Kurenai no buta (Porco Rosso) Hayao Miyazaki (1992) Japão


[“Porco Rosso“] será porventura um dos filmes mais adultos de Miyazaki e também um daqueles de que as pessoas menos se lembram quando se fala da obra deste realizador.
Talvez por ter uma atmosfera tão poética e etérea enquanto dura, depois ao acabar é como um bom sonho do qual não conseguimos recordar os detalhes.

[“Porco Rosso“] é no entanto um filme que consegue agradar tanto aos mais novos como aos mais velhinhos.
Isto porque possivelmente terá algumas das melhores sequências de acção presentes no trabalho de Miyazaki e todas as idades vibram de igual maneira com os divertidos e fascinantes combates nos céus de uma Itália dos anos 20 onde se passa toda esta história cheia de poesia, aventura e muita nostálgia.

O público mais velho, especialmente quem não conhece o trabalho deste realizador, irá certamente surpreender-se com o tom melancólico que percorre uma história tão estranha quanto cativante e onde há inclusivamente espaço para um par de excelentes histórias de amor.  Histórias de amor que nunca acontecem mas que estão sempre presentes na relação do heroi com os personagens femininos de uma forma que torna [“Porco Rosso“] em algo único e fascinante dentro do próprio universo Miyazaki.

[“Porco Rosso“] conta a história das aventuras, ou das vivências de um piloto de aviões nos primórdios da aviação que cruza os céus de uma Itália nos anos 20 do século passado trabalhando como piloto, mercenário e aventureiro de aluguer.
Habita algures numa espécie de base secreta (bem conhecida de toda a gente), localizada numa ilha do mar adriático e onde vive uma existência solitária longe do mundo e de todos desde que uma maldição o transformou num porco.

Não procurem explicações para isto, pois não existem. É apenas a premissa da história, mas não se preocupem porque vocês nem se vão mais lembrar deste pormenor porque vão estar tão cativados com toda a atmosfera de [“Porco Rosso“] que pouco lhes vai importar a razão de estarem a ver um desenho animado com um porco que pilota aviões.

Toda a história gira á volta das proezas e rivalidades entre pilotos nessa época, onde não falta romântismo, uma pitada de sobrenatural e também espiritualidade quanto baste.
Especialmente no que toca á relação entre Porco Rosso e Gina a dona do Cabaret onde se econtram os pilotos que depois de viverem as suas aventuras todos convergem para adorar de longe a dona do local que os mantém a todos na linha.

Eu quase que aposto que quem conhece os livros de Richard Bach e gosta daquela atmosfera etérea e aerea das suas histórias passadas em biplanos, irá gostar muito de [“Porco Rosso“] também. Isto porque além do tom poético e literalmente flutuante ser bastante semelhante também a parte romântica da história tem aquele ambiente que não ficaria deslocado de um livro do autor de Fernão Capelo Gaivota.

Na verdade não há muito mais para dizer sobre este filme. [“Porco Rosso“] faz parte daquele período que para mim foi o melhor, mais variado e mais imaginativo do realizador e quanto a mim é outro dos seus títulos obrigatórios.
Está cheio de momentos humorísticos geniais e personagens memoráveis que os vai colar ao ecran do príncipio ao fim.
Destaque para a grande galeria de piratas do ar que acabam por criar um dos momentos mais nostálgicos nos segundos finais da história quando os revemos já idosos muitos anos depois da sua época aurea ter passado.

[“Porco Rosso“] para mim que trabalho em ilustração continua a ser uma das minhas grandes referências e provávelmente o grande responsável pelo meu estilo de bonequinhos infantís pois a partir do momento em que vi  pela primeira vez muitos anos atrás a hilariante sequência com as miudinhas raptadas no início da história a minha imaginação nunca mais foi a mesma.

Essa cena continua mesmo todos estes anos depois a ser um dos pontos altos do filme e um dos mais divertidos momentos humorísticos de Miyazaki pelo absurdo da situação e contraste entre a pureza das criançinhas e os piratas em total estado grunho com as suas metralhadoras gigantes.

Resumindo, obrigatório para quem não conhece.
Ainda mais para quem já nem se lembra bem dele.

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CLASSIFICAÇÃO:

Cinco tigelas de noodles e um Golden Award claro, acima de tudo pela originalidade, atmosfera e pela criação de um universo único até dentro da própria obra do realizador. Além disso é uma obra prima visual.

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A favor: a qualidade dos desenhos e a realização, excelentes sequências de acção, personagens variados e memoráveis, grande sentido de humor caótico, grande sentido de aventura, fantástica atmosfera romãntica e nostálgica, a banda sonora é demais, boa história de amor impossível, é um filme muito poético visualmente e emocionalmente, a sua história tem coisas para todas as idades, tem um final ambiguo perfeito e muito tocante.
Contra: Quem procura um Anime mais moderno não vai gostar disto pois este é um filme muito contemplativo e apesar das suas inúmeras cenas de acção o enfase da história está nos sentimentos dos personagens o que torna [“Porco Rosso“] num estranho filme que não será própriamente uma aventura de acção no estilo que muita gente esperará.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=fmyrWYrvF5s

Comprar na Amazon UK ou na Amazon.Com
Em Portugal pelo que vi, temos a mesma edição á venda e pode ser encontrada na FNAC.
O Livro com toda a arte do filme pode ser comprado aqui também.

Download aqui com legendas em PT/Br

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0104652

SEQUEL ?
http://timmaughanbooks.com/2009/06/02/miyazaki-to-draw-porco-rosso-sequel/

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Se gostou deste vai gostar certamente de:

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Bu san (Goodbye Dragon Inn) Ming-liang Tsai (2003) China/Taiwan


A minha primeira reacção a [“Goodbye Dragon Inn“] foi a pior possível e já me preparava para vir para aqui dizer o quanto tinha detestado este típico exemplo de cinema-de-autor no pior dos sentidos, pois há muito que não via um filme tão enervantemente secante !
Este é daqueles que a uma primeira visão pode criar um verdadeiro teste á nossa força de vontade para não carregarmos no botão de fast-forward dezenas de vezes.

Até eu que tenho “Solaris” (versão Tarkovsky), como um dos meus filmes favoritos, ao ver [“Goodbye Dragon Inn“] pela primeira vez só pude dizer: –“MAS CA GRANDA SECA DO #$#”%& !”
O “Solaris” soviético original comparado com isto é um filme do Michael Bay.
E não, não tentem imaginar, pois sem verem [“Goodbye Dragon Inn“] vocês não irão mesmo conseguir conceber a lentidão desta obra que não fica nada a dever ao mais clássico filme do Manoel de Oliveira, talvez com a diferença de que os do realizador Português têm uma montagem muito rápida em comparação…

Isto porque [“Goodbye Dragon Inn“] é o típico filme com que toda a gente goza !
(Pessoal do Brasil podem parar de rir, porque isto quer dizer outra coisa em Portugal e este não é um filme desses…) 😉
[“Goodbye Dragon Inn“] é um daqueles filmes em que básicamente se aponta uma câmara para o chão e depois filma-se em tempo real a erva a crescer, por isso estão avisados.
E a história também é semelhante. Pelo menos á primeira vista.
[“Goodbye Dragon Inn“] é lento. MUITO LENTO ! Diria, até PARADO !
Basta dizer que tem uma sequência (genial?), em que se vê apenas um plano único que dura 4 minutos (sim, QUATRO MINUTOS) com uma sala vazia, por isso meus amigos, quem acha o “2001 Odisseia no Espaço” chato e vazio, nem imagina o que o espera aqui e só pela experiência vale a pena espreitarem.

