Kei hei hup (Metallic Attraction Kung Fu Cyborg) Jeffrey Lau (2009) China


Toda a gente a ir ver este filme já !
Toda a gente a ir ver este filme porque eu não quero ser o único a ficar com o cérebro ao contrário.

“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg” ?
Metallic Attraction ?!!
A do Kung-Fu + Cyborg eu até comia, mas não fosse o proeminente Robot Gigante no cartaz do filme e ainda pensaria que Mettalic Attraction seria uma comédia qualquer sobre magnetos e fãs dos Iron Maiden ou quem sabe dos Metallica.
Afinal não é.
Não pensem no entanto, que isto é um filme de Kung Fu.
Confusos ?
Não estão, não porque ainda não viram o filme.

A propósito, também tenho sérias dúvidas se isto será um filme.
[“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“], é um produto muito estranho e completamente alucinado.
Eu não tenho nada contra o espírito deste género de obras, afinal ” A Chinese Tall Story ” ainda continua a ser um dos meus filmes orientais favoritos apesar do seu estilo completamente over the top.
Este filme não é mau por ser estranho ou alucinado, [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] perde em todas as frentes de uma forma absolutamente inacreditável porque nunca se consegue definir enquanto filme.
Nos primeiros cinco minutos eu já pensava que iria atribuir uma classificação fantástica a este produto, pois os momentos iniciais são mesmo divertidos e tudo apontava para que estivesse na presença de um daqueles filmes mesmo especiais. Até o genérico do filme é muito bom e cheio de humor.

No entanto, dez minutos depois já começava a pensar que algo esquisito se passava no ecran. Isto porque a partir de certa altura a história parece entrar por um registo de comédia bucólica e rural que estranhamente me fez lembrar daquele cinema francês ao estilo Louis de Funées.
Algo muito estranho para um filme que supostamente meteria Kung-Fu e Robots estilo Transformers.
E por falar em Transformers

Pessoalmente a série Hollywoodesca dos Transformers é um dos meus ódios de estimação e o Michael Bay não será propriamente o meu realizador favorito pois por mim poderia deixar de filmar amanhã que não se perdia nada. No entanto isto de ser ateu tem as suas desvantagens e  como tal é óbvio que Deus não ouve as minhas preces.
E é pena, porque também se poderia juntar o nome do realizador de [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] á lista de gente a reter longe de uma câmera a todo o custo. Só posso concluir que Deus não gosta de Cinema.

Descobri tarde demais que o realizador deste filme também esteve ligado a outro dos filmes orientais que mais detestei, Kung-Fu-Hustle. Se tivesse sabido disso nem teria gasto o meu tempo a tentar ver [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] pois não é de estranhar que o estilo dos filmes seja semelhante com a desvantagem de que agora nesta tentativa a coisa não resultou de todo. Possivelmente porque Jeff Lau não é Stephen Chow pois este último apesar de tudo ainda consegue criar alguma unidade no caos presente nos seus filmes. Eu não gosto, mas nunca atinge o vazio deste filme com robots sem robots.

Jeff Lau, falha redondamente onde Stephen Chow normalmente até consegue algum equilibrio e este [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] é um bom exemplo de que não basta ter uma quantidade de sequências completamente desvairadas para que um filme estilo cartoon tenha piada ou nos apeteça segui-lo até ao fim.

Trinta minutos depois do filme começar, o espectador começa a perguntar-se se não se terá enganado na capa ou se terá visto o trailer com o nome do filme errado, pois kung-fu nem vê-lo e robots estilo transformers é que parecem não ter qualquer motivo para fazer alguma aparição no argumento deste filme.
É que vocês não sabem, mas…
[“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] é uma história de amor !! (?!!)

Esqueçam a porrada estilo Michael Bay em versão Hong Kong, olá filme estilo Julia Roberts versão chinesa.
Mas mete robots.
Perdão, cyborgs.
Ou melhor, mete uma espécie de “mecha”
Reconheceram a expressão “mecha” ? Lembra-lhes algo ?
Exacto “A.I. Artificial Inteligence”, o (quanto a mim fabuloso), filme de ficção-científica realizado por Steven Spielberg com Haley Joel Osment e Jude Law no papel de Gigolo Joe.
E por falar em Gigolo Joe, o que dizer da imagem abaixo…

Lembra-lhes alguém ? 🙂
[“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] é um filme oriental muito estranho. Já lhes disse isto ?
Mete um clone chinês grunho do Gigalo Joe que por acaso também é um robot com a mania que tem graça e age como um verdadeiro pinga-amor pois inevitávelmente apaixona-se pela rapariga da história deste filme.
Um filme que apesar de querer á força ser uma história de amor daquelas realmente emotivas ao melhor estilo oriental, pelo meio entra pelo estilo cómico com uma escolha de estilo de humor absolutamente rasca, completamente popular e de riso fácil com gags semi-escatológicos, piadas infantis, directas e tudo o que possam imaginar ao pior estilo “Malucos do Riso“. E se vocês me estão a ler a partir de Portugal, sabem bem como isto é grave.

