The Magician (Chosun Masoolsa) Dae-seung Kim (2015) Coreia do Sul


Sempre que vejo um trailer para um filme oriental, devidamente ocidentalizado com aquela estrutura de trailer americano e apresentado em inglés; suspeito logo que a coisa não vai ser nada de especial e também aqui em [“The Magician“] parece que não me enganei.

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Desde há vários anos a esta parte,  há por aí uma estranha tendência em que tudo o que é cinema do oriente “escolhido” para ser lançado no ocidente com distribuição de uma major americana, normalmente é sempre bastante básico. Especialmete quando comparado com titulos que mereciam mesmo ter divulgação por cá mas permanecem eternamente inorados por quem depois distribui as coisas mais medianas saídas da Ásia como se fossem verdadeiras obras extraordinárias (de que toda a gente tem que obrigatóriamente que gostar).

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Nestas alturas , aparecem críticas ocidentais supostamente profissionais completamente extasiadas por todo o lado sobre muitos desses títulos; (aconteceu agora novamente com o extremamente banal “A Assassina” que anda por aí apresentado como sendo qualquer coisa de génio); e às vezes pergunto-me se quem escreve maravilhas sobre produções orientais absolutamente medianas que apenas chegam cá oficialmente porque são distribuídas por Hollywood, alguma vez se deu ao trabalho de acompanhar o cinema realmente bom que há do outro lado do mundo ou apenas fica surpreendido com o exotismo natural de um tipo de filme a que não está habituado, quando as distribuidoras americanas “nos dão permissão” para finalmente notarmos que determinado título existe.

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[“The Magician“] não sendo tão banal quanto outros títulos que a crítica ocidental apresentou como sendo verdadeira obras primas ou filmes extraordinários no passado; apenas porque foram distribuidos no ocidente;  (“Azumi“, “Shinobi“, “Bichunmoo – O guerreiro“,”Duelist” ou até mesmo o decepcionante “Red Cliff” que deixou muito a desejar); é no entanto absolutamente mediano em todos os sentidos quando comparado com dezenas de outras opções superiores que existem neste momento na Coreia do Sul e que mereciam mesmo ser distribuídas por cá.

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Há por aqui uma lógica que eu não entendo de todo e que começou curiosamente quando parece que o mundo ocidental descobriu “Crouching Tiger Hidden Dragon“; outro título bastante inferior a 90% dos verdadeiros Wuxias orientais que poderão em alternativa ver se explorarem o cinema Wuxia da China por exemplo; mas que no ocidente adquiriu estatuto de obra prima , fruto um pouco dessa lógica desconexa que a crítica profissional parece apresentar constantemente; como se escrevessem bem sobre um filme apenas porque Hollywood estalou os dedos para que assim seja, porque alguém algures num departamento de marketing em Los Angeles achou que seria interessante criar uma moda sobre cinema “de Karaté” para consumo dos cinéfilos da pipoca ocidental.

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[“The Magician“] embora pareça ser mais um título assim,  não é mau. Na verdade não tem absolutamente nada de errado. Tudo o que faz, resulta em termos de história, tem um certo carísma a nível de personagens, mas depois o produto final não deslumbra minimamente.
O facto de ter uma realização algo televisiva também não ajuda e em muitos momentos mais parece um telefilme apropriado para um qualquer canal de cabo do que propriamente um produto para cinema. A própria fotografia do filme tem ali um sabor a televisão que quanto a mim retirou logo metade do ambiente que esta história deveria ter tido.

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Talvez porque [“The Magician“] é suposto ter um enquadramento histórico e sabe-se lá porquê, mais uma vez a Coreia do Sul parece não conseguir acertar propriamente neste tipo de filmes, contrariamente ao que se passa no cinema da China onde em termos de ambiente épico, ou atmosfera de autenticidade a coisa resulta sempre plenamente.
Quando a Coreia do Sul tenta algo semelhante, o resultado é sempre algo plástico e bastante -televisivo- o que acontece também aqui nesta história romântica em ambiente Wuxia quanto baste.

