” A Minha Vida Dava um Filme” (?!) – Espreitem só isto !


Estou sem palavras e aposto que vocês também irão ficar quando virem isto.
É um daqueles posts que não poderiam ficar melhor num blog como este pois aposto com vocês que daqui a um ano ou dois vou estar aqui a falar de um filme baseado nisto.

Absolutamente arrepiante e tão emocional quanto um bom argumento sul coreano.
E se gostaram, espreitem só a semi-final com esta versão da banda sonora do Cinema Paradiso cantada por ele.

Caso, estejam curiosos se ganhou o concurso, ficou em segundo mas tal como no caso de Susan Boyle foi como se tivesse ganho , pois já tem a carreira que nunca pensou possivel.

Yeonae soseol (Lover´s Concerto) Han Lee (2002) Coreia do Sul


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Jack trabalha no McDonalds onde passa o dia a atender clientes ao som da última musica pop da Hanah Montana e vive uma vida saída de um teledisco onde tudo é jovem, muito cool e cheio de “rebeldia”. Claro que Jack também adora desporto e não perde um jogo de futebol americano na televisão.
Um dia Jack conhece Mindy e Cindy que por acaso entram no McDonalds para comprar Coca-Cola e imediatamente se apaixona por Cindy a mais tímida das duas raparigas. Tímida mas nem por isso menos na moda pois Cindy tal como Mindy envergam o último grito fashion teen. Mas enquanto Mindy apresenta-se com um estilo punk inspirado na melhor moda tipo geração rebelde, Cindy é o espelho da jovenzinha intelectual mas nem por isso menos sexy.
Num acto tresloucado de rebeldia juvenil Jack manda o patrão para o caraças ao mesmo tempo que debita uma daquelas frases emblemáticas para a câmara e cheio de estilo enceta uma perseguição pela cidade ao som de outra música pop enquanto segue as duas jovens que entretanto sairam do McDonalds mas entraram no Burger Ranch.
Quando as encontra de novo Jack em grandes planos de câmara lenta dá-se a conhecer de corpo inteiro de modo a que o espectador possa perceber bem que marca é que ele veste. Claro que o look boys-band do rapaz é suficiente para que Cindy imediatamente se apaixone por ele.
Então os trés começam a sair juntos, (ao som de mais música pop claro) e o inevitável acontece, claro que Mindy também se apaixona por Jack e surge o óbvio triangulo amoroso. Um dia Cindy apanha Jack a beijar Mindy e acaba tudo com ele.
Claro que Mindy estava só a curtir com Jack para fazer ciumes á amiga e este apercebendo-se disso resolve tentar fazer as pazes com Cindy que entretanto tinha ido parar ao Hospital porque estava muito deprimida por ter acabado o namoro.
Jack então faz-lhe uma serenata e diz muitas vezes “i love you”, esta cura-se de todas as maleitas e eles vivem felizes para sempre. The End.
Ao som de outra musica pop claro.

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A esta altura vocês já devem estar a pensar que eu me passei de vez.
Que isto de estar meses sem escrever no blog e a fazer banda desenhada me deu cabo da mona por completo.
Ainda não flipei.
Vou falar-vos de [“Lover´s Concerto“] e o que escrevi atrás tem uma razão de ser.
Se alguma vez houve uma obra oriental que espelha bem a extraordinária diferença entre um filme romântico com adolescentes made-in-Hollywood e um filme romântico com adolescentes feito na Coreia do Sul, então [“Lover´s Concerto“] é esse filme.

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Imaginem prácticamente a mesma história que lhes contei acima com os habituais tiques Hollywoodescos mas retirem-lhe todos os clichés que estão habituados a encontrar no cinema pseudo-romântico para adolescentes americanos e encontrarão uma história com uma identidade absolutamente real em que nos esquecemos por completo que estamos a ver actores a representar um papel.
Mesmo sendo um filme asiático que nem sequer tenta particularmente fugir aos habituais clichés dentro do próprio cinema comercial romântico Sul Coreano [“Lover´s Concerto“] é um produto com alma e desta vez nem sequer é por causa da história pois pessoalmente nem a achei particularmente interessante.