Especialmente para um filme que parece nunca andar para a frente porque insiste em tentar cativar-nos com uma história de amor absolutamente sem química nenhuma. Muito por culpa das partes “cómicas” do argumento e das palhaçadas dos personagens verdadeiramente cartoonescos mas sem qualquer identidade.
Acho que nunca tinha visto uma história de amor num filme oriental tão descaracterizada e tão sem alma.
[“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] enquanto filme romântico (acreditam nisto ?), é tão vazio e desinteressante que faz com que coisas como Shinobi, Duelist ou Bichunmoo pareçam clássicos de histórias de amor !

Então mas e os Transformers do trailer do filme ? – Perguntam vocês…
Perguntam bem.
Kung-fu, neste filme deve haver uns cinco ou talvez dez minutos de algo semelhante. Isto em duas horas de história.
Robots gigantes ao murro, temos direito a duas sequências. Uma mais ou menos a meio do filme. Dura pouco mais cinco minutos e é do piorio pela sua simplicidade, lugares-comuns e falta de espectacularidade o que para um filme que assenta o seu marketing na comparação com os blockbusters de Hollywood não é nada bom.
Os CGIs também são muito pobrezinhos mas isso teve a ver com o baixo orçamento da produção por isso acho que os técnicos fizeram o melhor que puderam certamente.

Depois temos mais umas cenas na “batalha final” como era de prever mas tudo é tão … nem sei como descrever. Só vocês vendo mesmo. Não resulta ponto final.
E eu gosto de filmes maus. Aliás eu adoro filmes maus, séries B e Sci-Fi obscura.
No entanto não posso com maus filmes e [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] é um mau filme porque tenta ser muita coisa ao mesmo tempo e falha redondamente em tudo não fazendo nada.

Como comédia é do piorio. Como história de amor perde-se por completo e nem sequer a miuda do filme nos causa qualquer empatia. O que não é normal nestas histórias de amor orientais onde normalmente o casal central ou o triangulo amoroso é bem definindo em termos humanos e nada disso se passa aqui.
Aliás nem a miuda do filme é minimamente fofinha sequer e isto é o pior que poderia ter acontecido a uma história de amor oriental. É quase um sacrilégio.
Ou então sou eu que não acho o estilo – Funcionária subserviente ao Estado – algo particularmente erótico ou minimamente apelativo românticamente falando…

Tudo isto, aliado ao facto do terceiro elemento do triangulo amoroso ser um mau clone do Gigolo Joe com propensão para graças infantis e piadas semi-escatológicas, faz com que [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] seja um filme que não tem ponta por onde se lhe pegue.
Vai desagradar por completo aos fãs de cinema de acção, os fãs de Robots gigantes vão detestá-lo pela quase total ausência deles no ecrã durante o filme todo e o pessoal que ainda se poderia interessar pela história de amor vai achá-lo um verdadeiro desperdício de argumento e atmosfera.
E por falar em atmosfera…

Talvez uma das coisas mais irritantes do filme seja precisamente isso.
[“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] tem uma atmosfera mágnifica no que toca á criação de ambiente.
Toda a história passa-se numa pequena aldeia no meio do campo e o ambiente bucólico rural do lugar é realmente cativante e muito bem captado dotando o filme de uma identidade Chinesa quase idílica.
Verdadeiramente deprimente é vê-la tão desperdiçada com uma história do piorio e personagens sem alma que não sabem habitar aquele espaço que pedia algo realmente especial em vez de um filme tão pouco definido.

O filme tem outra coisa muito interessante…todo o seu argumento parece uma metáfora encapotada para a revolta e a liberdade de expressão o que não deixa de ser curioso por isto ser um produto Chinês. Pelo meio da história colocam-se algumas questões interessantes sobre a legitimidade de uma “pessoa” se poder ou não rebelar contra a “programação” instituida por um superior hierárquico supostamente no poder e muito desse segmento da história tem a ver com a discussão da liberdade de escolha individual. Tudo debaixo da capa da ficção-científica claro. O que não deixa de ser mesmo muito curioso e pedia se calhar um melhor desenvolvimento…por outro lado se calhar foi melhor para os produtores disto não agitarem muitas bandeiras individuais…não fosse o diabo tece-las e o próximo filme ser um documentário sobre as cadeias do Regime Chinês…

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CLASSIFICAÇÃO:

Um total desperdicio de ambiente. Está tudo dito no texto acima.
Começa muito bem, mas depois a cada minuto que passa se torna mais aborrecido. Comecei com vontade de dar classificação máxima a isto e acabei na mínima no final do filme. Foi a primeira vez que tal me aconteceu.
Uma tigela de noodles porque nem a boa fotografia o salva.

