The Grandmasters(s) (Yi dai zong shi) Wong Kar Wai (2013) China


Quem não conhece o trabalho de Wong Kar Wai enquanto realizador e parte para [“The Grandmaster(s)”] convencido pelo trailer americano de que isto vai ser um filme de Kung-Fu ou uma aventura do Ip Man no reino da porrada de criar bicho cedo descobre que foi enganado pela forma como o filme lhe foi vendido e talvez isso explique o apedrejamento que esta incrível obra prima visual está a sofrer em praticamente todos os forúns públicos pela internet fora aqui no ocidente. Ou melhor, mais pelo lado americano como não podia deixar de ser.

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Felizmente não por toda a gente, mas é certo que o público do cinema de acção genérico (leia-se -á americana-) parece estar a descarregar bem a sua raiva por lhe terem vendido um filme que é bem mais do que a típica aventura de artes marciais a que estamos habituados no ocidente.
E desta vez até lhes dou razão.
Não há dúvida que [“The Grandmaster(s)”] não é de todo o filme de porrada que aparenta nos trailers. Em particular nos trailers remontados nos estados unidos. Há um então com aquela voz gringa estilosa do costume que é de cair a rir ou de chorar consoante a perspectiva.

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Os distribuidores americanos parece que pensaram que a melhor maneira de vender [“The Grandmaster(s)”] no ocidente seria enganar o público e tentar levar o máximo de gente ás salas convencidos que iam ver um filme de aventuras ou cinema de artes marciais como os americanos pensam que os filmes de artes marciais devem ser.
Resultado, o público tem toda a razão em sentir-se enganado e se calhar eu também protestava.

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Na minha opinião, no entanto estão a escolher o alvo errado. Se calhar em vez de apedrejarem o filme, deveriam mas era apedrejar a distribuidora gringa que resolveu ocidentalizar o trailer de forma a meter o maior número de pessoas nas salas pensando que iam ver um blockbuster.
Isto porque está a acontecer uma coisa interessante que não deixa de ser sintomática da forma como Hollywood formatou e estereotipou –o gosto– dos frequentadores de salas de centro comercial nestas últimas décadas.
Quem ataca o filme por ser uma seca, ter história a mais e porrada de menos, não são sequer a maioria dos apreciadores do puro cinema de artes marciais oriental pois muito desse mesmo público tenta inclusivamente defender [“The Grandmaster(s)”] perante os ataques de muitos “cinéfilos” ocidentais a espumarem desapontamento pelos blogs, youtube e afins.

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Quem ataca o filme são essencialmente aqueles espectadores que tanto foram ver isto por ter karaté pelo meio como iriam ver outro blockbuster qualquer saído dos enlatados que Hollywood lhes mandasse ver nesse fim de semana. Aliás, praticamente toda a gente ataca o filme porque ele no trailer ocidental parecia um blockbuster épico de cacetada e pontapés nas trombas e no fim saiu um épico sim senhor, mas um drama épico. Ainda por cima um drama com uma estrutura narrativa totalmente fragmentada que não transporta o espectador pela mão da cena A à cena B mas pede-lhe que esteja atento e construa por si próprio a narrativa; o que deixou logo muita gente desconcertada porque veio ver porrada e depois ainda teve que pensar…e pior, o filme não tem maus nem bons, nem nada !!! Onde está o vilão ?!!!

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O que eu acho absolutamente fascinante é [“The Grandmaster(s)”] estar a ser tão atacado por ter paleio a mais e porrada a menos quando cenas de acção é coisa que não falta neste filme.
É que [“The Grandmaster(s)”] tem porrada de criar bicho sim senhor; apenas não está colocada dentro de uma história linear à americana e esse facto desorienta logo 90% dos espectadores americanos e americanizados que de repente ficam tão baralhados ao (não) tentarem perceber o que se passa na história que nem notam que o que não falta neste filme são sequências de acção !
E nem são tão pequenas assim. A história conta com inúmeros duelos muito variados espalhados por todo o lado e portanto esta ideia de que o filme é uma grande seca porque não tem acção –bem feita- só demonstra o quão formatadas pelo pior de Hollywood estão as audiências ocidentalizadas.

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Por entre as duas horas e meia de drama não linear, [“The Grandmaster(s)”] conta com muitos e largos minutos de fabulosas cenas de artes marciais.
Talvez, o problema aqui seja porque o filme em muitos momentos até usa essas cenas de porrada para contar uma história e é isto a que o público ocidental não está habituado.
Esta coisa de se usar artes marciais como veículo narrativo do que se passa no argumento deixa muita gente baralhada sem saber a que deve prestar atenção.
Isto porque no ocidente estamos habituados a que as cenas de acção sejam quase o intervalo das histórias. Ou seja no cinema de Hollywood, as cenas de acção são qualquer coisa que serve para “descansar” da história, são aquilo que se passa no meio de qualquer coisa e normalmente não tem mais porpósito do que tentar impressionar as plateias com o efeito especial da moda.

The Grandmaster Zhang Ziyi

Acontece que em [“The Grandmaster(s)”] isso não é bem assim. Se calhar não se irão aperceber a um primeiro visionamento porque o filme apanha-nos realmente de surpresa, (até mesmo a quem está habituado ao cinema de Kar Wai), mas uma das coisas mais fascinantes neste filme sobre artes marciais é a forma como usa as próprias artes marciais para falar delas.
As artes marciais aqui não estão no écran apenas para impressionar as plateias comedoras de milho ocidentais mas são a alma do próprio filme. Aliás são quase como poesia visual.
A forma como a luz é usada por vezes provoca mais adrenalina do que a própria sequência de acção ao mesmo tempo que a torna totamente única e visualmente poética pois inclusivamente as artes marciais afectam a própria vida dos personagens a muitos mais níveis do que apenas terem levado uns tabefes e ficarem com vontade de se vingarem.
Uma das grandes mais valias deste filme está na forma como apresenta as artes marciais como sendo um modo de vida, uma herança cultural de um povo e não apenas um conjunto de socos e pontapés que o “heroi” aprende num daqueles “mosteiros de Shaolin” estereotipados por Hollywood como costumamos ver no cliché mais piroso.

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[“The Grandmaster(s)”] é um filme sobre artes marciais.
Não é um filme de artes marciais.
Até eu fiquei desorientado ao inicio, pois a primeira meia hora de filme parecia-me muito hermética e pensei seriamente que não iria atribuir uma classificação tão boa a isto quanto acabei por achar que merece.
Eu que detesto filmes sobre Máfia, gangsters; todo aquele ambiente sobre “Famílias”, rivalidades entre Clãs e universos semelhantes, durante a primeira meia hora estava a começar a ficar farto da atmosfera pois fazia-me lembrar “O Padrinho” de Coppola a todo o instante e pensei que isto não iria muito longe.

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[“The Grandmaster(s)”] ao início constrói um universo muito semelhante á volta da honra, da rivalidade entre chefes de clãs e tudo aquilo que remete imediatamente para a atmosfera do filme de máfia tal como Coppola o recriou nos seus clássicos e isso começou a afectar seriamente a minha atenção e predesposição para continuar a ver o filme, pois eu realmente detesto coisas sobre famílias do crime e pensei sinceramente que esta obra não ia passar de mais uma sobre honra e vingança entre clãs rivais, em versão Hong Kong e estereotipada atá ao limíte. Coisa que felizmente logo percebi a tempo que não seria de todo.

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Ao contrário do que é habitual no cinema de Kar Wai, desta vez a atmosfera do filme constroí-se pelos rostos, pelas pessoas, pelos retratos e não pela envolvência do cenário o que torna logo o filme bastante fechado em termos visuais. Se isso me apanhou de surpresa, imagino a cara do público que foi ver isto ao cinema pensando que era mais um título de aventuras ou um novo episódio da série –Ip Man– que lida essencialmente com cenas de kung-fu.
Essencialmente [“The Grandmaster(s)”] é um filme de interiores, um estudo visual sobre rostos humanos,  sobre fotografias paradas no tempo mas também uma história sobre sentimentos…o que para quem esperava ver uma aventura apenas com pontapés nas trombas imagino como se deve ter tornado frustrante.

