Monk comes down the mountain (Dao shi xia shan) Chen Kaige (2015) China


De vez em quando aparecem-me filmes de que me esforço tanto por gostar que depois se torna absolutamente frustrante ter que reconhecer que são um verdadeiro desastre. E pior ainda, não se entende bem porquê.

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Nem de propósito, ainda no post anterior tinha acabado de falar sobre um dos meus filmes de fantasia favoritos “The Promise” e recomendado a sua edição em Blu-Ray, quando minutos depois me caiu de pára-quedas este título, [“Monk comes down the mountain“], o mais recente filme  precisamente do mesmo realizador.

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Após uns cinco minutos iniciais com uma cena de pancadaria muito divertida, após um genérico cheio de atmosfera (excelentes enquadramentos) e paisagens fantásticas e após uma primeira meia hora inicial onde parecia que [“Monk comes down the mountain“] tinha tudo para ser uma boa história de artes-marciais num estilo quase conto de fadas urbano, eis que de repente tudo descamba num dos títulos mais desperdiçados que me lembro de ter encontrado em muitos anos.
Desta vez até concordo em absoluto com os dois comentários postados no site do imdb.
[“Monk comes down the mountain“] é um falhanço absoluto e tinha tudo para vir a ser um triunfo.

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Para começar visualmente tem momentos fabulosos. Não só em termos de paisagens, como na composição de muitos enquadramentos; excelente fotografia e uma cenografia verdadeiramente inspirada principalmente na primeira meia hora que nos transporta imediatamente para uma espécie de China encantada por volta de 1920 e nos garante a todos os nossos sentidos que [“Monk comes down the mountain“] vai ser um espectáculo.

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Depois tira-nos o tapete debaixo do pés e levamos com uma hora e meia final que não se entende de todo, com muito pouco de positivo e muito pouco a ver com o filme que parecia ser no início.
A história desperdiça por completo um personagem principal excelente e cheio de carísma e parece quase inacreditável. O actor principal é a razão porque vale a pena continuar a acompanhar a coisa até ao fim. Dá mesmo vida ao personagem, tem muito carisma e todo os melhores momentos são dele.
[“Monk comes down the mountain“] poderia ser genial porque tem uma coisa que à partida parecia ser excelente. Verdade seja dita, este é mesmo um daqueles filmes em que não fazemos qualquer ideia do que irá acontecer a seguir.

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Não porque a história seja confusa ou inesperada no seu rumo dentro de um contexto narrativo concreto, mas porque o argumento de [“Monk comes down the mountain“] parece não fazer ideia de qual o caminho que irá seguir na próxima cena sequer !
Em termos de dinâmica narrativa chega a ser bastante confuso, pois a história avança várias vezes no tempo e o espectador nem repara que passaram alguns meses ou anos desde a última cena. Só minutos depois percebemos onde estamos porque acontece algo que nos obriga a tentar localizar tudo o que vemos no que está a acontecer depois. E enquanto estamos a pensar nisso, damos por nós a não reparar no que está a suceder no momento.

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[“Monk comes down the mountain“] básicamente é um filme sobre sexo, vassouras e kung-fu.
Na verdade pretende ser uma espécie de história filosófica muito profunda indo buscar conceitos espirituais a várias tradições da filosofia  chinesa, só que a forma como apresenta toda essa vertente é tão atabalhoada que a partir de certa altura parece que nos está constantemente a atirar com filosofia new age de cordel para tentar ser cinema profundo quando se calhar deveria estar a entreter-nos.

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Em muitas alturas pareceu-me que o filme pretendia ser uma espécie de versão ligeira de “The Grandmaster” de Wong Kar Way, esse sim um filme que acerta em cheio na forma como liga a tradição filosófica oriental á própria cultura do Kung-Fu enquanto tradição espiritual. [“Monk comes down the mountain“] parece ser uma espécie de versão pimba de “The Grandmaster” em muitos momentos. Não só pelo paleio que aqui não resulta por parecer pseudo-filosofia impingida à força, mas também em muitos momentos das cenas de acção que se assemelham mais a recriações “divertidas” das cenas de luta de IP Man no filme de Wong Kar Way do que a qualquer tentativa de criar algo com uma identidade original.

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[“Monk comes down the mountain“] começa por ser a história de um jovem monge que sempre viveu num mosteiro desde que foi abandonado à porta quando era bébé e que um dia … é convidado a sair, para se fazer à vida e ir conhecer o mundo exterior.
O início da história é muito cativante e tudo indica que o filme vai ser realmente bom.
O monge chega à grande cidade pela primeira vez e logo faz amizade com um velho cirurgião de medicina ocidental depois de uma divertida sequência de perseguição pela cidade. O seu novo amigo, também tinha um dia sido um monge mas escolheu abandonar a vida religiosa por causa de … sexo. O coitado não aguentava estar todo o dia no templo a ver passar tanta mulher gostosa e resolveu abandonar tudo para se casar com uma bela jovem.
Até aqui tudo bem.

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A história prossegue;  o jovem monge vai trabalhar para casa do médico e logo descobre que a mulher deste tem um jovem amante, precisamente o irmão mais novo do senhor e que é uma espécie de besta quadrada que tenta fazer tudo para ficar com a fortuna do irmão mais velho.
É neste segmento que se sucedem as melhores cenas do filme. A narrativa é divertida, o ambiente é um espectáculo (os detalhes da cenografia e guarda roupa são impecáveis) e nada fazia prever que [“Monk comes down the mountain“] iria afundar-se dali a minutos no final desse segmento.

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E quando digo segmento, quero mesmo dizer -segmento-. [“Monk comes down the mountain“] está incrivelmente fracturado e parece ser uma espécie de colagem de vários outros filmes que por qualquer motivo não ligam de todo uns com os outros.
Após o excelente início, (inclusivamente depois de uma cena com um visual cgi inspirado passada debaixo de água), de repente o filme muda de registro e perde todo o sentido visual épico, passando essencialmente a ser uma história de interiores onde tudo gira ao redor de uma antiga rivalidade entre facções de mestres de Kung-Fu e é aqui que o filme entra pelos territórios mais parvos e sem qualquer nexo. Saltos narrativos para cenas de guerra incluidos…espectaculares mas … porquê ?!

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Não quero revelar muito, porque mesmo assim ainda acho que vale a pena espreitarem isto. Quanto mais não seja pela originalidade que resulta de toda esta mistura. Uma mistura que só não funciona, porque primeiro a história de kung-fu não se decide se quer ser cinema de acção ou impingir filosofia de pacotilha ao espectador através de diálogos inenarráveis;  debitados por personagens absolutamente vazios, ou antipáticos como o raio sem qualquer razão aparente.
Pior ainda é quando tenta entrar pela comédia de acção pois não tem graça (ver a cena da droga).

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E por falar em acção, mais uma vez o trabalho acrobático de fios em [“Monk comes down the mountain“] é tão bom quanto já tinha sido em “The Promise“, o problema aqui é que todas as cenas de kung-fu ou são tão over-the-top e exageradamente histéricas que perdem toda a tensão, ou então são repetitivas como o raio e lá para o fim já não temos mais pachorra para ver tanta gente anónima a voar pelos ares pendurados por fios invisiveis.

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Tal como acontece naqueles filmes de super herois irritantes onde há tanto cgi nas cenas de luta que tudo acaba por se tornar absolutamente desinteressante, também em [“Monk comes down the mountain“] tanta gente pendurada por fios em lutas prácticamente idênticas a todo o instante  acaba por eliminar por completo todo o interesse que as cenas de acção deveriam manter.

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Por outro lado a acção só se tornaria interessante se nos preocupassemos com os personagens e neste filme tirando o heroi que é excelente (e os personagens do primeiro segmento), de resto não há por aqui nenhuma pessoa com que nos importemos.
Até porque nenhum tem grande lógica. Uns aparecem para morrer apenas, outros não têm personalidade ou motivação para serem “filosóficos” a martelo, outros são simplesmente aborrecidos.

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Os mafiosos são ridiculos, anónimos ou estereotipados para além de serem unidimensionais como o raio e “filosóficos” por demais; o mesmo vale para os supostos mestres do Kung-Fu que têm o carisma de uma pedra e a personalidade de um cepo ou então são antipáticos ao ponto de lhes querermos enfiar um murro nós próprios (o monge budista). Tudo isto afunda por demais um filme que merecia ter tido melhor sorte.

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Isto porque tudo o que faz bem, acerta totalmente em cheio. O problema é que tudo o que faz mal é realmente insuportável e pior, torna o filme chato como o raio porque se torna absolutamente desinteressante. E então se viram “The Grandmaster” e gostaram do filme de Wong Kar Way não vão conseguir deixar de comparar os dois filmes por muito diferentes que estes sejam ou estúpida que seja a comparação.

