Tengoku no honya – koibi (Heaven´s Bookstore) Tetsuo Shinohara (2004) Japão


Este é um daqueles filmes orientais que é dificil de descrever se não contar pelo menos uma boa parte da história por isso espero que não lhes estrague o efeito de surpresa, mas vou começar por aqui desta vez. Não se preocupem pois não haverá *spoilers* de maior.
Bem-vindos á vida depois da morte e ao poéticamente esotérico [“Heaven´s Bookstore“].

Após ter sido despedido da sua orquesta, Kenta, um jovem pianista clássico resolve básicamente enfrascar-se num bar para afogar as mágoas. Mas a coisa não lhe corre bem e o rapaz acorda no dia seguinte numa livraria muito especial sem saber como lá chegou.
O gerente do local, revela-lhe que se encontram no Céu, (esse mesmo) e foi Ele que o trouxe até ali embora nunca lhe revele porquê.
Explica-lhe no entanto que cada ser humano tem sempre 100 anos de vida e se uma pessoa morre antes desse prazo, por exemplo aos 60, terá então de passar os restantes 40 anos no Céu antes de voltar a Terra para uma nova vida.

No Céu, Kenta conhece Shoko uma pianísta que ele admirava quando criança e que morreu alguns anos mais tarde. Formam uma amizade com base no seu amor pelo piano e juntos decidem continuar a compor uma sonata especial que a rapariga deixou incompleta na altura em que morreu.
Entretanto cá em baixo na Terra, Natsuko, a sobrinha de Shoko quer voltar a organizar na sua vila um espectáculo de fogos de artíficio que deixaram de ser apresentados doze anos atrás quando Takimoto, o artesão que fabricava os explosivos resolveu súbitamente abandonar para sempre a sua arte pirotécnica.

Acontece que Takimoto esteve um dia noivo da pianista Shoko mas por causa de um acidente com um dos explosivos do artesão, a jovem perdeu não só a audição num dos ouvidos como desistiu de compor para sempre o que acabou mais tarde por provocar a separação definitiva dos dois amantes.
Meses mais tarde quando Shoko morreu vitíma de doença prolongada, deixou incompleta a mais importante das suas obras, uma composição que tinha por objectivo ilustrar cada sessão de fogo de artíficio criado pelo homem que amava e que a partir desse momento deixou de ter razão para existir pois Takimoto criava essencialmente espectáculos de luz para também celebrar o seu amor por Shoko.

Esta é essencialmente a base de [“Heaven´s Bookstore“], que naturalmente tem ainda um par de outras pequenas histórias envolvendo personagens secundários mas que ficam para vocês descobrirem.
Todo o conceito á volta do Céu é absolutamente perfeito e sem recorrer a qualquer efeito especial o filme consegue criar um ambiente sobrenatural extremamente calmo e celestial que os vai deixar com vontade de passar uns tempos naquele local.

[“Heaven´s Bookstore“], não é um  filme sobre religião mas no entanto consegue criar uma história com um pano de fundo espiritual fascinante ao mesmo tempo que evita qualquer conotação com uma crença religiosa específica e constroi um mundo Celestial que se poderá adaptar a qualquer filosofia apesar de ser plenamente baseado na cultura Japonesa.
O  que em mãos mais ocidentais poderia ser um filme panfletário sobre qualquer crença religiosa Cristã (especialmente se fosse filme americano), em [“Heaven´s Bookstore“],  transforma-se numa obra extremamente atmosférica verdadeiramente universal e com uma textura visual única que enche este filme de pequenos momentos sobrenaturalmente poéticos apenas recorrendo a cenários quotidianos ou a elementos da natureza, transportando o espectador até a uma visão do Paraíso que tenho a certeza ninguém deixará de achar original.

E já que falo nisto, talvez a minha coisa favorita em toda esta história é a representação de Deus.
Eu que me orgulho de ser completamente ateu, embora me interesse imenso pelo lado espiritual e filosófico da nossa existência, sempre que consigo encontrar uma obra que transcenda as limitações de qualquer religião organizada fico logo com vontade de a dar a conhecer.
Embora muito poucos exemplos consigam produzir algo equilibrado neste nosso planeta ainda inexplicávelmente dominado pela religião, temos aqui uma excepção.
Isto agora levar-nos-ia muito longe, mas gosto quando aparecem histórias que retratem Deus, não de uma forma religiosa, mas sim como sendo essencialmente – “um gajo comum” e [“Heaven´s Bookstore“], tem nesse aspecto uma das melhores e mais simples representações de uma entidade supostamente “divina” que encontrei em cinema. Tão simples que quase nem se nota.

Consegue ser suficientemente subjectivo para que cada pessoa lhe atribua a conotação que bem entender fazendo dele um filme universal e talvez seja este o seu grande encanto.
Houve alguém que um dia questionou:  “Se Deus nos explicasse detalhadamente como criou o Universo e nos ensinasse tudo sobre o processo de criação, será que ainda o considerariamos um Deus depois de nós aprendermos todo o segredo” ?

Em [“Heaven´s Bookstore“], nada nos é explicado por “Deus” porque o filme não é sobre Ele.
Mas a maneira como Ele nos é apresentado segue um pouco esta linha de pensamento resultando num Deus bem mais cativante pela sua humanidade, personalidade e simplicidade do que mil interpretações que qualquer religião oficial politicamente correcta continue a impingir á humanidade.
Neste filme, Deus é um tipo simples, um gajo porreiro que se entretém a gerir o centro do Paraíso na sua fascinante livraria/biblioteca contribuindo com isso, para a evolução espiritual de toda a gente que por lá passa através da divulgação do Conhecimento e fomentando o gosto pela Cultura a todas as almas que habitam temporáriamente no Céu.

Nessa livraria, o próprio Deus contribui ele próprio com a leitura das histórias presentes nos livros da biblioteca para quem o quiser ir ouvir naquele espaço e através delas e das suas metáforas ajuda os habitantes do Paraíso a a ultrapassarem as tristezas da sua vida anterior, enquanto aguardam a próxima reencarnação.

No caso da jovem pianista Shoko, aparentemente Deus resolveu aplicar um método diferente e como tal trouxe Kenta para o Céu pois inevitávelmente a interacção entre os dois pianistas serviria não só para ajudar a resolver as mágoas de uma pessoa mas essencialmente de trés almas marcadas pela tristeza. Duas no Céu e uma na Terra, pois o artesão Takimoto continua a sofrer com o seu sentimento de culpa por ter abandonado Shoko quando ela mais precisava dele no momento em que ficou doente.

