Jisatsu sâkuru (Suicide Club ou Suicide Circle) Shion Sono (2001) Japão


Interesso-me sempre por espreitar primeiras obras de novos realizadores. Especialmente dentro do cinema oriental claro está.
Então quando estamos na presença de uma primeira incursão no género de terror da autoria de um gajo que até á data apenas tinha realizado filmes porno-gay asiáticos, é caso mesmo para não perder um segundo de [“Suicide Club“] pois a coisa promete.
Sim, porno-gay. 🙂

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Passar da pornografia para o chamado cinema normal nunca é tarefa fácil, mas há que convir que este tipo tem qualquer coisa de interessante e de certa forma até conseguiu ser bem sucedido apesar deste filme ser absolutamente estranho. Ou será … estúpido ?…
Se procurarem pela net, encontrarão inclusivamente no Imdb, bastantes pessoas convencidas de que perceberam o filme. Não se deixem iludir por esses comentários pois essa gente deve andar a dar na coca.
Mas não deixa de ser curioso, parecer haver tanta gente a querer interpretar [“Suicide Club“] ás vezes com conotações absolutamente hilariantes á força de tentarem parecer inteligentes em demasia.

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Esqueçam. Este filme japonês não tem lógica e se calhar nem é para ter.
Podem arranjar as explicações que quiserem para o final, esmiuçar todas as implicações sociais, filosóficas e intelectualoides que não vale a pena. Este argumento não tem ponta por onde se lhe pegue. O que é estranho pois no que toca a uma narrativa coerente ao longo de toda a sua duração até transporta o espectador por pelo menos cinco histórias diferentes de uma forma bastante interessante pois não há dúvida que este realizador sabe criar tensão e ambiente.

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Ao contrário da história noutro filme que deixa muita gente confusa, o fabuloso “A Tale of  Two Sisters“, aqui em [“Suicide Club“] não há mesmo ponta por onde se lhe pegue por uma simples razão. As histórias paralelas que apresenta permanecem practicamente sempre isoladas. Podiam ser de filmes orientais independentes sem qualquer ligação ao suposto mistério central que não se notava nada.

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Por muito que não pareça em “A Tale of  Two Sisters” há mesmo uma história e na realidade é tão simples que parece bem mais complexa do que é,  mas que é fácilmente desmontada quando ordenamos as peças do puzzle pela cronologia temporal correcta e percebemos quais as relações entre os personagens (onde nem falta uma pista excelente no próprio poster do filme).

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Nada disso se passa em [“Suicide Club“]. No fundo resume-se a uma mistura de cinco boas histórias isoladas que poderiam qualquer uma delas dar excelentes filmes de terror mas que nunca são aproveitadas na sua plenitude pois o elemento condutor que supostamente as liga é tão obscuro e críptico que faz com que a história nem tenha uma resolução final satisfatória como merecia.
O problema de [“Suicide Club“] é que é nem sequer disfarça, mas sente-se plenamente que é um daqueles filmes a querer armar a inteligente.

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A sua atitude cinéfila ao estilo do eu sou tão confuso que só pessoas muito espertas é que me poderão interpretar e chegar realmente á minha essência profunda acaba por se tornar profundamente irritante quando chegamos ao final e nada do que é estruturado ao longo da narrativa tem realmente uma resolução objectiva.

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Esse sentimento quanto a mim está presente ao longo de todo o filme e acho que é definitivamente o seu grande ponto negativo.
É um daqueles trabalhos de cinema oriental que na verdade não precisava de estar a mostrar a sua inteligência a todo o instante e no entanto o constante toque artístico a meter pinta de cinema-de-autor á força acaba por se tornar na sua fraqueza.

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Tirando isto, no entanto na verdade não se pode dizer que [“Suicide Club“] seja um mau filme de terror porque não é.
Tirando os enervantes tiques a cinema-artístico, quando entra por momentos de tensão e verdadeiro mau gosto no que toca a banhos de sangue é um excelente espectáculo para quem gosta de muita hemoglobina no ecran e pensa que já viu tudo em matéria de conceitos horrorosos para nos encherem os ecrans com sangue.