Essencialmente, o filme é constituído por planos únicos e longos. Muito, muito, muito, muito, muito looooooooooongos (numa atmosfera algo deprimente, fria ou até doentia) e o primeiro diálogo entre personagens ocorre aos 40 minutos de um filme que só tem 80, por isso já estão a ver ideia.
Por isso, [“Goodbye Dragon Inn“] é um daqueles filmes de que é fácil não gostar.

No entanto…
O problema, é que ao vê-lo pela primeira vez, mesmo após ter-me arrastado ao longo dos seus penosos 80 minutos de duração, o raio do filme ficou-me na memória durante o dia todo e por mais que me preparasse para vir para aqui desancar este título, a verdade é que [“Goodbye Dragon Inn“] não se tinha tornado  tão simples de detestar quanto a frustração inicial que me causou. Só havia uma coisa a fazer.
Voltar a vê-lo.

E não é que a uma segunda visão, as coisas começam a tornar-se mais fascinantes ?
É que ao contrário do que é costume, apesar de ser lento, (ok,ok… chato), na verdade não tem aquela carga pretenciosa carregada de génio égocentrico que muitos filmes de autor costumam exalar de uma forma insuportável quando um realizador com pretenções a Artista plástico está mais interessado em fazer maravilhosas instalações artísticas videográficas cheias de metáforas e intervenção sociológica do que filmar uma história.

[“Goodbye Dragon Inn“] é um filme secante como há muito não me passava pela frente.
Por causa disso é um daqueles titulos que corre logo á partida o risco de alienar metade da audiência pois a sua estrutura faz com que o espectador casual passe ao lado um filme único sem lhe dar mais qualquer hipótese por este sair do tipo de cinema mais fácil de digerir.
Muita gente não aguentará vinte minutos disto sequer, mas quem conseguir vê-lo até ao fim, muito provavelmente ficará com muita da sua atmosfera assombrada no pensamento durante horas a seguir.

Quem ganhar coragem para o voltar a ver, então se calhar é porque também foi apanhado por aquilo que de certa forma torna esta obra especial e a sua falta de prentenciosismo para se armar em “inteligente” é uma mais valia, ao contrário do que costuma acontecer em muito cinema de autor supostamente Iluminado logo á partida.
Pode ser uma opinião pessoal, mas a ideia com que fiquei disto é que o realizador filmou assim porque simplesmente faz parte do seu estilo visual e nada mais e por isso se partirem para [“Goodbye Dragon Inn“] uma segunda vez e conseguirem acompanhá-lo  já conhecendo a forma como ele está apresentado, não estranhem se de repente começarem a ver esta história com outros olhos.

Se alguma vez tiveram na vossa cidade uma sala de cinema de que gostaram muito e que talvez tenha feito parte da vossa infância ou juventude mas que agora já não passa de uma relíquia do passado tendo sido substituída pelos plásticos cineplexes dos shoppings, se calhar encontrará em [“Goodbye Dragon Inn“] alguma magia e irão identificar-se com a sua nostálgica tristeza, pois apesar de “não ter história nenhuma” é um filme sobre a magia do Cinema e se calhar de como este era bem melhor (e bem mais mágico) quando o viamos, não com som DTS em cadeiras almofadadas e em salas de ar condicionado mas em cinemas antigos com som mono, ecrans de pano rasgados,  fitas queimadas e moscas quanto baste; em sessões onde ainda as pessoas viam os filmes caladas, era proíbido comer nas salas e estavamos numa altura em que não estreava um blockbuster todas as semanas que já estará esquecido na semana seguinte.

É esse o tema subliminar de [“Goodbye Dragon Inn“], apenas não usa uma história para falar desses tempos mas sim mostra os ambientes actualmente solitários que outrora tiveram dias de glória.
É chato ? É pois.
É uma seca do camandro ? Pois é.
Mas resulta ?
Resulta pois !

Não se deixem enganar com as comparações deste filme com o “Cinema Paradiso“. É certo que a sua alma é a mesma, mas a sua forma não tem nada de idêntico por isso não esperem o mesmo tipo de filme. No final a sua magia é a mesma, mas [“Goodbye Dragon Inn“] exige uma predesposição para o aturar que não era necessária no poético filme de Tornatore. No entanto ambos os filmes acabam por ir dar ao mesmo e ambos recordam uma época que já não volta mais no que toca á velha relação do público com a magia do Cinema e só por isso também vale a pena tentarem espreitar esta produção made-in-Taiwan.
No entanto façam-no por vossa conta e risco. 😉

Mas afinal o que fazem os personagens neste filme ?
Não se preocupem com *spoilers* pois em [“Goodbye Dragon Inn“] isto não se poderá aplicar de todo e até poderá ajudar á navegação do pessoal que não está muito habituado a espreitar este género de cinema.
Resumindo:
Essencialmente acompanhamos várias histórias que representam as várias fases de glória de um velho cinema clássico através da presença e do olhar de quatro ou cinco personagens. A maioria nem sequer abre a boca durante o filme todo mas cada um conta um pouco da história do Cinema em geral.
Estamos na última noite antes de um velho cinema ir fechar para sempre e pela última vez, passam na última sessão um dos clássicos do cinema de artes marciais chinés, chamado precisamente “Dragon Inn“.

Outrora algo que enchia a velha sala com espectadores com o passar das décadas e o aparecimento dos novos cinemas modernos a situação inverteu-se e no momento presente em que [“Goodbye Dragon Inn“] decorre o filme Dragon Inn, atrai apenas almas solitárias que parecem tão deslocadas do ambiente da sala quanto a sala está isolada no tempo. Incapazes de comunicar uns com os outros, a única coisa que têm em comum é o facto de todos estarem presentes nesta última sessão e essencialmente o filme “filma” a sua presença nesse ambiente e nesse momento como se fosse o registo final de uma Era que apenas tem o tempo de vida da duração da última projecção de Dragon Inn.

Acompanhamos a empregada do cinema que deambula como um fantasma do passado pelos corredores do edifício com a sua deficiência física – (uma sombra da beleza que também ela teve um dia?) – tentando discretamente captar a atenção (romântica?) do projecionista como se fosse uma última tentativa para se fazer notar.
E enquanto o filme decorre na sala principal, observamos um turista homosexual japonês solitário que procura algo mais do que cinema, assistimos ao seu encontro incómodo com outro homem num corredor onde nada se passa mas onde se menciona que o edificio poderá estar cheio de fantasmas.
Simbólicos ou literais ?

Observamos ainda duas velhas estrelas do filme Dragon Inn original (os verdadeiros actores) que agora já idosos assistem á sua juventude perdida no ecran daquele cinema vazio mas em locais separados sem nunca notarem a presença um do outro. Essencialmente , estes e mais um par de outros personagens formam um padrão de figurantes que compõem toda a essência de [“Goodbye Dragon Inn“] e transportam o filme até ao seu final em que se mostra apenas a sala vazia, – (seriam alguns desses espectadores na verdade fantasmas ?)

A empregada e o projeccionista abandonam pela última vez a velha sala de cinema sem se cruzarem (seriam reais?) ao mesmo tempo que deixam para trás um passado que já não voltará e talvez também uma possível relação romântica que já não terá oportunidade de florescer, ao mesmo tempo que toda a emotividade do momento é resumida numa canção tradicional chinesa sobre a saudade e nostálgia.
The End
.

