Kim Bok-nam salinsageonui jeonmal (Bedevilled) Chul-soo Jang (2010) Coreia do Sul


Quando eu me preparava para ver apenas mais um exploitation movie daqueles bem chungas em que uma tipa limpa com uma foice metade de uma aldeia eis que apanho uma das surpresas do ano no que toca a cinema oriental.

Já conhecia o filme pelo nome há algum tempo, mas nunca tinha visto sequer o trailer ou lido qualquer review sobre ele e portanto parti para [“Bedevilled“] completamente ás escuras, apenas porque não tinha nada de particularmente interessante para ver no momento e apetecia-me ver um filme de porrada e carnificina japonesa para descomprimir e que não me fizesse pensar muito para além de contar o numero de braços decepados ou cabeças rolantes.
Essencialmente estava com vontade de ver uma comédia e não pedia que este filme fosse algo mais do que um grande mau-filme ao pior estilo série-b oriental, pois estava plenamente convencido que o era.

Acontece no entanto que ainda [“Bedevilled“] mal tinha começado e muito para minha surpresa já eu não conseguia tirar os olhos do ecran.
A personagem pricipal dava-me cabo dos nervos, mas os pormenores da história pareciam cada vez mais cativantes a cada cena que passava e  dei por mim a pensar que se calhar este filme era bem capaz de ser bem mais interessante do que parecia á primeira vista.
Quanto mais não fosse porque em meros minutos conseguiu criar logo suspanse de cortar á faca e ainda por cima construiu um personagem com carísma suficiente para deixar qualquer espectador intrigado. Até porque não percebemos bem se gostamos daquela gaja ou não e por isso temos mesmo de continuar a ver.

De repente aquilo que começa quase como um qualquer thriller policial  entra por um registo diferente e o filme muda para um cenário rural que nada parece ter a ver com o que se passou nos primeiros dez minutos e damos por nós a perguntar o que raio vai acontecer a seguir em [“Bedevilled“] e qual será a direção da história. O que é bom.
Há que dizer que apesar de todo o ambiente rural bucólico que nos aparece pela frente, há qualquer coisa na própria realização do filme que aponta para uma atmosfera claustrofóbica. Não só os próprios enquandramentos até nos exteriores parecem sempre algo contidos como logo se percebe na história que a claustrofobia também será psicológica para condizer com tudo o resto e contrastar totalmente com o ambiente rural em estilo mundo perdido onde tudo se passa.

E de um mundo perdido é aquilo que essencialmente [“Bedevilled“] trata no fundo.
Um mundo perdido daqueles que ainda hoje existe em muitas partes do globo terrestre onde os valores conservadores ultra tradicionais e comportamentos morais que quase se podem considerar primitivos, ainda fazem parte do dia-a-dia de muita gente em muitas comunidades rurais isoladas  onde a mulher ainda é vista como uma espécie de gado.

Portanto, se procuram um filme que constroi todo o suspanse com base nos extremos a que a condição humana pode chegar e nos comportamentos que podem ser atribuidos a tradições quase das cavernas, [“Bedevilled“] é o vosso filme.
Na aldeia bucólica vão encontrar de tudo; escravidão, violência doméstica, violações, prostituição, pedófilia, pedófilia com incesto, crueldade social e todo o tipo de violência fisica e psicológica que só os orientais poderiam colocar num filme e ainda por cima fazê-lo de forma convincente, aterradora e completamente cativante no sentido cinematográfico.

Não porque este seja um grande filme, mas porque soube como poucos pegar num argumento que tinha tudo para ser apenas chunga e quase pornográfico na forma como mostra a violência e no entanto dá-nos uma visão humana totalmente inesperada que nos agarra do primeiro ao último segundo.
Nem sequer se pode dizer que será um filme com vilões, pois até o mais desprezivel parolo desta história parece pertencer áquele lugar, o que automáticamente lhe dá logo uma carga dramática humanizada no sentido em que ninguém é caracterizado como uma besta só porque é mau, mas percebe-se que houve ali a intenção de tentar mostrar como pode o isolamento de uma comunidade presa a valores morais completamente afastados do mundo moderno contribuir para criar pessoas para quem a crueldade é apenas a sua forma de vida. Como alguém diz no filme, não há nada de anormal nas pessoas da ilha porque a vida é mesmo assim.
É esta “normalidade” que acaba por ser a coisa mais assustadora deste argumento.

[“Bedevilled“] é um daqueles filmes com um argumento tão bem apresentado que nem nos lembramos que o realizador existe, o que pode criar á partida aquela ideia de que não há nada de especial com esta obra quando no entanto se calhar está aqui uma das suas grandes mais valias.
O realizador “apaga-se” totalmente para deixar as personagens respirar…ou neste caso, violar, gritar, gemer, chorar ou pior ainda,- ignorar- e dar-nos cabos dos nervos a cada segundo de tensão que passa.
Não encontrarão em [“Bedevilled“] um daqueles filmes com imagens inesquéciveis; com excepção talvez da inesperada imagem da ilha que fecha com chave de ouro uma história que foi muito além do que seria de prever e que tem a ver directamente com o enquadramento imediatamente anterior com a actriz protagonista.

Também não encontrarão uma montagem , digamos, “moderna”. Nem sequer nas sequências de gore ou acção que compõem o climax do filme o que o torna ainda mais surpreendente.
Todo o filme é construido com base numa estrutura perfeitamente clássica e sem recurso a grandes inovações estilisticas ou sequer estilizadas e como tal também é um bom antídoto para quem procura um titulo oriental moderno que não tem pretenções a estilo Anime e sabe contar uma história da forma mais tradicional possível sem recorrer a montagens podres de chiques ou designs arrojados em modo gráfico histérico. [“Bedevilled“]  não necessita de nada disso para ser arrepiantemente eficaz e nos dar cabo dos nervos a cada segundo que a sua história avança em direcção ao sangrento desenlace.

Para quem como eu apenas esperava encontrar apenas um banho de sangue e cabeças abertas com uma montagem estilosa em estilo Anime fiquei bastante surpreendido até na forma como o gore e o sangue é usado nos ultimos 40 minutos de filme. Mantendo-se fiel á estrutura do resto do filme até então, também no apocaliptico e totalmente entusiasmante acto final desta história ultra violenta o suspanse é totalmente controlado de uma forma eficaz e [“Bedevilled“] não entra apenas em modo gore com sangue aos litros mas equilibra toda a tensão com a própria carga dramática que foi construindo á volta dos personagens, (muitas vezes até sem o espectador se ter apercebido).