Essencialmente [“Heaven´s Bookstore“], gira á volta deste conceito e apesar do que contei poder parecer se calhar até demais, quando virem o filme vão perceber que ainda há muito para descobrir nele e nas suas entrelinhas, mas essencialmente fico-me agora por aqui.
Apenas posso dizer que gostei muito deste filme oriental.
Não o achei tão bom quanto por exemplo, um “Il Mare” pois acho que lhe falta qualquer coisa que o torne especial, mas não deixa por isso de ser um filme muito poético e acima de tudo esotérico de uma forma simples que não tenta apresentar verdades absolutas mas sim fazer sonhar o espectador ao mesmo tempo que nos conta uma boa história.

Tem no entanto uma falha que se nota particularmente em alguns momentos do filme e impede que eu lhe dê uma classificação maior.
O argumento de [“Heaven´s Bookstore“], teve origem em dois romances japoneses distintos que foram misturados de modo a criar uma única história e no filme nota-se demasiado essa separação pois as coisas não fluiem tão naturalmente quanto seria de desejar.
Por muito que o realizador tente, a parte passada no Céu embora  excelente nunca liga muito bem com a outra metade passada na Terra (ou vice-versa), pois ambas parecem pertencer a filmes diferentes, o que origina uma quebra de ritmo narrativo que se nota bastante particularmente a meio da história.

E nem o trabalho extraordinário de composição da jovem actriz que neste filme faz dois papeis, consegue ligar as duas metades apesar de ser a mesma pessoa que faz de Shoko no Céu e também de sua sobrinha Natsuko na Terra ( a mesma actriz de “Be With You“).

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CLASSIFICAÇÃO:

Este é um filme de que me apetece gostar muito mais do que na realidade gosto, por isso não é daqueles que recomende como uma prioridade se procurarem histórias de amor embora seja uma boa história.
Na verdade, fiquei algo decepcionado, pois esperava emocionar-me mais do que veio a acontecer porque tinha gostado mesmo muito do trailer e no entanto aquele ambiente que se encontra na apresentação sofre várias quebras ao longo do filme e isto retira-lhe algum do impacto dramático e romântico que merecia ter mas na minha opinião nunca alcança.
No entanto, se já tiverem visto as outras histórias de amor que tenho recomendado neste blog, [“Heaven´s Bookstore“], é uma óptima compra para juntarem a seguir á vossa  colecção pois não é de forma nenhuma um mau filme, muito pelo contrário e só pela atmosfera das cenas passadas no Céu vale mesmo a pena.

Quem gostar de piano (ou se tocar piano), adicionem mais uma tigela de noodles á minha classificação porque o todo o filme gira á volta desse instrumento e por isso tenho a certeza de que irão gostar muito pois está plenamente utilizado para criar a atmosfera do filme.
Quatro tigelas de noodles (mais uma se gostarem mesmo muito de piano clássico).

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A favor: o ambiente do Céu faz com que nos apeteça ir passar la uns tempos, a livraria/biblioteca Celestial, as cenas filmadas na planicie verdejante ao sabor do vento atravessada por uma única estrada que leva “á saída do Céu”, a maneira como a banda sonora é usada para criar uma atmosfera de melancolia, Deus é um bacano de chapéu cool e usa T-Shirts Havaianas – o que se pode pedir mais ?
Contra: a narrativa tem falhas na sua estrutura pois sente-se claramente que são duas histórias separadas a tentarem colar forçadamente, as partes passadas na Terra com os personagens que estão vivos apesar de ligarem com os acontecimentos no Céu nunca são particularmente interessantes porque ainda por cima são demasiado previsíveis, não há nenhuma surpresa de maior na história e se calhar neste caso um bom twist teria ajudado a ligar os dois argumentos, não é o filme romântico que parece ser no trailer e até talvez seja demasiado melancólico e triste.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=h9PWxuGQC7M

Videoclip
http://www.youtube.com/watch?v=CoG-R3-nHyM&feature=related

Comprar
Recomendo esta edição. Excelente em todos os aspectos. Óptima imagem, excelente Dts e Extras a condizer tudo legendado em inglés.
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7j-77-5-49-en-15-heavens+bookstore-70-rbx.html

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0423360/

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Se gostaram deste irão certamente gostar de:

Be With You My Sassy Girl Love Phobia

Il Mare The Classic Fly me to Polaris

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Uchu kara no messeji (Message from Space) Kinji Fukasaku (1978) Japão


Eu comprei o dvd japonês e este filme não tinha legendas de espécie alguma ! 🙂
Não havia mais nenhuma opção de compra na altura e como tal decidi arriscar pois lembrava-me bastante bem dele e apetecia-me revê-lo julgando até que não iria haver uma edição em inglés tão cedo.
Entretanto já existe uma excelente edição á venda na Amazon americana por isso meus amigos já sabem onde poderão comprar esta maravilha de filme em DVD no ocidente.
Falemos então do “StarWars” japonês conhecido no ocidente como [“Message From Space“], sim porque este filme passou em Portugal no cinema e tudo.

A minha cópia é completamente falada em  Japonês e sem uma única legenda em inglés, conseguem imaginar ?
Garanto-vos que conseguem. Até porque quando virem este filme a última coisa que interessa são os seus diálogos,  porque o argumento é tão básico e tão bem traduzido visualmente que a meio da centésima cena de porrada espacial vocês já nem se lembrariam que o dvd era suposto ter legendas.
Entretanto já comprei a nova edição á venda na Amazon, claro está…

Este é mais um filme ideal para o meu outro blog “Universos Esquecidos” mas mais uma vez não poderia deixar de o recomendar aqui, pois mais japonês que isto se calhar seria impossível.
Até porque a razão de me ter lembrado deste filme oriental agora, é porque é uma obra do mesmo realizador de “Virus“, que lhes apresentei anteriormente e assim vocês poderão fazer uma comparação mais imediata entre as duas obras.

Embora os filmes não tenham nada em comum são ambos trabalhos muito interessantes pela sua identidade muito própria, isto mesmo apesar de [“Message From Space“], digamos…se inspirar um bocadinho no sucesso de “StarWars”.
Mesmo resalvando as devidas diferenças até acaba por ser o clone mais próximo do filme de Lucas, talvez porque se esforça muito para ser um “StarWars” oriental e não tem grandes problemas em admiti-lo. Há algo na atmosfera deste filme que não nos deixa esquecer as suas influências mesmo quando recorre a clichés puramente japoneses.
Aliás nota-se claramente que nem tenta disfarçar as suas origens e até nem se chateia muito por contar com um robot que deve ser certamente o primo oriental do R2-D2 para divertimento do espectador.
E por isso mesmo é divertidissimo porque se torna num produto descaradamente genuíno o que o transforma imediatamente num filme de culto para quem gosta de space-operas espaciais que irá agradar imenso a quem gosta de aventuras série-B.

