Snowpiercer (Snowpiercer) Bong Joon-Ho (2013) Coreia do Sul – França – Eua – República Checa


Eu sei que este blog nos últimos tempos parece ser apenas sobre filmes que eu acho extraordinários, mas como não tenho tido muito tempo para ver cinema, tenho andado a tentar selecionar os títulos que me parecem mais prometedores e por acaso tenho acertado em cheio em coisas absolutamente fascinantes.
E atípicas também.

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Neste caso, [“Snowpiercer”] é não só um dos melhores filmes de ficção-científica que alguma vez me passaram pela frente como ainda por cima é mais um filme oriental que a um primeiro olhar parece ser apenas mais um produto americano made-in Hollywood. Que, diga-se já de passagem ainda não estreou nos States (e como tal parece que nem irá chegar a cinemas portugueses), porque os distribuidores ocidentais do outro lado do oceano exigem que o realizador corte pelo menos 25 minutos para tornar o filme menos denso em termos de história e focar-se mais na porrada imbecil como habitualmente.

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Até há alguns dias atrás eu nunca tinha visto qualquer publicidade sobre a sua existência, não fazia ideia que estava planeado sequer e curiosamente apesar de tentar andar a par sobre o mundo do cinema, nunca tinha visto qualquer menção a [“Snowpiercer”] em parte alguma até um amigo me recomendar o filme no outro dia; desconhecendo também por completo que isto seria cinema oriental.
O que não deixa de ser particularmente estranho, pois o filme está carregado de conhecidos actores ocidentais, não só europeus, como americanos e inclusivamente australianos.

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E um dos americanos é precisamente o mesmo actor que está bastante popular por causa dos filmes do Capitão América, por isso ainda mais surpreendido fiquei quando percebi quem era aquela cara que já tinha visto em algum lado e me deparei com uma estrela de Hollywood num filme Sul Coreano. Ainda por cima num papel de anti-heroi bastante negro que não passaria na censura do país da democracia e liberdade se o argumento deste filme tivesse dependido da aprovação de um qualquer executivo de estúdio cinematográfico habitual.

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Todo o conceito de [“Snowpiercer”] inclusivamente no tipo de produção, recordou-me imediatamente filmes orientais como “Virus” naquela “tradição” oriental/japonesa que havia em finais dos anos 70 quando contratavam estrelas ocidentais de toda a parte do mundo para as misturarem com actores asiáticos e criarem épicos de cinema catástrofe/aventura com um elenco enorme e totalmente multi-cultural.
[“Snowpiercer”]é um desses filmes e apesar de ser essencialmente um filme de grupo, acerta logo em cheio na forma como gere o seu elenco. Isto porque é um daqueles raros filmes em que todos os actores têm realmente um papel importante na história não se limitando a ser peças de cenário para fazer o herói brilhar, como aconteceria de certeza absoluta se isto fosse mais um típico enlatado americano.

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E de que trata este filme então ?
Bem, acima de tudo deixo ficar já aqui um aviso muito importante.
Se tal como eu nunca ouviram falar de [Snowpiercer], façam o que fizerem, não leiam nada sobre ele (além desta review sem *spoilers*), afastem-se de tudo o que lhes possa estragar as (muitas) surpresas que a progressão da história contém e sinceramente…meus amigos… não vejam o trailer antes de verem o filme também.
Curiosamente o trailer desta vez está bem feito e não estraga nada felizmente, mas acreditem-me, especialmente se gostarem de ficção-cientifica (estilo steampunk até), façam como eu fiz e partam para [Snowpiercer] sem tentar saber absolutamente nada sobre ele. Vão por mim. O impacto vai ser bem melhor.

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É que ainda por cima neste caso [“Snowpiercer”] está realmente carregado de surpresas. Não só na história, como uma das suas grandes mais valias, está no facto de ser um daqueles raros filmes em que por muito que tentemos imaginar o que pode acontecer a seguir, raramente conseguimos adivinhar o que vai aparecer no écran e isso é muito raro hoje em dia. O filme está carregado de surpresas não apenas no argumento escrito, mas principalmente conta com momentos visuais daqueles mesmo – WOW não estava mesmo nada á espera que isto aparecesse agora !!!

