Kaze no tani no Naushika (Nausicaa of the Valley of the Wind – (“Warriors of the Wind”/”Os Guerreiros do Vento”)) Hayao Miyazaki (1984) Japão


Os mais velhinhos que me estão a ler em Portugal, devem lembrar-se daqueles anos, um par de décadas atrás em que algumas Câmaras Municipais (Prefeituras para o pessoal que me lê no Brasil) a meio dos anos 80, montavam antenas parabólicas em pontos altos das suas autarquias de modo a transmitir emissões de televisão estrangeiras de borla para toda a população.
Foi graças a isto que consegui pela primeira vez descobrir aquele que imediatamente se tornou um dos meus filmes de fantasia/Fc favoritos em animação dentro do cinema oriental , [“Nausicaa of the Valley of the Wind“].

Quem tivesse uma antena no telhado, estivesse perto do transmissor ou então comprando um amplificador de sinal que o tornava mais próximo, (esgotaram todos onde vivo durante meses a fio), conseguia apanhar o velhinho e já extinto canal de cinema “Premiére” que além de ter sido dos primeiros a trazer ás nossas salas-de-estar aqueles filmes que só se podiam ver no cinema foi também uma estação que apresentou as primeiras longas metragens de cinema asiático e Anime que vi.

Isto alguns anos antes de eu inclusive ter conseguido que a minha mãe me comprasse aquilo que era o sonho de todos os putos que gostavam de filmes nessa altura, um videogravador VHS. De duas cabeças apenas claro porque não havia dinheiro para um mais caro e estas coisas custavam os olhos da cara nesses dias. Tempos nostálgicos.
Foi a primeira vez que vi [“Nausicaa of the Valley of the Wind“]. Na altura ainda não o sabia mas mesmo tendo gostado tanto do filme, na verdade ainda não o tinha visto na versão integral.

Isto porque o “Premiére” costumava passar não a versão original do filme mas sim a sua versão remontada para distribuição nos Estados Unidos dobrada em inglés.
Conhecida por “Warriors of the Wind” pouco mais de 80 minutos tinha, mas mesmo assim tornou-se logo uma referência até para o meu próprio imaginário pois muito do meu estilo de ilustração de paisagens teve origem na admiração por esta obra e pelo mundo que nos fazia habitar até mesmo naquela versão condensada.

A mesma que depois ainda revi algumas vezes numa cópia Betamax de um amigo meu (que era rico porque tinha um gravador de video) e que na altura tinha gravado do Premiére,  [“Nausicaa of the Valley of the Wind“] naquela versão “Warriors of the Wind” que chegou inclusivamente a ser (horrivelmente mal) editada mais tarde numa cópia VHS em Portugal debaixo do titulo “Os Guerreiros do Vento” e estranhamente com uma capa que nada tinha a ver com o filme e mais parecia uma má cópia Espanhola dos “Cavaleiros do Zodíaco”.

Nem vale a pena esconder nesta altura que vou atribuir a nota máxima a este filme e na realidade eu dar-lhe-ia na mesma cinco tigela de noodles e um Golden Award se estivesse apenas a falar dele na sua inferior versão “Warriors of the Wind” porque sinceramente em termos de impacto continuo a achar que o filme é fantástico. Aliás, tão fantástico que podem numa altura ter-lhe cortado vinte minutos e o filme continuou a ser uma obra prima, tanto  do cinema oriental como do cinema de animação em geral na minha opinião.

Claro que não recomendo a niguém que veja a versão curta em vez da versão original que quase alcança as duas horas, mas se a escolha for entre só terem acesso á versão de 80 minutos dobrada ou não verem o filme, não deixem de ver [“Nausicaa of the Valley of the Wind“] mesmo que ele se chame apenas “Warriors of the Wind / Os Guerreiros do Vento“, especialmente se gostam de boas histórias do género com personagens carismáticos e ambientes imaginários cheios de identidade e adoram o estilo de animação presente nos filmes orientais do género.

O filme costuma ser comparado com “Dune” principalmente por causa das criaturas no estilo “Sandworm” que também povoam este universo e pela forma como as motivações políticas são encadeadas para formar esta história única. Muitos do pormenores que mais tarde encontramos duplicados nos trabalhos seguintes do Estúdio Ghibli apareceram primeiro neste trabalho e portanto se por acaso alguns momentos do filme os fizer recordar de “A Princesa Mononoke” isso não será coincidência, especialmente no que toca á constante temática da protecção da natureza que costuma estar sempre presente nos trabalhos de Miyazaki.

