Valley of Flowers (Valley of Flowers) Pan Nalin (2006) India/Japão/França/Alemanha


De vez em qando aparecem filmes que desafiam qualquer classificação possível e este enigmático mas fascinante [“Valley of Flowers”] é o exemplo mais recente deste género.

É um daqueles filmes que não se podem encaixar em lado nenhum. Não é suficientemente comercial para poder correr o comum circuito de filmes pipoca, até porque este é um daqueles que fará com que 99% desse público abandone  a sala bem antes de chegar a meio, mas também não é suficientemente artístico para agradar ao mais acérrimo intelectual fundamentalista frequentador de festivais obscuros, porque afinal, [“Valley of Flowers”] se calhar tem acção e aventura a mais e apesar do seu ritmo lento não filma planos fixos de pedras a crescerem durante meia hora.

[“Valley of Flowers”] é também um filme Indiano, embora não esperem encontrar nele cantigas pimba e danças coloridas de dez em dez minutos pois neste filme Indiano ninguém canta ou dança. Talvez com excepção de uma atmosférica sequência lá para o final ao som de uma banda sonora e uma canção específica mas de que não posso aqui falar porque lhes estragaria o prazer da descoberta do argumento.

Por outro lado, se o dito Cinema de Autor produzisse filmes de aventura e fantasia em massa, [“Valley of Flowers”] poderia servir bem como template para algo dentro desse estilo pois é a coisa mais próxima de um Indiana Jones (ou de um Western) que eu pelo menos vi num filme com estas características.
Se por exemplo, “Ashes of Time” de Hong-Kar-Wai, é o equivalente Wuxia dentro do cinema-de-autor chinês, se calhar [“Valley of Flowers”] bem que poderia ser classificado o equivalente a um blockbuster de aventura ocidental dentro do cinema-de-autor Indiano. Não sei, estou baralhado.

Só lhes digo uma coisa. Se procuram um título diferente dentro do cinema feito no oriente e gostam de filmes de aventura com grandes espaços abertos e uma temática de fantasia baseada em muitos preceitos do budismo não vão mais longe, porque [“Valley of Flowers”] é mesmo muito bom no aproveitamento desses tópicos para criar uma história que por vezes poderá parecer demasiado longa, chata até, mas nunca deixa de ser totalmente hipnotizante. Especialmente quando o filme chega ao seu surpreendente capítulo final que quase que se pode considerar o twist da história se vocês não souberem nada sobre este filme.

O que me leva a uma nota muito importante:
AFASTEM-SE DE PROCURAR SABER MAIS QUALQUER COISA SOBRE [“Valley of Flowers”] NA NET.
Se nunca ouviram falar disto e pelo que já escrevi acham que lhes poderá interessar, nem pensem em ler mais qualquer coisa além do meu texto sobre este filme antes de o verem.
Se não conhecem nada sobre [“Valley of Flowers”] afastem-se não só das reviews da Net como principalmente das fotografias que estão espalhadas por todo o lado pois irão destruir-lhes por completo o prazer de serem surpreendidos pelo rumo do segmento final na história. Fiquem-se pelas fotos que eu seleccionei para colocar aqui sem grandes spoilers.
E já agora, nem pensem em consultar o IMDB sobre isto.
Vão por mim.
Vejam [“Valley of Flowers”] completamente ás escuras e sem saberem nada sobre ele e vão dar-lhe muito mais valor do que lhe dariam se já conhecessem a reviravolta e a temática completa da história.

Como tal, eu até poderia agora comparar isto com dois outros títulos ocidentais bem semelhantes  (um ultra comercial muito famoso e outro dentro do cinema independente americano),  mas não o irei fazer porque isso seria dar-lhes referências a mais e vocês percebiam logo o que iam ver pela frente.
[“Valley of Flowers”] é para ser apreciado sem saberem nada dele.
Continuem assim. 😉

Portanto, o que posso eu dizer sobre isto sem estragar-lhes o filme…
Coisas boas…a história passa-se nos Himalaias no ano de 1836, tem montes de atmosfera e gira á volta de um grupo de bandoleiros composto por exilados de várias terras e que sobrevive assaltando caravanas que percorrem a Rota da Seda por aqueles lados.
Um dia, num desses assaltos encontram uma misteriosa mulher que apaixonada pelo líder do bando tudo faz para se juntar a eles com a promessa de lhes indicar potenciais alvos para assaltos onde poderão enriquecer rápidamente.

