The Drumer – O Coração da Montanha (Zhan. gu) Kenneth Bi (2007) China-Hong Kong


Gosto quando me aparecem pela frente filmes orientais de que eu nunca tinha ouvido falar e em particular quando encontro esses filmes à venda em dvd selado por apenas 1€.
Ainda mais surpreendido fico quando encontro edições portuguesas com cinema oriental que não é apenas cinema de porrada. Alguém deve-se ter enganado ao editar isto por cá…

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Este [“The Drummer”], foi realmente uma surpresa a vários níveis. Primeiro por ter encontrado à venda em Portugal aqui mesmo ao lado de casa um filme oriental que não era de Kung-Fu (embora como se demonstra bem na história não deixe de ser sobre uma arte-marcial de pleno direito também); depois por não ser um filme de Kung-Fu quando inclusivamente o actor principal curiosamente é filho do Jackie Chan.

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Desconhecia por completo a existência deste filme apesar de já datar de 2007 e nem fazia ideia que o Jackie Chan tinha um filho, quanto mais um filho actor; por isso foi com enorme curiosidade que comprei este verdadeiro filme oriental perdido aqui pelo reino de Portugal e dos Algarves. E ainda bem que o fiz, pois [“The Drummer”] foi realmente um achado apesar das suas fragilidades.

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Na net alguém descreve esta história como uma espécie de cruzamento entre o “Karate Kid” e o “Scarface” e penso que acerta em cheio, pois foi exactamente o que eu também pensei.
Na verdade não se pode dizer que o filme seja particularmente original. Já vimos esta história mil e uma vezes, tanto na sua vertente gangster como na sua vertente mais Zen.
Mais uma vez levamos com a velha história do puto rebelde que ao encontrar uma comunidade com que se identifica, vai aos poucos se inserindo naquele mundo, treinando, evoluindo e aprendendo as inevitáveis lições de vida pelo caminho, que de vermos tantos filmes iguais também já todos nós as decoramos.

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Não há mesmo nada de original em [“The Drummer”].
A parte mafiosa então ainda é mais formulática do que a  vertente budista e não fosse tudo isto estar particularmente bem filmado, o filme poderia ser bastante esquecível no seu todo, pois a nível de argumento tudo é por demais mediano e sem particulares surpresas ou grandes pontos de interesse.
No entanto [“The Drummer”] é uma curiosa mistura de dois géneros que funcionam mesmo muito bem como um todo produzindo um filme coerente muito agradável de se ver ao longo dos seus 108 minutos de duração que se suportam facilmente.

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A parte gangster está narrada com bastante energia, intensidade e até consegue sugerir maior violência do que na realidade se calhar tem. Aqui nota alta, para o veterano Tony Leung Ka Fai (não confundir com o Tony Leung dos filmes e Wong Kar Wai), que tem aqui uma das melhores e mais carismáticas interpretações que me lembro de ter visto dele em vários anos. É excelente na pelo do gangster ultra-violento mas nem por isso menos falível e até humano que está no centro de toda a narrativa mafiosa da história.
Aliás se há uma coisa que [“The Drummer”] tem de excelente é todo o casting.  Inclusivamente Chan que dá perfeitamente conta do recado como protagonista.

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Jaycee Chan compõe um bom personagem central e apesar do estereotipo de todo o argumento consegue passar muito para além do típico personagem de cartão que se esperaria. Tenho que procurar trabalhos mais recentes deste tipo com toda a certeza.
Curiosa escolha também em termos de filme, pois pela minha parte esperaria que um filho de Jackie Chan andasse pelo mesmo género de cinema acrobático do pai; neste caso nota-se que o actor provavelmente tentou realmente evitar o estereotipo e em vez disso escolheu um filme como este que propõe uma carga filosófica em vez de distribuir cargas de porrada.
Não que o argumento seja grande maravilha, espiritualmente falando, mas é uma boa tentativa de criar mais uma história do género usando algo que normalmente não se encontra neste tipo de narrativas.

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Em vez de levarmos com mais outro filme de Karaté desta vez temos um filme sobre a milenar arte chinesa do tambor e diga-se de passagem que proporciona momentos empolgantes ao longo da história pois todas as sequências que envolvem o instrumento são interpretadas pela verdadeira banda U-Theater, que pelo visto será bastante popular, mesmo a nível mundial dentro deste género de performances musicais. Aliás quase todos os personagens secundários ligados a essa parte de inspiração budista na história são interpretados pelos verdadeiros membros do grupo e não por actores profissionais e tudo resulta perfeitamente.

