Kamome shokudô (Kamome Diner) Naoko Ogigami (2006) Japão


Para comemorar as 100.000 visitas que este blog atingiu recentemente não poderia ter encontrado melhor titulo oriental do que [“Kamome Diner“] , um curioso e cativante filme japonês rodado na Finlândia e onde não se passa nada durante 90 minutos.

E quando digo que não se passa nada, não se passa mesmo nada.
[“Kamome Diner“]  faz com que “Where the Wind Dwels” e “Goodbye Dragon Inn” pareçam intrigas de espionagem e é um daqueles filmes que logo á partida parece ser o candidato ideal para todos aqueles clichés hilariantes sobre cinema-de-autor. Não será um daqueles filmes sobre relva a crescer porque na realidade, se houvesse relva a crescer nesta história, tanta tensão dramática poderia até provocar ataques de ansiedade no espectador desprevenido.

Há muito tempo que não encontrava pela frente um filme tão desprovido de qualquer drama ou tensão quanto [“Kamome Diner“]. É absolutamente incrivel mas não há nada neste filme daquilo que possa ser considerado parte de uma estrutura habitual tal é a ausência de pormenores na sua narrativa.
Então isto é sobre o quê ? Bem é sobre uma rapariga japonesa que tem restaurante na Finlandia onde ninguém vai e que ao longo do filme conhece umas pessoas que se tornam empregadas ou clientes e no final acabam por transformar o espaço num local acolhedor. Acabou.

Pronto, pelo meio há uns indicios de – desenvolvimentos – mas são tão desprovidos de qualquer carga dramática que deixam o espectador totalmente desorientado, tanto pelo que (não) acontece, como pelas razões porque os…ehm…acontecimentos… (não) acontecem .
Acreditem-me, este deve ser o texto mais dificil que escrevi até hoje aqui no blog, porque na verdade á primeira vista não há nada para dizer sobre [“Kamome Diner“] que seja minimamente informativo.
Spoilers não existem, porque para se poder estragar um filme ao espectador primeiro era preciso que houvesse alguma coisa para revelar sobre a história.

Por outro lado, há muita coisa que se  pode dizer sobre  este vazio…[“Kamome Diner“] é um filme totalmente cativante e não se sabe bem porquê. Cheguei a meio e continuava cheio de vontade de acompanhar … esta história
O filme acabou e continuei sem perceber o que raio é que foi que me passou pela frente; no entanto estranhamente gostei muito do que vi, embora lá para o final já estivesse a olhar para ele em total estado hipnótico e quase á beira de cair para o lado com sono. Poderiam ter assaltado a casa comigo a olhar para a televisão que eu não notaria.

A verdade é que [“Kamome Diner“] é um filme extraordináriamente simpático como há muito não via. A total ausência de dramatismo ou de história torna-se absolutamente cativante e apetece-nos continuar a seguir as vidas daqueles personagens, quanto mais não seja porque ficamos muito curiosos com a direcção que o filme poderá tomar.
Não se iludam, não toma qualquer direcção.
No entanto, não se preocupem porque se conseguirem deixar ideias pré-concebidas de lado e interiorizarem que o grande charme desta história é não ter história nenhuma, muito provavelmente irão gostar tanto deste pequeno filme quanto eu gostei.

Se calhar é cinema-de-autor, se calhar é pretencioso como o raio, mas a verdade é que não se nota. A atmosfera do filme é tão simpática que a certa altura damos connosco a ter vontade de apanhar um bilhete para a Finlândia e ir visitar aquele local onde nunca se passa nada, porque a sua ausência de dramatismo é quase como uma espécie de pausa para descansar da vida diária. Uma espécie de Eden onde se pode fazer uma pausa nas nossas preocupações. Provavelmente será este o tema da história; provavelmente [“Kamome Diner“] será um dos filmes mais filosóficamente simpáticos dos ultimos anos pois não espetando qualquer conceito na nossa cara é tão aberto que qualquer pessoa pode interpretá-lo como quiser e provavelmente será essa a sua magia.

Por outro lado, pode tornar-se surporifero como o raio, por isso também será ideal para aquelas noites de insónia. No entanto essa atmosfera de comprimido para dormir é ao mesmo tempo cativante e se calhar contraditóriamente a mesma irá contribuir para mantê-los acordados. Faz sentido ?…
Não se preocupem, [“Kamome Diner“] também não.
É que o filme é chato como o caraças…mas ao mesmo tempo…não é. Confusos ? Eu também.

O que o filme tem é muito boa onda graças a um grupo de personagens estranhamente vazios mas ao mesmo tempo muito humanos e cativantes (sabe-se lá porquê).
A certa altura parece que irá entrar por um registo parecido ao que encontramos nos livros do fabuloso escritor japonês Haruki Murakami, pois tem momentos surrealistas bem ao estilo do autor. Por outro lado, o seu aparente vazio, também parece decalcado do melhor que se viu noutro pequeno grande filme independente americano e com uma atmosfera semelhante, o fabuloso (e fabulosamente esquecido), “The Station Agent” (em Portugal “A Estação“).

Visualmente, [“Kamome Diner“] é totalmente cativante pelo seu brilho. É um filme muito luminoso, com uma fotografia fantástica e cheio de pequenas imagens muito bonitas que contribuem bastante para a atmosfera contemplativa da história.
A banda sonora quase não se nota, mas também contribui bastante para o ambiente discreto do filme.
O elenco é uma mistura de actores japoneses e finlandeses que aparentemente não têm nada em comum, muito menos parecem ter alguma coisa para fazer no filme, mas que no entanto contribuem totalmente para o carísma da história, pois os personagens são estranhamente apelativos a tal ponto que até os figurantes parecem perfeitamente integrados nos espaços.

Essencialmente é isto o que se pode dizer sobre [“Kamome Diner“].
É um filme muito simpático que vale a pena espreitarem se estiverem á procura de uma proposta diferente.

