Hachikô monogatari (Hachi-ko) Seijirô Kôyama (1987) Japão & remake Usa: Hachiko: A Dog’s Story (Hachi: A Dog’s Tale) Lasse Hallström (2009) Usa


Esta história chegou até mim totalmente ao acaso no outro dia enquanto andava pelo Youtube á procura de trailers de cinema oriental e estranhamente ia sempre parar ao trailer de um filme recente com Richard Gere, chamado “Hachi – A Dog´s Tale” feito em Hollywood.
Surpreendentemente ou talvez não, o filme de Richard Gere revelou-se como mais um remake americano de outro filme oriental, mas curiosamente o próprio trailer da versão Usa tinha um certo encanto e identidade que me cativou imediatamente e me levou não só a querer saber mais sobre o filme Japonês original, como como acima de tudo, saber mais sobre esta história absolutamente tocante e fascinante.
E foi assim que cheguei a esta reportagem que antes de mais recomendo que toda a gente veja antes de continuarem a ler a minha crítica sobre [“Hachi-Ko“] pois vale mesmo a pena começar por aqui.


(Cliquem na imagem ou neste link, para verem a peça no Youtube,  pois o video original também não permite integração no blog).

Fascinante não é ?
É daquelas histórias que nos dão um nó na garganta quando paramos para pensar como terá sido acompanhar todo o caso original na época e tudo aquilo que depois veio a simbolizar para as pessoas nos anos seguintes.
E segundo o que tenho lido parece que os produtores do filme original [“Hachi-Ko“] não se pouparam a esforços no que toca aos detalhes da história e procuraram tentar reproduzi-la o mais fielmente possível quase de uma forma documental sem no entanto descurar o lado cinematográfico da narrativa.

O que veio a tornar [“Hachi-Ko“] num pequeno filme japonês deveras surpreendente na minha opinião.
Surpreendente porque ao contrário do que eu estava á espera com um tema destes, encontramos um filme bem contido e até certo ponto intimísta.
Material deste dava pano para mangas, no que toca a choradeira-galopante e [“Hachi-Ko“] poderia ter resultado num produto assumidamente produzido para fazer as plateias gastar lenços de papel aos quilos. No entanto, surpreendeu-me mesmo muito por tentar essencialmente contar uma história muito simples sem grandes exageros emocionais e não estava nada á espera disto.

Quando eu pensava que ia ver um produto totalmente ultra-comercial ao pior estilo americano, tipo Benji ou Marley & Eu onde se exploraria até á medula o sofrimento dos personagens e principalmente do cachorro, [“Hachi-Ko“] apareceu-me com uma história completamente oposta onde há espaço para todos os personagens e onde se conta acima de tudo a história, não apenas de um cão, mas principalmente de um acontecimento que marcou não só a história de Tokyo como também as vidas de muita gente.

E que história foi esta, perguntam aqueles que não viram o video acima ou não sabem inglés.
Essencialmente [“Hachi-Ko“] conta a história de um cão que foi adotado por um senhor algures nos anos 20 no Japão e da relação que se gerou entre ambos.
Durante um par de anos, todos os dias o cão acompanhava o dono até á estação quando este tomava o comboio para ir trabalhar e todos os dias o cão voltava ao fim do dia á mesma hora para esperar o senhor quando ele regressava.
Um dia o dono morreu e nunca mais voltaria a regressar a casa no comboio á mesma hora mas no entanto, durante quase dez anos, Hachi-Ko regressou todos os dias á hora do comboio chegar para continuar a esperar pelo dono que nunca mais viria, isto apesar da fome, do frio e de entretanto se ter tornado num cão vadio pois fugia sempre de todos os que o tentavam adoptar para poder voltar á estação todos os dias para esperar o ser humano que amava.

Ora, com um material destes, seria mais que natural que [“Hachi-Ko“] o filme, fosse um enorme pastelão em overdose sentimental mas no entanto é um pequeno filme quase intimista absolutamente notável e simpático. Isto pela sua simplicidade e pela forma como nos conta a tocante história de Hachi-Ko , filmando-a mais como um drama-de-época onde todos os personagens contam e não apenas como um filme para espremer lágrimas aos espectadores porque sim.

