Gamgi (Flu) Sung-su Kim (2013) Coreia do Sul


O meu ano de 2014 não podia ter começado melhor em termos de cinema do que com esta injeção de adrenalina proporcionada por [“The Flu”].
Há muito tempo que não encontrava pela frente um filme catástrofe daqueles que nos deixam literalmente “on the edge of our seats” e este foi absolutamente eficaz nesse sentido pois é daqueles que nos faz querer roer as almofadas até quase ao minuto final. Especialmente quando ainda nem sequer tinha visto o trailer ou sabia qualquer coisa sobre ele.

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O que não deixa de ser surpreendente pois na verdade em termos de argumento não tem nada que vocês não tenham já visto mil vezes dentro deste género de filmes, o que para mim só lhe dá ainda mais valor, pois conseguir manter um nível de suspanse como este filme mantém nos seus 40 minutos finais com uma história que á partida não surpreende pela sua originalidade é obra !!
Se também foram daqueles que acharam o Hollywoodesco “World War Z” uma desilusão, então têm aqui o antídoto perfeito na sua vertente oriental.
Não que [“The Flu”] seja propriamente um filme de zombies mas de certa forma na sua estrutura é tudo aquilo que “World War Z” não foi em termos de adrenalina e é o exemplo perfeito de que não é o facto de um argumento estar cheio de lugares comuns e clichés que estraga um filme mas sim a forma como se trabalha esse material e neste caso não poderia estar melhor na minha opinião.

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Em termos de cinema espectáculo têm aqui também um excelente exemplo para mostrarem aquele vosso amigo que ainda pensa que só na américa se faz bom cinema comercial, isto porque visualmente [“The Flu”] conta com momentos assombrosos que não destoariam de um filme de Rolland Emerich ao melhor estilo pastilha elástica “2012”, só que aqui também temos personagens com que realmente nos importamos e não estão apenas na história para servirem de body-count e ilustrarem cenas de efeitos especiais.

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Aliás, a razão porque [“The Flu”] resulta tão bem, especialmente nos últimos 40 minutos finais, é porque por essa altura já estamos plenamente cativados pelas pessoas que vemos no ecran e não apenas pelos heróis; isto porque ao contrário do que costuma acontecer neste género de cinema, o filme não tem pressa de nos mostrar as coisas rápidas demais e aproveita o seu tempo não só para se ir tornando cada vez mais épico sem o espectador dar por isso como principalmente constrói personagens á melhor maneira sul coreana para um resultado final totalmente eficaz no que toca a criar empatia com o espectador. Em [“The Flu”] até o personagem mais secundário tem o seu momento e nada é deixado ao acaso para humanizar as pessoas que nós vemos na história, sejam elas “heróis” ou “vilões” também aqui um conceito que não se pode aplicar naquele sentido em que estamos habituados a encontrar.

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Alguma reviews ocidentais dão uma nota mediana ao filme porque dizem que os personagens choram demais e tudo é por demais melodramático. Acontece que esse melodrama é a principal característica do cinema Sul Coreano e portanto convém que o espectador entre no espírito da coisa, até porque a forma emotiva como os temas são tratados no cinema daquelas partes do mundo reflete muito a cultura desses povos. Por isso na minha opinião penalizar um filme como este apenas porque alguém acha que as pessoas choram demais para mim não faz qualquer sentido. Muito menos dentro do contexto da própria história, pois [“The Flu”] trata essencialmente de um potencial fim do mundo com tudo o que isso implica na vida das pessoas.

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[“The Flu”] centra-se essencialmente na quarentena de uma cidade na Coreia do Sul, mas tem um ambiente bem mais de ameaça global do que mais uma vez “World War Z” conseguiu ter mesmo adaptando um romance que tinha tudo para ser tão bom quanto [“The Flu”] agora conseguiu ser a partir de um argumento “original”.
Bom, mas isto é sobre o quê ? Essencialmente é a típica história sobre epidemias. Gripe das aves em versão extrema pois “flu” significa isso mesmo; -gripe- em inglés.
Se gostam de filmes em que morrem pessoas em quantidades apocalípticas estão no sitio certo. Muita gente a vomitar sangue, cadáveres ás pilhas, criancinhas mortas, pessoas espezinhadas, caos urbano e extermínio em massa. Tudo para divertir o espectador.
E resulta fantasticamente bem.