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No entanto, mesmo enquanto cinema romântico, este título também não é propriamente indispensável ou um titulo que se recomende imediatamente.
Mais uma vez, [“The Magician“] não tem propriamente nada de errado, mas fica a meio termo em tudo, principalmente em termos emocionais. E quando uma história romântica produzida na Coreia do Sul não consegue criar uma empatia emocional com o espectador, algo vai mal.

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[“The Magician“] gira à volta de uma rapariga que foi essencialmente vendida pela familia e enviada para o sul do país para se casar com o rei e tornar-se por isso numa verdadeira princesa. A comitiva real pára numa cidade onde um jovem mágico com um passado torturado tem o seu espectáculo de magia montado e portanto já estão a ver onde isto vai dar.

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Este é um filme dificil de classificar precisamente porque nem como cinema romântico é particularmente interessante. Os primeiros vinte minutos são curiosos mas algo aborrecidos, com cenas onde se conhece o passado do jovem mágico ou no presente ficamos a saber como são feitos os seus truques que impressionam as plateias da cidade onde reside.

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Na verdade estava quase a desligar o filme pois o ambiente “televisivo” é algo que me irrita por demais em produções para cinema e [“The Magician“] logo desde o inicio parecia encaixar-se nesse estilo visual e não ir muito mais além. Felizmente foi precisamente nessa altura que a parte romântica da história começou verdadeiramente e percebi que pelo menos havia ali uma boa química entre os dois protagonistas.
[“The Magician“] só não resulta melhor em termos românticos porque o filme não se decide se quer ser uma comédia, um drama, ou um thriller politico com sabor a Wuxia e intenções de se apresentar como recriação histórica.

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No meio de toda esta indecisão de género que cruza e descruza toda a narrativa ao longo das mais de duas horas de filme, os personagens acabam por ser algo desperdiçados. O que é pena, pois a história consegue um bom grupo que se calhar poderia ter sido realmente interessante nas mãos de outro argumentista talvez. Mesmo assim ainda há alguma humanização bem conseguida que acaba por ser sempre o melhor que [“The Magician“] tem para dar.

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Se gostam de – Magia – enquanto espectáculo se calhar irão achar o filme muito interessante, pois toda a parte quase em ambiente -steampunk- passada nos bastidores do teatro é bastante curiosa.
Tenta também ter algumas cenas de acção, mas o filme é tão ligeiro em tudo que qualquer carga dramática que ainda poderia vir dessas partes fica logo anulada à partida, até porque as cenas de luta não têm grande interesse ou energia por aí além.

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CLASSIFICAÇÃO:

[“The Magician“] é competente em tudo o que faz, mas garanto-vos que daqui a uns dias já nem se lembram dele. É por demais mediano em tudo, as cenas românticas têm alguma magia ao inicio mas logo perdem a chama porque o tom se repete e por vezes a história parece estar presa numa espécie de telenovela televisiva ambientada séculos atrás e pouco mais.

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Se já viram tudo o que tenho recomendado de cinema romântico e procuram um título simpático, podem ver este filme pois não darão o tempo por perdido. Enquanto dura acompanha-se bem e até tem um final ambiguo algo interessante, mas não é um filme que irão querer voltar a ver. Não por ser mau, mas porque parece não ter grande ambição para além do que mostra.
Três tigelas de noodles. É bom e pronto. Nem mais, nem menos.

 

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A favor: o par romântico tem uma boa química, há alguns personagens secundários muito interessantes embora pouco explorados (o general guardião da princesa poderia ter sido excelente por exemplo), tem algum ambiente nas cenas românticas iniciais, as partes em que vemos os bastidores dos truques de magia  são interessantes, tem um par de paisagens muito bonitas.
Contra: o tom do filme é ligeiro por demais, não tem grande carga dramática nem cria particular empatia com o espectador, tenta misturar vários géneros de filme mas todos ficam a meio caminho, é um tipo de filme que logo se esquece.

