização, excelente ambiente e cenários  (a ilha onde mora o protagonista) e cada frame está carregado de pormenores que tornam algumas das imagens desta história em verdadeiros quadros urbanos com uma atmosfera muito poética e extremamente nostálgica.
Uma coisa muito curiosa, está no facto de apesar de [“Wong Ka Yan”] contar uma história de adolescentes com personagens supostamente adolescentes, eu ia caindo para o lado quando li que o actor protagonista já tinha na verdade 32 anos de idade quando filmou esta historia no ano passado !! E o restante elenco “adolescente” apesar de parecer bastante novinho também conta com actrizes  muito mais velhas do que aparentam ser nos seus personagens, o que é absolutamente notável pois todos os actores têm em média mais dez anos do que aquilo que aparentam ter no filme.

wong-ka-yan-05

Portanto, como a procura por cinema romântico continua a bater recordes de visitantes neste blog, cá vai mais esta recomendação.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Se chegaram até este blog procurando por boas sugestões de cinema romântico oriental, [“Wong Ka Yan”] é mais um que podem juntar à vossa lista. Não é fabuloso, mas vale a pena. É um filme mais adulto do que aparenta ser, tem uma boa história e vão gostar muito de certos personagens.
Totalmente recomendável, pois é muito bom e um filme muito simpático com bons desempenhos de todo o elenco.

wong-ka-yan-13

Quatro tigelas de noodles, para já, mas aposto que este vai se tornar num daqueles que de vez em quando me vai apetecer rever e por isso não se admirem se a classificação subir futuramente. Há qualquer coisa de especial neste título…

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg

A favor: boa história que une muitas sub-histórias bonitas à volta de algo que prende a atenção, excelentes personagens onde até o mais secundário tem o seu momento, bom trabalho dos actores, boa realização, boa fotografia e é um filme que nos mantém interessados até ao final.
Contra: logo ao inicio nem parece nada de especial nos primeiros minutos, o desenlace final retira-lhe alguns pontos não pelo que acontece mas pela forma como está estruturado pois não recompensa o espectador por ter investido nos personagens durante 90 minutos da forma que deveria ter feito. A banda sonora não tem grande impacto e um filme fofinho neste estilo se fosse japonês ou sul-coreano teria certamente dado mais importância ao envolvimento musical.

—————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS:

TRAILER

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt3911074

——————————————————————————————————————

Outros títulos românticos totalmente recomendados:

 Be With You My Sassy Girl The Classic Il Mare

 capinha_love_in_space Fly me to Polaris capinha_in-the-mood-for-love capinha_midnight-sun

concerto_capinha_73x cyborg_she_capinha_73x capinha_my-girl-and-i

Mais sugestões no meu # TOP DE CINEMA ROMÂNTICO Oriental #

——————————————————————————————————————

Cinema_oriental_no_facebook

 

Baek Ji Young – Sarang Ahn Hae – ( I won´t love) , de novo no Youtube e desta vez com legendagem.


Porque isto da censura chateia-me um bocado se calhar iniciava este pequeno preview da nova fase deste blog, não com um trailer ou uma review de um filme mas sim com algo que muita gente até pensa pertencer a uma banda sonora de uma longa metragem mas que na realidade foi um videoclip criado para o mercado Sul Coreano há um par de anos para ilustrar uma balada romântica ao melhor estilo do cinema orental.

Acontece que este videoclip continua a ser retirado sistemáticamente do ar no Youtube ao longo dos anos.
Volta e meia alguém o coloca de novo, mas não tarda muito até a contagem decrescente começar e este ser removido pelo youtube como já é habitual.
Incialmente consta que o motivo era o facto de ser considerado um video indecente que foi alvo de muitas reclamações (calculo que dos internautas americanos) que parece estarem sempre á espreita de quando este surge no site para o voltarem a “denunciar”…

Mas o que há de tão chocante neste video musical para certas pessoas ? Bem, é uma história de amor entre duas raparigas que horror dos horrores são menores e o video apresenta a história delas como sendo a coisa mais bonita, poética, natural e romântica do mundo. CHOQUE !!!!
Inicialmente parece que alguém se queixou ao Youtube que o video promovia a pedófilia e o amor indencente e por isso o video foi eliminado por ter conteúdo impróprio.
Depois esteve alguns meses sumido e reapareceu novamente para novamente voltar a ser eliminado por novas queixas e isto tem sido assim desde que ele surgiu sempre com queixas americanas.
Entretanto por causa disso, aquilo que já era um dos videos e uma das baladas mais populares no oriente (onde inclusivamente passa na MTV oriental), tornou-se também num video de culto no ocidente, especialmente para quem como eu adora cinema oriental e em particular o bom e original cinema romântico que se faz por aquelas bandas desde o inicio dos anos 90.