Acontece que essa mulher além de estranhamente não possuir um umbigo, parece possuir capacidades sobrenaturais que coloca ao serviço do bando, embora os coloque também em risco pois no seu encalce sem conhecermos bem as razões para tal encontra-se um misterioso homem conhecido como Yeti (esse mesmo) que parece conhece-la e estar muito interessado em capturar não só o bando de assaltantes como principalmente a misteriosa mulher.
E não lhes digo mais nada para não estragar o prazer da descoberta.

[“Valley of Flowers”] visualmente é absolutamente grandioso embora de uma forma estranhamente contida e intimista. Imaginem-no assim como uma espécie de “Where the Wind Dwels” com muitas cenas de acção e aventura pelo meio mas filmado nas mesmas paisagens naturais absolutamente incriveis entre montanhas e vales majestosos e um céu aberto ao azul infinito.
No entanto, atenção, [“Valley of Flowers”] tem muita sequência de aventura, mas o seu ambiente é tão enigmático que não esperem cenas muito emocionantes ao estilo de aventura ocidental a que estão habituados.
Há muita acção mas toda ela é um bocado…parada e o suspanse é gerido de uma forma diferente. Se é que isto faz sentido.

[“Valley of Flowers”] é um filme sobre conceitos espirituais pois assenta muito na filosofia budista e em muitos conceitos a ela associada. Essencialmente estamos na presença de uma história sobre Karma e portanto isto saído de um realizador Indiano com um elenco multi-cultural onde nem sequer faltam japoneses, já podem imaginar que  não irão propriamente ver um filme de aventuras comercial comum.

Quanto a mim tem apenas uma única falha. Talvez tenha uma meia hora a mais na minha opinião. Isto porque começa muito bem, mas depois perde-se um bocado mais ou menos a meio do filme pois durante algum tempo repetem-se não só o mesmo estilo de cenas de aventura como principalmente repetem-se as mesmas ideias e o filme poderia ter evitado isso.
Além disso á força de tentar ser um filme intensamente romântico, este insiste em repetir as mesmas sequências de amor vezes sem conta e que em vez de tornar a história de amor mais poderosa, acaba por a tornar monótona.
Por isso não se espantem se começarem por gostar, mas depois lá pelo meio [“Valley of Flowers”] lhes começar a parecer gritantemente desinteressante e até algo secante. Não desistam porque vale a pena acompanhar o que ainda falta.

[“Valley of Flowers”] tem 15o minutos e se calhar seria um filme de aventura e fantasia ao melhor estilo cinema-de-autor bem mais empolgante se tivesse tido apenas duas horas.
Por outro lado, segundo algumas pessoas parece que existe uma versão curta que foi lançada no ocidente mas o filme não resulta tão bem pois foi-lhe retirada muita da carga filosófica quando deveriam ter encurtado apenas algumas sequências repetitivas.
Sendo assim, se espreitarem este filme, certifiquem-se que vão ver a versão de 150 minutos apesar de tudo.

Eu gostei mesmo muito disto, embora me tenha arrastado para conseguir passar da tal parte do meio quando tudo pareceu começar a repetir-se. No entanto [“Valley of Flowers”] está tão carregado de imagens extraordinárias a todo o instante e a sua atmosfera é tão misteriosa e hipnótica que não conseguia mesmo tirar os olhos do ecran só para saber o que iria acontecer a seguir, isto porque em muitos momentos a história do filme parece que não vai a lado nenhum o que nos deixa ainda mais intrigados para descobrir como será o seu final.

E o final é excelente.
Perde aquela carga de aventura e entra num tom desencantado, bastante filosófico e talvez ainda mais próximo do que é costume em cinema ainda menos comercial, mas resulta. E resulta bem, pois [“Valley of Flowers”] subitamente segue por um rumo totalmente inesperado para quem não conhece nada sobre este projecto e daí, volto a insistir AFASTEM-SE DE PROCURAR SABER O QUE QUER QUE SEJA sobre esta obra antes de verem o filme se nunca ouviram falar dele ou da sua temática central.