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CLASSIFICAÇÃO:

Se estiverem á procura de um drama, esqueçam. Se estiverem á procura de uma comédia esqueçam.
No entanto há algo aqui que resulta em termos emocionais e que nos consegue cativar sem sabermos bem porquê.
Será o filme perfeito para quem nunca viu algo mais dentro do cinema-de-autor e quer espreitar um titulo simpático e sem pretenções a filme inteligente. Será também o filme perfeito para uma noite de insónia; no entanto…não é um filme chato…apenas não se passa nada…por outro lado é essa ausência de acontecimentos que o torna cativante e sendo assim já perceberam que até eu estou baralhado.
Essencialmente recomenda-se a quem quiser ver um filme totalmente simpático e muito boa onda sabe-se lá porquê.
Quatro tigleas de noodles pois é estranhamente muito bom e se calhar muito menos vazio do que aparenta á primeira vista, pois no fim de contas é um pequeno grande filme sobre amizade. Sem rodeios, intrigas, ou dramatismos de pacotilha. Um filme sobre amigos apenas e se calhar chega perfeitamente para ser um pequeno grande filme que merece ser descoberto por quem procura algo diferente e não tem receio de um filme calminho. Gostei.

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A favor: a originalidade da estrutura da história, o conceito simples, personagens cativantes, atmosfera luminosa e muito simpática, se calhar será bem menos vazio do que aparenta pois a total ausência de carga dramática acaba por o tornar numa história bem mais humana do que aparenta á primeira vista, é um pequeno grande filme sobre amizade, a ser cinema-de-autor é um titulo muito despretencioso que não assustará quem tem medo do género.
Contra: na verdade não tem nada de negativo…as motivações dos personagens nunca são explicadas, não acontece grande coisa na história mas se calhar é isso que torna o filme tão curioso e especial.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=HHA6PEcM7Gw&feature=youtu.be

Comprar
Muito dificil de ser encontrado nas lojas a um preço decente mas podem comprá-lo no Ebay bem baratinho.

Download aqui com legendas PT/Br

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0483022

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Se gostou, poderá gostar de:
* Na verdade não tenho nada semelhante neste blog*
Talvez gostem de “The Station Agent” um simpático filme independente americano que também recomendo vivamente e que tem algumas semelhanças com este Kamome Diner.

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Tonari no Totoro (My Neighbour Totoro) Hayao Miyazaki (1988) Japão


Por mais de uma vez tenho lido em vários artigos que [“My Neighbor Totoro“] independentemente de ser Anime é hoje considerado um dos melhores filmes da história do Cinema e pela parte que me toca eu não poderia estar mais de acordo.

Se calhar importa desde logo, dizer que isto é Anime, mas não é propriamente o Naruto por isso é um filme que irá desagradar totalmente a quem procurar nele a típica (moderna) e ultra-estilizada realização desses produtos comerciais que essencialmente são mais criados para efeitos de marketing do que para outra coisa e passam ao esquecimento quando surgir o próximo personagem da moda.
Algo que jamais acontecerá com esta obra-prima de Hayo Miyazaki, até porque não segue qualquer convenção do género.

[“My Neighbor Totoro“] não tem cenas com estilo, não tem cenas de acção, não tem herois, não tem vilões, não tem drama, não tem suspanse, não tem aventura e muito menos tem cenas high-tech. Como tal também não tem robots-gigantes ou monstros nojentos.
Não tem sangue, não tem sexo, não tem tiros, não tem armas, não tem gangsters e por aí fora…
Na verdade [“My Neighbor Totoro“] não tem nada.

Será provavelmente o Anime com o conceito mais simples que poderão alguma vez ver pela frente.
Essencialmente conta a história de um pai com duas filhas que vão viver para uma casa no meio de uma zona rural e onde as meninas fazem amizade com um monte de criaturas sobrenaturais (da mitologia popular Japonesa) que habitam não só a sua casa, mas andam pelos campos e florestas em redor.
Acabou a história.

[“My Neighbor Totoro“] por causa da sua simplicidade será provavelmente o filme mais feliz que alguma vez vocês poderão ver na vossa vida.
Tudo nele é felicidade e nos coloca um sorriso na alma.
[“My Neighbor Totoro“] é um verdadeiro filme ZEN no mais puro dos sentidos.
Faz-nos sorrir, descontrai-nos, diverte-nos e logo desde os primeiros minutos ficamos com muita vontade de também ir viver para aquele mundo e especialmente para aquela zona rural que parece um mundo paralelo cheio de paz e natureza.

Se procuram um antídoto para uma depressão, se estão tristes num dia de chuva ou se pura e simplesmente querem ver um dos filmes mais positivos que possam imaginar então [“My Neighbor Totoro“] é para vocês.
E quem pensa que não gosta de Anime ou de cinema de animação passa a gostar, pois só por acaso isto é um desenho animado. Poderia ser um filme de imagem real que o efeito no nosso coração seria o mesmo.

Visualmente é uma obra prima. Não há um enquadramento neste filme que não contenha uma ilustração absolutamente espantosa com uma qualidade técnica do outro mundo. É o tipo de filme a que voltarão muitas e muitas vezes (especialmente se trabalharem em ilustração) e também o tipo de filme em que lhes apetecerá carregar no botão de pausa mais vezes !
Isto no melhor dos sentidos, pois só conseguirão apreciar devidamente todas as aguarelas espantosas presentes em [“My Neighbor Totoro“] se não largarem o comando, visto que muitas imagens carregadas de detalhes não param quietas no ecran nem sequer dois segundos.

Pessoalmente apesar do meu estilo de ilustração não ter nada a ver com o traço japonês, tenho [“My Neighbor Totoro“] como uma das minhas grandes referências visuais no que toca á composição de paisagens e ao trabalho de aguarelas. Tenho a certeza que muitos de vocês que também desenham e nunca viram este filme antes, o irão ficar a adorar pelo mesmo motivo pois entrará para o vosso top de referências artísticas a partir dos primeiros minutos. Acreditem-me, artísticamente falando [“My Neighbor Totoro“]  é incrível.
Não só pela qualidade da arte, mas pela própria realização de Miyazaki, pois o filme tem uma montagem fascinante onde não se perde um fotograma e consegue manter o interesse do espectador durante quase duas horas mesmo quando não se passa nada na história.