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Tem no entanto uma coisa extraordinária e que justifica plenamente a sua visão por quem gosta de cinema romântico sul coreano. O trio de protagonistas tem um carísma absolutamente perfeito e desde o primeiro minuto em que se encontram nos parecem pessoas reais e não os habituais adolescentes formatados para encaixarem em todas as étnias de modo a não insultarem nenhuma raça ao exclui-la da história.
Em [“Lover´s Concerto“] nenhum dos adolescentes nos parece um personagem de cartão.
Não falam de maneira cool a todo o instante, não se vestem para nos vender a roupa da moda e muito menos ouvem qualquer música pop para nos vender discos e nenhum deles tem um amigo (como personagem secundário) de uma étnia que esteja na moda não descriminar.

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Além disto, [“Lover´s Concerto“] difere também no próprio estilo de filme romãntico, pois na verdade por muito cliché que seja, acaba por contornar todos os lugares comuns ao apresentar o romance mais como consequência de uma grande amizade do que própriamente como sendo a habitual paixoneta teen ou o amor impossível menino-pobre-menina-rica que vemos nos produtos ocidentais.
Se alguma vez procurarem um filme romântico em que o verdadeiro amor representado no filme está na amizade das trés personagens que compõem um triangulo amoroso, não procurem mais longe.

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É uma história de amor oriental em que na realidade, o amor é quase secundário face á força da amizade que une os personagens e está aqui a força deste argumento.
Um argumento que nem sequer tem muito para contar, mas consegue fazer-nos pensar no que será verdadeiramente amar alguém sem precisar de nos espetar constantemente com esse tema de forma óbvia em diálogos de telenovela.
Os Sul Coreanos são mestres em fazer histórias de amor em que raramente se ouve alguém dizer “amo-te” e esta não é excepção.

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Ao contrário dos argumentistas Americanos, os Sul Coreanos parecem há muito ter descoberto que o espectador consegue mais sentir uma emoção contida num personagem do que sentimos alguma coisa ao assistir a intermináveis linhas de diálogo em modo histérico adolescente estilo telenovela que faz com que todos os supostos filmes românticos teen saídos de Hollywood sejam habitualmente intragáveis para o público mais velho.

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Quanto a mim uma das grandes virtudes do cinema Sul Coreano é a de conseguir produzir filmes românticos com adolescentes, para adolescentes, mas que contêm sempre muitas camadas (ás vezes até bem filosóficas) para além daquilo que seria de esperar e neste caso [“Lover´s Concerto“] não é excepção.
Não é de forma alguma a melhor história de amor oriental que poderão encontrar, mas poderá ser talvez a melhor e mais humana história de amizade/amor(?) entre adolescentes no mercado dvd dentro do estilo asiático.

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Também não será um grande filme Sul Coreano pois não tem nada na verdade que o distinga na sua realização de outros tantos produtos do género quase a roçar o estilo televisivo.
Se calhar por apresenta-nos um universo tão real que quase nos faz esquecer que tem um design de produção e muito trabalho de fotografia por detrás. Isso acaba por ser um trunfo mas também ao mesmo tempo será aquilo que o faz parecer um produto normal. No entanto é um daqueles filmes em que o realizador não teve problemas em desaparecer para dar lugar aos personagens da história.
Tirando os trés extraordinários protagonistas com os seus personagens humanamente perfeitos [“Lover´s Concerto“] não parece ter muito mais para nos deslumbrar. No entanto, acreditem, chega perfeitamente e é essa a sua mais valia.

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Tem inevitávelmente um twist na sua história, mas tenho que confessar que não me surpreendeu particularmente da primeira vez que o vi. Não porque o tivesse adivinhado, mas porque na verdade acho que nem reparei nele pois a segunda metade do filme torna-se algo fragmentada e se não estivermos com atenção podemos perder muito daquilo que seria o impacto final da história.
Um conselho…estejam muito atentos aos nomes dos personagens e decorem bem cada um. Isso ajudar-vos-á a seguir como deve ser o segmento final.

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[“Lover´s Concerto“] é um daqueles filmes orientais que recomendo pela sua humanidade a toda a gente que chega a este blog á procura de críticas sobre filmes românticos deste estilo, pois acreditem-me que vão gostar muito daqueles personagens. É uma história humanamente muito bem escrita e onde até nos consegue fazer sentir uma grande empatia pelo personagem mais terciário que se envolve lateralmente á história principal. E não posso dizer mais nada para não estragar o filme. Não é nenhuma surpresa mas é mais um daqueles pequenos momentos que enriquecem humanamente o argumento.

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Deixo-vos apenas com uma pequena nota triste. Uma das actrizes do filme, que vêem na foto acima suicidou-se há um par de anos surpreendendo toda a gente e deixando a Coreia do Sul em estado de choque. Segundo consta devido a uma depressão de amor, o que não deixa de ser curioso.