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É que se gostam de sangue, não vão ficar decepcionados. [“Suicide Club“] tem momentos verdadeiramente arrepiantes, se calhar não pelo que mostra mas mais porque sabe criar uma tensão no espectador que depois aproveita muito bem na hora de nos despejar o sangue em cima.
[“Suicide Club“] além disso tem uma atmosfera doentia que só lhe fica bem. Está carregado de cenas de suícido colectivo genialmente tensas e ainda por cima tem uma certa carga de pedófilia subliminar que só o torna ainda mais enervante e enigmático daquela forma que só os japoneses conseguem fazer ou o cinema asiático consegue proporcionar.

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E também não custa muito a acreditar que o realizador tenha vindo da pornografia homossexual, o que só adensa ainda mais a atmosfera deste produto verdadeiramente único dentro do cinema de terror.
Por outro lado….se isto é um filme “normal” , eu nem consigo imaginar que fantasmas ou taras sexuais verdadeiramente pervesas poderão estar na filmografia pornográfica do tipo que filmou [“Suicide Club“]. Eu por mim dispenso qualquer filme porno deste senhor, seja gay ou étero. Prefiro nem imaginar.

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Sendo assim, o que dizer de [“Suicide Club“] ?
Eu recomendo. Se gostam de filmes de terror orientais este é um daqueles que deve ser visto pelo menos uma vez.
E se gostam de filmes em que adolescentes fofinhas saltam em grupo  para linhas de metro ficando desfeitas em milhares de bocadinhos sangrentos, então este filme é para vocês meus amigos.

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CLASSIFICAÇÃO:

Adolescentes fofinhas aos bocados, dedos cortados, cabeças decepadas, suicidios ao molhe, pedófilia subliminar e homossexualidade artística tudo condimentado com alguns baldes de sangue e muita pretenção a filme de arte.
O que poderia ser melhor ?

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Bom, o filme poderia ser menos pretencioso.
Por causa disso só leva duas tigelas e meia. É um filme de terror muito interessante  e recomendo-o mesmo a quem gosta do género pois tem tudo para agradar. No entanto poderia ter sido melhor se a sua história levasse a lado algum sem ser necessária uma interpretação quase filosófica ou sociológica da parte do espectador.

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A favor: tem um par de boas histórias pelo meio, o mistério é interessante, as cenas de suicídio são fantásticas e arrepiantes, excelentes momentos doentios cheios de tensão, muita gente aos bocados e baldes de sangue quanto baste.
Contra: arma-se demasiado em filme artístico e leva-se demasiado a sério, as histórias são demasiado independentes e nunca ligam como deveriam de ter ligado para nos apresentar o final que este filme oriental merecia ter tido, tem pretenção a mais e por isso não é tão divertido quanto deveria ter sido pois arrasta-se por momentos a tentar parecer uma obra mais inteligente do que precisava de ter sido.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=1Dx3_fwEbM4

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Comprar
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-aa-49-en-15-suicide+club-70-361k.html
Atenção que existe há venda uma versão censurada.

Caso queiram vê-lo antes de o comprar podem ir buscá-lo aqui ao AsianSpace.

Review adicional, para tentarem compreender o filme depois de o verem.
Tenta uma corajosa interpretação possível da coisa.
http://www.bocadoinferno.com/romepeige/artigos/suicide.html

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0312843/

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Filmes semelhantes de que poderá gostar:

A Tale of Two Sisters Dark Water hanselgretel100x73 kairo73x100

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Honogurai mizu no soko kara (Dark Water) Hideo Nakata (2002) Japão


Embora o filme “Ringu”, conhecido em inglés como “The Ring” tenha definindo practicamente todos os clichés que encontramos actualmente nos filmes sobrenaturais orientais, nunca foi uma obra que me tenha fascinado particularmente e por isso Hideo Nakata nem sequer faz parte dos meus cineastas de culto, embora reconheça a sua importância dentro do género.
Como “Ringu” não me assustou por aí além, e a sua decepcionante sequela muito menos, levei algum tempo até ganhar coragem para comprar este [“Honogurai mizu no soko kara“], mais conhecido no ocidente pelo seu seu titulo em inglés [“Dark Water“], embora não estejamos a falar do remake americano, mas sim do original Japonês.