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A favor: o genérico, a sequência dos primeiros cinco minutos de filme, o ambiente bucólico e rural em toda a história, a fotografia do filme que até faz alguns milagres com os medianos CGIs, apesar de tudo tem um bom estilo visual com algumas imagens e enquadramentos muito bem conseguidos e nessas alturas o filme parece brilhar, a carga de subversão subliminar que o argumento parece querer fazer passar ao espectador quando advoga o direito á liberdade e á negação da programação.
Contra: engana por completo quem vê o trailer, não é um filme de acção, não tem batalhas com robots gigantes practicamente nenhumas, tenta ser uma história de amor em practicamente 80% do filme, falha redondamente enquanto história de amor e é possivelmente o argumento do género mais descaracterizado e sem alma que me recordo de ver no cinema oriental que normalmente é genial a produzir histórias românticas, o humor básico é absolutamente irritante, o personagem clone do Gigolo Joe é tem uma caracterização absolutamente errática e nunca se define, a miuda da história não cativa minimamente, as cenas de acção são chatas e parecem arrastar-se mesmo quando duram breves minutos, o filme é completamente indefinido e com um ritmo descaracterizado que nos faz desejar que tudo acabe depressa pois já não há mais pachorra, a tentativa de ter um desfecho dramático para a história de amor é uma anedota pois – nobody cares !

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
Não se deixem enganar por ele. Isto não é o filme que parece…estão avisados. 😉
http://www.youtube.com/watch?v=_saGdBMw33E

Comprar
Se gostarem mesmo muito podem comprá-lo baratinho aqui na minha loja do costume.
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7n-77-2-49-en-15-metallica+attraction-70-3kai-43-9.html
Se quiserem confirmar antes a coisa, podem espreitar o filme usando este motor de busca muito útil aqui.

IMDB
http://www.imdb.pt/title/tt1494775/

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Filmes “semelhantes” de que poderá gostar:

A Chinese Tall Story Shinobi

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Hansel & Gretel (Hansel & Gretel) Pil-Sung Yim (2007) Coreia do Sul


Mais uma vez dentro do cinema oriental estamos na presença de uma boa tentativa Sul Coreana para produzir algo original.
Á primeira vista pode parecer que [“Hansel & Gretel“] é apenas mais um filme de terror asiático igual a tantos outros, mas este filme tenta realmente ser diferente.

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Se calhar procurar essa diferença foi precisamente a sua única fraqueza pois na verdade fica algures entre dois géneros.
Não é suficientemente assustador para poder ser incluído na categoria de terror, mas também  tem uma atmosfera demasiado assombrada e perturbante para poder ser visto como um mero produto de fantasia.

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[“Hansel & Gretel“] apesar de se basear no popular conto infantil sobre a famosa casa cheia de doces perdida no bosque, tem mais semelhanças com um bom e alargado episódio da série The Twilight Zone do que com uma adaptação directa da história clássica em que vai buscar inspiração.

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No entanto, não quero com isto dizer que o filme é desinteressante, muito pelo contrário.
Pode não ter grandes surpresas para quem já conhece este género de histórias ou já leu muita fantasia mas ainda consegue manter um excelente clima de incerteza ao longo do seu desenvolvimento muito graças ás boas interpretações do elenco e a uma atmosfera assombrada sem no entanto ser um filme de fantasmas.

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Quem gosta de filmes de terror com criancinhas arrepiantes tem aqui uma excelente opção pois os trés protagonistas infantis são uma das melhores coisas que esta história tem. Com um registo que varia entre o totalmente fofinho e o perturbantemente ameaçador todos os mini-actores deste filme têm um desempenho perfeito que faz esta história funcionar até ao seu segundo final mesmo quando já não contem nenhuma revelação por aí além.

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Apesar de não se conseguir enquadrar dentro de nenhum género específico o filme equilibra bastante bem pequenos momentos comuns a vários estilos, inclusivamente o drama que mais uma vez acaba por humanizar os seus personagens e contribui perfeitamente para o tocante final que conclui muito bem esta história sobrenatural Sul Coreana.