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CLASSIFICAÇÃO:
Hesitei entre dar-lhe apenas trés tigelas de noodles ou quatro, apenas porque é realmente um filme díficil…ok, chato !
No entanto decidi-me pelas quatro tigelas de noodles porque realmente há aqui qualquer coisa de especial e se entrarmos na onda enquanto espectadores quanto mais detalhes descobrimos naqueles planos únicos de 4 minutos, menos secante o filme nos parece.
Por isso e para prevenir logo isto, por agora fica com quatro tigelas embora algo me diga que um dia destes ainda lhe aumento a classificação.
No entanto isto não quer dizer que eu recomende [“Goodbye Dragon Inn“] a toda a gente e muito menos a quem chega agora á procura de cinema oriental “normal”, pois provavelmente se vir isto assim sem qualquer aviso prévio  se calhar não quererá ver mais nada depois.
De qualquer forma, é um filme que merece uma oportunidade.
Se estiverem habituados a cinema de autor provavelmente irão adorar, se não estiverem e quiserem começar por uma coisa mais levezinha dentro do género sempre podem começar pelo “In the Mood For Love” , pelo “Days of Being Wild” ou “2046” antes de experimentarem [“Goodbye Dragon Inn“]. 

Mas não deixem um dia destes de lhe dar uma chance.
É o antídoto perfeito para uma dose dupla do “Transformers” do Michael Bay. Vão por mim.
E sim, [“Goodbye Dragon Inn“], é uma seca descomunal, mas vale quatro tigelas de noodles na boa.
Se é que não vale até mais…

A favor: para além da seca inicial que pode provocar a uma primeira visão tem uma profundidade que na realidade nem precisa de diálogos para nada, a atmosfera assombrada, tem alma e evoca nostálgia, só tem 80 minutos, tem um bom estilo visual, não é um filme pretencioso e apesar de ser “art-house” tem uma identidade modesta e genuína sem pretenções, quanto mais se revê menos secante parece e mais fascinante se torna, será uma história sobrenatural ?
Contra: quem nunca viu cinema de autor é melhor não começar por este, planos fixos de 4 minutos com salas vazias é capaz de ser demais para muita gente, idem para muitas outras sequências de plano fixo ao longo do filme, a atmosfera assombrada ás vezes pode ser algo doentia a fazer lembrar um filme de terror, é uma seca do caraças se não estiverem com predisposição para o que irão encontrar pela frente.

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NOTAS ADICIONAIS:

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=zHMxMJ6qkOU



Comprar

Só o apanharão em Sellers da Amazon americana

Ou Podem ir buscá-lo aqui.

IMDB
Goodbye Dragon Inn

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Filmes semelhantes de que poderá gostar:

*Não tenho nada semelhante neste blog*

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20-seiki shônen: Honkaku kagaku bôken eiga (20th Century Boys) Yukihiko Tsutsumi (2008) Japão


O ano de 2010 começa bem para mim no que toca a boas compras de cinema oriental.

Este é um filme sobre o qual me é muito dificil falar pois é um daqueles produtos de cinema asiático muito dificeis de classificar.
A minha primeira reacção foi a de atribuir-lhe a classificação máxima pois [“20th Century Boys“] é não só muito bom como tem uma coisa que lhe dá logo muitos pontos, é completamente original. Mesmo não parecendo.

Na verdade não me lembro de ter visto nada  assim antes e surpreendeu-me que o filme tivesse uma estrutura inesperada.
Curiosamente o único motivo porque vi o filme foi porque o comprei.
E a única razão porque o comprei foi porque a edição que estava á venda na Amazon Uk (e ainda está) tinha uma relação preço-qualidade que me pareceu muito boa, pois os dois discos vinham dentro de um livro hardcover com 26 páginas a cores e eu não resisto a estas coisas especialmente quando estão á venda por menos de 10€. Comprei o filme a 4 libras um par de semanas atrás.

Tinha visto o trailer há meses e já o podia ter sacado da net há muito tempo para espreitar, mas nem me dei ao trabalho porque [“20th Century Boys“] parecia-me ser precisamente aquele tipo de filme que me aborrece de morte, ou seja algo num estilo super-herois que geralmente não me diz nada e como tal as apresentações nunca me convenceram ao ponto de sequer me fazer ter vontade de ver o filme á borla.
No entanto algo me dizia que [“20th Century Boys“] não seria tão banal quanto me parecia no trailer e devido á sua excelente e barata edição não resisti a comprá-lo.
E ainda bem que o fiz.
Se calhar não se nota pela “suave” classificação que lhe atribuí mais abaixo, mas este filme quanto a mim é absolutamente fantástico e a única razão porque não lhe dou uma nota melhor é porque este é um daqueles produtos que são absolutamente contagiantes quando o vemos pela primeira vez, mas pessoalmente não fiquei com vontade nenhuma de o rever tão cedo.

Não porque [“20th Century Boys“] seja um mau filme, aborrecido ou tenha algum problema grave, mas porque é um daqueles que depende mesmo muito do fascínio que o mistério da história cria no espectador e como tal quando a coisa chega a uma conclusão, mesmo apesar de ser um filme oriental cheio de qualidades há muito pouco que faça o espectador querer voltar a ele muito próximamente.
Pelo menos até ver como a história termina…

[“20th Century Boys“] tem o grave problema de ser uma primeira parte de uma história em trés capitulos. Ou melhor em trés filmes. Além disso a sua originalidade acaba por ser a sua maior virtude e a sua maior fraqueza.
A sua originalidade não está propriamente no estilo, ou até na história, até porque se vocês conhecem obras como Watchmen (tanto o livro como o filme), não vão encontrar algo muito diferente em [“20th Century Boys“], que, quanto a mim é quase uma versão alternativa da Bd de Alan Moore transposta para uma identidade oriental puramente japonesa. Não que seja um plágio, mas o tom da história e até a sua própria estrutura é semelhante.

Segundo consta, esta trilogia de filmes, adapta o Manga mais vendido de sempre no Japão. Algo que me é totalmente alheio pois até agora nunca tinha ouvido falar de tal coisa e como tal parti para este filme como eu gosto. Completamente ás escuras.
O facto de  [“20th Century Boys“] ser a primeira parte da história (em filme) podia até nem ser um problema, pois por exemplo  a primeira parte do Senhor dos Aneis resulta plenamente enquanto filme isolado até ao seu final.
No entanto [“20th Century Boys“] “falha” nesse aspecto porque como alguém já referiu numa outra review na net, parece que os criadores deste projecto se esqueceram que este produto acima de tudo era suposto ser um filme e se calhar não deveria ter seguido tão á risca uma estrutura de banda-desenhada no que toca á sua narrativa.

Por outro lado, esta visão pode ser apenas fruto do nosso olhar ocidental mais habituado ao tipo de estrutura que vemos nos filmes americanos e sendo assim é inevitável que olhemos para [“20th Century Boys“] como um filme algo estranho e inesperado.
Lá ver se consigo explicar isto melhor…olhem que é difícil…
[“20th Century Boys“] é apresentado como um verdadeiro blockbuster “de super-herois” ao estilo japonês. No entanto não se passa nada neste filme asiático ao longo de quase trés horas !!!

Não se passa nada daquilo que vocês pensam que se vai passar se virem os trailers.
As apresentações dão a ideia que o espectador vai ver um blockbuster cheio de acção e cenas de destruição ao melhor estilo de cinema catástrofe e no entanto nada disso acontece  em [“20th Century Boys“].
As poucas cenas de acção e destruição que vocês vão encontrar nesta história são os breves segundos de explosão no aeroporto e no parlamento e isso aparece tudo no trailer sem haver mais nada para mostrar.
As partes de aventura com o robot gigante são practicamente nulas e mais parecem pertencer aos cinco minutos finais de um qualquer episódio de uma série televisiva do que a uma mega-produção que [“20th Century Boys“] apregoa ser em todo o seu marketing.