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Eu confesso que levei pelo menos 45 minutos a recuperar do choque. E olhem que eu não esperava um filme de acção. Esperava um Wong Kar Wai mais aberto em termos de espaço cénico e toda aquela intimidade de espaço quase claustrofóbico desconcertou-me bastante ao início.
Até que de repente fez-se um clique cá dentro.
Assim que percebi o quanto [“The Grandmaster(s)”] era realmente um filme sobre artes marciais fiquei absolutamente fascinado pois nunca tinha visto nada assim antes dentro do género e já não consegui sair de frente do écran.
Mesmo que quisesse a partir de certa altura as verdadeiras pinturas de luz com que Wong Kar Wai inunda o écran cativaram-me por completo e o filme poderia ser sobre relva a crescer que se a relva tivesse sido tão bem filmada quanto este filme o é eu teria continuado a ver na mesma.

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Eu próprio também condicionado pela ideia que temos de artes marciais aqui pelo ocidente (até por culpa dos clubes desportivos também e da imagem sobre (blargh) desporto em geral), nunca me tinha passado pela cabeça de uma forma realmente consciente que por detrás de toda a espectacularidade  haveria um lado muito profundo, bem para lá do aspecto contorcionista da coisa que normalmente é a única vertente explorada pelo cinema de acção. Nunca me tinha apercebido o quanto as artes marciais na china fizeram inclusivamente parte de um modo de vida e definiram o rumo de gerações. O que é muito bem retratado nestea obra e por o fazer de forma visualmente extraordinária está a ser atacada por muita gente que não pedia mais que isto fosse apenas um titulo de karaté nas fuças.

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[“The Grandmaster(s)”] mesmo que não prestasse para mais nada, é fabuloso na forma como explica ao espectador o que está na verdadeira essência das artes marciais.
É fabuloso na forma como nos apresenta toda a alma e principalmente como demonstra muito bem o quanto é extraordinária esta tradição que se ramificou numa dezena de estilos que chegaram até nós claramente deturpados, bem longe da carga filosófica original e acima de tudo da importância cultural que este filme tão bem reproduz.
Eu que pensava que já tinha visto tudo sobre artes marciais e não tinha qualquer interesse no tema pois sempre o vi mais como uma temática desportiva alimentada por pseudo-paleio-new-age de treinadores ocidentais, fiquei absolutamente surpreendido com a profundidade desta história e com o que o filme nos ensina sobre esta verdadeira herança cultural da humanidade.

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Quem pensa que sabe tudo sobre artes marciais e quem pensa que as artes marciais não são mais do que técnicas de luta deve ver este filme sem sobra de dúvida, pois se calhar irá surpreender-se com a carga inimista, filosófica e até sentimental que muitas destas tradições carregam afinal em milénios de história.
Wong Kar Wai está de parabéns por ter feito um filme que realmente mostra as artes marciais como nunca se tinham visto até hoje no cinema. E ainda por cima mostra-o sem evitar um estilo mais comercial apenas este está disfarçado de cinema de autor ou vice-versa. E resulta ? Se resulta !!
Adoro a envolvência dos personagens e acima de tudo consegue ser um filme sobre vingança que não envolve os habituais clichés, até na forma como não utiliza sequer -um vilão.
O verdadeir mau desta fita é a modernidade que chega com o passar dos anos e a forma inevitável como o tempo acaba por destruir tudo o que um dia foi importante para alguém.
Na verdade se há um tema central neste filme é o de que o tempo tudo consome mas tudo tem o seu tempo.

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E o realizador consegue passar tudo isto de uma forma muito simples e acima de tudo, de uma maneira totalmente despretensiosa.
Comarem este “cinema de autor” com coisas verdadeiramente atrozes e pseudo-intelectualoides como “Visage” e vão notar uma grande diferença certamente.
Wong Kar Wai para mim actualmente é uma das melhores portas de entrada para o chamado cinema de autor, mas cinema de autor que não se tenta armar em inteligente. Apenas tem uma forma diferente de contar uma história.
Neste momento acho que o trabalho do realizador se encontra exactamente entre o comercial e o menos comercial, sendo [“The Grandmaster(s)”] o perfeito exemplo desse equilíbrio tão fascinante do seu cinema actual.
O filme na realidade parece mais complexo e intimista do que na realidade é. Apenas tem um estilo que não é americano. Nada mais.
Mal o espectador aceita as regras da história e percebe o que o realizador está a tentar passar sobre a tradição das artes marciais, o filme parece que se abre a um universo totalmente novo perante os nossos olhos.

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As cenas de acção são absolutamente incríveis, não pelas coreografias mas pela forma como estão filmadas. Quem conhece bem o estilo Kar Wai vai adorar a forma como ele mais uma vez cria poesia visual em cada frame.
E imagens lindíssimas é coisa que não faltam neste filme. Sejam, segmentos com chuva a cair, gotas de sangue contrastando com o azul do chão, nevoeiro que cria cenários de sonho ou a forma como filma cada rosto até no meio das mais intensas cenas de acção, [“The Grandmaster(s)”] tem imagens que vão ficar na vossa cabeça durante dias após terem visto o filme.
É uma espécie de cruzamento entre “2046” e “In the mood for love” com um novo look ainda mais intimista mas sempre baseado em luz e sombra como só Kar Wai consegue criar actualmente no cinema.

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Sendo um filme sobre pessoas, a maneira como Kar Wai filma cada figura humana é incrível e pelo menos eu nunca tinha visto nada assim. Há frames em que parece que até o figurante mais simples tem uma história por contar.
Há enquadramentos com figurantes que nos fazem querer ficar a saber mais sobre as suas vidas.
Kar Wai consegue com uma imagem de um figurante anónimo criar mais alma num “personagem” do que mil linhas de guião o fazem naquele tipo de filmes que os espectadores ocidentais gostariam de ter visto em lugar deste.

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[“The Grandmaster(s)”] tem a melhor colecção de retratos e imagens extraordináriamente poéticas sobre pessoas que eu vi em cinema em muitos muitos anos.
Cada rosto, quase que conta uma história por sí só e quando um filme como este vive de rostos expressivos e incrivelmente bem filmados, temos ambiente para dar e vender.
Algumas imagens parecem verdadeiras pinturas a óleo e só apetece passar o filme todo a carregar no botão de pausa, pois é quase inacreditável o nível de detalhe que está presente em muitas imagens que não chegam a estar no écran mais do que um segundo apenas. No entanto ficam na memória e é esse o poder do cinema de Wong Kar Wai que também aqui não deixa os seus créditos por mãos alheias.

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Este filme tem a melhor colecção de imagens inesquecíveis de que me recordo de ver desde…se calhar desde o “In the Mood for Love” ou “2046” do mesmo realizador.
E mais uma vez não só temos imagens belíssimas a todo o instante como acima de tudo temos personagens que nos parecem seres humanos de verdade. Não só alguns figurantes parecem ter uma história de vida para contar como inclusivamente até os personagens secundários têm uma identidade bem marcada, com actores sólido por detrás de cada um deles e onde há sempre um momento para brilharem na história.

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Muito público ocidental parece ter ficado bastante chateado por [“The Grandmaster(s)”] não ser mais outro filme com o “super-heroiIp Man na linha mais comercial que tem feito parte de uma série bastante popular.
No entanto, [“The Grandmaster(s)”] é um filme sobre artes marciais em que um dos personagens é o Ip Man, nada mais do que isso.
Não é um filme de artes marciais com o Ip Man.
E isto porque Ip Man é incontornável na história das artes marciais e sinceramente estava mais que na altura de alguém explicar ao ocidente quem era este homem que muitos conhecem apenas por ter sido a pessoa que treinou o jovem Bruce Lee (que aparece brevemente representado enquanto criança no final do filme num pequeno segmento fascinante).
Conhece-se a técnica, extrapolaram-se muitas das suas “aventuras” mas nunca tinha havido um filme sobre essencialmente aquilo que ele representava. Sobre a sua alma e de que forma a tradição o moldou. [“The Grandmaster(s)”] é esse filme.