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De resto não há grande coisa mais a dizer sobre este filme. Se o encontrarem em dvd a 1€ também é de compra obrigatória pois é um daqueles filmes que faz tudo bem, tem alguns momentos muito intensos e até bastante divertidos e vale mesmo a pena juntarem á vossa colecção de cinema oriental.
Penso que a sua única falha estará apenas na falta de originalidade total do argumento e nem a mistura de géneros, bem feita por sinal, resolve a coisa.
Curiosamente temos aqui um filme que não explora propriamente o inevitável romance entre o “casal” da história. Ao contrário do que eu estava à espera por acaso desta vez toda relação dos protagonístas é tratada de uma forma mais contida do que eu estava à espera de encontrar e nem sequer entra pelo triângulo amoroso do costume que poderia muito bem ter entrado.

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Na verdade ainda não me decidi se a falta de cliché romântico mais exacerbado neste caso será um ponto positivo ou negativo. Por tudo o resto ser tão inconsequente em termos de verdadeira emotividade, se calhar não ficaria nada mal a [“The Drummer”] também ter entrado pelo lado mais comercial da costumeira história de amor ao estilo cinema oriental. Isto porque apesar da coisa neste caso não se ter tornado um cliché, se calhar deveria ter seguido esse caminho também, já que o faz no resto do filme todo mas no que toca à história de amor parece que se conteve demais. Pelo menos eu fiquei com essa ideia. Talvez porque os personagens estão bem caracterizados e de certa forma toda a parte romântica ser tão contida acabou por desperdiçar o trabalho dos actores. Digo eu…na verdade ainda estou a pensar sobre isto. Também não interessa muito para o resultado final.

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Portanto relativamente a coisas menos boas, o único que realmente se pode apontar a [“The Drummer”] será não surpreender, nem ter própriamente grande suspanse em lado nenhum, o que em última análise acaba por descaracterizar um pouco a história e o esforço dos actores em comporem bons personagens que foram algo desperdiçados no meio de tanta mediania.
O filme balança algures entre a intensidade violenta de um “Scarface” e o mais surporífero de um “Karaté Kid”.
Em algumas partes também pisca o olho a cinema mais contemplativo na linha do “Primavera, Verão, Outono, Inverno” do conceituado cineasta-autor Kim Ki Duk embora sem o estilo gélido.
Nota-se isso até na forma como a natureza está filmada muitas das vezes. Apenas está lá. Visualmente nunca é muito trabalhada em termos de filtros e são essencialmente imagens “cruas” dos locais.

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E por falar nisso, apesar de [“The Drummer”] ser algo fechado em termos de ambiente, pois foca-se mais nas personagens do que própriamente nos ambientes, não deixa de se abrir em certos momentos e quando o filme mostra paisagens podemos contar com imagens bastante atmosféricas. Não serão propriamente épicas, mas este também não é um filme que necessite delas. É quase um bonús, mais para evidenciar a carga contemplativa e a própria filosofia budista do que própriamente porque a história necessitaria de imagens assim.

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CLASSIFICAÇÃO

[“The Drummer”]  é um filme muito simpático que se recomenda vivamente.
Já viram isto mil vezes, mas este tem a vantagem de ter um bom par de personagens carismáticas e cativantes.
Não é de todo a maravilha de filme que a publicidade presente nos festivais ocidentais apregoa nos cartazes mas também não tem nada de mau. Podia ser um daqueles que se vê e se esquece rápidamente mas graças a uma boa realização, uma história com alguma energia, boas interpretações e personagens carismáticos consegue ser um daqueles filminhos que ficará bem em qualquer colecção, que se recomenda vivamente para ser visto pelo menos uma vez e quem sabe até nem seja um daqueles que mais tarde ou mais cedo acabaremos por ter vontade de o rever.
Trés tigelas e meia de noodles. Só não leva mais por causa da falta total de originalidade que lhe retira muito do seu brilho e acaba até por embaciar o excelente trabalho que os actores fazem neste filme muito interessante mesmo.