Ou seja, se esperam um filme de super-herois, ou com uma estrutura (ou espectacularidade) semelhantes ao que estão habituados a ver, esqueçam.
Que achou que Watchmen foi uma seca porque aquilo era muito paleio e pouca acção, então é melhor nem se aproximar de [“20th Century Boys“], pois é trés vezes “mais lento”. O aviso está feito, isto não é o blockbuster que aparenta ser na publicidade (o que muito me agradou).
Ainda por cima quando o filme está precisamente no seu momento mais empolgante ao fim de quase 150 minutos…a imagem pára e aparecem no ecran as palavras “To be continued…” !!!

Curiosamente é um filme oriental bem mais intimista do que eu próprio esperava ter visto.
Practicamente as primeiras duas horas são passadas em desenvolvimento de personagens. Não que isto seja o ponto fraco do filme, mas deixo já o aviso que é muito importante vocês estarem atentos aos nomes dos personagens porque senão vão dar em doidos.
Consta que todos os trés filmes contêm ao todo mais de 300 personagens diferentes e acredito plenamente nisso pois só nesta primeira parte devem passar dos 50. Ainda por cima isto é um filme oriental e como tal…esqueçam o conceito de “heroi” ou personagem principal, pois aqui até o personagem mais secundário é importante para a história e tem o seu momento de ecran específico o que complica bastante a vida ao espectador mais desatento.

Para piorar as coisas, o filme ainda é passado em trés décadas diferentes e como tal apanhamos com os personagens quando crianças em 1970, acompanhamos os mesmos nos anos 90 e ainda os vislumbramos por volta de 2015. O que quer dizer que cada personagem é interpretado por um par de actores diferentes consoante a época em que a história decorre. E muitos deles têm alcunhas em criança e nomes diferentes em adultos…
Resumindo, este filme só pode ter sido um sucesso enorme no japão mesmo.
Metessem isto num cinema americano (ou americanizado) do ocidente e isto seria um fracasso absoluto pois metade das pessoas perder-se-ia por completo no emaranhado da história e personagens infinitamente variados, com a agravante do filme não ter cenas de aventura ou acção intercaladas ao estilo dos argumentos americanos para deixar o cérebro descomprimir.

É que essencialmente [“20th Century Boys“] é um filme oriental de mistério.
E um dos mais intrigantes e completamente hipnóticos que me lembro de ter visto em muito tempo.
Se vocês ficarem intrigados pela história, o seu desenvolvimento não vos vai deixar tirar os olhos do ecran até ao seu final. Final esse que é considerado por muita gente como uma das maiores desilusões do cinema recente.
Isto porque na verdade não corresponde minimamente á ideia de blockbuster com que o filme é vendida no ocidente e como tal era inevitável que muita gente visse as suas expectativas completamente frustradas.

Pessoalmente eu nem queria acreditar no que estava a ver quando o filme parou mesmo no melhor e a expressão “continua” apareceu na imagem.
Nunca tinha visto um filme acabar assim. A sensação com que se fica é que [“20th Century Boys“] acaba ali como podia ter acabado noutro sítio qualquer e isso é um sentimento algo estranho quando como espectadores investimos todo o nosso interesse na história e pelo menos esperávamos que nesta primeira parte algo nos recompensasse os primeiros 150 minutos do nosso entusiasmo.

No entanto…
Superem este pormenor e vão descobrir uma história fascinante suportada por um elenco enorme e cheio de carísma.
O filme practicamente não tem acção (não se deixem enganar pelos trailers), mas nem por isso deixa de ser divertido ou cativante.
Nota alta para o trabalho do realizador que conseguiu manter coeso todo o emaranhado do argumento sem nunca perder o fio á meada e criar um filme divertido e cheio de personalidade. Mesmo sem recorrer a cenas de porrada á americana ou a efeitos especiais ao longo de practicamente todo o filme, [“20th Century Boys“] mantém-nos colados á sua história e interessados no seu desenlace.
Só é pena ainda termos de esperar até ao lançamento do terceiro capitulo para ficar a saber como tudo termina. Isto claro se nunca leram o Manga, cujo o próprio autor é agora o argumentista do filme e talvez seja por isso que esta grande produção pareça ser mais uma banda-desenhada com imagens “reais” em movimento do que propriamente um filme.

Nota alta para o elenco infantil que tem um desempenho absolutamente hipnotizante. Alías, toda a parte passada na infância dos herois é um dos pontos altos do filme a fazer lembrar aquele estilo de história juvenis nostálgicas que normalmente Stephen King costuma contar.
Enquanto espectador não pude deixar de pensar que havia algo de Stand By Me nesta história e isso agradou-me mesmo muito e tenho a certeza irá agradar bastante a todos aqueles que foram crianças nos anos 70 bem antes de existirem computadores, telemóveis, videogames e internet e onde todos nós tinhamos de inventar os nossos próprios mundos de imaginação pois não havia nada do género pré-fabricado. O filme (e a história) capta muito bem o espírito de infância desses anos e sendo assim é mais um dos seus pontos altos.

Como este texto já vai longo e não quero revelar muito sobre o filme vou terminar apenas dando-lhes uma ideia da história.
Essencialmente [“20th Century Boys“] é sobre um misterioso culto religioso centrado num enigmático logotipo e numa figura conhecida apenas como “Friend” e sobre a maneira como esta personagem consegue dominar (e destruir?)  o mundo.
No inicio dos anos 70 um grupo de crianças imaginou uma história de ficção-científica precisamente contendo todos os detalhes que depois se vieram a tornar reais e como tal todo o mistério gira á volta da possibilidae de “Friend” ser na realidade ser uma das crianças do grupo original que de alguma forma conseguiu tornar realidade algo surgido num jogo infantil muitos anos atrás.
Fico-me por aqui pois há muito para descobrirem se virem [“20th Century Boys“].

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CLASSIFICAÇÃO:

Sinto que quando conseguir ver os trés filmes de uma só vez e puder unificar toda a história, hei de voltar a esta review e adicionar mais uns pontos á sua classificação.
Isto porque [“20th Century Boys“] é um filme diferente dos outros porque tem uma estrutura inesperada e como tal devido a isso é quase injusto estar a classificar isoladamente esta primeira parte pois ao contrário de filmes como o primeiro Lord of The Rings, esta não resulta enquanto filme e sente-se mesmo a falta da continuação para podermos ser realmente justos sobre o que dizer sobre o produto final.
No entanto não deixem de ver [“20th Century Boys“] pois é algo absolutamente único e recomenda-se vivamente.
Quatro tigelas de noodles…por agora…

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A favor: também neste filme o argumento labirintico e a forma como cruza os diversos caminhos do destino dos protagonistas, as sequências nostálgicas da infância dos personagens, o elenco e a quantidade enorme de personagens (secundários(?)), apesar da complexidade da história o trabalho do realizador é notável a gerir tudo aquilo, em 150 minutos de filme mesmo sem practicamente acção nenhuma o suspanse mantém-se apenas pela força da história e carísma dos personagens, o estilo de realização tem variações impecáveis que nunca deixam o filme perder o interesse e quase que assistimos a um estilo de filmagem diferente para cada personagem, a fotografia destaca-se especialmente nas sequências dos anos 70, quem gostou de Watchmen irá gostar de [“20th Century Boys“].
Contra: quem espera um blockbuster cheio de acção e estilo cinema catástrofe cheio de efeitos especiais vai ficar muito decepcionado, este primeiro filme não está estruturado enquanto primeiro capitulo com um principio meio e fim e acaba de forma completamente inesperada e sem resolver absolutamente nada do que desenvolve ao longo de quase trés horas, não sentimos que estamos a ver o primeiro filme de uma trilogia mas apenas um bocado do inicio de um qualquer filme de oito horas que subitamente nem sequer fica a meio mas acaba no inicio quando tudo parece ir começar a sério, as cenas de acção que supostamente seriam o climax desta primeira parte são absolutamente desinteressantes e banais mais parecendo a parte final de um qualquer episódio televisivo de uma série desinteressante qualquer com robots gigantes.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=OCFOM5mZx28&feature=related