Pessoalmente, tenho achado a fase mais moderna do estúdio Ghibli algo decepcionante pois as mais recentes obras não me cativaram tanto quanto os filmes antigos. “Totoro”, “Kiki“, “Laputa“, “Grave of Fireflies”, “Porco Rosso” e [“Nausicaa of the Valley of the Wind“] são definitivamente os meus filmes japoneses favoritos dentro do Anime e como tal recomendo a toda a gente que começe por esses títulos se chegar agora á obra do estúdio Ghibli.

Não há muito mais que eu possa dizer sobre [“Nausicaa of the Valley of the Wind“] que não lhes estrague o prazer da descoberta se nunca o viram. Só posso dizer que é realmente tão bom quanto o pintam em quase todas as reviews de filmes asiáticos espalhadas pela net.
Os personagens são cativantes, o universo é fantástico e o argumento é extremamente interessante.

Essencialmente conta a história do que aconteceu um dia, mil anos após aquilo que básicamente se tornou no fim do mundo conhecido onde a maior parte do ecosistema da Terra foi destruído. Toda a humanidade encontra-se agora espalhada pelo planeta em pequenas povoações e dívidida em vários impérios que no entanto se encontram isolados uns dos outros por uma misteriosa floresta onde tudo é tóxico mas apesar disso é no entanto habitada por uma variedade extraordinária de plantas e insectos gigantes.

Nausicaa é o nome da princesa do pequeno reino do Vale do Vento, que procura explorar sózinha estas florestas letais para o ser humano e um dia se vê inesperadamente envolvida numa aventura que não esperava e onde o seu próprio papel poderá decidir o futuro do mundo. Contem com muitas batalhas, insectos gigantes, princesas, aviões gigantes e muita atmosfera steampunk.

Contém excelentes sequências de acção e alguns momentos mais contemplativos para equilibrar quanto baste, tudo coreografado numa realização quanto a mim do melhor que existiu até hoje no Anime pois independentemente disto ser um desenho animado ou não, na minha opinião [“Nausicaa of the Valley of the Wind“] é um dos melhores filmes disponíveis por aí e um titulo obrigatório para quem gosta de FC ou simplesmente de filmes japoneses ou orientais no geral e não tem preconceitos com a animação ou o Anime.

Estou para falar disto há seculos aqui no blog mas até hoje nunca o tinha feito porque pensava que o filme seria por demais conhecido e toda a gente interessada nele já o tinha visto, até porque existem muitas críticas de cinema espalhadas pela net que falam dele.
No entanto ás vezes esqueço-me que este espaço também é lido pelo pessoal mais novo, pessoal que tem agora 14,15,16 anos e ao conversar com o meu filho (15 anos) no outro dia é que me bateu a ideia de que já há por aí uma geração que porventura conhecerá muito melhor um Dragon Ball e o Naruto do que estes filmes Anime que no fundo pertencem ás origens de tudo o que hoje é popular em produtos televisivos saidos do cinema de animação oriental.

Portanto espero que esta recomendação agora pelo menos sirva para quem nunca soube da existência deste filme oriental o tente procurar pois quanto a mim é dos melhores filmes de aventura em animação que existem no mercado e na verdade causa-me sempre um problema. Se eu tivesse que escolher o meu favorito dos primeiros filmes Ghibli não conseguiria pois este é realmente tão bom quanto “Laputa” ou “Kiki” por exemplo. Para nem falar de “Totoro” que também acho absolutamente brilhante e do qual falarei em breve por aqui.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Outro dos melhores filmes de fantasia Anime que poderão encontrar, um dos melhores exemplos da qualidade do cinema oriental em geral e mais uma vez outro dos melhores trabalhos deste realizador. Na verdade foi a primeira longa metragem do estúdio Ghibli e foi o seu sucesso que originou depois todos os outros fantásticos trabalhos que agora conhecemos.
Na minha opinião é mais uma obra prima da animação. Não só do cinema Anime japonês mas de uma forma geral.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award como selo de qualidade excepcional sem qualquer sombra de dúvida.
noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg gold-award.jpg

A favor: Tudo. Personagens em geral, conta com uma personagem feminina cheia de personalidade, história, conceito, paisagens, detalhes dos desenhos, a banda sonora original, ambiente apocalíptico, os insectos gigantes tão inesquéciveis quanto os sandwordms de Dune.
Contra: Nada ! Mas possivelmente a versão dobrada em inglés poderá não ter tanta piada, por isso vejam primeiro a versão japonesa. Quem não gosta de Anime ou FC não vai ficar a gostar.