Tudo em [“My Neighbor Totoro“] funciona ás mil maravilhas. O ambiente é incrívelmente relaxante e bonito, a história cativa desde o primeiro segundo apesar de não ter um único cliché de Anime a que estamos habituados a ver em produções mais televisivas e os personagens são totalmente carismáticos e simpáticos. E estou a falar apenas dos personagens humanos, porque as criaturas sobrenaturais são mesmo do outro mundo. E mais uma vez tudo criado com base num único conceito: – Simplicidade !

O personagem Totoro que dá nome ao filme é absolutamente mágico e por sí só uma obra prima do design conceptual e do character-design. Totoro é a inveja de toda a gente que desenha bonequinhos fofinhos pois será provavelmente uma das criaturas mágicas mais inesquéciveis jamais criadas num desenho animado.
Ao ponto em que já se tornou inclusivamente um simbolo no japão tão reconhecivel e importante quanto o Rato Mickey é na América.

De resto, não há muito mais que se possa dizer sobre esta fascinante produção Japonesa. Mais uma vez Miyazki criou um filme de animação que é um verdadeiro panfleto subliminar sobre ecologia e temos de novo um grande Anime criado por este velho mestre.
[“My Neighbor Totoro“] merece ser visto quanto mais não seja pela felicidade e alegria que transmite.

Agora, preparem os ouvidos pois nunca houve um Anime com tanto gritinho histérico das personagens femininas a todo o instante !!! É de darmos em malucos, especialmente na primeira metade do filme onde os diálogos são practicamente substituidos por risos e gritos infantís em modo histérico a todo o instante, particularmente da personagem mais infantil.

Mas é genial !
E completamente mágico. Um filme sobrenatural único com uma atmosfera encantada totalmente cativante que não irão esquecer tão cedo, nem que seja pelo design das próprias criaturas cheias de personalidade.

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CLASSIFICAÇÃO:

Um dos Anime mais felizes de todos os tempos e uma obra prima da simplicidade de conceito construída com uma qualidade artística notável.
A prova de que o facto de ser Anime não implica de modo nenhum que tenha de ser  um objecto menor de Cinema só porque é um desenho animado. Um  Anime no entanto, que poderá não ser do agrado de todos pelo tom infantil que percorre toda a história mas que irá fazer sonhar quem se deixar levar pela atmosfera durante quase duas horas de pura magia.

É um dos meus filmes favoritos de todos os tempos e tão bom (se calhar até melhor) quanto Laputa-Castle in the Sky, Kiki´s Delivery Service , Conan-Futureboy ou Nausicaa-Valley of the Wind do mesmo autor.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award como selo de qualidade excepcional sem qualquer sombra de dúvida.

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A favor: o ambiente, as paisagens em aguarela, os personagens, as criaturas mágicas, o tom ecológico cheio de poesia, é o filme mais feliz do mundo !
Contra: alguém que cale os gritinhos histéricos da pita mais nova por favor !!!!

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NOTAS ADICIONAIS:

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=pp9PDj_zb1k

Comprar em Portugal
Practicamente toda a obra de Miyazaki já se econtra editada em Dvd cá por Portugal e poderão comprar todos os filmes deste autor na FNAC por menos de 15€.
Se quiserem comprar este podem faze-lo clicando no link abaixo.
http://www.fnac.pt/Totoro-HITOSHI-TAKAGI-NORIKO-HIDAKA-sem-especificar/a337000
Não conheço detalhes sobre a qualidade técnica desta edição PT por isso espero que não seja tão rasca quanto as edições Lusitanas de filmes como Natural City. Investiguem antes de comprar a edição Pt, pois só vejo menção do som em 2.0 o que quer dizer que mais uma vez se esqueceram do 5.1 por cá e isso não parece ser bom sinal.
Além disso, vocês não querem ver um filme destes dobrado em portuga pois não ?  😉

Comprar na Amazon Uk
Aqui a edição é de confiança, por isso se não querem legendas PT para nada recomendo antes a edição UK.
http://www.amazon.co.uk/My-Neighbour-Totoro-DVD/dp/B000CBEWYM/ref=sr_1_1?s=dvd&ie=UTF8&qid=1304961964&sr=1-1

Download aqui – com legendas PT/BR

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0096283

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Gui si (Silk) Chao-Bin Su (2006) Japão


De vez em quando surgem uns filmes que tentam ir para além de um único género e procuram apresentar propostas com alguma originalidade mas a coisa nem sempre resulta particularmente bem.
Este [“Silk“] é no entanto um bom exemplo desse tipo de filmes que quase conseguem criar algo realmente especial.

Já muito se tentou fazer cruzando vários géneros de cinema e neste caso estamos perante uma história híbrida bastante curiosa que tenta apresentar um conceito novo algures entre a ficção-científica e o típico filme de terror oriental.
[“Silk“] é uma boa tentativa, parte de uma ideia que eu ainda não tinha visto em cinema e quase que posso apostar que um destes dias vamos ainda ver um qualquer remake americano disto. Pelo menos, no que toca ao conceito base da história, [“Silk“] está mesmo a pedir que Hollywood vá lá buscar inspiração.

A ideia aqui tem a ver com um grupo de cientístas que conseguiram capturar o fantasma de uma criança e o têm prisioneiro no quarto de um discreto apartamento assombrado por esta alma penada.
O apartamento está transformado num laboratório secreto e a ideia será não só tentar descobrir o que é afinal um fantasma, mas também quem é a alma da criança e porque razão ainda se econtra entre este mundo e o próximo sem ter partido quando morreu.

Acontece, que este ectoplasma emite um residuo que poderá revolucionar toda a ciência á volta do estudo da anti-gravidade e como tal, temos também um cientísta meio louco que não olha a meios para chegar á sua descoberta, mesmo que para isso se aproveite do sofrimento do fantasma infantil.
Adicionando a tudo isto, um polícia que se vê envolvido no mistério no seguimento de uma investigação de homícidio obtemos um estranho cruzamento entre vários géneros de histórias.

