Quing Ren Jie (A Time to Love) Jianqi Huo (2005) China


Se há coisa que eu já não posso ver mais pela frente são versões do Romeu & Julieta de Shakespeare, onde a conhecida história é por demais repetida até á exaustão em todos os detalhes e mais alguns.
Não consigo perceber para quê tantos autores continuarem a insistir naquela narrativa a esta altura quando já milhares de vezes foi  transformada em tudo e mais alguma coisa, desde filmes do Franco Zefirelli até pornos da Ginger Lynn.

Como tal, quando eu comprei há muitos anos atrás o dvd de [“A Time to Love“] sem saber nada sobre o filme e depois descobri que se tratava da bilionéssima história inspirada por “Romeu & Julieta”, a minha vontade foi a de devolver isto á Play Asia ou trocá-lo por um filme romântico qualquer com o Steven Seagal aos tiros.
Toma lá para não comprares filmes pelo aspecto gráfico da (excelente) capa !
Por isso quando vi esta história pela primeira vez (já que tinha que ser) nem sequer lhe prestei grande atenção.
Ainda por cima eu estava á procura de algo mais no estilo sul-coreano e [“A Time to Love“] tinha uma atmosfera marcadamente chinesa, algo a que eu não estava ainda habituado, pois são estilos muito diferentes dentro do cinema romântico.

Apesar de não me ter causado uma impressão por aí além na altura, surpreendentemente ficou-me na memória e esteve na minha lista de filmes a rever com outros olhos por muito tempo, até ontem.
Ficou-me na memória, não só pela abordagem á história clássica ter-me surpreendido como principalmente algumas das suas bonitas imagens acabaram ficando gravadas na minha imaginação até hoje, pois já na altura o visual do filme me surpreendeu.
Toda a paleta cromática de [“A Time to Love“]  é composta por tons ferrugem contrastando com verde das árvores e tons de sombra intensa o que lhe dá logo desde o início uma estética que nos agarra todos os sentidos pelo seu estilo quase steampunk pois mal o filme começa somos logo transportados para um úniverso único e bastante poético.

E surpresa das surpresas, agora que revi o filme ainda estou para saber o que raio é que foi que não me cativou na altura em que o vi pela primeira vez !
[“A Time to Love“] é um filme absolutamente lindíssimo em muitos aspectos mas se calhar é capaz de não se notar mesmo a uma primeira visão. Especialmente se entrarem com preconceitos anti-Romeu & Julieta como eu entrei nisto anos atrás quando vi o dvd.

Portanto, para começar eu já não me lembrava nada do filme e agora foi como se o tivesse visto pela primeira vez e não podia ter ficado, não só mais surpreendido como também mais satisfeito com o que (re)vi ontem.
Se calhar [“A Time to Love“] poderá ter uma altura certa para ser visto e muito provavelmente funcionará muito melhor com o público adulto do que com pessoas mais novas talvez, com menos experiência de vida ou algo assim. Isto porque pode ser uma história de amor com adolescentes, mas tudo é narrado num tom dramático mais adulto e até teatral, pois este filme tem uma assinatura tão característica que julgo se poderá incluir algures entre o cinema comercial e o dito cinema de autor pela sua abordagem algo intímista.

[“A Time to Love“] como filme é realmente um espectáculo (nem acredito que estou a dizer isto); primeiro, porque consegue pegar não só no tema mas também em alguma da estrutura de Romeu & Julieta e no entanto, milagre dos milagres apresenta-o com uma abordagem realmente refrescante. Conseguindo inclusivamente uma coisa que eu julgava impossível de ser feita…nomeadamente [“A Time to Love“] tem um suspanse romântico de cortar á faca pois até quase literalmente ao último segundo o espectador fica completamente na espectativa de como irá terminar desta vez esta história de amor com o seu final por demais conhecido.
Conseguirão desta vez os dois amantes ficar juntos ?
Apenas lhes posso dizer que o final de [“A Time to Love“] é extraordináriamente simples mas muito poderoso em termos de emoção e não lhes digo mais nada, pois o trabalho da actriz protagonista no último enquadramento visual desta história vai deixar-vos totalmente cativados e emocionados de uma forma que ainda não tinha visto num filme oriental.
Adorei o final deste filme.