—————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=7wSba9hwCaU

COMPRAR em DVD
A quantidade de versões dos produtos Ghibli á venda na net pode ser um pesadelo porque existem inúmeras edições bootleg (tenho uma delas realmente excelente que já não se encontra á venda contendo as versões originais dos filmes).

No entanto a edição oficial UK á venda na Amazon é do melhor que actualmente poderão encontrar e vale mesmo a pena, por isso se não se contentarem com apenas sacarem o filme da net e quiserem realmente colocar este filme na vossa estante sigam o link abaixo porque esta edição vale mesmo a pena.

Nausicaa of the Valley of the Wind [DVD]

Manga
Esta história também está contada em BD por isso se gostarem do filme provavelmente irão querer ter a versão em Manga também disponível na Amazon.uk

Nausicaa of the Valley of the Wind Volume 1 (Nausicaa of the Valley of the Wind)

Nausicaa of the Valley of the Wind Volume 2

Nausicaa of the Valley of the Wind volume 3

——————————————————————————————————————

Se gostou deste vai gostar de:

——————————————————————————————————————

2046 (2046) Wong-Kar-Wai (2004) China


Quando pensamos em ficção-científica o nome de Nat-King-Cole não será própriamente aquele que nos vem à ideia quando imaginamos um futuro em ambiente Blade Runner, mas eu já não consigo ouvir as suas canções ; (principalmente as canções em Espanhol ) sem imaginar imediatamente prédios imensos rodeados por neons coloridos, carros flutuantes, vielas escuras ou á meia-luz e um ambiente noir intensamente romântico assente numa aura nostálgica de solidão e saudade.
Bem vindos a [“
2046“].

2046_01

Bem-vindos ao terceiro filme de uma trilogia que por acaso até nem existe.

Se [“2046“] fosse cinema Lusitano seria um filme sobre Fado.
Um filme sobre vielas escuras, candeiros á meia luz, almas em câmera-lenta, destinos errantes, amores perdidos e muita Saudade.

 2046_15

[“2046“] pode não ser um filme Português, mas esta história podia ter saído perfeitamente de qualquer poema presente nos nossos Fados.
[“2046“] é verdadeiramente um filme Chinês embora com uma imensa e inesperada alma Lusitana.
Isto apesar do argumento ser também em grande parte uma narrativa de ficção-científica que não fica nada a dever ao universo de Blade Runner.

2046_12 2046_02

Aliás, se alguma vez houve uma “sequela” inesperada para um drama romântico, [“2046“] ganha esse prémio sem sombra de dúvida, pois a última coisa que se esperava era que Wong Kar Wai fosse continuar não só a história de [“In The Mood For Love“] como ainda por cima o fizesse usando um cenário futurista que mete cyborgs ao melhor estilo “replicant” e tudo.
A primeira vez que li a notícia dizendo que [“2046“] daria continuidade a “In The Mood For Love” pensei que seria uma piada de 1 de Abril, pois por mais que tentasse não conseguia conceber como raio se pegava num filme tão classicamente romântico para o transformar numa história com contornos de ficção-cientifica.

2046_18 2046_14

Mal sabia eu que afinal [“2046“] não só, era uma continuação não oficial de “In The Mood For Love” como ainda por cima também uma “sequela” quase directa para [“Days of Being Wild“] outro dos filmes mais antigos do realizador e que por sua vez, também já tinha servido de base para “In The Mood For Love“.
Confusos ?
Ainda não viram nada, mas para saberem mais detalhes sobre tudo isto, recomendo que depois leiam sem falta a minha review sobre – [“Days of Being Wild“] o “primeiro” filme desta “trilogia”, num link que darei mais á frente para não os baralhar agora ainda mais.
Para já voltemos a  [“2046“].

2046_03 2046_36

Lembram-se da famosa cena romântica de Blade Runner em que Rick Deckard seduz a Rachel ao som do icónico tema de saxofone composto por Vangelis ?
Pois bem, em [“2046“] é como se o realizador Wong Kar Wai tivesse pegado nesse ambiente que em Blade Runner dura pouco mais de cinco minutos para criar um filme de duas horas com o mesmo estilo de atmosfera romântica; onde não só as imagens importam mas principalmente a música é absolutamente essencial para traduzir em emoções um argumento que não precisa de diálogos para ser intensamente poético.