Esta vai ser provavelmente a review mais pequena deste blog, porque na verdade não há muito para dizer sobre [“Message From Space“], a não ser que é um filme completamente alucinante ao melhor estilo televisivo japonês.
Basicamente o filme move-se a duzentos á hora e onde tudo serve para justificar cenas de combates espaciais e muitos tiros com pistolas laser, não faltando obviamente o personagem tipo mercenário espacial, a princesa combativa e o “Luke Skywalker” lá da zona, além do vilão muito mau.

Visualmente, o filme alterna entre o mau episódio dos “Power Rangers“, as maquetes do “X-Bomber” e a estética pseudo-Starwars.
Os efeitos são do piorio, mas [“Message From Space“] é extremamente entusiasmante pois nunca sabemos bem o que pode acontecer a seguir ou que mau efeito especial é que vamos ver pela frente no meio de tanta cena de porrada espacial. E porrada espacial é coisa que não falta, tudo ambientado com uma banda sonora tão divertida e despreocupada quanto o próprio filme.
Curiosamente o filme tem alguns actores americanos, inclusivamente o falecido Vic Morrow o que o torna num produto ainda mais estranho pois toda a gente parece deslocada, mas ao mesmo tempo dá um toque especial á atmosfera da obra.

A história é a mistura habitual entre “Os Sete Samurais” e o “StarWars“, onde há um gajo muito mau que quer conquistar o universo e um planeta oprimido em que os habitantes são obrigados a partirem em busca de mercenários que os ajudem a enfrentar o tipo, descambando em cenas de porrada espacial por tudo e por nada levando os herois até á vitória final do costume.

[“Message From Space“], foi produzido em 1978 logo a seguir a “Starwars” ter alcançado o sucesso que se conhece e como tal, terá sido o primeiro clone do filme de George Lucas a alcançar algum sucesso internacional porque foi imediatamente aproveitado para saciar a sede do publico por algo que se assemelhasse ao filme de Lucas.
O que ninguém esperava certamente era que tivessem sido os Japoneses a arriscar tal produção embora não seja grande surpresa o facto do filme ter sido distribuido por todo o mundo.
Principalmente porque toda a gente queria ver mais coisas semelhantes ao “Starwars” e na altura isso era algo que não se encontrava todos os fins de semana.

O sucesso do filme foi tal que inclusivamente deu origem a uma série televísiva no Japão com vinte e tal episódios.
Se tiverem curiosidade poderão inclusivamente ver aqui o primeiro episódio da série se tiverem o VeohTv instalado  no vosso computador. Também poderão fazer o respectivo download. Embora a série seja inferior ao filme que a originou e por isso recomendo vivamente que primeiro apreciem a longa metragem [“Message From Space“] antes de verem qualquer exemplo da série de tv.

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CLASSIFICAÇÃO:

Um dos filmes mais desmiolados de todos os tempos e completamente obrigatório para quem gosta de conhecer todo o tipo de clones cinematográficos que “Starwars” originou.
Muito divertido mesmo e possivelmente um dos melhores maus filmes de sempre.
Trés tigelas e meia de noodles.

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A favor: é um “Starwars” em velocidade ultra acelerada, os efeitos especiais são tão maus que se tornam absolutamente geniais, o design de produção idem, tem uma identidade completamente japonesa, as cenas de porrada espacial são excelentes, tem um barco voador que anda no espaço e um R2-D2 oriental.
Contra: o estilo Power Rangers pode ser um bocado irritante.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=2TPh6-L7Qi4

Videoclip
marado com inúmeras cenas do filme
http://www.youtube.com/watch?v=yxoa8CInnsY&feature=related

Comprar
está á venda na Amazon americana. Estão é espera do quê para comprar isto ?

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0078435/

Versão do filme dobrada em inglés para download.
http://thepiratebay.org/tor/3997307/Message_From_Space___Uchu_kara_no_messeji

Primeiro episódio da série televisiva que o filme originou.
http://www.veoh.com/videos/v1734253AEjb4THn

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*Não tenho ainda nenhum filme semelhante que possa recomendar*

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Fukkatsu no hi (Virus) Kinji Fukasaku (1980) Japão


E agora, uma obra de que muito pouca gente deve ter alguma vez ouvido falar.
Estive em dúvida entre colocar este filme aqui ou passá-lo para o meu novo blog sobre cinema antigo de ficção científica, “Universos Esquecidos“, mas por agora optei por apresentá-lo no “Cinema ao Sol Nascente”.
Até porque se trata essencialmente, não apenas de mais um filme japonês, mas de uma das maiores produções que alguma vez tiveram lugar dentro do cinema de antecipação saído daquele país.
Sentem-se na cadeira e enervem-se um bocadinho, pois não pensem que o cinema oriental só tem histórias de amor fofinhas.
Depois de verem [“Virus“], se calhar é boa ideia terem uma love-story á mão para descontrair.
Bem-vindos ao possível futuro próximo da humanidade meus amigos.

Se calhar vou começar logo pelas boas notícias já que o filme é tão catastrófico, temáticamente falando.
A boa notícia é que desta vez não vão precisar de comprar nada (ou de fazerem downloads ilegais algures) para poderem ver um filme recomendado neste blog.
Apesar de ter existido até há pouco tempo uma boa edição de [“Virus“], em dvd, se não precisarem de extras também não precisam de gastar dinheiro, pois este filme encontra-se actualmente na condição de domínio público e está já disponível para download gratuíto no conhecido website “Internet Archive” que se dedica a colecionar obras abrangidas por este estatuto.
Todos os detalhes sobre isto no final desta review.

Por agora fiquem a saber também logo que existem duas versões do filme.
A versão original de 155 minutos, e a versão internacional com menos uma hora.
Quem por volta de 1983/84 chegou a ver [“Virus“] no cinema (quando estreou em Portugal), apenas conheceu a versão curta remontada para distribuição americana.
Fora do Japão apenas essa versão ficou disponível e até há bem pouco tempo atrás [“Virus“], na sua versão integral era um daqueles filmes procurados por quem como eu coleciona obras de ficção científica.
A versão curta até nem é propriamente difícil de se arranjar. Eu sei, eu comprei uma das edições em dvd quando ainda não havia mais nenhuma. Agora posso garantir-vos que se não foi o pior disco digital que alguma vez me passou pela frente, andou mesmo muito lá perto e como tal nem vou entrar em pormenores pois até fico doente de pensar que dei dinheiro por aquele pedaço de plástico inútil na altura.