E já que falo na actriz principal, nunca pensei que esta rapariga fosse tão incrivel. Estava habituado a vê-la em produções bem mais comerciais essencialmente em papeis de muita acção (“Warriors of Heaven & Earth”  –  “So Close“) e nem sequer pensava que ela seria capaz de carregar ás costas metade de um filme como [“A Time to Love“], onde bem mais que apenas uma história de amor ao estilo habitual oriental, é acima de tudo um drama bem mais complexo que se centra apenas numa história de amor impossível, (quase uma tragédia na verdade, sempre a piscar o olho a Shakespeare).

Tanto ela, como o seu co-protagonista masculino brilham neste drama.
Irão encontrar em [“A Time to Love“] um dos pares românticos com mais carísma que apareceu até hoje dentro deste estilo de histórias de amor orientais. A química entre os dois actores é total e enquanto espectadores a partir de certa altura esquecemo-nos por completo que estamos a ver um filme pois deixamo-nos levar por aqueles dois personagens até ao desenlace final desta história. Uma história que surpreendentemente de forma tão cativante consegue dar-nos um Romeu & Julieta com suspanse suficiente para nos fazer roer as almofadas até ao último segundo (sem parecer que está a fazer qualquer coisa de importante sequer), o que já é por si só uma boa característica para algo que seria á partida totalmente previsível.
Usa inclusivamente o próprio livro com a peça de Romeu & Julieta original para nos garantir que [“A Time to Love“]  é Romeu & Julieta por mais do que uma vez. O que é bom para confundir o espectador.

Não pensem no entanto, que [“A Time to Love“] é um filme romântico oriental ao estilo que estão habituados, se virem por exemplo produtos sul-coreanos ou japoneses.
Uma das características da maior parte dos dramas românticos chineses está no facto deste país preocupar-se mais com uma história de amor enquanto objecto dramático dentro daquele aspecto teatral mais sério e menos com a ligeireza do estilo narrativo. Por isso, [“A Time to Love“] é um filme sem pressas. Embora tenha um ritmo narrativo sempre constante, muitas vezes conta a sua história não por palavras mas por ambientes, imagens atmosferas e silêncios. Um pouco talvez como “Il Mare” o fez e com um tom melancólico semelhante, embora um pouco mais triste neste caso devido á carga trágica da própria base da história.

E por falar em silêncios, [“A Time to Love“] tem dois momentos absolutamente fantásticos na minha opinião que jogam precisamente com o silêncio para criar uma intensidade de emoções espectacular e que nos faz entrar em total empatia com o casal de apaixonados desta história.
É certo que o filme vai aos poucos trabalhando a carga emotiva sem o espectador notar, tanto na criação de ambientes como também pelo que não mostra e como tal quando surge um dos momentos mais bonitos a meio do filme, nem sequer precisa colocar os actores com qualquer diálogo para a cena romântica resultar com uma força incrível.

Falo particularmente de uma breve e pequenina cena a meio do filme, em que o rapaz e a rapariga estão de ambos os lados de uma vedação de arame e onde sem palavras o realizador consegue transmitir uma carga romântica não só totalmente natural como acima de tudo cria um momento emocional fantástico apenas recorrendo ao toque das mãos, a silêncios e a olhares breves para nos transmitir tudo o que os personagens sentem.

A segunda cena semelhante tem a ver com os segundos finais da história, mas de que não posso aqui falar porque lhes estragaria o suspanse todo e vocês ficariam a saber se [“A Time to Love“] acaba como a peça que lhe deu inspiração ou não. Apenas lhes garanto que se chegarem até aos momentos finais desta história totalmente cativados pelo destino dos personagens até se vão passar com o trabalho da actriz nos momentos finais onde apenas com um olhar concluiu tudo o que havia para concluir e proporciona ao espectador um momento final daqueles que os fará não esquecer este filme tão cedo se gostarem tanto dele quanto eu gostei desta segunda vez que o vi.
Não esperem é explicações de bandeja ao estilo, – “o que aconteceu foi…” – porque isto não é um filme desses.