Não pensem no entanto que [“Hachi-Ko“] não lhes causará sucessivos nós na garganta e não pensem que não vão derramar uma lágrima ou duas…ou trés. [“Hachi-Ko“] emociona e muito, mas emociona pelas razões certas, pelo significado da história, por ser uma lição de vida ao mesmo tempo que acaba por ser um filme sobre a solidão e a dedicação.
Poderá parecer-vos no entanto, um filme algo vazio durante quase toda a maior parte do tempo, pois practicamente setenta por cento do filme é passado em apresentar-nos as pessoas que fizeram parte desta história e não encontrarão em [“Hachi-Ko“] muito cliché habitual á volta do facto do personagem principal ser um cão.
Nota-se que houve um esforço dos argumentistas em manterem-se fieis aos acontecimentos e por isso o filme não está carregado de momentos inventados com o único objectivo de fazer chorar as plateias de X em X tempo para se manter fiel ao que esperariamos do género.

A grande virtude de [“Hachi-Ko“] está nesse aspecto. Conta uma história, fá-lo de uma maneira simples e muito, muito atmosférica assente numa recriação de época quase mágica e onde tudo se conjuga para nos levar até ao seu final onde Hachi-Ko “reencontra” finalmente o seu dono á porta da estação e que os fará chorar baba e ranho pois toda a contenção emocional durante o resto do filme foi orquestrada de modo a que apenas nesse momento os espectadores sintam verdadeiramente o significado de tudo o que Hachi-Ko passou para se reunir com quem gostava.
Quem conhece o livro “Timbuktu” de Paul Auster e adorou essa história principalmente no seu  final, tem aqui em [“Hachi-Ko“] algo de características muito semelhantes tanto na forma como a história é resolvida como na própria emotividade e poesia da resolução. Se gostaram de “Timbuktu” vão adorar este filme.
Se gostarem muito deste filme não percam de forma nenhuma o livro “Timbuktu” de Paul Auster.

Este filme não lhes ficará na memória por muito. Está bem feito, tem algumas imagens muito bonitas e uma fotografia fantástica que torna quase mágica a cidade onde vive Hachi-Ko, mas no entanto não é algo que lhes fique na recordação pelo lado mais cinematográfico.
Também o seu ritmo narrativo que não tem pressa de ir a lado nenhum na própria história poderá aborrecer alguns espectadores mais habituados ao estilo ocidental onde tem de acontecer sempre algo movimentado ou dramático de dez em dez minutos e [“Hachi-Ko“] não é assim.
Essencialmente tem uma identidade muito japonesa e isso só lhe fica bem pois sabe conduzir o espectador até ao desenlace da história sem que este se aperceba realmente da emotividade crescente da mesma e por esse aspecto está de parabéns.

Também não será um filme a que voltarão muitas vezes, a não ser que adorem mesmo cães e principalmente Akitas, no entanto é um bom título para mostrarem aos amigos que procurem um filme com animais bem feito, honesto na forma como está filmado sem excessos para além da história original que procura retratar e acima de tudo é um excelente complemento para a reportagem televisiva com que iniciei este post sobre [“Hachi-Ko“].

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO do Filme Original Japonês:

Quem gosta de cães vai adorar isto. Quem tem um Akita então é um daqueles filmes obrigatórios.
É um filme simpático, muito simples e tudo o que faz, faz bem.

Trés tigelas e meia de noodles porque enquanto filme não fica na memória nem é um daqueles que nos apeteça estar sempre a rever, no entanto não deixem que a minha modesta classificação os afaste de [“Hachi-Ko“] pois acima de tudo é uma história fascinante e muito bonita.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2emeia.jpg

A favor: a simplicidade de tudo resulta plenamente, não abusa das desgraças do cãozinho para provocar choro fácil, é um filme calminho e contido ao contrário do que se esperaria com uma história destas, manipula bastante bem a emotividade da história até ao desenlace final, a recriação de época tem montes de atmosfera e a fotografia do filme dá-lhe um ar quase mágico, acima de tudo é um filme sobre uma história com vários personagens e não apenas o típico filme para fazer as plateias chorar á custa do cãozinho, quem gostou de um romance de Paul Auster chamado “Timbuktu” vai adorar o final de [“Hachi-Ko“].
Contra: poderá ser um filme algo lento para quem está mais habituado ao estilo americano de cinema, não nos fica na memória enquanto objecto cinematográfico e há até quem compare [“Hachi-Ko“] a um telefilme de sábado á tarde com alguma razão.