E por falar em doentes…
Gostam de filmes sobre o fim do mundo ?
Gostavam de ver uma obra que realmente conseguisse transmitir uma escala apocalíptica a um nível internacional mas sem parecer um pedaço de plástico fabricado em CGI  realizado em Hollywood pelo Roland Emerich ?
Então estão no filme certo.
Puxem do sofá e não se esqueçam de ter uma caixa de lenços de papel á mão.
Não que o filme seja propriamente para chorar, mas se por acaso começarem a tossir e a espirrar durante o filme é melhor ter logo algo ao pé para não se esquecerem de que afinal os efeitos da doença que vêem no filme ainda não passaram para o vosso lado do ecran.
Mas já agora juntem também uma caixa de aspirinas. Não que lhes servisse de muito se a visão apocalíptica do mundo presente em [“Virus“], pudesse de repente fazer parte da nossa realidade mas convém que estejam convenientemente apetrechados para verem o filme e entrarem plenamente dentro do seu terrível e assustador conceito.

Basicamente fiquem a saber que os americanos deram cabo do mundo de vez.
No início dos anos 80 ao tentarem criar a arma microbiológica que pudesse dissuadir os russos de atacarem os EUA com armas nucleares, a situação escapou ao controlo dos militares que encomendaram o serviço e o planeta vê-se a braços com uma epídemia global de um novo tipo de gripe que mata em trés dias após a incubação.
Um terrível vírus que se transmite como uma vulgar constipação e para o qual não existe nem poderá existir vacina, especialmente quando quem a poderia eventualmente descobrir também ter morrido vitíma da praga que acaba literalmente causando o fim do mundo tal como nós o conhecemos.
Apenas nas regiões com temperaturas abaixo de zero o virus permanece inactivo e como tal um grupo de oitocentos sobreviventes vê-se obrigado a permanecer para sempre nas regiões geladas sem poder voltar aos seus países que pura e simplesmente deixaram de existir enquanto tal.
O problema é que dessas oito centenas de pessoas, apenas restam algumas mulheres, o que serve para o filme colocar também algumas questões interessantes sobre as relações afectivas humanas.

É certo que este tipo de história já conheceu várias interpretações nos ecrans, mas podem ter a certeza que nunca a viram tão bem retratada como em [“Virus“].
Claro que falo da versão integral do filme e não da montagem americana.
Como cinema pode ter imensas fraquezas (que as tem) mas numa coisa acerta em cheio. Quando sai do estilo telenovela e ganha uma estrutura quase de documentário, torna-se num dos filmes mais assustadores que vocês poderão encontrar sobre o final dos tempos.
E nem precisou de entrar por conotações relígiosas para conseguir esse efeito no espectador.
As sequências de pânico mundial estão absolutamente perfeitas e ás vezes transmite mesmo a sensação de que estamos a assistir em directo ás imagens de um qualquer telejornal.
Só a distância que nos separa agora dos anos 80 atenua um pouco essa ilusão mas nem por isso [“Virus“], deixa de conter sequências absolutamente aterradoras, especialmente tendo em conta todas as possibilidades que existem hojem em dia de algo semelhante poder vir a acontecer.

Por muito que não queiramos [“Virus“], impressiona e não podemos deixar de pensar como seria se isto acontecesse. O filme mete medo e causa grande impacto sem recorrer a efeitos especiais para nos dar cabo dos nervos. A coisa mais próxima de um efeito especial aqui, será possivelmente uma boa quantidade de bons matte-paintings que ajudam a retratar a devastação mundial, um par de maquetes bem conseguidas e algumas explosões.
Tirando isto, todo o ambiente de medo é fruto da intensidade da própria realização e da excelente direcção de figurantes durante as cenas de pânico e caos mundial.
O que nos leva ao casting internacional.

Neste filme só deve faltar mesmo um Português, pois a produção foi buscar actores a todas as partes do mundo para compor cada segmento relativo aos principais países representados na história e isso é uma das grandes mais valias em [“Virus“], pois dá ainda mais autitencidade ao filme, visto que inclusive muitos dos personagens até falam nas respectivas linguas. Curiosamente se calhar até o que ainda se fala menos no filme é precisamente o Japonês.
Desde Chuck Connors a Robert Vaugh passando por um jovem Edward James Olmos o filme conta com um casting excelente embora nem sempre aproveitado, talvez devido á dificuldade de dar algo para fazer a tanto personagem.
Inevitávelmente muitos dos diálogos são em inglés, porque as partes de aventura e suspanse são precisamente á volta do perigo de ameça nuclear, que, apesar de metade do mundo ter sido destruído pela gripe, ainda paira no entanto sobre a humanidade. Isto graças aos militares americanos sempre prontos para carregar no botão e mandar os russos para os anjinhos juntamente com o que resta do planeta.

E aqui destaca-se o grande Henry Silva num dos seus habituais papeis de gajo destestável.
Vão adorar o seu personagem de general militarísta patriótico americano. Isto apesar de até ser uma das inúmeras fraquezas do filme, mas não por culpa do actor que até se deve ter divertido á brava.
A caracterização de personagens é um dos grandes problemas em [“Virus“]. Os altos comandos militares são todos doidos, os políticos são todos inúteis, os cientistas são uns desgraçados e as mulheres estão no filme para sofrer e chorar muito.
O que atira o filme para o pior terreno  da telenovela televisiva onde não precisava ter entrado.
Quando [“Virus“], sai do seu modo-catástrofe, a coisa perde-se um bocado e até se arrasta penosamente em alguns momentos, o que confere um ritmo narrativo algo estranho ao trabalho, como se o filme fosse na verdade uma colagem de dois ou trés outros géneros metidos num só e com uns diálogos a ligar tudo.

Isto acontece claramente porque a intenção de criar uma atmosfera internacional muito povoada por seres humanos, obrigou a que o filme introduzisse personagens em todo o lado e depois a maior parte das vezes estes não têm muito para fazer na história. Embora se note que o realizador tenha tentado criar um momento especial para cada um deles, daí a excessiva fragmentação do trabalho.
Não que isto me chateie particularmente, mas se calhar o filme deveria ter tido outra abordagem, pois a verdade é que actualmente não pode deixar de nos parecer um produto algo datado precisamente pela forma como filma as situações-tipo dos filmes catástrofe e desenvolve o previsivel relacionamento entre personagens.
Na verdade é um produto de 1980 e isso nota-se.