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A favor: alterna bem entre dois estilos de cinema, tem um par de personagens carismáticos, o trabalho de todos os actores globalmente é excelente pois raramente esta história contém um personagem desinteressante, a parte gangster tem momentos bem violentos e intensos que contrastam totalmente com a parte Zen, o lado mais filosófico  não deixa de ter o seu carísma, a história consegue contornar alguns clichés e segue por pequenos rumos agradáveis de seguir, todas as sequência que envolvem tambores são fascinantes e apetece-nos ir bater num tambor a seguir a isto.
Mal ou bem, é mil vezes melhor que o remate gringo do Karaté Kid. Na verdade é bem melhor que qualquer Karaté Kid original até. E de certa forma até mais educativo.

Contra: já vimos isto mil vezes e quem já não pode mais com o cliché do “Karaté Kid” sobre o puto que vai treinar artes marciais com velhos mestres então é melhor evitar isto. Os dois estilos de filme também podem irritar tanto quem procura apenas um filme de gangsters como quem procura apenas algo mais contemplativo porque neste caso estão os dois em momentos alternados.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
https://www.youtube.com/watch?v=fV-66ZoKVjY&feature=kp

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Comprar
No ocidente não existe, no oriente está esgotado, em Portugal se ainda econtrarem o dvd provavelmente estará no cesto das promoções esquecidas de qualquer shopping ou casa dos penhores (onde eu descobri o meu, selado ainda).

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IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0831386

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Outro filme que cruza o género gangster com um segundo estilo:

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Failan (Failan) Hae-sung Song (2001) Coreia do Sul


[“Failan“] é um daqueles filmes que gera consenso no que toca á qualidade dentro do cinema sul coreano e percebe-se porquê; apesar de não deixar de ser estranho ter-se tornado tão conhecido quando foge bastante ao que costuma ser popular dentro do cinema comercial e ter mais a ver com um cinema mais intimista do que própriamente com aquilo que costuma vender dentro do género romântico.

Se [“Failan“] fosse um filme de Hollywood teria sido outro fracasso tão grande como “A Mexicana“, que falhou redondamente nas bilheteiras porque o público americano estava á espera de ver  Brad Pitt e  Julia Roberts a namorar no ecran e estes passam o filme todo separados com cenas independentes sem se tocar.
Tal como acontece agora neste filme oriental mas com uma estrutura bem menos ligeira e muito mais real.
Antes de ser uma história de amor, [“Failan“] é essencialmente um drama e muito provávelmente será o melhor filme dramático que surgiu até hoje na cinematografia da Coreia do Sul, tanto pela originalidade desta história de amor como pela intensidade dramática que consegue atingir sem precisar de ser própriamente um tearjerker de fazer chorar as pedras da calçada naquele sentido mais comercial.

Todo o drama nesta história é absolutamente notável e extremamente contido fazendo-nos importar realmente com os personagens de uma forma que ainda não tinha encontrado neste género de filmes.
Não estranhem…se estranharem não sentir grande vontade de chorar com [“Failan“] ao longo de quase toda a sua duração, pois este é um filme que nos manipula mas de uma forma particularmente subliminar.
Ficamos tristes quando acompanhamos as vidas vazias daquelas pessoas e contentes quando conseguem pequenas vitórias mas tudo é tão interessante e focado nos pequenos detalhes que nunca sentimos que o realizador nos está a mostrar algo para nos fazer chorar de propósito.
As situações são apresentadas de uma forma extremamente natural, especialmente nas sequências com o personagem da Cecilia Cheung o que torna [“Failan“] quase na antítese perfeita de “Fly Me to Polaris” também com a mesma actriz mas onse se assumiu totalmente o estilo melodramático para nos dar cabo do stock de lencos de papel a todo o instante.  O que não acontece agora nesta produção Sul Coreana que já conta com dez anos.

[“Failan“] segue o caminho oposto, é extremamente contido durante a sua duração e tudo para culminar num final absolutamente devastador com um impacto emocional a que certamente não irão ficar indiferentes pois esta história tem um final absolutamente perfeito, totalmente coerente com a história e com um par de minutos que vocês não irão esquecer antes de rolarem os créditos.
Este é mais outro daqueles filmes que recomendo totalmente que o vejam sem saber nada sobre ele.
Se nunca leram grandes detalhes sobre a sua história, ou temática, não leiam mais nada a não ser este meu texto e vejam o filme a seguir.
Garanto-vos que irão surpreender-se bastante com toda a sua estrutura particularmente original.