Agora surgiu de novo no youtube e desta vez, para desespero de muita gente certamente, agora vem legendado em inglés, por isso agora será contar as semanas até que ele seja retirado do site. A não ser que a malta que se queixa desista de uma vez de o tentar censurar, apenas porque conta uma história de amor adolescente entre duas miúdas, e bem bonita por sinal.
Pessoalmente eu prefiro versão não legendada pois as legendas atrapalham a poesia visual da história e penso que este videoclip deveria ser apreciado por cada um de nós imaginando o próprio argumento, mas de momento temos esta versão que não deixa de ser curiosa pois eu não fazia a minima ideia de qual seria a letra disto.
Curiosamente uma das jovens protagonistas desta visualmente poética história de amor com final triste e nostálgico, suicidou-se alguns meses depois deste video estar completo, precisamente por causa de uma depressão causada por um motivo amoroso segundo constou nas notícias na altura o que ainda torna este video numa história ainda mais emocional.

Acho este videoclip fantástico pela atmosfera, pela história e pelo ambiente totalmente cinemático que leva muita gente continuar a procura de um filme que não existe pois muitas pessoas continuam a pensar que isto partiu de um filme.
Como já sei que irá ser retirado do ar em breve, este post irá ser um daqueles que irão encontrar repetido ao longo do tempo, tanto por aqui como nos meus blogs pois não vou deixar de continuar a divulgá-lo pois na sua simplicidade continua a ser um dos meus “filmes” orientais favoritos por ser quase uma curta metragem cinemáticamente falando. 😉

E é fofinho também. Quase um Anime.

 

Inu to watashi no 10 no yakusoku (10 Promises to my dog) Katsuhide Motoki (2008) Japão


Na minha incessante busca por filme fofinhos de meter vómito ás vezes deparo-me com coisas absolutamente inesperadas, mas nada fazia prever que iria encontrar algo como [“10 Promises to my dog“] quando resolvi entrar em modo masoquista e procurar pelo filme mais piroso que conseguisse encontrar pela frente só porque me apetecia mesmo falar mal de um filme desses.

Na minha incessante busca por filmes fofinhos de meter vómito, segundo as minhas próprias regras habituais inspiradas, no que costuma sair de Hollywood dentro do estilo “passem-me o saco de vómito fachavor” lembrei-me logo de passear pela net a ver se descobria um filme oriental com cães, gatos ou qualquer outra coisa que abanasse a cauda.
Não podia falhar, seria piroseira e banalidade garantida.
Eis que me deparo com o candidato ideal [“10 Promises to my dog“] e quando eu já esfregava as mãos de contente e me preparava para ver algo realmente do piorio, saiu-me por completo o tiro pela culatra e não estava nada á espera disto. Toma que é para aprenderes !

Ainda não tinha passado vinte minutos de filme e já eu sabia que [“10 Promises to my dog“] seria algo bem mais especial do que eu alguma vez teria previsto. Cinquenta minutos depois, já eu tinha feito pausa na minha cópia pirata e ido comprar o dvd na Play-Asia. E porquê ? – perguntam vocês.
Porque este filme recordou-me imediatamente “Be With You” pelo seu estilo incrivelmente simples, estética visual muito semelhante, uma fotografia em tons sépia muito bonita e personagens centrais dentro do mesmo registo low-key mas completamente cativantes com uma humanização que se entranha no espectador sem este dar por isso.

E mais, contrariamente ao esperado [“10 Promises to my dog“] contorna habilmente todas as armadilhas, manipulações emocionais e clichés de que todos vocês estarão á espera mal espreitem a capa do dvd ou o cartaz do filme.
Se isto tivesse sido um filme Disney, o espectador levaria com sucessivas sequências em que o cãozinho se perdia durante minutos a fio, sofria imenso, encontrava pessoa más, chorava para a câmera,etc, etc, etc e no fim encontraria os donos enquanto correria em câmera lenta em direcção a todos nós. The End.

Pois bem, [“10 Promises to my dog“] passa lateralmente por esses lugares comuns nem sequer se demora muito com esses detalhes e muito menos os torna na parte central do argumento.
Ao contrário do que vocês esperam, o cãozinho fofinho não é o centro da história o que parece uma total contradição pois tudo gira á volta da sua presença na vida dos personagens humanos.
Isto é bastante dificil de explicar, mas irão compreender o que quero dizer quando virem o filme e é este pormenor que o torna num produto único dentro deste género de cinema. Eu pela minha parte não estava nada á espera disto.