Mas não deixem que isso vos impeça de espreitarem [“Virus“], (ainda por cima de borla), até porque apesar do seu estilo retro excessivamente televisivo em certas alturas, consegue noutras ser um excelente exemplo de cinema catástrofe, com algumas imagens muito bem cuidadas e uma boa fotografia.
Acima de tudo, se procuram um filme sobre o fim do mundo, não vão mais longe.
Na minha opinião enquanto filme catástrofe este é um dos melhores exemplos que poderão encontrar actualmente.
Não é um filme de efeitos especiais, não pensem que vão ver outro “The Sinking of Japan” porque não vão, mas podem ter a certeza que encontrarão um filme oriental único com uma extraordinária atmosfera de medo e que consegue manter a sua identidade enquanto cinema oriental.
Mesmo com a quantidade de actores ocidentais que participam no filme, [“Virus“], nunca deixa de ser um filme essencialmente japonês e um excelente exemplo de boa ficção-científica daquela que só a é, porque ainda não aconteceu.

A propósito, se descarregarem a versão longa do filme no site do “Internet Archive”, poderão também retirar as respectivas legendas em inglés para as partes faladas em japonês. Existe depois um tutorial no site que explica como poderão gravar com elas o vosso próprio dvd.
Mas se não as quiserem tirar, podem ver o filme sem legendas sem grandes problemas, pois grande parte dele é falado em inglés e até as partes em japonês são perfeitamente compreensíveis apenas pelo que se passa nas imagens, porque felizmente [“Virus“], apesar do seu estilo televisivo é no entanto um produto extremamente visual e quase que podia ser falado em Checo que não teriamos problemas em seguir a sua narrativa, por isso não se preocupem muito.

Agora esqueçam a versão curta deste filme. As partes de caos e porrada estão lá quase todas, mas a montagem dessa versão reduzida é tão diferente que quase parece um filme novo em certos aspectos pois ainda torna mais vazios a maior parte dos personagens. Isto porque os americanos retiraram tudo o que era desenvolvimento de situações e só deixaram no filme mesmo o que interessava para o tornar numa espécie de blockbuster á moda americana que nunca poderia ter sido porque [“Virus“], é essencialmente um drama assustador e perturbante e não um festival de aventura juvenil e efeitos especiais.

A um nível pessoal, este é um filme que me marcou quando era puto. Vi-o com uns amigos aos 13 anos numa noite de verão num cinema de Portimão ao ar livre pensando que seria uma espécie de imitação de Star Wars e no entanto saiu-nos uma coisa completamente inesperada que nenhum de nós esqueceu.
Em Portugal o filme quando passou nos cinemas de província, chamava-se [“Ameaça Planetária“] e tinha um cartaz que dava a ideia de que o filme ia ser uma espécie de space-opera com invasões espaciais.
Resultado, na altura levamos com um filme que não esperavamos mas já na altura marcou-nos pelo seu ambiente, embora só tivessemos visto a versão reduzida, claro está.
Lembro-me que em anos seguintes acabei por revê-lo ainda no cinema, pois na altura gostei já o suficiente do filme para me apetecer ver outra vez.
Isto numa altura em que ainda não estreavam sucessos cinematográficos fora de Lisboa e Porto e os cinemas de província levavam anos a passar os mesmos filmes que rodavam ciclicamente entre salas em cópias que só paravam de ser exploradas quando queimavam em plena projecção.
A long time ago…no início dos anos 80.

E chega de paleio,  porque espero que a esta altura já estejam pelo menos com curiosidade para ver este filme.
Quando o revi há um par de anos na cópia atroz em dvd que adquiri na altura, detestei o filme em absoluto, mas afinal a qualidade do dvd também não ajudava e além disso foi o cut americano que hoje já não parece tão impressionante como me parecia quando o vi no cinema há mais de 25 anos.
No entanto, quando vi pela primeira vez a versão integral um par de dias atrás, a magia desta obra voltou a conquistar-me e a assustar-me por isso resolvi recomendar aqui esta excelente obra esquecida.
A propósito, isto também não são só tragédias, pois o filme contém ainda uma simples mas eficaz história de amor como não podia deixar de ser num filme oriental. Não deslumbra, mas fica bem.

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CLASSIFICAÇÃO:

Filme completamente imprescindível para quem gosta de cinema catástrofe e quer ver um daqueles filmes que realmente representa muito bem o fim do mundo.
É mesmo muito bom e só não é melhor porque actualmente se encontra algo datado e sente-se ao longo do filme uma falta de equílibrio entre géneros de cinema que não foram plenamente misturados como seria de desejar.
Portanto, trés tigelas e meia de noodles porque é melhor que bom e merece mesmo ser visto nem que seja uma vez.

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A favor: o casting internacional funciona muito bem mesmo com alguns personagens estéreotipados, o clima de medo e pânico está extremamente bem criado o que confere ao filme um estilo quase documental em algumas partes, o ambiente apocalíptico de fim do mundo é fantástico e muito perturbante, contém um par de sequência psicológicamente pesadas dentro do contexto do conceito do filme, tem um bom argumento que resulta bem de uma forma geral, as cenas com as cidades mundiais devastadas cheias de cadáveres a apodrecerem na desolação não podiam ser melhores, tem alguns bons momentos de suspanse e aventura, tem uma atmosfera realmente épica e completamente internacional o que confere uma atmosfera muito real ás cenas apocalípticas, é muito assustador e cada vez está mais actual, não é um filme de terror mas se calhar ficará mais na memória colectiva de quem o vir do que muitas outras coisas mais populares.
Contra: é um filme de 1980 e nota-se, o excessivo tom de télenovela que percorre os estereotipos das partes dramáticas, tem persongagens a mais e por isso não há tempo para desenvolver a história de cada um deles como deveria de ser, a caracterização unidimensional dos militares e dos vilões é muito cartoonesca, tem uma realização demasiado televisiva para uma obra cinematográfica.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
Esta apresentação é um bocado fraquinha e se calhar acaba até por ser a pior coisa do filme, pois não se sente bem no trailer a dimensão apocalíptica que depois o filme tem.
http://www.youtube.com/watch?v=JXKPkpcviKM