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[“Snowpiercer”] é um filme de Bong Joon-Ho, o mesmo realizador que fez o fantástico Sul Coreano “The Host” e que há alguns anos atrás redefiniu o cinema de monstros pela densidade e forma como mais do que mostrar o monstro, mostra como as personagens são afectadas por ele.
Curiosamente Bong Joon-Ho, conta de novo com os dois fantásticos actores principais de “The Host”, novamente no papel de pai e filha e em certas alturas não conseguimos evitar a sensação que a sua relação quase parece uma continuidade de um filme para o outro embora os seus personagens desta vez tenham um par de características bem particulares que não posso agora revelar.

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Outra coisa que adorei nesta história, foi a sua atmosfera visual numa mistura absolutamente perfeita entre o melhor da estética oriental e aquele estilo de banda-desenhada europeia do final dos anos 70 que já faz muita falta actualmente. Pelo que notei, adapta uma novela gráfica francesa actual que eu desconhecia em absoluto mas que no entanto me parece estar mais perto do estilo manga do que própriamente dentro da linha tradicional franco-belga.
No entanto, por outro lado, quem gosta daquele género de histórias de banda desenhada europeia com uma intensa aura negra passadas em futuros distópicos e um estilo visual a roçar a paleta de cores de autores de Bd como Bilal, ou Serpieri (com o seu Druuna por exemplo), vai adorar o que irá encontrar estéticamente em [“Snowpiercer”]. Em muitos momentos faz lembrar até o traço de Rosinsky (o autor de Thorgal), pois alguns cenários têm ali qualquer coisa de gráficamente familiar e vai encher as medidas de quem já tem saudades de uma boa estética de banda desenhada antes dos comics terem formatado tudo ao estilo americano sem um pingo de imaginação.

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Portanto, mais uma vez aviso. Afastem-se de tudo que lhes possa estragar as surpresas deste filme. Especialmente não tentem ver mais imagens sobre ele para além da fotos que lhes mostro neste blog.
Muitas das surpresas em [Snowpiercer] são visuais e vocês não querem dar cabo daquele momento de pura surpresa que há tanto tempo anda afastado do cinema comercial que nos chega da américa onde os trailers contam os filmes de uma ponta a outra.
Por isso se procuram um produto realmente diferente e onde podem voltar a sentir aquele ambiente de maravilhoso e de total imersão num mundo imaginário sem que lhes tenham estragado as reviravoltas todas este filme é o filme que procuraram durante muito tempo.

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[“Snowpiercer”] é também intensamente violento, por isso preparem-se os mais sensíveis. Contém aquele estilo de –crueldade– muito característico nas histórias intensamente dramáticas a que estamos habituados no cinema oriental e só por ali, nota-se que este é um daqueles produtos que não sofreu qualquer -suavização- por parte dos habituais censores de Hollywood que actualmente insistem sempre que um filme de terror tem que se “adaptar” todas as idades de modo a rentabilizar nas bilheteiras gringas e “gringadas” pelo mundo fora que tem que comer com essencialmente com a distribuição americana, que desde há décadas adora mutilar filmes “estrangeiros” cortando-os, remontando-os e destruíndo-os para se adaptarem áquilo que muitos executivos acham que deve ser –o gosto- mais rentável das plateias americanas e americanizadas.
Portanto, neste filme, a história é pesada, muitas surpresas podem até considerar-se chocantes e o politicamente incorrecto abunda.
E ainda bem, pois este mundo apocalíptico sem esses pormenores não seria o mesmo nem seria tão convicente.

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A história deste filme se não tivesse sido contada da forma que foi, teria perdido toda a sua alma e ainda bem que isto é do mesmo realizador Sul Coreano de “The Host” pois ele é especialista em criar cinema espectáculo tão impressionante quanto qualquer coisa saída de Hollywood sem no entanto se esquecer dos personagens.
Acima de tudo [“Snowpiercer”] é sobre as pessoas e vocês quando chegarem ao final da história vão lembrar-se de igual forma de todos os personagens e não apenas do -“herói”. Até porque heróis é coisa que não há por aqui.