[“Silk“] começa como filme de terror, continua como thriller policial, passa ficção-científica high-tech com um toque de máfia e intriga política pelo meio, entra pelo filme sobrenatural, segue para o drama clínico (a mãe do polícia está a morrer no hospital), tem um cheirinho de cinema de acção e termina com um toque de cinema romântico oriental (o polícia tem uma namorada fofinha) misturado com uma resolução positiva do mistério da origem da criança fantasma num tom de feel-good-movie num final a condizer tudo isto.

E isto resulta ?
Bem…resulta. Agora podia ter resultado melhor.
Na verdade não há nada de errado com [“Silk“], a história é intrigante, o filme tem uma montagem porreira que consegue ir alternando os vários tipos de ideias num único novelo coerente e tem realmente qualquer coisa de originalmente apelativo.
O seu único problema é que no meio de tanta ideia e referência bem executada, acaba por não deslumbrar em nenhuma delas nem dar nada ao espectador que o entusiasme particularmente ao longo de todo o desenrolar do filme.

As cenas de terror são atmosféricas, chegam a causar um par de boas surpresas e arrepios na espinha quanto baste mas por causa de tanta fragmentação de estilos ao longo da história o ambiente nunca se mantém de forma a nos inquietar constantemente. Os conceitos de ficção-científica são muito interessantes mesmo, as ideias á volta da teoria da anti-gravidade são muito interessantes e os efeitos digitais á volta do conceito do cubo high-tech dão uma atmosfera curiosa á história que nos mantém o interesse também á volta desta parte mais sci-fi. O problema é que mais uma vez sente-se que havia aqui algo que poderia ter sido bem mais interessante e não foi.

No que toca á parte policial, ou ás sequências em estilo de thriller de acção a coisa também segue pelo mesmo estilo.
[“Silk“] contém um par de boas cenas de suspanse e acção mas depois acabamos por sentir falta de mais, porque o filme não tem tempo para se focar demasiado tempo em cada um dos seus estilos e como tal dispersa-se um bocadinho por todos os géneros.

O que prejudica naturalmente também o lado mais emotivo da história. A carga dramática em tom pesado hospitalar no que toca á história do policia e da sua mãe moribunda por vezes parece excessiva e desnecessária e a história de amor parece-nos um bocado á deriva sem muito para contribuir para o conceito principal de [“Silk“].
Embora, a parte romântica  mesmo sendo breve consiga interessar-nos e até dar alguma frescura á história, isto porque o personagem do polícia consegue cativar-nos ao longo da narrativa e por isso damos por nós a torcer para que a sua história tenha um final feliz.

Uma das coisas que quanto a mim estraga um bocado o conjunto e dá uma ideia mais fraca de [“Silk“] enquanto filme, é o personagem do cientísta vilão, pois a sua caracterização é algo absurda e desprovida de motivação coerente o que contrasta um bocado com todo o cuidado que foi colocado para que a história resulte bem como um todo.
Este personagem parece ter saído de um mau Anime televisivo. Além de ter um look todo estiloso e passar todo o filme em pose constante para a câmera, todas as suas motivações parecem mais saídas de um desenho animado infanto-juvenil do que propriamente de um personagem coerente com toda a tentativa de seriedade que percorre [“Silk“] e isto é talvez o pior contraste de todo o filme.

Se [“Silk“] tivesse tido um vilão menos estéreotipado e mais até dentro daquele tipo de história séria de sci-fi que pretende contar, se calhar teria resultado melhor em termos de suspanse. Isto porque qualquer ambiente credível da história é logo imediatamente quebrado quando muita da atenção do espectador vai para as poses estilosas do vilão quando este está em cena em vez de nos focarmos na narrativa como seria de esperar se este personagem estivesse melhor integrado no estilo sério do argumento.

De qualquer forma, [“Silk“] é um filme a ver sem reservas.

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CLASSIFICAÇÃO:

Quem procura uma mistura entre terror oriental e ficção-científica high-tech tem aqui uma proposta muito interessante.
É um bom filme de vários géneros e consegue manter tudo ligado sem parecer particularmente forçado, embora não nos deslumbre em nenhum deles e é pena.
De qualquer forma, trés tigelas de noodles porque é um bom thriller. Nem mais, nem menos. Espreitem porque vale a pena, quanto mais não seja porque tenta ser original e de certa forma até o consegue.
Podem apostar que um dia destes aparece por aí o remake americano pois [“Silk“] está mesmo a pedi-las…

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A favor: as partes sobrenaturais conseguem provocar um arrepio ou dois, mete um fantasma criancinha e portanto o factor creepy é garantido, a ideia do fantasma capturado é muito boa, o conceito de ficção-científica é interessante, as poucas sequências em tom de thriller policial de acção complementam bem toda a história, o mistério á volta da criança alma penada é previsível mas mesmo assim mantém-nos interessados no seu desenvolvimento, a mini-parte romântica não deslumbra mas resulta bem e dá personalidade ao resto da história porque contrasta bem com o tom dramático de tudo o resto, o filme tem ideias a mais que poderiam ter dado filmes individuais de vários géneros diferentes mas consegue equilibrar tudo sem parecer forçado e portanto é uma boa tentativa de se criar algo diferente.
Contra: por ter ideias a mais não consegue dedicar demasiado tempo a cada uma delas e por isso apesar de [“Silk“] resultar de forma competente e agradável de seguir nunca nos deslumbra nem ficará particularmente na memória, é um daqueles filmes que se vê uma ou duas vezes e depois metemos na prateleira até um dia, o vilão em estilo Anime piroso interfere demasiado no tom sério da história e além disso é um personagem completamente de cartão o que fragmenta ainda mais um produto que não precisava de mais distrações para competir com a atenção do espectador, o mistério á volta da morte da criança é por demais previsivel e já vimos isto antes mil vezes.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=wZZYeUrCbkY

Comprar
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7m-49-en-70-1t7t.html

Download aqui

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0486480/combined
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Kaze no tani no Naushika (Nausicaa of the Valley of the Wind – (“Warriors of the Wind”/”Os Guerreiros do Vento”)) Hayao Miyazaki (1984) Japão


Os mais velhinhos que me estão a ler em Portugal, devem lembrar-se daqueles anos, um par de décadas atrás em que algumas Câmaras Municipais (Prefeituras para o pessoal que me lê no Brasil) a meio dos anos 80, montavam antenas parabólicas em pontos altos das suas autarquias de modo a transmitir emissões de televisão estrangeiras de borla para toda a população.
Foi graças a isto que consegui pela primeira vez descobrir aquele que imediatamente se tornou um dos meus filmes de fantasia/Fc favoritos em animação dentro do cinema oriental , [“Nausicaa of the Valley of the Wind“].