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Mas não só, essencialmente [“The Grandmaster(s)”] sendo um filme sobre a tradição das artes marciais, é também uma história sobre todos os mestres que décadas atrás tanto lutaram para que as suas tradições  familiares não se vulgarizassem, tendo Ip Man acabado por se tornar talvez no último dos grandes símbolos desses tempos onde as artes marciais ainda representavam uma filosofia, uma tradição e um modo de vida e não eram apenas tema de paleio “new age” de treinadores de Karaté nos ginásios modernos; muitos dos quais certamente acharão o filme uma seca, aposto.
Toda aquela aura a fazer lembrar filmes como “O Padrinho” parte precisamente dessa introdução inicial da história, pois o filme começa essencialmente por nos apresentar esse universo tão fechado e secreto, apresentando-nos muitos dos anciões que guardam cada segredo familiar a sete chaves. Cada golpe é um mistério, cada técnica um tesouro e quase um acto sagrado. Portanto o filme não é apenas sobre mortes e vinganças, mas sim sobre tradição.
Apesar de ser um filme de interiores, por vezes abre-se em vastas paisagens momentâneas que quase pertencem a uma outra obra mas não deixam de ser benvindas em certas alturas, pois ajudam a narrativa a respirar.

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Como não podia deixar de ser no cinema deste realizador, [“The Grandmaster(s)”] é também uma história de amor e como também não podia deixar de ser nas mãos de Wong Kar Wai, é mais uma das grandes histórias de amor do cinema.
Novamente temos o extraordinário Tony Leung a fazer par com a não menos incrível Zhang Ziyi que não contracenavam juntos desde “2046”; novamente num par romântico totalmente real perante um romance impossível como seria de esperar.
Grande parte do epílogo final desta história é precisamente sobre a relação destes dois personagens e sobre a forma como as artes marciais inclusivamente definiram o percurso do seu amor.
Esta ideia está realmente bem desenvolvida e dá a esta história de amor uma vertente diferente do que encontramos habitualmente, que culmina num pequeno monólogo fantástico de Zhang Ziyi e coloca este filme também como uma excelente proposta para aqueles que chegam a este blog procurando por cinema romântico oriental.

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Apesar de estar sempre subjacente á história ao longo do filme por acaso não esperava que Kar Wai fosse entrar pela pura história de amor no momento em que o fez, mas ainda bem que assim foi, pois um filme dele sem um grande romance nunca seria o mesmo.
Inclusivamente seria um desperdício de dois personagens que se tornam ainda mais inesquecíveis porque enquanto espectadores torcemos por eles até ao último minuto de uma forma que me fez recordar “A Time to Love“, pela sua atmosfera de melancolia e saudade de algo que nunca aconteceu em pleno.
Mais uma vez a ideia de um amor impossível está presente numa história de Kar Wai e ninguém filma a saudade de momentos que nunca poderiam ter existido como este realizador.

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Portanto, eu passei-me com este filme.
Os primeiros 45 minutos foram-me difíceis pois não estava mesmo a ver qual a ideia por detrás de tanta aura “mafiosa” no tom da história até que de repente me caiu um piano em cima e eu finalmente acordei para o filme.
A partir daí agarrou-me por completo.
Inicialmente apenas pelas incríveis cenas de acção (que não são tão poucas como os descontentes afirmam), depois pela forma poética como Kar Wai filma cada pormenor mas principalmente como mostra cada rosto e cada alma; também pelo fascínio que conseguiu transmitir a propósito do mundo hermético das verdadeiras artes marciais e por último com a bonita história de amor entre os dois rivais que fechou em grande esta narrativa que não me sai da memória dois dias após ter visto o filme.
Só o visual do filme, aliado á vertente romântica da história vale o tempo que dispenderem a tentar habituar-se a ele. Se gostarem de filmes de Wong Kar Wai, então nem hesitem pois este é imprescindível.

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Se não gostam de filmes de Kung-Fu, então passam a gostar.
Correndo o risco de me repetir, nota alta para todo o visual do filme. [“The Grandmaster(s)”] tem visuais absolutamente incríveis e para mim enquanto ilustrador consigo encontrar pelo menos umas vinte ou trinta cenas neste filme que me irão servir de inspiração nas próximas décadas.
Há de tudo em [“The Grandmaster(s)”], desde ambientes á chuva, interiores incrivelmente iluminados e como não podia deixar de ser num filme oriental, cenas de tirar o fôlego em estações de comboio.
Muitas das imagens neste filme fizeram imediatamente lembrar-me das cenas mais intimistas e até da estética de Blade Runner. Nomeadamente a forma como os rostos estão iluminados e as cenas na estação com a Zhang Ziyi num estilo a fazer lembrar a “Rachel” no filme de Riddley Scott décadas atrás.

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Aliás mais uma vez Wong Kar Wai cria uma personagem feminina ao mesmo tempo forte e frágil, com montes de personalidade; ter a actriz perfeita para o papel também ajudou certamente pois mais uma vez a actriz rouba todas as cenas em que entra.
Há sequências fantásticas em que o personagem nem precisa de falar. Basta caminhar em direcção à câmera e mesmo sem explosões atrás em estilo Michael Bay consegue transmitir mais identidade e alma do que todos os bonecos de cartão que costumamos encontrar no cinema plástico que inunda os nossos centros comerciais todas as semanas.
Zhang Ziyi é definitivamente uma actriz com presença e se para tal ainda houvesse dúvida bastaria confirmar-mos o seu trabalho nesta história.

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Em termos narrativos, em certos momentos este filme é bastante parecido também a “Ashes of Time” um dos primeiros filmes de Hong Kar Wai e portanto fica aqui o aviso: quem detestou esse muito provavelmente terá bastante dificuldade em conseguir suportar o tipo de narrativa que está agora em  [“The Grandmaster(s)”]. Ambos os filmes funcionam bastante por flashbacks, narrativas fora de ordem cronológica e vivem muitas vezes de silêncios.
Curiosamente não me recordo da banda sonora…nem me lembro se o filme tem música para dizer a verdade.  O que só pode querer dizer que é tão perfeita a criar ambiente que eu nem notei que lá estava ou então que pura e simplesmente quase não deve ter existido e eu nem dei pela falta…

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Recomendo vivamente que vejam o cut de duas horas e meia, pois consta por aí que Hollywood pretende remontar o filme para  video e fazê-lo caber em 90 minutos, se calhar para deixar apenas as cenas de porrada como é costume. Por isso é vê-lo na integra enquanto podem, pois se os cortes acontecerem, é bem provável que a edição que chegar em dvd a Portugal possa ser a versão cortada (tal como aconteceu com The Big Blue de Luc Besson anos atrás e nem consigo imaginar como um filme tão incrível como [“The Grandmaster(s)”] seria sem as suas cenas mais intimistas, poéticas e filosóficas que lhe dão tanta alma e que tornam as cenas de kung-fu ainda mais espectaculares por contraste de adrenalina.

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CLASSIFICAÇÃO

Já entrou para a lista de filmes da minha vida também.
Depois do fabuloso e americano “My Blueberry Nights” Wong Kar Wai regressou a Hong Kong e ainda bem que o fez.
Juntamente com Makoto Shinkai na animação Wong Kar Wai é para mim actualmente o melhor realizador do mundo em filmes –live action– (nesta vertente semi-comercial talvez) e mais uma vez não me desapontou.
Poderá não ser um filme para todos os tipos de público, especialmente para aqueles que se deixarem enganar pelos trailers remontados no ocidente, mas é o filme perfeito para quem se interessa realmente por artes marciais pois garanto-vos que nunca viram nada assim; e não estou a falar da porrada.

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Contém no entanto cenas de acção incríveis e é um excelente exemplo de um filme que fica perfeitamente com o pé em dois mundos; tanto no mundo do cinema comercial como no mundo do cinema de autor.
É uma excelente introdução a esse universo que normalmente está cheio de filmes estúpidos e pretensiosos, por isso é refrescante ver que ainda há gente a fazer cinema intimista sem qualquer carga intelectual pindérica para impressionar intelectuais de café e ratos de festivais cinéfilos.
Ignorem as reviews negativas de muitos comentários espalhados pela net (especialmente no youtube) pois muita gente foi ver o filme pensando que era apenas mais uma aventura de artes marciais e ficou compreensivamente frustrada tendo descarregado no filme injustamente.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award para o melhor filme que vi este ano até agora.

