Amigos do Cinema ao Sol Nascente, no dia 24 de Dezembro de 2013 fez dois anos que postei o meu último texto neste blog e parece que foi ontem. A última vez que escrevi algo por aqui sobre um filme foi já na véspera de Natal de 2011…
Por isso se calhar começo este meu regresso agradecendo a toda a gente que apesar do meu silêncio nestes 24 meses se manteve fiel a este pequeno espaço de opinião pessoal e contribuiu para que surpreendentemente as visitas não só se tenham mantido estáveis na maior parte do tempo como ainda por cima tivessem começado a aumentar durante 2013 sem eu perceber bem porquê. De qualquer forma obrigado a todos vocês que nunca deixaram de ler o que escrevo e também aqueles que comentaram nos posts, muitos dos quais eu não cheguei a responder (ainda).
O blog esteve parado por vários motivos. Por um lado tinha uma situação de Alzheimer muito complicada em casa (tendo a minha mãe depois morrido no verão de 2012) e por outro nestes últimos dois anos o meu trabalho como ilustrador foi vindo a aumentar exponencialmente e muito pouco tempo me sobrou para ver cinema oriental ao ritmo que o podia fazer dantes, quanto mais ter tempo para escrever sobre ele como gostaria.
Portanto…
A minha ideia será a partir de agora tentar continuar a dar vida a este espaço, embora nos meses que se seguem a coisa ainda poder vir a ser algo intermitente pois ainda estou com muito trabalho de ilustração em mãos (visitem o meu facebook ou o meu site) e portanto o cinema oriental terá que encaixar algures nisto tudo.
Sendo assim, esta primeira review que estou a postar hoje será assim uma espécie de preview daquilo que ainda pretendo recomendar nos próximos tempos, pois ao longo destes dois anos de silêncio não deixei de acumular alguns títulos que se calhar vocês agora irão continuar a gostar de conhecer.
Recomecemos então…reboot !
[“Journey to Agartha”] (no seu titulo ocidental), é mais um filme de Makoto Shinkai.
Isto para muitos se calhar, será suficiente e nem precisarão de continuar a perder tempo a ler o texto que se segue pois sei que vocês sabem que não querem perder mais esta obra.
Para outros tantos, este filme não será novidade, principalmente para o pessoal que acompanha as notícias Anime e muito provávelmente já o viram. Se assim for, não se esqueçam que este blog serve essencialmente para que eu possa apresentar coisas como esta a quem não conhece e portanto o texto que se segue será dedicado a esses leitores essencialmente.
[“Journey to Agartha”], é mais um filme de Makoto Shinkai.
Se nunca ouviram falar dele, nunca viram o seu trabalho ou se calhar até nem gostam particularmente de cinema de animação, então para evitar que eu me repita nas referências e elogios a este jovem realizador, é melhor fazerem uma pausa aqui e lerem as minhas duas anteriores reviews sobre o seu trabalho, nomeadamente o seu primeiro filme caseiro “Voices of a distant star” e o já mais profissional (embora ainda produzido no seu já habitual método “caseiro”), “The place promised in our early days”.
Eu espero…
…
…
…
…
Ok, já leram ?…
Então se calhar percebem melhor o valor que eu enquanto ilustrador dou ao trabalho de um autor com Makoto Shinkai, porque eu sei o que custa desenhar e também me identifico bastante com a sua paixão por cenários e paisagens imaginárias.
[“Journey to Agartha”], é mais um filme de Makoto Shinkai e mais uma vez, temos direito a uma história que apesar de ter que contar obrigatóriamente com personagens e bonecos é essencialmente contada através do uso de cenários incrivelmente bonitos e detalhados.
Isto é, os personagens continuam lá, mas como sempre grande parte da atmosfera emocional da história depende muito do ambiente cénico que embrulha toda a narrativa e é aquilo de que eu mais continuo a gostar no trabalho de Shinkai. Toda a poesia da história, toda a emotividade da narrativa são acentuadas essencialmente pela luz dos cenários e principalmente pelos detalhes mínimos que os compõem. Pode ser uma gota de chuva a cair, pode ser uma folha a flutuar ao vento, pode ser uma nuvem de fumo a sair de uma chaminé, mas há sempre um pormenor assim integrado numa paisagem encaixado num momento chave do filme quando se trata de emocionar o espectador. Contrariamente ao habitual, Makoto Shinkai usa a paisagem para humanizar os personagens ao passo que normalmente nos filmes, os cenários costumam ser apenas o suporte visual onde se coloca a acção.