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CLASSIFICAÇÃO:

Um filme indispensável em qualquer dvdteca de cinema romântico Sul Coreano ou de cinema oriental em geral apesar de não ser uma obra extraordinária dentro de uma conotação mais cinéfila-intelectual-de-café.
É um filme asiático  simples, cheio de lugares comuns, mas que conta com trés dos melhores personagens adolescentes que poderão encontrar no cinema romântico oriental e é uma história de amizade perfeita que se calhar ainda fará pensar um espectador ou dois.
Ao contrário do que acontece nos filmes pseudo-românticos com adolescentes made-in-Hollywood [“Lover´s Concerto“] tem muita alma e irá agradar até ao público mais velhinho.

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A favor: o humanismo da história, a sua simplicidade é viciante, os personagens são totalmente carismáticos e parecem pessoas verdadeiras, o trabalho dos actores é extraordinário na sua simplicidade e esquecemo-nos por completo que estão a representar, a pequena história de amor paralela com uma das irmãs de um dos personagens principais resulta plenamente apesar da sua brevidade e extrema simplicidade, tem um twist fixe no final embora não seja nada do outro mundo, faz-nos pensar no conceito amizade/amor sem sequer meter “i love you” a todo o instante.
Contra: visualmente não tem nada de extraordinário ou sequer de muito cinemático, a segunda metade da história parece correr demasiado depressa e as motivações dos próprios personagens não nos parecem tão reais quanto na primeira metade, o final tem um tom estranho que faz com este pareça pertencer a um filme completamente diferente e com isso quebra bastante do impacto emocional que [“Lover´s Concerto“] merecia ter tido.

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILER
http://www.youtube.com/watch?v=obdytjJPdDg

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COMPRAR
Eu comprei esta. Não é propriamente uma edição espantosa a nivel de imagem mas tem um Dts excelente e um making off porreiro.
No entanto podem comprar a edição americana R1 se preferirem pois é exactamente a mesma com uma capa mais ocidental e um preço porreiro também quando convertido para Euros por exemplo.

IMDB
Não recomendo que espreitem o imdb antes de verem o filme, pois algumas reviews podem estragar-lhes todas as surpresas da história.

http://www.imdb.com/title/tt0328675/

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Outros títulos românticos recomendados:

Be With You My Sassy Girl Love Phobia

Il Mare The Classic Fly me to Polaris

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Fa yeung nin wa (In the Mood For Love) Wong Kar Wai (2000) China


Este é o “segundo filme” da “trilogia” romântica de Wong Kar Wai, e portanto será uma prequela para [“2046“] continuando já uma história que se iniciou de certa forma em “Days of Being Wild”.
Antes de mais, [“In The Mood For Love“] é um excelente exemplo do quanto as audiências orientais têm uma relação com o cinema bem diferente das americanas (e das americanizadas) aqui no ocidente.
O facto de [“In The Mood For Love“] ter sido no oriente um enorme sucesso junto do público adolescente é algo verdadeiramente extraordinário.
É quase inacreditável poder dizer a alguém aqui no nosso lado do planeta que este filme, esgotou salas no oriente com sessões repletas durante semanas a fio e principalmente com público adolescente o que é quase impossível de aceitar actualmente.

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Os adolescentes orientais inesperadamente, adoptaram como sua esta nostálgica e poética história de amor adulta e de alguma forma identificaram-se plenamente com as emoções presentes neste filme tendo-o elevado a um estatuto que certamente será muito dificil de compreender para o nosso típico teenager, especialmente aqui por Portugal onde já existe uma geração alimentada essencialmente a “Transformers” e filmes da Marvel completamente insensíveis a qualquer coisa que não seja projectada á velocidade da luz.
O que me leva a concluír que se calhar por muito alucinados que os teens orientais nos pareçam, lá bem no fundo haverá por ali um nível de maturidade  emocional superior até ap de muito adulto ocidental americanizado; alimentado a plástico á base de dietas blockbusters made-in-Hollywood.
No ocidente mostrem [“In The Mood For Love“] a muita gente e ninguém aguentará olhar para ele sequer meia hora, pois certamente irão dizer de imediato que o filme não tem história, que não se passa nada naquilo e que é uma seca descomunal. Especialmente os tugas.