[“10 Promises to my dog“] é um filme oriental acima de tudo sobre humanos e sobre as escolhas que temos de fazer na vida. Sobre o facto de ás vezes uma decisão tão aparentemente simples como dar ou não atenção a um animal de estimação durante uns minutos poder mudar o rumo da história pessoal de quem um dia decide trazer um cão para casa.
Este é um pequeno grande filme japonês sobre a responsabilidade do que é ter um animal e de que forma essa “banal” decisão nos pode tornar pessoas diferentes.
Se alguma vez tiveram um cão ou pensaram ter um, [“10 Promises to my dog“] é um filme completamente obrigatório pois garanto-vos que lhes fará pensar em coisas que certamente nunca lhes passaram pela cabeça.

A força deste filme oriental, está no facto de conseguir fazer tudo isso sem nunca dar a entender essa intenção. Ao contrário do que é costume neste género de filmes no ocidente, o argumento não nos atira constantemente á cara lições de moral para nos dizer como nos devemos sentir, mas faz-nos pensar em muita coisa, inclusivamente muitos minutos depois das cenas já terem passado.
Não nos obriga a viver – no momento – em que o realizador decide em que agora quer meter toda a plateia a chorar porque o cãozinho está perdido, mas faz-nos pensar muitos minutos depois na importância do que levou certa coisa acontecer, sem nos tentar explicar nada ou demonstrar por A+B porque isso tinha de acontecer.

Essencialmente [“10 Promises to my dog“] é uma história sobre a vida de um cão, não do ponto de vista daquilo que lhe acontece ao longo dos seus anos de vida, mas sim daquilo que a sua presença significou para os seres humanos que o rodearam.
Se existe um bom filme sobre o impacto invisível que cada um de nós pode ter sobre o mundo de outra pessoa sem sequer termos uma consciência disso, este é esse filme.
O cão aqui não é apenas um catalisador para haver duas horas de pelicula com um bando de personagens humanos estilo cartão que mais não fazem na história do que proporcionar motivos para o cão brilhar e fazer chorar as plateias. Esqueçam.

Em [“10 Promises to my dog“] o cão nunca é filmado dessa maneira,mesmo quando por momentos tudo parece que vai descambar no cliché do costume; felizmente logo muito bem contornado pela ligeireza com que o realizador aborda todos aqueles pequenos segmentos que fora do cinema oriental seriam o ponto central da cena e o fulcro de muita chantagem emocional em modo histérico junto do espectador.
[“10 Promises to my dog“] é um filme sobre um cão mas não esquece os personagens humanos e consegue ser tão bem sucedido nesse aspecto que lá para o fim da história, enquanto espectadores já o olhamos mais como outro personagem humano do que própriamente como sendo o animal de estimação da familia.

Isto torna o pequeno “twist” presente no fim da  história em algo que noutro lado poderia parecer forçado, mas que tendo em conta a caracterização do personagem canino ao longo do filme, enquanto espectadores, nem sequer questionamos a legitimidade da pequena surpresa relativa ao ponto de vista do cão e que se nos depara no final com o pai e a filha á entrada da casa. Mais um ponto positivo neste filme que poderia ter sido absolutamente básico e plástico e no entanto surpreende pela positiva pela forma como os pormenores são abordados.

Estava a ver a cena da morte do bicho (sim, o bicho morre) e fiquei absolutamente fascinado pelo facto de a estar a sentir não pelo ponto de vista de ser mais uma cena com a morte de um bichinho, mas porque a senti como se fosse um personagem humano que morre de velhice rodeado na sua cama por todos os que o amam e quanto a mim é neste ponto que acho que [“10 Promises to my dog“] leva logo uma nota alta que o distingue dos restantes filmes com cães fofinhos que já vi ao longo dos anos.
A grande lição a tirar desta história é que nos faz pensar num animal de estimação como um amigo e faz-nos sentir essa sensação sem precisar de um argumento que nos explique em estilo paternalista como nos devemos estar a sentir ao contrário do que é costume assistirmos.
Na verdade se formos a ver muito pouca coisa é explicada neste filme. Apenas sentimos e não questionamos. O que quanto a mim é um bom exemplo do trabalho do realizador que soube como ninguém como gerir esta história.

Como já disse [“10 Promises to my dog“] só aparentemente é uma história sobre um cão. Na sua simplicidade este argumento consegue ainda abordar temas como a solidão, a responsabilidade, o sucesso e a morte e nesse aspecto podem ter a certeza que os fará pensar sobre muita coisa, muito mais do que esperam.
A forma ligeira como aborda o tema da morte não lhe retira a sua força mas é bastante interessante. Nada neste argumento é desperdiçado e nunca sentimos que existem cenas a mais (com uma excepção).
Um bom exemplo disto é a cena da morte da mãe da protagonista onde a coisa se passa e o espectador só minutos mais tarde se dá conta. E isto tem uma razão dentro da própria estrutura do argumento que joga muito bem todos aqueles pormenores que nem notamos.