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Basicamente [“Hansel & Gretel“] é sobre um jovem que se perde um dia numa floresta após ter tido um acidente e vai parar a uma casa onde habitam trés felizes criancinhas juntamente com os seus pais.
Tudo naquele lar é perfeito, as crianças passam a vida a brincar, á hora das refeições só se comem doces e toda a gente vive permanentemente feliz num ambiente de arquitectura muito colorida onde existem briquedos por todo o lado.

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Ao tentar voltar para a civilização no dia seguinte o jovem descobre então que todos os caminhos para fora da floresta o levam de volta á mesma casa onde o aguardam as criancinhas. É então que as coisas se complicam quando aos poucos o jovem começa a explorar os locais menos habitados do edificio e arredores e todo o trágico passado se revela perante ele.

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Essencialmente estamos perante um filme de suspanse com uma atmosfera negra por isso [“Hansel & Gretel“] é um bom titulo para todos aqueles que sempre tiveram curiosidade em espreitar filmes sobrenaturais orientais mas têm medo de filmes de terror.
Não se irão assustar particularmente com isto, mas se gostam de suspense têm aqui um bom motivo para passarem um par de horas.
Para aqueles que gostaram de A Tale of Two Sisters têm aqui algo com uma atmosfera no mesmo estilo, embora muito mais simplificado e sem o mesmo resultado sobrenatural ou dramático.

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Um dos grandes trunfos de [“Hansel & Gretel“] está no seu visual. O tratamente de cor é fantástico e a cenografia da casa é tão bonita quanto perturbante. Essencialmente este deverá ser o filme “de terror” mais colorido de sempre e com uma atmosfera tão bonita e luminosa que cria um contraste perfeito entre o tom inquietante da história.
Quanto mais não seja é um filme que vale a pena ser visto por toda a gente que gosta ver cinema com imagens bem bonitas e onde cada enquadramento parece uma ilustração.

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CLASSIFICAÇÃO:

Um excelente filme “de terror” para quem tem medo de ver filmes de terror.
É um bom filme fantástico que só perde porque á força de tentar ser original acaba por ficar algo a meio entre géneros sem nunca desenvolver todos os bons caminhos arrepiantes por onde poderia ter ido e não foi.

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No entanto quem gosta de filmes de Fantasia com uma atmosfera bem negra e quase natalícia vai adorar este.
Não lhe dou uma classificação mais elevada porque a sua história não me surpreendeu tanto quanto eu pensava que iria surpreender-me e na verdade não fiquei com muita vontade de o rever tão cedo apesar das suas muitas virtudes.
Trés tigelas e meia porque é mesmo muito bom e merece mesmo ser visto pelo menos uma vez por toda a gente que gosta de cinema fantástico.

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A favor: o elenco é excelente com destaque para as criancinhas actores, o grafismo e o design do filme são absolutamente perfeitos para ilustrar uma história como esta, a maneira como a cor é usada não nos deixa tirar os olhos do ecran, o tom assombrado e o clima perturbante que percorre a história está muito bem conseguido, mais uma vez o cinema oriental consegue aos poucos humanizar os personagens, o sub-plot que revela o mistério (embora previsivel) está bem pensado e executado criando alguns dos momentos mais tensos e dramáticos do argumento, o final do filme adequa-se perfeitamente e tem um par de momentos tocantes que fecham em beleza a história.
Contra: apesar de atmosférico tudo é demasiado previsivel e já vimos esta história antes, não mete medo nenhum nem nos assusta particularmente, a parte central da história arrasta-se um pouco sempre com mais momentos do estilo que já nos foram mostrados antes, o facto de ficar a meio termo  entre vários géneros não o ajuda pois nunca se desenvolve num sentido da forma que merecia, não nos deixa muita vontade de o revermos tão cedo.

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NOTAS ADICIONAIS:

TRAILER
http://www.youtube.com/watch?v=sprTGLw8f-s

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COMPRAR

Aproveitem esta excelente edição á venda na Amazon Uk agora que está bem baratinha.

Caso queiram espreitar antes o filme poderão encontrar aqui uma boa cópia legendada em inglés também.