—————————————————————————————————————
————————————————REMAKE————————————————
—————————————————————————————————————

Agora falemos do remake americano – [“Hachi: A Dog’s Tale”]

Como já devem ter notado isto agora é uma novidade aqui no blog, pois salvo raras excepções, não costumo falar particularmente dos remakes americanos de filmes orientais por aqui, embora desde há muito venha pensando numa forma de integrar esse aspecto, pois cada dia que passa aparecem mais remakes made-in-usa de cinema asiático e muitas vezes o público ocidental nem faz ideia de que já existe um original, normalmente muito superior.

Por isso vale a pena agora falar aqui um bocadinho do remake americano de [“Hachi-Ko“], intitulado em Hollywood como [“Hachi: A Dog’s Tale”] e protagonizado por Richard Gere, pois este título desta vez surpreendeu-me pela positiva por muitas razões que vale a pena destacar por aqui.

Para começar como podem ver pelo popular trailer (japonês) do remake americano, há por aqui uma identidade original que se manteve. E de uma forma bem mais interessante e genuína do que eu pensaria encontrar e isso mantém-se no remake desde logo os primeiros minutos de uma forma muito curiosa.
A maneira como o remake começa é uma quase nostálgica homenagem não só á origem japonesa da história como ao facto de já ter havido um [“Hachi-Ko“] original.

Ao contrário da maioria dos remakes americanos de filmes orientais que tentam disfarçar a sua origem (raramente se menciona sequer que existe um filme original no oriente), em [“Hachi: A Dog’s Tale”] essa origem é plenamente assumida desde os primeiros segundos e no início do filme assistimos á chegada de um cachorro Akita aos Estados Unidos vindo como encomenda directamente do Japão como se o próprio filme tivesse emigrado do oriente para o ocidente e sendo assim este remake não poderia ter começado de forma mais cativante e genuína.

E o tom do filme continua da mesma forma positiva e em pura homenagem á narrativa original. Nada é mudado e tudo é apenas transportado para o universo ocidental, nomeadamente o americano.
Essencialmente encontramos todos os personagens do filme original, agora na sua encarnação ocidental e toda a história se mantêm essencialmente fiel aos factos históricos originais que já tinham sido representados no filme Japonês.

No entanto, [“Hachi: A Dog’s Tale”] inevitávelmente conta com mais umas coisinhas inventadas pelos argumentistas americanos que polvilham e intercalam a história original e acabam por tornar o filme não só mais açucarado, como principalmente mais comercial para um público habituado ao género de cinema com cãezinhos saídos de Hollywood, embora desta vez a coisa nem seja particularmente grave e nota-se que houve alguma contenção nas “invenções” melodramáticas. Estas apenas estão lá para criar a tal estrutura com que o público conta sempre, (a tal onde tem sempre que acontecer algo de X em X tempo para não aborrecer as plateias) e na verdade a coisa até resulta pois torna o filme agradável e mantém o tom simpático.
Porque sejamos francos, se [“Hachi: A Dog’s Tale”] mantivesse a estrutura lenta (onde “não se passa muito”) de [“Hachi-Ko“] tenho a certeza que não iria restar muita gente acordada no final do remake nas salas americanas porque isto de um filme ser comercial pode ter muitas diferenças em várias partes do mundo.

De qualquer forma, a estrutura original mantém-se em [“Hachi: A Dog’s Tale”] e torna-se um prazer comparar as duas versões pois todo o remake americano é uma homenagem á história que  o inspirou.
Os personagens continuam cativantes e simpáticos, toda a atmosfera da história mantém aquele tom mágico do filme original apesar do remake ser passado na actualidade e Richard Gere é o actor perfeito para ter entrado nisto pois faz-nos esquecer por completo a estrela de Hollywood por detrás do personagem e compõe um dono de Hachi que os cativará.

O facto do remake se manter fiel ao original, também significa que o final é idêntico até na forma como mostra o “reencontro” de Hachi com o seu dono, embora eu tenha preferido mais a forma como foi apresentado na versão original, pois o remake substituiu o tom poético e sobrenatural por algo mais meloso e melodramático que na minha opinião poderia ter sido mais contido. Embora não seja de todo muito grave.