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CLASSIFICAÇÃO:

Ignorem o trailer. O filme parece muito divertido na apresentação mas não se deixem enganar, porque o tom  desta história é bem diferente e muito mais caótico.
O que raio se passou com [“Monk comes down the mountain“] ?!
Depois de “The Promise”, o mesmo realizador faz uma coisa destas por que razão ?
Este filme tinha tudo para ser um dos filmes de fantasia mais originais dentro de um registo de Kung-Fu e no entanto desperdiça todas as cenas, até mesmo as cenas de kung-fu !!
Infelizmente ao contrário de “The Promise” não me parece que vá rever este filme tão cedo na minha vida. Uma vez chega. E este não vou comprar em Blu-Ray de certeza.

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Duas tigelas de noodles e meia. É interessante, vale a pena ser visto uma vez pelo que tem de positivo mas depois passem à frente.
Uma decepção.

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A favor: alguns momentos visuais são do melhor, a primeira meia hora é tudo o que o resto do filme deveria ter continuado a ser, o protagonista/actor principal é excelente e muito carismático, excelente fotografia, um par de lutas kung-fu em estilo voador bastante divertidas.
Contra: depois da primeira meia hora o filme muda de registo, há um excesso de fragmentação nesta história que não se entende, personagens totalmente desinteressantes ou antipáticos na sua maioria, excesso de lutas anónimas onde se pontapeia em estilo cartoon hordas de vilões que aparecem de todos os lados só porque sim, está cheio de filosofia de pacotilha do pior, não cria qualquer ligação emocional com o espectador a não ser que o aborrecimento de morte seja uma boa emoção.

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TRAILER

 

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt3594826
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Filme semelhante de que poderá gostar:

capinha_grandmaster

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Cinema_oriental_no_facebook

The Grandmasters(s) (Yi dai zong shi) Wong Kar Wai (2013) China


Quem não conhece o trabalho de Wong Kar Wai enquanto realizador e parte para [“The Grandmaster(s)”] convencido pelo trailer americano de que isto vai ser um filme de Kung-Fu ou uma aventura do Ip Man no reino da porrada de criar bicho cedo descobre que foi enganado pela forma como o filme lhe foi vendido e talvez isso explique o apedrejamento que esta incrível obra prima visual está a sofrer em praticamente todos os forúns públicos pela internet fora aqui no ocidente. Ou melhor, mais pelo lado americano como não podia deixar de ser.

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Felizmente não por toda a gente, mas é certo que o público do cinema de acção genérico (leia-se -á americana-) parece estar a descarregar bem a sua raiva por lhe terem vendido um filme que é bem mais do que a típica aventura de artes marciais a que estamos habituados no ocidente.
E desta vez até lhes dou razão.
Não há dúvida que [“The Grandmaster(s)”] não é de todo o filme de porrada que aparenta nos trailers. Em particular nos trailers remontados nos estados unidos. Há um então com aquela voz gringa estilosa do costume que é de cair a rir ou de chorar consoante a perspectiva.

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Os distribuidores americanos parece que pensaram que a melhor maneira de vender [“The Grandmaster(s)”] no ocidente seria enganar o público e tentar levar o máximo de gente ás salas convencidos que iam ver um filme de aventuras ou cinema de artes marciais como os americanos pensam que os filmes de artes marciais devem ser.
Resultado, o público tem toda a razão em sentir-se enganado e se calhar eu também protestava.

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Na minha opinião, no entanto estão a escolher o alvo errado. Se calhar em vez de apedrejarem o filme, deveriam mas era apedrejar a distribuidora gringa que resolveu ocidentalizar o trailer de forma a meter o maior número de pessoas nas salas pensando que iam ver um blockbuster.
Isto porque está a acontecer uma coisa interessante que não deixa de ser sintomática da forma como Hollywood formatou e estereotipou –o gosto– dos frequentadores de salas de centro comercial nestas últimas décadas.
Quem ataca o filme por ser uma seca, ter história a mais e porrada de menos, não são sequer a maioria dos apreciadores do puro cinema de artes marciais oriental pois muito desse mesmo público tenta inclusivamente defender [“The Grandmaster(s)”] perante os ataques de muitos “cinéfilos” ocidentais a espumarem desapontamento pelos blogs, youtube e afins.

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Quem ataca o filme são essencialmente aqueles espectadores que tanto foram ver isto por ter karaté pelo meio como iriam ver outro blockbuster qualquer saído dos enlatados que Hollywood lhes mandasse ver nesse fim de semana. Aliás, praticamente toda a gente ataca o filme porque ele no trailer ocidental parecia um blockbuster épico de cacetada e pontapés nas trombas e no fim saiu um épico sim senhor, mas um drama épico. Ainda por cima um drama com uma estrutura narrativa totalmente fragmentada que não transporta o espectador pela mão da cena A à cena B mas pede-lhe que esteja atento e construa por si próprio a narrativa; o que deixou logo muita gente desconcertada porque veio ver porrada e depois ainda teve que pensar…e pior, o filme não tem maus nem bons, nem nada !!! Onde está o vilão ?!!!

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O que eu acho absolutamente fascinante é [“The Grandmaster(s)”] estar a ser tão atacado por ter paleio a mais e porrada a menos quando cenas de acção é coisa que não falta neste filme.
É que [“The Grandmaster(s)”] tem porrada de criar bicho sim senhor; apenas não está colocada dentro de uma história linear à americana e esse facto desorienta logo 90% dos espectadores americanos e americanizados que de repente ficam tão baralhados ao (não) tentarem perceber o que se passa na história que nem notam que o que não falta neste filme são sequências de acção !
E nem são tão pequenas assim. A história conta com inúmeros duelos muito variados espalhados por todo o lado e portanto esta ideia de que o filme é uma grande seca porque não tem acção –bem feita- só demonstra o quão formatadas pelo pior de Hollywood estão as audiências ocidentalizadas.

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Por entre as duas horas e meia de drama não linear, [“The Grandmaster(s)”] conta com muitos e largos minutos de fabulosas cenas de artes marciais.
Talvez, o problema aqui seja porque o filme em muitos momentos até usa essas cenas de porrada para contar uma história e é isto a que o público ocidental não está habituado.
Esta coisa de se usar artes marciais como veículo narrativo do que se passa no argumento deixa muita gente baralhada sem saber a que deve prestar atenção.
Isto porque no ocidente estamos habituados a que as cenas de acção sejam quase o intervalo das histórias. Ou seja no cinema de Hollywood, as cenas de acção são qualquer coisa que serve para “descansar” da história, são aquilo que se passa no meio de qualquer coisa e normalmente não tem mais porpósito do que tentar impressionar as plateias com o efeito especial da moda.

The Grandmaster Zhang Ziyi

Acontece que em [“The Grandmaster(s)”] isso não é bem assim. Se calhar não se irão aperceber a um primeiro visionamento porque o filme apanha-nos realmente de surpresa, (até mesmo a quem está habituado ao cinema de Kar Wai), mas uma das coisas mais fascinantes neste filme sobre artes marciais é a forma como usa as próprias artes marciais para falar delas.
As artes marciais aqui não estão no écran apenas para impressionar as plateias comedoras de milho ocidentais mas são a alma do próprio filme. Aliás são quase como poesia visual.
A forma como a luz é usada por vezes provoca mais adrenalina do que a própria sequência de acção ao mesmo tempo que a torna totamente única e visualmente poética pois inclusivamente as artes marciais afectam a própria vida dos personagens a muitos mais níveis do que apenas terem levado uns tabefes e ficarem com vontade de se vingarem.
Uma das grandes mais valias deste filme está na forma como apresenta as artes marciais como sendo um modo de vida, uma herança cultural de um povo e não apenas um conjunto de socos e pontapés que o “heroi” aprende num daqueles “mosteiros de Shaolin” estereotipados por Hollywood como costumamos ver no cliché mais piroso.

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[“The Grandmaster(s)”] é um filme sobre artes marciais.
Não é um filme de artes marciais.
Até eu fiquei desorientado ao inicio, pois a primeira meia hora de filme parecia-me muito hermética e pensei seriamente que não iria atribuir uma classificação tão boa a isto quanto acabei por achar que merece.
Eu que detesto filmes sobre Máfia, gangsters; todo aquele ambiente sobre “Famílias”, rivalidades entre Clãs e universos semelhantes, durante a primeira meia hora estava a começar a ficar farto da atmosfera pois fazia-me lembrar “O Padrinho” de Coppola a todo o instante e pensei que isto não iria muito longe.