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Aquilo que na primeira parte do filme parece ser interessante mas não particularmente emocionante depressa se torna no segmento final numa jornada de adrenalina para o espectador daquelas que não nos deixa respirar quase até ao final. Pelo meio ainda temos direito a alguns momentos de humor á boa maneira sul-coreana e claro a uma proto-história de amor que não precisa de ser desenvolvida para ser eficaz.

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[“The Flu”] conta com excelentes interpretações do elenco sul-coreano com grande destaque para o trio de protagonistas onde sobressai a pequena actriz que no segundo acto da história acaba por ser o coração do filme e que dá um show de emotividade no desenrolar da verdadeira montanha russa de acontecimentos que ocorre nos segmentos finais de um filme catástrofe que equilibra muito bem o terror, a aventura, o suspanse, alguma comédia e o cinema de acção e efeitos especiais a um nível tão bom quanto qualquer coisa que vocês tenham visto saída de Hollywood nos últimos anos. Com a vantagem de que aqui temos personagens e não apenas bonecos de cartão.

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Um grande destaque também para aquilo que raramente se fala nestes filmes. As multidões de extras/figurantes que inundam esta produção e têm um papel fundamental em todo o ambiente e cenário apocalíptico de caos e confusão. O espectador nem nota, mas o trabalho de toda esta gente é fantástico neste filme e quem coordenou tudo isto está de parabéns pois as cenas de pânico em [“The Flu”] são do melhor que há e contribuem totalmente para a descarga de adrenalina que os acontecimentos do fim proporcionam no espectador desprevenido.

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Então e coisas más, tem ?
Bem, tem…
Vocês nem queiram saber os canastrões que arranjaram para fazer o papel de americanos(?) que essencialmente são “os vilões” deste filme. Onde raio foram buscar aqueles “actores(?)” ?!!
Quase que arruinam totalmente todo o esforço do realizador para tornar real todo o ambiente e não se entende de todo.
Por outro lado não deixa de ser hilariante, pois o cinema oriental já tem uma longa tradição em colocar os piores actores ocidentais do mundo em papeis secundários. Não acreditam ? Vejam, “Bye Bye Jupiter” pois é talvez o único titulo que consegue ter piores actores ocidentais que [“The Flu”].
Felizmente que o suspanse final da história está tão bem orquestrado que nem com estas interpretações desastrosas pelo meio a adrenalina se perde, mas mesmo assim os “americanos” neste filme são de ver para crer.

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De resto, o filme é um espectáculo. Se tiverem em casa um projector e poderem ver isto num écran pelo menos com uns três metros de largura vão se passar ! Embora também funcione bem numa tv normal, a escala épica do filme é perfeita para vocês exibirem o vosso projector aos amigos e ai de quem tiver coragem de tossir durante [“The Flu”].

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CLASSIFICAÇÃO

Pensei se haveria de dar a classificação máxima a [“The Flu”] ou se “apenas” lhe daria cinco tigelas de noodles, isto porque a força deste filme está no suspanse final e esse só se vive uma vez.
Lembrem-se que nunca temos bem a certeza se isto vai dar um final feliz ou não. No cinema oriental os heróis não têm obrigatoriamente que acabar bem e esse factor também aqui é determinante para criar incerteza e para aumentar ainda mais a tensão no espectador, o que contribui totalmente para o nosso divertimento.
Portanto [“Flu”] enquanto filme vive essencialmente de uma primeira visão. E nesse aspecto não podia ser melhor.

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Quando já o vimos uma vez, claro que tudo aquilo que é espectacular no final perde logo metade do impacto, mas nem por isso posso deixar de dar a classificação máxima a isto.
Já vi o filme duas vezes e aquilo que a uma primeira visão é pura adrenalina, a uma segunda visão torna-se essencialmente na apreciação do excelente trabalho de toda a gente que esteve envolvida nesta produção e para mim é mesmo um dos melhores filmes catástrofe dos últimos tempos. Dentro do cinema oriental é mesmo do melhor que vi no género até hoje. Um blockbuster com alma.

Cinco tigelas de noodles e um Gold Award também. O ano começa bem em termos de cinema oriental para mim.

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A favor: leva o seu tempo a desenvolver personagens, cria suspanse aos poucos sem notarmos o esforço para nos impressionar, todos os personagens são excelentes (até mesmo os americanos se tornam divertidos), a primeira parte do filme consegue manipular bem as reviravoltas do argumento, a segunda metade do filme abre-se para aquela escala épica que esperamos que aconteça, excelentes cenas de pânico, não foge dos momentos gore e mostra sangue sem problemas, consegue um equilíbrio perfeito entre vários géneros, óptimas cenas de acção que embora curtas são sempre colocadas no momento certo, adrenalina pura nos 40 minutos finais.