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TRAILER

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt4471636

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Filmes “semelhantes” que lhes poderão interessar:

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The Assassination Classroom (Ansatsu kyôshitsu) Eiichirô Hasumi (2015) Japão


Se são daqueles que sempre pensaram que o que faltava no filme “Dead Poets Society/O Clube dos Poetas Mortos” eram umas pistolas e uns assassinatos então , [“The Assassination classroom“] é para vocês !

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Quando eu pensava que já tinha visto tudo, eis que o Japão volta à carga com mais um titulo absolutamente indiscritível e verdadeiramente inclassificável.
Por falta de tempo não costumo acompanhar o que se passa no mundo das séries Anime ou dos Manga, mas consta que este filme é a adaptação live-action de uma das mais populares séries animadas do momento em termos de objecto de culto.
Depois do filme, acho que vou ter mesmo que ver a série…

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Para aqueles que andam sempre a dizer que já não existem conceitos originais, tomem lá este.
Um extraterrestre que se parece com um polvo gigante amarelinho e com o rosto sorridente do -smile- um dia destroi mais de metade da lua (esculpindo-a para sempre em forma de meia-lua) e dirige-se para o nosso planeta Terra para voltar a fazer o mesmo, porque sim.
Para evitar que tal tragédia aconteça o governo do Japão faz um acordo com o alienígena e na troca deste poupar a Terra por mais uns meses, aceita dar-lhe emprego como professor de liceu.

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Sim, leram bem.
Mas não é um professor qualquer. É um professor de –assassinato– num liceu que treina os adolescentes para serem assassinos profissionais porque sim.
O objectivo na sala de aula, é por isso, assassinar o professor. Se não o conseguirem fazer até um determinado prazo, o extraterrestre amarelinho irá destruir também o planeta Terra porque lhe apetece.
Ainda está alguém aí ?… … …

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E mais; tudo isto parece passar-se numa espécie de Japão alternativo, ou pelo menos num futuro próximo onde a sociedade e o mundo escolar está dividido entre aqueles que têm boas notas nos estudos e por isso irão pertencer à elite e aqueles que são medianos mas que estão para sempre condenados a servir os ricos , um pouco como nas castas indianas.
Esses alunos são remetidos para a turma-E onde são treinados como assassinos para servir o governo.
Ah e a professora de Inglés chama-se “miss Bitch”.
Vic Bitch.

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E pronto, a partir daqui o que mais se pode dizer…
[“The Assassination classroom“] poderia ter sido um dos mais geniais filmes de…qualquer coisa…desde…ehm…qualquer outro…
O problema é que este filme tem pelo menos meia hora a mais e isso retira-lhe logo muito do divertimento que parece ir gerar à partida quando apanhamos com o conceito de tudo isto.

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Talvez porque tem a necessidade de apresentar inúmeras personagens ao mesmo tempo que tenta fundamentar este universo totalmente alucinado, [“The Assassination classroom“] acaba por gastar muito tempo naqueles momentos de exposição em que se fala muito sobre coisas em vez dessas coisas nos serem mostradas. Curiosamente isto parece ser a típica praga que assola grande parte do cinema live-action Japonês quando entra por este tipo de histórias mais Anime e [“The Assassination classroom“]  ressente-se disso, pois não fosse tão repetitivo na sua estrutura e tudo poderia ter sido fantástico. Algo me diz que a sequela (e sim vai ter sequela), irá ser bem mais consistente precisamente porque já não tem de apresentar personagens.