IMDB

http://www.imdb.com/title/tt1002567/

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Se gostou deste poderá gostar de:

A Tale of Two Sisters

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Kairo (Kairo) Kiyoshi Kurosawa (2001) Japão


Antes de mais, espero que ainda não tenham visto o trailer do remake americano deste filme.
Se o viram, então espero que já não se lembrem dele.
E isto, porque o trailer do remake americano, não só revela a história toda como ainda se dá ao trabalho de explicar tudo muito bem explicadinho.
Nem sequer esconderam o final do filme que infelizmente temos o azar de ser semelhantel ao da obra original japonesa e por isso se o virmos logo no trailer americano, lá se vai o impacto psicológico da história.
Embora tenha que ser justo e o remake nem sequer é dos piores…mas quando comparado com o original asiático é melhor nem dizer mais nada.
No entanto, se quiserem apreciar devidamente a versão original deste excelente filme sobrenatural oriental , afastem-se por favor do trailer do remake americano chamado “Pulse” pois precisam chegar ao filme japonês sem saberem muito dele.
Agora que estão avisados, bem-vindos a [“Kairo“].

Esta versão original japonesa consegue assustar e inquietar mais o espectador em dez minutos do que a videocliptica versão americana consegue em noventa. Tudo isto sem efeitos especiais daqueles que dominam os filmes da terra do tio Sam. Sem perseguições, cenas de acção e muito menos sem super-vilões sobrenaturais ao estilo Freddy-Kreuger como parece que alguém nos states achou que seria necessário introduzir no remake. Deve ter sido para os teenagers do milho terem algum “mau” para se assustarem nos intervalos das cenas em que admiram as mamas das rapariguinhas modelos que povoam a versão ocidental e que não servem absoutamente para nada a não ser de carne para canhão na habitual contagem de cadáveres á Scream.
Sim, porque foi num Scream que os americanos transformaram este excelente [“Kairo“] que apesar de ser um filme com adolescentes e jovens adultos felizmente é também um filme com personagens pelo qual nos importamos, ao contrário do que acontece no body-count americano.

Portanto, para quem pensar que [“Kairo“], é o equivalente japonês dos filmes de teenagers americanos, é melhor esquecer este filme.
[“Kairo“], é um filme lento.
Muito lento. Muito leeeeeeeeeeeeeento mesmo.
Não é uma lentidão ao estilo Manoel de Oliveira nos seus melhores dias, mas não é de forma nenhuma um filme sobrenatural com uma montagem MTV ou sequer algo que se possa considerar uma montagem ocidental.
E isto não é uma coisa negativa, pois aqui a lentidão no desenvolvimento da história é acima de tudo usada para criar um clima de inquietação constante no espectador que resulta plenamente e dá uma identidade única ao filme.

Este filme nota-se á distância que é um produto japonês, só pelo tempo que demora a criar ambiente. Não tem pressa na montagem para dizer muita coisa e muito menos para explicar o que está a acontecer e por isso este pode ser um filme complicado de seguir para qualquer público que não esteja habituado ao estilo japonês de contar histórias, ou apenas se interessar pela imediatez dos ritmos narrativos cinematográficos americanos.

Por outro lado, também não se assustem com esta descrição, porque não estamos a falar de puro cinema de autor, isto naquele sentido mais Artístico ou intelectualoide cheio de metáforas sobre a vida, a essencia do Ser ou a natureza dos cogumelos.
[“Kairo“], não quer mais do que nos dar cabo dos nervos com uma boa história, que se calhar nem notamos a uma primeira visão, porque é verdade que o ritmo lento do filme pode desarmar-nos quando espreitamos esta obra pela primeira vez.

Confesso que quando vi isto tendo lido apenas um par de críticas na net que garantiam que [“Kairo“], era a coisa mais maravilhosa do planeta dentro do cinema sobrenatural, fiquei bastante decepcionado.
Mas a verdade, é que a montagem errática desta obra me desarmou pois não estava nada á espera de encontrar um filme tão estranho em todos os sentidos.

É estranho, porque na verdade não deixa de ser um filme comercial, mas ao mesmo tempo o seu ritmo narrativo quase que o remete para o cinema de autor e [“Kairo“], quase que acaba por ficar numa espécie de limbo entre os dois géneros.
O que é bom, pois é precisamente de situações no limbo que esta fantástica história sobrenatural trata.
E notem que eu ainda não me referi a [“Kairo“], como filme de terror. Repararam ?
O filme pode ser japonês, ter um estilo estranho, mas tem a grande vantagem de nem sequer tentar imitar o já clássico “Ringu” que definiu as regras modernas do género e só este facto é logo motivo para prestarmos mais atenção a esta obra.
Na verdade se “Ringu” criou um estilo, depois popularizado em mil clones do género como por exemplo a saga “Ju-On”, já [“Kairo“], pode dizer-se que criou uma segunda fórmula seguida também por um par de outras obras menos conhecidas.