O final do remake, ainda tem outra ligação directa com o Japão pois, [“Hachi: A Dog’s Tale”] termina com a informação de que a história verdadeira passou-se no Japão dos anos 20 e não nos Eua e depois o filme termina com algumas fotografias históricas dos verdadeiros protagonístas e mostra a actual estátua de Hachi-ko em Tókio permanentemente á espera que o seu dono regresse.


Resumindo, na minha opinião, mesmo apesar do tom muito mais açucarado e ultra-comercial do remake, a verdade é que [“Hachi: A Dog’s Tale”] é um dos raros remakes americanos de filmes orientais que pode andar de cabeça erguida com todo o mérito.
Talvez muito se deva á própria sensibilidade do realizador Sueco, o conhecido Lasse Hallström , autor de dois dos meus dramas favoritos dos últimos anos falados em Inglés o conhecido “The Cider House Rules (Regras da Casa)” que deu o Oscar a Michael Cane e “The Shipping News” adaptando o romance do mesmo nome e situado no norte do Alaska.
Portanto, digamos que [“Hachi: A Dog’s Tale”] é um remake americano de um filme japonês com um toque emotivo europeu que só lhe fica bem e talvez seja isto também o que o torna num filme made-in-Hollywood tão simpático e até bastante cativante em alguns momentos.

Um filme que se assume como ultra-comercial mas com excelentes resultados, uma identidade própria e muito respeito tanto pela versão original como pela história fantástica que apresenta ao público ocidental que nunca veria o filme japonês.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO do Remake Americano (ver acima o Original Japonês):

Quem gosta de cães também vai gostar muito disto e é um bom complemento para o filme original, além de ser um daqueles raros remakes americanos que resulta em todos os sentidos, embora seja inevitávelmente algo plástico e até conter um momento piroso ou dois totalmente desnecessários quem nem tiveram lugar na história original.
No entanto é uma tentativa honesta de se fazer um bom remake em Hollywood e que respeita totalmente a sua fonte original e até a homenageia em muitos momentos.

Trés tigelas e meia de noodles também, por motivos diferentes da mesma classificação atribuída ao original[“Hachi-Ko“] mas no fundo chegam os dois ao mesmo resultado; o de contar esta história tão triste quanto inspiradora passada há mais de 80 anos no japão e que até hoje ainda mantêm todo o seu valor e poesia.
E mais uma vez, não deixem que a minha modesta classificação aqui lhes tire a vontade de também espreitarem este filme. Vejam, um vejam os dois, mas vale a pena conhecer a história deste cão seja em que versão for.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2emeia.jpg

A favor: a simplicidade de tudo resulta plenamente, também não abusa das desgraças do cãozinho para provocar choro fácil embora seja um filme bem mais comercial que o original, é um filme simpático cheio de atmosfera e também surpreendentemente contido nos seus excessos mais pirosos, continua a ser também acima de tudo um filme sobre uma história com vários personagens e não apenas o típico filme para fazer as plateias chorar á custa do cãozinho, quem gostou de um romance de Paul Auster chamado “Timbuktu” vai adorar o final deste filme também pois é igual ao do original, respeita totalmente o filme original e a história que lhe deu origem, homenageia todas as suas origens nipónicas em muitos sentidos, a abertura do filme é muito criativa na forma como importa o cão/conceito do Japão para o Ocidente e nos faz entrar logo no ambiente Usa sem perder a identidade original.
Contra: é um filme de Hollywood e como tal tem coisas a mais só para que a plateia não adormeça, contém um par de momentos melodramáticos pirososos desnecessários mas inevitáveis dentro deste estilo de filmes quando saídos de Hollywood, também não nos fica na memória enquanto objecto cinematográfico e embora não se sinta tanto aquele ambiente de telefilme não será um dos titulos mais emblemáticos deste realizador sueco.

—————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS:

Trailer – Hachi-ko
http://www.youtube.com/watch?v=JIbkRGef8kE

Trailer – Hachi a Dog´s Tale
http://www.youtube.com/watch?v=urfwQHddesI

Encontrei também esta canção sobre a história.