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[“The Grandmaster(s)”] ao início constrói um universo muito semelhante á volta da honra, da rivalidade entre chefes de clãs e tudo aquilo que remete imediatamente para a atmosfera do filme de máfia tal como Coppola o recriou nos seus clássicos e isso começou a afectar seriamente a minha atenção e predesposição para continuar a ver o filme, pois eu realmente detesto coisas sobre famílias do crime e pensei sinceramente que esta obra não ia passar de mais uma sobre honra e vingança entre clãs rivais, em versão Hong Kong e estereotipada atá ao limíte. Coisa que felizmente logo percebi a tempo que não seria de todo.

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Ao contrário do que é habitual no cinema de Kar Wai, desta vez a atmosfera do filme constroí-se pelos rostos, pelas pessoas, pelos retratos e não pela envolvência do cenário o que torna logo o filme bastante fechado em termos visuais. Se isso me apanhou de surpresa, imagino a cara do público que foi ver isto ao cinema pensando que era mais um título de aventuras ou um novo episódio da série –Ip Man– que lida essencialmente com cenas de kung-fu.
Essencialmente [“The Grandmaster(s)”] é um filme de interiores, um estudo visual sobre rostos humanos,  sobre fotografias paradas no tempo mas também uma história sobre sentimentos…o que para quem esperava ver uma aventura apenas com pontapés nas trombas imagino como se deve ter tornado frustrante.

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Eu confesso que levei pelo menos 45 minutos a recuperar do choque. E olhem que eu não esperava um filme de acção. Esperava um Wong Kar Wai mais aberto em termos de espaço cénico e toda aquela intimidade de espaço quase claustrofóbico desconcertou-me bastante ao início.
Até que de repente fez-se um clique cá dentro.
Assim que percebi o quanto [“The Grandmaster(s)”] era realmente um filme sobre artes marciais fiquei absolutamente fascinado pois nunca tinha visto nada assim antes dentro do género e já não consegui sair de frente do écran.
Mesmo que quisesse a partir de certa altura as verdadeiras pinturas de luz com que Wong Kar Wai inunda o écran cativaram-me por completo e o filme poderia ser sobre relva a crescer que se a relva tivesse sido tão bem filmada quanto este filme o é eu teria continuado a ver na mesma.

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Eu próprio também condicionado pela ideia que temos de artes marciais aqui pelo ocidente (até por culpa dos clubes desportivos também e da imagem sobre (blargh) desporto em geral), nunca me tinha passado pela cabeça de uma forma realmente consciente que por detrás de toda a espectacularidade  haveria um lado muito profundo, bem para lá do aspecto contorcionista da coisa que normalmente é a única vertente explorada pelo cinema de acção. Nunca me tinha apercebido o quanto as artes marciais na china fizeram inclusivamente parte de um modo de vida e definiram o rumo de gerações. O que é muito bem retratado nestea obra e por o fazer de forma visualmente extraordinária está a ser atacada por muita gente que não pedia mais que isto fosse apenas um titulo de karaté nas fuças.

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[“The Grandmaster(s)”] mesmo que não prestasse para mais nada, é fabuloso na forma como explica ao espectador o que está na verdadeira essência das artes marciais.
É fabuloso na forma como nos apresenta toda a alma e principalmente como demonstra muito bem o quanto é extraordinária esta tradição que se ramificou numa dezena de estilos que chegaram até nós claramente deturpados, bem longe da carga filosófica original e acima de tudo da importância cultural que este filme tão bem reproduz.
Eu que pensava que já tinha visto tudo sobre artes marciais e não tinha qualquer interesse no tema pois sempre o vi mais como uma temática desportiva alimentada por pseudo-paleio-new-age de treinadores ocidentais, fiquei absolutamente surpreendido com a profundidade desta história e com o que o filme nos ensina sobre esta verdadeira herança cultural da humanidade.

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Quem pensa que sabe tudo sobre artes marciais e quem pensa que as artes marciais não são mais do que técnicas de luta deve ver este filme sem sobra de dúvida, pois se calhar irá surpreender-se com a carga inimista, filosófica e até sentimental que muitas destas tradições carregam afinal em milénios de história.
Wong Kar Wai está de parabéns por ter feito um filme que realmente mostra as artes marciais como nunca se tinham visto até hoje no cinema. E ainda por cima mostra-o sem evitar um estilo mais comercial apenas este está disfarçado de cinema de autor ou vice-versa. E resulta ? Se resulta !!
Adoro a envolvência dos personagens e acima de tudo consegue ser um filme sobre vingança que não envolve os habituais clichés, até na forma como não utiliza sequer -um vilão.
O verdadeir mau desta fita é a modernidade que chega com o passar dos anos e a forma inevitável como o tempo acaba por destruir tudo o que um dia foi importante para alguém.
Na verdade se há um tema central neste filme é o de que o tempo tudo consome mas tudo tem o seu tempo.

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E o realizador consegue passar tudo isto de uma forma muito simples e acima de tudo, de uma maneira totalmente despretensiosa.
Comarem este “cinema de autor” com coisas verdadeiramente atrozes e pseudo-intelectualoides como “Visage” e vão notar uma grande diferença certamente.
Wong Kar Wai para mim actualmente é uma das melhores portas de entrada para o chamado cinema de autor, mas cinema de autor que não se tenta armar em inteligente. Apenas tem uma forma diferente de contar uma história.
Neste momento acho que o trabalho do realizador se encontra exactamente entre o comercial e o menos comercial, sendo [“The Grandmaster(s)”] o perfeito exemplo desse equilíbrio tão fascinante do seu cinema actual.
O filme na realidade parece mais complexo e intimista do que na realidade é. Apenas tem um estilo que não é americano. Nada mais.
Mal o espectador aceita as regras da história e percebe o que o realizador está a tentar passar sobre a tradição das artes marciais, o filme parece que se abre a um universo totalmente novo perante os nossos olhos.

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As cenas de acção são absolutamente incríveis, não pelas coreografias mas pela forma como estão filmadas. Quem conhece bem o estilo Kar Wai vai adorar a forma como ele mais uma vez cria poesia visual em cada frame.
E imagens lindíssimas é coisa que não faltam neste filme. Sejam, segmentos com chuva a cair, gotas de sangue contrastando com o azul do chão, nevoeiro que cria cenários de sonho ou a forma como filma cada rosto até no meio das mais intensas cenas de acção, [“The Grandmaster(s)”] tem imagens que vão ficar na vossa cabeça durante dias após terem visto o filme.
É uma espécie de cruzamento entre “2046” e “In the mood for love” com um novo look ainda mais intimista mas sempre baseado em luz e sombra como só Kar Wai consegue criar actualmente no cinema.

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Sendo um filme sobre pessoas, a maneira como Kar Wai filma cada figura humana é incrível e pelo menos eu nunca tinha visto nada assim. Há frames em que parece que até o figurante mais simples tem uma história por contar.
Há enquadramentos com figurantes que nos fazem querer ficar a saber mais sobre as suas vidas.
Kar Wai consegue com uma imagem de um figurante anónimo criar mais alma num “personagem” do que mil linhas de guião o fazem naquele tipo de filmes que os espectadores ocidentais gostariam de ter visto em lugar deste.

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[“The Grandmaster(s)”] tem a melhor colecção de retratos e imagens extraordináriamente poéticas sobre pessoas que eu vi em cinema em muitos muitos anos.
Cada rosto, quase que conta uma história por sí só e quando um filme como este vive de rostos expressivos e incrivelmente bem filmados, temos ambiente para dar e vender.
Algumas imagens parecem verdadeiras pinturas a óleo e só apetece passar o filme todo a carregar no botão de pausa, pois é quase inacreditável o nível de detalhe que está presente em muitas imagens que não chegam a estar no écran mais do que um segundo apenas. No entanto ficam na memória e é esse o poder do cinema de Wong Kar Wai que também aqui não deixa os seus créditos por mãos alheias.

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Este filme tem a melhor colecção de imagens inesquecíveis de que me recordo de ver desde…se calhar desde o “In the Mood for Love” ou “2046” do mesmo realizador.
E mais uma vez não só temos imagens belíssimas a todo o instante como acima de tudo temos personagens que nos parecem seres humanos de verdade. Não só alguns figurantes parecem ter uma história de vida para contar como inclusivamente até os personagens secundários têm uma identidade bem marcada, com actores sólido por detrás de cada um deles e onde há sempre um momento para brilharem na história.