Contra: Algum paleio “politico” repetitivo a mais pelo meio, tem actores ocidentais do piorio que destoam totalmente de tudo o resto e quase arruinam a tensão final, alguns momentos em CGI não são muito bem conseguidos (mas quase nem se nota). Se calhar poderia ter sido bem mais repulsivo e repugnante do que é pois nota-se que essencialmente isto é para ser um filme para o grande publico e portanto contém alguma contenção de modo a não tornar isto muito insuportável para aquelas pessoas que se assustam facilmente.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=1BvKZMg2LjU

Director´s trailer
http://www.youtube.com/watch?v=3vsm83GA7s4

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Comprar
Neste momento ainda não é fácil. Nem na Play Asia ainda existe.

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt2351310

Não vou colocar nenhum link para download pois estes nunca tardam em desaparecer e não pretendo deixar que o blog se inunde de broken links como já tenho muitos por aqui. De qualquer forma é só procurarem o filme em Torrents que o encontram facilmente. 😉

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Fukkatsu no hi (Virus) Kinji Fukasaku (1980) Japão


E agora, uma obra de que muito pouca gente deve ter alguma vez ouvido falar.
Estive em dúvida entre colocar este filme aqui ou passá-lo para o meu novo blog sobre cinema antigo de ficção científica, “Universos Esquecidos“, mas por agora optei por apresentá-lo no “Cinema ao Sol Nascente”.
Até porque se trata essencialmente, não apenas de mais um filme japonês, mas de uma das maiores produções que alguma vez tiveram lugar dentro do cinema de antecipação saído daquele país.
Sentem-se na cadeira e enervem-se um bocadinho, pois não pensem que o cinema oriental só tem histórias de amor fofinhas.
Depois de verem [“Virus“], se calhar é boa ideia terem uma love-story á mão para descontrair.
Bem-vindos ao possível futuro próximo da humanidade meus amigos.

Se calhar vou começar logo pelas boas notícias já que o filme é tão catastrófico, temáticamente falando.
A boa notícia é que desta vez não vão precisar de comprar nada (ou de fazerem downloads ilegais algures) para poderem ver um filme recomendado neste blog.
Apesar de ter existido até há pouco tempo uma boa edição de [“Virus“], em dvd, se não precisarem de extras também não precisam de gastar dinheiro, pois este filme encontra-se actualmente na condição de domínio público e está já disponível para download gratuíto no conhecido website “Internet Archive” que se dedica a colecionar obras abrangidas por este estatuto.
Todos os detalhes sobre isto no final desta review.

Por agora fiquem a saber também logo que existem duas versões do filme.
A versão original de 155 minutos, e a versão internacional com menos uma hora.
Quem por volta de 1983/84 chegou a ver [“Virus“] no cinema (quando estreou em Portugal), apenas conheceu a versão curta remontada para distribuição americana.
Fora do Japão apenas essa versão ficou disponível e até há bem pouco tempo atrás [“Virus“], na sua versão integral era um daqueles filmes procurados por quem como eu coleciona obras de ficção científica.
A versão curta até nem é propriamente difícil de se arranjar. Eu sei, eu comprei uma das edições em dvd quando ainda não havia mais nenhuma. Agora posso garantir-vos que se não foi o pior disco digital que alguma vez me passou pela frente, andou mesmo muito lá perto e como tal nem vou entrar em pormenores pois até fico doente de pensar que dei dinheiro por aquele pedaço de plástico inútil na altura.

E por falar em doentes…
Gostam de filmes sobre o fim do mundo ?
Gostavam de ver uma obra que realmente conseguisse transmitir uma escala apocalíptica a um nível internacional mas sem parecer um pedaço de plástico fabricado em CGI  realizado em Hollywood pelo Roland Emerich ?
Então estão no filme certo.
Puxem do sofá e não se esqueçam de ter uma caixa de lenços de papel á mão.
Não que o filme seja propriamente para chorar, mas se por acaso começarem a tossir e a espirrar durante o filme é melhor ter logo algo ao pé para não se esquecerem de que afinal os efeitos da doença que vêem no filme ainda não passaram para o vosso lado do ecran.
Mas já agora juntem também uma caixa de aspirinas. Não que lhes servisse de muito se a visão apocalíptica do mundo presente em [“Virus“], pudesse de repente fazer parte da nossa realidade mas convém que estejam convenientemente apetrechados para verem o filme e entrarem plenamente dentro do seu terrível e assustador conceito.