—————————————-

Comprar -out Hachi-ko (Filme original – Japão)
Só o consigo encontrar nesta loja a um preço muito elevado.
Se alguém souber de outro sítio mais em conta diga-me qualquer coisa.

Download Hachi-ko aqui com legendas Pt/Br

Comprar – Hachi a Dog´s Tale (Remake – Usa)
Isto está por todo o lado aqui em Portugal, e aposto que também no Brasil.
Quem não encontrar pode comprar na Amazon em Dvd e Blu-Ray.

IMDB – HACHI-KO
http://www.imdb.com/title/tt0093132

IMDB – HACHI a Dog´s Tale (2009)
http://www.imdb.com/title/tt1028532

——————————————————————————————————————

FOTOS DOS PROTAGONISTAS REAIS e da Estátua em Tokyo em frente da estação.



——————————————————————————————————————

Filmes semelhantes de que certamente irão gostar:

——————————————————————————————————————

Inu to watashi no 10 no yakusoku (10 Promises to my dog) Katsuhide Motoki (2008) Japão


Na minha incessante busca por filme fofinhos de meter vómito ás vezes deparo-me com coisas absolutamente inesperadas, mas nada fazia prever que iria encontrar algo como [“10 Promises to my dog“] quando resolvi entrar em modo masoquista e procurar pelo filme mais piroso que conseguisse encontrar pela frente só porque me apetecia mesmo falar mal de um filme desses.

Na minha incessante busca por filmes fofinhos de meter vómito, segundo as minhas próprias regras habituais inspiradas, no que costuma sair de Hollywood dentro do estilo “passem-me o saco de vómito fachavor” lembrei-me logo de passear pela net a ver se descobria um filme oriental com cães, gatos ou qualquer outra coisa que abanasse a cauda.
Não podia falhar, seria piroseira e banalidade garantida.
Eis que me deparo com o candidato ideal [“10 Promises to my dog“] e quando eu já esfregava as mãos de contente e me preparava para ver algo realmente do piorio, saiu-me por completo o tiro pela culatra e não estava nada á espera disto. Toma que é para aprenderes !

Ainda não tinha passado vinte minutos de filme e já eu sabia que [“10 Promises to my dog“] seria algo bem mais especial do que eu alguma vez teria previsto. Cinquenta minutos depois, já eu tinha feito pausa na minha cópia pirata e ido comprar o dvd na Play-Asia. E porquê ? – perguntam vocês.
Porque este filme recordou-me imediatamente “Be With You” pelo seu estilo incrivelmente simples, estética visual muito semelhante, uma fotografia em tons sépia muito bonita e personagens centrais dentro do mesmo registo low-key mas completamente cativantes com uma humanização que se entranha no espectador sem este dar por isso.

E mais, contrariamente ao esperado [“10 Promises to my dog“] contorna habilmente todas as armadilhas, manipulações emocionais e clichés de que todos vocês estarão á espera mal espreitem a capa do dvd ou o cartaz do filme.
Se isto tivesse sido um filme Disney, o espectador levaria com sucessivas sequências em que o cãozinho se perdia durante minutos a fio, sofria imenso, encontrava pessoa más, chorava para a câmera,etc, etc, etc e no fim encontraria os donos enquanto correria em câmera lenta em direcção a todos nós. The End.

Pois bem, [“10 Promises to my dog“] passa lateralmente por esses lugares comuns nem sequer se demora muito com esses detalhes e muito menos os torna na parte central do argumento.
Ao contrário do que vocês esperam, o cãozinho fofinho não é o centro da história o que parece uma total contradição pois tudo gira á volta da sua presença na vida dos personagens humanos.
Isto é bastante dificil de explicar, mas irão compreender o que quero dizer quando virem o filme e é este pormenor que o torna num produto único dentro deste género de cinema. Eu pela minha parte não estava nada á espera disto.

[“10 Promises to my dog“] é um filme oriental acima de tudo sobre humanos e sobre as escolhas que temos de fazer na vida. Sobre o facto de ás vezes uma decisão tão aparentemente simples como dar ou não atenção a um animal de estimação durante uns minutos poder mudar o rumo da história pessoal de quem um dia decide trazer um cão para casa.
Este é um pequeno grande filme japonês sobre a responsabilidade do que é ter um animal e de que forma essa “banal” decisão nos pode tornar pessoas diferentes.
Se alguma vez tiveram um cão ou pensaram ter um, [“10 Promises to my dog“] é um filme completamente obrigatório pois garanto-vos que lhes fará pensar em coisas que certamente nunca lhes passaram pela cabeça.