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Muito público ocidental parece ter ficado bastante chateado por [“The Grandmaster(s)”] não ser mais outro filme com o “super-heroiIp Man na linha mais comercial que tem feito parte de uma série bastante popular.
No entanto, [“The Grandmaster(s)”] é um filme sobre artes marciais em que um dos personagens é o Ip Man, nada mais do que isso.
Não é um filme de artes marciais com o Ip Man.
E isto porque Ip Man é incontornável na história das artes marciais e sinceramente estava mais que na altura de alguém explicar ao ocidente quem era este homem que muitos conhecem apenas por ter sido a pessoa que treinou o jovem Bruce Lee (que aparece brevemente representado enquanto criança no final do filme num pequeno segmento fascinante).
Conhece-se a técnica, extrapolaram-se muitas das suas “aventuras” mas nunca tinha havido um filme sobre essencialmente aquilo que ele representava. Sobre a sua alma e de que forma a tradição o moldou. [“The Grandmaster(s)”] é esse filme.

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Mas não só, essencialmente [“The Grandmaster(s)”] sendo um filme sobre a tradição das artes marciais, é também uma história sobre todos os mestres que décadas atrás tanto lutaram para que as suas tradições  familiares não se vulgarizassem, tendo Ip Man acabado por se tornar talvez no último dos grandes símbolos desses tempos onde as artes marciais ainda representavam uma filosofia, uma tradição e um modo de vida e não eram apenas tema de paleio “new age” de treinadores de Karaté nos ginásios modernos; muitos dos quais certamente acharão o filme uma seca, aposto.
Toda aquela aura a fazer lembrar filmes como “O Padrinho” parte precisamente dessa introdução inicial da história, pois o filme começa essencialmente por nos apresentar esse universo tão fechado e secreto, apresentando-nos muitos dos anciões que guardam cada segredo familiar a sete chaves. Cada golpe é um mistério, cada técnica um tesouro e quase um acto sagrado. Portanto o filme não é apenas sobre mortes e vinganças, mas sim sobre tradição.
Apesar de ser um filme de interiores, por vezes abre-se em vastas paisagens momentâneas que quase pertencem a uma outra obra mas não deixam de ser benvindas em certas alturas, pois ajudam a narrativa a respirar.

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Como não podia deixar de ser no cinema deste realizador, [“The Grandmaster(s)”] é também uma história de amor e como também não podia deixar de ser nas mãos de Wong Kar Wai, é mais uma das grandes histórias de amor do cinema.
Novamente temos o extraordinário Tony Leung a fazer par com a não menos incrível Zhang Ziyi que não contracenavam juntos desde “2046”; novamente num par romântico totalmente real perante um romance impossível como seria de esperar.
Grande parte do epílogo final desta história é precisamente sobre a relação destes dois personagens e sobre a forma como as artes marciais inclusivamente definiram o percurso do seu amor.
Esta ideia está realmente bem desenvolvida e dá a esta história de amor uma vertente diferente do que encontramos habitualmente, que culmina num pequeno monólogo fantástico de Zhang Ziyi e coloca este filme também como uma excelente proposta para aqueles que chegam a este blog procurando por cinema romântico oriental.

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Apesar de estar sempre subjacente á história ao longo do filme por acaso não esperava que Kar Wai fosse entrar pela pura história de amor no momento em que o fez, mas ainda bem que assim foi, pois um filme dele sem um grande romance nunca seria o mesmo.
Inclusivamente seria um desperdício de dois personagens que se tornam ainda mais inesquecíveis porque enquanto espectadores torcemos por eles até ao último minuto de uma forma que me fez recordar “A Time to Love“, pela sua atmosfera de melancolia e saudade de algo que nunca aconteceu em pleno.
Mais uma vez a ideia de um amor impossível está presente numa história de Kar Wai e ninguém filma a saudade de momentos que nunca poderiam ter existido como este realizador.

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Portanto, eu passei-me com este filme.
Os primeiros 45 minutos foram-me difíceis pois não estava mesmo a ver qual a ideia por detrás de tanta aura “mafiosa” no tom da história até que de repente me caiu um piano em cima e eu finalmente acordei para o filme.
A partir daí agarrou-me por completo.
Inicialmente apenas pelas incríveis cenas de acção (que não são tão poucas como os descontentes afirmam), depois pela forma poética como Kar Wai filma cada pormenor mas principalmente como mostra cada rosto e cada alma; também pelo fascínio que conseguiu transmitir a propósito do mundo hermético das verdadeiras artes marciais e por último com a bonita história de amor entre os dois rivais que fechou em grande esta narrativa que não me sai da memória dois dias após ter visto o filme.
Só o visual do filme, aliado á vertente romântica da história vale o tempo que dispenderem a tentar habituar-se a ele. Se gostarem de filmes de Wong Kar Wai, então nem hesitem pois este é imprescindível.

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Se não gostam de filmes de Kung-Fu, então passam a gostar.
Correndo o risco de me repetir, nota alta para todo o visual do filme. [“The Grandmaster(s)”] tem visuais absolutamente incríveis e para mim enquanto ilustrador consigo encontrar pelo menos umas vinte ou trinta cenas neste filme que me irão servir de inspiração nas próximas décadas.
Há de tudo em [“The Grandmaster(s)”], desde ambientes á chuva, interiores incrivelmente iluminados e como não podia deixar de ser num filme oriental, cenas de tirar o fôlego em estações de comboio.
Muitas das imagens neste filme fizeram imediatamente lembrar-me das cenas mais intimistas e até da estética de Blade Runner. Nomeadamente a forma como os rostos estão iluminados e as cenas na estação com a Zhang Ziyi num estilo a fazer lembrar a “Rachel” no filme de Riddley Scott décadas atrás.

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Aliás mais uma vez Wong Kar Wai cria uma personagem feminina ao mesmo tempo forte e frágil, com montes de personalidade; ter a actriz perfeita para o papel também ajudou certamente pois mais uma vez a actriz rouba todas as cenas em que entra.
Há sequências fantásticas em que o personagem nem precisa de falar. Basta caminhar em direcção à câmera e mesmo sem explosões atrás em estilo Michael Bay consegue transmitir mais identidade e alma do que todos os bonecos de cartão que costumamos encontrar no cinema plástico que inunda os nossos centros comerciais todas as semanas.
Zhang Ziyi é definitivamente uma actriz com presença e se para tal ainda houvesse dúvida bastaria confirmar-mos o seu trabalho nesta história.

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Em termos narrativos, em certos momentos este filme é bastante parecido também a “Ashes of Time” um dos primeiros filmes de Hong Kar Wai e portanto fica aqui o aviso: quem detestou esse muito provavelmente terá bastante dificuldade em conseguir suportar o tipo de narrativa que está agora em  [“The Grandmaster(s)”]. Ambos os filmes funcionam bastante por flashbacks, narrativas fora de ordem cronológica e vivem muitas vezes de silêncios.
Curiosamente não me recordo da banda sonora…nem me lembro se o filme tem música para dizer a verdade.  O que só pode querer dizer que é tão perfeita a criar ambiente que eu nem notei que lá estava ou então que pura e simplesmente quase não deve ter existido e eu nem dei pela falta…

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Recomendo vivamente que vejam o cut de duas horas e meia, pois consta por aí que Hollywood pretende remontar o filme para  video e fazê-lo caber em 90 minutos, se calhar para deixar apenas as cenas de porrada como é costume. Por isso é vê-lo na integra enquanto podem, pois se os cortes acontecerem, é bem provável que a edição que chegar em dvd a Portugal possa ser a versão cortada (tal como aconteceu com The Big Blue de Luc Besson anos atrás e nem consigo imaginar como um filme tão incrível como [“The Grandmaster(s)”] seria sem as suas cenas mais intimistas, poéticas e filosóficas que lhe dão tanta alma e que tornam as cenas de kung-fu ainda mais espectaculares por contraste de adrenalina.

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CLASSIFICAÇÃO

Já entrou para a lista de filmes da minha vida também.
Depois do fabuloso e americano “My Blueberry Nights” Wong Kar Wai regressou a Hong Kong e ainda bem que o fez.
Juntamente com Makoto Shinkai na animação Wong Kar Wai é para mim actualmente o melhor realizador do mundo em filmes –live action– (nesta vertente semi-comercial talvez) e mais uma vez não me desapontou.
Poderá não ser um filme para todos os tipos de público, especialmente para aqueles que se deixarem enganar pelos trailers remontados no ocidente, mas é o filme perfeito para quem se interessa realmente por artes marciais pois garanto-vos que nunca viram nada assim; e não estou a falar da porrada.