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É também um filme em termos geográficos muito restrito e tudo practicamente se passa ou dentro da sala de aula ou no recreio do liceu. Raramente abre a acção ou o drama para outro sitio qualquer salvo um par de breves momentos. Pessoalmente estou sempre á espera de ambientes épicos neste tipo de filme que se cola de certa forma ao estilo -super herois- de uma maneira ou de outra e quando isso não acontece sinto sempre que falta algo. Mas isto é uma opinião pessoal mesmo. De qualquer forma practicamente toda esta primeira história se passa dentro da sala de aula e pouco mais.

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Por outro lado, personagens completamente loucos é o que não falta por aqui. Desde o super-puto tipo Dragon Ball que voa e luta com os cabelos, até à colega de turma que é assim uma espécie de super computador em versão monólito do 2001 mas num estilo teenager fofinha; tudo em [“The Assassination classroom“] parece existir para desorientar o espectador apanhado de surpresa. Mas resulta ?
Por acaso até resulta. Até o puto esquisito tem pinta.

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Tirando a repetição constante das situações, algumas cenas que não levam a lado nenhum (os rapazes irem espreitar o dormitório das raparigas) e o excesso de diálogos de exposição, a verdade é que ainda sobra muita coisa realmente divertida que nos faz ficar hipnotizados sem conseguir sair de frente do ecran só para saber o que raio nos vai parecer pela frente de seguida.

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[“The Assassination classroom“] tem também a vantagem de contar com efeitos especiais fantásticos no seu geral. Algumas cenas de acção mais digitais resultam plenamente, a estética visual é totalmente Anime mas reproduzida em live-action e nada se pode apontar de negativo em termos técnicos a esta produção. Simplesmente esquecemo-nos muitas vezes que estamos a ver efeitos especiais e isso é o melhor que se pode dizer deste trabalho nesse aspecto.
A animação digital do personagem alienígena Kersensei é simplesmente espectacular e não conseguimos distinguir quando foi usada animação digital ou um efeito práctico com um boneco insuflável real no set.

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Todas as aventuras alucinantes do alien sorridente são acompanhadas por animação fabulosa, fluída e absolutamente notável, sendo este filme um bom exemplo para mostrar aquele pessoal que ainda pensa que só em Hollywood se fazem efeitos especiais a sério.
Quem gosta daquelas sequências de acção em estilo Dragon Ball ou Pokemon, vai delirar com algumas das cenas deste filme pois devem ser das mais fieis ao estilo Manga que vi até agora.

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[“The Assassination classroom“] é um filme de efeitos especiais, mas ao contrário de coisas como por exemplo “Transformers”, aqui os efeitos são sempre usados para complementar a história e não apenas para exibir o boneco (e ficamos a gostar muito do boneco sorridente também (apesar do riso irritante)). Teria sido muito simples terem entrado por esse caminho, mas felizmente que o argumento ainda se preocupa com os personagens. Infelizmente nem sempre resulta, pois são personagens a mais para duas horas de filme, mas pelo menos (embora algo vazios) nunca sentimos que estejam apenas por ali à deriva, pois alguns até têm momentos importantes, principalmente nas tentativas de assassinato do professor.

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O filme falha no entanto quando tenta dramatizar algumas situações, por exemplo no final. Há tanto personagem no filme que quando a história precisa de tentar meter alguma emoção para criar empatia com o espectador no que toca ao destino de certos personagens a coisa não resulta de todo e tudo parece metido a martelo porque era preciso e mais nada.
E não resulta porque precisamente não há grande desenvolvimento de personalidades ao longo da história. Todo o filme é focado no alien e como resultado o personagem mais humanizado acaba mesmo por ser ele. O que nem é particularmente negativo.

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Este é um filme muito estranho, não só pelo tema, mas pela estrutura. Na verdade não se passa grande coisa nele a não ser assistirmos constantemente às inumeras tentativas de assassinato do professor. Algumas divertidas, outras espectaculares, outras nem por isso.
Ha por aqui algures uma sátira politica e um comentário social, mas perde-se um bocado porque o que importa é mesmo o boneco amarelo. Por outro lado nem é grave, pois o que importa mesmo é mesmo o boneco amarelo e sendo assim…venha ele.