COMPRAR
A foto acima pertence á edição que eu comprei na Amazon Uk e que recomendo. Os dvds vêm dentro de um bonito livro numa edição hardcover com 24 páginas a cores detalhando muita coisa sobre o universo do filme (cuidado com os spoilers). Tudo com o excelente preço a condizer.
20th Century Boys (2 Discs & 24 Page Book) [2008] [DVD]

Está também já disponível o segundo capitulo numa edição em tudo semelhante á do primeiro caso queiram continuar a colecionar isto em dvds separados.
20th Century Boys Chapter 2 (2Disc & 24 Page Book) [DVD] [2009]

E finalmente o terceiro.
20th Century Boys 3: Redemption (Ws Sub Ac3 Dol) [DVD] [Region 1] [US Import] [NTSC]

Em alternativa, se quiserem já adquirir os 3 filmes de uma só vez também já o podem fazer numa única e muito interessante edição.
20th Century Boys Trilogy – The Complete Saga [DVD] [2010]

Recomendo vivamente a compra das edições dvd acima, mas se quiserem espreitar o filme primeiro podem ir buscá-lo aqui com legendas em Pt(Brasil)

IMDB
http://www.imdb.pt/title/tt1155705/

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Filmes “semelhantes” de que poderá gostar:

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Fa yeung nin wa (In the Mood For Love) Wong Kar Wai (2000) China


Este é o “segundo filme” da “trilogia” romântica de Wong Kar Wai, e portanto será uma prequela para [“2046“] continuando já uma história que se iniciou de certa forma em “Days of Being Wild”.
Antes de mais, [“In The Mood For Love“] é um excelente exemplo do quanto as audiências orientais têm uma relação com o cinema bem diferente das americanas (e das americanizadas) aqui no ocidente.
O facto de [“In The Mood For Love“] ter sido no oriente um enorme sucesso junto do público adolescente é algo verdadeiramente extraordinário.
É quase inacreditável poder dizer a alguém aqui no nosso lado do planeta que este filme, esgotou salas no oriente com sessões repletas durante semanas a fio e principalmente com público adolescente o que é quase impossível de aceitar actualmente.

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Os adolescentes orientais inesperadamente, adoptaram como sua esta nostálgica e poética história de amor adulta e de alguma forma identificaram-se plenamente com as emoções presentes neste filme tendo-o elevado a um estatuto que certamente será muito dificil de compreender para o nosso típico teenager, especialmente aqui por Portugal onde já existe uma geração alimentada essencialmente a “Transformers” e filmes da Marvel completamente insensíveis a qualquer coisa que não seja projectada á velocidade da luz.
O que me leva a concluír que se calhar por muito alucinados que os teens orientais nos pareçam, lá bem no fundo haverá por ali um nível de maturidade  emocional superior até ap de muito adulto ocidental americanizado; alimentado a plástico á base de dietas blockbusters made-in-Hollywood.
No ocidente mostrem [“In The Mood For Love“] a muita gente e ninguém aguentará olhar para ele sequer meia hora, pois certamente irão dizer de imediato que o filme não tem história, que não se passa nada naquilo e que é uma seca descomunal. Especialmente os tugas.

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Aliás, notou-se bem isso quando o filme saiu nos videoclubes em Portugal.
Cheguei a ver  um cliente dizer ao dono da loja que nunca mais voltava lá porque este lhe tinha impingido um filme “pa intelectuais” que nem gravado todo no dvd estava (?!) e tudo, porque segundo aquele crâneo, [“In The Mood For Love“], intitulado em português [“Disponível para Amar“], parece que acabava de repente a meio e não se percebia nada.
Está mais que claro que nem precisamos ir junto dos adolescentes consumidores de filmes do Michael Bay para obter este tipo de comentários.
Mostrem [“In The Mood For Love“], a um português adulto consumidor do genérico cinema da moda e imediatamente ele remeterá este filme para aquela categoria de cinema de autor no pior dos sentidos.

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No entanto, a popularidade deste título no oriente junto do público que geralmente consome cinema comercial, foi absolutamente extraordinária, ao ponto dos seus actores terem atingindo com esta obra um estatuto de estrelas de rock ao nível de uns Rolling Stones ou uma Madonna por aquelas bandas gerando enorme comoção por onde passavam.
Foi tal a histeria que provocavam a cada aparição pública para promover este filme, que os seus personagens se tornaram desde então verdadeiras figuras de culto dentro do cinema romântico, ao ponto de Wong Kar Wai o realizador, as ter ido buscar de novo para o seu filme seguinte, o também extraordinário [“2046“].
Segundo o próprio, a melhor não-sequela que poderia ter feito de [“In The Mood For Love“].
Foi certamente foi a mais inesperada.
Talvez uma das “sequelas” mais inesperadas de sempre dentro de qualquer género como já poderam ver pelo início deste meu longo post nesta versão 2 em 1.

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Na verdade Wong Kar Wai começou a gravar coisas para [“2046”] ainda durante as filmagens de [“In The Mood For Love“], mas mesmo ele nem sabia para que serviriam os takes abstractos sem qualquer lógica que foi filmando pelo caminho.
Isto ao ponto de chegar a desesperar os actores e a equipa técnica que nunca percebeu que raio de filme é que estariam a fazer e só viram o resultado quando Kar Wai apresentou a primeira montagem no festival de Cannes tendo deixado toda a gente de queixo caído perante a beleza de cada imagem e a poesia que mostrou no ecrã, onde cada textura se liga com a musica criando um ambiente românticamente assombrado único e original.

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Como resultado limpou basicamente os prémios mais importantes de Cannes nesse ano.
O que tornou [“In The Mood For Love“],  num filme ainda mais extraordinário, até porque Kar Wai raramente tem um script minimamente completo ou sequer pensado quando faz algum filme, pois é famoso por ir inventado á medida que filma e os takes que não servem, aproveita-os para o filme seguinte num processo onde nada se perde e tudo se transforma.
Aliás é por esta razão que muitas das cenas cortadas no dvd do [“In The Mood For Love“], parecem na realidade pertencer mais ao filme seguinte [“2046”],  que ainda nem sequer existia na cabeça do realizador do que a [“In The Mood For Love“] a ser filmado na altura; o que não deixa de ser engraçado.

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Mas a verdade é que este filme por muito inacreditável que isto pareça a muita gente, tornou-se realmente num enorme éxito comercial em quase todo o lado.
O que é ainda mais estranho pois deve ter sido o primeiro filme completamente ligado ao chamado Cinema-de-Autor a ter feito não só muito dinheiro como ainda a ter transformado o seu realizador e actores em verdadeiras estrelas.
Claro que foi um éxito comercial em todo o lado, menos na Europa e nos EUA, onde óbviamente também teve sucesso mas apenas dentro daquele circuito fechado das salas que só passam cinema-de-autor pois seria pedir muito que um filme como este pudesse ser apreciado pelas audiências que habitualmente levam com overdoses de blockbusters americanos a 200 á hora e consomem milho á mesma velocidade enquanto falam ao telémovel durante as projecções quando “não se passa nada” em filmes como este.
Mas passemos á frente.