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Resumidamente e sem lhes estragar nada, [“Snowpiercer”] conta a história de um comboio que percorre o planeta sem nunca parar (porque senão tudo congela), trilhando a única linha férrea mundial que existe, após a Terra ter mergulhado numa nova idade do gelo.
Em 2014 ao tentarem resolver o problema do aquecimento global espalhando um produto na atmosfera que iria agir com um escudo para radiações, essencialmente os políticos destruíram o mundo pois o produto teve um efeito tão bom que mergulhou a Terra numa temperatura glacial durante décadas tendo aniquilado a população mundial inteira com excepção das pessoas que conseguiram entrar num comboio experimental que tinha sido construído por um magnata dos transportes. O mesmo que agora vivendo na carruagem da frente é dono e senhor das vidas de todas as pessoas que vivem a bordo, o que inevitávelmente dá origem á típica história sobre regimes totalitários que o trailer indica mas que vai muito mais além daquilo que vocês possam imaginar.
Ah e se pensam que este é mais um daqueles em que depois se descobre que afinal havia mais sobreviventes algures pelo planeta e de seguida o herói encontra essa gente, há uma revolução e coisa e tal, esqueçam.
As 1000 pessoas do comboio são mesmo os últimos mil sobreviventes à superfície do planeta Terra.
Vão adorar.

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[“Snowpiercer”] consegue ser ao mesmo tempo, uma história de ficção científica com um bom conceito, um filme de acção ao melhor estilo Hollywood e um drama intenso completamente politicamente incorrecto como há muito tempo não se via dentro do cinema do género.
Cada carruagem do comboio tem as suas características muito pessoais e que servem como metáfora para se falar sobre uma série de temas  pertinentes e onde muitas vezes até no meio das mais intensas cenas de acção não deixam o espectador parar de pensar. Óbviamente que um filme assim teria ir á tesoura nos Estados Unidos.

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Acima de tudo tem aquele factor surpresa que eu adoro encontrar no cinema e que é cada vez mais raro neste mundo. Este filme está cheio de pequenos detalhes que o enriquecem em muitos aspectos, (especialmente a uma segunda visão) e a minha vontade era aqui comentar detalhadamente sobre os melhores momentos, mas não o posso fazer. Num mundo onde os trailers com que somos bombardeados mesmo que não os queiramos ver nos retiram por completo o prazer da descoberta de um filme, neste caso se vocês se mantiverem longe de tudo o que lhes poderá destruir o mistério, então irão dar por bem empregue o vosso tempo e apanhar o queixo do chão umas quantas vezes ao longo de toda a história. Garanto-vos.
Afastem-se até das imagens do filme espalhadas pela net, pois algumas revelam boas surpresas em termos de personagens e vocês querem partir para [“Snowpiercer”] sem saberem nada dele.

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Como já referi isto é essencialmente um trabalho de grupo e não há propriamente um personagem principal embora alguns se destaquem. Para além dos actores sul coreanos de “The Host” que mais uma vez têm uma empatia absolutamente perfeita, a mistura com o elenco internacional cria uma sensação de realismo excelente; mas é Tilda Swinton que arrebata o filme em cada cena que aparece como a ministra fascista. Vão adorar odiar o seu personagem pois é ao mesmo tempo, ameaçador, cómico e trágico.

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O -“Capitão América”- Chris Evans surpreendeu-me pois não esperava uma prestação tão intensa e perfeita de alguém que normalmente se vê limitado a entrar em pastilhas elásticas para adolescentes e pouco mais quando trabalha na américa. Tem um dos melhores monólogos do filme numa cena arrepiante só pela forma como o actor interpreta o texto e que acaba por ser outra das chaves da história, conduzindo-nos até ao seu final. Um final que quanto a mim deixa algo a desejar mas nem por isso é menos adequado, pois eu sinceramente numa história destas também não saberia bem como a terminar. O filme tem sempre tanto impacto a todo o momento, que inevitávelmente o final se calhar sofre um bocado por não ser própriamente surpreendente ou intensamente chocante.

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Nota especial também para a participação do “TintinJamie Bell com um personagem cativante numa prestação dramática excelente e para John Hurt e Ed Harris que com a sua habitual presença carismática dominam cada cena em que entram.
E claro também para todo o elenco secundário; algumas caras conhecidas inglesas e não só que povoam este úniverso bem negro mas muito bem imaginado e plenamente bem executado pela realização dinâmica e segura de Bong Joon-Ho num filme onde não se perde um fotograma na montagem e onde tudo, até o mais pequeno pormenor aparentemente desinteressante importa para o desenlace final e contribui para estar sempre um passo á frente do que o espectador pensa que vai acontecer.

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Portanto como não quero estragar o filme a ninguém fico-me por aqui e vamos a isto.