Comprar Versão Integral
Este pack, contém a versão integral de Virus, mas pelo visto acabou de esgotar…
http://www.amazon.com/Sonny-Chiba-Action-Virus-Bullet/dp/B000GETUBK

Comprar nova edição em dvd da versão curta remontada pelos americanos e com menos uma hora.
http://www.moviesunlimited.com/musite/product.asp?sku=D73736

Download da versão integral (public domain) com excelente qualidade, no site internet archive.
http://www.archive.org/details/Virus_Fukkatsu_no_hi

Download da versão curta distribuída internacionalmente no cinema fora do Japão no início dos anos 80.
http://www.archive.org/details/cco_virus

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0080768/

Uma gigantesca review adicional em inglés, mas carregada de *spoilers*
Sugiro que não a leiam antes de verem o filme para depois compararem-na com a vossa própria opinião mais tarde. Estão por vossa conta.
http://www.braineater.com/virus.html
Tem coisas com que eu concordo e outras com que discordo mas não há dúvida que é uma das mais gigantescas críticas que me lembro de encontrar na net sobre um filme oriental.
Infelizmente é um daqueles textos que revela cada pormenor do filme não deixando absolutamente nada á descoberta. Ficam avisados. 😉

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Kairo (Kairo) Kiyoshi Kurosawa (2001) Japão


Antes de mais, espero que ainda não tenham visto o trailer do remake americano deste filme.
Se o viram, então espero que já não se lembrem dele.
E isto, porque o trailer do remake americano, não só revela a história toda como ainda se dá ao trabalho de explicar tudo muito bem explicadinho.
Nem sequer esconderam o final do filme que infelizmente temos o azar de ser semelhantel ao da obra original japonesa e por isso se o virmos logo no trailer americano, lá se vai o impacto psicológico da história.
Embora tenha que ser justo e o remake nem sequer é dos piores…mas quando comparado com o original asiático é melhor nem dizer mais nada.
No entanto, se quiserem apreciar devidamente a versão original deste excelente filme sobrenatural oriental , afastem-se por favor do trailer do remake americano chamado “Pulse” pois precisam chegar ao filme japonês sem saberem muito dele.
Agora que estão avisados, bem-vindos a [“Kairo“].

Esta versão original japonesa consegue assustar e inquietar mais o espectador em dez minutos do que a videocliptica versão americana consegue em noventa. Tudo isto sem efeitos especiais daqueles que dominam os filmes da terra do tio Sam. Sem perseguições, cenas de acção e muito menos sem super-vilões sobrenaturais ao estilo Freddy-Kreuger como parece que alguém nos states achou que seria necessário introduzir no remake. Deve ter sido para os teenagers do milho terem algum “mau” para se assustarem nos intervalos das cenas em que admiram as mamas das rapariguinhas modelos que povoam a versão ocidental e que não servem absoutamente para nada a não ser de carne para canhão na habitual contagem de cadáveres á Scream.
Sim, porque foi num Scream que os americanos transformaram este excelente [“Kairo“] que apesar de ser um filme com adolescentes e jovens adultos felizmente é também um filme com personagens pelo qual nos importamos, ao contrário do que acontece no body-count americano.

Portanto, para quem pensar que [“Kairo“], é o equivalente japonês dos filmes de teenagers americanos, é melhor esquecer este filme.
[“Kairo“], é um filme lento.
Muito lento. Muito leeeeeeeeeeeeeento mesmo.
Não é uma lentidão ao estilo Manoel de Oliveira nos seus melhores dias, mas não é de forma nenhuma um filme sobrenatural com uma montagem MTV ou sequer algo que se possa considerar uma montagem ocidental.
E isto não é uma coisa negativa, pois aqui a lentidão no desenvolvimento da história é acima de tudo usada para criar um clima de inquietação constante no espectador que resulta plenamente e dá uma identidade única ao filme.

Este filme nota-se á distância que é um produto japonês, só pelo tempo que demora a criar ambiente. Não tem pressa na montagem para dizer muita coisa e muito menos para explicar o que está a acontecer e por isso este pode ser um filme complicado de seguir para qualquer público que não esteja habituado ao estilo japonês de contar histórias, ou apenas se interessar pela imediatez dos ritmos narrativos cinematográficos americanos.

Por outro lado, também não se assustem com esta descrição, porque não estamos a falar de puro cinema de autor, isto naquele sentido mais Artístico ou intelectualoide cheio de metáforas sobre a vida, a essencia do Ser ou a natureza dos cogumelos.
[“Kairo“], não quer mais do que nos dar cabo dos nervos com uma boa história, que se calhar nem notamos a uma primeira visão, porque é verdade que o ritmo lento do filme pode desarmar-nos quando espreitamos esta obra pela primeira vez.

Confesso que quando vi isto tendo lido apenas um par de críticas na net que garantiam que [“Kairo“], era a coisa mais maravilhosa do planeta dentro do cinema sobrenatural, fiquei bastante decepcionado.
Mas a verdade, é que a montagem errática desta obra me desarmou pois não estava nada á espera de encontrar um filme tão estranho em todos os sentidos.

É estranho, porque na verdade não deixa de ser um filme comercial, mas ao mesmo tempo o seu ritmo narrativo quase que o remete para o cinema de autor e [“Kairo“], quase que acaba por ficar numa espécie de limbo entre os dois géneros.
O que é bom, pois é precisamente de situações no limbo que esta fantástica história sobrenatural trata.
E notem que eu ainda não me referi a [“Kairo“], como filme de terror. Repararam ?
O filme pode ser japonês, ter um estilo estranho, mas tem a grande vantagem de nem sequer tentar imitar o já clássico “Ringu” que definiu as regras modernas do género e só este facto é logo motivo para prestarmos mais atenção a esta obra.
Na verdade se “Ringu” criou um estilo, depois popularizado em mil clones do género como por exemplo a saga “Ju-On”, já [“Kairo“], pode dizer-se que criou uma segunda fórmula seguida também por um par de outras obras menos conhecidas.

[“Kairo“], não é um filme de terror oriental naquele sentido em que nos assusta pelo que mostra, ou por imagens demasiado gráficas, mas por aquilo que não mostra. [“Kairo“], assusta porque não nos explica nada e apenas nos vai mostrando uma sucessão de acontecimentos que adensam o mistério, criando muito devagar e sem pressas nenhumas um clima de medo e tensão insuportável, que nos dá lentamente cabo dos nervos.
A certa altura o espectador dá por si sem saber porque raio é que está tão perturbado, ou o que raio se está a passar na história, ou como irá acabar, mas agora o realizador do filme poderia ter colocado o Bugs Bunny no ecran que metade do público se ainda se conseguisse mexer correria imediatamente para o interruptor da luz, isto antes se não tropeçar em metade da mobilia.