Basicamente, adorei este filme e não estava nada á espera disto. Há muito tempo que não via um filme tão bonito e tão bem trabalhado num género assim. Poderia fácilmente não ter sido mais do que um bom produto para crianças e se calhar nem precisava de ser mais do que isso para ser um filme simpático, mas no entanto insinua-se por entre o espectador com pormenores muito mais interessantes que o elevam a um patamar acima do que é comum encontrarmos neste tipo de filmes que normalmente as crianças gostam mas que provocam bocejos nos adultos.
Se tem uma falha está apenas no facto de haver uma total falta de química entre o par protagonista da vertente romântica da história. O que não é nada normal no cinema oriental nem seria de prever neste filme, pois practicamente todo o elenco é simplesmente perfeito, com destaque para o elenco infantil. No entanto as versões adultas das crianças da história sofrem de alguma falta de química entre si e a sua história de amor nunca resulta tão convicente quanto tudo o resto.

Outra falha (quanto a mim grave), está nos cinco minutos finais passados numa igreja. São absolutamente desnecessários, cortam todo o estado emocional da sequência da morte do bicho e entram por uma atmosfera foleira que por momentos ameaça fazer com que [“10 Promises to my dog“] termine em absoluta piroseira. É pena.
Por mim cortava os últimos cinco minutos de filme, mas também não é por isso que deixo de gostar menos dele.

Já o vi há mais de 24 horas, não me sai da cabeça e ando a recomendá-lo a toda a gente feito estúpido sem conseguir explicar ao pessoal que [“10 Promises to my dog“] não é mais um “Benji” ou “Marley & Eu” mas sim algo com uma alma completamente diferente e que transmite uma sensação genuína muito credível. Pelo menos na minha opinião.
Por um lado, se calhar não é um filme que eu possa recomendar ao público em geral.

Poderá ser apenas um daqueles que só poderá ser devidamente valorizado por quem já teve um cão (ou gato) e para todos os restantes parecerá um filme absolutamente banal, até porque não é propriamente uma obra maior do cinema (nem tenta ser), não terá nada de absolutamente extraordinário nem ficará para a história sequer do género (com muita pena minha); um pouco por culpa do próprio realizador, pois ao escolher um estilo tão “invisível” e verdadeiramente low-key para narrar esta história acabou por criar se calhar um produto que parecerá bem mais banal do que na verdade é.

Sendo assim, sinto que para ser justo tal com já fiz antes neste blog, também este filme terá agora dois tipos de classificações. Vamos a isto:

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO PESSOAL:

Se já tiveram um cão não podem perder este filme.
Se estão a pensar ter um cão (e nunca tiveram um), então é de visionamento obrigatório pois funciona quase como uma espécie de exposição a tudo o que poderão ter de enfrentar e principalmente aborda pequenos pormenores que se calhar vocês nem nunca imaginaram que poderiam ser importantes perante a responsabilidade de se ter um bicho.
[“10 Promises to my dog“] é uma verdadeira pérola perdida no meio do género filme-fofinho pois acaba por ser muito mais sério e acima de tudo interessante do que poderá parecer á primeira vista.
Não esperem que este seja apenas mais um filme com cãezinhos ao estilo matinée Disney pois é bem mais do que parece na capa.
Foi uma das melhores surpresas que tive nos últimos tempos e um filme que irei rever muitas vezes certamente.
Pode não ser um grande objecto de cinema, mas também não precisa de ser mais para ser um filme muito bonito, cheio de atmosfera e significado quanto baste.
Quem gostou da atmosfera e do estilo de filme que encontrou em “Be With You” e nunca mais conseguiu ver um filme assim, tem neste [“10 Promises to my dog“] um pequeno produto comercial obrigatório, onde nem falta um pequeno mas discreto e simbólico “twist” quase no final.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award.
Se eu alguma vez eu voltar a ter um cão e calhar ser um Golden Retriever, podem ter a certeza que se irá chamar “Socks“. 🙂