A força deste filme oriental, está no facto de conseguir fazer tudo isso sem nunca dar a entender essa intenção. Ao contrário do que é costume neste género de filmes no ocidente, o argumento não nos atira constantemente á cara lições de moral para nos dizer como nos devemos sentir, mas faz-nos pensar em muita coisa, inclusivamente muitos minutos depois das cenas já terem passado.
Não nos obriga a viver – no momento – em que o realizador decide em que agora quer meter toda a plateia a chorar porque o cãozinho está perdido, mas faz-nos pensar muitos minutos depois na importância do que levou certa coisa acontecer, sem nos tentar explicar nada ou demonstrar por A+B porque isso tinha de acontecer.

Essencialmente [“10 Promises to my dog“] é uma história sobre a vida de um cão, não do ponto de vista daquilo que lhe acontece ao longo dos seus anos de vida, mas sim daquilo que a sua presença significou para os seres humanos que o rodearam.
Se existe um bom filme sobre o impacto invisível que cada um de nós pode ter sobre o mundo de outra pessoa sem sequer termos uma consciência disso, este é esse filme.
O cão aqui não é apenas um catalisador para haver duas horas de pelicula com um bando de personagens humanos estilo cartão que mais não fazem na história do que proporcionar motivos para o cão brilhar e fazer chorar as plateias. Esqueçam.

Em [“10 Promises to my dog“] o cão nunca é filmado dessa maneira,mesmo quando por momentos tudo parece que vai descambar no cliché do costume; felizmente logo muito bem contornado pela ligeireza com que o realizador aborda todos aqueles pequenos segmentos que fora do cinema oriental seriam o ponto central da cena e o fulcro de muita chantagem emocional em modo histérico junto do espectador.
[“10 Promises to my dog“] é um filme sobre um cão mas não esquece os personagens humanos e consegue ser tão bem sucedido nesse aspecto que lá para o fim da história, enquanto espectadores já o olhamos mais como outro personagem humano do que própriamente como sendo o animal de estimação da familia.

Isto torna o pequeno “twist” presente no fim da  história em algo que noutro lado poderia parecer forçado, mas que tendo em conta a caracterização do personagem canino ao longo do filme, enquanto espectadores, nem sequer questionamos a legitimidade da pequena surpresa relativa ao ponto de vista do cão e que se nos depara no final com o pai e a filha á entrada da casa. Mais um ponto positivo neste filme que poderia ter sido absolutamente básico e plástico e no entanto surpreende pela positiva pela forma como os pormenores são abordados.

Estava a ver a cena da morte do bicho (sim, o bicho morre) e fiquei absolutamente fascinado pelo facto de a estar a sentir não pelo ponto de vista de ser mais uma cena com a morte de um bichinho, mas porque a senti como se fosse um personagem humano que morre de velhice rodeado na sua cama por todos os que o amam e quanto a mim é neste ponto que acho que [“10 Promises to my dog“] leva logo uma nota alta que o distingue dos restantes filmes com cães fofinhos que já vi ao longo dos anos.
A grande lição a tirar desta história é que nos faz pensar num animal de estimação como um amigo e faz-nos sentir essa sensação sem precisar de um argumento que nos explique em estilo paternalista como nos devemos estar a sentir ao contrário do que é costume assistirmos.
Na verdade se formos a ver muito pouca coisa é explicada neste filme. Apenas sentimos e não questionamos. O que quanto a mim é um bom exemplo do trabalho do realizador que soube como ninguém como gerir esta história.

Como já disse [“10 Promises to my dog“] só aparentemente é uma história sobre um cão. Na sua simplicidade este argumento consegue ainda abordar temas como a solidão, a responsabilidade, o sucesso e a morte e nesse aspecto podem ter a certeza que os fará pensar sobre muita coisa, muito mais do que esperam.
A forma ligeira como aborda o tema da morte não lhe retira a sua força mas é bastante interessante. Nada neste argumento é desperdiçado e nunca sentimos que existem cenas a mais (com uma excepção).
Um bom exemplo disto é a cena da morte da mãe da protagonista onde a coisa se passa e o espectador só minutos mais tarde se dá conta. E isto tem uma razão dentro da própria estrutura do argumento que joga muito bem todos aqueles pormenores que nem notamos.