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Contém no entanto cenas de acção incríveis e é um excelente exemplo de um filme que fica perfeitamente com o pé em dois mundos; tanto no mundo do cinema comercial como no mundo do cinema de autor.
É uma excelente introdução a esse universo que normalmente está cheio de filmes estúpidos e pretensiosos, por isso é refrescante ver que ainda há gente a fazer cinema intimista sem qualquer carga intelectual pindérica para impressionar intelectuais de café e ratos de festivais cinéfilos.
Ignorem as reviews negativas de muitos comentários espalhados pela net (especialmente no youtube) pois muita gente foi ver o filme pensando que era apenas mais uma aventura de artes marciais e ficou compreensivamente frustrada tendo descarregado no filme injustamente.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award para o melhor filme que vi este ano até agora.

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A favor: é uma enciclopédia fascinante sobre o verdadeiro mundo e tradição das artes marciais, tem cenas de acção fascinantes e cheias de adrenalina, é cinema de autor sem ser pretensioso, está carregado de personagens verdadeiramente humanos, tem imagens inesquecíveis espalhadas pelo filme todo, muito poético e cheio de momentos em que só apetece fazer pausa para contemplarmos as imagens, óptima história de amor intensamente romântica no estilo mais trágico e clássico, os actores são incríveis, contém diálogos excelentes especialmente na história de amor, personagens que não se esquecem tão cedo, duas horas e meia passam num instante pois a narrativa pode ser diferente e fragmentada mas não é de forma alguma confusa ao contrário do que muita gente diz pela net, quem gosta do estilo de cinema do Wong Kar Wai vai ficar plenamente satisfeito com o que vai encontrar neste filme também que a meu ver merece plenamente o 12 prémios que ganhou pelo oriente, é tão bom ou melhor quanto “Ashes of Time” (o qual faz lembrar bastante em certos momentos), “In the Mood for Love”, “2046” ou “My Blueberry Nights”(embora bem diferente deste último em todos os aspectos). Acima de tudo é realmente um filme diferente e com muita alma. Se não gostavam de Kung-Fu passam a gostar.

Contra: Quem o vir pensando que é um novo filme de acção e aventura da série Ip Man pode ficar muito decepcionado e até irritado com a carga poética e intimista de grande parte deste filme.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
https://www.youtube.com/watch?v=8Ngxn9NzLzs

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Comprar
Acho que ainda não há uma edição europeia…

Trailer americano…
https://www.youtube.com/watch?v=uC5amKLgnFU

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1462900

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Se gostou, vai gostar certamente dos seguintes filmes abaixo.
Aliás, mesmo que não tenha gostado deste  vai gostar dos filmes abaixo.

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Kei hei hup (Metallic Attraction Kung Fu Cyborg) Jeffrey Lau (2009) China


Toda a gente a ir ver este filme já !
Toda a gente a ir ver este filme porque eu não quero ser o único a ficar com o cérebro ao contrário.

“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg” ?
Metallic Attraction ?!!
A do Kung-Fu + Cyborg eu até comia, mas não fosse o proeminente Robot Gigante no cartaz do filme e ainda pensaria que Mettalic Attraction seria uma comédia qualquer sobre magnetos e fãs dos Iron Maiden ou quem sabe dos Metallica.
Afinal não é.
Não pensem no entanto, que isto é um filme de Kung Fu.
Confusos ?
Não estão, não porque ainda não viram o filme.

A propósito, também tenho sérias dúvidas se isto será um filme.
[“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“], é um produto muito estranho e completamente alucinado.
Eu não tenho nada contra o espírito deste género de obras, afinal ” A Chinese Tall Story ” ainda continua a ser um dos meus filmes orientais favoritos apesar do seu estilo completamente over the top.
Este filme não é mau por ser estranho ou alucinado, [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] perde em todas as frentes de uma forma absolutamente inacreditável porque nunca se consegue definir enquanto filme.
Nos primeiros cinco minutos eu já pensava que iria atribuir uma classificação fantástica a este produto, pois os momentos iniciais são mesmo divertidos e tudo apontava para que estivesse na presença de um daqueles filmes mesmo especiais. Até o genérico do filme é muito bom e cheio de humor.

No entanto, dez minutos depois já começava a pensar que algo esquisito se passava no ecran. Isto porque a partir de certa altura a história parece entrar por um registo de comédia bucólica e rural que estranhamente me fez lembrar daquele cinema francês ao estilo Louis de Funées.
Algo muito estranho para um filme que supostamente meteria Kung-Fu e Robots estilo Transformers.
E por falar em Transformers

Pessoalmente a série Hollywoodesca dos Transformers é um dos meus ódios de estimação e o Michael Bay não será propriamente o meu realizador favorito pois por mim poderia deixar de filmar amanhã que não se perdia nada. No entanto isto de ser ateu tem as suas desvantagens e  como tal é óbvio que Deus não ouve as minhas preces.
E é pena, porque também se poderia juntar o nome do realizador de [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] á lista de gente a reter longe de uma câmera a todo o custo. Só posso concluir que Deus não gosta de Cinema.

Descobri tarde demais que o realizador deste filme também esteve ligado a outro dos filmes orientais que mais detestei, Kung-Fu-Hustle. Se tivesse sabido disso nem teria gasto o meu tempo a tentar ver [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] pois não é de estranhar que o estilo dos filmes seja semelhante com a desvantagem de que agora nesta tentativa a coisa não resultou de todo. Possivelmente porque Jeff Lau não é Stephen Chow pois este último apesar de tudo ainda consegue criar alguma unidade no caos presente nos seus filmes. Eu não gosto, mas nunca atinge o vazio deste filme com robots sem robots.

Jeff Lau, falha redondamente onde Stephen Chow normalmente até consegue algum equilibrio e este [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] é um bom exemplo de que não basta ter uma quantidade de sequências completamente desvairadas para que um filme estilo cartoon tenha piada ou nos apeteça segui-lo até ao fim.

Trinta minutos depois do filme começar, o espectador começa a perguntar-se se não se terá enganado na capa ou se terá visto o trailer com o nome do filme errado, pois kung-fu nem vê-lo e robots estilo transformers é que parecem não ter qualquer motivo para fazer alguma aparição no argumento deste filme.
É que vocês não sabem, mas…
[“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] é uma história de amor !! (?!!)

Esqueçam a porrada estilo Michael Bay em versão Hong Kong, olá filme estilo Julia Roberts versão chinesa.
Mas mete robots.
Perdão, cyborgs.
Ou melhor, mete uma espécie de “mecha”
Reconheceram a expressão “mecha” ? Lembra-lhes algo ?
Exacto “A.I. Artificial Inteligence”, o (quanto a mim fabuloso), filme de ficção-científica realizado por Steven Spielberg com Haley Joel Osment e Jude Law no papel de Gigolo Joe.
E por falar em Gigolo Joe, o que dizer da imagem abaixo…

Lembra-lhes alguém ? 🙂
[“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] é um filme oriental muito estranho. Já lhes disse isto ?
Mete um clone chinês grunho do Gigalo Joe que por acaso também é um robot com a mania que tem graça e age como um verdadeiro pinga-amor pois inevitávelmente apaixona-se pela rapariga da história deste filme.
Um filme que apesar de querer á força ser uma história de amor daquelas realmente emotivas ao melhor estilo oriental, pelo meio entra pelo estilo cómico com uma escolha de estilo de humor absolutamente rasca, completamente popular e de riso fácil com gags semi-escatológicos, piadas infantis, directas e tudo o que possam imaginar ao pior estilo “Malucos do Riso“. E se vocês me estão a ler a partir de Portugal, sabem bem como isto é grave.

Especialmente para um filme que parece nunca andar para a frente porque insiste em tentar cativar-nos com uma história de amor absolutamente sem química nenhuma. Muito por culpa das partes “cómicas” do argumento e das palhaçadas dos personagens verdadeiramente cartoonescos mas sem qualquer identidade.
Acho que nunca tinha visto uma história de amor num filme oriental tão descaracterizada e tão sem alma.
[“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] enquanto filme romântico (acreditam nisto ?), é tão vazio e desinteressante que faz com que coisas como Shinobi, Duelist ou Bichunmoo pareçam clássicos de histórias de amor !

Então mas e os Transformers do trailer do filme ? – Perguntam vocês…
Perguntam bem.
Kung-fu, neste filme deve haver uns cinco ou talvez dez minutos de algo semelhante. Isto em duas horas de história.
Robots gigantes ao murro, temos direito a duas sequências. Uma mais ou menos a meio do filme. Dura pouco mais cinco minutos e é do piorio pela sua simplicidade, lugares-comuns e falta de espectacularidade o que para um filme que assenta o seu marketing na comparação com os blockbusters de Hollywood não é nada bom.
Os CGIs também são muito pobrezinhos mas isso teve a ver com o baixo orçamento da produção por isso acho que os técnicos fizeram o melhor que puderam certamente.