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Portanto [“The Assassination classroom“] recomenda-se a quem ? Bem, a quem conhece o Anime original talvez. Também se recomenda a quem quer ver um filme completamente alucinado pois a verdade é que é realmente uma ideia original muito bem executada técnicamente. Só pela originalidade vale a pena espreitarem.
Tem algum humor, é fofinho quanto baste e apesar da enorme quantidade de armas , não é propriamente um filme violento, embora tenha aqui e ali umas pitadas de politicamente incorrecto muito bem colocadas, o que só lhe fica bem.

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A verdade é que senti que há por aqui algo com um enorme potentencial, mas que fica a meio caminho precisamente porque isto é essencialmente um filme introdução.
Este universo tem de ser explicado, deixa pontas soltas no ar no final e tudo aponta para que a sequela resolva tudo o que fica a pairar nesta primeira parte.
Por outro lado, tem momentos divertidos e a sua originalidade é totalmente cativante.

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CLASSIFICAÇÃO:

Estava a pensar dar uma classificação menor a [“The Assassination classroom“] porque tem realmente meia hora a mais e as cenas de exposição tornam a história algo maçadora e repetitiva quando a história chega a meio; no entanto ninguém poderá negar a originalidade deste filme e só por isso merece ser destacado. Ainda por cima tecnicamente está fantástico e portanto é um daqueles que se recomenda a toda a gente que pensa que já viu tudo.

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Quatro tigelas de noodles porque sinto que a sequela deverá ser melhor, mas este vale pela originalidade acima de tudo.

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A favor: a originalidade e a loucura de todo o conceito, o personagem do alien amarelo é genial, os efeitos especiais digitais são de alta qualidade, boa fotografia, torna-se num filme verdadeiramente hipnótico a partir de certa altura.
Contra: deveria ser mais curto e ter menos momentos de exposição redundantes, é algo repetitivo quando passa a novidade do conceito, são duas horas onde não acontece grande coisa para além do que se repete constantemente e o final fica no ar.

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILER


IMDB

http://www.imdb.com/title/tt3853452

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Se gosta de filmes alucinados e originais:

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Black Coal Thin Ice (Bai ri yan huo) Yi’nan Diao (2014) China


Pensava que era desta que ia aqui escrever uma recomendação para um excelente policial em estilo oriental mas fui enganado. Tudo indicava que [“Black Coal Thin Ice“] ia ser realmente um bom título para um género de que ainda pouco falei por aqui na cinematografia oriental, mas afinal ainda não é desta.
As “iludências aparudem” meus amigos.

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Estou cá com a impressão de que a crítica ocidental que diz maravilhas deste filme só deve ter visto mesmo apenas o trailer e nada mais.
Isto porque tudo o que tem sido escrito sobre [“Black Coal Thin Ice“] em tom exacerbado por alguns críticos iluminados em puro extase de intelectual de café, realmente está absolutamente certo se apenas virmos o trailer.

Tudo no trailer indica que isto vai ser um excelente policial noir sim senhor. O trailer tem mistério, puxa-nos para dentro da história e tem um ritmo que parece perfeito para um filme policial nestes moldes.
Depois vemos o filme e parece que alguém se enganou na montagem.
[“Black Coal Thin Ice“] contém realmente todos os elementos que estão na apresentação, mas este é um caso típico de como uma montagem pode determinar o tom e o estilo de um filme, para bem ou para o mal.

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[“Black Coal Thin Ice“] tinha tudo para ser o thriller intenso, estilizado e emocionante que aparenta ser no trailer, mas na realidade é um filme muito diferente.
É uma pena, mas este filme é um daqueles que até irrita porque o potencial é absolutamente fantástico, a história é boa, o ambiente visual está lá mas depois deita tudo a perder quando entra por um estilo pretencioso nos moldes do pior cinema de autor.
Não que [“Black Coal Thin Ice“] seja chato como o raio, mas sinceramente deveria ter sido o filme que aparenta no trailer e não o filme que na realidade é.