O que não quer dizer que o filme não tenha um genial banho de sangue no final, porque tem. Quem gosta de decapitações com foices vai curtir [“Bedevilled“] até ao último segundo.
No entanto a grande força do filme está não na violência e no acto final, mas principalmente na forma como usa tudo isso para construir personagens excelentes com particular destaque para as duas protagonistas.

A personagem da tipa toda coquete que nos dá cabo dos nervos é a chave do desenvolvimento dramático em todo o filme e o registo contido da própria interpretação da actriz poderá até parecer mais apagado do que o que se torna evidente na outra protagonista que é alvo de todos os abusos ao longo da história, mas ambas têm um trabalho fantástico que equilibra as duas prestações e contribui em muito para que a tensão da história a partir de certa altura chegue a níveis quase insuportáveis.
Se gostam de filmes em que lhes apetece mandar qualquer coisa contra o televisor, não percam este.
Ainda por cima é um daqueles titulos que compensa plenamente o espectador até ao último segundo por ter acompanhado aqueles personagens que ficam na memória.

Curiosamente devido ao seu tom de extrema violência fisica e psicológica, notei que o filme é algo menosprezado em algumas reviews por o considerarem demasiado exagerado no que toca ao que acontece á rapariga que é abusada e maltratada por toda a aldeia. Muita gente parece achar que algo assim seria impossível nos nossos dias.
Apenas como nota curiosa, posso garantir-vos que o tipo de pensamento e o tipo de tratamento social de extrema crueldade pela parte que me toca ainda estava bem vivo bem no interior do meu Portugal há alguns anos atrás.
Por incrivel que vos pareça, a minha mulher há 17 anos a quando de um anterior casamento que a “raptou” literalmente para as brenhas interiores do distrito de Viseu numa aldeia totalmente isolada, passou por situações tão extremas quanto muitas das coisas que poderão ver representadas neste filme e pelo que ela me relatou, só não acabou por ter a mesma reacção que a protagonista de [“Bedevilled“] porque tinha o filho ainda bébé e conseguiu fugir uma noite de volta para o Algarve escondida de tudo e todos, inclusivamente dos familiares do marido que tinham exactamente a mesma forma de pensar que poderão agora encontrar representada nos personagens das velhas senhoras da aldeia deste fabuloso argumento sul-coreano.

Por isso meus amigos, para quem duvida que este tipo de situações e de aldeias apresentadas no filme realmente possam existir, eu garanto-vos que ainda haverá certamente por este Portugal fora, muito local onde os primos casam com as manas e a tias e o cruzamento de genes não ajudará muito á própria evolução cerebral de certos habitantes. Isto aliado a velhas tradições machistas como as que se podem ver neste filme, (entre marido e mulher não se mete a colher/a mulher tem que fazer o que o marido manda / ir ás putas é de homem, a mulher se apanha nos cornos é porque fez alguma coisa errada, etc), de vez em quando dá numa daquelas notícias em que uma mulher se passa e abre uns buracos no marido com a faca de cozinha.
Por isso podem ter a certeza do que lhes digo [“Bedevilled“] não é de todo um filme exagerado. Vão por mim.

Posto isto, o que posso eu dizer mais sobre este fantástico thriller de suspanse sul coreano extremamente intenso ?
Primeiro não parece um thriller de suspanse, mas também não é um drama própriamente dito. Tem momentos mais arrepiantes que muitos filmes de terror daqueles assumidos mas também não será um filme de terror apesar das decapitações e baldes de sangue. Não será uma aventura, mas vocês passarão toda a parte final a torcer pela protagonista.

Não será um filme erótico, mas tem mais sexo do que seria de esperar embora muito violento mesmo; o que me surpreendeu bastante porque não é algo habitual no cinema oriental e em particular do Japão ou Coreia do Sul mais mainstream.
Aliás, não me lembro de ter visto até agora um filme com uma tensão sexual tão grande quando a que está presente em [“Bedevilled“] e isto de várias formas que os irá deixar em tensão total. Eu disse, tensão.

Não só as cenas de sexo pela sua violência quase que nos parecem explicitas como depois há uma carga dramática envolvendo uma espécie de história de amor lésbica não assumida ao longo de alguns momentos chave nas caracterizações das personagens principais. E isto para nem falar na tensão á volta da pedófilia que está absolutamente arrepiante, pois também aqui mais uma vez o realizador parece que nem lá está e deixa a situação falar por si.

Fiquei muito surpreendido com [“Bedevilled“] e não estava nada á espera disto.
Não será um filme a rever tão cedo, embora continue a não me sair da memória e já o vi há dias atrás; nem será se calhar uma obra prima do cinema ou particularmente um grande filme. Por outro lado se calhar até é.
A verdade é que não lhe consigo apontar qualquer falha relevante pois tudo o que faz, faz muito bem e acima de tudo mantem o espectador agarrado do primeiro ao último minuto com personagens excelentes e uma tensão constante que culmina num final inesquecível, onde ainda há espaço para pequenos pormenores e um par de twists inesperados no epílogo fechando tudo da melhor maneira possível.

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CLASSIFICAÇÃO:

Já disse tudo no texto acima, mas basta só realçar mais uma vez que isto foi a surpresa do ano pois não estava nada á espera que me saísse um filme assim.
Um filme completamente inclassificavel que passa por vários géneros e mistura-os de uma forma fantástica criando uma história cheia de personagens memoráveis com um desempenho extraordinário por parte das protagonistas, nomeadamente a rapariga que é maltratada pela comunidade. O argumento é excelente na forma como liga todos os pormenores invisiveis do filme e como nunca deixa o espectador respirar um segundo , mesmo isto sendo um filme relativamente calmo que não agradará de todo a quem estiver á espera de um filme de terror com psicopatas ou apenas á procura de uns baldes de sangue.
Um grande filme mais pela sua eficácia do que propriamente por ficar na memória cinéfilamente falando.
Fantástico e totalmente recomendado a quem quiser ver um filme de vingança inesquecível e cheio de carísma com sexo e sangue quanto baste. O cinema Sul Coreano continua vivo e de boa saúde até quando não faz filmes de amor fofinhos.
Só quero ver os americanos terem coragem para fazer um remake disto !
Cinco tigelas de noodles e um golden award porque vai deixá-los – on the edge of your seats – garanto-vos.