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Aliás, notou-se bem isso quando o filme saiu nos videoclubes em Portugal.
Cheguei a ver  um cliente dizer ao dono da loja que nunca mais voltava lá porque este lhe tinha impingido um filme “pa intelectuais” que nem gravado todo no dvd estava (?!) e tudo, porque segundo aquele crâneo, [“In The Mood For Love“], intitulado em português [“Disponível para Amar“], parece que acabava de repente a meio e não se percebia nada.
Está mais que claro que nem precisamos ir junto dos adolescentes consumidores de filmes do Michael Bay para obter este tipo de comentários.
Mostrem [“In The Mood For Love“], a um português adulto consumidor do genérico cinema da moda e imediatamente ele remeterá este filme para aquela categoria de cinema de autor no pior dos sentidos.

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No entanto, a popularidade deste título no oriente junto do público que geralmente consome cinema comercial, foi absolutamente extraordinária, ao ponto dos seus actores terem atingindo com esta obra um estatuto de estrelas de rock ao nível de uns Rolling Stones ou uma Madonna por aquelas bandas gerando enorme comoção por onde passavam.
Foi tal a histeria que provocavam a cada aparição pública para promover este filme, que os seus personagens se tornaram desde então verdadeiras figuras de culto dentro do cinema romântico, ao ponto de Wong Kar Wai o realizador, as ter ido buscar de novo para o seu filme seguinte, o também extraordinário [“2046“].
Segundo o próprio, a melhor não-sequela que poderia ter feito de [“In The Mood For Love“].
Foi certamente foi a mais inesperada.
Talvez uma das “sequelas” mais inesperadas de sempre dentro de qualquer género como já poderam ver pelo início deste meu longo post nesta versão 2 em 1.

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Na verdade Wong Kar Wai começou a gravar coisas para [“2046”] ainda durante as filmagens de [“In The Mood For Love“], mas mesmo ele nem sabia para que serviriam os takes abstractos sem qualquer lógica que foi filmando pelo caminho.
Isto ao ponto de chegar a desesperar os actores e a equipa técnica que nunca percebeu que raio de filme é que estariam a fazer e só viram o resultado quando Kar Wai apresentou a primeira montagem no festival de Cannes tendo deixado toda a gente de queixo caído perante a beleza de cada imagem e a poesia que mostrou no ecrã, onde cada textura se liga com a musica criando um ambiente românticamente assombrado único e original.

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Como resultado limpou basicamente os prémios mais importantes de Cannes nesse ano.
O que tornou [“In The Mood For Love“],  num filme ainda mais extraordinário, até porque Kar Wai raramente tem um script minimamente completo ou sequer pensado quando faz algum filme, pois é famoso por ir inventado á medida que filma e os takes que não servem, aproveita-os para o filme seguinte num processo onde nada se perde e tudo se transforma.
Aliás é por esta razão que muitas das cenas cortadas no dvd do [“In The Mood For Love“], parecem na realidade pertencer mais ao filme seguinte [“2046”],  que ainda nem sequer existia na cabeça do realizador do que a [“In The Mood For Love“] a ser filmado na altura; o que não deixa de ser engraçado.

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Mas a verdade é que este filme por muito inacreditável que isto pareça a muita gente, tornou-se realmente num enorme éxito comercial em quase todo o lado.
O que é ainda mais estranho pois deve ter sido o primeiro filme completamente ligado ao chamado Cinema-de-Autor a ter feito não só muito dinheiro como ainda a ter transformado o seu realizador e actores em verdadeiras estrelas.
Claro que foi um éxito comercial em todo o lado, menos na Europa e nos EUA, onde óbviamente também teve sucesso mas apenas dentro daquele circuito fechado das salas que só passam cinema-de-autor pois seria pedir muito que um filme como este pudesse ser apreciado pelas audiências que habitualmente levam com overdoses de blockbusters americanos a 200 á hora e consomem milho á mesma velocidade enquanto falam ao telémovel durante as projecções quando “não se passa nada” em filmes como este.
Mas passemos á frente.

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Não há muito que se possa dizer sobre [“In The Mood For Love“], pois este é um daqueles filmes em que realmente não se passa nada e portanto pouco se pode contar sobre a sua história, porque o cinema de Wong-Kar-Wai não depende de histórias mas sim de detalhes.
Na verdade se há algo em que Wong-Kar-Wai é realmente bom, será a fazer filmes “sobre nada”.
O verdadeiro conteúdo dos seus filmes não está nas histórias, mas sim nas emoções que este consegue transmitir e fazer o espectador sentir apenas com as coisas mais simples.
Um candeeiro á chuva, os ponteiros de um relógio, um livro, um espelho, tudo serve para criar atmosfera.