Basicamente fiquem a saber que os americanos deram cabo do mundo de vez.
No início dos anos 80 ao tentarem criar a arma microbiológica que pudesse dissuadir os russos de atacarem os EUA com armas nucleares, a situação escapou ao controlo dos militares que encomendaram o serviço e o planeta vê-se a braços com uma epídemia global de um novo tipo de gripe que mata em trés dias após a incubação.
Um terrível vírus que se transmite como uma vulgar constipação e para o qual não existe nem poderá existir vacina, especialmente quando quem a poderia eventualmente descobrir também ter morrido vitíma da praga que acaba literalmente causando o fim do mundo tal como nós o conhecemos.
Apenas nas regiões com temperaturas abaixo de zero o virus permanece inactivo e como tal um grupo de oitocentos sobreviventes vê-se obrigado a permanecer para sempre nas regiões geladas sem poder voltar aos seus países que pura e simplesmente deixaram de existir enquanto tal.
O problema é que dessas oito centenas de pessoas, apenas restam algumas mulheres, o que serve para o filme colocar também algumas questões interessantes sobre as relações afectivas humanas.

É certo que este tipo de história já conheceu várias interpretações nos ecrans, mas podem ter a certeza que nunca a viram tão bem retratada como em [“Virus“].
Claro que falo da versão integral do filme e não da montagem americana.
Como cinema pode ter imensas fraquezas (que as tem) mas numa coisa acerta em cheio. Quando sai do estilo telenovela e ganha uma estrutura quase de documentário, torna-se num dos filmes mais assustadores que vocês poderão encontrar sobre o final dos tempos.
E nem precisou de entrar por conotações relígiosas para conseguir esse efeito no espectador.
As sequências de pânico mundial estão absolutamente perfeitas e ás vezes transmite mesmo a sensação de que estamos a assistir em directo ás imagens de um qualquer telejornal.
Só a distância que nos separa agora dos anos 80 atenua um pouco essa ilusão mas nem por isso [“Virus“], deixa de conter sequências absolutamente aterradoras, especialmente tendo em conta todas as possibilidades que existem hojem em dia de algo semelhante poder vir a acontecer.

Por muito que não queiramos [“Virus“], impressiona e não podemos deixar de pensar como seria se isto acontecesse. O filme mete medo e causa grande impacto sem recorrer a efeitos especiais para nos dar cabo dos nervos. A coisa mais próxima de um efeito especial aqui, será possivelmente uma boa quantidade de bons matte-paintings que ajudam a retratar a devastação mundial, um par de maquetes bem conseguidas e algumas explosões.
Tirando isto, todo o ambiente de medo é fruto da intensidade da própria realização e da excelente direcção de figurantes durante as cenas de pânico e caos mundial.
O que nos leva ao casting internacional.

Neste filme só deve faltar mesmo um Português, pois a produção foi buscar actores a todas as partes do mundo para compor cada segmento relativo aos principais países representados na história e isso é uma das grandes mais valias em [“Virus“], pois dá ainda mais autitencidade ao filme, visto que inclusive muitos dos personagens até falam nas respectivas linguas. Curiosamente se calhar até o que ainda se fala menos no filme é precisamente o Japonês.
Desde Chuck Connors a Robert Vaugh passando por um jovem Edward James Olmos o filme conta com um casting excelente embora nem sempre aproveitado, talvez devido á dificuldade de dar algo para fazer a tanto personagem.
Inevitávelmente muitos dos diálogos são em inglés, porque as partes de aventura e suspanse são precisamente á volta do perigo de ameça nuclear, que, apesar de metade do mundo ter sido destruído pela gripe, ainda paira no entanto sobre a humanidade. Isto graças aos militares americanos sempre prontos para carregar no botão e mandar os russos para os anjinhos juntamente com o que resta do planeta.