2046_56 2046_13

Mas afinal,  [“2046“] é uma “sequela” para “In The Mood For Love” porquê ?
É muito simples…Tal como em “Days of Being Wild” conhecemos a juventude da personagem interpretada pela actriz Maggie Cheung tanto nesse filme como depois mais tarde em “In The Mood For Love“, também agora aqui em  [“2046“], ficamos a saber de que forma foi afectada a vida do personagem interpretado por Tony Leung após ter encontrado o amor da sua vida nesse “segundo” filme.
Em  [“2046“] ele é um novo homem; passaram-se alguns anos desde “In The Mood For Love“, estamos a meio dos anos 60 em Hong-Kong e longe vão os tempos do jornalista tímido e recatado completamente apaixonado por alguém que sabia nunca poder vir a ter nos seus braços.

2046_50 2046_07

Agora toda a sua vida não passa de uma sucessão de mulheres, casas de alterne, casinos e clubes nocturnos por onde ele se cruza com outras almas tão perdidas quanto a dele, vivendo a vida e a noite ao sabor da saudade, da recordação de amores perdidos e da constante procura desse amor antigo sempre numa nova pessoa errada.
Uma constante solidão colectiva que Wong Kar Wai filma como ninguém e faz deste filme uma experiência cinematográfica inesquecível para todos aqueles que já gostavam de “In The Mood For Love” e querem voltar a encontrar aqueles dois personagens.

2046_17 2046_08

Só que desta vez, Maggie Cheung, já não está presente.
Apenas a sua breve imagem aparece quase como um sonho que percorre alma do personagem de Tony Leung acentuando a eterna saudade que o move por todo este filme e o leva a escrever um conto de ficção-cientifica que na realidade é o espelho do que ele sente mas nunca demonstra a nenhuma das mulheres que agora em  [“2046“] percorrem a sua vida.
Nesse conto, passado precisamente no ano 2046, a humanidade conseguiu criar cyborgs extremamente avançados que se assemelham a humanos, em tudo menos numa coisa.
São incapazes de reconhecer emoções de uma forma imediata.

2046_25

Nesse ano futuro, cujo a data é precisamente baseada no número do quarto onde em “In The Mood For Love” o personagem interpretado por Leung se encontrava com a mulher da sua vida, um rapaz encontra-se apaixonado por um cyborg feminino ao melhor estilo replicant e essa máquina a pouco e pouco também se vai apercebendo que o ama.
Mas existe um grave problema pois a replicant tem uma característica especial e todas as suas emoções contêm um atraso temporal.
Só várias horas depois de viver um acontecimento é que ela reage emocionalmente a esse momento. Antes não o consegue fazer.

2046_24

O que na história provoca um dilema romântico na sua relação com o jovem humano que não reconhece esse facto e julga que estará a desperdiçar o seu amor numa máquina que jamais será capaz de lhe corresponder desconhecendo no entanto que esta também o ama embora só consiga reagir ao seu amor muitas horas depois quando os dois já não se encontram juntos.

2046_34 2046_37

Quem conhece bem “In The Mood For Love” já está aqui a ver o parelelismo entre o amor platónico da “segunda” parte e esta história que o personagem interpretado por Tony Leung tenta agora metafóricamente passar para o papel como forma de confessar secretamente as suas verdadeiras emoções e confessar a saudade que ainda sente pela personagem de Maggie Cheung tantos anos depois.
Isso leva a que seja agora incapaz de viver um novo amor com as mulheres que o rodeiam; mulheres que o amam agora de verdade mas tal como ele, estão condenadas a viver presas á saudade de um amor que nunca poderá existir.
E basicamente esta é a história de  [“2046“].

2046_05 2046_41

Não esperem um filme de ficção-cientifica com aventura, vilões e perseguições mas sim a continuação de uma inesquecível história de amor vista de uma perspectiva completamente inesperada, atmosférica e muito original.
Wong Kar Wai, filma essencialmente -a saudade- e de que forma esse sentimento pode impedir que um novo amor surja na vida de qualquer pessoa que se mantenha pressa ao passado.
Neste campo, uma nota especial, para os trés novos interesses românticos de Tony Leung. Nomeadamente para as actrizes Bai Ling, Zhang Ziyi (que desta vez não anda envolvida em combates de artes-marciais) e Carina Lau que regressa ao universo desta história.
Todas com interpretações emocionalmente extraordinárias que quase fazem esquecer a ausência de Maggie Cheung embora esta esteja sempre presente no tema da saudade que percorre o filme.

2046_49 2046_23

Carina Lau, inesperadamente retoma aqui a personagem que foi anteriormente o centro de “Days of Being Wild”,  o que liga de forma genial todos os três filmes desta trilogia.
Um trilogia, que segundo o próprio Kar Wai nem se pode considerar oficial pois simplesmente aconteceu e nunca foi minimamente planeada.
E quem conhece o cinema do realizador e a forma como ele trabalha, não tem qualquer dificuldade em acreditar nisto.
A verdade é que o resultado mais uma vez não podia ter sido melhor e Kar Wai voltou a criar um filme romântico completamente original que vale por si próprio embora não seja para todos os públicos.