Depois temos mais umas cenas na “batalha final” como era de prever mas tudo é tão … nem sei como descrever. Só vocês vendo mesmo. Não resulta ponto final.
E eu gosto de filmes maus. Aliás eu adoro filmes maus, séries B e Sci-Fi obscura.
No entanto não posso com maus filmes e [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] é um mau filme porque tenta ser muita coisa ao mesmo tempo e falha redondamente em tudo não fazendo nada.

Como comédia é do piorio. Como história de amor perde-se por completo e nem sequer a miuda do filme nos causa qualquer empatia. O que não é normal nestas histórias de amor orientais onde normalmente o casal central ou o triangulo amoroso é bem definindo em termos humanos e nada disso se passa aqui.
Aliás nem a miuda do filme é minimamente fofinha sequer e isto é o pior que poderia ter acontecido a uma história de amor oriental. É quase um sacrilégio.
Ou então sou eu que não acho o estilo – Funcionária subserviente ao Estado – algo particularmente erótico ou minimamente apelativo românticamente falando…

Tudo isto, aliado ao facto do terceiro elemento do triangulo amoroso ser um mau clone do Gigolo Joe com propensão para graças infantis e piadas semi-escatológicas, faz com que [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] seja um filme que não tem ponta por onde se lhe pegue.
Vai desagradar por completo aos fãs de cinema de acção, os fãs de Robots gigantes vão detestá-lo pela quase total ausência deles no ecrã durante o filme todo e o pessoal que ainda se poderia interessar pela história de amor vai achá-lo um verdadeiro desperdício de argumento e atmosfera.
E por falar em atmosfera…

Talvez uma das coisas mais irritantes do filme seja precisamente isso.
[“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] tem uma atmosfera mágnifica no que toca á criação de ambiente.
Toda a história passa-se numa pequena aldeia no meio do campo e o ambiente bucólico rural do lugar é realmente cativante e muito bem captado dotando o filme de uma identidade Chinesa quase idílica.
Verdadeiramente deprimente é vê-la tão desperdiçada com uma história do piorio e personagens sem alma que não sabem habitar aquele espaço que pedia algo realmente especial em vez de um filme tão pouco definido.

O filme tem outra coisa muito interessante…todo o seu argumento parece uma metáfora encapotada para a revolta e a liberdade de expressão o que não deixa de ser curioso por isto ser um produto Chinês. Pelo meio da história colocam-se algumas questões interessantes sobre a legitimidade de uma “pessoa” se poder ou não rebelar contra a “programação” instituida por um superior hierárquico supostamente no poder e muito desse segmento da história tem a ver com a discussão da liberdade de escolha individual. Tudo debaixo da capa da ficção-científica claro. O que não deixa de ser mesmo muito curioso e pedia se calhar um melhor desenvolvimento…por outro lado se calhar foi melhor para os produtores disto não agitarem muitas bandeiras individuais…não fosse o diabo tece-las e o próximo filme ser um documentário sobre as cadeias do Regime Chinês…

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CLASSIFICAÇÃO:

Um total desperdicio de ambiente. Está tudo dito no texto acima.
Começa muito bem, mas depois a cada minuto que passa se torna mais aborrecido. Comecei com vontade de dar classificação máxima a isto e acabei na mínima no final do filme. Foi a primeira vez que tal me aconteceu.
Uma tigela de noodles porque nem a boa fotografia o salva.

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A favor: o genérico, a sequência dos primeiros cinco minutos de filme, o ambiente bucólico e rural em toda a história, a fotografia do filme que até faz alguns milagres com os medianos CGIs, apesar de tudo tem um bom estilo visual com algumas imagens e enquadramentos muito bem conseguidos e nessas alturas o filme parece brilhar, a carga de subversão subliminar que o argumento parece querer fazer passar ao espectador quando advoga o direito á liberdade e á negação da programação.
Contra: engana por completo quem vê o trailer, não é um filme de acção, não tem batalhas com robots gigantes practicamente nenhumas, tenta ser uma história de amor em practicamente 80% do filme, falha redondamente enquanto história de amor e é possivelmente o argumento do género mais descaracterizado e sem alma que me recordo de ver no cinema oriental que normalmente é genial a produzir histórias românticas, o humor básico é absolutamente irritante, o personagem clone do Gigolo Joe é tem uma caracterização absolutamente errática e nunca se define, a miuda da história não cativa minimamente, as cenas de acção são chatas e parecem arrastar-se mesmo quando duram breves minutos, o filme é completamente indefinido e com um ritmo descaracterizado que nos faz desejar que tudo acabe depressa pois já não há mais pachorra, a tentativa de ter um desfecho dramático para a história de amor é uma anedota pois – nobody cares !

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
Não se deixem enganar por ele. Isto não é o filme que parece…estão avisados. 😉
http://www.youtube.com/watch?v=_saGdBMw33E

Comprar
Se gostarem mesmo muito podem comprá-lo baratinho aqui na minha loja do costume.
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7n-77-2-49-en-15-metallica+attraction-70-3kai-43-9.html
Se quiserem confirmar antes a coisa, podem espreitar o filme usando este motor de busca muito útil aqui.

IMDB
http://www.imdb.pt/title/tt1494775/

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Filmes “semelhantes” de que poderá gostar:

A Chinese Tall Story Shinobi

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Xin jing cha gu shi (New Police Story) Benny Chan (2004) China


Eu não conheço as anteriores entregas desta muito popular série de acção made-in-hong-kong, mas pelo que tenho visto pela net, este quinto episódio divide opiniões.

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Normalmente entre aqueles puristas de Jackie Chan que preferem vê-lo permanentemente a fazer acrobacias e palhaçadas e o outro público que o admira por tentar fugir ao registo que o tornou popular e arriscar enveredar por apostas de conteúdo mais dramático como acontece em [“New Police Story“], técnicamente o quinto episódio da série de filmes conhecida como “Police Story” e dizem, o filme mais diferente de todos eles.

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Pela minha parte devo dizer que adorei este filme. Não sou de modo nenhum fã dos filmes de Jackie Chan (talvez pela imagem de palhaço das produções made-in-hollywood) e como tal tive este dvd na prateleira durante mais de um ano a acumular pó.
Comprei-o por menos de dois euros numa daquelas promoções do jornal Correio da Manhã muitos meses atrás mas na verdade nunca tinha tido muito interesse em vê-lo.

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Primeiro, porque era outro filme de Jackie-Chan e depois porque ainda por cima parecia-me outro policial e temia que fosse mais um filme a tentar imitar as produções americanas sem grande interesse ou imaginação.
Como é costume no meu historial a evitar produtos, enganei-me redondamente.
Este filme chinês é um espectáculo.

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Ok, é um daqueles produtos completamente “braindead” com acção a duzentos há hora, exageros físicos, lógica de argumento duvidosa e porrada de criar bicho com cenas de destruição absolutamente caóticas a fazer corar de vergonha qualquer filme americano chungoso, mas a verdade é que tudo resulta e por isso [“New Police Story“] quanto a mim é um daqueles produtos ultra-comerciais que consegue contornar a sua falta de originalidade com uma estrutura absolutamente fascinante que nos agarra do principio ao fim.

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E isto porque consegue estar sempre a surpreender o espectador, pois se não souberem nada sobre o filme, podem ter a certeza que nunca sabem bem o que vai acontecer a seguir. E isto não é coisa comum neste género de cinema, o que lhe confere logo alguns pontos extra.
[“New Police Story“] é bastante criticado por ter abandonado o registo de comédia dos titulos anteriores e ter entrado por um registo bem mais dramático e excessivamente violento na opinião de alguns.
Mas para mim está logo aí a sua mais valia.

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O filme parece uma mistura de géneros. Começa como filme de acção ultra violento, entra por um registo dramático invulgar em personagens de Jackie-Chan, passa por um estilo de filme Radical versão “X-Games”, toca ligeiramente a comédia com um par de momentos hilariantes e de humor inteligente e termina como filme de acção puro e duro num formato mais comercial em tom de aventura com algum suspense e um final criativo no que toca á resolução do destino dos vilões.

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Se vocês gostaram de “Point Break” com Patrick Swayze e Keanu Reeves então este filme é para vocês.
No que toca ao estilo de acção mais “radical”, [“New Police Story“] contém sequências de acção absolutamente fantásticas, imaginativas e entusiasmantes a fazer lembrar o excelente filme de Kathryn Bigelow do inicio dos anos 90.
Pelo meio ainda temos direito a uma cena com um autocarro que faz o filme “Speed” parecer um filme da Disney no que toca a destruição de propriedade alheia.