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A favor: é uma enciclopédia fascinante sobre o verdadeiro mundo e tradição das artes marciais, tem cenas de acção fascinantes e cheias de adrenalina, é cinema de autor sem ser pretensioso, está carregado de personagens verdadeiramente humanos, tem imagens inesquecíveis espalhadas pelo filme todo, muito poético e cheio de momentos em que só apetece fazer pausa para contemplarmos as imagens, óptima história de amor intensamente romântica no estilo mais trágico e clássico, os actores são incríveis, contém diálogos excelentes especialmente na história de amor, personagens que não se esquecem tão cedo, duas horas e meia passam num instante pois a narrativa pode ser diferente e fragmentada mas não é de forma alguma confusa ao contrário do que muita gente diz pela net, quem gosta do estilo de cinema do Wong Kar Wai vai ficar plenamente satisfeito com o que vai encontrar neste filme também que a meu ver merece plenamente o 12 prémios que ganhou pelo oriente, é tão bom ou melhor quanto “Ashes of Time” (o qual faz lembrar bastante em certos momentos), “In the Mood for Love”, “2046” ou “My Blueberry Nights”(embora bem diferente deste último em todos os aspectos). Acima de tudo é realmente um filme diferente e com muita alma. Se não gostavam de Kung-Fu passam a gostar.

Contra: Quem o vir pensando que é um novo filme de acção e aventura da série Ip Man pode ficar muito decepcionado e até irritado com a carga poética e intimista de grande parte deste filme.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
https://www.youtube.com/watch?v=8Ngxn9NzLzs

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Comprar
Acho que ainda não há uma edição europeia…

Trailer americano…
https://www.youtube.com/watch?v=uC5amKLgnFU

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1462900

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Se gostou, vai gostar certamente dos seguintes filmes abaixo.
Aliás, mesmo que não tenha gostado deste  vai gostar dos filmes abaixo.

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Blood: The Last Vampire (Blood: The Last Vampire) Chris Nahon (2009) Hong-Kong/China, França


Devo confessar que se há uma coisa que eu gosto no cinema comercial moderno é de filmes franceses que tentam parecer-se com produções americanas á força toda. Daqueles que se colam á estética podre de chique gringa ao pior estilo cinema-de-super-herois made-in-hollywood onde tudo parece igual.
Só muda o design dos monstros que na verdade parecem-se todos com o mesmo boneco musculado saído de livros da Marvel onde só se altera a cor do uniforme de capítulo para capítulo.

Por isso eu gosto muito de cinema francês em estilo Hollywood porque falha redondamente em tudo o que pretende fazer para se colar ao estilo americano.
Não sei o que há com estas produções europeias, que apesar de fazerem sempre tudo bem e de seguirem á risca a cartilha pipoca americana a verdade é que eu acho que se espalham todas no resultado final.
Tudo o que é filme francês de acção moderno que se tenta colar ao cinema do outro lado do oceano atlântico acaba sempre por se ficar por um resultado estranhamente hibrido que nem é carne nem é peixe. O mesmo acontece agora com este [“Blood: The Last Vampire“] uma estranha co-produção entre a Europa e Hong-Kong em piloto automático estilo Hollywood.

Mais uma vez temos um filme francês que á força de querer parecer-se com um filme americano acerta ao lado em tudo e na verdade ainda bem que assim é.
Ainda bem porque é essa falta de pontaria constante do moderno cinema-clónico francês que lhe dá imensa identidade e transforma qualquer produção europeia de efeitos especiais e acção á bruta numa coisa mais interessante do que costuma acontecer com as pipocas pré-fabricadas americanas. Talvez porque a europa use moldes diferentes.
Por muito que se tente estragar um filme rasca na europa tentando imitar o plástico americano, pelo menos eu fico sempre com a sensação de que o resultado é sempre bem mais carismático e isso ajuda a salvar da banalidade muita coisa que de outra forma poderia tornar-se absolutamente insuportável.

Há qualquer coisa de bom num mau filme pipoca europeu quando este tenta imitar o cinema de Hollywood e melhor ainda quando além de tentar imitar o cinema americano tenta ao mesmo tempo parecer-se com cinema oriental em estilo Hong-Kong.
Por isso eu gostei bastante de [“Blood: The Last Vampire“].
Estamos na presença de um bom filme de acção totalmente braindead no sentido mais positivo do termo e que mesmo com tanta mistura de estilo consegue ainda assim manter uma atmosfera europeia com um sabor intenso a baguette francesa de que não se consegue livrar apesar da overdose de pirotécnica digital á americana e kung-fu com fios á la Hong Kong.

Além disso, fiquei bastante surpreendido por este titulo ser protagonizado pela minha “Sassy Girl” favorita do cinema oriental que parece ter escolhido este papel para se tentar projectar internacionalmente, que é como quem diz, mostrar que também poderá ser uma boa escolha para filmes mais …americanos.
Quase que custamos a acreditar que esta é a mesma actriz que protagonizou também “Il Mare” num registo que não poderia ser mais oposto.

E por acaso acho que esta miúda foi a escolha perfeita para este papel. Eu não conheço bem o anime original mas do pouco que vi do desenho animado, penso que Jeon Ji-hyun (aqui com o pseudónimo internacional “Gianna Jun”), está fantástica apesar de em muitas alturas sentirmos que não estará muito confortável com os diálogos em inglés.
Sim porque [“Blood: The Last Vampire“] é um filme francês co-produzido com a China a tentar imitar o cinema americano com diálogos tanto em inglés como em japonês protagonizado por uma actriz Sul Coreana… Confusos ? Não se preocupem a coisa resulta.

Muita gente ataca [“Blood: The Last Vampire“] por causa dos seus péssimos efeitos digitais, nomeadamente o sangue em bolinhas 3D Studio em efeitos nada especiais que parecem saidos de um render amador criado para uma introdução de um jogo da Playstation-One. Tudo verdade. É quase mau demais para ser real e damos por nós a pensar como raio é que alguém deitou cá para fora um filme com efeitos tão datados assim e pensou que poderia competir com o que de mais moderno se faz no cinema deste mesmo estilo em Hollywood.
Por mim, que se lixe. Sim, o filme tem efeitos atrozes e até ridiculamente amadores e sim, aquele demónio é mau demais para ser verdade mas desde quando é que maus efeitos especiais fazem um mau filme ?

[“Blood: The Last Vampire“] apesar de todo o emaranhado de influências visuais consegue no entanto ser um produto comercial muito bem executado e com uma realização segura. Penso que o realizador francês conseguiu aqui um trabalho com personalidade e fiquei com a sensação de que só não fez melhor mais por culpa do argumento do que por causa dos péssimos efeitos especiais que tanta gente contesta.

Quanto a mim, [“Blood: The Last Vampire“] tem uma primeira metade totalmente cativante. Sequências de acção divertidas, uma estética de comercial de shampoo que resulta, actores carismáticos e uma atmosfera visual que por momentos faz lembrar Blade Runner em certos aspectos, nomeadamente no ambiente nocturno.
Infelizmente , achei que a segunda metade do filme perdeu toda a piada. Não sei o que se passou mas a partir de certa altura parece que mudaram de argumentista e todo o desenvolvimento deixa de conseguir envolver o espectador. Isto porque a história deixa de ser interessante não apenas por se tornar ainda mais previsível mas principalmente porque tudo culmina num climax que não tem particular entusiasmo ou grande espectacularidade.

No entanto, eu gostei muito da primeira metade do filme. Abre com uma sequência entusiasmante, continua com alguns personagens carismáticos, situações digitalmente sangrentas bem divertidas e a coisa resulta até meio onde de repente se instala alguma monotonia geral até ao final embora os actores bem se esforcem para dar vida a um argumento já em piloto automático no pior dos sentidos.
Não que seja própriamente muito grave, mas a verdade é que achei que este filme merecia ter-se mantido muito divertido até ao fim e na minha opinião isso não acontece como deveria ter sido.

Se há uma coisa que me aborrece de morte no cinema estilo super-herois á americana é a banalidade do típico confronto final com o vilão e achei muito decepcionante que a única vez em que [“Blood: The Last Vampire“]  se parece mesmo com um filme de Hollywood seja precisamente naquela parte em que se calhar deveria ter-se parecido mais com um produto de Hong-Kong pois a sequência final aborreceu-me pela sua previsibilidade e total falta de interesse previligiando mais a pirotécnia digital do que o carisma dos personagens e a criatividade das sequências de acção.