2046_19

Na verdade não é obrigatório que se conheçam “os filmes anteriores” para poderem apreciar  [“2046“], mas podem ter a certeza que se os conhecerem e principalmente se gostarem deles, esta “terceira parte” ganha nova vida e torna-se um filme ainda mais indispensável para quem gosta de cinema verdadeiramente romântico com muita alma e extraordinária poesia visual.

2046_35

Mas atenção; tal como em relação aos “filmes anteriores”, também  [“2046“] é puro cinema-de-autor ao melhor estilo Art-House.
É muito sofisticado, é certo, mas não é de forma alguma cinema comercial romântico ao estilo de um “The Classic“, por isso pode não ser um filme para todas as audiências.
Mas se gostarem de filmes românticos e quiserem experienciar uma história verdadeiramente única dentro do género, não podem de forma alguma deixar de ver pelo menos “In The Mood For Love” e este  [“2046“].

2046_46 2046_20

Até mesmo quem procura um bom filme de ficção-científica tem aqui uma excelente proposta pois esse segmento em ambiente Blade Runner embora seja relativamente secundário dentro da história é no entanto absolutamente fascinante e a actriz que faz de cyborg é simplesmente perfeita  na composição da replicant que perde o seu primeiro amor porque não consegue demonstrar os seus sentimentos quando seria a altura certa.

2046_29

E claro depois disto, terão obrigatóriamente de querer ver “Days of Being Wild” porque a “primeira parte” tornar-se-á verdadeiramente indispensável.
Mas só a devem ver quando virem a “segunda” e esta “terceira” pelo menos uma vez.
Antes não.
Se já estão completamente confusos tudo está explicado aqui na minha review de [“Days of Being Wild“] originalmente publicada no meu site sobre cinema oriental.

2046_39 2046_52

Se conhecem [“My Blueberry Nights“] ( o primeiro filme ocidental do mesmo realizador protagonizado por Norah Jones e Jude Law ) , se gostaram desse filme e do seu ritmo narrativo lento e hipnótico muito baseado na interacção com a banda-sonora então não tenham medo de arriscar ver  tanto “In The Mood For Love” como  [“2046“], pois o estilo visual é o mesmo, embora “My Blueberry Nights” seja ligeiramente mais comercial.

2046_47 2046_30

Se virem os filmes sem ideias pré-concebidas sobre cinema-de-autor, irão descobrir uma trilogia de filmes românticos únicos e inesquecíveis, que podem divertir não pelas explosões mas sim pelas emoções, especialmente se vocês se identificarem com a alma dos personagens.
E mais uma vez, tal como aconteceu com “In The Mood For Love” depois de verem isto, nunca mais vão deixar de associar Nat-King-Cole ao universo de Wong Kar Wai.

2046_40 2046_31

A maneira como ele usa em [“2046“], “The Christmas Song” cria uma atmosfera nostálgica única e é um verdadeiro mini-videoclip para a emoção dessa canção.
Aliás a banda sonora, como acontece sempre no cinema deste realizador mais uma vez é um personagem á parte dentro do filme, pois a forma como é usada para contar a história é um exemplo perfeito da sua forma única de fazer cinema onde a música é tão indispensável quanto a camera de filmar ou o director de fotografia.

E tal como acontece também no seu filme “My Blueberry Nights“, também em [“2046“], o espectador assiste a toda a história como se fosse a passar e por acaso; como se vislumbrasse sem querer uma cena entre duas pessoas ou ouvisse uma conversa que não deveria ouvir. Esta abordagem é verdadeiramente fascinante criando algumas das mais belas imagens que poderão encontrar no moderno cinema romântico seja de onde for.

2046_51

[“2046“] apesar de já ter alguns anos continua a ser visualmente um filme incrível, tal como “In the Mood for Love” já o era; e uma das minhas grandes referências também quando crio qualquer trabalho de ilustração.
E portanto…

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Excelente filme de autor que ganha uma dimensão extraordinária se conhecerem as histórias de “In The Mood For Love” e “Days of Being Wild“.
Se gostaram do mais recente filme de Wong Kar Wai, “My Blueberry Nights” têm aqui algo de que muito provavelmente irão gostar também.