Quem tivesse uma antena no telhado, estivesse perto do transmissor ou então comprando um amplificador de sinal que o tornava mais próximo, (esgotaram todos onde vivo durante meses a fio), conseguia apanhar o velhinho e já extinto canal de cinema “Premiére” que além de ter sido dos primeiros a trazer ás nossas salas-de-estar aqueles filmes que só se podiam ver no cinema foi também uma estação que apresentou as primeiras longas metragens de cinema asiático e Anime que vi.

Isto alguns anos antes de eu inclusive ter conseguido que a minha mãe me comprasse aquilo que era o sonho de todos os putos que gostavam de filmes nessa altura, um videogravador VHS. De duas cabeças apenas claro porque não havia dinheiro para um mais caro e estas coisas custavam os olhos da cara nesses dias. Tempos nostálgicos.
Foi a primeira vez que vi [“Nausicaa of the Valley of the Wind“]. Na altura ainda não o sabia mas mesmo tendo gostado tanto do filme, na verdade ainda não o tinha visto na versão integral.

Isto porque o “Premiére” costumava passar não a versão original do filme mas sim a sua versão remontada para distribuição nos Estados Unidos dobrada em inglés.
Conhecida por “Warriors of the Wind” pouco mais de 80 minutos tinha, mas mesmo assim tornou-se logo uma referência até para o meu próprio imaginário pois muito do meu estilo de ilustração de paisagens teve origem na admiração por esta obra e pelo mundo que nos fazia habitar até mesmo naquela versão condensada.

A mesma que depois ainda revi algumas vezes numa cópia Betamax de um amigo meu (que era rico porque tinha um gravador de video) e que na altura tinha gravado do Premiére,  [“Nausicaa of the Valley of the Wind“] naquela versão “Warriors of the Wind” que chegou inclusivamente a ser (horrivelmente mal) editada mais tarde numa cópia VHS em Portugal debaixo do titulo “Os Guerreiros do Vento” e estranhamente com uma capa que nada tinha a ver com o filme e mais parecia uma má cópia Espanhola dos “Cavaleiros do Zodíaco”.

Nem vale a pena esconder nesta altura que vou atribuir a nota máxima a este filme e na realidade eu dar-lhe-ia na mesma cinco tigela de noodles e um Golden Award se estivesse apenas a falar dele na sua inferior versão “Warriors of the Wind” porque sinceramente em termos de impacto continuo a achar que o filme é fantástico. Aliás, tão fantástico que podem numa altura ter-lhe cortado vinte minutos e o filme continuou a ser uma obra prima, tanto  do cinema oriental como do cinema de animação em geral na minha opinião.

Claro que não recomendo a niguém que veja a versão curta em vez da versão original que quase alcança as duas horas, mas se a escolha for entre só terem acesso á versão de 80 minutos dobrada ou não verem o filme, não deixem de ver [“Nausicaa of the Valley of the Wind“] mesmo que ele se chame apenas “Warriors of the Wind / Os Guerreiros do Vento“, especialmente se gostam de boas histórias do género com personagens carismáticos e ambientes imaginários cheios de identidade e adoram o estilo de animação presente nos filmes orientais do género.

O filme costuma ser comparado com “Dune” principalmente por causa das criaturas no estilo “Sandworm” que também povoam este universo e pela forma como as motivações políticas são encadeadas para formar esta história única. Muitos do pormenores que mais tarde encontramos duplicados nos trabalhos seguintes do Estúdio Ghibli apareceram primeiro neste trabalho e portanto se por acaso alguns momentos do filme os fizer recordar de “A Princesa Mononoke” isso não será coincidência, especialmente no que toca á constante temática da protecção da natureza que costuma estar sempre presente nos trabalhos de Miyazaki.

Pessoalmente, tenho achado a fase mais moderna do estúdio Ghibli algo decepcionante pois as mais recentes obras não me cativaram tanto quanto os filmes antigos. “Totoro”, “Kiki“, “Laputa“, “Grave of Fireflies”, “Porco Rosso” e [“Nausicaa of the Valley of the Wind“] são definitivamente os meus filmes japoneses favoritos dentro do Anime e como tal recomendo a toda a gente que começe por esses títulos se chegar agora á obra do estúdio Ghibli.

Não há muito mais que eu possa dizer sobre [“Nausicaa of the Valley of the Wind“] que não lhes estrague o prazer da descoberta se nunca o viram. Só posso dizer que é realmente tão bom quanto o pintam em quase todas as reviews de filmes asiáticos espalhadas pela net.
Os personagens são cativantes, o universo é fantástico e o argumento é extremamente interessante.

Essencialmente conta a história do que aconteceu um dia, mil anos após aquilo que básicamente se tornou no fim do mundo conhecido onde a maior parte do ecosistema da Terra foi destruído. Toda a humanidade encontra-se agora espalhada pelo planeta em pequenas povoações e dívidida em vários impérios que no entanto se encontram isolados uns dos outros por uma misteriosa floresta onde tudo é tóxico mas apesar disso é no entanto habitada por uma variedade extraordinária de plantas e insectos gigantes.

Nausicaa é o nome da princesa do pequeno reino do Vale do Vento, que procura explorar sózinha estas florestas letais para o ser humano e um dia se vê inesperadamente envolvida numa aventura que não esperava e onde o seu próprio papel poderá decidir o futuro do mundo. Contem com muitas batalhas, insectos gigantes, princesas, aviões gigantes e muita atmosfera steampunk.