[“Failan“] é uma das melhores e mais originais histórias de amor saídas do cinema oriental nos últimos anos, embora seja essencialmente um drama humano onde o amor é apenas  o motor de todo o seu coração emocional, mas poderia ter sido outro tema qualquer, por isso não esperem um daqueles filmes românticos fofinhos habituais.
[“Failan“] é um filme frio, desencantado e muito triste mas de uma forma bastante natural.
Não é um daqueles filmes tristes que são tristes porque é preciso atirar desgraça atrás de desgraça para fazer o espectador chorar baba e ranho a todo o instante.
É um filme triste, porque a vida das pessoas que acompanhamos é realmente penosa, o que nos faz desejar a todo o momento poder entrar pela história a dentro e ajudar aquelas pessoas.

E parecem pessoas mesmo. Esquecemo-nos por completo dos actores por detrás dos personagens e esta é uma das grandes forças deste filme, pois tanto Min-sik Choi (o inesquécivel actor de “Old Boy”) como Cecilia Cheung (“Fly Me to Polaris” e “The Promise“), têm aqui talvez a melhor prestação das suas carreiras e se calhar isso não se nota a uma primeira visão pois vocês vão estar a importar-se tanto com o triste destino das pessoas que dão corpo e alma a esta história  que nem se lembrarão que estão a ver um filme até rolarem os créditos finais.

Pessoalmente nunca tinha prestado grande atenção ao trabalho de Cecilia Cheung mas depois deste filme, entra directamente para a minha pequena lista de actrizes a tomar muita atenção e como [“Failan“] já é uma produção de 2001 se calhar tenho que me actualizar um bocadinho em relação a esta rapariga. Quando vejo isto é que ainda me surpreende mais como foi mal tão utilizada em “The Promise” onde serviu apenas para mostrar uma cara bonita no ecran e pouco mais.
O dvd [“Failan“] contém um excelente pequeno making-of com boas imagens de bastidores e entre elas tem uma cena extraordinária com a Cecilia Cheung que realmente me surpreendeu depois que vi o filme.
Em [“Failan“] existe uma pequena cena absolutamente angustiante pela tristeza que provoca com um simples momento em que uma lágrima cai espontaneamente pela face da personagem num momento de grande tensão e crueldade humana.

O making of desse pequeno instante é absolutamente fascinante, porque num momento assistimos a um ambiente de total descontração nos bastidores com a actriz a rir e a brincar com a equipa e no segundo em que o realizador diz – “Acção” – a transfiguração é total e Cecilia chora espontaneamente no momento exacto, não apena num mas em vários takes numa prestação de extraordinária naturalidade dramática. Algo que me deixa sempre surpreendido em várias actrizes orientais pois fico sempre espantado com a capacidade delas conseguirem chorar e representar cenas absolutamente trágicas com uma naturalidade espantosa especialmente quando precisam de chorar, mas nunca tinha visto este processo em acção num momento de bastidores.
Vejam o filme e depois se tiverem o dvd duplo, espreitem o making of pois o contraste entre o divertimento nos bastidores e o tom triste e melancólico do filme é notável.
A propósito, o dvd Sul Coreano que comprei só trás legendas em inglés no filme e nada mais. Embora no making of nem seja necessário é mesmo pena o comentário audio não estar legendado pois certamente seria fascinante.

[“Failan“] é outro daqueles dvds que comprei anos atrás quando comecei a explorar o cinema oriental mas quando o vi pela primeira vez foi mais um dos filmes que na altura não me impressionou particularmente porque me apanhou totalmente de surpresa com uma estrutura completamente diferente daquilo que eu estava habituado na altura. O facto de não estar também muito virado para ambientes tão tristes como o que percorre este filme também ajudou á minha fraca impressão disto na altura, certamente.
No entanto, ficou-me na memória e sempre achei que deveria dar-lhe uma segunda hipótese mais tarde quando o pudesse ver já com um segundo olhar sabendo de antemão com o que contar.
Por isso ainda não tinha falado deste filme aqui no blog pois sempre achei que seria um daqueles que ganharia muito a uma nova visão e não me enganei.

[“Failan“] conta a história de duas pessoas que nunca se chegam a encontrar mas que foram casadas.
Num ambiente urbano de grande violência e tensão conhecemos Kang-jae, um gangster de meia tigela que não é própriamente muito bom no que faz porque ao contrário dos restantes capangas, Kang-jae é um bandido de bom coração que essencialmente só se meteu no mundo do crime para acompanhar o seu amigo de infância que chegou a lider da máfia local graças á sua crueldade. O mesmo amigo que agora o trata abaixo de cão e o ridiculariza a torto e direito.
Kang-jae ama o mar e o seu grande sonho é regressar á sua cidade, comprar um barco e viver feliz até ao fim dos seus dias, mas não tem dinheiro para o barco e além disso tem medo de enfrentar o seu chefe e antigo amigo pois ninguém sai vivo daquele gang.