De qualquer forma, [“Blood: The Last Vampire“]  é um produto pipoca divertido e que se recomenda a quem não pedir mais do que ver uma boa aventura com vampiros e uma heroína cheia de personalidade suportada por um bom elenco internacional onde se destaca Liam Cunningham um actor que por vezes parece estar a incoorporar o espírito do ainda bem vivo Jean Reno na construção do seu personagem de agente da CIA que estará algures entre o “Leon” e o “Enzo” presentes nos fabulosos filmes de Luc Besson.
Só é pena que acabe por ser desprediçado dentro do próprio argumento.

Muitos fãs do anime, não gostaram da personagem teenager americana que pelo visto foi inserida a martelo nesta versão da história porque acusam-na de existir apenas para agradar ao mercado americano. Pessoalmente eu gostei da rapariga. Acho que tem um personagem dinâmico e que conduz bem o filme por entre as sequências protagonizadas por Jeon Ji-hyun e ajuda até a actriz principal a brilhar pois evita que nos concentremos demasiado no inglés limitado da actriz Sul Coreana que apesar de conseguir fazer um excelente trabalho nesta sua estreia “internacional” esteve sempre um bocadinho limitada pela lingua inglesa para poder ir mais longe e conseguir carregar sózinha o protagonismo de um filme assim.

Por isso, resumindo, eu curti.

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CLASSIFICAÇÃO:

Um estranho hibrido entre filme comercial americano, cinema francês e estilo Hong-Kong que só não resulta totalmente porque o argumento perde-se na banalidade a partir da segunda metade do filme e tenta depender demasiado de maus efeitos especiais para o climax da história quando esta pedia mais atenção aos personagens talvez.
De qualquer forma é um produto pipoca muito divertido, com uma primeira parte dinâmica e cheia de personalidade, uma actriz Sul Coreana que parece não conseguir ser má até quando tem limitações de idioma contra ela.
Não é um filme pipoca brilhante, mas recomenda-se bastante.
Trés tigelas e meia de noodles sem problemas mas com muita pena minha pois [“Blood: The Last Vampire“] merecia ter sido bem melhor e a culpa disso nao ter acontecido não é dos maus efeitos especiais como muita gente parece achar, mas sim de um argumento que poderia ter sido bem mais imaginativo.

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A favor: o elenco é excelente com destaque para a protagonista Sul Coreana que dá tudo para conseguir fazer um bom trabalho num idioma que lhe é claramente dificil de dominar, a primeira metade do filme tem pinta e uma atmosfera visual excelente, a realização faz milagres em conseguir manter todas as diversas influências coerentes ao longo do filme, contém algumas cenas de acção estilo Hong-Kong divertidas.
Contra: a segunda metade do filme parece apagada, o climax do filme depende demasiado dos maus efeitos especiais digitais que percorrem toda a história, os vilões não têm carisma nenhum e em nenhum momento causam qualquer tensão na história por tudo ser tão banalmente previsivel e vazio na sua própria caracterização.

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NOTAS ADICIONAIS:

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=Fk2L8Mgxd5Q

Comprar
Bem baratinho na Amazon Uk em DVD e em BluRay também.

Download com legendas em PT/Br

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0806027

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Filmes “semelhantes” de que poderá gostar:

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Chi bi/Chi bi xia: Jue zhan tian xia (Red Cliff / Red Cliff 2 – Versão Integral Original com 300 minutos) John Woo (2008/2009) China


Comecei a ver [“Red Cliff“] no início de Janeiro e curiosamente embora tenha gostado do primeiro dvd, quando o primeiro  filme acabou não fiquei com vontade nenhuma de continuar a acompanhar esta saga apesar de ter deixado a história a meio e como tal só me decidi a ver o segundo disco ontem quase seis meses depois porque achei que estava na altura de falar sobre este título tão popular por aqui.
Se este blog não existisse é bem provável que não visse o resto do filme tão cedo o que não deixa de ser estranho até para mim que não costumo deixar coisas destas a meio.

Portanto, como já imaginam [“Red Cliff“] não me impressionou por aí além.
No entanto percebo porque tem tanto hype á sua volta, pois além de ser o regresso de John Woo á China visualmente é na verdade extraordináriamente apelativo e na minha opinião é precisamente o aspecto visual que cria aquela ilusão de que esta saga será a tal obra prima que muitos gostariam que fosse mas que não é de forma alguma.

Talvez John Woo tenha apanhado alguns maus hábitos por ter passado 16 anos a fazer filmes nos Estados Unidos pois [“Red Cliff“] é um claro exemplo de uma super-produção onde o estilo se sobrepõe e muito á substância. Neste caso, se calhar em vez do estilo poderemos até dizer que a opulência se sobrepõe á substância, pois garanto-vos que vão ficar impressionados com a escala visual deste épico sobre estratégia de guerra.

Por outro lado, épicos históricos saídos da China é coisa que não falta no mercado e cenas de batalha com milhares de figurantes já todos nós vimos muitas também e como tal nem nisso [“Red Cliff“]  difere muito do que é costume, nem na verdade acrescenta o que quer que seja de novo. Pelo contrário até.
No entanto, [“Red Cliff“]  é fantástico a criar a ilusão de que tudo é espantosamente  épico e apesar de se notar que falta ali qualquer coisa a todo o instante, o espectador consegue acompanhar com interesse toda a história precisamente porque visual não lhe falta.

Ficamos  essencialmente hipnotizados pelo estilo gráfico deste filme que é absolutamente fantástico embora em muitas alturas pareça bastante plástico o que contradiz um pouco aquela ideia de reconstituição histórica que pretende ser pois os seus ambientes são tão gráficos e artificiais que perdem muito da naturalidade que costumamos encontrar nos ambientes da maior parte dos épicos históricos orientais.
[“Red Cliff“]  é uma saga militar grandiosa mas sente-se constantemente o lado cinematográfico presente, naquele sentido em que apesar da opulência não se livra daquele sabor a cenário para cinema.

Ao contrário do que costuma acontecer-me com estes filmes, [“Red Cliff“]  não me transportou minimamente para dentro do seu universo e nunca por um momento me fez esquecer que estava a ver um filme, pois enquanto espectador sempre me senti totalmente distanciado do que estava a acontecer no ecran e isso para mim é o pior que me pode acontecer quando estou a ver uma história deste estilo.
Por mais que uma vez, dei por mim a olhar para o relógio do leitor para ver se ainda faltava muito para aquilo acabar e não foi por desejar que [“Red Cliff“]  durasse mais uns minutos. Isto aconteceu-me tanto na primeira parte como na segunda.

Como alguém também já referiu algures numa review,  [“Red Cliff“] não consegue criar qualquer empatia entre os espectadores e os personagens, pois pouco nos importamos com o seu destino, salvo uma ou duas excepções.
São muitos e variados mas na verdade podem morrer todos que pouco importa e por isso há aqui qualquer coisa que falha. Nota-se uma excessiva tentativa de caracterização nuns (o que alonga o filme em cenas inconsequentes que muitas vezes parecem desnecessárias), enquanto outros que até são importantes para a carga dramática da história pouco tempo têm de ecran e são apenas usados como peões nas extraordinárias coreografias de movimentação de exército para que o espectador possa saber quem é quem.

Nota-se uma tentativa de humanizar alguns deles através do recurso ao drama romântico pelo meio da história, mas as histórias de amor também não têm qualquer interesse ou atmosfera. Uma perde-se totalmente pelo meio de tanta estratégia militar e outra perde demasiado tempo a ser totalmente previsivel sem conseguir construir uma base emocional que a fizesse resultar no inevitavel desfecho e como tal pouco nos importa quando este acontece.

[“Red Cliff“]  também não se define bem enquanto género. Não é de forma nenhuma um filme de aventuras ou de acção medieval apesar das suas inúmeras sequências porque essas cenas apenas complementam as intrigas palacianas do costume e as sequências de estratégia militar. Por isso não esperem encontrar em [“Red Cliff“]  um blockbuster com um ritmo definido ou um espírito de aventura e preparem-se para intermináveis minutos onde se conta essencialmente uma história sobre estratégia política e militar que á força de não ter própriamente personagens cativantes se torna algo aborrecida e até demasiado técnica em certos aspectos.
Por outro lado quem gostar muito de estratégia militar, tem aqui em [“Red Cliff“]  provavelmente o melhor filme de todos os tempos, pois toda a sua acção gira á volta de tácticas de movimentação de exércitos, intrigas políticas, alianças e traições.