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg gold-award.jpg

A favor: comete a proeza de não ser apenas uma colecção de cenas fofinhas com cachorros em vez de ser um filme, a história não está centrada á volta do cão da forma que vocês julgam que vai estar, mais uma vez a humanidade da caracterização dos personagens, toda a naturalidade nunca se perde mesmo quando parece ir enveredar pelo habitual lugar-comum dentro deste género de filme, o ambiente visual conta com algumas imagens lindíssimas que aproveitam bem a fotografia em tons de sépia, a realização nem se nota mas é completamente eficaz a levar-nos pela história até ao seu final inevitável mas muito bem gerido a nível emocional, consegue humanizar o personagem do cão e no final já nem o olhamos como sendo um animal de estimação, o elenco infantil tem uma química fantástica, é outro filme oriental que vai buscar a sua banda sonora novamente á minha música clássica favorita “Canon de Pachelbel” tal como antes “The Classic” e “My Sassy Girl” já o tinham feito também com excelentes resultados, excelente aproveitamento de uma música dos anos 80 que sempre detestei “Time After Time” da Cindy Lauper, tem mais um par de cachorros hilariantes com destaque para o cão com cabelo em estilo de cubo (logo percebem), é um filme que vos irá fazer pensar muito mais em certos assuntos do que alguma vez imaginaram quando começarem a vê-lo, a maneira ligeira  como lida com o tema da morte, solidão e responsabilidade sem nunca perder a poesia, é um filme com alma, contorna habilmente todas as armadilhas que poderiam ter estragado tudo, é o melhor filme com animais e principalmente sobre animais que vi até hoje, não se parece com um produto americano e tem uma identidade perfeitamente oriental, se se identificarem com o coração emocional do filme arriscam-se a gastar pacotes de lenços de papel sucessivamente mas se calhar não pelos motivos que julgam ir encontrar pelo tipo de filme que é…
Se gostaram de “Be With You” não podem perder [“10 Promises to my dog“] pois o tom emocional é semelhante.
Contra: não deslumbra enquanto objecto cinematográfico pois todo o filme apaga-se nos personagens e na história que conta mas se calhar isto é também uma mais-valia, as caudas de CGI que colocaram no cão para lhe tentar dar mais expressividade em alguns momentos (gimmick infantil e desnecessário que quase arruina algumas das melhores partes do filme), a química romântica entre o par protagonista anda próximo do zero e pelo menos a mim nunca me convenceram do potencial dramático que a história de amor deveria ter tido, tem cinco minutos a mais de filme no final pois as cenas na igreja não servem absolutamente para nada além de amenizarem o impacto emocional com que a história conseguiu terminar no que toca á vida do cachorro, apesar de tudo é um filme com elevado grau de cenas fofinhas e isso poderá enervar quem detesta este tipo de cinema oriental.

——————————————————————————————————————

Para o público em geral, para os cinéfilos mais sérios ou para quem não gosta particularmente de animais:
CLASSIFICAÇÃO :
Trés tigelas de noodles, porque consegue ser um bom filme que contorna habilmente os clichés do género (mesmo sem os evitar) e que não insulta a inteligencia de quem procura apenas passar um par de horas com um produto simples bem feito e onde não falta um toque de poesia quanto baste. É um excelente filme de familia e mantém uma boa identidade oriental sem se parecer com os habituais produtos semelhantes ao estilo Disney.
Não tem nada particularmente mau, mas deve ser evitado por quem odeia de morte filmes com ambiente cute.
Quem nunca soube o que é ter um cão poderá não se identificar particularmente com nada deste filme, por outro lado não se admirem se depois de verem [“10 Promises to my dog“] lhes apetecer arranjar um.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg

——————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

TRAILER
http://www.youtube.com/watch?v=1t7o31J8nOo

COMPRAR
Podem encontrar adquirir este filme por exemplo aqui nesta loja. Bom serviço e com muitos outros títulos á escolha.

Se o quiserem espreitar antes…podem ir buscá-lo aqui neste blog por exemplo (legendas inglés).

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1179271/

——————————————————————————————————————

Filmes semelhantes de que certamente irão gostar:

Be With You

——————————————————————————————————————

Um Grito de Amor desde o Centro do Mundo (Crying Out Love in the Center of the World / Socrates in Love – “My Girl and I”) – O Livro


Antes de mais bom Natal para todos, Ho, Ho, Ho e tudo o mais. 🙂

Caso tenham visto e gostado muito do filme “My Girl & I” que recomendei alguns meses atrás, se calhar também vão gostar de saber que o livro que originou o filme,”Um Grito de Amor desde o Centro do Mundo”  acabou de ser editado em lingua portuguesa precisamente em Portugal.
Na verdade “Um Grito de Amor desde o Centro do Mundo” é o romance original que depois foi adaptado ao cinema no Japão com o titulo inglés  “Crying Out Love in the Center of the World” e não a história original de “My Girl & I” embora sejam idênticas em muitas coisas pois a adaptação Sul Coreana manteve muita coisa do filme japonês.
Acontece que eu ainda não falei aqui da adaptação original porque por acaso gostei mais do remake Sul Coreano, mas agora que o livro saiu em Português vou aproveitar a onda e por isso podem contar com uma análise desse filme para breve aqui também pois já o comprei há anos e tenho adiado falar dele até agora  não sei bem porquê.