[“Kairo“], não é um filme de terror oriental naquele sentido em que nos assusta pelo que mostra, ou por imagens demasiado gráficas, mas por aquilo que não mostra. [“Kairo“], assusta porque não nos explica nada e apenas nos vai mostrando uma sucessão de acontecimentos que adensam o mistério, criando muito devagar e sem pressas nenhumas um clima de medo e tensão insuportável, que nos dá lentamente cabo dos nervos.
A certa altura o espectador dá por si sem saber porque raio é que está tão perturbado, ou o que raio se está a passar na história, ou como irá acabar, mas agora o realizador do filme poderia ter colocado o Bugs Bunny no ecran que metade do público se ainda se conseguisse mexer correria imediatamente para o interruptor da luz, isto antes se não tropeçar em metade da mobilia.

Acima de tudo,  [“Kairo“] não é uma história para assustar momentaneamente em segmentos para nos fazer saltar da cadeira, mas sim para provocar medo e transportar o espectador para o mundo que a pouco e pouco vai criando e que leva o filme a terminar de uma forma extremamente atmosférica, que só nos dá vontade de ver uma sequela quando o filme acaba.
Mas afinal isto é sobre o quê ?

Sem querer revelar muito da história, e partindo do princípio que vocês tiveram a sorte de ainda não terem visto o remake ou o trailer do remake americano, [“Kairo“] conta a história de um grupo de jovens que se começam a suicidar depois de passarem inúmeras horas obcecados com um misterioso website que encontram na internet.

Quando alguns deles começam a investigar o sucedido após inúmeras pessoas desaparecerem aparentemente sem motivo nenhum estes descobrem que a realidade é algo bem mais perturbante do que alguma vez imaginaram e onde a resposta a todas as suas questões pode não apenas trazer a solução do enigma mas também colocar em perigo o destino do mundo, porque os mortos estão á espreita em todo o lado e não haverá nenhum local no planeta onde nos possamos esconder.

Mas não pensem que estamos perante um filme de mortos-vivos, pois  [“Kairo“] apesar de conter uma atmosfera bem semelhante em alguns momentos é mais um filme sobre a morte enquanto dimensão paralela do que própriamente terá algo a ver com um filme do Romero.

Na verdade este filme tem tudo a ver com o ambiente do jogo Silent Hill. Quem gostar do título e procurar um filme de terror com uma atmosfera assombrada muito semelhante e onde o mesmo tipo de inquietação está sempre presente, então não pode perder isto. Apesar de não conter as sequências sangrentas do jogo para a PS2,  [“Kairo“] acaba por ser mais um Silent Hill do que a própria recente adaptação cinematográfica do jogo.

Para começar tem na minha opinião os fantasmas mais “realísticos” de sempre num filme de terror, nunca os vemos bem, aparecem como sombras furtivas no canto do olho e o realizador ainda consegue pregar um par de bons sustos com excelentes momentos inesperados apenas jogando com silhuetas e sombras que se movem. E isto sem ser necessário recorrer ao habitual som ALTO para assustar. Ou melhor, para pregar sustos.

Em [“Kairo“], o silêncio mete mais medo do que qualquer truque cinematográfico á americana e este filme asiático é um bom exemplo de como se constroi um clima de horror sem precisarmos de usar muitos truques baratos ou efeitos especiais caros completamente desnecessários.

E pronto, se calhar é melhor ficar por aqui, pois este é outro daqueles filmes orientais que merecem ser descobertos por vocês mesmo.
Se procuram um bom filme sobrenatural japonês com um toque de horror que ficará na memória mesmo que não lhes impressione muito á primeira por causa do seu estranho ritmo narrativo, não vão mais longe.
Este filme tem atmosfera, uma história intrigante e ainda um par de imagens perturbantes ao melhor estilo Silent Hill.

Não é o melhor filme de terror oriental de sempre, mas tem uns fantasmas que já definiram um estilo dentro do género e que lhes vão mesmo dar cabo dos nervos. E quanto a mim tem um final excelente, que embora um pouco ambiguo deixa-nos com vontade de ver uma continuação que infelizmente não existe.

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CLASSIFICAÇÃO:

Um filme diferente dentro do género sobrenatural. Contorna bem os clichés do cinema oriental e cria uma atmosfera de horror crescente em redor de acontecimentos perturbantes e com ajuda de uns excelentes fantasmas que os farão começar a olhar duas vezes para todas as sombras que têm em vossa casa.
Quatro tigelas e meia de noodles.