O que me leva a outra coisa que me desapontou e muito. Esperava muito mais de [“Red Cliff“]  nas cenas de acção tendo em conta que isto é um filme de John Woo. Não que estas não sejam espectaculares, mas não vão encontrar nada que já não tenham visto noutros filmes antes e como tal não vão encontrar aqui cenas de acção que os deixem completamente fascinados pela inovação.
Todas as batalhas são fantásticas, mas falta-lhes alguma identidade pois a sua espectacularidade vem mais do estilo gráfico do filme e da quantidade estúpida de figurantes no ecran do que própriamente nos cativam por nos preocuparmos com o rumo da história ou com os personagens que estão envolvidos nas lutas.

Até porque grande parte das vezes as batalhas são travadas pelos figurantes enquanto os personagens principais ficam sentados a controlar as estratégias á distância num épico jogo de xadrez humano. Isto salvo excepções claro mas não consegui evitar sentir um total distanciamento das cenas de acção de [“Red Cliff“], o que muito me surpreendeu , pois estava preparado para me divertir totalmente com as batalhas épicas destes filmes e tal não aconteceu de forma alguma ao nível que eu esperava e que já encontrei antes em filmes como “The Warlords” por exemplo, onde a escala e a produção poderá ser menor mas a eficácia cinematográfica é bem superior porque conseguiu criar uma ilusão de realísmo que John Woo não conseguiu reproduzir de todo.

Notei uma gritante falta de sangue nestas batalhas. Em muitos momentos parecia que estava a ver um filme americano. Batalhas gigantes, montes de gente á espadeirada mas muito poucos salpicos e cabeças cortadas.
Isto depois de já ter visto tanta batalha extraordináriamente realística ultimamente em épicos de menor escala faz com que [“Red Cliff“]  ainda pareça ser uma produção mais plástica e desinteressante do que merecia ter sido.
Não quero dizer com isto no entanto, que as cenas de acção sejam chatas, não são; apenas a fama do filme faz com entremos nele á espera de uma coisa e depois não surpreende de todo e salvo raras excepções nem notamos que isto será um filme de John Woo pois falta-lhe alguma identidade.

Com tudo isto, pode parecer que detestei este filme e na verdade isso não é assim. [“Red Cliff“]  tem alguns momentos fantásticos. Por exemplo, todas as ideias para estratégias de batalha são absolutamente geniais e quanto a mim , o plano para os herois conseguirem arranjar flechas extra para os exércitos é dos momentos mais divertidos e brilhantes da história que marca definitivamente o que há de melhor nesta saga.
O primeiro filme também tem uma cena de batalha fabulosa com outra táctica de movimentação de exércitos incrível e que os irá surpreender. Curiosamente será talvez a melhor batalha do filme todo e surpreendeu-me não terem guardado este momento para o final da história pois todas essas cenas de guerra no primeiro [“Red Cliff“]  são bem mais entusiasmantes que o plástico ataque final que supostamente deveria ser o climax do filme e no entanto sabe a pouco.
Tal como os mais de 300 minutos de duração que a versão integral contém apesar de terem muita coisa positiva.

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CLASSIFICAÇÃO:

[“Red Cliff“] mesmo não sendo aquele acontecimento cinematográfico que tanta gente gostaria que fosse, é no entanto um bom filme sobre estratégia militar e intriga politica e palaciana que apesar do seu argumento algo disperso ainda contém um par de boas surpresas no que toca á parte de espionagem entre exércitos que os irá divertir.
Será talvez vitima do próprio peso de mostrar que é um épico histórico gigantesco e como tal a megalómania dos cenários e dos efeitos gráficos sobrepõe-se ao divertimento, o que é pena.
De qualquer forma, quatro tigelas de noodles porque é bastante bom mesmo e irá agradar muito a quem gosta de coisas sobre estratégia militar.

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A favor: visualmente é sumptuoso e com uma escala épica incrível a nível de produção, está cheio de paisagens fabulosas, a batalha do primeiro disco é fantástica e muito criativa, as cenas de espionagem são divertidas e com bastante humor o que foi algo inesperado de encontrar num filme tão sério sobre alianças e estratégias militares, uma das love-stories quase resulta e é divertida de seguir, contém um par de sequências de acção individuais muito boas mesmo, a cena do roubo das flechas no segundo disco é absolutamente clássica e muito engraçada, um elenco fabuloso que se esforça por dar vida a personagens que não cativam particularmente.
Contra: esforça-se demasiado para nos fazer notar que é um épico a todo o instante e com isso torna-se muito artificial, tem cenas longas e desnecessárias que repetem informação que já se sabe, não cria qualquer empatia com os personagens salvo uma ou duas excepções, muita acção mas não se percebe bem que tipo de filme estamos a ver, falta-lhe sangue, a batalha final não tem nada de surpreendente, nota-se o CGI e isso retira-nos automáticamente do ambiente do filme nos raros momentos em que quase conseguimos abstrair-nos de que estamos a ver um filme.

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Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=GPF6jaaBW7M&feature=related

Comprar Blu-Ray bem baratinho na Amazon Uk- Contém os dois filmes
http://www.amazon.co.uk/Cliff-Special-Blu-ray-Tony-Leung/dp/B002GDM2S2/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1306617909&sr=8-1

Download Red Cliff com legendas em PT/Br
Download Red Cliff 2 com legendas em PT/Br

IMDB – Red Cliff
http://www.imdb.com/title/tt0425637/
IMDB – Red Cliff 2
http://www.imdb.com/title/tt1326972/

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Se gostou deste poderá gostar de:

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Kei hei hup (Metallic Attraction Kung Fu Cyborg) Jeffrey Lau (2009) China


Toda a gente a ir ver este filme já !
Toda a gente a ir ver este filme porque eu não quero ser o único a ficar com o cérebro ao contrário.

“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg” ?
Metallic Attraction ?!!
A do Kung-Fu + Cyborg eu até comia, mas não fosse o proeminente Robot Gigante no cartaz do filme e ainda pensaria que Mettalic Attraction seria uma comédia qualquer sobre magnetos e fãs dos Iron Maiden ou quem sabe dos Metallica.
Afinal não é.
Não pensem no entanto, que isto é um filme de Kung Fu.
Confusos ?
Não estão, não porque ainda não viram o filme.

A propósito, também tenho sérias dúvidas se isto será um filme.
[“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“], é um produto muito estranho e completamente alucinado.
Eu não tenho nada contra o espírito deste género de obras, afinal ” A Chinese Tall Story ” ainda continua a ser um dos meus filmes orientais favoritos apesar do seu estilo completamente over the top.
Este filme não é mau por ser estranho ou alucinado, [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] perde em todas as frentes de uma forma absolutamente inacreditável porque nunca se consegue definir enquanto filme.
Nos primeiros cinco minutos eu já pensava que iria atribuir uma classificação fantástica a este produto, pois os momentos iniciais são mesmo divertidos e tudo apontava para que estivesse na presença de um daqueles filmes mesmo especiais. Até o genérico do filme é muito bom e cheio de humor.

No entanto, dez minutos depois já começava a pensar que algo esquisito se passava no ecran. Isto porque a partir de certa altura a história parece entrar por um registo de comédia bucólica e rural que estranhamente me fez lembrar daquele cinema francês ao estilo Louis de Funées.
Algo muito estranho para um filme que supostamente meteria Kung-Fu e Robots estilo Transformers.
E por falar em Transformers

Pessoalmente a série Hollywoodesca dos Transformers é um dos meus ódios de estimação e o Michael Bay não será propriamente o meu realizador favorito pois por mim poderia deixar de filmar amanhã que não se perdia nada. No entanto isto de ser ateu tem as suas desvantagens e  como tal é óbvio que Deus não ouve as minhas preces.
E é pena, porque também se poderia juntar o nome do realizador de [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] á lista de gente a reter longe de uma câmera a todo o custo. Só posso concluir que Deus não gosta de Cinema.