E claro que  irei colocar aqui uma review deste romance original pois estou bem curioso, visto que o livro foi a história de amor mais vendida de todos os tempos no japão e daí a popularidade do filme por aquelas bandas também, a tal ponto que os próprios Sul Coreanos fizeram “My Girl & I” com base no mesmo trabalho literário.
O facto do livro ser um daqueles muito dificeis de encontrar até agora ainda aguça mais a minha curiosidade, pois até há bem pouco tempo só se econtrava editado em Japonês nem sequer havendo uma versão inglesa, (que julgo ainda nem há). Penso que no ocidente ainda só existe neste momento a tradução espanhola e a portuguesa se não me engano.
Sendo assim, não queria deixar de divulgar isto por aqui.
Mais novidades sobre o assunto  para breve.

—//—

UPDATE (28-12-2009):
Há coincidências mesmo curiosas.
Andava há anos atrás deste livro, há seculos para colocar aqui a review da adaptação cinematográfica japonesa e agora parece que estou a ser perseguido pela obra em todo o lado.
Este Natal recebi um outro romance japonês comprado na amazon.co.uk chamado “Socrates in Love“. Comprei-o porque depois de ter lido o fabuloso pequeno romance “Be With You” estava intrigado sobre as histórias românticas made-in-japan e quando vi este “Socrates in Love” editado em Inglés mandei vir o livro sem sequer tentar saber muito mais sobre ele além de ter notado que tinha uma excelente review.
Ontem, ao procurar mais críticas sobre o mesmo, notei que o livro também já estava adaptado ao cinema e comecei logo a tentar encontrar o filme na net. Sem qualquer resultado, apesar de muita gente garantir ser uma história bem popular.
Ao procurar pelo trailer de “Socrates in Love” no YouTube, invariávelmente ia ter a resultados que mostravam imagens de “My Girl & I” e já estava a dar em maluco pois parecia que alguém se tinha enganado na associação, até porque no Tube também aparecem imagens da série televisiva igualmente adaptada do livro. E para mais ainda existe um Manga baseada no mesmo romance !!
Qual não é o meu espanto, quando descubro que “Socrates in Love” é o titulo inglés do romance original japonês que deu origem ao filme “Crying Out Love in the Center of  the World” ! O mesmo romance que agora foi editado em Portugal com precisamente o titulo de  “Um Grito de Amor desde o Centro do Mundo” !
Resumindo, por um pouco ia comprando a edição Portuguesa na mesma semana em que recebi ao romance em inglés. Isto porque o titulo da edição Lusa vai precisamente buscar a associação ao nome do filme que originalmente adaptou “Socrates in Love” e não usou uma tradução directa do titulo original japonês ou da sua versão em inglés.
Confusos ?!…Eu estava.

Sendo assim, quem quiser agora espreitar o romance que deu origem ao filme “My Girl & I” e a ” Crying Out Love in the Center of the World” (de que falarei aqui em breve), tem duas boas opções. Pode adquirir a versão Portuguesa aqui, ou então optar pela edição Inglesa comprando-a na amazon.co.uk .
Ou então compram o Manga em inglés também na Amazon (penso eu que isto seja o Manga)…

Espero que já não estejam confusos. 😉

Taiyô no uta (Midnight Sun) Norihiro Koizumi (2006) Japão


Não era minha intenção recomendar mais um filme oriental romântico neste momento, mas para variar caiu-me em cima outra daquelas obras completamente inesperadas e como tal não posso mesmo deixar de falar de [“Midnight Sun“] porque este é mais um daqueles que não merece mesmo ficar esquecido e eu sei que vocês chegam a este blog á procura de sugestões de filmes românticos asiáticos.

MSun09

Desculpem mas não consigo evitar.
Mais uma vez ainda o filme não tinha passado da primeira meia hora inicial e eu só pensava: -“Mas porque raio é que Hollywood não se conseguem fazer filmes assim ??!”
[“Midnight Sun“] é mais um daqueles filmes orientais que eu costumo adorar principalmente por uma razão e que é aquilo que na minha opinião mais valoriza o cinema oriental romântico.
[“Midnight Sun“] “não tem” história nenhuma !!!

MSun010

Explicando melhor…se entendermos por – ter uma história – que um filme normalmente siga sempre uma fórmula que envolva determinados elementos “dramáticos” então [“Midnight Sun“] é um vazio absoluto.
Neste filme oriental não encontrarão:  triangulos amorosos, amores não correspondidos, relações proíbidas, ódio entre familias rivais, amores escondidos, amores proíbidos, inveja, intrigas amorosas, gajas más que estragam os namoros das amigas, gajos maus que são grunhos, traições, hormonas aos saltos, reconciliações ou sequer zangas de namorados.
Neste filme não encontram NADA !

MSun08

[“Midnight Sun“] conta a história de uma adolescente que sofre de uma doença que não lhe permite apanhar a mais pequena réstea de sol e como tal toda a sua existência é feita de noite. Da sua janela consegue ver uma paragem de autocarro onde durante meses observa um rapaz desconhecido e inevitávelmente se apaixona por ele.
A miúda tem no entanto um sonho de ser compositora/cantora e de noite costuma ir para o meio de uma praça onde toca as suas canções para o vazio.