Achei [“Dark Water “],  muito superior a “Ringu”.
Gostei mesmo muito da atmosfera triste e melancólica e a ideia do filme ser essencialmente um drama pontuado por acontecimentos sobrenaturais está muito bem trabalhada pois cria no espectador uma angústia que se transforma aos poucos numa sensação de medo e impotência por não podermos ajudar as pessoas que vemos no ecrã.

Ao contrárido de filmes orientais como “Ju-on” em que as pessoas são meros acessórios para criar ambiente e pregar sustos, aqui em [“Dark Water“], acontece precisamente o contrário pois o sobrenatural é usado para dar vida aos personagens e justificar as situações dramáticas que lhes alteram o quotidiano e contribuiem para que o espectador se sinta cada vez mais ligado aos protagonistas á medida que o filme avança.
Isto faz no entnato com que [“Dark Water“], não seja um filme de terror oriental normal e certamente não irá agradar a quem espera muitos sustos fáceis ou constantes sequências inesperadas.

Na verdade, há muito pouco de inesperado neste filme asiático no que toca a grandes reviravoltas de argumento. De tal forma, que até o mistério da parte sobrenatural da história acaba por ser algo decepcionante pois o seu desfecho é tão previsível que a certa altura quase que torna a narrativa mais arrastada do que na realidade é.
Isto porque, quanto mais se aproxima do seu final, mais o espectador já calcula o que vai acontecer a seguir e no entanto o filme parece continuar como se o realizador ainda estivesse a pensar que ia surpreender alguém com alguma reviravolta inesperada. Não surpreende pois o filme nem sequer contém qualquer twist ao contrário do que é comum no cinema oriental.
Quem ficar surpreendido com a resolução do mistério, então certamente deve ter-se deixado dormir com o estilo calmo da narrativa e não apanhou todas as pistas.

[“Dark Water“], não é um filme de terror japonês comum pois é dos poucos filmes orientais dentro do género que consegue dar a volta aos próprios clichés que usa e tal como aconteceu em “A Tale of Two Sisters“, também este é mais assustador porque nos identificamos com as consequências  do sobrenatural na vida dos personagens do que própriamente porque nos prega sustos á volta de situações que nunca viveriamos.

Aqui o medo é uma consequência da angústia que sentimos porque tudo se passa ao redor de coisas perfeitamente banais e não sentimos que se trata de uma realidade fabricada num estúdio de cinema.
O apartamento em [“Dark Water“], poderia ser a casa de qualquer um de nós se tivessemos o azar de nos vermos na situação em que a personagem principal se encontra, os personagens são pessoas absolutamente normais e até o aspecto sobrenatural é perfeitamente baseado nesse conceito.

O filme conta a história de uma mãe em processo de divórcio e a risco de perder a custódia da sua pequena filha. Em virtude disso, é obrigada a mudar-se para um apartamento numa área degradada da cidade ao mesmo tempo que tenta refazer a sua vida e manter o seu precário novo emprego.
Um dia a menina encontra no terraço uma mochila vermelha de criança ganhando-lhe uma obsessiva afeição. A partir daí começa a sentir-se uma presença sobrenatural no condomínio que se manifesta de formas discretas mas perturbantes acabando não só por interferir na relação entre mãe e filha como ainda por cima coloca em risco a custódia da menina para desespero da mãe que não sabendo como lidar sózinha com o que lhe está a acontecer e sem posses económicas para mudar novamente de apartamento é arrastada para uma sucessão de acontecimentos que a levarão até ao desfecho final.
E tudo começa com uma estranha infiltração de água no tecto.

Essencialmente, estamos na presença de um filme oriental de terror psicológico.
Como tal [“Dark Water “], apesar de seguir uma lógica narrativa habitual este não se enquadrará propriamente dentro do cinema comercial se o virmos por um prisma a que estamos habituados.
Acima de tudo é uma obra de Hideo Nakata e isso nota-se, o que automáticamente quase que classifica o filme como Cinema-de-Autor naquele sentido mais negativo para algumas pessoas.
O filme decorre a um ritmo lento, e não tem pressa em mostrar o que o espectador espera ver por isso poderá ser até classificado por muita gente como “filme chato”, daqueles onde não há um pingo de acção, nem monstros, nem sangue a jorros e muito menos efeitos especiais daqueles que o povo tanto gosta.
Mas tem um clima assombrado, muito bem conseguido pela sombria fotografia e pela maneira como usa a arquitectura minimalista do prédio para nos assustar.