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Estou sinceramente convencido que muita gente deve ter escrito reviews à pressa para entregar ao editor no último minuto apenas tendo olhado para o trailer sem ter visto o filme.
[“Black Coal Thin Ice“] dispensava por completo aquelas pausas narrativas, aqueles enquadramentos longos e momentos contemplativos que parecem durar minutos a fio quando na verdade até só duram alguns segundos.
Não há nada de errado num realizador querer criar um ambiente intimista, criar uma atmosfera desencantada para basear a sua história numa realidade urbana em vez de a filmar numa espécie de versão da realidade num tom cinematográfico habitual, mas sinceramente bastava estabelecer essa premissa num par de cenas só para o espectador perceber onde está e depois deveria ter seguido em frente.

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Em muitos momentos o tom narrativo de [“Black Coal Thin Ice“] parece o equivalente àquela velha piada que nunca mais acaba porque quem a conta repete a história sucessivamente minutos a fio antes da punchline final que deveria ter graça mas que depois perde todo o impacto.
São assim todos os bons momentos que acontecem na história deste título policial.
Quando a narrativa parece que finalmente vai reproduzir o filme que vimos no trailer, o realizador resolve entrar novamente em modo “artístico” e encalhar a montagem com mais uma daquelas pausas contemplativas de qualquer coisa, takes com segundos a mais que perpetuam momentos vazios (e nunca mais ninguém diz – “corta”); ou então inserindo cenas que na verdade não servem absolutamente para nada na história, mas parecem estar lá porque o realizador está mais preocupado em ser considerado – um autor – do que em contar uma história noir pura e simples nos moldes clássicos.

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Há algures um excelente filme noir pelo meio de [“Black Coal Thin Ice“], visualmente é muito atmosférico, baseado numa realidade urbana fria e desencantada e a história no seu todo é muito boa.
A história gira à volta de um crime inicial que depois se ramifica por mais uns quantos e tinha um potencial fantástico para nos surpreender. Começa com o facto misterioso de que vários bocados de um cadáver apareceram ao mesmo tempo em várias regiões distantes da China mas logo se torna numa história mais intimista que leva a conclusões relativamente inesperadas. Tivesse [“Black Coal Thin Ice“] sido realmente o filme que parece ser no trailer, estariamos na presença de um excelente policial noir.

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[“Black Coal Thin Ice“] falha pura e simplesmente porque todo o mistério, mas principalmente todos os twists e revelações da história são completamente diluídos por tantos momentos em modo -cinema de autor- que insistem em fazer com que o impacto da narrativa se perca constantemente.
Quando acontece algo que deveria ser um twist ou uma reviravolta na história, o espectador practicamente nem sente o impacto da revelação ;(nem notamos às vezes) e isso é o pior que para mim pode acontecer naquilo que supostamente seria uma história policial.

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O problema de [“Black Coal Thin Ice“] é que nunca se define se quer ser cinema de entretenimento com uma boa história policial ou um título iluminado no cinema de autor cheio de metáforas pessoais sobre o isolamento, a depressão, vidas vazias, etc, mas num tom algo pretencioso.
Toda essa vertente estraga por completo o que deveria ter sido um excelente policial chinês.
Por um lado continua a ser. Se vocês conseguirem abstrair-se dos tiques -auter- da história e terem presença de espírito para se concentrarem apenas no mistério policial, se calhar irão gostar bastante.
O filme tem um enorme potencial. Mas na verdade são dois filmes colados num só e não resultam como um todo numa análise final.

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Visualmente tem momentos excelentes e é um daqueles títulos que me recordou constantemente  Blade Runner. Estava a ver [“Black Coal Thin Ice“] e a imaginar que se o ambiente disto tivesse uns carros voadores pelo meio e uns edificios épicamente tecnológicos como background nos cenários, este seria uma argumento fantástico para uma espécie de sequela não oficial made in china para Blade Runner.