Longe dali, no outro lado do país,  uma jovem rapariga chamada Failan, chega á Coreia do Sul, acabada de emigrar da China. Perdeu a sua mãe e não tem ninguém no mundo a não ser uma morada de uma velha tia que supostamente deveria habitar numa pequena cidade piscatória mas que na verdade emigrou há muito para os Estados Unidos sem avisar ninguém e como tal a jovem volta a encontrar-se sózinha, desta vez num país estranho e sem sequer falar a lingua.
Ao tentar encontrar emprego numa agência de trabalho temporário algo manhosa, fica a saber que a única maneira de conseguir permanecer no país sem família, será se casar com um Sul Coreano e como tal acaba por aceitar contraír matrimónio com alguém que não conhece apenas a um nível burocrático pois nem sequer precisa de conhecer o futuro marido ou de ter qualquer relação com ele.
Este apenas receberá em troca, uma quantia em dinheiro e o casamento fica oficializado, pois essencialmente a agência com ligações a actividades ilegais, recruta trabalhadores para as mais diversas tarefas duvidosas e tem meios de fazer entrar no país quem pretende utilizar para algo, nomeadamente encontrar miúdas para bares de alterne e fins semelhantes.

É assim que o gangster sem vocação Kang-jae se vê casado e com algum dinheiro que lhe servirá para contribuir para o seu sonho de ter um barco e livrar-se do mundo do crime.
Mas as coisas complicam-se e como não quero revelar muito mais, depois de algumas complicações no meio da máfia originadas pela extrema violência do líder do gang eis que Kang-jae se vê perante um dilema e uma encruzilhada decisiva na sua vida e no seu sonho de liberdade.
Isto ao mesmo tempo que recebe notícias de alguém que já nem se lembrava que existia.
Failan a sua jovem esposa escreveu-lhe uma carta.

Essencialmente é esta a base da história de [“Failan“] e se vocês pensam que já contei demais não se preocupem. Isto é apenas o princípio e há muito para verem á medida que vão acompanhando as vidas destas duas pessoas que acabam por se entrelaçar numa das mais originais histórias de amor que poderão encontrar no cinema Sul Coreano e até hoje ainda não teve igual.

[“Failan“] tem uma estrutura fascinante e algo única. Por momentos não conseguimos perceber que raio de filme estamos a ver, pois essencialmente durante os primeiros 40 minutos assistimos apenas a um típico filme de máfias, yakuzas e afins que alterna entre momentos de violência extrema e sequências estilo Irmãos Metralha.
Não passa muito tempo sem que o espectador se pergunte como raio é que este argumento conseguirá integrar algures pelo meio uma história de amor. Mas consegue. E de que maneira !
Se forem como eu e não tiverem grande paciência para filmes de máfias, aguentem o início da história e prestem atenção aos detalhes. No meu caso, se calhar uma das razões porque não gostei muito do filme quando o vi pela primeira vez há muitos anos, foi precisamente porque metade deste parece apenas um típico filme de gangsters e isso talvez me tenha distanciado da história porque não estava á espera daquilo quando procurava apenas uma história de amor mais comercial na altura.

O que me leva a outro ponto. [“Failan“] é um filme comercial, mas se calhar não será propriamente comercial no sentido mais pipoca, por isso tenho a certeza de que agradará mais a quem também gosta de algum cinema de autor do que a quem apenas está habituado a coisas mais no estilo Hollywood. Por isso não esperem a típica produção fofinha oriental costumeira no género romântico.
[“Failan“] é um drama adulto, num tom intimista e muito melancólico. Contém um par de cenas com muito humor mas perfeitamente naturais e provavelmente vocês nem as notarão no meio de tanta temática séria e introspectiva.