Contém excelentes sequências de acção e alguns momentos mais contemplativos para equilibrar quanto baste, tudo coreografado numa realização quanto a mim do melhor que existiu até hoje no Anime pois independentemente disto ser um desenho animado ou não, na minha opinião [“Nausicaa of the Valley of the Wind“] é um dos melhores filmes disponíveis por aí e um titulo obrigatório para quem gosta de FC ou simplesmente de filmes japoneses ou orientais no geral e não tem preconceitos com a animação ou o Anime.

Estou para falar disto há seculos aqui no blog mas até hoje nunca o tinha feito porque pensava que o filme seria por demais conhecido e toda a gente interessada nele já o tinha visto, até porque existem muitas críticas de cinema espalhadas pela net que falam dele.
No entanto ás vezes esqueço-me que este espaço também é lido pelo pessoal mais novo, pessoal que tem agora 14,15,16 anos e ao conversar com o meu filho (15 anos) no outro dia é que me bateu a ideia de que já há por aí uma geração que porventura conhecerá muito melhor um Dragon Ball e o Naruto do que estes filmes Anime que no fundo pertencem ás origens de tudo o que hoje é popular em produtos televisivos saidos do cinema de animação oriental.

Portanto espero que esta recomendação agora pelo menos sirva para quem nunca soube da existência deste filme oriental o tente procurar pois quanto a mim é dos melhores filmes de aventura em animação que existem no mercado e na verdade causa-me sempre um problema. Se eu tivesse que escolher o meu favorito dos primeiros filmes Ghibli não conseguiria pois este é realmente tão bom quanto “Laputa” ou “Kiki” por exemplo. Para nem falar de “Totoro” que também acho absolutamente brilhante e do qual falarei em breve por aqui.

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CLASSIFICAÇÃO:

Outro dos melhores filmes de fantasia Anime que poderão encontrar, um dos melhores exemplos da qualidade do cinema oriental em geral e mais uma vez outro dos melhores trabalhos deste realizador. Na verdade foi a primeira longa metragem do estúdio Ghibli e foi o seu sucesso que originou depois todos os outros fantásticos trabalhos que agora conhecemos.
Na minha opinião é mais uma obra prima da animação. Não só do cinema Anime japonês mas de uma forma geral.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award como selo de qualidade excepcional sem qualquer sombra de dúvida.
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A favor: Tudo. Personagens em geral, conta com uma personagem feminina cheia de personalidade, história, conceito, paisagens, detalhes dos desenhos, a banda sonora original, ambiente apocalíptico, os insectos gigantes tão inesquéciveis quanto os sandwordms de Dune.
Contra: Nada ! Mas possivelmente a versão dobrada em inglés poderá não ter tanta piada, por isso vejam primeiro a versão japonesa. Quem não gosta de Anime ou FC não vai ficar a gostar.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=7wSba9hwCaU

COMPRAR em DVD
A quantidade de versões dos produtos Ghibli á venda na net pode ser um pesadelo porque existem inúmeras edições bootleg (tenho uma delas realmente excelente que já não se encontra á venda contendo as versões originais dos filmes).

No entanto a edição oficial UK á venda na Amazon é do melhor que actualmente poderão encontrar e vale mesmo a pena, por isso se não se contentarem com apenas sacarem o filme da net e quiserem realmente colocar este filme na vossa estante sigam o link abaixo porque esta edição vale mesmo a pena.

Nausicaa of the Valley of the Wind [DVD]

Manga
Esta história também está contada em BD por isso se gostarem do filme provavelmente irão querer ter a versão em Manga também disponível na Amazon.uk

Nausicaa of the Valley of the Wind Volume 1 (Nausicaa of the Valley of the Wind)

Nausicaa of the Valley of the Wind Volume 2

Nausicaa of the Valley of the Wind volume 3

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20-seiki shônen: Honkaku kagaku bôken eiga (20th Century Boys) Yukihiko Tsutsumi (2008) Japão


O ano de 2010 começa bem para mim no que toca a boas compras de cinema oriental.

Este é um filme sobre o qual me é muito dificil falar pois é um daqueles produtos de cinema asiático muito dificeis de classificar.
A minha primeira reacção foi a de atribuir-lhe a classificação máxima pois [“20th Century Boys“] é não só muito bom como tem uma coisa que lhe dá logo muitos pontos, é completamente original. Mesmo não parecendo.

Na verdade não me lembro de ter visto nada  assim antes e surpreendeu-me que o filme tivesse uma estrutura inesperada.
Curiosamente o único motivo porque vi o filme foi porque o comprei.
E a única razão porque o comprei foi porque a edição que estava á venda na Amazon Uk (e ainda está) tinha uma relação preço-qualidade que me pareceu muito boa, pois os dois discos vinham dentro de um livro hardcover com 26 páginas a cores e eu não resisto a estas coisas especialmente quando estão á venda por menos de 10€. Comprei o filme a 4 libras um par de semanas atrás.

Tinha visto o trailer há meses e já o podia ter sacado da net há muito tempo para espreitar, mas nem me dei ao trabalho porque [“20th Century Boys“] parecia-me ser precisamente aquele tipo de filme que me aborrece de morte, ou seja algo num estilo super-herois que geralmente não me diz nada e como tal as apresentações nunca me convenceram ao ponto de sequer me fazer ter vontade de ver o filme á borla.
No entanto algo me dizia que [“20th Century Boys“] não seria tão banal quanto me parecia no trailer e devido á sua excelente e barata edição não resisti a comprá-lo.
E ainda bem que o fiz.
Se calhar não se nota pela “suave” classificação que lhe atribuí mais abaixo, mas este filme quanto a mim é absolutamente fantástico e a única razão porque não lhe dou uma nota melhor é porque este é um daqueles produtos que são absolutamente contagiantes quando o vemos pela primeira vez, mas pessoalmente não fiquei com vontade nenhuma de o rever tão cedo.