MSun07

Uma noite encontra o rapaz e declara-se a este que apesar de ficar muito surpreendido fica no entanto muito curioso sobre a rapariga. Inevitavelmente as coisas avançam para um namoro essencialmente nocturno até ao momento que os acontecimentos evoluem até ao habitual final á cinema romântico oriental do qual eu não vou agora revelar mais nada mas que certamente todos vocês já sabem qual é.
Acabou a história.
Não tem mais nada. Não esperem o habitual cliché dos filmes adolescentes ao estilo americano. Não irão encontrar aqui nem um vestígio de qualquer lugar comum que estão habituados a ver nas sopeiradas telenovelísticas que passam por cinema romântico com adolescentes nos EUA e arredores.

MSun03

Até mesmo naquilo que poderia ter desgraçado logo o filme se este fosse um produto americano, [“Midnight Sun“] mantêm a sua identidade e qualidade. Falo claro, da parte musical da história, do desejo da rapariga de um dia poder vir a ser cantora e gravar um disco com as suas composições.
Num filme para adolescentes americanos, isto levaria imediatamente ao habitual drama sobre a rapariguinha que queria ser famosa mas depois seria enganada por um produtor qualquer que lhe quereria saltar para a cueca , etc, etc, etc.

MSun06

Não em [“Midnight Sun“]. Neste filme oriental não se passa nada disso. Toda a parte do argumento que foca o sonho da adolescente tem por base um tratamento emocional absolutamente discreto conseguindo transmitir ao espectador não uma imagem de um personagem que está a tentar ser famosa mas sim as emoções de uma rapariga que poderia ser nossa amiga e que a meio do filme já desejamos que ela tenha realmente sucesso sem que o realizador nos tenha conduzido “emocionalmente” pela mão. Em [“Midnight Sun“] ninguém nos “explica” como nos devemos sentir em relação aos personagens. A partir de certa altura damos apenas por nós a desejarmos poder também ser amigos daquelas pessoas e está aqui a grande magia deste pequeno filme japonês.

MSun011

Tem também outra característica muito curiosa.
Para um ocidental, habituado ao estilo video-clip americano deste género de filmes de amor com adolescentes, um filme sobre música que não tem qualquer tique de videoclip MTV quase que não faz sentido.
Neste aspecto, [“Midnight Sun“] é quase a antítese do cinema para adolescentes imbecis, pois acima de tudo apresenta-nos uma história com adolescentes, também para adolescentes, mas não aponta apenas para essa audiência.
Ou seja, desde os personagens que têm uma caracterização profundamente humana até ao espectador que é tratado como um adulto seja qual for a idade de quem estiver a ver este filme, tudo aqui funciona para essencialmente contar a história da forma mais simples e sem artíficios possível.

MSun04

Como resultado disto, quando eu penso que este filme japonês foi um grande sucesso no oriente inclusivamente junto do público adolescente quase que nem consigo acreditar numa coisa destas.
É que vocês sabem, se por exemplo um filme destes aparecesse em Portugal, podem ter a certeza que 99% do pessoal que  esgota as sessões dos “Transformers2” e do “17 Again”  iria logo dizer que [“Midnight Sun“] era uma seca do “#$%&. Podem apostar.
Da mesma forma que nenhum puto (ou espectador de cinema de shopping-center) alguma vez irá acreditar que um filme como “In The Mood For Love” foi um sucesso comercial especialmente junto do público adolescente oriental, também aqui no caso deste pequeno grande filme romântico jamais o classificariam de outra coisa que não de filme de autor para intelectuais.

MSun05

[“Midnight Sun“] não é de forma nenhuma um filme asiático para adolescentes americanizados, é um filme musical cheio de alma que é a perfeita antítese de um “High School Musical” e o antídoto perfeito para quem já não acredita que se podem fazer filmes com adolescentes, sobre adolescentes e com música pop sem tudo descambar numa piroseira para criancinhas de hormonas aos saltos.
Não tem uma montagem estilo MTV, e na verdade ao longo das suas mais de duas horas até pode parecer por vezes um filme lento. Muito lento.
Lento mesmo.
É um daqueles filmes que não tem pressa de ir a lado nenhum, pois a sua magia nem sequer está na história por demais previsível, mas sim na humanidade dos personagens. É um daqueles filmes orientais  em que ficamos mesmo a gostar daquelas pessoas pois fazem-nos esquecer por completo que são actores a representar um papel.