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A favor: a originalidade da estrutura da história, a frieza e a coragem de se escrever uma história assim, os personagens e as incriveis interpretações especialmente da actriz principal, a tensão sexual da história, a forma como se move entre géneros sempre de forma coerente, a tensão de roer as unhas a cada minuto que passa, os ultimos 40 minutos são fantasticos, montes de sangue também, optimo final, o realizador apaga-se e deixa a história falar por si.
Contra: pode ser demasiado calmo para quem procura um thriller ou um filme de terror apenas.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
NOTA: NÃO VEJAM O TRAILER ANTES DE VEREM O FILME.
*Contem SPOILERS* que nunca mais acabam !
http://www.youtube.com/watch?v=eBq0SLWNF-E&feature=related

Comprar
Em Bluray ou então em DVD baratinhos na amazon.uk

Download aqui com legendas em PT/Br

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1646959

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Se gostou, poderá gostar de:

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Koroshiya 1 (Ichi the Killer) Takashi Miike (2001) Japão


Fartei-me de rir com este filme o que só demonstra o quanto eu devo ter um grave problema mental.
Por outro lado, não deve ser tão grave quanto o do realizador Takashi Miike pois quem cria uma coisa destas terá certamente um ou dois probleminhas por resolver…
Bem-vindos a [“Ichi the Killer“] provávelmente o filme mais inclassificável de todos que referi até agora neste blog.

É tão inclassificável que a minha própria classificação não tem lógica nenhuma.
Como podem ver atribuí-lhe “apenas” quatro tigelas de noodles apesar de eu continuar a achar que isto deverá ser uma verdadeira prima de…qualquer coisa e um dos melhores filmes de Takashi Miike. Isto para não dizer que será possivelmente um dos filmes mais violentamente doentios de todos os tempos mas também um dos mais nojentamente hilariantes que alguém já teve a lata de filmar.

[“Ichi the Killer“]  é daqueles que não conseguimos tirar os olhos do ecran porque além de estarmos horrorizados, não acreditamos no que estamos a ver e é tão extremo que se torna totalmente cartoonesco, pois o horror e o nojo chegam a tais extremos que a partir de certa altura só conseguimos desatar a rir.
Atinge uma fronteira de mau gosto tal que subitamente o filme ganha contornos de animação do Road-Runner-vs-BiBip.

Tinha comprado o dvd disto há anos em promoção na FNAC (edição Pt) e foi mais outro daqueles que estava na minha prateleira a ganhar pó á espera de oportunidade para ser visto; o que é o mesmo que dizer que estava á espera que eu estivesse com disposição para ver gente cortada aos bocados em ambiente extremo.
Apesar de eu nem sequer me impressionar particularmente com filmes gore, ser grande fã do “Evil Dead” e ter até achado bastante piada ao “Hostel” entre outros títulos do género, a fama de [“Ichi the Killer“] intimidava-me. Além disso, também é um filme sobre máfias e Yakuzas e portanto a temática também não me dizia grande coisa pois não acho grande piada a filmes de gangsters e portanto nunca me tinha apetecido ver o dvd até há um par de dias atrás.

Como tinha acabado de ver o fabuloso e ultra fofinho “Sky of Love”, achei que o contraste perfeito seria espreitar agora [“Ichi the Killer“] pois gosto de espreitar títulos diferentes, até para poder manter por aqui alguma variedade de recomendações, mas nada me preparava para isto.
Para começar, estava á espera de encontrar muito sangue…mas não desta maneira completamente indiscritível. Também estava á espera de me aborrecer de morte com outra história sobre Yakuzas, patrões do crime e guerras entre gangs e acabei por me fartar de rir com as suas aventuras.
Se bem que “aventuras” não será propriamente o termo correcto por aqui, mas de uma certa maneira designa perfeitamente o sentido de humor em que se movem todos estes personagens que têm tanto de repugnante como de fascinante e hilariante.

[“Ichi the Killer“] tem tanto sangue, tanta tripa, tanta viscera, tanta violência gratuita e acima de tudo tanta, mas tanta tortura inacreditável que rebenta a escala daquilo que seria o mau gosto e passa automáticamente para um universo cartoon. Ou melhor…[“Ichi the Killer“] é o melhor equivalente ao Happy Tree Friends que poderão alguma vez encontrar numa versão cinematográfica.

É doentio como o raio, tem cenas de tortura que fariam os censores americanos se agarrarem ás Biblias para excomungar Takashi Miike da face da terra se pudessem e este meus amigos, posso garantir-vos que não irá ter um remake americano, pois até qualquer “Saw” é um filme verdadeiramente ingénuo e infantil ao pé disto.
Embora “Hostel” tenha andado lá perto, (inclusivamente conta com o próprio Takashi Miike como actor na pele de um sádico), não deixou de ter aquele ambiente americano de Hollywood e como tal há sempre um distanciamento entre o espectador e o filme.
Desafio alguém a ver [“Ichi the Killer“] e a lembrar-se que apenas está a ver efeitos especiais ! Brrrr !

[“Ichi the Killer“] não só é sangrento e visceral como raio, mas acima de tudo é extraordináriamente politicamente incorrecto, especialmente no que toca a cenas relativas a maus tratos a mulheres. Tem duas cenas de espancamento e tortura de prostitutas que se calhar se vocês forem mulheres…é melhor não verem este filme, pois isto é mesmo muito doentio. Desde mamilos arrancados com ganchos a mamas cortadas com facas, violações, espancamentos sem sentido, tudo é usado neste filme para ainda chocar mais o espectador.
No entanto, se conseguirem aguentar, o final de tanta violência é sempre tão cartoon que de repente tudo parece deixar de ser tão horrorizante assim e como já disse, isto é mesmo o melhor equivalente ao Happy Tree Friendsque poderão encontrar pela frente.

[“Ichi the Killer“] consegue usar a violência e a tortura para definir os próprios personagens, mostrar o seu estado de espirito e delinear personalidades. Conta com inúmeros personagens mas todos eles muito bem definidos e com o seu momento para brilhar. Seja a torturar alguém ou a ser torturado, cortado aos bocados, violado, espancado, decapitado, sangrado até á morte ou até mesmo colocado dentro de um televisor e espetado com agulhas de crochet ?)…

Parece que isto é já a segunda adaptação de um Manga de culto para cinema e embora da primeira ninguém tenha ouvido falar particularmente, seria impossivel [“Ichi the Killer“] ter passado despercebido nesta nova aventura. Eu imagino os protestos que isto deve ter gerado e o horror e indignação que deve ter causado por esse mundo fora. Especialmente nos Estados Unidos deve ter sido lindo !
Este é o tipo de filme que o Borat devia ter levado para projectar no meio de uma assembleia evangélica americana algures lá no Montana ou algo assim. Eu pagava para ver.