Algumas reviews, mencionam o facto da história colocar questões a mais e ter respostas a menos, no entanto, eu acho que isso só parece acontecer se tentarmos acompanhar este filme como se estivessemos a ver uma aventura comercial ocidental comum. Isto poderá fazer com que o espectador depois esteja sempre há espera que num determinado momento apareça no ecran um personagem a explicar tudo o que aconteceu e a detalhar qual a origem de tudo e mais alguma coisa.

[“Valley of Flowers”] contém todas as explicações para o que é enigmático na história; agora, não esperem que alguém lhes vá explicar de bandeja todos os seus mistérios, porque a solução está lá mesmo na frente dos olhos durante o filme todo e muito em particular na sua parte final, inclusivamente nos silenciosos derradeiros segundos.

Apenas não há nenhum personagem que diga coisas como – “isto foi assim porque ….” – ou ” afinal a mulher misteriosa era”.
Esqueçam a fórmula ocidental de explicar os filmes e prestem atenção.
Se calhar também convém informarem-se um bocadinho sobre a própria filosofia Budista e sobre alguma mitologia dos Hymalaias antes se puderem, pois se tiverem as referências necessárias vão não só perceber bem tudo o que há de misterioso no argumento quando este alcança o fim da história como se calhar ainda gostarão mais do filme por não ser paternalista.
Embora, por outro lado…alguém deve andar a vender droga da boa por aqueles sítios pois [“Valley of Flowers”] só pode mesmo ter sido escrito debaixo de uma grande moca ! Ou talvez não.

Estou para aqui tentado em falar-lhes sobre o fascinante segmento final deste filme que subitamente atira a história para um registo realmente inesperado mas não o posso fazer por isso se calhar é melhor passar á classificação final para isto antes que eu diga coisas demais.

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CLASSIFICAÇÃO:

É um excelente cruzamento entre o cinema de aventuras, (ou de viagem) onde as paisagens naturais majestosas são uma personagem por direito e um estilo de cinema intimista e filosófico que irá agradar a quem procura algo menos comercial.
Tem uma história deveras enimática embora nem sempre resulte enquanto filme pois 150 minutos talvez seja demais embora o segmento final seja fascinante pelo inesperado e tom filosófico.
Sendo assim, quantro tigelas de noodles pois é realmente muito bom e acima de tudo interessante quando se vê uma primeira vez e se calhar ainda é um daqueles que lhes apetecerá rever de novo um dia destes, até porque é um antídoto perfeito para um cinema de aventuras mais comercial produzido no ocidente.

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A favor: as paisagens naturais são do outro mundo, visualmente o filme está fantástico, o ambiente é mágnifico em todos os sentidos,  tem uma história enigmática que alterna com alguns segmentos de aventura interessantes, as partes sobrenaturais são muito curiosas e hipnóticas, o segmento final parece pertencer a um filme diferente mas resulta mesmo bem pois dá muita frescura a uma história que até aí parecia que não ia a lado nenhum, as explicações para os mistérios e origem dos personagens estão lá mas não esperem que algum deles lhes venha explicar o que se passou na história numa daquelas cenas paternalistas, contém uma canção excelente algures pelo fim.
Contra: ainda não sei se como história de amor isto resulta ou não pois não há grande química entre os protagonistas, esforça-se demasiado por ser um filme romântico e nota-se esse esforço a todo o instante o que lhe retira muita da naturalidade, não é cinema de aventuras ultra comercial e portanto irá desagradar a quem não suporta aquele toqeue de cinema mais intimista, pelo meio arrasta-se demasiado e a história parece não ir a lado nenhum durante minutos a fio, se não tiverem pelo menos algumas boas referências sobre budismo, filosofia e mitologia oriental não irão conseguir perceber a explicação dos mistérios da história pois ninguém lhes vai explicar nada e todas as soluções muito provavelmente irão passar-lhes ao lado por falta de referências para serem notadas, nota-se que foram buscar modelos para actores principais pois o heroi passa o tempo todo em pose constante para a câmara e há por ali alguma falta de naturalidade nas suas presenças físicas embora isso se note menos na actriz principal.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
NÃO VEJAM O TRAILER ANTES DE VEREM O FILME
especialmente se não sabem nada sobre esta obra, pois uma das melhores surpresas do rumo da história está no trailer.