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Alguém disse um dia que nos filmes de Wong-Kar-Wai até o fumo é belo e transmite mais emoção e poesia do que horas intermináveis de diálogos pseudo-românticos nas supostas love-stories americanas formuláticas.
É realmente uma boa definição das extraordinárias capacidades deste autor para fazer transparecer emoções através das coisas mais simples e nisto [“In The Mood For Love“],  é um dos seus exemplos mais perfeitos.

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Correndo o risco de fazer fugir as pessoas, a história de [“In The Mood For Love“], é a seguinte:
– No início dos anos 60, em Hong Kong, um casal aluga um quarto numa pensão familiar. A mulher é secretária numa empresa de exportações, o marido trabalha agora na marinha mercante e passa practicamente meses a fio sem vir a casa.
Como resultado, o casamento dos dois, é algo quase inexistente e de conveniência pois naquela época, especialmente na China da altura o divórcio era a maior desonra que poderia cair em cima de uma jovem mulher a seguir ao adultério.
No mesmo dia em que este casal aluga o seu quarto, também outro casal, um jovem jornalista e a sua mulher, alugam o quarto ao lado. Este trabalha para um jornal, mas o seu verdadeiro sonho é ser escritor de pulp-ficition ao melhor estilo de artes marciais, algo que segundo o filme seria bem popular na altura em Hong-Kong.

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Também ele se sente sózinho pois desconfia que a sua mulher o trai e por vias do destino, encontra-se com a sua solitária vizinha de quarto ocorrendo óbviamente uma enorme atracção entre os dois.
Uma atracção com base numa amizade criada pelo facto de ambos gostarem de romances de artes marciais e de se sentirem também absolutamente sózinhos.

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Um dia descobrem por acaso, que a mulher do jovem jornalista é na verdade amante do marido da jovem secretária e que este não faz apenas longas viagens em trabalho mas principalmente usa-as como desculpa para trair a mulher com a esposa do jornalista.
E esta é a história inteira do filme.
Não se passa absolutamente mais nada em [“In The Mood For Love“], que possa ser descrito.
E perguntam vocês – então mas onde raio está o interesse nesta telenovela banal ?

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Wong Kar Wai pega nesta simples ideia e transforma-a numa verdadeira sinfonia de emoções músicais, onde cada imagem é um poema visual e onde a música aliada a enquadramentos absolutamente inesperados transporta o espectador para uma posição quase de espectador casual fazendo-o entrar no filme como se tivesse sem querer escutado uma conversa que não deveria ouvir mas de que não consegue deixar de querer saber mais porque ficou a gostar das pessoas que ouviu.

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É esta a grande força narrativa do filme, e Kar Wai, usa-a para criar um suspanse poético como nunca tinha acontecido numa história de amor.
Todo o filme gira á volta do facto de obviamente os dois protagonistas se amarem e serem realmente almas gémeas que nunca se poderão tocar.

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Não podem arriscar uma relação física entre eles, pois num meio tão pequeno onde todos saberiam imediatamente o que se passava os dois são obrigados a viver de aparências enquanto têm uma relação platónica que também tem de ser mantida secreta porque senão a reputação da rapariga poderia ficar manchada para sempre naqueles austeros anos 60 onde o divórcio nem sequer era opção.

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No meio de tudo isto, eles chegam a encontrar-se num quarto de hotel , precisamente o número “2046” onde Wong kar Wai nos deixará para sempre na dúvida se algo mais realmente aconteceu entre os dois, pois esse número é precisamente o centro da “sequela” no filme [“2046”],  cujo o título se refere precisamente á saudade que o protagonista tem do quarto onde por uma vez na vida viveu um amor de verdade e que é relatado agora em [“In The Mood For Love“].

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Tudo isto é colocado em imagens musicadas pelo génio de Wong Kar Wai de uma forma que é realmente muito dificil de ser descrita em palavras pois todo o filme é um bailado de imagens e enquandramentos indo buscar poesia até ao mais comum dos objectos.
[“In The Mood For Love“], é como um filme musical onde ninguém canta, mas onde a música está sempre presente e é essencial para contar a história e transmitir emoções.
É como um videoclip absolutamente romântico que dura hora e meia e que não precisa de muitos diálogos para contar uma história, fazer-nos sentir e acima de tudo identificarmo-nos com aquelas duas pessoas que poderiam ser qualquer um de nós.