Acima de tudo,  [“Kairo“] não é uma história para assustar momentaneamente em segmentos para nos fazer saltar da cadeira, mas sim para provocar medo e transportar o espectador para o mundo que a pouco e pouco vai criando e que leva o filme a terminar de uma forma extremamente atmosférica, que só nos dá vontade de ver uma sequela quando o filme acaba.
Mas afinal isto é sobre o quê ?

Sem querer revelar muito da história, e partindo do princípio que vocês tiveram a sorte de ainda não terem visto o remake ou o trailer do remake americano, [“Kairo“] conta a história de um grupo de jovens que se começam a suicidar depois de passarem inúmeras horas obcecados com um misterioso website que encontram na internet.

Quando alguns deles começam a investigar o sucedido após inúmeras pessoas desaparecerem aparentemente sem motivo nenhum estes descobrem que a realidade é algo bem mais perturbante do que alguma vez imaginaram e onde a resposta a todas as suas questões pode não apenas trazer a solução do enigma mas também colocar em perigo o destino do mundo, porque os mortos estão á espreita em todo o lado e não haverá nenhum local no planeta onde nos possamos esconder.

Mas não pensem que estamos perante um filme de mortos-vivos, pois  [“Kairo“] apesar de conter uma atmosfera bem semelhante em alguns momentos é mais um filme sobre a morte enquanto dimensão paralela do que própriamente terá algo a ver com um filme do Romero.

Na verdade este filme tem tudo a ver com o ambiente do jogo Silent Hill. Quem gostar do título e procurar um filme de terror com uma atmosfera assombrada muito semelhante e onde o mesmo tipo de inquietação está sempre presente, então não pode perder isto. Apesar de não conter as sequências sangrentas do jogo para a PS2,  [“Kairo“] acaba por ser mais um Silent Hill do que a própria recente adaptação cinematográfica do jogo.

Para começar tem na minha opinião os fantasmas mais “realísticos” de sempre num filme de terror, nunca os vemos bem, aparecem como sombras furtivas no canto do olho e o realizador ainda consegue pregar um par de bons sustos com excelentes momentos inesperados apenas jogando com silhuetas e sombras que se movem. E isto sem ser necessário recorrer ao habitual som ALTO para assustar. Ou melhor, para pregar sustos.

Em [“Kairo“], o silêncio mete mais medo do que qualquer truque cinematográfico á americana e este filme asiático é um bom exemplo de como se constroi um clima de horror sem precisarmos de usar muitos truques baratos ou efeitos especiais caros completamente desnecessários.

E pronto, se calhar é melhor ficar por aqui, pois este é outro daqueles filmes orientais que merecem ser descobertos por vocês mesmo.
Se procuram um bom filme sobrenatural japonês com um toque de horror que ficará na memória mesmo que não lhes impressione muito á primeira por causa do seu estranho ritmo narrativo, não vão mais longe.
Este filme tem atmosfera, uma história intrigante e ainda um par de imagens perturbantes ao melhor estilo Silent Hill.

Não é o melhor filme de terror oriental de sempre, mas tem uns fantasmas que já definiram um estilo dentro do género e que lhes vão mesmo dar cabo dos nervos. E quanto a mim tem um final excelente, que embora um pouco ambiguo deixa-nos com vontade de ver uma continuação que infelizmente não existe.

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CLASSIFICAÇÃO:

Um filme diferente dentro do género sobrenatural. Contorna bem os clichés do cinema oriental e cria uma atmosfera de horror crescente em redor de acontecimentos perturbantes e com ajuda de uns excelentes fantasmas que os farão começar a olhar duas vezes para todas as sombras que têm em vossa casa.
Quatro tigelas e meia de noodles.

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A favor: a atmosfera perturbante assusta mesmo, a fotografia sombria, os silêncios e as sombras, os fantasmas arrepiantes, o sentimento de horror crescente, os sons inquietantes, o final do filme, quem gosta do jogo Silent Hill vai gostar disto.
Contra: a história tem falhas na sua estrutura e pode ser algo confusa de seguir ao inicio, a montagem é errática e a narrativa tem muitos ritmos estranhamente diferentes o que quebra um pouco os momentos de medo e horror, talvez tenha duração a mais pois a parte do meio da história arrasta-se um pouco.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailers
http://www.youtube.com/watch?v=Ubu7hVI48no
http://www.youtube.com/watch?v=y_JFO-Nrk5c&feature=related

Comprar
Existem um par de boas edição lá fora deste filme, e se não estou enganado, até uma edição em Português apenas com som em 2.0, por isso se tiverem 5€ sugiro a compra imediata desta edição
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7m-77-3-49-en-15-pulse-70-610.html pois contém um bom som e apesar do filme ser muito escuro a imagem até nem seja má de todo. Não é brilhante, mas pelo preço não precisam de mais para apreciar este filme. Eu tenho esta cópia e estou muito contente com ela.

IMDB (cuidado com os *spoilers*)
http://www.imdb.com/title/tt0286751/usercomments

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Se gostam deste poderão gostar de:

A Tale of Two Sisters Dark Water

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Daai cheug foo (Men Suddenly in Black) Ho-Cheung-Pang (2003) China


Conhecem certamente aquele género de cinema denominado “heist-film“, em português qualquer coisa como “filme de golpe”, e que foca essencialmente o submundo do crime.
Nestes filmes um grupo de criminosos junta-se para planear e executar um assalto mas tudo acaba por correr mal provocando as mais variadas situações que contribuem para o desenvolvimento da história.
Normalmente há sempre um bando de malfeitores com feitios diferentes que não se gramam, chefes do crime obscuros, mafiosos de terceira categoria, assassinos profissionais e elementos da policia que fazem tudo para lhes dar caça e apanhá-los em flagrante.
Talvez um dos exemplos mais conhecidos seja o filme “Snatch” realizado pelo inglés Guy Ritchie com Brad Pitt e um bando de gajos feios porcos e maus.
É precisamente este o filme que serve de matriz para [“Men Suddenly in Black“] e é aqui que reside a grande originalidade desta comédia oriental que poderia ter ido mais longe, mas no entanto não deixa der muito divertida e estar cheia de criativade. Porque vocês não sabem mas esta obra asiática  não tem nada a ver com o mundo do crime, não mete assaltos e nem sequer tem mafiosos.