[“A Time to Love“] é uma daquelas raras histórias de amor em cinema que resultam plenamente do trabalho não só dos actores principais mas também das interpretações de um elenco poderoso em termos dramáticos. Não sei se este pessoal será tudo actores de teatro mas todos os personagens nesta história são fascinantes e irão tocar-lhes emocionalmente em muitos aspectos surpreendentes.
Juntem a isto uma realização fantástica e têm todos os ingredientes para gostarem também muito deste filme se procuram por outra boa história de amor e já espreitaram tudo o que tenho recomendado neste blog.

Em termos visuais, [“A Time to Love“] é um dos filmes mais poéticos que me passaram pela frente em muito tempo dentro deste género estético.
Para começar a fotografia é incrível e vão encontrar aqui imagens absolutamente notáveis pois este é mais um daqueles filmes em que vão querer fazer pausa a todo o instante só para apreciar as pinturas de luz e sombra que ele contém practicamente em todo e qualquer frame.
Não só os ambientes são depois também fascinantes como está carregado de texturas e pormenores por todo o lado, tornando-o num filme totalmente obrigatório também para quem gosta muito de rever um filme muitas vezes só para curtir os pormenores. Pode ser uma sombra, pode ser uma textura, uma luz, uma cor, ou uma paisagem, mas garanto-vos que mesmo que nem gostem muito do género, visualmente vão achar este filme uma pequena joia perdida que importa descobrir em termos visuais quanto antes.

Não faço ideia se a arquitectura presente em [“A Time to Love“] existe mesmo ou se isto serão cenários criados para o filme. De qualquer forma, esta obra conta com espaços arquitectónicos fascinantemente poéticos que vão adorar contemplar ao longo da história. Desde, fábricas abandonadas, a prédios em decadência, passando por ruas e becos fabris, tudo aquilo que poderia parecer um ambiente deprimente é transformado num mundo quase mágico, parecendo por momentos saído de um verdadeiro conto de fadas ou de um filme de Fantasia.
[“A Time to Love“] quanto mais não seja, é um filme para contemplar, por muitos e bons motivos. Vão por mim, é fantástico visualmente.

Recomendo este filme a toda a gente que já espreitou tudo o que tenho apresentado no blog dentro do estilo romântico, ou então como contraponto a histórias de amor mais comerciais.
Não é que [“A Time to Love“] não seja comercial, mas o seu estilo muito chinês, intensamente dramático e bastante introspectivo em alguns momentos poderá talvez tornar-se algo chato ou arrastado para o pessoal que não gosta de coisas mais pausadas.

[“A Time to Love“] é um filme que demora o seu tempo e muitas vezes conta a sua história mais por olhares e silêncios do que por palavras e isto poderá afastar algum público.
O facto de ser uma história muito triste mesmo apesar de todo o ambiente poético, poderá afastar quem procurar um daqueles filmes totalmente –feel good– pois este usa a própria tristeza e melancolia para criar grandes incertezas no espectador sobre o desenlace da história. Nesse aspecto não poderia resultar melhor, mas ao mesmo tempo é um filme com uma carga algo deprimente por breves momentos a fazer lembrar o muito poético mas algo triste “The Floating Landscape” ; curiosamente outra produção chinesa.

Posto isto, se quiserem ver um filme muito bonito e diferente do habitual neste género tão estereotipado, se calhar [“A Time to Love“] é um título  a terem em conta. E se não gostarem á primeira, dêem-lhe segunda oportunidade, pois ainda acabam a gostar tanto dele quanto eu gosto agora.

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CLASSIFICAÇÃO:

Estava tentado a atribuir a [“A Time to Love“] apenas cinco tigelas de noodles por ser realmente excelente.
Mas a verdade é que agora que o revi, este filme não me sai da cabeça e apetece-me vê-lo novamente em vez de ir espreitar outra coisa nova qualquer, por isso se calhar será justo dar-lhe a minha classificação máxima deste blog, pois de outra forma estaria a enganar-me a mim próprio se não lhe desse também um Golden Award.
Quanto mais não seja pelo trabalho dos actores, pela fotografia do filme e por ter conseguido criar suspanse na história de Romeu & Julieta, o que é obra !
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award por muitos e variados motivos.