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A favor: a atmosfera perturbante assusta mesmo, a fotografia sombria, os silêncios e as sombras, os fantasmas arrepiantes, o sentimento de horror crescente, os sons inquietantes, o final do filme, quem gosta do jogo Silent Hill vai gostar disto.
Contra: a história tem falhas na sua estrutura e pode ser algo confusa de seguir ao inicio, a montagem é errática e a narrativa tem muitos ritmos estranhamente diferentes o que quebra um pouco os momentos de medo e horror, talvez tenha duração a mais pois a parte do meio da história arrasta-se um pouco.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailers
http://www.youtube.com/watch?v=Ubu7hVI48no
http://www.youtube.com/watch?v=y_JFO-Nrk5c&feature=related

Comprar
Existem um par de boas edição lá fora deste filme, e se não estou enganado, até uma edição em Português apenas com som em 2.0, por isso se tiverem 5€ sugiro a compra imediata desta edição
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7m-77-3-49-en-15-pulse-70-610.html pois contém um bom som e apesar do filme ser muito escuro a imagem até nem seja má de todo. Não é brilhante, mas pelo preço não precisam de mais para apreciar este filme. Eu tenho esta cópia e estou muito contente com ela.

IMDB (cuidado com os *spoilers*)
http://www.imdb.com/title/tt0286751/usercomments

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Se gostam deste poderão gostar de:

A Tale of Two Sisters Dark Water

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Gwai Wik (Re-Cycle) Oxide Pang e Danny Pang (2006) Tailândia/China


Lembram-se do filme “Labyrinth” produzido em 1984 por George Lucas, realizado por Jim Henson e protagonizado por Jennifer Connely e David Bowie ?
Gostam de jogar ao Silent Hill por causa da atmosfera inquietante do jogo mas não ficaram particularmente impresionados com a versão cinematográfica do mesmo ?
Pois bem imaginem um “Labyrinth” para adultos com a atmosfera decadente do “Silent Hill” e obterão [“Re-Cycle“].

Estamos perante uma obra estranha e não apenas por causa da sua atmosfera. Aquilo que começa como sendo um puro filme de terror na conhecida linha oriental ao melhor estilo “Ringu”,  transforma-se depois numa história de pura fantasia, quase que diria – nos moldes tradicionais –  não fosse a atmosfera negra e assombrada da mesma.
Durante os primeiros 40 minutos, arrepia-nos com os habituais clichés orientais inerentes ao género sobrenatural mas depois apesar do ambiente perturbante manter-se durante o resto do filme, os momentos de terror vão dando lugar a algumas cenas emocionalmente inesperadas, até mesmo pela sua poesia o que não deixa de ser original se pensarmos que á partida [“Re-Cycle“] não seria mais que um típico filme de terror.
Deve ter sido a primeira vez que num filme envolvendo zombies, tive pena dos mortos-vivos pela identificação com os personagens. Falo da inesperada e poética cena do cemitério e quando chegarem até ela vão compreender melhor o que estou a tentar demonstrar, pois agora não lhes posso estragar o filme.

[“Re-Cycle“] é sobre uma escritora que após uns inexplicáveis acontecimentos sobrenaturais no seu apartamento se vê transportada para um mundo de fantasia onde todas as histórias que foram esquecidas pela humanidade têm uma existência assombrada. Um mundo de coisas deixadas á parte, onde ideias abandonadas e objectos que foram deitados fora estão acumulados em vários sub-mundos temáticos e onde os seus habitantes vivem uma existência de raiva e resentimento para com a humanidade que os abandonou.
Por exemplo um dos mundos está cheio de brinquedos que foram deitados fora por todas as crianças da Terra que entretanto cresceram e nunca mais se lembraram dos seus objectos de infância.
Isto é apenas um exemplo de um dos temas que percorre [“Re-Cycle“] e da maneira como uma certa melancolia nostálgica serve de base para o desenvolvimento da história até transportar o espectador a um final supreendente para alguns e para outros nem tanto assim, mas que termina em grande a aventura da protagonista.

Uma nota curiosa sobre o argumento é o facto de quando o filme ter sido exibido em Cannes e no ocidente, este ter sido imediatamente classificado com uma conotação temática que aos olhos do espectador parece extremamente óbvia e o filme até foi acusado de ser um panfleto sobre um certo assunto tendo gerado alguma polémica e discussão sobre a validade do mesmo.
No entanto, se explorarem os extras do dvd, descobrirão que segundo os realizadores nem lhes passou pela cabeça que [“Re-Cycle“] iria ter a conotação que teve fora da Asia, pois segundo eles aquilo que para nós é um assunto polémico ao ponto de ter gerado alguma reacção negativa á obra, no oriente a questão nem se coloca como tal pois para eles a maneira como abordam o tema tem raízes na sua espiritualidade e por isso não tem a relevância e até mesmo a importância que lhe foi atribuída no ociente.
Isto claro não impediu alguns críticos ocidentais de jurarem a pés juntos que o filme era sobre uma coisa que os próprios realizadores garantiram publicamente que nem lhes passou pela cabeça, mas isso é o costume.
Infelizmente não lhes posso dar detalhes sobre isto porque senão estaria a estragar-lhes um dos twists da história, mas não podia deixar de escrever este texto sem mencionar esta questão que mostra bem como um tema pode variar de importância de acordo com a cultura de uma civilização.