Também em [“Journey to Agartha”] a acção está lá, (e até bem mais do que é costume no cinema deste realizador), mas não esperem o típico desenho animado Anime cheio de sequências estilizadas a duzentos frames por segundo. Se são daqueles leitores que nunca se atreveram a espreitar um Anime para cinema porque não podem com aquelas séries televisivas para adolescentes no estilo Naruto ou Dragon Ball, não se preocupem pois os filmes Anime de Makoto Shinkai não seguem de todo essa fórmula e basta terem visto “Voices of a distant star” ou “A place promised on our early days” para perceberem isso.
Os Anime deste realizador não são sobre acção, mas sim sobre temas e histórias apresentados de uma forma mais adulta apesar da aparência juvenil que caracteriza o próprio estilo nipónico de desenho.
Shinkai, tem sido apelidado de -novo Myiazaki- e percebe-se porquê. Desta vez, não só os próprios bonecos se assemelham bastante ao que se costuma encontrar em filmes como “Princesa Mononoke”, ou “Nausicaa, Valley of the Wind” como até as temáticas da história se aproximam das preocupações ecológicas sempre presentes no também no trabalho de Hayao Myiazaki, como acontece em “Laputa Castle in the Sky”, “Conan o Rapaz do Futuro” ou até mesmo “O meu vizinho Totoro”; isto porque até [“Journey to Agartha”] conta uma história que gira essencialmente á volta da importância do mundo natural ao melhor estilo Myiazaki.
Aliás, não deixa de ser curioso Makoto Shinkai fazer cinema mais no estilo Myiazaki sem qualquer esforço quando o próprio filho do clássico realizador bem tenta e nunca chega lá, como ficou bem demonstrado na falhada adaptação “Tales of Earthsea” que ficou bem áquem das expectativas de toda a gente.
Em [“Journey to Agartha”], Shinkai pela primeira vez não desenha os bonecos. Se conhecem o trabalho do realizador e já viram entrevistas com ele, sabem o quanto ele detesta desenhar bonecos, (como o compreendo…), preferindo antes passar tempo a criar paisagens imaginárias e cenários de fantasia, (idem…) com os resultados absolutamente notáveis que se podem ver em todos os seus filmes.
Na minha opinião, Shinkai desenha as melhores paisagens do Anime actual. Não apenas pelo design mas essencialmente pela forma como sabe iluminar cada cena e coloca sempre um toque de poesia visual que ás vezes só notamos a uma segunda visão.
Portanto, desta vez Shinkai delegou a bonecagem para o seu amigo e colaborador mais directo e focou-se essencialmente na realização e no desenho dos cenários, o que não poderia ter dado melhor resultado. Isto porque em [“Journey to Agartha”] os bonecos já deixaram de ter aquele leve toque amador que ainda estava presente nos trabalhos anteriores e os cenários são absolutamente de cortar a respiração na forma como o realizador sabe pintar luz.
Outra coisa curiosa nesta produção está no método de realização do filme. Mais uma vez não há cá estúdios, Makoto Shinkai alugou um apartamento pelos meses de produção, colocou um bando de amigos a viver permanentemente por lá e entretanto foram desenhando e realizando mais esta obra prima visual que apesar de extremamente profissional não deixa de ter sido produzida de forma realmente caseira entre sofás, pizzas e MACs, por um grupo de amigos que depois se volta a separar quando o projecto fica concluído como é habitual no cinema de Shinkai.
Mas [“Journey to Agartha”] é sobre o quê ? Bem, como de costume, eu não pretendo contar nada da história, pois como espectador eu continuo a ser daqueles que odeia trailers americanos onde nos explicam a história de uma ponta á outra logo na apresentação e portanto já sabem que comigo nestes textos a ideia é fazer com que vocês sintam curiosidade em descobrir um filme de raíz sem saberem nada sobre ele.
Essencialmente [“Journey to Agartha”] é uma aventura de Fantasia. Uma espécie de mistura entre “Nausicaa, Valley of the Wind” e “Princesa Mononoke” mas com um toque contemporâneo e passada num mundo totalmente inspirado na estética Tibetana e do norte da India.
Contráriamente ao que é costume no cinema de Makoto Shinkai, este filme é uma história de aventura mais directa com uma narrativa menos subjectiva e portanto se calhar será o filme mais comercial dele mas nem por isso um produto menor.
Curiosamente, temáticamente, [“Journey to Agartha”] é um filme sobre a morte.
O tema da morte e da perda das pessoas que amamos como sendo algo que faz parte da vida é o fio condutor “invisível” que movimenta toda a história e por vezes a coisa chega a tornar-se até algo pesada e totalmente inesperada embora nunca deprimente. Tem um par de momentos tristes e realmente surpreendentes pelo meio da história mas logo o realizador lhes dá a volta de uma forma poética , deixando-nos a pensar na morte de uma forma mais positiva do que se calhar costuma acontecer quando encontramos temáticas semelhantes em obras bem mais pretensiosas.