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Uma coisa vos garanto, depois deste filme, nunca mais vão ouvir uma música de Nat-King-Cole da mesma maneira, pois será impossível não pensarem em [“In The Mood For Love“] e nesta história de amor.
E quem pensa que não gosta de Nat-King-cole passa a gostar.

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CLASSIFICAÇÃO

Uma das melhores histórias de amor de todos os tempos e provavelmente uma das mais simples.
Um filme onde até o fumo é algo que poderiamos ficar a olhar durante sequências a fio sem nos aborrecermos e um dos objectos cinematográficos mais visualmente poéticos de todos os tempos.

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É aquele tipo de filme onde podemos fazer pausa a cada segundo e temos uma pintura absolutamente poética no ecran, pois a fotografia desta história de amor é do outro mundo.

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A favor: a poesia, a história e a maneira como foi trabalhada, a extraordinária banda sonora, os personagens inesquecíveis, o trabalho dos actores, a realização é absolutamente notável em todos os sentidos, a fotografia fabulosa, os enquadramentos subliminares, a paixão, a alma do filme, o melhor filme-de-autor “comercial” de todos os tempos ponto final.

Contra: o final é estranho pois parece que não pertence ao resto do filme e não ter nada a ver com a história que acabamos de ver (as cenas apagadas no dvd explicam bem melhor o que aconteceu), não será por isso um filme propriamente apontado ao típico frequentador de salas de cinema de centros comerciais Portuguesas apesar de as ter esgotado no oriente durante semanas a fio.

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILERS

Um dos trailers oficiais é na verdade quase uma curta-metragem. Uma versão mini do próprio [“In The Mood For Love“] e espelha muito bem o estilo visual e narrativo do filme. Conta com uma música interpretada por Brian Ferry chamada precisamente “In the mood for love” e apesar desta música não fazer parte da banda sonora dentro do filme, tornou-se no entanto indisociável da obra.
Espreitem que vale a pena, pois acima de tudo é um excelente videoclip montado pelo próprio realizador.

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NÃO COMPRAR EM DVD ou BLURAY…muito menos em Portugal !
Já existe em bluray mas infelizmente apenas para a região A .
Também está actualmente esgotado em DVD pelas bandas da Inglaterra e só existe uma edição Alemã sem legendas nenhumas…
É aguardar melhores dias para comprar isto…

Atenção: Esqueçam a edição portuguesa, pois só o facto de conter o filme APENAS em stereo 2.0 é razão suficiente para a ignorarem. Num filme em que a música é quase um personagem, terem em Portugal mais uma vez lançado uma edição completamente básica de um filme oriental como este é um verdadeiro insulto ao consumidor, quando este filme é para ser visto com o extraordinário som 5.1 que está na edição Uk.
Não comprem a edição portuga da Lusomundo só por causa das legendas, pois entre ver [“In The Mood For Love“], em stereo e não o verem, sugiro mesmo que não o vejam, pois este filme precisa de um som 5.1 e DTS de preferência para poder realmente transmitir todas as emoções e magia que contém.
Além disso a edição portuga só trás um making of, que até nem é nada mau, mas quando comparado com a enorme quantidade de material extra da edição inglesa até mete impressão que editem filmes como este com tanto conteúdo disponível apenas em edições básicas como fizeram em Portugal com este absolutamente imprescindível filme para quem gosta de bom cinema romântico.
A capa da edição Portuguesa é parecida a esta:

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0118694/

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E se gostaram de [“In The Mood For Love”], então irão certamente gostar dos filmes seguintes.
No caso de “My Blueberry Nights” vão adorar as semelhanças de ambiente, até porque segundo Kar-Wai, esse pode ser considerado um remake em versão inglesa do “In The Mood For Love”, e logo vão perceber porquê.
[“In The Mood For Love“], é na verdade o segundo filme de uma trilogia que não existe oficialmente. E desta trilogia, é o primeiro filme que deverão ver, mas para saberem mais sobre isto consultem a minha review sobre “Days of Being Wild” sem falta.

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E como curiosidade, que quiser espreitar uma curta metragem (publicitária) inédita de Wong-Kar-Wai siga o link abaixo pois não ficará desiludido se gosta do estilo visual do realizador.
http://www.youtube.com/watch?v=gBsbEopulOM&feature=related