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Na verdade, [“New Police Story“] vai copiar elementos de todo o lado, tanto do cinema asiático como do cinema americano, mas tudo resulta plenamente.
As transições entre os vários estilos de filme estão perfeitamente integradas na narrativa, os vilões apesar de algo estereotipados têm alguma profundidade que os tornam cativantes e o argumento joga muito bem com a imprevisibilidade do que mostra ao espectador e consegue manter-nos agarrados á cadeira até ao último minuto.

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Como nota menos positiva, se calhar o filme tem minutos a mais. Ou então isto parece-me ser assim porque [“New Police Story“] contém tantos momentos de acção espectaculares e emocionantes que a partir de certa altura tanta acção corre o risco de parecer mais repetitiva do que se calhar na verdade é.
Por mim talvez tivesse cortado a segunda sequência de Kung-Fu na sala dos Legos, até porque é a única vez que o argumento repete um estilo de acção que já tinha mostrado e como tal senti que era desnecessária.

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Mas não deixem que isto os desencorage de verem este excelente filme de acção, pois além de grandes momentos de porrada pura, ainda nos brinda com um par de gags humoristicos inesperados genialmente hilariantes.
Além disso, também tem um ambiente fofinho quanto baste a fazer lembrar um Anime, isto no que toca á caracterização dos personagens femininos.

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CLASSIFICAÇÃO:

Divertiu-me tanto que estive tentado a atribuir-lhe a classificação máxima incluindo um Golden Award, mas se calhar só não o faço porque teria todos aqueles cinéfilos mais hardcore á perna a dizerem-me que seria impensável atribuir uma nota tão boa a um puro produto comercial que na verdade não tem nada de cinema com “C” grande e não passa de um banal filme de porrada no mais puro estilo Hong-Kong.
A verdade é que na minha opinião pode não ser grande cinema, mas aquilo que faz, fá-lo extraordináriamente bem e tomara muito filme chunga americano neste estilo ser tão intenso e divertido quanto [“New Police Story“] consegue ser. E isto ao ponto de me ter colocado a mim, que nem sou fã de Jackie Chan completamente hipnotizado e entusiasmado do principio ao fim.
Sendo assim…cinco tigelas de noodles porque surpreendentemente merece-as plenamente. E se gostarem muito de filmes de acção podem acrescentar-lhe um Golden Award vocês mesmo por vossa conta.
Ignorem a recepção morna ao filme pela net, [“New Police Story“] é realmente muito melhor do que parece e até quem não gosta de filmes- Jackie Chan poderá sair muito surpreendido.
A mim surpreendeu-me. E o mais importante, divertiu-me imenso.

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A favor: a violência “gratuita” com muito sangue logo nos primeiros trinta minutos de filme que não nos deixa respirar, Jackie Chan num registo muito dramático que nos surpreende pela positiva, as sequências de decadência do seu personagem, todas as cenas de acção são excelentes e cheias de momentos inesperados, mantêm sempre o espectador sem saber o que vai ver a seguir, os vilões têm carisma apesar de algo estereotipados, os momentos de humor são hilariantes pelo inesperado da situação onde foram colocados, óptimas cenas de destruição urbana em larga escala, tem patinhos de borracha, miudas fofinhas estilo Anime, a história tenta apresentar-nos algo mais complexo do que precisava de ter sido e no entanto apesar da mistura de referências a coisa resulta, quem gostou de “Point Break” tem aqui um produto semelhante que resulta na perfeição, a realização é segura embora não deslumbre mas gere bem as cenas de acção, o dvd tem um som 5.1 excelente.
Contra: talvez seja um bocadinho longo demais embora não seja por aí além e não o prejudique propriamente, apesar de tudo é um filme de Jackie-Chan e ainda contém um par de tiques inevitáveis que poderão irritar quem não tem muita paciência para aquele tipo de filmes, já vimos este tipo de história mil vezes.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=2PXLgC0g0ZM

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Comprar
Bem eu comprei o meu numa promoção de jornal podem comprá-lo aqui se já não o virem em lado nenhum
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-6w-49-en-15-new+police+story-70-cj6.html

Download

http://asianspace.blogspot.com/2009/05/new-police-story-aka-hora-do-acerto.html

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0386005/

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Filmes semelhantes de que poderá gostar:

soclose_capinha 2009 Lost Memories

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Zhan shen chuan shuo (MoonWarriors) Sammo Hung Kam-Bo (1993) China


Se entendermos o Cinema por Ilusão, então [“MoonWarriors“] será provavelmente um dos melhores exemplos desse tipo de magia no que toca a filmes saídos do oriente.
Não por ser um grande filme oriental, ou por nos transportar para um mundo cheio de fantasia, mas porque sem recorrer a efeitos especiais modernos (sem CGIs), consegue uma coisa que se torna absolutamente divertida quando revemos o filme uma segunda vez.
E mais não digo porque desta vez o filme nem tem qualquer surpresa. Não esperem propriamente um twist daqueles que lhes trocam as voltas, mas esperem o inesperado.

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Vamos fazer uma coisa, eu mais á frente irei revelar algo com que não contam (conscientemente) e por isso quem ainda não conhece este filme asiático, tente vê-lo sem cair na tentação de ir espreitar o final desta review onde falarei sobre o assunto.
A sério, não façam batota. E façam-me o favor de nem tentarem ler mais reviews disto na net.
Vejam simplesmente [“MoonWarriors“] e divirtam-se.
Depois quando o virem uma primeira vez, voltem aqui a esta review, porque quando lerem o que tenho para lhes contar mais abaixo e depois forem rever o filme, garanto-lhes que estarão a ver um filme oriental completamente novo.

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[“MoonWarriors“] é como um bom truque de magia em que o espectador nem repara que o está a ver quando acompanha esta obra pela primeira vez. Mas, ao contrário de um truque de magia, neste caso quando ficamos a saber como fomos enganados o filme não perde o seu encanto. Muito pelo contrário pois ganha uma nova vida, agora podem ter a certeza de que nunca mais o irão ver da mesma maneira quando conhecerem o seu segredo, por isso aproveitem bem uma primeira visão porque nunca mais a irão repetir.

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Vão notar que nem sequer vou dar uma classificação muito espectacular [“MoonWarriors“], mas não é porque o filme seja fraco. Apenas este é uma daquelas obras tão flutuantes que depende muito da nossa disposição aquilo que achamos dele. Umas vezes adoro-o, outras nem me parece nada de especial e por isso o mais justo é dizer-lhes logo que é realmente um bom filme chinês. Sem mais nem menos. É bom e com espaço suficiente para que o espectador insira depois uma classificação maior ou menor consoante aquilo que retirar dele.

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Na verdade [“MoonWarriors“] quanto a mim é um daqueles filmes orientais únicos dentro do estilo. O que não falta no cinema oriental são Wuxias de todos os tipos, mas normalmente seguem sempre um fórmula exacta. Não própriamente apenas na história mas principalmente na criação de atmosfera e no tom de cada filme.
Talvez com excepção de “Hero”, raramente o género Wuxia se afasta muito daquilo que o espectador espera encontrar e normalmente até quando se afasta o resultado nem tem sido dos melhores pois as obras ou entram por um forçado estilo de cinema de autor (salvo raras excepções como o fabuloso “Ashes of Time” de Hong Kar Wai), ou então ficam a meio caminho entre o cinema de aventuras ou de kung-fu puro e simples.

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No caso de [“MoonWarriors“] o resultado foi bem diferente. Este é um daqueles exemplos que tinha tudo para ser uma salganhada mal cozinhada de vários estilos mas no entanto tudo resulta. E o mais extraordinário é que nenhum dos estilos está sequer particularmente bem conseguido nesta obra de cinema oriental.
Resulta também porque tem um design particularmente cuidado e onde também tudo parece muito mais sumptuoso do que na realidade é. Nota alta portanto para o aproveitamento de ambientes naturais e  cenográficos onde ainda se incluiem um par de bons cenários como por exemplo a aldeia do heroi junto ao mar.

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[“MoonWarriors“] é uma estranha mistura entre filme Wuxia, cinema de aventuras, filme de kung-fu, comédia desbragada, cinema de Fantasia (com umas referências a “Legend” ao estilo Riddley Scott) e onde nem sequer faltam um par de cenas gore com baldes de sangue quanto baste atirados á cara do espectador da forma mais estúpida e ridiculamente hilariantes. E mais não digo…
Ah…e também tem uma pitada de “Free Willy” o que dá ao filme alguns momentos ainda mais pirosos.