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Não há muito que se possa dizer sobre [“In The Mood For Love“], pois este é um daqueles filmes em que realmente não se passa nada e portanto pouco se pode contar sobre a sua história, porque o cinema de Wong-Kar-Wai não depende de histórias mas sim de detalhes.
Na verdade se há algo em que Wong-Kar-Wai é realmente bom, será a fazer filmes “sobre nada”.
O verdadeiro conteúdo dos seus filmes não está nas histórias, mas sim nas emoções que este consegue transmitir e fazer o espectador sentir apenas com as coisas mais simples.
Um candeeiro á chuva, os ponteiros de um relógio, um livro, um espelho, tudo serve para criar atmosfera.

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Alguém disse um dia que nos filmes de Wong-Kar-Wai até o fumo é belo e transmite mais emoção e poesia do que horas intermináveis de diálogos pseudo-românticos nas supostas love-stories americanas formuláticas.
É realmente uma boa definição das extraordinárias capacidades deste autor para fazer transparecer emoções através das coisas mais simples e nisto [“In The Mood For Love“],  é um dos seus exemplos mais perfeitos.

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Correndo o risco de fazer fugir as pessoas, a história de [“In The Mood For Love“], é a seguinte:
– No início dos anos 60, em Hong Kong, um casal aluga um quarto numa pensão familiar. A mulher é secretária numa empresa de exportações, o marido trabalha agora na marinha mercante e passa practicamente meses a fio sem vir a casa.
Como resultado, o casamento dos dois, é algo quase inexistente e de conveniência pois naquela época, especialmente na China da altura o divórcio era a maior desonra que poderia cair em cima de uma jovem mulher a seguir ao adultério.
No mesmo dia em que este casal aluga o seu quarto, também outro casal, um jovem jornalista e a sua mulher, alugam o quarto ao lado. Este trabalha para um jornal, mas o seu verdadeiro sonho é ser escritor de pulp-ficition ao melhor estilo de artes marciais, algo que segundo o filme seria bem popular na altura em Hong-Kong.

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Também ele se sente sózinho pois desconfia que a sua mulher o trai e por vias do destino, encontra-se com a sua solitária vizinha de quarto ocorrendo óbviamente uma enorme atracção entre os dois.
Uma atracção com base numa amizade criada pelo facto de ambos gostarem de romances de artes marciais e de se sentirem também absolutamente sózinhos.

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Um dia descobrem por acaso, que a mulher do jovem jornalista é na verdade amante do marido da jovem secretária e que este não faz apenas longas viagens em trabalho mas principalmente usa-as como desculpa para trair a mulher com a esposa do jornalista.
E esta é a história inteira do filme.
Não se passa absolutamente mais nada em [“In The Mood For Love“], que possa ser descrito.
E perguntam vocês – então mas onde raio está o interesse nesta telenovela banal ?

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Wong Kar Wai pega nesta simples ideia e transforma-a numa verdadeira sinfonia de emoções músicais, onde cada imagem é um poema visual e onde a música aliada a enquadramentos absolutamente inesperados transporta o espectador para uma posição quase de espectador casual fazendo-o entrar no filme como se tivesse sem querer escutado uma conversa que não deveria ouvir mas de que não consegue deixar de querer saber mais porque ficou a gostar das pessoas que ouviu.

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É esta a grande força narrativa do filme, e Kar Wai, usa-a para criar um suspanse poético como nunca tinha acontecido numa história de amor.
Todo o filme gira á volta do facto de obviamente os dois protagonistas se amarem e serem realmente almas gémeas que nunca se poderão tocar.

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Não podem arriscar uma relação física entre eles, pois num meio tão pequeno onde todos saberiam imediatamente o que se passava os dois são obrigados a viver de aparências enquanto têm uma relação platónica que também tem de ser mantida secreta porque senão a reputação da rapariga poderia ficar manchada para sempre naqueles austeros anos 60 onde o divórcio nem sequer era opção.

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No meio de tudo isto, eles chegam a encontrar-se num quarto de hotel , precisamente o número “2046” onde Wong kar Wai nos deixará para sempre na dúvida se algo mais realmente aconteceu entre os dois, pois esse número é precisamente o centro da “sequela” no filme [“2046”],  cujo o título se refere precisamente á saudade que o protagonista tem do quarto onde por uma vez na vida viveu um amor de verdade e que é relatado agora em [“In The Mood For Love“].

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Tudo isto é colocado em imagens musicadas pelo génio de Wong Kar Wai de uma forma que é realmente muito dificil de ser descrita em palavras pois todo o filme é um bailado de imagens e enquandramentos indo buscar poesia até ao mais comum dos objectos.
[“In The Mood For Love“], é como um filme musical onde ninguém canta, mas onde a música está sempre presente e é essencial para contar a história e transmitir emoções.
É como um videoclip absolutamente romântico que dura hora e meia e que não precisa de muitos diálogos para contar uma história, fazer-nos sentir e acima de tudo identificarmo-nos com aquelas duas pessoas que poderiam ser qualquer um de nós.

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Uma coisa vos garanto, depois deste filme, nunca mais vão ouvir uma música de Nat-King-Cole da mesma maneira, pois será impossível não pensarem em [“In The Mood For Love“] e nesta história de amor.
E quem pensa que não gosta de Nat-King-cole passa a gostar.

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CLASSIFICAÇÃO

Uma das melhores histórias de amor de todos os tempos e provavelmente uma das mais simples.
Um filme onde até o fumo é algo que poderiamos ficar a olhar durante sequências a fio sem nos aborrecermos e um dos objectos cinematográficos mais visualmente poéticos de todos os tempos.

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É aquele tipo de filme onde podemos fazer pausa a cada segundo e temos uma pintura absolutamente poética no ecran, pois a fotografia desta história de amor é do outro mundo.

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A favor: a poesia, a história e a maneira como foi trabalhada, a extraordinária banda sonora, os personagens inesquecíveis, o trabalho dos actores, a realização é absolutamente notável em todos os sentidos, a fotografia fabulosa, os enquadramentos subliminares, a paixão, a alma do filme, o melhor filme-de-autor “comercial” de todos os tempos ponto final.

Contra: o final é estranho pois parece que não pertence ao resto do filme e não ter nada a ver com a história que acabamos de ver (as cenas apagadas no dvd explicam bem melhor o que aconteceu), não será por isso um filme propriamente apontado ao típico frequentador de salas de cinema de centros comerciais Portuguesas apesar de as ter esgotado no oriente durante semanas a fio.

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILERS

Um dos trailers oficiais é na verdade quase uma curta-metragem. Uma versão mini do próprio [“In The Mood For Love“] e espelha muito bem o estilo visual e narrativo do filme. Conta com uma música interpretada por Brian Ferry chamada precisamente “In the mood for love” e apesar desta música não fazer parte da banda sonora dentro do filme, tornou-se no entanto indisociável da obra.
Espreitem que vale a pena, pois acima de tudo é um excelente videoclip montado pelo próprio realizador.

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NÃO COMPRAR EM DVD ou BLURAY…muito menos em Portugal !
Já existe em bluray mas infelizmente apenas para a região A .
Também está actualmente esgotado em DVD pelas bandas da Inglaterra e só existe uma edição Alemã sem legendas nenhumas…
É aguardar melhores dias para comprar isto…

Atenção: Esqueçam a edição portuguesa, pois só o facto de conter o filme APENAS em stereo 2.0 é razão suficiente para a ignorarem. Num filme em que a música é quase um personagem, terem em Portugal mais uma vez lançado uma edição completamente básica de um filme oriental como este é um verdadeiro insulto ao consumidor, quando este filme é para ser visto com o extraordinário som 5.1 que está na edição Uk.
Não comprem a edição portuga da Lusomundo só por causa das legendas, pois entre ver [“In The Mood For Love“], em stereo e não o verem, sugiro mesmo que não o vejam, pois este filme precisa de um som 5.1 e DTS de preferência para poder realmente transmitir todas as emoções e magia que contém.
Além disso a edição portuga só trás um making of, que até nem é nada mau, mas quando comparado com a enorme quantidade de material extra da edição inglesa até mete impressão que editem filmes como este com tanto conteúdo disponível apenas em edições básicas como fizeram em Portugal com este absolutamente imprescindível filme para quem gosta de bom cinema romântico.
A capa da edição Portuguesa é parecida a esta:

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0118694/

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E se gostaram de [“In The Mood For Love”], então irão certamente gostar dos filmes seguintes.
No caso de “My Blueberry Nights” vão adorar as semelhanças de ambiente, até porque segundo Kar-Wai, esse pode ser considerado um remake em versão inglesa do “In The Mood For Love”, e logo vão perceber porquê.
[“In The Mood For Love“], é na verdade o segundo filme de uma trilogia que não existe oficialmente. E desta trilogia, é o primeiro filme que deverão ver, mas para saberem mais sobre isto consultem a minha review sobre “Days of Being Wild” sem falta.