Não porque [“20th Century Boys“] seja um mau filme, aborrecido ou tenha algum problema grave, mas porque é um daqueles que depende mesmo muito do fascínio que o mistério da história cria no espectador e como tal quando a coisa chega a uma conclusão, mesmo apesar de ser um filme oriental cheio de qualidades há muito pouco que faça o espectador querer voltar a ele muito próximamente.
Pelo menos até ver como a história termina…

[“20th Century Boys“] tem o grave problema de ser uma primeira parte de uma história em trés capitulos. Ou melhor em trés filmes. Além disso a sua originalidade acaba por ser a sua maior virtude e a sua maior fraqueza.
A sua originalidade não está propriamente no estilo, ou até na história, até porque se vocês conhecem obras como Watchmen (tanto o livro como o filme), não vão encontrar algo muito diferente em [“20th Century Boys“], que, quanto a mim é quase uma versão alternativa da Bd de Alan Moore transposta para uma identidade oriental puramente japonesa. Não que seja um plágio, mas o tom da história e até a sua própria estrutura é semelhante.

Segundo consta, esta trilogia de filmes, adapta o Manga mais vendido de sempre no Japão. Algo que me é totalmente alheio pois até agora nunca tinha ouvido falar de tal coisa e como tal parti para este filme como eu gosto. Completamente ás escuras.
O facto de  [“20th Century Boys“] ser a primeira parte da história (em filme) podia até nem ser um problema, pois por exemplo  a primeira parte do Senhor dos Aneis resulta plenamente enquanto filme isolado até ao seu final.
No entanto [“20th Century Boys“] “falha” nesse aspecto porque como alguém já referiu numa outra review na net, parece que os criadores deste projecto se esqueceram que este produto acima de tudo era suposto ser um filme e se calhar não deveria ter seguido tão á risca uma estrutura de banda-desenhada no que toca á sua narrativa.

Por outro lado, esta visão pode ser apenas fruto do nosso olhar ocidental mais habituado ao tipo de estrutura que vemos nos filmes americanos e sendo assim é inevitável que olhemos para [“20th Century Boys“] como um filme algo estranho e inesperado.
Lá ver se consigo explicar isto melhor…olhem que é difícil…
[“20th Century Boys“] é apresentado como um verdadeiro blockbuster “de super-herois” ao estilo japonês. No entanto não se passa nada neste filme asiático ao longo de quase trés horas !!!

Não se passa nada daquilo que vocês pensam que se vai passar se virem os trailers.
As apresentações dão a ideia que o espectador vai ver um blockbuster cheio de acção e cenas de destruição ao melhor estilo de cinema catástrofe e no entanto nada disso acontece  em [“20th Century Boys“].
As poucas cenas de acção e destruição que vocês vão encontrar nesta história são os breves segundos de explosão no aeroporto e no parlamento e isso aparece tudo no trailer sem haver mais nada para mostrar.
As partes de aventura com o robot gigante são practicamente nulas e mais parecem pertencer aos cinco minutos finais de um qualquer episódio de uma série televisiva do que a uma mega-produção que [“20th Century Boys“] apregoa ser em todo o seu marketing.

Ou seja, se esperam um filme de super-herois, ou com uma estrutura (ou espectacularidade) semelhantes ao que estão habituados a ver, esqueçam.
Que achou que Watchmen foi uma seca porque aquilo era muito paleio e pouca acção, então é melhor nem se aproximar de [“20th Century Boys“], pois é trés vezes “mais lento”. O aviso está feito, isto não é o blockbuster que aparenta ser na publicidade (o que muito me agradou).
Ainda por cima quando o filme está precisamente no seu momento mais empolgante ao fim de quase 150 minutos…a imagem pára e aparecem no ecran as palavras “To be continued…” !!!

Curiosamente é um filme oriental bem mais intimista do que eu próprio esperava ter visto.
Practicamente as primeiras duas horas são passadas em desenvolvimento de personagens. Não que isto seja o ponto fraco do filme, mas deixo já o aviso que é muito importante vocês estarem atentos aos nomes dos personagens porque senão vão dar em doidos.
Consta que todos os trés filmes contêm ao todo mais de 300 personagens diferentes e acredito plenamente nisso pois só nesta primeira parte devem passar dos 50. Ainda por cima isto é um filme oriental e como tal…esqueçam o conceito de “heroi” ou personagem principal, pois aqui até o personagem mais secundário é importante para a história e tem o seu momento de ecran específico o que complica bastante a vida ao espectador mais desatento.

Para piorar as coisas, o filme ainda é passado em trés décadas diferentes e como tal apanhamos com os personagens quando crianças em 1970, acompanhamos os mesmos nos anos 90 e ainda os vislumbramos por volta de 2015. O que quer dizer que cada personagem é interpretado por um par de actores diferentes consoante a época em que a história decorre. E muitos deles têm alcunhas em criança e nomes diferentes em adultos…
Resumindo, este filme só pode ter sido um sucesso enorme no japão mesmo.
Metessem isto num cinema americano (ou americanizado) do ocidente e isto seria um fracasso absoluto pois metade das pessoas perder-se-ia por completo no emaranhado da história e personagens infinitamente variados, com a agravante do filme não ter cenas de aventura ou acção intercaladas ao estilo dos argumentos americanos para deixar o cérebro descomprimir.

É que essencialmente [“20th Century Boys“] é um filme oriental de mistério.
E um dos mais intrigantes e completamente hipnóticos que me lembro de ter visto em muito tempo.
Se vocês ficarem intrigados pela história, o seu desenvolvimento não vos vai deixar tirar os olhos do ecran até ao seu final. Final esse que é considerado por muita gente como uma das maiores desilusões do cinema recente.
Isto porque na verdade não corresponde minimamente á ideia de blockbuster com que o filme é vendida no ocidente e como tal era inevitável que muita gente visse as suas expectativas completamente frustradas.

Pessoalmente eu nem queria acreditar no que estava a ver quando o filme parou mesmo no melhor e a expressão “continua” apareceu na imagem.
Nunca tinha visto um filme acabar assim. A sensação com que se fica é que [“20th Century Boys“] acaba ali como podia ter acabado noutro sítio qualquer e isso é um sentimento algo estranho quando como espectadores investimos todo o nosso interesse na história e pelo menos esperávamos que nesta primeira parte algo nos recompensasse os primeiros 150 minutos do nosso entusiasmo.