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Todo o ambiente está cheio de neons, viela escuras contrastando com as luzes da cidade e é um filme essencialmente nocturno cheio de contrastes de cor e jogos de iluminação muito bem pensados. Os personagens parecem também ser absolutamente perfeitos para Blade Runner, o detective desencantado (que não detectiva por aí além), a femme fatale num estilo Rachel mas em tom urbano contemporâneo, um “vilão” que num mundo futuristico poderia muito bem ter sido um excelente replicant e todo um conjunto de referências actuais orientais que o próprio Blade Runner utilizou com uma estética futurista trinta anos atrás.
Até o anti-heroi tem qualquer coisa a fazer lembrar Rick Deckard.

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Por este prisma [“Black Coal Thin Ice“] é um filme fascinante, pois sente-se que poderia ter sido realmente um Blade Runner a todo o instante. Inclusivamente o tom intimista e a história de amor melancólica estão lá também, (só falta Vangelis); apenas tudo leva com um estilo de realização que é por demais pretencioso para que os ingredientes certos resultem como deveriam ter resultado mesmo neste cenário contemporâneo.

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[“Black Coal Thin Ice“] é também um filme algo deprimente. Uma coisa que contribui imenso para isso é a banda sonora clássica por vezes em tom de Adágios sucessivos (algum Richard Strauss), ou então entra pela música pimba chinesa mais atroz. Isto até nem teria sido problemático; o problema é que aliado àquele estilo de realização pretencioso em modo -instalação artística- por vezes, isso ainda contribui mais para que a sua história de mistério se perca por completo.
E o final também não ajuda. O mistério resolve-se mas depois há minutos a mais na conclusão quando o filme fecha assim com mais uma espécie de metáfora visual e que era perfeitamente desnecessária, até porque parece que irá levar a qualquer lado e não leva a lado nenhum. E o filme acaba. The end.

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CLASSIFICAÇÃO:

Há por aqui em [“Black Coal Thin Ice“] um excelente filme noir a querer saltar para fora a todo o instante. Precisamente aquele filme noir com que o trailer engana toda a gente mas não existe de todo nesta produção e não é de todo o que aparenta ser se vocês forem pelas críticas entusiasmantes que aparentemente tem recebido por todo o lado.

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Todas as excelentes qualidades que ninguém nega a este título, são no entanto diluídas pela pretenção a cinema extremamente sério num tom de autor que era perfeitamente dispensável, pois neste caso só serviu para colocar em terceiro plano aquilo que deveria ter sido o seu maior atractivo; o argumento. Em [“Black Coal Thin Ice“] filma-se muito para lá do que o argumento pedia para resultar e tudo o que é adicional torna-se pretencioso como o raio e em alguns momentos secante também pois faz com que a história perca todo o impacto.

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Duas tigelas e meia de noodles, porque é um filme extremamente interessante mas nem de perto ou de longe é a obra prima que certa crítica parece ter visto neste título. E podia ter sido.
Quanto a mim os críticos só viram o trailer mesmo. Esse sim, contém o filme que isto deveria ter sido e que aparenta ser nas reviews ocidentais.

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A favor: a história é boa, o ambiente visual é excelente, boa fotografia, bons actores e bons personagens, o trailer é fantástico.
Contra: não se deixem enganar pelo trailer, tem cenas que se alongam por demais, o tom de cinema de autor torna-se pretencioso e é totalmente dispensável num titulo que não pedia mais do que ser aquilo que parecia ser quando vemos o trailer mas não é.

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILER

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt3469910

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The Furthest End Awaits (Saihate nite) Hsiu-Chiung Chiang (2014) Japão


Lá vem este com aqueles filmes onde não se passa nada…
Yup, pois é.