[“Ichi the Killer“] conta a típica história de rivalidades entre gangs de Yakuzas, só que vocês nunca viram vinganças como as que estão neste filme, isso garanto-vos. Essencialmente o chefe de um dos bandos desapareceu com uma pipa de massa e então o tipo mais sádico do gang começa a torturar tudo e todos na busca dessa pessoa ou de quem lhe terá limpado o sebo.

Entretanto, ficamos também a conhecer o Ichi, um tipo simpático, muito boa onda com um grave problema emocional e um sentido erótico algo perigoso que tem a mania de se masturbar enquanto vê prostitutas a serem espancadas ou violadas e tem por hobby cortar pessoas aos bocados com umas lâminas que tem acopladas nos sapatos. Muitas vezes sem querer…mesmo nas cenas de sexo oral…
Como podem ver isto é mesmo para rir, embora não seja propriamente uma comédia familiar. Ou se calhar até é.
Pensando bem…não há ninguém minimamente normal nesta história…

Portanto vejamos…por ordem…mulheres torturadas, masturbação, espancamento de prostitutas, gajos nús pendurados por ganchos a sangrarem no meio de uma sala, auto-mutilação de lingua em grande plano, sado-masoquismo e erotismo quanto baste, decapitações, pessoas cortadas ao meio literalmente de uma ponta a outra, pessoas cortadas ao meio de lado, pessoas cortadas ao meio de outras formas, decapitações, um gajo colocado dentro de uma TV e espetado com agulhas, sexo oral seguido de decapitação, sangue a jorrar da cabeça, sangue a jorrar da barriga, sangue a jorrar do pescoço, pernas decepadas, gajos esmagados, tripas a voar, rostos esfacelados e a escorrerem por paredes a sorrir, criancinhas abusadas, momentos de bullying infantil, violações de adolescentes, atrasados mentais, hipnotismo e um anti-heroi com um grande sorriso á joker.
Não, a sério, [“Ichi the Killer“] tem mesmo partes para rir … a sério. Voltem !!

E já agora…este meu texto é sobre a edição Portuga em DVD que descobri agora para variar está cortada e censurada pois foi baseada na edição internacional com os cortes da BBFC inglesa.
O que quer dizer que se o que eu vi foi uma versão censurada…agora é que tenho mesmo que ver a ver integral pois nem consigo imaginar o que poderá conter de ainda mais chocante !!!

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CLASSIFICAÇÃO:

[“Ichi the Killer“] é uma obra prima de qualquer coisa. Se calhar não se nota pela minha classificação mas isto é mesmo um filme fantástico…apenas me faz alguma confusão atribuir-lhe outra nota qualquer porque ainda nem sei o que pensar sobre tudo isto. De momento só posso dizer que [“Ichi the Killer“] é mesmo muito bom, pois consegue através de cenas de violência extrema construir personagens crediveis dentro do próprio universo da história e isto é mais do que se pode dizer em alguns outros filmes mais ambiciosos.
Se o vosso sentido de humor for suficientemente dark para conseguirem perceber todo o nonsense por detrás disto, vão adorar pois é realmente brilhante e totalmente despropositado. Faz lembrar muitos dos momentos gore presentes nalguns sketches clássicos dos Monty Python mas executados técnicamente de uma forma realística.
Quatro tigelas de noodles por agora, mas certamente irei aumentar isto quando vir a versão completa. Em breve digo aqui mais qualquer coisa.

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A favor: tudo. Acho que este filme não tem qualquer falha naquilo a que se propõe fazer, choca como o raio não só psicológicamente como visualmente, esquecemo-nos que estamos a ver efeitos especiais, tem um sentido de humor genial, parece um desenho animado do Happy Tree Friends“, a realização é excelente e percorre um sem número de estilos visuais ao longo da narrativa, consegue construir uma história interessante recorrendo apenas a cenas ultrajantes e chocantes, o Ichi é um tipo simpático.
Contra: é tão politicamente incorrecto que irá ofender mesmo muita gente que o levar a sério mas se calhar isto é uma virtude, não será propriamente o filme ideal para verem com a namorada…a não ser que sejam sado-masoquistas porque se assim for isto é intensamente romântico pois até cenas de sexo com violência consentida isto tem.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=coiVr5Pl4-s

Comprar
Não sei o que recomende, pois este filme tem tantas versões cortadas em dvd que não faço ideia de qual será a melhor opção. A portuguesa está cortada, mas podem explorar estas edições na Amazon Uk.

Donwload da versão integral não censurada com legendas em Inglés.

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0296042/

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Narok (Hell) Tanit Jitnukul; Sathit Praditsarn; Teekayu Thamnitayakul (2005) Tailândia


A genialidade do cinema Tailândes para produzir filmes absolutamente inacreditáveis não pára de me surpreender embora  nada me preparasse para me divertir tanto num filme chamado [“Hell”].

Ainda estou a tentar perceber se o filme foi feito assim de propósito ou se isto deverá ser mesmo para rir.
É que pelo trailer pelo menos fiquei com a ideia de que alguém levou esta história mesmo muito a sério e [“Hell”] supostamente deveria ser um filme de absoluto terror aterrorizantemente aterrorizante que visaria explorar o pecador que há em nós, mas…
Então porque raio é que isto é uma das melhores comédias dos últimos anos ?

Estou muito baralhado. [“Hell”] é absolutamente hilariante e tem tanta coisa divertida que nem sei por onde pegar.
Para começar é um daqueles filmes maus como o raio e um titulo que encheria de orgulho o próprio Ed Wood se este tivesse nascido na Tailândia e fizesse filmes hoje em dia. Por outro lado, [“Hell”] acaba por nem ser tão mau quanto isso, porque até tem muitas coisas boas.