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No entanto, pelo meio de todo este cozinhado, ainda consegue ter um par de momentos sérios, pois muita da motivação de alguns personagens está bem assente em pensamentos puramente filosóficos que nos fazem conseguir acompanhar as cenas mais “parvas” do filme aceitando os personagens como eles são pois apesar de toda a loucura visual nunca sentimos que os personagens são de cartão. O que é ainda mais estranho pois nem sequer estão particularmente bem trabalhados ao nível da história. Se é que podemos dizer que o filme tem uma história, pois é do mais cliché que possam imaginar.

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Mas [“MoonWarriors“] é verdadeiramente divertido.
Não é um grande filme, mas a sua (falta de) originalidade cativa-nos.
Além diso está cheio de bons actores e actrizes entre as quais a sempre excelente Maggie Cheung (“In The Mood For Love”) que é a principal protagonista da história.

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Um aviso, quem odeia filmes orientais com gajos e espadas a voar da forma mais ridicula por tudo quanto é lado pendurados por fios “invisíveis” vai detestar esta obra por isso não se dê ao trabalho.
Quem espera um filme de kung-fu puro e duro cheio de sequências de porrada de criar bicho também é melhor não perder tempo.
Agora quem quiser ver algumas das sequências de acção com fios mais alucinantes do cinema oriental e não se ofender com a falta de realismo e o estilo cartoon Bugs Bunny de algumas sequências tem aqui uns bons 90 minutos para passar.

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E depois que souber do que lhes vou contar a seguir ainda vão curtir mais o filminho.
Por isso meus amigos…
SE AINDA NÃO VIRAM O FILME,
PAREM IMEDIATAMENTE DE LER
ISTO !
Não estraguem metade da piada que há em verem [“MoonWarriors“].

Se já viram [“MoonWarriors“] então selecionem o texto do parágrafo abaixo e leiam o seguinte:

POR ACASO NÃO ME ESTÃO A ENGANAR ?
VEJAM O FILME ANTES DE LEREM ISTO !
Estão avisados.

[“MoonWarriors“] está cheio de curiosidades geniais sobre o making of. Se comprarem o Dvd, irão contar com um comentário áudio absolutamente extraordinário onde se revelam muitas das coisas de que agora vou falar aqui e que são a razão de eu classificar o filme como um dos melhores exemplos sobre a criação de ilusão no cinema que poderão encontrar no mercado.
Notaram que eu referi que a actriz Maggie Cheung é uma importante protagonista feminina deste filme.
O que vocês nem imaginam é que ela apesar de entrar em practicamente toda a história só filmou durante dois dias para [“MoonWarriors“]. E melhor ainda, não gravou practicamente nada para a sua participação apesar de entrar em todas as cenas importantes da história e “contracenar” com todos os actores do filme.

O que me dizem vocês se eu lhes contar que Maggie Cheung só se encontrou uma vez com os seus colegas de elenco ? Em [“MoonWarriors“] só existe uma única cena com os quatro actores principais do filme realmente juntos no ecran e ainda por cima é apenas uma breve imagem do grupo montado a cavalo e que dura apenas  segundos sem sequer ter diálogos !
Por acaso repararam no extraordinário design do chapéu que Maggie Cheung usa neste filme ? O que vocês nem imaginam é que aquele look (que se tornou famoso e muito elogiado como uma peça importantissima do design criativo de [“MoonWarriors“]), na realidade nem sequer foi pensado e foi criado á pressa quando os criadores do filme souberam que só iriam contar com a actriz durante dois dias.
Esse adereço de guarda roupa, está no filme apenas com uma finalidade, o de esconder o mais possível o rosto da actriz de forma a que depois o realizador possa usar uma dupla para as cenas que não estavam no contrato de Maggie Cheung.
Topem-me só isto…vão ver o filme de novo…

TODAS as cenas em que não se vê o rosto de Maggie Cheung em que ela esteja a olhar directamente para a câmara (não conta o perfil), foram filmadas com uma dupla da actriz. Até mesmo as partes que nem sequer são de acção. Os breves segundos que vocês poderão encontrar ao longo do filme em que vêem realmente Maggie Cheung a falar para a camara foram os únicos segmentos gravados por ela para [“MoonWarriors“]. Tudo o mais sempre que não lhe vêem a cara foi filmado com outra pessoa. E nem sempre foi com uma mulher. Algumas sequências em que o espectador julgava estar a ver Maggie na realidade foram até filmadas com um homem usando o seu fato !
Agora percebem porque até vestida de Ninja a Maggie andou. Isto de só se verem os olhos tem as suas vantagens para o realizador quando a actriz principal nem sequer entra practicamente no filme. Alguma vez tinham pensado nisto quando assistiram ao filme ?
Há muito mais, mas teria de escrever um texto só para isto. Se quiserem descobrir mais segredos muito interessantes dos making of, sugiro que oiçam o comentário audio do dvd pois é daqueles que vale mesmo a pena e onde vão saber por exemplo que a cena onde a heroina do filme transporta o heroi ferido ás costas durante uma longa caminhada foi apenas filmada num único local e onde a camara era a única coisa que se mexia em redor dos actores para dar a ilusão de que caminhavam pelo cenário.
Ah, e se virem um campo de flores no filme, fiquem a saber que elas foram todas plantadas uma por uma pela equipa na noite anterior pois o filme foi quase todo feito num único local e não havia nada do género para o ambiente que pretendiam dar.

Sendo assim e como não há muito mais de relevante que possa agora ser contado em poucas palavras fiquem então com a classificação.

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CLASSIFICAÇÃO:

Um Wuxia divertido e cheio de surpresas que lhe dão uma nova vida quando conhecemos alguns segredos de bastidores.
Não é brilhante, mas é um daqueles filmes orientais que são simplesmente bons. Nem mais nem menos.
Quem gosta de filmes asiáticos com gajos a voarem com espadas em coreografias do outro mundo pendurados por fios “invisiveis” vai adorar este. Isto se não se importar com um estilo algo anárquico que vai do kung-fu ao cartoon tipo Road Runner.
Trés tigelas e noodles. Acrescentem ou diminuam mais ou menos uma a vosso gosto, porque este é um daqueles que uma vez se curte imenso , outras nem por isso. Depende da disposição do momento e da pachorra para o estilo.

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A favor: A cenografia da aldeia piscatória, as cenas de porrada com fios, kung-fu quanto baste, alguns litros de sangue nos locais mais inesperados e uma decepação de cabeça hilariante, o estilo humoristico que nem por isso deixa de equilibrar com a parte dramática, alguns pensamentos filosóficos muito interessantes introduzidos no desenvolvimento de um par de personagens, a piroseira atmosférica das cenas com a baleia, os poucos cenários construidos são bem aproveitados e filmados ao detalhe, Maggie Cheung (não) está genial.
Contra: a história não tem interesse, a lovestory muito menos, os personagens são de cartão na maior parte das vezes, o vilão não mete respeito nenhum, as coreografias são tão hilariantes que se tornam mais do mesmo e perdem um pouco da energia á medida que o filme avança, a falta de cenários grandiosos ou variados prejudica o ambiente pois sente-se sempre que lhe falta algo que o torne verdadeiramente naquele épico Wuxia que poderia ter sido, o design de produção até é bom, mas já vimos tudo aquilo em dezenas de outros produtos do género, a realização não deslumbra e a fotografia sofre em alguns momentos daquele estilo videoclip horroroso com focos de luz por todo o lado e muito fumo para disfarçar a falta de cenários ou paisagens, foi literalmente filmado num “quintal” á volta da produtora e nota-se apesar do enorme esforço do realizador para disfarçar a inexistência de cenários.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer

http://www.youtube.com/watch?v=Cw4t6XxGd_0

Comprar
moonwarriors16

Podem comprá-lo em separado, mas recomendo a edição que eu tenho e que faz parte desta bonita caixinha que ainda devem poder encontrar á venda numa loja da FNAC perto de vocês aqui em Portugal e que foi onde eu comprei a minha por 15€ há um bom par de meses.
Em alternativa está á venda na Amazon Uk por um bom preço.
Os outros filmes são, o clássico Dragon Inn e um dos Wuxias que supostamente veio reavivar o género chamado The Swordsman que pessoalmente acho um vazio absoluto. Mas a caixa  vale a pena , especialmente porque contém um excelente comentário audio em MoonWarriors.

Se preferirem podem comprá-lo isoladamente também na Amazon Uk em Sellers de confiança.

IMDB (cuidado com os Spoilers)
http://www.imdb.com/title/tt0108650/

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