Comprar
http://www.dvdasian.com/_e/India/product/25343/Valley_of_Flowers_Region_3_PAL_DVD_.htm

Download aqui.
AVISO: Não espreitem as fotos senão perdem a surpresa da história. E já agora, vejam se conseguem carregar no torrent sem ler a descrição do filme também porque revela como será a inesperada parte final.

IMDB
E nem pensem em carregar aqui antes de verem o filme.

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Filmes semelhantes de que poderá gostar:

*Não tenho nada parecido com isto no blog*

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Siworae ( Il Mare ) Hyun-seung Lee ( 2000 ) Coreia do Sul


Mais de metade das pessoas que chegam a este blog, fazem-no pesquisando nos motores de busca pela expressão – “filme romântico japonês”, ou através de frases semelhantes.
Como o cinema oriental romântico não tem qualquer divulgação no nosso país será lógico assumir que este interesse das pessoas é essencialmente fruto de um “passa-a-palavra” por entre aqueles que o descobriram e agora procuram mais da mesma poesia e originalidade que já não existe no cinema romântico de Hollywood mas que os asiáticos parecem produzir cada vez melhor e do qual [“Il Mare“] é um exemplo perfeito.

Isto porque um bom filme romântico oriental é muito mais do que a banal telenovela, pirosa, formulática e cheia de nomes sonantes Holywoodescos que passa habitualmente por romance aos olhos do público ocidental que não conhece mais nada.
Sendo assim, porque bons filmes orientais não faltam e porque muita gente parece estar interessada em cinema romântico, vou continuar a recomendar aqueles que na minha opinião são filmes obrigatórios.
E nada melhor do que lhes apresentar o que para mim é não só um dos melhores filmes orientais que poderão encontrar mas acima de tudo uma das grandes obras primas do cinema romântico em qualquer parte do mundo.
Bem-vindos a [“Il Mare“].

[“Il Mare“] foi o filme que me fez ficar a gostar mesmo de cinema oriental e é definitivamente um dos meus filmes românticos favoritos.
Na verdade, para mim existem pelo menos oito filmes absolutamente imprescindíveis dentro do cinema asiático do género; “My Sassy Girl“, “The Classic“, “Be With You“, “In The Mood For Love“, “Fly me to Polaris”, “My Blueberry Nights“, “2046” e [“Il Mare“].
Quem quiser ter uma excelente introdução ao bom cinema romântico que se faz do outro lado do mundo, não pode de forma alguma perder qualquer um destes filmes. Nos seus estilos mais diversos resumem bem a versatilidade, criatividade e principalmente a alma e a poesia que pode haver neste género cinematográfico mas que há tantos anos anda muito longe dos produtos fabricados em Hollywood.

[“Il Mare“], tem logo á partida, outra característica curiosa. Na minha opinião é o perfeito exemplo de que o chamado Cinema de Autor, não tem necessáriamente que significar – filme secante para intelectuais – e pode ser um excelente filme comercial sem no entanto perder a sua identidade muito pessoal e intimista.
Neste caso, estamos perante uma história de amor de contornos não só extremamente poéticos, mas também com uma pitada de ficção-cientifica plenamente baseada na String Theory.
Mas não se preocupem, aqueles que já estão a torcer o nariz. [“Il Mare“], não é um filme de ficção-científica pois o facto da sua história contar de certa forma com universos paralelos e viagens através do tempo, essa vertente nunca é o ponto central da narrativa e nem sequer é explicada ao espectador. Apenas nos é pedido para entrarmos no conceito e deixar-mo-nos levar pelo seu resultado poético e emocional e pela forma como os personagens são afectados pelos acontecimentos inexplicáveis que lhes permite desenvolver a sua história de amor.