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CLASSIFICAÇÃO

Este filme entra directamente para a minha lista de filmes favoritos de ficção-científica pois é uma das melhores co-produções internacionais dos últimos anos e que demonstra bem o que se pode fazer dentro do cinema comercial quando não há interferência directa de Hollywood no seu processo criativo.
Quando eu pensava que já não havia imaginação dentro da ficção-científica cinematográfica; salvo raras excepções que normalmente são fracassos por tentarem sair da habitual fórmula a que os “adolescentes” comedores de milho estão habituados, eis que me deparo com [“Snowpiercer”]. Dos raros filmes de FC que são tão bons quanto um bom romance do género e portanto recomendo vivamente a quem procura algo fora do habitual que contorna hábilmente as inevitáveis cenas previsíveis e nos surpreende a cada instante até ao minuto final.
Cinco tigelas de noodles por mostrar que afinal ainda há gente a fazer ficção-científica adulta algures neste planeta.

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A favor: É ficção-científica para adultos a sério ao melhor estilo clássico, consta que é uma boa adaptação de uma nova BD europeia mesmo, não é nada politicamente correcto e é até bastante pesado e cruel em certas alturas chave, muito violento com baldes de sangue e tripas quanto baste, psicológicamente anda sempre na corda bamba entre até onde pode ir para não chocar demasiado o espectador ao mesmo tempo que o diverte pela espectacularidade de grande parte das cenas, está cheio de surpresas e não é tão previsível quanto poderão pensar, excelente cenas de acção, óptimos personagens, um design incrível com muita inspiração steampunk, um par de vilões extraordinários, agarra-nos do principio ao fim e nunca deixa de surpreender o espectador. Tem inclusivamente algum humor bem negro nos sítios mais inesperados.

Contra: Eu por mim ainda teria ido mais longe na violência e nas cenas repugnantes pois mesmo assim aposto que houve por aqui alguma contenção para não afugentar as plateias, não vai ter uma sequela e é pena; não ficamos com vontade de o rever muitas vezes e será um daqueles que veremos uma vez por ano ou algo assim simplesmente porque fica bastante na memória.

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CENSURA: O filme não foi lançado nos estados unidos e provavelmente irá ter uma distribuição muito pequena, porque o realizador Sul Coreano Bong Joon-Ho, se recusa a cortar os 25 minutos de cenas que a “censura” americana insiste de forma a que este possa ter uma classificação “mais familiar”, deixe de ser pesado e passe a ser mais “comercial“.
Será possível que ainda exista esta imbecilidade de tentarem destruir um filme absolutamente brilhante na sua forma original só para o adaptarem ás audiências americanas e pior, ás audiências  – americanizadas ?!!
Portanto se não for lançado nos estados unidos numa grande escala, muito certamente não chegará aos nossos cinemas pois todo o percurso de distribuição de cinema de grande público nas nossas salas está refém das políticas de distribuição controlas pelos estúdios de Hollywood.
Deve ser com políticas destas que esperam controlar a pirataria…

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NOTAS ADICIONAIS:

Trailer

https://www.youtube.com/watch?v=r6UmqNuMdY4

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Página oficial de Facebook
https://www.facebook.com/pages/Snowpiercer/304469566338971

Comprar
Ainda não existem edições inglesas e claro muito menos portuguesas. Apenas foi lançado em frança bem antes até de estrear no cinema cá pelo ocidente. Isto claro,  devido aos problemas de distribuição mundial porque esta é essencialmente controlada por Hollywood que exige cortes para colocar o filme nas salas americanas e americanizadas internacionais dos multiplexes que as companhias americanas controlam pelos nossos shoppings e não só.
A edição francesa á venda na amazon-fr, apesar de constar ser técnicamente excelente não contém legendas em inglés, (muito menos em portuga, claro), o que vai complicar o visionamento de muitos dos diálogos em Sul Coreano, pois o filme tanto é falado em inglés como em sul-coreano claro está, embora não sejam muitos.

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IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1706620/

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Cinema_oriental_no_facebook

Katakuri-ke no kôfuku (The Happiness of the Katakuris) Takashi Miike (2001) Japão


Cantem todos !
– ” The hills are alive, with the Sound of…screaming !?”  🙂

Se calhar não se nota, mas [“The Happiness of the Katakuris“] é uma comédia e a frase acima é o seu slogan publicitário oficial.
A sério.
Agora depende muito do vosso sentido de humor, porque garanto-vos, este filme não é para toda a gente. E não é por causa do sangue ou do excesso de cenas gore nojentas, mas sim porque é um filme musical.
Confusos ?
Ainda não viram nada.
É que a haver um filme completamente inclassificavel será certamente este, senão vejamos…
É mau como o raio, mas é por isso que é uma verdadeira obra prima do cinema oriental, porque o objectivo era mesmo que fosse mau e neste aspecto [“The Happiness of the Katakuris“], não podia ser melhor.