Tem um conjunto de personagens muito interessante e bem trabalhado que nos faz importar com o seu destino ao longo de toda a história. Além disso tem um ritmo narrativo excelente onde estão sempre a acontecer coisas e tudo o que acontece não só é diferente e criativo como interessante de seguir; o que não deixa de ser fascinante visto que pelo visto [“Hell”] teve trés realizadores por detrás da câmara para filmar 90 minutos de aventura e fantasia.
A verdade é que tudo resulta bastante bem e nem se nota que foi um trabalho tripartido por várias pessoas.

[“Hell”] começa bastante bem, com um prólogo de mais ou menos 15 minutos onde se conhecem as vidas normais dos protagonístas e onde nada remete para aquilo que depois o filme vai mostrar. Esse início está bastante bem trabalhado e em breves vinhetas percebemos logo que os personagens não só são bastante variados como as suas vidas e problemas cativam o espectador sem precisar de haver grandes diálogos ou momentos de exposição.

No entanto quando começam as sequências sobrenaturais é que as coisas aquecem (hehe) !
[“Hell”] conta a história de um grupo de pessoas que sofrem um acidente de automóvel e são levadas em coma para o hospital. Apesar de apenas um deles estar morto e ter ido parar ao inferno o problema é que a sua alma arrastou consigo os espiritos dos companheiros que se econtravam no limbo devido ao coma e toda a gente subitamente se vê transportada para o Inferno (esse mesmo) numa espécie de viagem de finalistas com muitas surpresas á mistura.

Quando estes chegam ao Inferno,  parece que de repente voltamos aos anos 80 e áqueles filmes que tentavam copiar Conan o Bárbaro de John Millius mas faziam-no sem orçamento nenhum filmando tudo numa pedreira local com montes de gente em tronco nu e machados de plástico. Como tal a primeira impressão que temos do Inferno enquanto espectadores é que o filme está lixado pois tudo vai ser do piorio dali para a frente.

Na verdade, é e não é.
Eu explico.
Tendo em conta a óbvia falta de orçamento de [“Hell”] não deixa de ser muito surpreendente constatarmos no ecran o esforço dos criadores deste filme para tentarem criar ambientes épicos larger than life sem terem dinheiro para o fazer correctamente.
Como tal, mal chegamos ao local onde as coisas começam a ficar quentes, constatamos que o Inferno é mesmo uma colecção de maus efeitos digitais no pior estilo Photoshop amador como já vem sendo tradição no moderno cinema Tailandês e onde parece que ninguém leu o manual de como se faz uma boa montagem digital.

Além disso, também não deixa de ser infernal termos que levar quase sempre com um incómodo filtro vermelho constante por cima de quase todas as sequências no exterior do Inferno. Sim, porque o Inferno também tem interiores.
Na verdade o Inferno parece ser um mundo de fantasia fascinante e onde se nota um grande esforço para tentar criar uma atmosfera infernal coerente a todo o instante por parte dos criadores do filme.
É como uma espécie de Terra Média (onde nem faltam uns gajos tipo Huruk-Hai), montada a Photoshop e filmada numa pedreira atrás do estúdio local, mas não há dúvida que a coisa até resulta bem melhor do que eu alguma vez esperaria quando me apareceram pela frente as primeiras sequências passadas no Inferno em [“Hell”].


Essencialmente ficamos a saber que o Inferno tem uma saída e que independentemente dos erros que tivermos cometido na Terra quando acabar a nossa pena lá , temos direito a uma nova reencarnação.
É assim como ir á tropa para os comandos, sofrermos como o raio na recruta mas depois seguir em frente depois de todas as torturas, o que não é um mau conceito, tendo em conta que na versão ocidental do local parece que a malta fica lá para sempre se for parar ao Inferno.
Neste não e como tal quando os herois descobrem esse pormenor todo o filme gira em volta da sua tentativa de voltar para casa, até porque quase todos foram lá parar por engano.

Tudo isto resulta bem em [“Hell”], a ideia está engraçada, nota-se o esforço para criar um mundo paralelo com identidade e a estrutura de filme de fantasia até quase resulta.
Então porque isto é tão hilariante assim ?
Bem para começar as cenas de terror são de cair a rir. [“Hell”] esforça-se tanto por ser um filme gore daqueles extremos ao nível nojento que á força de tanto exagero acaba transformado num desenho animado da Warner Bros com bocados de corpos a saltar por todos os lados.

As cenas de tortura em [“Hell”] são a melhor comédia involuntária dos últimos anos e são tão crueis e sangrentas que não conseguimos conter as gargalhadas, especialmente na sequência em que os herois exploram a área onde as almas pecadoras são retalhadas, sangradas, enforcadas, esquartejadas, queimadas vivas, violadas, etc, etc, etc.
Tudo hilariante!
A sério, este filme tem as cenas de terror mais cómicas dos últimos anos, precisamente porque parece levar tudo aquilo muito a sério e a ideia parece ter sido a de arrepiar o espectador tentando-o convencer a levar uma vida sem pecado, pois de outra maneira irá acabar neste sítio.
Aliás , toda a premisa em [“Hell”] é de que isto é uma história verdadeira. Acreditem se quiserem.

[“Hell”] é um filme tão pregador e moralmente educativo que mais parece um produto encomendado por uma daquelas igrejas evangélicas para assustar os fieis, pois isto é a típica e hilariante visão do inferno que costumam impingir e não tenho a mínima dúvida de que para muita gente [“Hell”] mais do que um filme de terror, será mesmo um documentário ! 🙂


Não há muito mais para dizer sobre isto. É divertidissimo, tem tanto aspecto positivo quanto negativo e mesmo assim, muito do negativo acaba por se tornar positivo. Isto porque esta coisa de se conseguir fazer um mau filme, tão mau que se torna genial não é para toda a gente mas estes tipos conseguiram-no plenamente.

[“Hell”] é genial em todos os sentidos porque é mau demais para ser verdade e no entanto resulta num nível completamente diferente do pretendido originalmente, aposto. É um série B de fantasia curioso, é uma comédia involuntária e pretende ser um filme de terror e esforça-se tanto por isso que a coisa segue exactamente o rumo oposto.
E ainda bem, pois nunca viram nada assim.
Eu por mim, depois disto só me apetece ir pecar.

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CLASSIFICAÇÃO:

Um verdadeiro filme de culto a pedir que seja descoberto.
Uma das melhores comédias involuntárias dos últimos tempos e mesmo assim consegue ser um filme de aventuras divertido com uma boa utilização do sobrenatural e algum drama bem inserido pelo meio.
É um produto muito estranho mas que resulta a vários níveis e vale mesmo a pena ser visto pelo menos uma vez, tanto por quem gosta de filmes de terror gore, como por quem quer ver um filme de fantasia com um conceito curioso.
Trés tigelas e meia de noodles, porque vale mesmo a pena e é bem mais divertido do que parece á primeira vista.

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A favor: bom grupo de personagens, conceito curioso e com detalhes bem desenvolvidos na história no que toca ao sobrenatural, tem baldes e baldes de sangue e pessoas a serem torturadas por todo o lado e por isso é hilariante porque nada resulta com o efeito de horror esperado, apesar do baixo orçamento a criação do mundo do Inferno está bem conseguida e variada quanto baste em termos de ambientes, tem um bom ritmo narrativo e está sempre a acontecer qualquer coisa divertida, tem tudo para se tornar num grande filme de culto pois é uma sangrenta e divertida aventura.
Contra: parece uma história moralista de propaganda cristã evangélica e poderá ser considerado um documentário serissímo por muito boa gente, parece um filme encomendado por um daqueles movimentos Pro-Vida hilariantes pois está cheio de contos morais e castigos infernais contra quem aborta, os efeitos especiais são do piorio, nota-se que não houve grande orçamento até para os cenários que apesar de variados são algo despidos de pormenores.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=GDde_REU-Bo

Comprar
http://www.play.com/DVD/DVD/4-/933740/Hell/Product.html

Download aqui com legendas PT/Br

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0467628

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Pen choo kab pee (The Unseeable) Wisit Sasanatieng (2006) Tailândia


Desde “A Tale of Two Sisters” que não encontrava um thriller sobrenatural tão fascinante e portanto fiquem já a saber que [“The Unseeable“] leva logo uma classificação excelente porque é realmente cativante.

Ainda ponderei seriamente não lhe atribuír as cinco tigelas de noodles e o golden award que lhe dou e ficar-me apenas pelas cinco tigelas de noodles “apenas“, mas depois de pensar muito no assunto, percebi que estava a diminuir o valor de [“The Unseeable“]  só porque é mais um filme do realizador Wisit Sasanatieng e isto já parece suspeito eu estar a dar tanta classificação máxima a todo e qualquer filme dele que me passa pela frente.

Já o fiz com “Citizen Dog” e depois com “Tears of the Black Tiger” e portanto, agora até a mim me parecia estranho voltar a dar novamente a classificação máxima a outro filme deste realizador, especialmente tendo em conta que até há menos de um mês atrás eu nunca tinha ouvido falar do tipo.
Mas a verdade é que também adorei[“The Unseeable“] e acho que está carregado de coisas que o tornam não só num dos melhores filmes sobrenaturais desde o extraordinário “A Tale of Two Sisters” mas também num produto com uma identidade muito própria que merece ser valorizada.

Isto, mesmo apesar de [“The Unseeable“] nem ter nada de muito original, pois essencialmente vai beber a todas as referências clássicas e mais algumas dentro do género de filme com casas assombradas.
Na verdade não me lembro de haver qualquer coisa minimamente original na história de [“The Unseeable“]. Desde a premisa á volta da casa isolada, até ao próprio –spoiler– presente no titulo do filme tudo indica ao espectador que irá ver não apenas uma história idêntica a tantas outras mas essencialmente um filme homenageia todo o cinema clássico sobrenatural que já vimos em Hollywood mas desta vez transposto para as paragens da Tailândia.

E isto não poderia ter resultado melhor. Quando percebemos que em [“The Unseeable“] não iremos ver nenhuma história particularmente surpreendente ou original, estamos livres enquanto espectadores para nos envolvermos na atmosfera clássica e deixarmo-nos levar pelo seu tom assombrado que é a grande força deste filme.
[“The Unseeable“] é um filme assombrado e tudo nele remete para um ambiente quase encantado e perdido no tempo, onde, aposto a própria época em que a tudo se passa terá sido pensada para ainda aumentar mais esse efeito.

Essencialmente conta a história de uma rapariga que viajando em busca do marido desaparecido, chega a uma quinta isolada numa região remota da Tailândia seguindo uma pista do seu paradeiro. Grávida e prestes a ter o filho, vê-se obrigada a servir como empregada nessa casa em troca do abrigo e a partir daí tudo aquilo que o espectador espera, acontece.
Curiosamente [“The Unseeable“] é um filme muito parecido com outro grande sucesso, produzido em Hollywood há alguns anos atrás e realizado em Espanha mas é melhor não revelar o nome desse título porque acabaria por ser mais um spoiler e este filme já é suficientemente previsivel para que eu lhes estrague ainda mais as coisas.

Embora, o facto de ser bastante previsível, não signifique que a história seja particularmente básica. Pelo contrário, [“The Unseeable“] tem um excelente argumento cheio de pequenos pormenores que os fará querer voltar a vê-lo porque não apanharão tudo á primeira, pois este filme é um verdadeiro festival de texturas tanto a nível visual como no que toca ás várias camadas da própria história.
Não será propriamente tão complexo quanto, “A Tale of Two Sisters” e é bem menos labírintico que esse fantástico titulo sul-coreano, mas se gostaram desse vão gostar muito de [“The Unseeable“] pois são muito semelhantes em termos de estrutura.

Têm também em comum o facto de serem dois filmes que vão muito para além do filme de terror, por isso tal como “A Tale of  Two Sisters”, também [“The Unseeable“] é um daqueles raros filmes sobrenaturais que muito provavelmente irão agradar bastante até aquelas pessoas que normalmente nem gostam muito de filmes de terror ou têm medo de os ver.
[“The Unseeable“] não será propriamente um filme de terror puro, porque na verdade até nem é tão assustador assim e nem sequer o seu final “chocante” causa aquele arrepio inesperado na espinha precisamente por seguir o estilo clássico de toda a história e como tal ser tão previsível.
Por isso estamos na presença de um titulo muito recomendável até para quem não costuma gostar de cinema deste género.

Estamos essencialmente na presença de uma história sobrenatural e o terror acaba por ser a consequência e não o objectivo.
[“The Unseeable“] contém um par de bons sustos, mas não abusa deles porque prefere “abusar” do ambiente encantado desconfortável que nos faz passar o filme todo a pensar que há algo de muito errado naquela casa onde as sedas transparentes nos décors substituem os corredores escuros e as sombras do costume.
Arrepia mais a interacção dos personagens em ambientes supostamente normais nesta história do que própriamente as típicas cenas com fantasmas que também as tem e isto muito graças ao talento visual do realizador que mais uma vez cria uma obra intensamente gráfica e onde cada imagem é um verdadeiro quadro.