2046_55

Quanto a mim este é mais um daqueles filmes perfeitos. Embora não seja um filme fácil, todo o seu experimentalismo Art-House recompensa plenamente o espectador pelo romântismo que ilustra e será possivelmente um dos melhores filmes sobre – a Saudade – jamais feitos.
Com uma banda sonora extraordinária e uma fotografia absolutamente perfeita que junto com a fantástica e intimista realização de Wong Kar Wai, elevam este filme a um patamar único dentro do cinema romântico e até mesmo dentro da ficção-científica – menos comercial.

Cinco Tigelas de Noodles e um Gold Award

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg gold-award.jpg

Para conhecerem tudo sobre a trilogia de que este filme (não) faz parte, leiam a minha review de Days of Being Wild

A favor: tudo, poesia, personagens, ambiente, banda sonora, romantismo, fotografia, realização e argumento, a maneira como a música é usada, a estética das imagens, o design de produção, as partes de ficção cientifica intimistas, alguns discretos mas inesperados momentos de humor que equilibram a carga dramática do filme, o trabalho das actrizes é fantástico.

Contra: absolutamente nada ! Embora para muita gente este possa ser um daqueles filmes “pa intelectuais” onde não se passa népia e tudo anda muito devagar sem tiros.

——————————————————————————————————————

TRAILER

COMPRAR DVD – REGIÃO 2 – EDIÇÃO UK
dvd
https://www.amazon.co.uk/gp/product/B0007NBJ00/ref=as_li_tl?ie=UTF8&camp=1634&creative=6738&creativeASIN=B0007NBJ00&linkCode=as2&tag=cinaosolnas00-21

IMDb
http://www.imdb.com/title/tt0212712/

Curta metragem (publicitária) inédita de Wong-Kar-Wai para quem quiser ver mais um trabalho deste autor que não se encontra editado em lado nenhum.
http://www.youtube.com/watch?v=gBsbEopulOM&feature=related

——————————————————————————————————————

E se gostaram deste não vão querer perder

capinha_tears-o-the-black-tiger

——————————————————————————————————————

Tenkû no shiro Rapyuta ( Laputa – Castle in the Sky ) Hayao Miyazaki ( 1986 ) Japão


Lembram-se de “Conan-O Rapaz do Futuro” ?
Para muita gente, uma das melhores séries de animação de sempre, especialmente para aqueles que eram adolescentes no início dos anos 80.
O que algumas pessoas não sabem é que quando o realizador Hayao Miyazaki fundou o estúdio de animação Ghibli no inicio dos anos 80, umas das suas primeiras incursões no formato de longa metragem foi precisamente uma espécie de regresso aos personagens que lhe deram fama, – Conan e Lana – embora neste filme não se chamem assim.
O resultado foi [“Laputa – Castle in the Sky“]. Na verdade não é um remake de “Conan-O Rapaz do Futuro”, mas tem suficientes semelhanças em toda a sua estrutura para agradar aos mais saudosistas da série de televisão que lhe serviu de rascunho.

Situada numa espécie de Europa alternativa, talvez algures nos finais do sec.XIX, [“Laputa – Castle in the Sky“] conta a história de um rapaz, de uma rapariga que possuiu um cristal mágico e de uma cidade flutuante que muitos julgam ser apenas uma lenda mas que contém um poder extraordinário no seu interior.

Naturalmente temos depois os vilões, sempre caracterizados como políticos, donos de coorporações ou militaristas sem escrúpulos, tal como é comum na obra do realizador e algum enquadramento ecológico sobre a importância da conservação do mundo natural como também é a habitual preocupação nas produções Ghibli.
Além disso existem ainda os semi-vilões humorísticos para aliviar a carga dramática e proporcionar espectaculares momentos de perseguição ao longo do filme.
Todo o conjunto embrulhado numa atmosfera mágica mas sempre fundamentada na realidade apesar dos elevados níveis de imaginação e criatividade presentes em todo o filme.
Adicionamos a tudo isto uma banda sonora com um toque de poesia musical e temos uma obra absolutamente mágnifica.
Tudo certo portanto.

O que dizer então mais sobre este filme sem estragar por completo a descoberta da sua magia ?…Isto complica imenso a minha review mas a verdade é que este é um daqueles filmes que quanto menos detalhes revelamos sobre ele melhor, pois é uma verdadeira maravilha artística do inicio ao fim.
Desde os ambientes steampunk , até ao visual gráfico absolutamente criativo presente ao longo de todo o filme, estamos perante uma verdadeira obra prima, não só da animação, mas também da ilustração de fantasia com cenários lindíssimos que já são uma referência no mundo da animação.

Além disso os personagens são mais uma vez a alma da história. Não só é bom voltar a ver o “conan” e a “lana” agora numa longa metragem a sério, como [“Laputa – Castle in the Sky“] apresenta-nos muitos mais que se tornaram figuras de culto, tal como os imaginativos robots guardiões de Laputa que se tornaram extremamente populares no Japão transformando-se mesmo num dos ícones do design dentro do género com todo o mérito pois são verdadeiramente um personagem inesquecível pela sua simplicidade.

A obra de Miyazaki, só muito recentemente se deu a conhecer ao grande público em Portugal, através da estreia (miraculosa) no cinema do filme “A Princesa Mononoke” (que não me impressionou particularmente), e dos seus filmes posteriores, “A Viagem de Chihiro” e mais recentemente “O Castelo Andante”.
Todos os trés com edição Portuguesa em dvd.
É no entanto uma pena que o resto da obra produzida pelo estúdio Ghibli continue ainda sem ser editada no nosso país, pois na minha opinião todos os trabalhos antigos são muito superiores a qualquer uma das novas longas metragens tão populares actualmente, mas que me parecem mais uma reciclagem de tudo o que já foi feito antes.

[“Laputa – Castle in the Sky“] , no entanto é um caso especial dentro da filmografia do estúdio Ghibli e espero sinceramente que alguém no nosso país se lembre também de lançar este filme por cá.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Um dos melhores filmes de fantasia de sempre com um estilo steampunk excelente e uma profundidade que vai muito para além da banal aventura para crianças. Ponto final.
A prova de que o facto de ser Anime não implica de modo nenhum que seja um objecto menor de Cinema só porque é um desenho animado.
Na minha opinião é uma obra prima da animação e é definitivamente o meu filme favorito do realizador.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award como selo de qualidade excepcional sem qualquer sombra de dúvida.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg gold-award.jpg

A favor: tudo. Personagens, história, conceito, paisagens, banda sonora, ambiente.
Contra: ??! Não haver uma parte 2 igual ?…

——————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS:

Trailer (*spoilers*):
http://www.youtube.com/watch?v=IpHG0UXHcLA

Opiniões adicionais:
http://www.asia.cinedie.com/laputa.htm
http://www.nausicaa.net/miyazaki/laputa/

COMPRAR
Opções de compra para [“Laputa – Castle in the Sky“], é coisa que não falta, pois basicamente existem edições deste filme em todo o lado, excepto Portugal, claro.
Aproveitem os preços baixos para o cinema oriental na Amazon Uk e comprem já este DVD.

Agora se tiverem a sorte de encontrar esta fabulosa edição especial Japonesa ainda á venda, isto sim é que seria uma compra perfeita. Espreitem só isto:
http://www.ghibliworld.com/laputacollection.html

——————————————————————————————————————

Quem tocar guitarra e quiser aprender os acordes da banda-sonora pode espreitar aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=butX_chr0GM&feature=related

IMDB:
http://www.imdb.com/title/tt0092067/

——————————————————————————————————————

Se gostou deste vai gostar de:

——————————————————————————————————————

2009-Lost Memories ( 2009-Lost Memories ) Lee Sih-Myong ( 2002 ) Coreia do Sul


E que tal se todos nós estivessemos a viver numa realidade onde toda a nossa História conhecida tivesse na verdade sido alterada algures no passado criando um falso presente ?
Um presente para nós tão legítimo quanto a verdadeira linha temporal e onde apenas algumas pessoas têm a sensação de que há algo errado no quotidiano sem poderem especificar exactamente o quê.
É este o ponto de partida deste excelente filme de acção e ficção-cientifica sul-coreano.
Bem-vindos a [“2009-Lost Memories“].

Em 2009, a Coreia unificada é na realidade apenas mais uma colónia do Japão.
Japão que ganhou a II Guerra Mundial após uma sucessão de acontecimentos históricos alternativos que tiveram origem num assassinato falhado dum general japonês em 1909, ( o que não aconteceu na nossa realidade histórica onde ele foi realmente abatido segundo consta ).
Como consequência desse obscuro atentado falhado, todo o curso da história foi alterado ao longo de 100 anos transportando-nos até um presente onde os Coreanos submetidos ao poder central do Japão, são obrigados a adoptar nomes Japoneses, renegando as suas tradições e onde toda a atitude independentista é condenada, existindo no entanto grupos de rebeldes que tentam a todo o custo provocar a queda do regime Japonês e libertar a Coreia. E isto porque alguém algures conhece a verdade e sabe que toda a Coreia está a viver numa realidade histórica que não devia.  Este conhecimento não agrada de modo nenhum aos poderes Japoneses que benificiaram com a linha temporal que agora é o presente e que pretendem fazer tudo para que este assim se mantenha como está.
Confusos ?…
Ainda não viram nada.