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E como curiosidade, que quiser espreitar uma curta metragem (publicitária) inédita de Wong-Kar-Wai siga o link abaixo pois não ficará desiludido se gosta do estilo visual do realizador.
http://www.youtube.com/watch?v=gBsbEopulOM&feature=related

 

A Fei zheng chuan (Days of Being Wild) Wong Kar Wai (1991) China


Este é o primeiro filme numa trilogia que por acaso até nem existe.
Confusos ? Pois ainda irão ficar mais porque isto é um bocado dificil de se explicar de uma forma simples.

[“Days of Being Wild“], técnicamente será o primeiro capitulo não oficial de uma história que percorre mais outros dois filmes, “In The Mood for Love” e “2046“.
O mais estranho, é que actualmente, para que vocês consigam apreciar devidamente esta “primeira” parte, convém que já tenham visto os dois filmes “seguintes” pelo menos umas duas vezes de modo a captarem todas as referências que depois poderão reconhecer neste “primeiro” filme.
E vice-versa…
Eu avisei que isto seria confuso.
[“Days of Being Wild“], é como o epílogo de um livro que na verade narra a “primeira” parte de uma longa história de amor que acabamos de conhecer.
Por isso antes que vejam este “capítulo”, devem começar pelo “In The Mood for Love” (que é a “segunda” parte) e depois “2046” que é a  “terceira” e funciona como conclusão para todo o arco da história.
Parece estranho não é ?

Pois parece, mas esta é definitivamente a ordem pela qual esta complexa história de amor e saudade deve ser vista.
Por exemplo, se vocês virem “2046” sem conhecerem os “capítulos anteriores”, podem apreciar na mesma o filme e até compreende-lo perfeitamente, mas não estarão a acompanhar esta história na sua plenitude, porque nunca irão notar a incrível quantidade de pormenores que o ligam directamente aos outros filmes “anteriores” e dão um novo sentido a essa “terceira” parte.
Particularmente, um sentido ainda muito mais romântico, porque depois de verem os “capitulos” anteriores vão reconhecer em “2046” pequenos detalhes que completam e enriquecem de uma forma espantosa inúmeras coisas que “ficam em aberto” tanto em “In The Mood for Love” como neste [“Days of Being Wild“].
Mas isto só funcionará se primeiro começarem por ver ou o meio da história em “In The Mood For Love” ou o final em “2046“.
Vejam [“Days of Being Wild“] e se já conhecerem “2046“, da próxima vez que reverem essa “terceira” parte vão descobrir um “2046” completamente novo.

E antes que vocês fiquem mais confusos, o primeiro filme por onde devem começar a ver esta história é o “segundo”, o mágnifico “In The Mood for Love“.
No entanto que isto não os impeça de continuar agora a ler esta review de [“Days of Being Wild“].
Sim, porque isto pode não parecer mas é de [“Days of Being Wild“], que ainda trata este texto.
Acho que preciso de uma aspirina.

E perguntam vocês com copos de comprimidos na mão, – mas porque raio é que eu devo começar a ver isto fora de ordem cronológica ?
Porque a grande magia desta(s) história(s) está não na sua sequência cronológica de acontecimentos, mas em descobrirmos filmes completamentes novos da segunda vez que vemos os capítulos que se seguem a [“Days of Being Wild“],  nesta “trilogia”.
Depois de conhecerem o final das histórias, o verdadeiro prazer cinematográfico está em regressarem ás origens de tudo e descobrirem coisas que lhes renova por completo as “sequelas” da próxima vez que as virem.
Acreditem-me que irão apreciar muito mais esta história assim desta maneira, pois a sua grande magia está na forma como este formato de argumento estilo puzzle nos faz descobrir pormenores que depois tapam todas as “imprecisões” que encontramos nas narrativas de “In The Mood for Love” e “2046” quando os vimos enquanto filmes isolados. É como uma caça ao tesouro cinematográfica interactiva.
E não há dúvida que isto funciona perfeitamente, o que torna estas obras em algo muito surpreendente, especialmente se pensarmos que segundo Wong Kar Wai nenhum dos filmes tinha sido pensado como sequela do que quer que fosse.
O que para aqueles que estão a par da maneira como Kar Wai escreve e filma as suas obras não é nada de espantar, pois ele é conhecido por fazer filmes sem sequer ter argumento e ir inventado á medida que filma.
Ainda está alguém aí ?

Certamente a esta altura os que ainda me leêm gostavam de saber sobre o que trata este [“Days of Being Wild“].
Bem…para explicar isto tenho de voltar a “In The Mood for Love“e a “2046“.
Basicamente [“Days of Being Wild“], retrata a juventude da personagem que a actriz Maggie Cheung interpreta em “In The Mood for Love“. Ficamos a saber como era a vida dela na sua terra natal antes de conhecer o marido, (aquele que a atraiçoa na “sequela”) e antes de ir viver para o quarto de pensão que habita no “segundo” filme já em Hong-Kong. O seu futuro marido, aqui poderá eventualmente ser o personagem do jovem policia que é uma das histórias românticas desta “primeira” parte.

Conta também a história de amor de outra rapariga, uma baliarina que neste caso é a outra personagem feminina “principal”, (se é que isto existe na obra de Wong Kar Wai).
Esta rapariga iremos mais tarde reencontrar em “2046” e ficar a conhecer o rumo que a sua vida tomou após os acontecimento narrados em [“Days of Being Wild“].
O seu personagem é um excelente exemplo daquilo que refiro a propósito dos filmes ganharem uma nova vida numa segunda visão, pois inicialmente se a virem em “2046” esta personagem aparece quase como apenas mais uma mulher como tantas outras na vida do personagem interpretado por Tony leung nessa “terceira” parte. Mas quando vocês virem [“Days of Being Wild“],  essa mulher em “2046” ganha nova vida  e uma nova conotação trágico-romântica que ilustra ainda mais o tema da saudade de um amor perdido, presente no “terceiro” filme.

O terceiro personagem “principal” em [“Days of Being Wild“], e na verdade o “heroi” do filme é um jovem rebelde ao estilo James Dean versão decadente oriental e que é um dos polos centrais do argumento, envolvendo-se românticamente com a jovem bailarina e dando origem á principal linha narrativa deste “episódio”.