Descobri tarde demais que o realizador deste filme também esteve ligado a outro dos filmes orientais que mais detestei, Kung-Fu-Hustle. Se tivesse sabido disso nem teria gasto o meu tempo a tentar ver [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] pois não é de estranhar que o estilo dos filmes seja semelhante com a desvantagem de que agora nesta tentativa a coisa não resultou de todo. Possivelmente porque Jeff Lau não é Stephen Chow pois este último apesar de tudo ainda consegue criar alguma unidade no caos presente nos seus filmes. Eu não gosto, mas nunca atinge o vazio deste filme com robots sem robots.

Jeff Lau, falha redondamente onde Stephen Chow normalmente até consegue algum equilibrio e este [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] é um bom exemplo de que não basta ter uma quantidade de sequências completamente desvairadas para que um filme estilo cartoon tenha piada ou nos apeteça segui-lo até ao fim.

Trinta minutos depois do filme começar, o espectador começa a perguntar-se se não se terá enganado na capa ou se terá visto o trailer com o nome do filme errado, pois kung-fu nem vê-lo e robots estilo transformers é que parecem não ter qualquer motivo para fazer alguma aparição no argumento deste filme.
É que vocês não sabem, mas…
[“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] é uma história de amor !! (?!!)

Esqueçam a porrada estilo Michael Bay em versão Hong Kong, olá filme estilo Julia Roberts versão chinesa.
Mas mete robots.
Perdão, cyborgs.
Ou melhor, mete uma espécie de “mecha”
Reconheceram a expressão “mecha” ? Lembra-lhes algo ?
Exacto “A.I. Artificial Inteligence”, o (quanto a mim fabuloso), filme de ficção-científica realizado por Steven Spielberg com Haley Joel Osment e Jude Law no papel de Gigolo Joe.
E por falar em Gigolo Joe, o que dizer da imagem abaixo…

Lembra-lhes alguém ? 🙂
[“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] é um filme oriental muito estranho. Já lhes disse isto ?
Mete um clone chinês grunho do Gigalo Joe que por acaso também é um robot com a mania que tem graça e age como um verdadeiro pinga-amor pois inevitávelmente apaixona-se pela rapariga da história deste filme.
Um filme que apesar de querer á força ser uma história de amor daquelas realmente emotivas ao melhor estilo oriental, pelo meio entra pelo estilo cómico com uma escolha de estilo de humor absolutamente rasca, completamente popular e de riso fácil com gags semi-escatológicos, piadas infantis, directas e tudo o que possam imaginar ao pior estilo “Malucos do Riso“. E se vocês me estão a ler a partir de Portugal, sabem bem como isto é grave.

Especialmente para um filme que parece nunca andar para a frente porque insiste em tentar cativar-nos com uma história de amor absolutamente sem química nenhuma. Muito por culpa das partes “cómicas” do argumento e das palhaçadas dos personagens verdadeiramente cartoonescos mas sem qualquer identidade.
Acho que nunca tinha visto uma história de amor num filme oriental tão descaracterizada e tão sem alma.
[“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] enquanto filme romântico (acreditam nisto ?), é tão vazio e desinteressante que faz com que coisas como Shinobi, Duelist ou Bichunmoo pareçam clássicos de histórias de amor !

Então mas e os Transformers do trailer do filme ? – Perguntam vocês…
Perguntam bem.
Kung-fu, neste filme deve haver uns cinco ou talvez dez minutos de algo semelhante. Isto em duas horas de história.
Robots gigantes ao murro, temos direito a duas sequências. Uma mais ou menos a meio do filme. Dura pouco mais cinco minutos e é do piorio pela sua simplicidade, lugares-comuns e falta de espectacularidade o que para um filme que assenta o seu marketing na comparação com os blockbusters de Hollywood não é nada bom.
Os CGIs também são muito pobrezinhos mas isso teve a ver com o baixo orçamento da produção por isso acho que os técnicos fizeram o melhor que puderam certamente.

Depois temos mais umas cenas na “batalha final” como era de prever mas tudo é tão … nem sei como descrever. Só vocês vendo mesmo. Não resulta ponto final.
E eu gosto de filmes maus. Aliás eu adoro filmes maus, séries B e Sci-Fi obscura.
No entanto não posso com maus filmes e [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] é um mau filme porque tenta ser muita coisa ao mesmo tempo e falha redondamente em tudo não fazendo nada.

Como comédia é do piorio. Como história de amor perde-se por completo e nem sequer a miuda do filme nos causa qualquer empatia. O que não é normal nestas histórias de amor orientais onde normalmente o casal central ou o triangulo amoroso é bem definindo em termos humanos e nada disso se passa aqui.
Aliás nem a miuda do filme é minimamente fofinha sequer e isto é o pior que poderia ter acontecido a uma história de amor oriental. É quase um sacrilégio.
Ou então sou eu que não acho o estilo – Funcionária subserviente ao Estado – algo particularmente erótico ou minimamente apelativo românticamente falando…

Tudo isto, aliado ao facto do terceiro elemento do triangulo amoroso ser um mau clone do Gigolo Joe com propensão para graças infantis e piadas semi-escatológicas, faz com que [“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] seja um filme que não tem ponta por onde se lhe pegue.
Vai desagradar por completo aos fãs de cinema de acção, os fãs de Robots gigantes vão detestá-lo pela quase total ausência deles no ecrã durante o filme todo e o pessoal que ainda se poderia interessar pela história de amor vai achá-lo um verdadeiro desperdício de argumento e atmosfera.
E por falar em atmosfera…

Talvez uma das coisas mais irritantes do filme seja precisamente isso.
[“Metallic Attraction Kung Fu Cyborg“] tem uma atmosfera mágnifica no que toca á criação de ambiente.
Toda a história passa-se numa pequena aldeia no meio do campo e o ambiente bucólico rural do lugar é realmente cativante e muito bem captado dotando o filme de uma identidade Chinesa quase idílica.
Verdadeiramente deprimente é vê-la tão desperdiçada com uma história do piorio e personagens sem alma que não sabem habitar aquele espaço que pedia algo realmente especial em vez de um filme tão pouco definido.

O filme tem outra coisa muito interessante…todo o seu argumento parece uma metáfora encapotada para a revolta e a liberdade de expressão o que não deixa de ser curioso por isto ser um produto Chinês. Pelo meio da história colocam-se algumas questões interessantes sobre a legitimidade de uma “pessoa” se poder ou não rebelar contra a “programação” instituida por um superior hierárquico supostamente no poder e muito desse segmento da história tem a ver com a discussão da liberdade de escolha individual. Tudo debaixo da capa da ficção-científica claro. O que não deixa de ser mesmo muito curioso e pedia se calhar um melhor desenvolvimento…por outro lado se calhar foi melhor para os produtores disto não agitarem muitas bandeiras individuais…não fosse o diabo tece-las e o próximo filme ser um documentário sobre as cadeias do Regime Chinês…

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CLASSIFICAÇÃO:

Um total desperdicio de ambiente. Está tudo dito no texto acima.
Começa muito bem, mas depois a cada minuto que passa se torna mais aborrecido. Comecei com vontade de dar classificação máxima a isto e acabei na mínima no final do filme. Foi a primeira vez que tal me aconteceu.
Uma tigela de noodles porque nem a boa fotografia o salva.

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A favor: o genérico, a sequência dos primeiros cinco minutos de filme, o ambiente bucólico e rural em toda a história, a fotografia do filme que até faz alguns milagres com os medianos CGIs, apesar de tudo tem um bom estilo visual com algumas imagens e enquadramentos muito bem conseguidos e nessas alturas o filme parece brilhar, a carga de subversão subliminar que o argumento parece querer fazer passar ao espectador quando advoga o direito á liberdade e á negação da programação.
Contra: engana por completo quem vê o trailer, não é um filme de acção, não tem batalhas com robots gigantes practicamente nenhumas, tenta ser uma história de amor em practicamente 80% do filme, falha redondamente enquanto história de amor e é possivelmente o argumento do género mais descaracterizado e sem alma que me recordo de ver no cinema oriental que normalmente é genial a produzir histórias românticas, o humor básico é absolutamente irritante, o personagem clone do Gigolo Joe é tem uma caracterização absolutamente errática e nunca se define, a miuda da história não cativa minimamente, as cenas de acção são chatas e parecem arrastar-se mesmo quando duram breves minutos, o filme é completamente indefinido e com um ritmo descaracterizado que nos faz desejar que tudo acabe depressa pois já não há mais pachorra, a tentativa de ter um desfecho dramático para a história de amor é uma anedota pois – nobody cares !