Aliás uma das melhores coisas em [“Dark Water“], é precisamente o facto de não precisar recorrer a efeitos especiais pirotécnicos ou cenas chocantes cheias de sangue para assustar. Não há maus, não há bons, não há tiros, não há facadas, não há loiras em t-shirts molhadas e também não tem perseguições de automóvel nem fantasmas em CGI.
E já lhes disse que o filme é lento ?
Tudo é construído com base numa transfiguração do quotidiano mais simples em algo que nos fará pensar duas vezes da próxima vez que estivermos em situações semelhantes. Pelo menos eu já não consigo olhar para uma poça de água sem me lembrar do que acontece neste filme e entrar sózinho em elevadores em prédios suspeitos também não me apetece muito. E banheiras cheias de água de repente também deixaram de ter muita piada.

Resumindo, se gostarem de cinema de terror com identidade e um estilo próprio, recomendo este filme asiático pois sabe como criar um ambiente e apesar da história muito previsível consegue ultrapassar essa limitação provocando-nos alguns bons arrepios. Especialmente se gostarem de filmes de terror com criancinhas de aspecto perturbante e uns fantasmas infantis á mistura.

Uma nota final para o último segmento do filme pois costuma ser alvo de muita discussão em reviews espalhadas pela net.
Muita gente parece ter achado desnecessário o epílogo, mas na minha opinião este é uma das melhores coisas de todo o filme.
Não só fecha a história de uma forma interessante, como o faz criando um dos melhores ambientes de medo que acontecem durante todo o filme.
Já lhes disse que [“Dark Water“], tem um ritmo narrativo lento embora perturbante, mas neste segmento final esse estilo dá origem a uma atmosfera ainda mais assustadora, pois toda esta parte é baseada no silêncio e na gestão desses momentos criando no espectador uma espectativa pesadamente macabra que nos faz estar á espera que algo aconteça a qualquer momento e no entanto parece nunca mais acontece fazendo-nos afundar na cadeira e parar de respirar por momentos.
Para mim fecha com chave de ouro um filme que não sendo uma obra prima do género é no entanto uma excelente proposta para quem gosta de se assustar com estas coisas.

Bom filminho oriental para ser visto pela noite dentro quando vocês estiverem sózinhos em casa e para vos fazer deixar de tomar banho durante os próximos meses também.

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CLASSIFICAÇÃO:
Um óptimo filme asiático de fantasmas e onde a simplicidade compensa e vale mais um ambiente perturbante do que mil efeitos especiais, monstros, zombies,gore ou CGIs.
Vale a pena ser visto e é uma excelente compra para quem gosta do género e é suficientemente corajoso para ver filmes destes feitos por orientais.
Embora contenha momentos assustadores esperava assustar-me mais do que na realidade aconteceu e como tal na retiro-lhe uma tigela de noodles á classificação.
Não lhe dou mais também porque para mim a previsibilidade da história decepcionou-me mesmo muito e quebrou bastante o tom realistico que o filme tinha até ao momento da óbvia revelação do mistério.
Quatro tigelas de noodles. Mas pode valer até mais. Depende muito da disposição de cada um para ver isto na altura. Arrisquem porque vale a pena se gostarem de bons filmes de casas assombradas e se gostarem muito de cinema de terror oriental.

A favor: o clima de medo, a tensão latente nos silêncios, mete criancinhas vivas e mortas brrrr, tem muito poucos efeitos especiais e tudo é construído com base na atmosfera, o tom assombrado é excelente, os últimos minutos metem medo.
Contra: o mistério do argumento é demasiado previsível e um clima de tensão tão bom pedia uma história mais imaginativa. O excelente clima de medo do épilogo chega tarde demais e deveria ter-se sentido mais vezes ao longo do filme.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=_mt0_a68SSc

Comprar
Existe uma edição portuguesa deste filme, practicamente identica á que eu comprei mas também está já á venda muito barata na Amazon Uk a menos de 5€. É aproveitar.

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0308379/

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Filmes semelhantes de que poderá gostar:

A Tale of Two Sisters

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