E mais uma vez, também aqui [“Days of Being Wild“], se liga agora com “In The Mood for Love“, pois a tia deste jovem rebelde é a mesma personagem secundária que depois na “sequela” estará a viver em Hong-Kong e alugará um quarto aos personagens de Maggie Cheung e Tony Leung que nesse filme já serão as figuras centrais da história e onde já não existem vestígios aparentes deste primeiro filme no argumento.
No entanto este personagem da tia do jovem rebelde, de [“Days of Being Wild“], nunca se cruza nesta parte com os personagens com que depois irá interagir directamente em “In The Mood for Love“. Apenas habitam o mesmo filme como se vivessem num mundo normal e só os espectadores soubessem depois que os seus destinos se iriam cruzar no futuro.
Por causa disso, ao vermos o “In The Mood for Love“, conhecendo o personagem da tia, ficamos a perceber melhor a razões da sua melancolia “sem explicação”.
Simples não é ? 🙂

Mas se querem uma coisa realmente estranha neste filme, então podem encontrá-la no seu final.
E não se preocupem, pois isto nem sequer é um *spoiler*.
Os últimos minutos de [“Days of Being Wild“], não têm absolutamente nada a ver com o que se passa durante o resto do filme todo e subitamente surge no ecrã o personagem interpretado por Tony Leung em “In The Mood for Love” (?) a vestir-se num quarto de hotel obscuro sem nenhuma razão aparente e o filme acaba assim sem sequer concluir qualquer outra das histórias que supostamente tinha iniciado.

Isto sem razão absolutamente nenhuma para o actor sequer entrar no filme, ou o personagem da “sequela” lá estar, pois [“Days of Being Wild“], foi filmado pelo menos 10 anos antes de “In The Mood for Love” sequer ter sido pensado e muito menos o “2046” e como tal a coisa ainda fica mais estranha, embora Kar Wai também seja conhecido por introduzir coisas em filmes presentes que eventualmente depois poderá aproveitar no futuro.
Também filma sempre mais do que precisa pelos mesmos motivos e muitas das vezes como se queixou Maggie Cheung durante os mais de dois anos de filmagens de “In The Mood for Love“, Kar Wai, filma coisas que nem sequer pertencem ao filme ou a qualquer outro que já tenha pensado. Sempre com aquela ideia de ter algo que sirva para ser eventualmente usado no futuro, pois é esse o seu genial método criativo que até agora só deu excelentes resultados com obras intensamente românticas.

Se isto não é uma forma original de contar várias histórias de amor ao mesmo tempo, não sei o que será. Por tudo isto, o melhor é começarem a acompanhar estes personagens pelo “segundo” capítulo, pois garanto-vos que apanharão muito melhor as emoções de toda a história se depois forem descobrindo aos poucos as histórias por detrás de tudo quando voltarem ás origens.
Começar a acompanhar estas histórias românticas pelo início seria o mesmo que ver os Star Wars a começar pelos novos Episode I,II e III, pois a revelação de que Darth Vader é o pai de Luke Skywalker no Império-Contra-Ataca perderia todo o impacto drámatico e deixaria de ser uma surpresa para quem não conhece a história.
E não se preocupem, isto parece mais confuso do que na realidade é.

O problema é que como habitualmente os filmes de Wong Kar Wai não são para ser contados, mas sim para serem vistos e acima de tudo sentidos. Ninguém conta “histórias sobre nada” como Kar Wai o faz e apesar de [“Days of Being Wild“], não ser de forma nenhuma o seu melhor filme é no entanto obrigatório para quem já viu “In The Mood for Love” e “2046“.
Tenham em atenção que o estilo visual deste “primeiro” episódio ainda pertence á fase inicial do realizador e como tal não tem aquela aura refinada e muito trabalhada visualmente que os filmes actuais dele têm. [“Days of Being Wild“], é quase um Won Kar Wai estilo cinema amador experimental onde se sente que o realizador está ainda a aprender a ser aquilo que hoje em dia é.
Para quem não sabe, Wong Kar Wai não vem de qualquer escola de cinema, ou tem qualquer estudo na area. Kar Wai começou como desenhador gráfico a trabalhar numa banal empresa do ramo e tal como Peter Jackson, por acaso diverti-se a a fazer uns filmes “caseiros” com os amigos nos seus tempos livres, tendo conhecido nesse percurso a (agora) actriz Maggie Cheung que na altura trabalhava como caixa num hipermercado e a partir da sua colaboração e amizade fez-se história no cinema oriental.
[“Days of Being Wild“], é um bom exemplo da colaboração inicial dos dois, embora não seja propriamente o primeiro filme do autor.

Como tal, apesar do actual estilo narrativo Kar Wai já se fazer notar, [“Days of Being Wild“], ainda segue aquela estrutura muito fragmentada e crua, tornando este “episódio” mais um objecto de Art-House, (vulgo, Cinema-de-Autor) do que própriamente será um produto cinematográfico acessível aos gostos do publico que procure algo mais comercial no estilo romântico de por exemplo “The Classic“.
Apesar de alguns momentos bastante poéticos, [“Days of Being Wild“], não contêm aquela atmosfera romântica constante de “”In The Mood for Love“, “2046” e “My Blueberry Nights“, sendo essencialmente uma obra fria devido á crueza das imagens e ao próprio low-budget do filme que se nota perfeitamente.
Embora já conte com aquela ligação extraordinária entre imagem e música que hoje é habitual na obra do realizador, mas tudo ainda a um nível bastante mais rudimentar e experimental.

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CLASSIFICAÇÃO:

Se virem, [“Days of Being Wild“], sem conhecerem “In The Mood for Love” e “2046“, este poderá parecer-lhes um filme demasiado pretencioso e artístico no pior dos sentidos se estiverem á procura de um produto comercial.
Aliás, este é um daqueles filmes mesmo sem sentido absolutamente nenhum á primeira vista, sem história e sem conclusão.
Um Art-House no pleno sentido da expressão e não se pode propriamente considerar um filme para o circuíto comercial.
Além disso as cópias que existem têm não só um som muito mediano, como ainda por cima a imagem não é nada famosa, reflectindo plenamente a falta de orçamento do filme.
Portanto, se procuram uma típica história romântica mais comercial no melhor estilo oriental, não a irão encontrar aqui se esperam algo mais directo e imediato. Para isso vejam “Be With You“, “The Classic” ou “My Sassy Girl“.
Agora, se gostaram mesmo de “In The Mood for Love” e “2046” este [“Days of Being Wild“],  é não só de visão obrigatória como uma compra essencial que não só completa emocionalmente os dois filmes “seguintes” como é um excelente exemplo do cinema mais antigo de Wong Kar Wai.
Mesmo visto isoladamente é um excelente filme de autor, que embora apesar de frio, contém em alguns momentos suficientemente poéticos para dar vida ao lado romântico da história e onde se nota já aquilo que depois se viria a tornar no melhor das obras futuras de Kar Wai e que actualmente culminou no fabuloso “My Blueberry Nights“.
Um óptimo filme de autor para quem não tiver medo do género e por isso leva trés tigelas e meia de noodles.
Não leva mais porque comparado com fabulosas “sequelas” na minha opinião ainda se nota que não é um trabalho plenamente conseguido.

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A favor: a atmosfera, os momentos românticos, a fabulosa enorme sequência filmada num só take a meio do filme, a maneira como a música é usada para ilustrar as emoções da história, ficamos a conhecer o passado dos personagens de “In The Mood for Love” e “2046“.
Contra: pode ser um filme demasiado ilógico para muita gente pois é cinema de autor puro.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailers
Sugiro que vejam os dois, pois dão uma boa ideia do estilo Art-House do filme.
http://www.youtube.com/watch?v=btsJHsuqF24
http://www.youtube.com/watch?v=IBhxLPNdG4o

Comprar
Á venda na Amazon Uk a um preço excelente. É de aproveitar.

Outras reviews
http://www.kfccinema.com/reviews/drama/daysbeingwild/daysbeingwild.html

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0101258/

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Se gostou deste vai gostar certamente dos seguintes filmes abaixo.
Aliás, mesmo que não tenha gostado deste  vai gostar dos filmes abaixo.

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