Como resumir então [“Il Mare“], sem estragar a magia da descoberta a quem ainda não o viu…
Basicamente conta a história de duas pessoas que vivem separadas por dois anos. O rapaz vive em 1998 e a rapariga em 2000 mas ambos trocam correspondência através de uma mágica (?) caixa do correio que se situa á entrada de uma casa de praia chamada precisamente “Il Mare”.
Não há qualquer exlicação para esse acontecimento (nem interessa) e apenas ficamos a saber que os dois protagonistas conseguem comunicar através daquilo que colocam na caixa de correio e que misteriosamente é transportado de um lado para o outro atravessando o tempo ao longo de dois anos até á respectiva data no calendário em que cada um deles vive.
Inicialmente ambos viveram na mesma casa mas em alturas diferentes. O rapaz viveu em “Il Mare” entre 1997 e 1999 e a rapariga entre 99 e o início do ano 2000 quando ele já lá não habitava, altura em que depois se mudou para a cidade para estar perto do seu emprego como actriz de vozes para Anime.
Ambos têm um passado marcado por mágoas na sua vida, a rapariga continua apaixonada pelo ex-namorado que a deixou por outra pessoa e o mesmo acontece com o rapaz que também perdeu a namorada por um motivo semelhante.

Através da caixa de correio, estabelecem então uma relação de amizade que aos poucos se transforma em amor, até que um dia combinam encontrar-se cara-a-cara numa praia deserta algures numa ilha da Coreia do Sul. Para a rapariga, o dia do encontro será na próxima semana a contar do seu calendário de 2000, mas para o rapaz esse dia no seu calendário de 1998 ainda está a dois anos de distância,  o que cria desde logo uma das situações mais interessantes do filme e que não pretendo agora aqui revelar como se desenvolve pois estaria a estragar a descoberta dos pormenores mais mágicos e emocionais desta original e muito poética história de amor.
Só posso dizer que vão adorar a maneira como  [“Il Mare“], usa os paradoxos temporais para criar situações românticas verdadeiramente bonitas e muito atmosféricas que os fará certamente apreciar tanto este filme quanto eu se embarcarem no seu conceito e se identificarem com os personagens.

Ao mesmo tempo que é ligeiro na sua abordagem narrativa, [“Il Mare“] é no entanto um filme extremamente intímista, carregado de paisagens interiores que são plenamente traduzidas visualmente na associação gráfica que o realizador constroi usando a imagem da mágnifica e original casa de praia denominada precisamente “Il Mare” e que serve de ligação não só entre o romance dos personagens mas principalmente entre as suas emoções.
[“Il Mare“], é por isso um filme de poucas palavras. Aqui os personagens não precisam passar o enredo todo a dizer que se amam muito como acontece nas banais pseudo-histórias de amor americanas.
Na verdade [“Il Mare“] é construído com base nos silêncios e no que não é dito, mas que compreendemos perfeitamente graças ao extraordinário trabalho do realizador que nos transmite visualmente tudo o que não precisa de ser descrito por palavras.
Esta é uma das grandes razões porque este filme funciona tão bem a um nível emocional, pois faz-nos sentir e compreender o que os personagens sentem sem ter que passar o tempo todo em truques melodramáticos de pacotilha telenovelística para conquistar o espectador.

Mas não esperem encontrar aqui o típico filme de autor secante para intelectuais de café.
[“Il Mare“], está cheio de metáforas visuais, mas tudo é colocado de uma forma directa ao sabor do argumento e para servir a história da forma menos chata possível, o que não deixa de ser um feito pois o filme tem realmente uma atmosfera calma e muito relaxante ao mesmo tempo que não nos larga até á sua conclusão.

É também, talvez um dos filmes que melhor aborda o tema do isolamento e da solidão nas grandes cidades sem entrar por caminhos deprimentes ou pretenciosos. Sempre de uma forma subliminarmente séria e muito poética que nos deixa a pensar embalados pelo seu ambiente hipnótico e contemplativo muito suportado também pela extraordinária música presente em todo o filme.
A combinação música/imagem ás vezes faz até lembrar os momentos mais poéticos de Blade Runner no que toca a uma criação de atmosfera de solidão ilustrada de uma forma que chega a ser bonita apesar de nos fazer pensar em muito mais do que esperaríamos quando julgavamos que iamos apenas ver um banal filme romântico, coisa que [“Il Mare“] não é.