Basicamente, adorei este filme e não estava nada á espera disto. Há muito tempo que não via um filme tão bonito e tão bem trabalhado num género assim. Poderia fácilmente não ter sido mais do que um bom produto para crianças e se calhar nem precisava de ser mais do que isso para ser um filme simpático, mas no entanto insinua-se por entre o espectador com pormenores muito mais interessantes que o elevam a um patamar acima do que é comum encontrarmos neste tipo de filmes que normalmente as crianças gostam mas que provocam bocejos nos adultos.
Se tem uma falha está apenas no facto de haver uma total falta de química entre o par protagonista da vertente romântica da história. O que não é nada normal no cinema oriental nem seria de prever neste filme, pois practicamente todo o elenco é simplesmente perfeito, com destaque para o elenco infantil. No entanto as versões adultas das crianças da história sofrem de alguma falta de química entre si e a sua história de amor nunca resulta tão convicente quanto tudo o resto.

Outra falha (quanto a mim grave), está nos cinco minutos finais passados numa igreja. São absolutamente desnecessários, cortam todo o estado emocional da sequência da morte do bicho e entram por uma atmosfera foleira que por momentos ameaça fazer com que [“10 Promises to my dog“] termine em absoluta piroseira. É pena.
Por mim cortava os últimos cinco minutos de filme, mas também não é por isso que deixo de gostar menos dele.

Já o vi há mais de 24 horas, não me sai da cabeça e ando a recomendá-lo a toda a gente feito estúpido sem conseguir explicar ao pessoal que [“10 Promises to my dog“] não é mais um “Benji” ou “Marley & Eu” mas sim algo com uma alma completamente diferente e que transmite uma sensação genuína muito credível. Pelo menos na minha opinião.
Por um lado, se calhar não é um filme que eu possa recomendar ao público em geral.

Poderá ser apenas um daqueles que só poderá ser devidamente valorizado por quem já teve um cão (ou gato) e para todos os restantes parecerá um filme absolutamente banal, até porque não é propriamente uma obra maior do cinema (nem tenta ser), não terá nada de absolutamente extraordinário nem ficará para a história sequer do género (com muita pena minha); um pouco por culpa do próprio realizador, pois ao escolher um estilo tão “invisível” e verdadeiramente low-key para narrar esta história acabou por criar se calhar um produto que parecerá bem mais banal do que na verdade é.

Sendo assim, sinto que para ser justo tal com já fiz antes neste blog, também este filme terá agora dois tipos de classificações. Vamos a isto:

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO PESSOAL:

Se já tiveram um cão não podem perder este filme.
Se estão a pensar ter um cão (e nunca tiveram um), então é de visionamento obrigatório pois funciona quase como uma espécie de exposição a tudo o que poderão ter de enfrentar e principalmente aborda pequenos pormenores que se calhar vocês nem nunca imaginaram que poderiam ser importantes perante a responsabilidade de se ter um bicho.
[“10 Promises to my dog“] é uma verdadeira pérola perdida no meio do género filme-fofinho pois acaba por ser muito mais sério e acima de tudo interessante do que poderá parecer á primeira vista.
Não esperem que este seja apenas mais um filme com cãezinhos ao estilo matinée Disney pois é bem mais do que parece na capa.
Foi uma das melhores surpresas que tive nos últimos tempos e um filme que irei rever muitas vezes certamente.
Pode não ser um grande objecto de cinema, mas também não precisa de ser mais para ser um filme muito bonito, cheio de atmosfera e significado quanto baste.
Quem gostou da atmosfera e do estilo de filme que encontrou em “Be With You” e nunca mais conseguiu ver um filme assim, tem neste [“10 Promises to my dog“] um pequeno produto comercial obrigatório, onde nem falta um pequeno mas discreto e simbólico “twist” quase no final.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award.
Se eu alguma vez eu voltar a ter um cão e calhar ser um Golden Retriever, podem ter a certeza que se irá chamar “Socks“. 🙂