Essencialmente [“Failan“] é um filme corajoso que se arriscou a quebrar o molde do cinema romântico oriental.
Apanhou os pedaços, voltou a colá-los noutras posições e inventou uma nova fórmula que na minha opinião só não voltou a ser copiada até á exaustão (como aconteceu com a fórmula de “My Sassy Girl” por exemplo), por causa da sua estrutura intimista e menos comercial decerto.
Uma grande história de amor onde os protagonistas nunca estão juntos que resulta de uma forma extraordinária por nos parecer tudo tão real.
No entanto é um filme absolutamente romântico no seu aspecto mais humano e natural, com duas pessoas que se amaram á distância em tempos diferentes e quase em vidas diferentes também que deixará o espectador sem fôlego nos momentos finais do desenlace desta história. É um daqueles filmes que acabam e nós não conseguimos deixar de acompanhar os créditos até ao fim (memo em Coreano) só porque precisamos mesmo de pensar em tudo o que vimos e absorver toda a sua alma e poesia.

Paralelamente é também um filme sobre solidão com um sentido poético que os irá deixar com um nó na garganta.

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CLASSIFICAÇÃO:

Mais um drama com uma história de amor do que uma história de amor com drama, mas um filme que não esquecerão tão cedo, acima de tudo pelas suas personagens completamente cativantes, naturais e porque é um romance com muita alma, poesia, bastante melancolia e muita humanidade.
Será possivelmente o melhor filme dramático dentro deste estilo que a Coreia do Sul produziu até hoje e merece ser visto por toda a gente que procura uma história de amor original e já viu tudo o que há para ver que tenho recomendado do género romântico neste blog.
Se não o absorverem muito bem a uma primeira visão, deixem passar um par de meses e voltem a ele. Primeiro estranha-se mas depois entranha-se e bem.
Preparem os lenços, mas no bom sentido porque esta história merece-os.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award, claro.

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A favor: a originalidade da estrutura da história, a intensidade do romance entre duas pessoas que nunca se encontram apesar dos seus destinos se terem cruzado um dia, os personagens (todos), as interpretações extraordinárias de Min-shik Choi e Cecilia Cheung, a banda sonora totalmente discreta e subliminar que nem se nota mas que dita a atmosfera em muitos dos melhores momentos, a contenção da realização totalmente eficaz e que se “apaga” para deixar os actores e a história brilharem bem alto, como drama é fantástico, a forma como mistura o género de filme de gangsters ultra violento com o género romântico na sua forma mais humana e natural, cada vez que o revemos encontramos novos pormenores que não tinhamos notado, excelente fotografia também.
Contra: pode ser demasiado intimista para quem procura uma história de amor num estilo mais comercial, não conseguimos entrar pelo ecran a dentro e ajudar aquelas pessoas, o trailer é bem mauzinho não tem alma nem transmite bem o que o filme realmente é.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=I-uN9Gu1yVQ

Comprar
É um fime cada vez mais dificil de encontrar á venda. A edição antiga de dois discos que eu tenho está totalmente esgotada e só existem umas edições de um disco sobre as quais não tenho qualquer informação.

Download aqui com legendas em inglés

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0289181

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Outros títulos semelhantes de que poderá gostar:

concerto_capinha_73x 

Be With You Il Mare The Classic Love Phobia

 Fly me to Polaris My Sassy Girl

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Dai si gin (Breaking News) Johnnie To (2004) China


Não costumo ver muito cinema de acção de Hong-Kong mas tinha ouvido falar muito bem disto e curiosamente na mesma semana o dvd de [“Breaking News“] veio grátis com um jornal qualquer aqui em Portugal;  como tal não podia ter vindo na melhor altura.
Ainda levei algum tempo com o dvd na prateleira até me decidir finalmente a vê-lo mas posso dizer que me surpreendeu; [“Breaking News“] é realmente não só um excelente filme de acção como a própria abordagem do tema central da história está bastante interessante.

Se mais outra coisa não houvesse, só pelo início vale mesmo a pena.
Os primeiros 8 minutos iniciais, com uma cena de acção totalmente filmada num único take continuo são extraordinários pela forma incrivel como conseguiram coordenar todos os actores, tiros, explosões e diálogos num único movimento de câmara.
É que o filme começa e nunca há uma mudança de enquadramento, não há cortes na montagem e não há nenhuma interrupção. Durante quase oito minutos é como se fossemos nós atrás da câmara seguindo tudo o que está a acontecer e isto não só a nível do chão, como dentro de casa, sobrevoando a rua onde há o tiroteio, passando pelos personagens em diálogo, etc.
Um pouco como apareceu também mais tarde em “Children of Men” de Alfonso Cuaron, mas aqui em [“Breaking News“] esse take continuo não passa apenas por uma cena de acção pura e simples mas percorre vários registos de narrativas diferentes.