Voltando ao filme, este é mais um daqueles que gera discussão principalmente entre o público ocidental mais habituado a consumir a fórmula americana de cinema.
Se espreitarem o IMDB, coisa que eu não aconselho de todo antes de terem visto primeiro [“Re-Cycle“] de uma ponta a outra, verão que as opiniões se dividem.  De um lado está quem adorou o filme pelo que ele é e pela forma como está construído e mistura os vários géneros e do outro estão aqueles que não gostaram de ver algo realmente diferente porque não sabem onde classificar o filme e como tal este pareceu-lhes um objecto estranho e sem grande lógica.
Pela minha parte, eu estou do lado daqueles que acham que o filme não merece de forma nenhuma a mediana classificação geral que obteve no IMDB.

Na minha opinião [“Re-Cycle“] não só é um bom filme de terror como ainda consegue ser um extraordinário filme de fantasia com momento únicos que até então ainda não tinha visto no cinema. Nomeadamente o equilíbrio perfeito entre a inquietação do ambiente e a poesia de alguns momentos realmente inspirados.
E por falar nisso, alguém ainda me há de explicar porque uma das cenas mais bonitas do filme foi cortada da montagem principal ! Falo de uma pequena sequência num dos mundos onde existia uma floresta em que as árvores em vez de flores tinham fotografias de pessoas que perderam amores nas suas  vidas. Esta cena está incluída nos extras da edição especial de dois discos e vale mesmo a pena ser vista por quem gostar do filme porque visualmente é um dos grandes momentos desta obra e não merecia ter acabado fora da montagem final.

E por falar em visual, se quiserem pelo menos um bom motivo para visitar o mundo de [“Re-Cycle“], façam-no pela sua estética  e imaginação.
Apesar de ser um filme oriental um bocado á base daquele estilo photoshop artificial, contém atmosferas visuais absolutamente mágnificas e criativas, podendo realmente ser descrito como um “Labyrinth” decadente com uma estética ao melhor estilo de “Silent Hill” que irá certamente ser do agrado de quem é fã deste jogo.

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CLASSIFICAÇÃO:

Para mim [“Re-Cycle“] é um excelente filme fantástico e um bom exemplo da criatividade actual do cinema oriental no que toca á experimentação entre géneros e só por isso merece ser visto por toda a gente que gosta do género e se calhar até por quem habitualmente nem vê filmes assustadores.
Na minha opinião apenas lhe falta qualquer coisa para ser mais um daqueles que rebentaria a escala de pontuação mas até agora ainda não consegui identificar o que seja.

Como tal, leva então quatro tijelas e meia de noodles sem qualquer problema pela sua originalidade e execução a condizer.

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A favor: o ambiente, a cena do cemitério, a história, a mistura de géneros, o final do filme, o design de produção, a fotografia, a imaginação presente nos vários mundos.
Contra: terem cortado do filme a cena da floresta das fotografias perdidas, estéticamente podia ser menos plástico e artificial apesar de tudo.

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NOTAS ADICIONAIS:

Façam-me o favor de evitarem saber mais sobre o filme no Imdb , antes de o verem pois correm o risco de ficarem com as surpresas da história todas estragadas.

No entanto, podem também ler esta review aqui
http://www.evildread.com/asian-reviews/asian_review.php?id=119 e ir espreitando o trailer.

Trailer:
http://www.youtube.com/watch?v=PkRkDC5iSZk

COMPRAR
Recomendo vivamente a compra desta edição de dois discos em dvd.
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7m-49-en-15-re_cycle-70-1krd.html
Além de barata vem numa caixa fantástica com um par de livrinhos com ilustrações e fotografias, os extras (apesar de nem serem nada de especial) estão todos legendados em inglés, o filme tem um som DTS excelente e por isso têm aqui uma boa compra se gostam de filmes com imaginação.

Em alternativa sempre podem comprar o filme na Amazon.com tanto em DVD como em Blu-Ray.

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Filmes semelhantes de que poderão gostar:

A Tale of Two Sisters

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