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Bem-vindos a [“The Furthest End Awaits“].
Um filme onde não se passa nada.
Se gostam de histórias simpáticas passadas à beira mar em locais com uma paisagem natural fantástica [“The Furthest End Awaits“] poderá ser uma boa escolha para passarem duas horas muito calmamente.

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Misaki regressa à sua terra natal e à velha cabana do pai localizada numa vila remota da costa norte do Japão. Não vê o pai desde que foi levada pela sua mãe para longe a quando do divórcio dos dois muitos anos atrás; nunca mais soube dele até que lhe foi comunicado o seu desaparecimento oficial e Misaki volta para a sua vila na esperança de que um dia o seu pai também tenha a mesma ideia e regresse para junto dela.

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Ao regressar, faz remodelações na sua antiga casa transformando-a num pequeno café especializado em misturas de grão que comercializa pelo Japão inteiro a partir desse sitio.
Na sua frente como vizinhos, tem uma rapariga que habita numa pousada decadente com duas crianças e que aparentemente vivem ao abandono pois a vida da mãe acontece entre um trabalho numa grande cidade algo distante dali e os seus encontros com uma espécie de namorado algo duvidoso que aparece de vez em quando pelo local.
[“The Furthest End Awaits“] é a história de como as vidas destes personagens se cruzam e de como uma chávena de café pode ligar duas pessoas que há partida não têm muito em comum.

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Ou seja, este é um filme muito simples, de muito baixo orçamento e que curiosamente foi baseado numa história real passada precisamente na mesma àrea onde agora foi feito. Segundo li, parece que o verdadeiro café, encontra-se a menos de 2km do local onde a recriação desta história foi agora filmada.

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De resto não se passa muito nesta história. Estranhamente mantém-nos colados ao ecran pelo carisma das personagens e no final ficamos até com vontade de passar por lá um dia. Na verdade começando logo pelo que o filme tem de menos bom, o final é demasiado abrupto; não porque não resolva o que tem por resolver mas porque nesse momento já estamos a gostar tanto de acompanhar a vida daquelas pessoas que teriam sido bem-vindas mais um par de cenas em jeito de epílogo para compor a atmosfera.

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Uma coisa que quase arruína o filme é o personagem do namorado da jovem mãe. Nunca sabemos nada sobre ele, para além de ter um aspecto chunga, vestir-se pior ainda e gostar de roubar o dinheiro do almoço escolar das crianças. Na verdade o desenrolar da história apresenta-o de uma forma tão unidimensional que practicamente se torna um vilão de um qualquer cartoon trágico pois parece não pertencer a um filme como este. Por outro lado a sua aparição também é breve e portanto acaba por não chatear muito.

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[“The Furthest End Awaits“] é essencialmente um filme feminino com personagens fortes. Aliás, tudo o que é homem nesta história ou não presta ou não tem grande utilidade o que lhe valeu algumas notas menos boas em algumas reviews que apontaram esse pormenor como um entrave à naturalidade da história. Por mim, não me chateia de todo; acho que está de acordo com o tom melancólico e algo poético do filme e penso que as personagens femininas resultam plenamente em todos os sentidos.

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O elenco é muito pequeno, mas excelente; a química entre as actrizes é óptima e esquecemo-nos muito cedo que estamos a ver um filme. Tanto as protagonistas como a miuda pequena formam um trio que nos agarra ao filme só para saber o que se passará a seguir, mesmo percebendo desde cedo que não se passa muito em [“The Furthest End Awaits“].

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Mantendo a “tradição” deste argumento, onde os homens são essencialmente uma peça de cenário dispensável, também destaco pela negativa o puto pequeno que é particularmente irritante nesta história. Não que seja mal representado pelo mini-actor, muito pelo contrário, mas a verdade é que sempre que abre a boca seria melhor se estivesse calado, pois a atmosfera da história funciona sempre muito melhor quando ele não está presente no ecran.

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Resumindo, [“The Furthest End Awaits“] é um filme altamente recomendável. