Fa yeung nin wa (In the Mood For Love) Wong Kar Wai (2000) China


Este é o “segundo filme” da “trilogia” romântica de Wong Kar Wai, e portanto será uma prequela para [“2046“] continuando já uma história que se iniciou de certa forma em “Days of Being Wild”.
Antes de mais, [“In The Mood For Love“] é um excelente exemplo do quanto as audiências orientais têm uma relação com o cinema bem diferente das americanas (e das americanizadas) aqui no ocidente.
O facto de [“In The Mood For Love“] ter sido no oriente um enorme sucesso junto do público adolescente é algo verdadeiramente extraordinário.
É quase inacreditável poder dizer a alguém aqui no nosso lado do planeta que este filme, esgotou salas no oriente com sessões repletas durante semanas a fio e principalmente com público adolescente o que é quase impossível de aceitar actualmente.

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Os adolescentes orientais inesperadamente, adoptaram como sua esta nostálgica e poética história de amor adulta e de alguma forma identificaram-se plenamente com as emoções presentes neste filme tendo-o elevado a um estatuto que certamente será muito dificil de compreender para o nosso típico teenager, especialmente aqui por Portugal onde já existe uma geração alimentada essencialmente a “Transformers” e filmes da Marvel completamente insensíveis a qualquer coisa que não seja projectada á velocidade da luz.
O que me leva a concluír que se calhar por muito alucinados que os teens orientais nos pareçam, lá bem no fundo haverá por ali um nível de maturidade  emocional superior até ap de muito adulto ocidental americanizado; alimentado a plástico á base de dietas blockbusters made-in-Hollywood.
No ocidente mostrem [“In The Mood For Love“] a muita gente e ninguém aguentará olhar para ele sequer meia hora, pois certamente irão dizer de imediato que o filme não tem história, que não se passa nada naquilo e que é uma seca descomunal. Especialmente os tugas.

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Aliás, notou-se bem isso quando o filme saiu nos videoclubes em Portugal.
Cheguei a ver  um cliente dizer ao dono da loja que nunca mais voltava lá porque este lhe tinha impingido um filme “pa intelectuais” que nem gravado todo no dvd estava (?!) e tudo, porque segundo aquele crâneo, [“In The Mood For Love“], intitulado em português [“Disponível para Amar“], parece que acabava de repente a meio e não se percebia nada.
Está mais que claro que nem precisamos ir junto dos adolescentes consumidores de filmes do Michael Bay para obter este tipo de comentários.
Mostrem [“In The Mood For Love“], a um português adulto consumidor do genérico cinema da moda e imediatamente ele remeterá este filme para aquela categoria de cinema de autor no pior dos sentidos.

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No entanto, a popularidade deste título no oriente junto do público que geralmente consome cinema comercial, foi absolutamente extraordinária, ao ponto dos seus actores terem atingindo com esta obra um estatuto de estrelas de rock ao nível de uns Rolling Stones ou uma Madonna por aquelas bandas gerando enorme comoção por onde passavam.
Foi tal a histeria que provocavam a cada aparição pública para promover este filme, que os seus personagens se tornaram desde então verdadeiras figuras de culto dentro do cinema romântico, ao ponto de Wong Kar Wai o realizador, as ter ido buscar de novo para o seu filme seguinte, o também extraordinário [“2046“].
Segundo o próprio, a melhor não-sequela que poderia ter feito de [“In The Mood For Love“].
Foi certamente foi a mais inesperada.
Talvez uma das “sequelas” mais inesperadas de sempre dentro de qualquer género como já poderam ver pelo início deste meu longo post nesta versão 2 em 1.

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Na verdade Wong Kar Wai começou a gravar coisas para [“2046”] ainda durante as filmagens de [“In The Mood For Love“], mas mesmo ele nem sabia para que serviriam os takes abstractos sem qualquer lógica que foi filmando pelo caminho.
Isto ao ponto de chegar a desesperar os actores e a equipa técnica que nunca percebeu que raio de filme é que estariam a fazer e só viram o resultado quando Kar Wai apresentou a primeira montagem no festival de Cannes tendo deixado toda a gente de queixo caído perante a beleza de cada imagem e a poesia que mostrou no ecrã, onde cada textura se liga com a musica criando um ambiente românticamente assombrado único e original.

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Como resultado limpou basicamente os prémios mais importantes de Cannes nesse ano.
O que tornou [“In The Mood For Love“],  num filme ainda mais extraordinário, até porque Kar Wai raramente tem um script minimamente completo ou sequer pensado quando faz algum filme, pois é famoso por ir inventado á medida que filma e os takes que não servem, aproveita-os para o filme seguinte num processo onde nada se perde e tudo se transforma.
Aliás é por esta razão que muitas das cenas cortadas no dvd do [“In The Mood For Love“], parecem na realidade pertencer mais ao filme seguinte [“2046”],  que ainda nem sequer existia na cabeça do realizador do que a [“In The Mood For Love“] a ser filmado na altura; o que não deixa de ser engraçado.

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Mas a verdade é que este filme por muito inacreditável que isto pareça a muita gente, tornou-se realmente num enorme éxito comercial em quase todo o lado.
O que é ainda mais estranho pois deve ter sido o primeiro filme completamente ligado ao chamado Cinema-de-Autor a ter feito não só muito dinheiro como ainda a ter transformado o seu realizador e actores em verdadeiras estrelas.
Claro que foi um éxito comercial em todo o lado, menos na Europa e nos EUA, onde óbviamente também teve sucesso mas apenas dentro daquele circuito fechado das salas que só passam cinema-de-autor pois seria pedir muito que um filme como este pudesse ser apreciado pelas audiências que habitualmente levam com overdoses de blockbusters americanos a 200 á hora e consomem milho á mesma velocidade enquanto falam ao telémovel durante as projecções quando “não se passa nada” em filmes como este.
Mas passemos á frente.

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Não há muito que se possa dizer sobre [“In The Mood For Love“], pois este é um daqueles filmes em que realmente não se passa nada e portanto pouco se pode contar sobre a sua história, porque o cinema de Wong-Kar-Wai não depende de histórias mas sim de detalhes.
Na verdade se há algo em que Wong-Kar-Wai é realmente bom, será a fazer filmes “sobre nada”.
O verdadeiro conteúdo dos seus filmes não está nas histórias, mas sim nas emoções que este consegue transmitir e fazer o espectador sentir apenas com as coisas mais simples.
Um candeeiro á chuva, os ponteiros de um relógio, um livro, um espelho, tudo serve para criar atmosfera.

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Alguém disse um dia que nos filmes de Wong-Kar-Wai até o fumo é belo e transmite mais emoção e poesia do que horas intermináveis de diálogos pseudo-românticos nas supostas love-stories americanas formuláticas.
É realmente uma boa definição das extraordinárias capacidades deste autor para fazer transparecer emoções através das coisas mais simples e nisto [“In The Mood For Love“],  é um dos seus exemplos mais perfeitos.

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Correndo o risco de fazer fugir as pessoas, a história de [“In The Mood For Love“], é a seguinte:
– No início dos anos 60, em Hong Kong, um casal aluga um quarto numa pensão familiar. A mulher é secretária numa empresa de exportações, o marido trabalha agora na marinha mercante e passa practicamente meses a fio sem vir a casa.
Como resultado, o casamento dos dois, é algo quase inexistente e de conveniência pois naquela época, especialmente na China da altura o divórcio era a maior desonra que poderia cair em cima de uma jovem mulher a seguir ao adultério.
No mesmo dia em que este casal aluga o seu quarto, também outro casal, um jovem jornalista e a sua mulher, alugam o quarto ao lado. Este trabalha para um jornal, mas o seu verdadeiro sonho é ser escritor de pulp-ficition ao melhor estilo de artes marciais, algo que segundo o filme seria bem popular na altura em Hong-Kong.

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Também ele se sente sózinho pois desconfia que a sua mulher o trai e por vias do destino, encontra-se com a sua solitária vizinha de quarto ocorrendo óbviamente uma enorme atracção entre os dois.
Uma atracção com base numa amizade criada pelo facto de ambos gostarem de romances de artes marciais e de se sentirem também absolutamente sózinhos.

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Um dia descobrem por acaso, que a mulher do jovem jornalista é na verdade amante do marido da jovem secretária e que este não faz apenas longas viagens em trabalho mas principalmente usa-as como desculpa para trair a mulher com a esposa do jornalista.
E esta é a história inteira do filme.
Não se passa absolutamente mais nada em [“In The Mood For Love“], que possa ser descrito.
E perguntam vocês – então mas onde raio está o interesse nesta telenovela banal ?

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Wong Kar Wai pega nesta simples ideia e transforma-a numa verdadeira sinfonia de emoções músicais, onde cada imagem é um poema visual e onde a música aliada a enquadramentos absolutamente inesperados transporta o espectador para uma posição quase de espectador casual fazendo-o entrar no filme como se tivesse sem querer escutado uma conversa que não deveria ouvir mas de que não consegue deixar de querer saber mais porque ficou a gostar das pessoas que ouviu.

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É esta a grande força narrativa do filme, e Kar Wai, usa-a para criar um suspanse poético como nunca tinha acontecido numa história de amor.
Todo o filme gira á volta do facto de obviamente os dois protagonistas se amarem e serem realmente almas gémeas que nunca se poderão tocar.

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Não podem arriscar uma relação física entre eles, pois num meio tão pequeno onde todos saberiam imediatamente o que se passava os dois são obrigados a viver de aparências enquanto têm uma relação platónica que também tem de ser mantida secreta porque senão a reputação da rapariga poderia ficar manchada para sempre naqueles austeros anos 60 onde o divórcio nem sequer era opção.

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No meio de tudo isto, eles chegam a encontrar-se num quarto de hotel , precisamente o número “2046” onde Wong kar Wai nos deixará para sempre na dúvida se algo mais realmente aconteceu entre os dois, pois esse número é precisamente o centro da “sequela” no filme [“2046”],  cujo o título se refere precisamente á saudade que o protagonista tem do quarto onde por uma vez na vida viveu um amor de verdade e que é relatado agora em [“In The Mood For Love“].

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Tudo isto é colocado em imagens musicadas pelo génio de Wong Kar Wai de uma forma que é realmente muito dificil de ser descrita em palavras pois todo o filme é um bailado de imagens e enquandramentos indo buscar poesia até ao mais comum dos objectos.
[“In The Mood For Love“], é como um filme musical onde ninguém canta, mas onde a música está sempre presente e é essencial para contar a história e transmitir emoções.
É como um videoclip absolutamente romântico que dura hora e meia e que não precisa de muitos diálogos para contar uma história, fazer-nos sentir e acima de tudo identificarmo-nos com aquelas duas pessoas que poderiam ser qualquer um de nós.

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Uma coisa vos garanto, depois deste filme, nunca mais vão ouvir uma música de Nat-King-Cole da mesma maneira, pois será impossível não pensarem em [“In The Mood For Love“] e nesta história de amor.
E quem pensa que não gosta de Nat-King-cole passa a gostar.

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CLASSIFICAÇÃO

Uma das melhores histórias de amor de todos os tempos e provavelmente uma das mais simples.
Um filme onde até o fumo é algo que poderiamos ficar a olhar durante sequências a fio sem nos aborrecermos e um dos objectos cinematográficos mais visualmente poéticos de todos os tempos.

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É aquele tipo de filme onde podemos fazer pausa a cada segundo e temos uma pintura absolutamente poética no ecran, pois a fotografia desta história de amor é do outro mundo.

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A favor: a poesia, a história e a maneira como foi trabalhada, a extraordinária banda sonora, os personagens inesquecíveis, o trabalho dos actores, a realização é absolutamente notável em todos os sentidos, a fotografia fabulosa, os enquadramentos subliminares, a paixão, a alma do filme, o melhor filme-de-autor “comercial” de todos os tempos ponto final.

Contra: o final é estranho pois parece que não pertence ao resto do filme e não ter nada a ver com a história que acabamos de ver (as cenas apagadas no dvd explicam bem melhor o que aconteceu), não será por isso um filme propriamente apontado ao típico frequentador de salas de cinema de centros comerciais Portuguesas apesar de as ter esgotado no oriente durante semanas a fio.

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILERS

Um dos trailers oficiais é na verdade quase uma curta-metragem. Uma versão mini do próprio [“In The Mood For Love“] e espelha muito bem o estilo visual e narrativo do filme. Conta com uma música interpretada por Brian Ferry chamada precisamente “In the mood for love” e apesar desta música não fazer parte da banda sonora dentro do filme, tornou-se no entanto indisociável da obra.
Espreitem que vale a pena, pois acima de tudo é um excelente videoclip montado pelo próprio realizador.

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NÃO COMPRAR EM DVD ou BLURAY…muito menos em Portugal !
Já existe em bluray mas infelizmente apenas para a região A .
Também está actualmente esgotado em DVD pelas bandas da Inglaterra e só existe uma edição Alemã sem legendas nenhumas…
É aguardar melhores dias para comprar isto…

Atenção: Esqueçam a edição portuguesa, pois só o facto de conter o filme APENAS em stereo 2.0 é razão suficiente para a ignorarem. Num filme em que a música é quase um personagem, terem em Portugal mais uma vez lançado uma edição completamente básica de um filme oriental como este é um verdadeiro insulto ao consumidor, quando este filme é para ser visto com o extraordinário som 5.1 que está na edição Uk.
Não comprem a edição portuga da Lusomundo só por causa das legendas, pois entre ver [“In The Mood For Love“], em stereo e não o verem, sugiro mesmo que não o vejam, pois este filme precisa de um som 5.1 e DTS de preferência para poder realmente transmitir todas as emoções e magia que contém.
Além disso a edição portuga só trás um making of, que até nem é nada mau, mas quando comparado com a enorme quantidade de material extra da edição inglesa até mete impressão que editem filmes como este com tanto conteúdo disponível apenas em edições básicas como fizeram em Portugal com este absolutamente imprescindível filme para quem gosta de bom cinema romântico.
A capa da edição Portuguesa é parecida a esta:

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0118694/

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E se gostaram de [“In The Mood For Love”], então irão certamente gostar dos filmes seguintes.
No caso de “My Blueberry Nights” vão adorar as semelhanças de ambiente, até porque segundo Kar-Wai, esse pode ser considerado um remake em versão inglesa do “In The Mood For Love”, e logo vão perceber porquê.
[“In The Mood For Love“], é na verdade o segundo filme de uma trilogia que não existe oficialmente. E desta trilogia, é o primeiro filme que deverão ver, mas para saberem mais sobre isto consultem a minha review sobre “Days of Being Wild” sem falta.

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E como curiosidade, que quiser espreitar uma curta metragem (publicitária) inédita de Wong-Kar-Wai siga o link abaixo pois não ficará desiludido se gosta do estilo visual do realizador.
http://www.youtube.com/watch?v=gBsbEopulOM&feature=related

 

Siworae ( Il Mare ) Hyun-seung Lee ( 2000 ) Coreia do Sul


Mais de metade das pessoas que chegam a este blog, fazem-no pesquisando nos motores de busca pela expressão – “filme romântico japonês”, ou através de frases semelhantes.
Como o cinema oriental romântico não tem qualquer divulgação no nosso país será lógico assumir que este interesse das pessoas é essencialmente fruto de um “passa-a-palavra” por entre aqueles que o descobriram e agora procuram mais da mesma poesia e originalidade que já não existe no cinema romântico de Hollywood mas que os asiáticos parecem produzir cada vez melhor e do qual [“Il Mare“] é um exemplo perfeito.