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg gold-award.jpg

A favor: comete a proeza de não ser apenas uma colecção de cenas fofinhas com cachorros em vez de ser um filme, a história não está centrada á volta do cão da forma que vocês julgam que vai estar, mais uma vez a humanidade da caracterização dos personagens, toda a naturalidade nunca se perde mesmo quando parece ir enveredar pelo habitual lugar-comum dentro deste género de filme, o ambiente visual conta com algumas imagens lindíssimas que aproveitam bem a fotografia em tons de sépia, a realização nem se nota mas é completamente eficaz a levar-nos pela história até ao seu final inevitável mas muito bem gerido a nível emocional, consegue humanizar o personagem do cão e no final já nem o olhamos como sendo um animal de estimação, o elenco infantil tem uma química fantástica, é outro filme oriental que vai buscar a sua banda sonora novamente á minha música clássica favorita “Canon de Pachelbel” tal como antes “The Classic” e “My Sassy Girl” já o tinham feito também com excelentes resultados, excelente aproveitamento de uma música dos anos 80 que sempre detestei “Time After Time” da Cindy Lauper, tem mais um par de cachorros hilariantes com destaque para o cão com cabelo em estilo de cubo (logo percebem), é um filme que vos irá fazer pensar muito mais em certos assuntos do que alguma vez imaginaram quando começarem a vê-lo, a maneira ligeira  como lida com o tema da morte, solidão e responsabilidade sem nunca perder a poesia, é um filme com alma, contorna habilmente todas as armadilhas que poderiam ter estragado tudo, é o melhor filme com animais e principalmente sobre animais que vi até hoje, não se parece com um produto americano e tem uma identidade perfeitamente oriental, se se identificarem com o coração emocional do filme arriscam-se a gastar pacotes de lenços de papel sucessivamente mas se calhar não pelos motivos que julgam ir encontrar pelo tipo de filme que é…
Se gostaram de “Be With You” não podem perder [“10 Promises to my dog“] pois o tom emocional é semelhante.
Contra: não deslumbra enquanto objecto cinematográfico pois todo o filme apaga-se nos personagens e na história que conta mas se calhar isto é também uma mais-valia, as caudas de CGI que colocaram no cão para lhe tentar dar mais expressividade em alguns momentos (gimmick infantil e desnecessário que quase arruina algumas das melhores partes do filme), a química romântica entre o par protagonista anda próximo do zero e pelo menos a mim nunca me convenceram do potencial dramático que a história de amor deveria ter tido, tem cinco minutos a mais de filme no final pois as cenas na igreja não servem absolutamente para nada além de amenizarem o impacto emocional com que a história conseguiu terminar no que toca á vida do cachorro, apesar de tudo é um filme com elevado grau de cenas fofinhas e isso poderá enervar quem detesta este tipo de cinema oriental.

——————————————————————————————————————

Para o público em geral, para os cinéfilos mais sérios ou para quem não gosta particularmente de animais:
CLASSIFICAÇÃO :
Trés tigelas de noodles, porque consegue ser um bom filme que contorna habilmente os clichés do género (mesmo sem os evitar) e que não insulta a inteligencia de quem procura apenas passar um par de horas com um produto simples bem feito e onde não falta um toque de poesia quanto baste. É um excelente filme de familia e mantém uma boa identidade oriental sem se parecer com os habituais produtos semelhantes ao estilo Disney.
Não tem nada particularmente mau, mas deve ser evitado por quem odeia de morte filmes com ambiente cute.
Quem nunca soube o que é ter um cão poderá não se identificar particularmente com nada deste filme, por outro lado não se admirem se depois de verem [“10 Promises to my dog“] lhes apetecer arranjar um.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg

——————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

TRAILER
http://www.youtube.com/watch?v=1t7o31J8nOo

COMPRAR
Podem encontrar adquirir este filme por exemplo aqui nesta loja. Bom serviço e com muitos outros títulos á escolha.

Se o quiserem espreitar antes…podem ir buscá-lo aqui neste blog por exemplo (legendas inglés).

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1179271/

——————————————————————————————————————

Filmes semelhantes de que certamente irão gostar:

Be With You

——————————————————————————————————————