Um quadro, desta vez pintado em tons sépia intercalado por verdes  misteriosos  e também aqui o realizador volta a surpreender quem como eu esperava um filme bem mais assumidamente gráfico em modo histérico como tinha sido a regra nos filmes anteriores.
[“The Unseeable“] troca-nos as voltas visualmente e mantém-se sóbrio durante toda a sua história o que só demonstra o talento deste tipo para conseguir mudar de registo estético sem nunca perder o seu dom para contar histórias visualmente muito cuidadas onde nunca se descura o argumento.

Tudo funciona em [“The Unseeable“] e surpreende porque consegue ser um excelente filme sobrenatural sem precisar de ser particularmente original. Temos uma casa assombrada visualmente perturbante e cheia de corredores escuros quanto baste, temos fantasmas criançinhas para nos darem cabo dos nervos, personagens cativantes e onde nem sequer falta a típica governanta antipática e absolutamente arrepiante ao melhor molde clássico.

E ainda por cima há um sentido de humor absolutamente surpreendente em [“The Unseeable“] que eu não estava nada á espera, pois o realizador consegue brincar completamente com o suspanse e as expectativas dos espectadores quando nos prega um susto ou dois com um par de momentos humorísticos quando nós esperariamos arrepiar-nos com algo muito assutador.

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CLASSIFICAÇÃO:

Quase, quase tão bom quanto “A Tale of  Two Sisters” embora lhe falte a originalidade que se calhar merecia ter tido.
Por outro lado, é um grande filme sobrenatural e um thriller misterioso que irá agradar até aquelas pessoas que normalmente não gostam de filmes deste género.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award porque gostei mesmo muito e manteve-me agarrado ao ecran do primeiro ao último minuto apesar de toda a previsibilidade da história e do desenlace final.

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A favor: o realizador não se repete e inova a sua própria estética, a atmosfera visual é fantástica, a casa tem pilhas de atmosfera, tudo tem um sabor clássico e assume-se totalmente enquanto homenagem visual ao melhor daquilo que já vimos noutros sitios, os personagens são trágicamente cativantes, tem fantasmas criancinhas e vozes infantis no escuro, tem momentos de humor muito bem colocados para nos fazer realmente respirar de alívio nos sitios certos embora totalmente inesperados, a história é previsivel mas cheia de pequenos e complexos pormenores que os fará querer voltar a rever este título, o personagem da governanta clássica está perfeito e vão adorar odiá-la e teme-la, a fotografia do filme é fantástica, está cheio de imagens extraordinárias, é um filme cheio de textura em muitos sentidos, agradará até aqueles que normalmente nem gostam de filmes de terror, como filme sobrenatural é um thriller excelente, consolida a minha fé no cinema tailândes depois de tanto filme péssimo que costuma sair daquele país.
Contra: tudo é por demais previsível e perde totalmente aquele impacto final que deveria ter tido e não tem a partir do momento em que o mistério começa a ser revelado, o trailer é mais assustador que o filme, não é tão bom quanto “A Tale of Two Sisters” apenas porque a história é mais simples e previsivel.

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NOTAS ADICIONAIS:

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=tKg35cY4GhQ

Comprar
http://sensasian.com/product.php/en/V14981H-D/

Download aqui

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0950500/combined

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Se gostou deste poderá gostar de:

A Tale of Two Sisters

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Missing (Missing) Tsuy Hark (2008) China


Parece que ultimamente ando a dar nos filmes sobrenaturais/terror mas tem sido pura coincidência.
Na minha busca por histórias originais procuro sempre ver aquilo que mais me desperta a atenção e neste caso isso trouxe-me agora até [“Missing“].
Se eu procurava originalidade, originalidade foi aquilo que obtive o que só prova que se calhar ás vezes não é boa ideia conseguirmos aquilo que queremos.

Sabem aqueles filmes que nunca mais acabam ?
Aqueles que parecem durar para sempre, não por serem chatos mas porque de cada vez que nos preparamos para nos levantarmos da cadeira parece que afinal ainda há mais qualquer coisa para ver, e depois mais qualquer coisa, e mais e mais…
E mais.
E finalmente…
Ainda mais.
[“Missing“] é um desses filmes, mas testa a nossa paciência até ao limíte de uma forma que ainda não tinha encontrado.
Não há nada de errado com twists e reviravoltas quanto baste quando temos pela frente uma história que nos agarra. O pior é quando o argumento de um filme é tão desconjuntado e sem ponta por onde se lhe pegue que uma pessoa fica farta.
[“Missing“] é um filme assim. É a versão cinematográfica do Coelho da Duracell só que em versão “pilha dos chineses“.

E pior ainda é quando ficamos fartos, não porque a história seja desinteressante, mas porque na realidade tem tanto potencial que se torna extremamente irritante estarmos a acompanhar a sua total destruição no ecran sem conseguirmos tirar os olhos dele porque apesar de tudo há sempre mais qualquer coisa a surgir para nos tentar trocar as voltas.
Eu só me pergunto, com tanto que poderia ter sido feito á volta do primeiro argumento para cinema sobre as fantásticas ruínas de Yonaguni e o melhor que sai cá para fora á volta deste polémico e fascinante tema é um filme como [“Missing“] ?!! Mas que raio é isto ?!!

E menos ainda compreendo quando inclusivamente parece que a produção se deu ao trabalho de filmar sequências subaquáticas nas próprias ruínas de Yonaguni, que tem inclusivamente fama de não ser um local nada fácil para se mergulhar.
Para quê ?! [“Missing“]  poderia ter sido passado á volta de umas ruínas fictícias quaisquer filmadas no fundo de uma piscina em Hong Kong que não faria qualquer diferença para a história e eu detesto este sub-aproveitamento de potencialidades em cinema. A última foi a do Michael Bay no Transformers-3 quando usa a fascinante polémica da Apollo 11 + supostas ruínas lunares para introduzir mais robots gigantes para outra sessão de porrada, mas de hollywood já não se espera muito no que toca a imaginação.
A verdade é que [“Missing“] é uma desilusão e não é apenas por causa do sub-aproveitamento de Yonaguni. Seria bom que o fosse.