Isto porque um bom filme romântico oriental é muito mais do que a banal telenovela, pirosa, formulática e cheia de nomes sonantes Holywoodescos que passa habitualmente por romance aos olhos do público ocidental que não conhece mais nada.
Sendo assim, porque bons filmes orientais não faltam e porque muita gente parece estar interessada em cinema romântico, vou continuar a recomendar aqueles que na minha opinião são filmes obrigatórios.
E nada melhor do que lhes apresentar o que para mim é não só um dos melhores filmes orientais que poderão encontrar mas acima de tudo uma das grandes obras primas do cinema romântico em qualquer parte do mundo.
Bem-vindos a [“Il Mare“].

[“Il Mare“] foi o filme que me fez ficar a gostar mesmo de cinema oriental e é definitivamente um dos meus filmes românticos favoritos.
Na verdade, para mim existem pelo menos oito filmes absolutamente imprescindíveis dentro do cinema asiático do género; “My Sassy Girl“, “The Classic“, “Be With You“, “In The Mood For Love“, “Fly me to Polaris”, “My Blueberry Nights“, “2046” e [“Il Mare“].
Quem quiser ter uma excelente introdução ao bom cinema romântico que se faz do outro lado do mundo, não pode de forma alguma perder qualquer um destes filmes. Nos seus estilos mais diversos resumem bem a versatilidade, criatividade e principalmente a alma e a poesia que pode haver neste género cinematográfico mas que há tantos anos anda muito longe dos produtos fabricados em Hollywood.

[“Il Mare“], tem logo á partida, outra característica curiosa. Na minha opinião é o perfeito exemplo de que o chamado Cinema de Autor, não tem necessáriamente que significar – filme secante para intelectuais – e pode ser um excelente filme comercial sem no entanto perder a sua identidade muito pessoal e intimista.
Neste caso, estamos perante uma história de amor de contornos não só extremamente poéticos, mas também com uma pitada de ficção-cientifica plenamente baseada na String Theory.
Mas não se preocupem, aqueles que já estão a torcer o nariz. [“Il Mare“], não é um filme de ficção-científica pois o facto da sua história contar de certa forma com universos paralelos e viagens através do tempo, essa vertente nunca é o ponto central da narrativa e nem sequer é explicada ao espectador. Apenas nos é pedido para entrarmos no conceito e deixar-mo-nos levar pelo seu resultado poético e emocional e pela forma como os personagens são afectados pelos acontecimentos inexplicáveis que lhes permite desenvolver a sua história de amor.

Como resumir então [“Il Mare“], sem estragar a magia da descoberta a quem ainda não o viu…
Basicamente conta a história de duas pessoas que vivem separadas por dois anos. O rapaz vive em 1998 e a rapariga em 2000 mas ambos trocam correspondência através de uma mágica (?) caixa do correio que se situa á entrada de uma casa de praia chamada precisamente “Il Mare”.
Não há qualquer exlicação para esse acontecimento (nem interessa) e apenas ficamos a saber que os dois protagonistas conseguem comunicar através daquilo que colocam na caixa de correio e que misteriosamente é transportado de um lado para o outro atravessando o tempo ao longo de dois anos até á respectiva data no calendário em que cada um deles vive.
Inicialmente ambos viveram na mesma casa mas em alturas diferentes. O rapaz viveu em “Il Mare” entre 1997 e 1999 e a rapariga entre 99 e o início do ano 2000 quando ele já lá não habitava, altura em que depois se mudou para a cidade para estar perto do seu emprego como actriz de vozes para Anime.
Ambos têm um passado marcado por mágoas na sua vida, a rapariga continua apaixonada pelo ex-namorado que a deixou por outra pessoa e o mesmo acontece com o rapaz que também perdeu a namorada por um motivo semelhante.