Acreditem-me, os minutos iniciais de [“Breaking News“] são absolutamente brilhantes. E o mais engraçado é que aposto que se eu não estivesse agora aqui a destacar este pormenor, vocês seriam bem capazes de começar a ver isto e nem reparavam que o principio do filme tinha sido gravada num único take continuo.
Tudo é tão bem coreografado e as cenas de tiroteio são tão intensas que entramos imediatamente pela história a dentro sem reparar em mais nada ou conseguir respirar, o que não poderia ter sido melhor.
Ou pior.

Pior, porque a partir de um começo destes, o que poderia [“Breaking News“] continuar a fazer para nos surpreender e manter o mesmo nível de interesse ? Não muito.
E na verdade é isso que acontece. Depois dos minutos iniciais, o filme parece que muda de registo e é sempre a descer nunca mais se igualando a inventividade e eficácia desta cena inicial que se calhar deveria ter sido antes o climax do filme. Este vai perdendo alguma força ao longo da sua duração, precisamente porque o início é tão bom que a partir dali parece que não há muito mais que pudesse ser feito para manter o mesmo fascínio.

Mas não pensem que [“Breaking News“] se torna um filme chato, ou até redundante e mediano.
Tudo está muito bem pensado nesta história e o interesse mantém-se até ao final, não sem antes ainda nos mostrar algumas  cenas de acção entusiasmantes com algum humor bem colocado aqui e ali;  particularmente quando se mostra a relação entre os gangsters e as criancinhas que depois ficam reféns com o pai num apartamento.

Depois daquele inicio fantástico, a acção [“Breaking News“] muda-se para dentro de um complexo de apartamentos totalmente labirintico e claustrofóbico no meio da selva urbana de Hong-Kong moderno, onde o realizador consegue arrancar algumas sequências bem imaginadas e com bastante suspanse, até porque o conceito de andar aos tiros no interior de um prédio por corredores estreitos e apartamentos minusculos é uma ideia muito engraçada e que funciona realmente bem em termos de thriller.

Por qualquer motivo fez-me lembrar o ambiente de “Aliens” se este tivesse sido passado nos corredores estreitos da Nostromo do primeiro filme “Alien”, mas com gangsters e policias em vez de extraterrestres. Faz sentido ?
Quando virem o filme vão perceber o que quero dizer.
[“Breaking News“] mete gente aos tiros por todo o lado, mas no entanto tem um ritmo narrativo algo diferente do que é costume encontrarmos no género,  o que torna esta proposta dentro do cinema de acção algo que foge do habitual estilo a duzentos há hora comum no cinema de hong-kong em modo histérico.
Tudo está filmado de uma forma bastante tradicional e não há aqui propriamente aquele tipo de montagem estilo Anime que se costuma ver nos produtos de acção chineses, por isso tenho a certeza que muita gente irá ter a mesma sensação de estranheza que eu tive ao ver isto. O seu ritmo narrativo calmo contrasta bastante com as intensas cenas de porrada que pontuam um argumento que na verdade não trata apenas  a típica história de acção mas quer ir bem mais longe do que isso.

[“Breaking News“] essencialmente usa a acção para pontuar segmentos em que satiriza o papel da comunicação social e é este o principal propósito da história.
Uma história em que se mostra como a politica de bastidores consegue conduzir a opinião pública para um lado ou para outro ao sabor daquilo que os politicos pretendem usando a sede por notícias e exibicionismo da comunicação social e nesse aspecto [“Breaking News“] resulta bastante bem com algumas alfinetadas bem certeiras no sistema.
Embora nalguns momentos pareça tudo saído de uma banda desenhada por excesso de caracterização da situação, talvez porque tenta evidenciar demais esse lado manipulador como se o espectador ainda não tivesse percebido o que se passa e fosse preciso explicar outra vez do início.

Isto torna as partes de manipulação dos media algo redundantes até porque se repetem um bocado na sua estrutura, embora em termos de história esteja bastante interessante.  Particularmente onde se mostra que um bom profissional de marketing e um relações públicas com talento podem manipular perfeitamente os Media e por consequência, moldar a própria opinião pública em relação a qualquer acontecimento que á partida poderá parecer ser preto no branco mas que na realidade contém um lado muito mais cinzento que nunca é evidenciado pois não convém colocar os eleitores a pensar muito.
De resto, [“Breaking News“] é um filme sobre polícias e ladrões e sobre perseguições de gato-e-rato onde a certa altura o espectador já nem sabe se torce pelos gangsters ou pela polícia, o que é bom, pois filmes com anti-herois são sempre uma mais valia.