Só um realizador com talento e muito seguro do seu trabalho conseguiria criar de propósito um mau filme. E já que falamos de cinema oriental, se calhar não haveria ninguém mais credenciado do que o veterano Takashi Miike para fazer uma … coisa destas.
Não que ele seja já um velho cineasta oriental venerado ao estilo Kurosawa, mas porque na verdade deve ser o realizador que mais rapidamente trabalha no mundo e sempre com resultados que, ou são excelentes ou muitíssimo bons, pois por mais que se tente procurar é dificil encontrarmos um mau filme de Miike no mercado.
Quando muito descobre-se algo mediano, o que não é o caso desta vez.
E se juntarmos o facto dele em pouco mais de dez anos de carreira ter já feito mais de 60 filmes (leram bem), ainda custa mais a acreditar que ele consiga surpreender a cada novo projecto e seja um dos realizadores mais originais que poderão encontrar a trabalhar actualmente.
Acho que na carreira Miike só deve faltar um porno.
Embora [“The Happiness of the Katakuris“] não ande muito longe disso…
Não porque tenha sexo explícito ou sequer nudez, mas porque é um filme tão piroso, mas tão piroso que se torna quase pornográfico se interpretarmos o conceito por uma definição de excesso.
Mas de que trata então esta…hem…obra ?…
Acreditam se eu lhes disser que isto é um remake Japonês do “Música no Coração” ?…

Não será própriamente um remake da história do filme de Robert Wize, porque [“The Happiness of the Katakuris“], é uma nova versão de um dos clássicos do cinema Sul-Coreano intitulado originalmente  – “The Quiet Family”.
Mas é um herdeiro absoluto do espírito feliz de “Música no Coração” e a um nível emocional é o seu remake a 100%, apesar de contar com uma quantidade considerável de cadáveres á mistura.
É que vocês nem imaginam como este filme é feliz.

Se conseguirem entrar no espírito,  “The Happiness of the Katakuris“] é um verdadeiro antídoto para a depressão e uma das obras mais originalmente bem dispostas que poderão encontrar.
Começa de forma estranha. Tão estranha que a início nem sabemos bem se estamos a gostar do filme ou não, mas depois culmina numa parte emocional tão feliz, mas tão feliz que se torna contagiante e damos por nós a entrar no espírito e com vontade de começar a cantar canções fofinhas pirosas em japonês e a flutuar de alegria acima do sofá da sala.
O que não deixa de ser estranho, porque a parte final é sobre o suícidio. 🙂

Não, não estou a gozar.
Mas afinal o que há de tão estranho nesta obra ?
Bem, é pirosa. Mas pirosa mesmo, com um kitsch tão exagerado que faz os Enapá 2000, parecerem ingénuos.
The Happiness of the Katakuris“], é piroso de propósito e não pensem que isto é fácil de ser feito. Mal pensado, tudo teria resultado num falhanço absoluto pois se não conseguisse transportar o espectador para aquele universo sem o contestar Takashi Miike teria se espalhado ao comprido e o filme seria apenas mau a um nível que nem conseguiriamos suportar.
Mas passa-se exactamente o contrário e tudo no ecrã nos impede que tiremos os olhos da televisão pois, primeiro nem acreditamos (ou compreendemos verdadeiramente) o que estamos a ver, depois temos mesmo que saber o que vai acontecer a seguir, quanto mais não seja para podermos contar ás pessoas o que vimos.
É essa a grande magia do filme. Apesar de nos apetecer deitar fora o dvd nos primeiros minutos, depois agarra-nos, conquistando-nos com a sua felicidade transbordante.
Isto enquanto mete assassinatos, catástrofes naturais, telediscos de música propositadamente má, estética pimba do mais pimba que possam imaginar e personagens do outro mundo.
E já lhes falei nos mortos vivos ?… 🙂