E aqui destaca-se o grande Henry Silva num dos seus habituais papeis de gajo destestável.
Vão adorar o seu personagem de general militarísta patriótico americano. Isto apesar de até ser uma das inúmeras fraquezas do filme, mas não por culpa do actor que até se deve ter divertido á brava.
A caracterização de personagens é um dos grandes problemas em [“Virus“]. Os altos comandos militares são todos doidos, os políticos são todos inúteis, os cientistas são uns desgraçados e as mulheres estão no filme para sofrer e chorar muito.
O que atira o filme para o pior terreno  da telenovela televisiva onde não precisava ter entrado.
Quando [“Virus“], sai do seu modo-catástrofe, a coisa perde-se um bocado e até se arrasta penosamente em alguns momentos, o que confere um ritmo narrativo algo estranho ao trabalho, como se o filme fosse na verdade uma colagem de dois ou trés outros géneros metidos num só e com uns diálogos a ligar tudo.

Isto acontece claramente porque a intenção de criar uma atmosfera internacional muito povoada por seres humanos, obrigou a que o filme introduzisse personagens em todo o lado e depois a maior parte das vezes estes não têm muito para fazer na história. Embora se note que o realizador tenha tentado criar um momento especial para cada um deles, daí a excessiva fragmentação do trabalho.
Não que isto me chateie particularmente, mas se calhar o filme deveria ter tido outra abordagem, pois a verdade é que actualmente não pode deixar de nos parecer um produto algo datado precisamente pela forma como filma as situações-tipo dos filmes catástrofe e desenvolve o previsivel relacionamento entre personagens.
Na verdade é um produto de 1980 e isso nota-se.

Mas não deixem que isso vos impeça de espreitarem [“Virus“], (ainda por cima de borla), até porque apesar do seu estilo retro excessivamente televisivo em certas alturas, consegue noutras ser um excelente exemplo de cinema catástrofe, com algumas imagens muito bem cuidadas e uma boa fotografia.
Acima de tudo, se procuram um filme sobre o fim do mundo, não vão mais longe.
Na minha opinião enquanto filme catástrofe este é um dos melhores exemplos que poderão encontrar actualmente.
Não é um filme de efeitos especiais, não pensem que vão ver outro “The Sinking of Japan” porque não vão, mas podem ter a certeza que encontrarão um filme oriental único com uma extraordinária atmosfera de medo e que consegue manter a sua identidade enquanto cinema oriental.
Mesmo com a quantidade de actores ocidentais que participam no filme, [“Virus“], nunca deixa de ser um filme essencialmente japonês e um excelente exemplo de boa ficção-científica daquela que só a é, porque ainda não aconteceu.

A propósito, se descarregarem a versão longa do filme no site do “Internet Archive”, poderão também retirar as respectivas legendas em inglés para as partes faladas em japonês. Existe depois um tutorial no site que explica como poderão gravar com elas o vosso próprio dvd.
Mas se não as quiserem tirar, podem ver o filme sem legendas sem grandes problemas, pois grande parte dele é falado em inglés e até as partes em japonês são perfeitamente compreensíveis apenas pelo que se passa nas imagens, porque felizmente [“Virus“], apesar do seu estilo televisivo é no entanto um produto extremamente visual e quase que podia ser falado em Checo que não teriamos problemas em seguir a sua narrativa, por isso não se preocupem muito.

Agora esqueçam a versão curta deste filme. As partes de caos e porrada estão lá quase todas, mas a montagem dessa versão reduzida é tão diferente que quase parece um filme novo em certos aspectos pois ainda torna mais vazios a maior parte dos personagens. Isto porque os americanos retiraram tudo o que era desenvolvimento de situações e só deixaram no filme mesmo o que interessava para o tornar numa espécie de blockbuster á moda americana que nunca poderia ter sido porque [“Virus“], é essencialmente um drama assustador e perturbante e não um festival de aventura juvenil e efeitos especiais.

A um nível pessoal, este é um filme que me marcou quando era puto. Vi-o com uns amigos aos 13 anos numa noite de verão num cinema de Portimão ao ar livre pensando que seria uma espécie de imitação de Star Wars e no entanto saiu-nos uma coisa completamente inesperada que nenhum de nós esqueceu.
Em Portugal o filme quando passou nos cinemas de província, chamava-se [“Ameaça Planetária“] e tinha um cartaz que dava a ideia de que o filme ia ser uma espécie de space-opera com invasões espaciais.
Resultado, na altura levamos com um filme que não esperavamos mas já na altura marcou-nos pelo seu ambiente, embora só tivessemos visto a versão reduzida, claro está.
Lembro-me que em anos seguintes acabei por revê-lo ainda no cinema, pois na altura gostei já o suficiente do filme para me apetecer ver outra vez.
Isto numa altura em que ainda não estreavam sucessos cinematográficos fora de Lisboa e Porto e os cinemas de província levavam anos a passar os mesmos filmes que rodavam ciclicamente entre salas em cópias que só paravam de ser exploradas quando queimavam em plena projecção.
A long time ago…no início dos anos 80.