É mais uma das virtudes de cinema de Makoto Shinkai e também aqui em [“Journey to Agartha”] isso se nota bastante. Os temas importantes estão sempre lá mas nunca nos são permanentemente atirados á cara como sendo a coisa mais importante da história. No entanto damos por nós constantemente a pensar no assunto. Especialmente no caso desta aventura que essencialmente é sobre morte e sobre a forma como cada um de nós tem que lidar com ela. Supreendentemente é um daqueles filmes que se recomenda a quem estiver em processo de luto, essencialmente por ser bastante filosófico e dar-nos algumas perspectivas bem positivas sobre uma coisa que se calhar deveria ser menos assustadora para nós do que é na nossa cultura ocidental. Neste aspecto [“Journey to Agartha”] é claramente um filme saído do cinema oriental sem qualquer sombra de dúvida.
Como pontos menos bons, pessoalmente penso que se perde um pouco talvez pelo final, por entrar por conceitos visuais talvez demasiado abstractos quando todo o filme tinha sido bastante linear até então. Penso que as cenas de acção finais perdem um pouco da sua intensidade e toda a parte dramática não funciona particularmente bem, talvez porque nunca se afasta muito daquilo que já vimos mil vezes em mil Animes anteriormente, e até já vimos feito de forma bem mais emocionante.
Por isso quanto a mim, aquilo que devia ser o climax emocional e dramático do filme e da história não tem a força que pedia e deveria ter tido. Apenas porque o filme perde um pouco da originalidade que construiu até aí e como tal perdemos um pouco a empatia com o que se passa á volta dos personagens, pois ou tudo é demasiado abstracto ou tudo se passa de forma demasiado rápida como se o filme precisasse de acabar ali e não houvesse mais ideias sobre como terminar o argumento.
Felizmente que depois os minutos finais da história voltam á atmosfera original e tudo termina de uma forma nostálgica e bonita que nos faz desejar que houvesse algures uma sequela a ser preparada. Ou talvez não.
Apenas mais uma nota especial para a banda sonora. Novamente podemos contar com uma atmosfera musical totalmente perfeita para o tipo de história que conta. Quem gosta do estilo melódico e orquestral que normalmente acompanha brilhantemente grande parte dos bons Anime para cinema que podemos encontrar por aí, vai adorar a música deste filme.
Recomendo vivamente que espreitem o videoclip com a canção “Hello, goodbye hello”, que embora contenha um par de spoilers vocês nem irão notar sem terem primeiro visto primeiro o filme. É melhor que um trailer e se gostarem do videoclip vão adorar [“Journey to Agartha”].
Resumindo:
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CLASSIFICAÇÃO
Mais um grande filme de Makoto Shinkai, talvez o mais comercial que ele produziu até agora por ser essencialmente uma aventura de fantasia com uma estrutura comum embora ambientada num universo visual bastante pessoal e inspirado no Tibete.
Não há muito mais que se possa dizer, porque quem gosta do trabalho deste realizador já sabe com o que conta e no que toca a ambiente este é mais um filme fabuloso que irá agradar a várias faixas etárias sem qualquer sombra de dúvida por diferentes motivos.
Completamente obrigatório em qualquer videoteca de quem gosta de cinema, independentemente disto ser um Anime ou não.

A favor: Excelente personagem feminina, o espírito de aventura da história, a forma como trata o tema da morte ao longo de todo o argumento, as incríveis paisagens já habituais no trabalho de Makoto Shinkai, as cores são fabulosas, o ambiente de fantasia que nos apresenta um universo diferente, a diversidade dos momentos de aventura, mantém o mistério de se explorar um mundo novo, os personagens cativam-nos á medida que conhecemos os seus destinos, tem algumas supressas pelo meio, a banda sonora.
Contra: O climax da aventura não tem a originalidade do resto da historia pois já vimos isto antes mil vezes em mil Animes, ás vezes sentimos que não havia necessidade da história se ramificar em algumas direcções por onde entra, o tema constante da morte e do luto pode tornar por vezes o filme um pouco fúnebre para algumas pessoas apesar do enorme colorido que percorre todas as imagens (mas isto só será sentido pelo público adulto).
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NOTAS ADICIONAIS
Atenção que o filme tem dois títulos.
O título original é traduzido no ocidente por: “Children who chase lost voices” sendo o título ocidental oficial “Journey to Agartha”.
Trailer
http://youtu.be/-62wqEfsKjo
Videoclip
http://youtu.be/gNCh3DWPkRg
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Especialmente se gostarem de desenho, pois a caixa contém um pequeno livro cheio de esboços, desenhos e testes de cor efectuados pelo realizador. Só este livro inédito vale a compra do Blu-ray.
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