Então afinal o que tem isto a ver com um “heist-film“,  e porquê a comparação com o “Snatch” ?
É que [“Men Suddenly in Black“], aplica todos os clichés do género criminoso mas ao adúlterio com resultados muito criativos e que embora nem sempre hilariantes conseguem arrancar-nos ainda algumas gargalhadas e até conter bastante suspanse.
Confusos ? Passo a explicar.
Neste filme um grupo de homens organizam-se não para assaltarem um banco, roubar um mafioso, ou assaltar uma carrinha de valores, mas sim para basicamente meter os cornos ás mulheres com umas raparigas de má-vida.
Imaginem um grupo de gajos que só pensam em sexo porque básicamente, ou estão fartos da rotina do casamento ou nem têm namorada e resolvem dar uma escapadinha de fim de semana até Hong Kong para apreciarem a companhia do máximo de mulheres-da-vida que conseguirem comprar com o pouco dinheiro que juntaram.
Como tal, têm que o conseguir fazer sem que as mulheres descubram os seus intentos e elaboram um complexo plano digno de um assalto a um banco onde nenhum detalhe é deixado ao acaso.
Só que as coisas não correm como era suposto acontecer e as esposas e namoradas suspeitando da verdadeira intenção dos seus companheiros resolvem agir e também partem em grupo para a grande cidade para tentarem apanhar os maridos e namorados em total e absoluto flagrante.

A grande originalidade de [“Men Suddenly in Black“], é que todo o filme é apresentado como se fosse um verdeiro  “heist-film“. Toda a maneira como está filmado remete para um estilo “Snatch” onde não apenas estão presentes os clichés na estrutura de argumento como principalmente o filme assume uma estética completamente saída de um filme sobre criminosos como se este tivesse sido realizado por Guy Ritchie só que não mete assaltos a bancos mas sim facadas no casamento.
É muito dificil tentar demonstrar-lhes isto agora por palavras sem lhes estragar o prazer de descobrirem por vocês mesmo esta original comédia que segundo parece em breve também irá ter uma versão americana para mal dos nossos pecados.

Os personagens não são meras caricaturas, mas sim pessoas com personalidade e tudo é tratado como se fosse um verdadeiro filme sobre crime. Todas as situações de comédia não vêem por isso das palhaçadas que os personagens fazem, mas sim da própria originalidade das situações e da maneira como estas são decalcadas de filmes sobre mafiosos mas aplicadas ao tema do adultério.
A genialidade do filme está precisamente aqui. É engraçado por causa das constantes comparações que permite ao espectador estar sempre sem saber o que poderá acontecer a seguir e neste aspecto a realização não poderia ter acertado mais em cheio na forma como a narrativa progride.

É que neste filme, tal como num bom filme de crime não faltam perseguições e cenas de tiroteio. Acontece que em [“Men Suddenly in Black“], as perseguições são feitas de outra maneira e até as cenas de tiros substituem as pistolas e balas por mangueiras e máquinas fotográficas numa das sequências mais engraçadas e criativas de todo o filme.
E esta ideia percorre toda esta comédia, pois se os maridos em busca de sexo fácil são os criminosos, as suas esposas são o equivalente á policia que percorre todas as pistas para os conseguir apanhar em flagrante.

Tudo muito criativo e divertido.
Pelo meio ainda temos direito á inevitável cena com um respeitado mafioso ao melhor estilo “O Padrinho“, só que aqui não é uma figura mítica do mundo do crime, mas sim um gajo que agora vive em total reclusão porque um dia foi apanhado em flagrante adultério e a mulher nunca mais o deixou sair de casa desde então, tendo esta figura adquirido contornos místicos e sagrados para todos aqueles cujo o objectivo basicamente é andar no putedo sem ser descoberto pela respectiva esposa.
Só vendo mesmo, pois mais não digo e até se calhar já falei demais.

Não pensem no entanto que [“Men Suddenly in Black“], é uma comédia desmiolada ao habitual estilo oriental. Este filme tem alma, pois os personagens por mais incriveis que nos pareçam estão realmente muito bem construidos e o argumento acaba por colocar algumas questões sobre a natureza do casamento, do amor e da fidelidade que deixará muita gente a pensar como agiria nas mesmas situações, o que contribuiu para uma profundidade algo inesperada num filme que não pedia mais do que ser capaz de nos fazer rir.

Como comédia é no entanto algo estranha, pois apesar de conter um par de momentos hilariantes não se pode dizer que o filme seja verdadeiramente para rir. Não naquele sentido de nos arrancar constantes gargalhadas, isto porque muitas das vezes estamos mais a sorrir pelas comparações entre estilos do que própriamente a rir pelo humor do argumento.
Mas não se deixem desmoralizar por este meu comentário, pois [“Men Suddenly in Black“], é mesmo uma comédia. As cenas com as esposas embora breves e espalhadas por todo o filme são muito engraçadas pois tal como no caso dos homens, todas têm personalidades muito diversificadas com destaque para a “morena burra” que lhes vai proporcionar momentos de boa disposição.

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CLASSIFICAÇÃO:
Uma óptima comédia para quem ainda pensa que não há muita criatividade no género actualmente.
Não há muito mais a dizer, pois este é um daqueles que vale a pena descobrir por vocês mesmo.
Não acho o filme tão brilhante quanto a fama que têm nas reviews espalhadas pela net mas mesmo assim achei-o muito bom. Quatro tigelas de noodles.

A favor: a colagem ao estilo “Snatch” e ao estilo “heist-film“, é brilhante, a realização é óptima e dá ao filme não só uma estética particular como consegue manter um ritmo narrativo excelente, os actores têm carisma e os personagens são muito divertidos, contém um par de momentos hilariantes, é uma comédia com alma que não se limita a fazer rir como ainda nos dá um par de questões para pensar no assunto.
Contra: o humor do filme depende demasiado da colagem ao cinema de crime para ter graça e esquece um pouco as piadas dentro da própria história.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
Infelizmente parece ser bastante dificil de encontrar e portanto vão ter de se contentar com a apresentação televisiva.
http://www.youtube.com/watch?v=odSbnf5oVRM

Comprar
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7h-77-2-49-en-15-men+suddenly-70-30t.html

Outra review
http://www.kfccinema.com/reviews/comedy/mensuddenlyinblack/mensuddenlyinblack.html

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0380291/

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Outras comédias de que poderá gostar:

Attack the gas station The Happiness of the Katakuris My Sassy Girl

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