No entanto…
Superem este pormenor e vão descobrir uma história fascinante suportada por um elenco enorme e cheio de carísma.
O filme practicamente não tem acção (não se deixem enganar pelos trailers), mas nem por isso deixa de ser divertido ou cativante.
Nota alta para o trabalho do realizador que conseguiu manter coeso todo o emaranhado do argumento sem nunca perder o fio á meada e criar um filme divertido e cheio de personalidade. Mesmo sem recorrer a cenas de porrada á americana ou a efeitos especiais ao longo de practicamente todo o filme, [“20th Century Boys“] mantém-nos colados á sua história e interessados no seu desenlace.
Só é pena ainda termos de esperar até ao lançamento do terceiro capitulo para ficar a saber como tudo termina. Isto claro se nunca leram o Manga, cujo o próprio autor é agora o argumentista do filme e talvez seja por isso que esta grande produção pareça ser mais uma banda-desenhada com imagens “reais” em movimento do que propriamente um filme.

Nota alta para o elenco infantil que tem um desempenho absolutamente hipnotizante. Alías, toda a parte passada na infância dos herois é um dos pontos altos do filme a fazer lembrar aquele estilo de história juvenis nostálgicas que normalmente Stephen King costuma contar.
Enquanto espectador não pude deixar de pensar que havia algo de Stand By Me nesta história e isso agradou-me mesmo muito e tenho a certeza irá agradar bastante a todos aqueles que foram crianças nos anos 70 bem antes de existirem computadores, telemóveis, videogames e internet e onde todos nós tinhamos de inventar os nossos próprios mundos de imaginação pois não havia nada do género pré-fabricado. O filme (e a história) capta muito bem o espírito de infância desses anos e sendo assim é mais um dos seus pontos altos.

Como este texto já vai longo e não quero revelar muito sobre o filme vou terminar apenas dando-lhes uma ideia da história.
Essencialmente [“20th Century Boys“] é sobre um misterioso culto religioso centrado num enigmático logotipo e numa figura conhecida apenas como “Friend” e sobre a maneira como esta personagem consegue dominar (e destruir?)  o mundo.
No inicio dos anos 70 um grupo de crianças imaginou uma história de ficção-científica precisamente contendo todos os detalhes que depois se vieram a tornar reais e como tal todo o mistério gira á volta da possibilidae de “Friend” ser na realidade ser uma das crianças do grupo original que de alguma forma conseguiu tornar realidade algo surgido num jogo infantil muitos anos atrás.
Fico-me por aqui pois há muito para descobrirem se virem [“20th Century Boys“].

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CLASSIFICAÇÃO:

Sinto que quando conseguir ver os trés filmes de uma só vez e puder unificar toda a história, hei de voltar a esta review e adicionar mais uns pontos á sua classificação.
Isto porque [“20th Century Boys“] é um filme diferente dos outros porque tem uma estrutura inesperada e como tal devido a isso é quase injusto estar a classificar isoladamente esta primeira parte pois ao contrário de filmes como o primeiro Lord of The Rings, esta não resulta enquanto filme e sente-se mesmo a falta da continuação para podermos ser realmente justos sobre o que dizer sobre o produto final.
No entanto não deixem de ver [“20th Century Boys“] pois é algo absolutamente único e recomenda-se vivamente.
Quatro tigelas de noodles…por agora…

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A favor: também neste filme o argumento labirintico e a forma como cruza os diversos caminhos do destino dos protagonistas, as sequências nostálgicas da infância dos personagens, o elenco e a quantidade enorme de personagens (secundários(?)), apesar da complexidade da história o trabalho do realizador é notável a gerir tudo aquilo, em 150 minutos de filme mesmo sem practicamente acção nenhuma o suspanse mantém-se apenas pela força da história e carísma dos personagens, o estilo de realização tem variações impecáveis que nunca deixam o filme perder o interesse e quase que assistimos a um estilo de filmagem diferente para cada personagem, a fotografia destaca-se especialmente nas sequências dos anos 70, quem gostou de Watchmen irá gostar de [“20th Century Boys“].
Contra: quem espera um blockbuster cheio de acção e estilo cinema catástrofe cheio de efeitos especiais vai ficar muito decepcionado, este primeiro filme não está estruturado enquanto primeiro capitulo com um principio meio e fim e acaba de forma completamente inesperada e sem resolver absolutamente nada do que desenvolve ao longo de quase trés horas, não sentimos que estamos a ver o primeiro filme de uma trilogia mas apenas um bocado do inicio de um qualquer filme de oito horas que subitamente nem sequer fica a meio mas acaba no inicio quando tudo parece ir começar a sério, as cenas de acção que supostamente seriam o climax desta primeira parte são absolutamente desinteressantes e banais mais parecendo a parte final de um qualquer episódio televisivo de uma série desinteressante qualquer com robots gigantes.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=OCFOM5mZx28&feature=related

COMPRAR
A foto acima pertence á edição que eu comprei na Amazon Uk e que recomendo. Os dvds vêm dentro de um bonito livro numa edição hardcover com 24 páginas a cores detalhando muita coisa sobre o universo do filme (cuidado com os spoilers). Tudo com o excelente preço a condizer.
20th Century Boys (2 Discs & 24 Page Book) [2008] [DVD]

Está também já disponível o segundo capitulo numa edição em tudo semelhante á do primeiro caso queiram continuar a colecionar isto em dvds separados.
20th Century Boys Chapter 2 (2Disc & 24 Page Book) [DVD] [2009]

E finalmente o terceiro.
20th Century Boys 3: Redemption (Ws Sub Ac3 Dol) [DVD] [Region 1] [US Import] [NTSC]

Em alternativa, se quiserem já adquirir os 3 filmes de uma só vez também já o podem fazer numa única e muito interessante edição.
20th Century Boys Trilogy – The Complete Saga [DVD] [2010]

Recomendo vivamente a compra das edições dvd acima, mas se quiserem espreitar o filme primeiro podem ir buscá-lo aqui com legendas em Pt(Brasil)

IMDB
http://www.imdb.pt/title/tt1155705/

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