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A favor: o trabalho dos actores, o par protagonista tem uma química no ecrã fantástica e um desempenho totalmente cativante, esquecemo-nos que estamos a ver um filme o que não poderia ser melhor elogio, consegue o feito notável de recriar a velha história de Romeu & Julieta numa china moderna desencantada mas muito poética e fá-lo com total suspanse romântico até ao último olhar da protagonísta, a fotografia é fabulosa, os cenários são lindissimos e em muitos momentos parece que tudo se passa num qualquer mundo de fantasia encantada, mais do que uma história de amor comercial normal  é um drama intenso e duro por vezes, a cena da vedação de arame mesmo durando menos de um minuto é memorável, idem para o desempenho da actriz nos segundos finais da história onde só com o olhar nos transmite toda uma vida, muita poesia visual, o tom intimista e o excelente trabalho do realizador que alterna os momentos mais intimistas com os mais tragicos ou românticos de uma forma totalmente orgânica e bastante natural, nem vão notar a banda sonora mas esta vai entrar-lhes pela alma nos melhores momentos.
Contra: é mais um drama generalizado do que uma história de amor especificamente por isso não esperem o estilo fofinho oriental dos filmes japoneses porque este é chinés mesmo, pode parecer menos comercial do que na realidade é e algum público poderá não ficar particularmente cativado, Romeo & Julieta again…and again…and again…

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=3NaS55XOylw

Videoclip 1
Embora curiosamente a música não faça parte do filme, pois foi criada para a promoção. Aposto que foi para dar um ambiente mais comercial á obra pois esta é na verdade bastante intimista e não tão comercial como aparenta aqui.
http://www.youtube.com/watch?v=y3TNcyS-IWw&feature=related

Videoclip 2
Este com uma das músicas que entra no filme e com a particularidade de ser um videoclip com dezenas de cenas cortadas que não aparecem no próprio filme, o que só demonstra que devem ter filmado pilhas de coisas que ficaram de fora e só é pena muitas destas cenas não estarem como deleted scenes no dvd porque parecem cheias de atmosfera também.
http://www.youtube.com/watch?v=krChsULuIbM&feature=related

Comprar
http://www.fivestarlaser.com/movies/13766.html

Download aqui com legendas em Inglés.

IMDB

http://www.imdb.com/title/tt0450099/

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Outros títulos semelhantes de que poderá gostar:

concerto_capinha_73x 

Be With You My Sassy Girl Il Mare The Classic Love Phobia

 Fly me to Polaris cyborg_she_capinha_73x

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Casshern (Casshern) Kazuaki Kiriya (2004) Japão


Este filme é um espectáculo…visual.

Pode resumir-se apenas numa palavra; espalhafatoso e desconjuntado.
Eu sei que foram duas palavras, mas da mesma forma que vocês notaram isso e a minha frase perdeu um bocado a sua lógica, assim é [“Casshern“] enquanto filme.
Está lá tudo, mas há qualquer coisa na sua construção que quase o afunda numa sucessão de sequências abstractas e desconjuntadas, quando a história que tenta (?) contar pedia uma narrativa mais coerente.

Visualmente o filme é absolutamente notável, embora também o seja de uma forma estranha, pois a sua estética é construída muito á base de um estilo visual que se poderia denominar Photoshop, pois todas as imagens apesar de impressionantes, são no entanto extremamente artificiais e digitalmente plásticas o que cria uma atmosfera única mas também aumenta a distância entre o espectador e a obra em questão, quando deveria ter acontecido precisamente o oposto.

Ao contrário do que se vê em obras como o “The Promise”, onde o estilo Photoshop suporta de verdade o filme, aqui temos apenas bonitas imagens mas nada que as acompanhe a nível humano para criar uma empatia com o espectador. Quem realizou [“Casshern“], parece estar mais interessado em exibir a sua espectacular estética digital do que propriamente em contar uma história e por isso por muito bonito que seja visualmente, falha em absoluto pois parece que os personagens só lá estão para que os designers tenham uns bonecos nas imagens porque lá tinha que ser e pouco mais.