No entanto há algo estranho em [“Breaking News“], pois na verdade um filme que parece funcionar tão bem a vários níveis tinha obrigação de ser bem mais divertido e não é.
É um bom thriller de acção mas falta-lhe ali alguma construção de personagens que criasse alguma empatia entre os espectadores e o que se passa no filme.
Por breves momentos a meio da história parece que os personagens vão ganhar vida e ficar realmente interessantes na breve sequência entre os bandidos e as crianças enquanto cozinham um jantar, mas logo tudo regressa á monotonia.

Além disso, á força de criarem um filme com anti-herois, parece que os autores de [“Breaking News“] não perceberam que para fazerem isso não precisavam só de inventar personagens antipáticos. Tanto os policias como os bandidos, ou não passam de bonecos para andar aos tiros, ou então não causam qualquer empatia no espectador porque são descaracterizadamente antipáticos o tempo todo perdendo muito da humanidade e naturalidade que poderiam ter tido.
O que é um verdadeiro contraste com a própria temática do filme, pois quando [“Breaking News“] afirma que nem tudo é preto ou branco naquilo que sai da comunicação social, ao mesmo tempo fazem-no apenas com personagens unidimensionais que quase que estragam o filme por serem tão pouco interessantes.

A miuda do filme é má como as cobras porque é ambiciosa e uma verdadeira bitch manipuladora, o policia é grunho e antipático, o anti-heroi gangster é quase um clone do policia até no aspecto e ás vezes nem sabemos já quem estamos a ver aos tiros, os bandidos são todos grunhos ou não têm personalidade, os polícias são apenas gajos com coletes que andam aos tiros, os politicos são todos burocratas sem escrupulos e os jornalistas uns tótós de primeira que acreditam em tudo.
Salvam-se os reféns civis que são caracterizados de uma forma bastante divertida mas que de repente também desaparecem do filme sem grandes rascos de originalidade, como se os argumentistas tivessem decidido que estes já não servem para nada e por isso passemos á frente.
[“Breaking News“] tem tudo no lugar certo, mas é estranhamente pouco divertido, o que num filme com um começo tão bom, acaba por ficar a saber a pouco quando se chega ao final.

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CLASSIFICAÇÃO:

Não deixa de ser um excelente thriller que mete gangsters aos tiros com policias e muita critica social pelo meio; filmado de uma forma contida mas sempre interessante que vão gostar de seguir até ao fim pois vale mesmo a pena espreitar. Especialmente se gostam de filmes de acção.
Sendo assim, quatro tigelas e meia de noodles, porque é realmente muito bom apesar das coisas menos boas retirarem-lhe muitos dos pontos que merecia ter tido pois isto poderia ter sido uma obra-prima do cinema de acção chinês e fica a meio caminho.

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A favor: a sequência inicial de quase 8 minutos de pura acção filmada num único take continuo é fabulosa pelo pormenor de toda a cena e atenção ao detalhe com uma coreografia de mestre que deve ter dado muito trabalho a coordenar, o conceito de filme de acção dentro de um bloco de apartamentos é uma ideia que resulta bem e dá alguma frescura ao género do thriller policial, a parte de critica politica e social a propósito da manipulação dos media é sempre bem-vinda.
Contra: depois da cena de acção fabulosa do inicio do filme vai perdendo fôlego e nunca mais chega ao mesmo nível de intensidade e inventividade, pelo meio arrasta-se um bocado pois há demasiado enfase em explicar e voltar a explicar como as autoridades manipulam os media em sequências que acabam por se repetir um pouco no tom em que estão filmadas, os personagens não criam qualquer empatia com o público porque ou são bonecos de cartão ou são todas antipáticas porque precisam de ser apresentados como anti-herois á força toda, esforça-se demasiado por mostrar o lado critico do sistema e pelo meio o filme arrasta-se um bocado pois nem é tão politicamente interessante assim nem as cenas de acção são particularmente cativantes, para um filme que começa tão bem acaba de uma forma banal e sem grande fôlego, deveria ter sido muito mais divertido do que na realidade é.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=9qXMhCjtEgg

Comprar
http://www.amazon.co.uk/Breaking-News-DVD-Kelly-Chen/dp/B000GL17HI/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1306788275&sr=8-1

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IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0414931

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