Um dos grandes trunfos na criação deste ambiente está também na extraordinária banda sonora composta por originais de Jazz made-in-Coreia do Sul e que se adaptam perfeitamente a cada fotograma criando uma atmosfera única que complementa perfeitamente todo a poesia visual e também cada emoção que percorre o filme.
Conseguindo inclusivamente numa questão de segundos passar de um momento dramático a um tom mais ligeiro sem perder identidade, transmitir saudade, melancolia ou alegria como no caso da cena dos noodles que liga os dois personagens na mesma actividade embora separados por dois anos no calendário.

Como tal o que há a dizer mais sobre este pequeno grande filme ?…
Foi um fracasso de bilheteira monumental na Coreia do Sul quando estreou. Essencialmente devido á sua campanha de marketing atroz que já ficou como um exemplo da maneira de como um filme não deve ser publicitado. Teve um trailer oficial tão mau, mas tão mau que afastou o público todo do filme ainda este não tinha sequer estreado. Graças ao trailer oficial que não tem absolutamente nada a ver com a verdadeira atmosfera do filme, as salas de cinema ficaram ás moscas, porque as pessoas pensaram que [“Il Mare“] seria um melodrama estilo cinema-de-autor intelectualoide a atirar para o deprimente e não um filme tão romântico e simples como mais tarde toda a gente descobriu que afinal este era.
Entretanto tornou-se um enorme sucesso de vendas em dvd por aqueles lados do oriente e um verdadeiro filme de culto, pois tal como em Blade Runner as pessoas foram-no descobrindo e recomendando aos amigos que por sua vez o recomendaram a outros amigos e assim por diante, tornando este filme tão popular que até os americanos compraram os direitos para fazer um dos piores remakes de filmes orientais de que há memória, com o nome “The Lake House”; onde destruiram por completo a poesia da obra original e a deixaram sem o mínimo vestígio da magia que tem nesta primeira versão Sul-Coreana.
Está nos meus planos em breve colocar aqui uma review de comparação entre a versão original e a desgraça Americana, assim que preparar o cérebro e a paciência para conseguir rever o remake.

Entretanto, passemos á frente.

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CLASSIFICAÇÃO:

Poético, original e uma obra prima do cinema romântico que ninguém interessado no género pode ficar sem ver.
Completamente imprescindível para quem não tem medo de ver um filme calmo onde a atmosfera faz o filme. Recomendo o uso de um bom sistema surround para tirarem realmente partido do filme, pois a música em [“Il Mare“] é absolutamente essencial.
Bom filme também para quem se interessa por univeros paralelos e String Theory, apesar de não ser uma obra de ficção-científica.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award como selo de absoluta qualidade.
Mais um filme que rebenta a escala.

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A favor: tudo, poesia, personagens, ambiente, banda sonora, romantismo, fotografia, realização, inteligência de argumento, a maneira como a música é usada, a estética das imagens, o design de produção, o equilíbrio perfeito entre o cinema-de-autor e o cinema comercial, é um filme calmo sem ser chato.
Contra: contra ?!…Só se for o trailer original que é absolutamente enigmático e não tem absolutamente nada a ver com o filme. [“Il Mare“], também pode ser muito calmo para quem estiver demasiado habituado ao cinema americano ou procurar uma telenovela com tudo explicadinho, pois aqui neste filme não há vilões, perseguições, traições ou triangulos amorosos de pacotilha.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer:
Na falta de um trailer decente, felizmente existe um videoclip que reproduz fielmente a verdadeira atmosfera do filme e embora contenha uns *spoilers* menores recomendo mesmo que o vejam.
http://www.youtube.com/watch?v=2aLttFT27K4
Se gostarem da atmosfera do teledisco, comprem o dvd pois o filme é exactamente assim.

No entanto, o trailer japonês também capta bem o ambiente e é bem melhor que o trailer original.