Basicamente  [“Casshern“], passa-se num futuro em que a humanidade foi quase toda destruida por uma guerra que durou décadas e reduziu o mundo a duas facções.
Apesar da metade oriental ter ganho a guerra, o planeta Terra está quase todo reduzido a escombros pela má utilização de armas químicas, destruição da natureza, mutações genéticas e uma completa super-industrialização do globo onde coorporações fascistas formam o sistema de governo que domina tudo e todos.

Um cientista afirma ter encontrado uma forma de salvar o que resta da humanidade através de resultados que obteve nas suas pesquìsas de regeneração do corpo humano através de algo chamado neo-cells.
No entanto sem o apoio do governo, vê-se obrigado a aceitar o patrocínio de uma misteriosa facção militar para poder prosseguir o seu projecto pois acima de tudo, o cientista procura descobrir a cura para a doença da sua mulher, porque é a única pessoa que lhe resta na vida após ter também perdido o filho na guerra.
Só que um grave acidente tem lugar no laboratório e como resultado, centenas de corpos armazenados no seu interior voltam á vida, auto-proclamando-se neo-sapiens e unem-se para acabarem de vez com os seres humanos que culpam pelo estado em que deixaram o planeta.

Tentando reparar o seu erro, o cientista, faz com que também o seu filho morto na guerra volte á vida. Este ajudado por uma armadura técnológicamente avançada torna-se na única coisa entre os neo-sapiens e a destruição final da humanidade.
E tudo isto passa-se mais ou menos nos primeiros 25 minutos de um filme que conta com mais de duas horas e meia, por isso já estão a ver porque desta vez até contei mais da história do que costumo fazer.

É que na verdade, a primeira vez que vi  [“Casshern“], já estava completamente baralhado ao fim de hora e meia de filme e isto não me costuma acontecer. Não que a história seja particularmente complexa quando depois se pensa nela, mas numa primeira visão, este filme pode ser uma experiência ao mesmo tempo entusiasmante e extremamente confusa.
Isto porque o realizador no meio de toda a pirótecnia, parece que se esqueceu que  [“Casshern“], era suposto ser um filme e não uma sucessão de trailers de videogames para a Playstation.

É que a realização deste filme é tão caótica e desconjuntada que se assemelha mais a uma colagem de varios trailers para jogos de estilos completamente diferentes do que outra coisa qualquer.
Tenta-se contar uma história com peças que pura e simplesmente não encaixam porque parecem todas pertencer a projectos completamente distintos uns dos outros e por isso nem os extraordinários visuais deste filme o conseguem salvar de ser uma das experiências mais aborrecidas que me lembro de ter tido a ver um filme nos últimos anos.
Ganha definitivamente o prémio da pior montagem que me lembro de ver em muito tempo. Curiosamente a montagem também é da autoria do realizador, o que tem a sua lógica pois duvido que outra pessoa tivesse conseguido montar este filme com tanta peça solta.
Tendo em conta esse facto, se calhar o resultado final até é um milagre.

Se calhar como consequência disso, o trailer também dá uma ideia completamente errada do filme. Pela apresentação parece que  [“Casshern“], é um filme de aventuras cheio de sequências de acção mas na verdade em quase trés horas de duração não deve totalizar uns 15 minutos de cenas do género e é mais um (mau) drama high-tech sem alma do que própriamente aquilo que parece ser no trailer.
Não que o filme não contenha alguns momentos espectaculares, mas a ligação do espectador com os personagens por essa altura já é tão fraca que pouco importa o que apareça no ecran.
[“Casshern“], está cheio de cenas ambientais (com visuais absolutamente fantásticos) , que supostamente contam a parte humana da história, mas tudo isto acaba por se perder na confusão de estilos visuais que deixam o filme á deriva entre telediscos estilo Matrix mal editados e cenas intimistas de duração tão longa quanto o mais pretencioso cinema de autor possa exibir, o que dá ao filme dezenas de quebras de ritmo narrativo completamente desnecessárias nas alturas mais inesperadas.
Resumindo, não se deixem convencer pelo aspecto do trailer, pois  [“Casshern“], não é de forma alguma o filme que vocês podem pensar que é.