Se calhar é melhor não dizer mais nada.
Aliás, eu que não gosto de revelar o argumentos dos filmes, sobre este então, é que não vou dizer practicamente nada, pois o prazer aqui está precisamente em não imaginarem o que lhes irá cair em cima a seguir.
Fiquem apenas a saber que “The Happiness of the Katakuris“], narra as sangrentas desventuras de uma familia tradicional japonesa que por acaso teve o azar de ter comprado um velho hotel no meio de uma montanha onde quase não passam turistas. E quando passam, os que se hospedam nos seus quartos acabam mortos no dia seguinte, o que dá origem ás mais inimagináveis e engraçadas situações.
Mas se o filme é extremamente feliz no seu tom, isto deve-se não só ás inacreditáveis canções pimba e números músicais que o percorrem, mas principalmente aos personagens.
O filme tem um casting absolutamente perfeito com personagens-tipo geniais e muito bem interpretados. Desde o avô até á criancinha da família todos têm o seu momento no filme e ajudam mesmo a criar aquela ilusão de família unida que é a alma e o coração do filme.

E por falar em personagens, há um que se destaca e já se tornou uma figura de culto.
Não pertence aos membros da familia, mas garanto-vos que não se vão esquecer do “Richard” tão cedo.
Podem espreitar a sua canção na secção de videoclips deste site se quiserem ter um pequeno vislumbre da sua personalidade e do que o personagem faz no contexto da história porque o seu segmento é um bom exemplo do que poderão encontrar se arriscarem a ver este filme.
Só para terem uma ideia, “Richard” é a versão oriental do Richard Gere em “Oficial e Cavalheiro”, mas com tendências extremamente narcísistas e um bocadinho psicópatas.
Vão adorar.

Portanto é assim, gostam de histórias com pessoas cortadas aos bocados e música pimba japonesa ?
Gostam do “Evil Dead” e sempre imaginaram que daria um bom musical ?
Acham que o suícidio pode servir de inspiração para canções ao sabor de “Música no Coração” ?
E vulcões ? Gostam de filmes com vulcôes ?

Então não podem perder esta obra, pois mesmo que a fiquem a odiar, podem ter a certeza de que se irão lembrar dela por muito, muito tempo. E ter as suas musiquinhas na cabeça também. 😉

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CLASSIFICAÇÃO:

Um dos filmes mais originais que poderão encontrar. Ideal para quem reclama constantemente que o cinema de hoje em dia é todo igual.
Agora cuidado, pois pode induzir a níveis de vómito inimagináveis. Aproximem-se com cuidado então.
Mesmo assim, não posso deixar de dar cinco tigelas de noodles e um Golden Award como selo de qualidade.
Embora cuidado com a minha classificação, pois se não entrarem neste filme preparados, se calhar para muitos de vocês ele nem valerá sequer meia tigela.
Não é o meu caso, pois além de eu ser admirador da capacidade inventiva do realizador a alegria contagiante do final deste filme merece em absoltuto a nota máxima.
Mas é preciso estar com espírito para ver isto, pois apesar de muito ligeiro e comercial, não é de forma alguma um filme fácil de assimilar (especialmente para o publico ocidental).
É que para uma comédia, nem sequer é propriamente um filme hilariante, mas tem os seus momentos de humor muito bem conseguidos.
O que não impede que seja verdadeiramente uma obra-prima do cinema feliz…se é que este género existe…

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A favor: a originalidade, a extrema alegria contagiante que aumenta de nível á medida que o filme se aproxima dos momentos finais, os personagens, as musicas pimba, a realização certamente sobre o efeito de ganza em excesso, o humor negro, o “Richard”.
Contra: as animações em plasticina stop-motion apesar de excelentes irritam-me profundamente, a mistura de géneros de filme é tanta e tão confusa que o filme tem umas variações de ritmo narrativo algo estranhas.

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NOTAS ADICIONAIS

Recomendo vivamente que vejam o Trailer pois transmite perfeitamente o ambiente que irão encontrar durante o filme todo.
http://www.youtube.com/watch?v=nIXyiJqMLJI&feature=related

Se quiserem comprar o dvd, sugiro a edição UK, pois é fantástica.

Excelentes (e pirosos) menús animados, excelente qualidade de imagem numa transferência anamórfica muito boa e um som perfeito não só em 5.1 como em DTS. Além disso contém óptimos extras, inclusivamente uma boa entrevista com o realizador que merece ser vista, quanto mais não seja para apreciarem a pinta gangster-hiphop-japonês do homem. Scary…

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0304262/

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Filmes “semelhantes” de que poderá gostar:

Attack the gas station

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