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Comprar:
Devido ao sucesso que foi obtendo de forma muito gradual e talvez ao facto de ter sido um fracasso nas salas Sul-Coreanas quando estreou, [“Il Mare“] foi inicialmente lançado em dvd de uma forma não muito profissional, pois pelo visto ninguém dava nada pelo filme.
Por causa disto practicamente todas as cópias que existem no mercado asiático têm problemas, ou de imagem ou de legendagem.
Ao longo do tempo tenho colecionado edições do filme na esperança de que da próxima vez é que alguém resolva lançá-lo nas condições que merece por isso posso dar-vos uma ideia do que poderão encontrar á venda se o quiserem comprar.

Apesar da sua legendagem inacreditávelmente amadora, a minha edição favorita deste filme é a edição simples Chinesa
A imagem não é anamórfica, contém alguns artefactos, mas é no formato widescreen original o que mantém a beleza dos enquandramentos intactos, tal como foram pensados pelo realizador e se há uma coisa de que este filme não tem falta é de imagens bonitas por isso gosto muito deste dvd chinês apesar de todas as suas falhas.
O som 5.1 é muito bom e o DTS é na minha opinião fantástico pois aproveita plenamente a banda-sonora do filme criando uma experiência tridimensional sonora absolutamente perfeita.
A legendagem em inglés é uma anedota.
O inglés de quem traduziu o filme é no mínimo duvidoso (cómico) e grande parte das frases nas legendas não cabem no ecran o que dá origem a uma quantidade enorme de expressões que terminam subitamente sem deixar rasto. Se isto pode parecer problemático, não se preocupem. O que está escrito dá perfeitamente para compreendermos a intenção e o sentido dos diálogos e não é por isso que vão deixar de disfrutar deste filme.
Penso que já não a encontram com a capa inicial (e caixa de cartão), mas podem adquirir a nova edição do mesmo disco aqui em embalagem normal.
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7j-49-en-15-il+mare-70-ckk.html

Depois desta edição inicial, devido ao sucesso das vendas, surgiu no mercado mais outra edição chinesa. Neste caso adaptada da versão original Coreana e que de novo trouxe uma caixinha toda atmosférica em cartão grosso com um fecho magnético e um grafismo já mais bonito embora tão esquisito quanto os novos e estéticamente amadores menus que também trouxe de novo.
A imagem desta vez já não é em letterbox mas preenche agora todo o ecran. Embora não esteja cortada, pessoalmente eu não gosto de ver as imagens assim pois parece que os enquadramentos perderam a magia e a grandiosidade com que foram originalmente concebidos.
É uma edição de dois discos com bastantes extras (e que parecem mesmo interessantes), mas infelizmente apenas o filme está legendado em inglés e por isso não podemos disfrutar devidamente do conteúdo adicional, o que é pena pois o making of é excelente mesmo totalmente em Coreano.
Penso que esta já nem se encontra á venda por isso não coloco aqui qualquer link.

Por último há ainda outra edição especial em 3 discos, da imagem acima, que na práctica é a exactamente a mesma edição que referi atrás, mas agora com uma bonita e muito cuidada nova embalagem.
Esta edição (que já está quase esgotada em todo o lado), tem ainda um bonús imprescindível para quem gostou do filme, pois contém um CD com toda a banda sonora de [“Il Mare“].
O que nos coloca num dilema…pessoalmente recomendo a básica (e má) edição chinesa inicial porque apesar de tudo mantém o formato de ecran original em que o filme foi fotografado, mas por outro lado…vocês querem mesmo ter esta bonita caixinha com os 3 discos. Acreditem-me.

Aproveitem agora que o dollar está baixo e façam como eu, comprem as duas. E aconselho-vos a ser rápidos se ainda quiserem o CD da banda sonora.
Curiosamente o melhor local para se comprar esta edição actualmente é na Amazon americana. Seller de confiança e preço porreiro. Até porque apesar de na caixa dizer que os dvds são região 3, na verdade esta edição está livre de qualquer região, sendo portanto região ZERO e caso não possuam um leitor multi-regiões poderão na mesma ver este filme indispensável.

DOWNLOAD AQUI com legendas em PT/Br

OST original para download

IMDB:
http://www.imdb.com/title/tt0282599/

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Be With You My Sassy Girl Love Phobia The Classic Fly me to Polaris

ditto_capinha_73x

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