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
Não se deixem enganar por ele. Isto não é o filme que parece…estão avisados. 😉
http://www.youtube.com/watch?v=_saGdBMw33E

Comprar
Se gostarem mesmo muito podem comprá-lo baratinho aqui na minha loja do costume.
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7n-77-2-49-en-15-metallica+attraction-70-3kai-43-9.html
Se quiserem confirmar antes a coisa, podem espreitar o filme usando este motor de busca muito útil aqui.

IMDB
http://www.imdb.pt/title/tt1494775/

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Filmes “semelhantes” de que poderá gostar:

A Chinese Tall Story Shinobi

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Xin jing cha gu shi (New Police Story) Benny Chan (2004) China


Eu não conheço as anteriores entregas desta muito popular série de acção made-in-hong-kong, mas pelo que tenho visto pela net, este quinto episódio divide opiniões.

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Normalmente entre aqueles puristas de Jackie Chan que preferem vê-lo permanentemente a fazer acrobacias e palhaçadas e o outro público que o admira por tentar fugir ao registo que o tornou popular e arriscar enveredar por apostas de conteúdo mais dramático como acontece em [“New Police Story“], técnicamente o quinto episódio da série de filmes conhecida como “Police Story” e dizem, o filme mais diferente de todos eles.

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Pela minha parte devo dizer que adorei este filme. Não sou de modo nenhum fã dos filmes de Jackie Chan (talvez pela imagem de palhaço das produções made-in-hollywood) e como tal tive este dvd na prateleira durante mais de um ano a acumular pó.
Comprei-o por menos de dois euros numa daquelas promoções do jornal Correio da Manhã muitos meses atrás mas na verdade nunca tinha tido muito interesse em vê-lo.

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Primeiro, porque era outro filme de Jackie-Chan e depois porque ainda por cima parecia-me outro policial e temia que fosse mais um filme a tentar imitar as produções americanas sem grande interesse ou imaginação.
Como é costume no meu historial a evitar produtos, enganei-me redondamente.
Este filme chinês é um espectáculo.

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Ok, é um daqueles produtos completamente “braindead” com acção a duzentos há hora, exageros físicos, lógica de argumento duvidosa e porrada de criar bicho com cenas de destruição absolutamente caóticas a fazer corar de vergonha qualquer filme americano chungoso, mas a verdade é que tudo resulta e por isso [“New Police Story“] quanto a mim é um daqueles produtos ultra-comerciais que consegue contornar a sua falta de originalidade com uma estrutura absolutamente fascinante que nos agarra do principio ao fim.

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E isto porque consegue estar sempre a surpreender o espectador, pois se não souberem nada sobre o filme, podem ter a certeza que nunca sabem bem o que vai acontecer a seguir. E isto não é coisa comum neste género de cinema, o que lhe confere logo alguns pontos extra.
[“New Police Story“] é bastante criticado por ter abandonado o registo de comédia dos titulos anteriores e ter entrado por um registo bem mais dramático e excessivamente violento na opinião de alguns.
Mas para mim está logo aí a sua mais valia.

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O filme parece uma mistura de géneros. Começa como filme de acção ultra violento, entra por um registo dramático invulgar em personagens de Jackie-Chan, passa por um estilo de filme Radical versão “X-Games”, toca ligeiramente a comédia com um par de momentos hilariantes e de humor inteligente e termina como filme de acção puro e duro num formato mais comercial em tom de aventura com algum suspense e um final criativo no que toca á resolução do destino dos vilões.

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Se vocês gostaram de “Point Break” com Patrick Swayze e Keanu Reeves então este filme é para vocês.
No que toca ao estilo de acção mais “radical”, [“New Police Story“] contém sequências de acção absolutamente fantásticas, imaginativas e entusiasmantes a fazer lembrar o excelente filme de Kathryn Bigelow do inicio dos anos 90.
Pelo meio ainda temos direito a uma cena com um autocarro que faz o filme “Speed” parecer um filme da Disney no que toca a destruição de propriedade alheia.

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Na verdade, [“New Police Story“] vai copiar elementos de todo o lado, tanto do cinema asiático como do cinema americano, mas tudo resulta plenamente.
As transições entre os vários estilos de filme estão perfeitamente integradas na narrativa, os vilões apesar de algo estereotipados têm alguma profundidade que os tornam cativantes e o argumento joga muito bem com a imprevisibilidade do que mostra ao espectador e consegue manter-nos agarrados á cadeira até ao último minuto.

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Como nota menos positiva, se calhar o filme tem minutos a mais. Ou então isto parece-me ser assim porque [“New Police Story“] contém tantos momentos de acção espectaculares e emocionantes que a partir de certa altura tanta acção corre o risco de parecer mais repetitiva do que se calhar na verdade é.
Por mim talvez tivesse cortado a segunda sequência de Kung-Fu na sala dos Legos, até porque é a única vez que o argumento repete um estilo de acção que já tinha mostrado e como tal senti que era desnecessária.

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Mas não deixem que isto os desencorage de verem este excelente filme de acção, pois além de grandes momentos de porrada pura, ainda nos brinda com um par de gags humoristicos inesperados genialmente hilariantes.
Além disso, também tem um ambiente fofinho quanto baste a fazer lembrar um Anime, isto no que toca á caracterização dos personagens femininos.

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CLASSIFICAÇÃO:

Divertiu-me tanto que estive tentado a atribuir-lhe a classificação máxima incluindo um Golden Award, mas se calhar só não o faço porque teria todos aqueles cinéfilos mais hardcore á perna a dizerem-me que seria impensável atribuir uma nota tão boa a um puro produto comercial que na verdade não tem nada de cinema com “C” grande e não passa de um banal filme de porrada no mais puro estilo Hong-Kong.
A verdade é que na minha opinião pode não ser grande cinema, mas aquilo que faz, fá-lo extraordináriamente bem e tomara muito filme chunga americano neste estilo ser tão intenso e divertido quanto [“New Police Story“] consegue ser. E isto ao ponto de me ter colocado a mim, que nem sou fã de Jackie Chan completamente hipnotizado e entusiasmado do principio ao fim.
Sendo assim…cinco tigelas de noodles porque surpreendentemente merece-as plenamente. E se gostarem muito de filmes de acção podem acrescentar-lhe um Golden Award vocês mesmo por vossa conta.
Ignorem a recepção morna ao filme pela net, [“New Police Story“] é realmente muito melhor do que parece e até quem não gosta de filmes- Jackie Chan poderá sair muito surpreendido.
A mim surpreendeu-me. E o mais importante, divertiu-me imenso.

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A favor: a violência “gratuita” com muito sangue logo nos primeiros trinta minutos de filme que não nos deixa respirar, Jackie Chan num registo muito dramático que nos surpreende pela positiva, as sequências de decadência do seu personagem, todas as cenas de acção são excelentes e cheias de momentos inesperados, mantêm sempre o espectador sem saber o que vai ver a seguir, os vilões têm carisma apesar de algo estereotipados, os momentos de humor são hilariantes pelo inesperado da situação onde foram colocados, óptimas cenas de destruição urbana em larga escala, tem patinhos de borracha, miudas fofinhas estilo Anime, a história tenta apresentar-nos algo mais complexo do que precisava de ter sido e no entanto apesar da mistura de referências a coisa resulta, quem gostou de “Point Break” tem aqui um produto semelhante que resulta na perfeição, a realização é segura embora não deslumbre mas gere bem as cenas de acção, o dvd tem um som 5.1 excelente.
Contra: talvez seja um bocadinho longo demais embora não seja por aí além e não o prejudique propriamente, apesar de tudo é um filme de Jackie-Chan e ainda contém um par de tiques inevitáveis que poderão irritar quem não tem muita paciência para aquele tipo de filmes, já vimos este tipo de história mil vezes.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=2PXLgC0g0ZM

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Comprar
Bem eu comprei o meu numa promoção de jornal podem comprá-lo aqui se já não o virem em lado nenhum
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-6w-49-en-15-new+police+story-70-cj6.html

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http://asianspace.blogspot.com/2009/05/new-police-story-aka-hora-do-acerto.html

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0386005/

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