Através da caixa de correio, estabelecem então uma relação de amizade que aos poucos se transforma em amor, até que um dia combinam encontrar-se cara-a-cara numa praia deserta algures numa ilha da Coreia do Sul. Para a rapariga, o dia do encontro será na próxima semana a contar do seu calendário de 2000, mas para o rapaz esse dia no seu calendário de 1998 ainda está a dois anos de distância,  o que cria desde logo uma das situações mais interessantes do filme e que não pretendo agora aqui revelar como se desenvolve pois estaria a estragar a descoberta dos pormenores mais mágicos e emocionais desta original e muito poética história de amor.
Só posso dizer que vão adorar a maneira como  [“Il Mare“], usa os paradoxos temporais para criar situações românticas verdadeiramente bonitas e muito atmosféricas que os fará certamente apreciar tanto este filme quanto eu se embarcarem no seu conceito e se identificarem com os personagens.

Ao mesmo tempo que é ligeiro na sua abordagem narrativa, [“Il Mare“] é no entanto um filme extremamente intímista, carregado de paisagens interiores que são plenamente traduzidas visualmente na associação gráfica que o realizador constroi usando a imagem da mágnifica e original casa de praia denominada precisamente “Il Mare” e que serve de ligação não só entre o romance dos personagens mas principalmente entre as suas emoções.
[“Il Mare“], é por isso um filme de poucas palavras. Aqui os personagens não precisam passar o enredo todo a dizer que se amam muito como acontece nas banais pseudo-histórias de amor americanas.
Na verdade [“Il Mare“] é construído com base nos silêncios e no que não é dito, mas que compreendemos perfeitamente graças ao extraordinário trabalho do realizador que nos transmite visualmente tudo o que não precisa de ser descrito por palavras.
Esta é uma das grandes razões porque este filme funciona tão bem a um nível emocional, pois faz-nos sentir e compreender o que os personagens sentem sem ter que passar o tempo todo em truques melodramáticos de pacotilha telenovelística para conquistar o espectador.

Mas não esperem encontrar aqui o típico filme de autor secante para intelectuais de café.
[“Il Mare“], está cheio de metáforas visuais, mas tudo é colocado de uma forma directa ao sabor do argumento e para servir a história da forma menos chata possível, o que não deixa de ser um feito pois o filme tem realmente uma atmosfera calma e muito relaxante ao mesmo tempo que não nos larga até á sua conclusão.

É também, talvez um dos filmes que melhor aborda o tema do isolamento e da solidão nas grandes cidades sem entrar por caminhos deprimentes ou pretenciosos. Sempre de uma forma subliminarmente séria e muito poética que nos deixa a pensar embalados pelo seu ambiente hipnótico e contemplativo muito suportado também pela extraordinária música presente em todo o filme.
A combinação música/imagem ás vezes faz até lembrar os momentos mais poéticos de Blade Runner no que toca a uma criação de atmosfera de solidão ilustrada de uma forma que chega a ser bonita apesar de nos fazer pensar em muito mais do que esperaríamos quando julgavamos que iamos apenas ver um banal filme romântico, coisa que [“Il Mare“] não é.

Um dos grandes trunfos na criação deste ambiente está também na extraordinária banda sonora composta por originais de Jazz made-in-Coreia do Sul e que se adaptam perfeitamente a cada fotograma criando uma atmosfera única que complementa perfeitamente todo a poesia visual e também cada emoção que percorre o filme.
Conseguindo inclusivamente numa questão de segundos passar de um momento dramático a um tom mais ligeiro sem perder identidade, transmitir saudade, melancolia ou alegria como no caso da cena dos noodles que liga os dois personagens na mesma actividade embora separados por dois anos no calendário.

Como tal o que há a dizer mais sobre este pequeno grande filme ?…
Foi um fracasso de bilheteira monumental na Coreia do Sul quando estreou. Essencialmente devido á sua campanha de marketing atroz que já ficou como um exemplo da maneira de como um filme não deve ser publicitado. Teve um trailer oficial tão mau, mas tão mau que afastou o público todo do filme ainda este não tinha sequer estreado. Graças ao trailer oficial que não tem absolutamente nada a ver com a verdadeira atmosfera do filme, as salas de cinema ficaram ás moscas, porque as pessoas pensaram que [“Il Mare“] seria um melodrama estilo cinema-de-autor intelectualoide a atirar para o deprimente e não um filme tão romântico e simples como mais tarde toda a gente descobriu que afinal este era.
Entretanto tornou-se um enorme sucesso de vendas em dvd por aqueles lados do oriente e um verdadeiro filme de culto, pois tal como em Blade Runner as pessoas foram-no descobrindo e recomendando aos amigos que por sua vez o recomendaram a outros amigos e assim por diante, tornando este filme tão popular que até os americanos compraram os direitos para fazer um dos piores remakes de filmes orientais de que há memória, com o nome “The Lake House”; onde destruiram por completo a poesia da obra original e a deixaram sem o mínimo vestígio da magia que tem nesta primeira versão Sul-Coreana.
Está nos meus planos em breve colocar aqui uma review de comparação entre a versão original e a desgraça Americana, assim que preparar o cérebro e a paciência para conseguir rever o remake.

Entretanto, passemos á frente.

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CLASSIFICAÇÃO:

Poético, original e uma obra prima do cinema romântico que ninguém interessado no género pode ficar sem ver.
Completamente imprescindível para quem não tem medo de ver um filme calmo onde a atmosfera faz o filme. Recomendo o uso de um bom sistema surround para tirarem realmente partido do filme, pois a música em [“Il Mare“] é absolutamente essencial.
Bom filme também para quem se interessa por univeros paralelos e String Theory, apesar de não ser uma obra de ficção-científica.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award como selo de absoluta qualidade.
Mais um filme que rebenta a escala.

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A favor: tudo, poesia, personagens, ambiente, banda sonora, romantismo, fotografia, realização, inteligência de argumento, a maneira como a música é usada, a estética das imagens, o design de produção, o equilíbrio perfeito entre o cinema-de-autor e o cinema comercial, é um filme calmo sem ser chato.
Contra: contra ?!…Só se for o trailer original que é absolutamente enigmático e não tem absolutamente nada a ver com o filme. [“Il Mare“], também pode ser muito calmo para quem estiver demasiado habituado ao cinema americano ou procurar uma telenovela com tudo explicadinho, pois aqui neste filme não há vilões, perseguições, traições ou triangulos amorosos de pacotilha.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer:
Na falta de um trailer decente, felizmente existe um videoclip que reproduz fielmente a verdadeira atmosfera do filme e embora contenha uns *spoilers* menores recomendo mesmo que o vejam.
http://www.youtube.com/watch?v=2aLttFT27K4
Se gostarem da atmosfera do teledisco, comprem o dvd pois o filme é exactamente assim.

No entanto, o trailer japonês também capta bem o ambiente e é bem melhor que o trailer original.

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Comprar:
Devido ao sucesso que foi obtendo de forma muito gradual e talvez ao facto de ter sido um fracasso nas salas Sul-Coreanas quando estreou, [“Il Mare“] foi inicialmente lançado em dvd de uma forma não muito profissional, pois pelo visto ninguém dava nada pelo filme.
Por causa disto practicamente todas as cópias que existem no mercado asiático têm problemas, ou de imagem ou de legendagem.
Ao longo do tempo tenho colecionado edições do filme na esperança de que da próxima vez é que alguém resolva lançá-lo nas condições que merece por isso posso dar-vos uma ideia do que poderão encontrar á venda se o quiserem comprar.

Apesar da sua legendagem inacreditávelmente amadora, a minha edição favorita deste filme é a edição simples Chinesa
A imagem não é anamórfica, contém alguns artefactos, mas é no formato widescreen original o que mantém a beleza dos enquandramentos intactos, tal como foram pensados pelo realizador e se há uma coisa de que este filme não tem falta é de imagens bonitas por isso gosto muito deste dvd chinês apesar de todas as suas falhas.
O som 5.1 é muito bom e o DTS é na minha opinião fantástico pois aproveita plenamente a banda-sonora do filme criando uma experiência tridimensional sonora absolutamente perfeita.
A legendagem em inglés é uma anedota.
O inglés de quem traduziu o filme é no mínimo duvidoso (cómico) e grande parte das frases nas legendas não cabem no ecran o que dá origem a uma quantidade enorme de expressões que terminam subitamente sem deixar rasto. Se isto pode parecer problemático, não se preocupem. O que está escrito dá perfeitamente para compreendermos a intenção e o sentido dos diálogos e não é por isso que vão deixar de disfrutar deste filme.
Penso que já não a encontram com a capa inicial (e caixa de cartão), mas podem adquirir a nova edição do mesmo disco aqui em embalagem normal.
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7j-49-en-15-il+mare-70-ckk.html

Depois desta edição inicial, devido ao sucesso das vendas, surgiu no mercado mais outra edição chinesa. Neste caso adaptada da versão original Coreana e que de novo trouxe uma caixinha toda atmosférica em cartão grosso com um fecho magnético e um grafismo já mais bonito embora tão esquisito quanto os novos e estéticamente amadores menus que também trouxe de novo.
A imagem desta vez já não é em letterbox mas preenche agora todo o ecran. Embora não esteja cortada, pessoalmente eu não gosto de ver as imagens assim pois parece que os enquadramentos perderam a magia e a grandiosidade com que foram originalmente concebidos.
É uma edição de dois discos com bastantes extras (e que parecem mesmo interessantes), mas infelizmente apenas o filme está legendado em inglés e por isso não podemos disfrutar devidamente do conteúdo adicional, o que é pena pois o making of é excelente mesmo totalmente em Coreano.
Penso que esta já nem se encontra á venda por isso não coloco aqui qualquer link.

Por último há ainda outra edição especial em 3 discos, da imagem acima, que na práctica é a exactamente a mesma edição que referi atrás, mas agora com uma bonita e muito cuidada nova embalagem.
Esta edição (que já está quase esgotada em todo o lado), tem ainda um bonús imprescindível para quem gostou do filme, pois contém um CD com toda a banda sonora de [“Il Mare“].
O que nos coloca num dilema…pessoalmente recomendo a básica (e má) edição chinesa inicial porque apesar de tudo mantém o formato de ecran original em que o filme foi fotografado, mas por outro lado…vocês querem mesmo ter esta bonita caixinha com os 3 discos. Acreditem-me.

Aproveitem agora que o dollar está baixo e façam como eu, comprem as duas. E aconselho-vos a ser rápidos se ainda quiserem o CD da banda sonora.
Curiosamente o melhor local para se comprar esta edição actualmente é na Amazon americana. Seller de confiança e preço porreiro. Até porque apesar de na caixa dizer que os dvds são região 3, na verdade esta edição está livre de qualquer região, sendo portanto região ZERO e caso não possuam um leitor multi-regiões poderão na mesma ver este filme indispensável.

DOWNLOAD AQUI com legendas em PT/Br

OST original para download

IMDB:
http://www.imdb.com/title/tt0282599/

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Filmes semelhantes de que certamente irão gostar:

Be With You My Sassy Girl Love Phobia The Classic Fly me to Polaris

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