[“2009-Lost Memories“], conta a história da amizade de dois agente da polícia especial, um Japonês e um Coreano e da forma como essa amizade é afectada quando ao investigarem um atentado das forças rebeldes independentistas Coreanas, um dos agentes descobre que a realidade afinal nunca foi aquilo que está escrito nos livros de História.
E mais não digo porque descobrir o resto é aquilo que torna especial este excelente filme de acção.

Essencialmente estamos perante um filme de ficção-cientifica disfarçado de filme de acção. Não esperem encontrar um futuro cheio de naves espaciais e técnologia saída do Star Trek, mas sim uma realidade idêntica á nossa apenas com a particularidade de que alguém, algures conhece o segredo das viagens no tempo e soube como usá-lo em proveito do seu poder.
Quem gosta de boas histórias do género tem aqui uma excelente opção cinematográfica que certamente desconhece, pois este é um daqueles filmes de que a generalidade do público ocidental nunca ouviu falar (embora já hajam rumores de mais um remake americano também para este).
Imaginem um “Back to the Future” com sabor policial mas realizado num estilo James Cameron anos 90, com atmosfera e pirotécnia a condizer e obtêm [“2009-Lost Memories“].

O que não faltam aqui são tiroteios, sequências de acção, bombas, carros, planadores e explosões suficientes para impressionar até o mais fanático de filmes de porrada Holywoodescos.
A vantagem é que no meio de tanta espectacularidade existe uma história de ficção-cientifica realmente boa e que não se perde por entre as explosões e perseguições ao contrário do que é costume.
Tem apenas dois defeitos menores.
Na minha opinião cortavam-se uns 15 minutos e o filme seria perfeito, pois acho que a montagem não é muito coerente e a meio parece que o realizador não sabe bem se há de optar pelo lado dramático e humano, pelo espectáculo ou pela conclusão mais detalhada da história de ficção-cientifica.

No meio de tudo isto a parte Histórica que é a base do filme, perde-se um bocado. Provavelmente apenas para o público ocidental, mas a verdade é que quem não conhece a fundo a história daquela região do mundo, nomeadamente entre o início do sec.XX e o fim da Segunda Guerra fica um bocado á toa com o ritmo que o filme ganha no final onde tudo parece despachado a alta velocidade e todas as referências históricas apresentadas ao longo do filme são atiradas ao mesmo tempo á cara do espectador sem grande enquadramento. Mal temos tempo para parar e pensar nas peças do puzzle que estamos a ver por entre tanta cena de acção e tanta sequência de efeitos especiais para ilustrar as viagens no tempo o que leva a que o final á partida possa parecer mais confuso do que na realidade é. A verdade é que parece destoar um bocado do resto do filme.

Não que isto seja propriamente uma coisa má, pois não faz de forma nenhuma com que este filme seja um trabalho menor.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

[“2009-Lost Memories“] é um dos melhores filmes de acção que podem encontrar em dvd e na verdade só não lhe dou uma nota mais alta, porque acho que a tentativa de colocarem muito conteúdo no argumento para além das cenas de acção, acabou por resultar contra o produto final pois nem sempre as referências são apresentadas como seria de desejar.
Por isso no final, apesar de história ser excelente não nos identificamos com os personagens áquele nível emocional que é habitual encontrarmos no cinema oriental. Se calhar sou eu que estou mal habituado.
De qualquer forma é um filme a não perder.
Quatro tijelas de noodles.

noodle2.jpg   noodle2.jpg   noodle2.jpg   noodle2.jpg  

A favor: agradará imenso a quem gosta de ficção-científica com História alternativa, as cenas de acção são espectaculares e estão por todo o lado, óptimos efeitos especiais, o ambiente.
Contra:  muita informação para absorver no meio de tanto tiro, quem não conhece a fundo a História daquela parte do mundo não irá tirar o devido proveito do conceito do filme, a identificação emocional com a história e com os personagens fica um bocado á deriva, a montagem podia ser mais apurada e o filme ter 15 minutos a menos.

——————————————————————————————————————

Opiniões adicionais:
http://www.kfccinema.com/reviews/action/2009lost/2009lost.html
http://www.cyberpunkreview.com/movie/decade/2000-current/2009-lost-memories/

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=-bCRxpP6iWU

Comprar:
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7k-49-en-15-2009+lost+memories-70-ki9.html

IMDB (atenção aos *spoilers*):
http://www.imdb.com/title/tt0294252/^

——————————————————————————————————————

Filmes semelhantes de que poderá gostar:

Natural City  

 ——————————————————————————————————————