MSun012

Neste aspecto nota alta para os personagens dos pais da rapariga. Ao contrário do que seria habitual num “drama” ocidental, estes não têm qualquer oposição ao facto da filha começar a gostar de um rapaz, mesmo quando ela tem aquele tipo de doença. Não esperem encontrar em [“Midnight Sun“] os habituais dramas de pacotilha ao estilo: – “afasta-te da minha filha”.
Aliás não esperem encontrar nada neste filme japonês que esperam encontrar se o tentarem ver por um prisma de comparação com o cinema para adolescentes americanos.
Os personagens dos pais da rapariga são verdadeiramente únicos dentro deste estilo de histórias e a maneira como estes são usados para ainda tornar mais emocional todo o drama é absolutamnte notável, pois o próprio facto daquelas pessoas nunca entrarem nas histerias telenovelisticas a que estamos habituados torna-os absolutamente humanos nas cenas em que precisam de nos transmitir as suas emoções. Tudo num trabalho cinco estrelas dos próprios actores que á força de parecerem ter personagens que não servem para muito, acabam por potenciar tudo aquilo que o espectador depois irá sentir no final perante o desenlace da história de amor dos dois adolescentes principais da história.

MSun013

Eu sei que o texto já vai longo, mas não posso terminar sem referir aquilo que é verdadeiramente um personagem á parte dentro do filme; as próprias imagens e ambientes presentes em cada fotograma. Não porque nos mostram paisagens fabulosas, mas porque conseguem criar um ambiente intimista que ao mesmo tempo romantiza ainda mais a história e cria um pequeno mundo á parte dentro do mundo fechado em que a protagonista do filme é obrigada a viver.
Vão adorar a discreta fotografia deste filme oriental e ainda vão descobrir um par de imagens inesquecíveis, nomeadamente a que envolve gira-sois e mais não digo, pois tal como no também japonês e fabuloso “Be With You” também em [“Midnight Sun“] esta flor tem um significado muito importante e que dota toda a história de uma poesia extra que se calhar nem seria necessária mas que uma vez no ecran vos vai fazer recordar este filme asiático por muito mais tempo.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Mais uma história de amor oriental fantástica pela sua simplicidade.
Não há muito mais a dizer sobre este filme asiático e só não lhe dou melhor nota porque a sua história base não foge muito ao habitual lugar comum deste género de histórias dentro do cinema oriental.
É no entanto um filme indispensável para quem gostar de boas histórias de amor e quiser ver mais uma que certamente não irá esquecer e onde a poesia da mesma compensa todas as suas pequenas falhas que nem sequer são muitas.
Quatro tigelas de noodles.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg

A favor: é assim que se faz um filme musical com adolescentes, mais uma vez o humanismo da caracterização dos personagens, o excelente trabalho dos actores que se apagam dentro das pessoas que incorporam nesta história, os pequenos pormenores românticos que percorrem todo o filme, a simplicidade das sequências musicais que nos fazem esquecer por completo que este até é um filme com música e adolescentes, a banda sonora, a simplicidade da história e do seu desenvolvimento, é o filme perfeito para quem já não podem mais com fitas de adolescentes americanos, o trabalho do realizador é discretamente notável, a maneira como os ambientes se tornam num personagem á parte, é um filme sem pressa com uma atmosfera contemplativa intensamente triste e poética ao mesmo tempo a fazer lembrar o melhor de “Il Mare“, é um filme com adolescentes para adolescentes sem insultar a inteligencia do espectador, irá agradar a todas as idades, os girassois no final.
Contra: a história base poderia ter sido mais inovadora, poderá ser um filme demasiado contemplativo para quem estiver habituado a uma montagem mais estilo “Michael Bay”.

——————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=gqpKakxKKr4

MSun01
Comprar
O filme está absolutamente barato na Play-Asia numa edição com um DTS excelente por isso pessoal é aproveitar porque este é um daqueles filmes que merece ser ouvido com um som em condições e visto numa cópia a sério.
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7j-77-1-49-en-15-midnight+sun-70-1zf9.html

Podem sacar o filme para espreitarem no excelente AsianSpace blog, mas atenção que a cópia lá disponibilizada é mesmo muito, muito fraca e inclusivamente está ripada no formato errado. Só o conseguirão ver em 16:9 se configurarem o vosso dvd para 4:3 e simularem as barras em cima e em baixo.
Se viverem em Portugal também não irão gostar nada da legendagem em Pt do Brasil pois está tudo num calão demasiado “galera” e isso aos olhos de muitos de nós aqui do outro lado do oceano pode tornar-se extremamente enervante pois quase dá cabo da intensidade dramática da história pelo “colorido tropical” das legendas que se torna quase insuportável.

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0844347/

——————————————————————————————————————

Outros títulos românticos recomendados:

Be With You My Sassy Girl Il Mare The Classic Fly me to Polaris

Love Phobia concerto_capinha_73x cyborg_she_capinha_73x

ditto_capinha_73x my_girl_and_i_minicapinha

——————————————————————————————————————