E chega de paleio,  porque espero que a esta altura já estejam pelo menos com curiosidade para ver este filme.
Quando o revi há um par de anos na cópia atroz em dvd que adquiri na altura, detestei o filme em absoluto, mas afinal a qualidade do dvd também não ajudava e além disso foi o cut americano que hoje já não parece tão impressionante como me parecia quando o vi no cinema há mais de 25 anos.
No entanto, quando vi pela primeira vez a versão integral um par de dias atrás, a magia desta obra voltou a conquistar-me e a assustar-me por isso resolvi recomendar aqui esta excelente obra esquecida.
A propósito, isto também não são só tragédias, pois o filme contém ainda uma simples mas eficaz história de amor como não podia deixar de ser num filme oriental. Não deslumbra, mas fica bem.

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CLASSIFICAÇÃO:

Filme completamente imprescindível para quem gosta de cinema catástrofe e quer ver um daqueles filmes que realmente representa muito bem o fim do mundo.
É mesmo muito bom e só não é melhor porque actualmente se encontra algo datado e sente-se ao longo do filme uma falta de equílibrio entre géneros de cinema que não foram plenamente misturados como seria de desejar.
Portanto, trés tigelas e meia de noodles porque é melhor que bom e merece mesmo ser visto nem que seja uma vez.

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A favor: o casting internacional funciona muito bem mesmo com alguns personagens estéreotipados, o clima de medo e pânico está extremamente bem criado o que confere ao filme um estilo quase documental em algumas partes, o ambiente apocalíptico de fim do mundo é fantástico e muito perturbante, contém um par de sequência psicológicamente pesadas dentro do contexto do conceito do filme, tem um bom argumento que resulta bem de uma forma geral, as cenas com as cidades mundiais devastadas cheias de cadáveres a apodrecerem na desolação não podiam ser melhores, tem alguns bons momentos de suspanse e aventura, tem uma atmosfera realmente épica e completamente internacional o que confere uma atmosfera muito real ás cenas apocalípticas, é muito assustador e cada vez está mais actual, não é um filme de terror mas se calhar ficará mais na memória colectiva de quem o vir do que muitas outras coisas mais populares.
Contra: é um filme de 1980 e nota-se, o excessivo tom de télenovela que percorre os estereotipos das partes dramáticas, tem persongagens a mais e por isso não há tempo para desenvolver a história de cada um deles como deveria de ser, a caracterização unidimensional dos militares e dos vilões é muito cartoonesca, tem uma realização demasiado televisiva para uma obra cinematográfica.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
Esta apresentação é um bocado fraquinha e se calhar acaba até por ser a pior coisa do filme, pois não se sente bem no trailer a dimensão apocalíptica que depois o filme tem.
http://www.youtube.com/watch?v=JXKPkpcviKM

Comprar Versão Integral
Este pack, contém a versão integral de Virus, mas pelo visto acabou de esgotar…
http://www.amazon.com/Sonny-Chiba-Action-Virus-Bullet/dp/B000GETUBK

Comprar nova edição em dvd da versão curta remontada pelos americanos e com menos uma hora.
http://www.moviesunlimited.com/musite/product.asp?sku=D73736

Download da versão integral (public domain) com excelente qualidade, no site internet archive.
http://www.archive.org/details/Virus_Fukkatsu_no_hi

Download da versão curta distribuída internacionalmente no cinema fora do Japão no início dos anos 80.
http://www.archive.org/details/cco_virus

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0080768/

Uma gigantesca review adicional em inglés, mas carregada de *spoilers*
Sugiro que não a leiam antes de verem o filme para depois compararem-na com a vossa própria opinião mais tarde. Estão por vossa conta.
http://www.braineater.com/virus.html
Tem coisas com que eu concordo e outras com que discordo mas não há dúvida que é uma das mais gigantescas críticas que me lembro de encontrar na net sobre um filme oriental.
Infelizmente é um daqueles textos que revela cada pormenor do filme não deixando absolutamente nada á descoberta. Ficam avisados. 😉

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