Posto isto, afinal  [“Casshern“],  é tão mau assim ?
Pois…não. Talvez.
Embora quando o vemos da primeira vez, possamos apanhar uma seca monumental até mesmo durante as sequências de acção. O realizador esforça-se tanto por meter estilo no filme a todo o momento que se esquece de que para isso ser realmente importante na história, precisaria de ter tido uma base coerente primeiro que definisse o tipo de filme que esta obra seria.
O filme não é chato porque tem falta de cenas de acção, porque elas têm uma estranha curta duração, ou porque não é um filme do género, mas sim porque tem uma narrativa tão desconjuntada que a partir de certa altura a história perde-se por entre tanto estilo e os personagens deixam de ter qualquer interesse para o espectador.
Por outro lado, tem os seus momentos interessantes pois não há que negar que visualmente é realmente uma obra fabulosa.
Ver este filme é como olhar durante mais de duas horas para quadros animados pintados em Photoshop e por muito mau que isto seja, a verdade é que não conseguimos tirar os olhos do ecran mesmo quando já nem nos importamos com nada do que lá se passa, pois o que queremos é ver que imagem bonita aparece a seguir.

Mas por causa disto, os personagens perdem-se por completo. A love-story não tem interesse, os vilões são mais ridículos do que ameaçadores pois são super-vilões num filme que não é de super-herois e as partes a piscar o olho ao estilo de filme Art-House são simplesmente metidas a martelo criando uma aura pretenciosa no filme que ainda lhe dá menos identidade e credibilidade do que já tem.
O que é pena, pois o filme é na sua essência uma verdadeira obra-prima completamente falhada e onde nem a extrema beleza (e algum romantismo) das imagens consegue salvar  [“Casshern“] de ficar muito aquém daquilo que merecia e deveria ter sido.

O filme supostamente é uma adaptação de um Anime clássico http://www.youtube.com/watch?v=bINVhDM3RpI mas tirando uma breve imagem do capacete original do heroi que aparece como cameo no filme, muito pouco resta da animação original.
Sendo assim, é bastante difícil de ser classificado, pois como filme practicamente não existe, mas por outro lado tem um certo fascínio.
Considerem-no uma espécie de filme do Ed Wood, se este tivesse meios digitais ao seu dispor.
É que [“Casshern“] poderá ser muito bem o “Plan Nine from Outer Space” do cinema digital contemporaneo. O que de certa forma justifica plenamente a aura de culto que tem á sua volta embora como filme não a mereça de modo nenhum.

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CLASSIFICAÇÃO:

Se estiverem interessados em ilustração de FC, têm aqui um objecto de estudo incontornável dentro do cinema moderno do género e portanto  [“Casshern“] será de compra obrigatória.
Para o resto do público, estão por vossa conta. Arrisquem, pois pode ser que gostem mais dele do que eu gostei. E eu adoro ficção-cientifica.
Mas a verdade é que já tentei revê-lo várias vezes, mas nunca consigo passar da primeira metade pois mesmo com todo o seu visual este filme continua a aborrecer-me de morte.
Duas tigelas e meia porque nem sei bem o que dar. É que se calhar merece muito menos.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2emeia.jpg

A favor: o visual absolutamente criativo dentro de um estilo steampunk realmente original, algumas sequências de acção são espectaculares.
Contra: realização atroz, péssimo ritmo narrativo, filme estéril e sem alma, o estilo sobrepõe-se á história, as sequências de acção são minúsculas e com uma montagem anárquica, o estilo video-clip MTV de muitas partes do filme, fica a meio caminho entre o cinema-de-autor e o filme comercial de super-herois e falha em ambos os estilos, os personagens não agarram o espectador, quase trés horas é demais.

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NOTAS ADICIONAIS

Podem ver aqui o trailer, mas não acreditem muito no que vêem, pois o filme é muito diferente e não é de forma nenhuma o filme de aventura/acção que parece.
http://www.youtube.com/watch?v=JpUWsMzwpAA

Comprar
A edição que eu tenho tem uma caixa excelente de trés discos, que só encontram á venda aqui. Não tem legendas nos extras.
Mas se quiserem comprar o filme, podem escolher comprar a edição de dois discos ou a de um disco á venda na Amazon Uk a um preço excelente.

Opiniões adicionais:
http://sealedcurse.net/lithium/casshern/

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0405821/
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Filmes “semelhantes” de que poderá gostar:

A Chinese Tall Story The Promise

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