Começa muito bem, o genérico promete, a estética do filme tem qualquer coisa de estranho mas com uma boa identidade visual, os personagens parecem interessantes á partida e isto para não falar de toda a atmosfera que se gera logo á volta do mistério de Yonaguni e das boas cenas de mergulho captadas no local.
Vinte minutos depois do início, começamos a ter indícios de que qualquer coisa estranha se está a passar com o argumento mas nada nos prepara para a confusão geral de temáticas, géneros e ideias que nos cairá em cima no par de horas seguintes culminando naquele final absolutamente interminável que dura e dura e dura e dura …

Mas afinal o que há de tão errado em [“Missing“] ? Bem, na verdade tudo.
Na ideia de serem os mais originais possíveis, os criadores deste filme parece que se excederam um bocadinho e misturaram géneros que vistos isoladamente até poderiam ter funcionado bem, mas tal qual certos ingredientes nunca se conseguem misturar naturalmente numa receita, também aqui o bolo sai algo indefinido.

[“Missing“] (não) tenta ser um filme de aventuras, (não) tenta ser um filme de terror, (não) tenta ser um filme sobrenatural, (não) tenta ser um filme romântico e consegue falhar em tudo. Quanto mais houvesse mais este filme falharia redondamente e a partir de certa altura torna-se quase angustiante assistirmos aquilo que mais parecem tentativas do realizador e do argumentista para remendar um barco a se afundar do que a outra coisa qualquer e o pior é que parecem não querer desistir ! E dura, e dura, e dura…

Não é que o filme tenha falta de ritmo, o problema está mesmo na falta de ligação entre as ideias.
Como filme de aventuras (até mesmo ficção-científica) é nulo, continua como filme sobrenatural mas não se percebe qual é a ideia afinal, finalmente entra pelo filme de terror mas mais parece uma comédia que não dá vontade de rir e muito menos mete medo (embora contenha um susto excelente pelo meio) e termina em estilo thriller de acção com uma pitada de twilight zone que não tem ponta por onde se lhe pegue. Muito menos o tão esperado twist tem qualquer impacto pois nessa altura o espectador já está tão farto de tentar aturar esta história pela sua incoerência que já nada importa.
Mas a coisa não acaba aqui.

Depois da reviravolta final, ainda entra pelo drama psicológico durante alguns minutos e depois acaba em força em estilo de drama romântico oriental com uma particularidade.
Vocês nunca viram história de amor mais rasca, vazia e banal do que esta. Banal e extremamente irritante !
Este filme faz coisas como “Duelist“, “Bichunmoo” e “Shinobi” parecerem épicos românticos !!!
Ao longo de [“Missing“] a colagem ao género love-story é notório, mas isto ganha contornos de epidemia num dos múltiplos finais da história onde a suposta relação amorosa dos protagonístas se calhar deveria colocar-nos a chorar.
Pois bem, falharam redondadamente.
Por esta altura a gente só quer que eles se lixem  !

Há muito tempo que não via um filme que assenta essencialmente numa história pretensamente carregada de romantismo com tanta falta de emotividade !
A propósito querem saber do que trata [“Missing“] ?
A sério ? Ok, está bem…já que tem que ser…

Uma rapariga conhece e apaixona-se por um rapaz que tem uma irmã, vão todos numa expedição de mergulho a Yonaguni onde o rapaz sofre um misterioso acidente e desaparece. Obcecada por saber o que afinal aconteceu ao amor da sua vida a rapariga vai tentar resolver o mistério que entretanto mete fantasmas bonzinhos, assombrações manhosas, zombies, doentes mentais, psiquiatras que comem na tromba, cientistas que não servem para nada na história além de serem apunhalados pelas costas, gajas alucinadas , fantasmas secundários e montes de amor e choradeira romântica a um ponto que os irá fazer ir ás lágrimas.
De tédio.

No final disto tudo, eis que descubro a razão porque o filme era assim.
Afinal tudo [“Missing“] é mais um filme de Tsuy Hark e eu ainda não tinha reparado !!!
Aliás, só notei agora quando o fui procurar no IMDB e não deixa de ser fascinante como mais uma vez outro dos piores filme orientais que vi na minha vida tem a assinatura deste mesmo realizador !! (?!!)
Nunca hei de entender tanta reverência á volta deste tipo. Acho que nunca vi um filme deste homem que não fosse um produto todo desconjuntado e nem sei como não tinha reconhecido o estilo antes !
Talvez porque estou mais habituado a Tsuy Hark a (tentar) filmar histórias medievais , arte-marciais ou de fantasia wuxia do que própriamente histórias de amor supostamente fofinhas e não deixa de ser interessante constatar que Tsuy Hark afinal também NÃO sabe fazer filmes de aventura, muito menos de terror e espero sinceramente que não volte a tentar fazer outra história de amor.
Se for esta a primeira história de amor oriental que tiverem o azar de ver na vossa vida, olhem que o género não é todo assim !!!

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CLASSIFICAÇÃO:

Talvez a pior história de amor oriental que alguma vez vi e um péssimo exemplo do género para aquelas pessoas que tiverem o azar de começar por aqui  quando em busca de dramas românticos.
Um dos piores e menos assustadores filmes sobrenaturais ou de terror que vi até hoje em qualquer cinematografia.
Uma história completamente desconjuntada sem ponta por onde se lhe pegue e com um final que irrita mais do que emociona. Ou melhor, não emociona nada ! A não ser que a irritação possa ser considerada uma verdadeira emoção saída desta história.
Muito, muito mau e não é de forma nenhuma a história que as ruinas de Yonaguni estavam a pedir há tanto tempo.
Uma tigela e meia de noodles. Na verdade só vale uma, mas dou mais meia por ser passado em Yonaguni um dos meus locais misteriosos favoritos do planeta e é sempre bom ver imagens do local.

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A favor: o genérico, as cenas subaquáticas em Yonaguni, tem uma identidade visual interessante, tem um susto excelente !
Contra: é um emaranhado de boas ideias totalmente mal desenvolvidas, falha em todos os géneros que tenta introduzir a martelo, como filme de terror é quase para rir, é o pior filme romântico que me lembro de ter encontrado em muito muito tempo, tem finais múltiplos que nunca mais acabam numa tentativa de remendar um argumento já totalmente afundado, a quimica romântica entre personagens é nula, Yonaguni não serve para nada.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailers
http://www.youtube.com/watch?v=Bpic0qKzr0c&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=Bpic0qKzr0c&feature=related

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IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0896815/combined

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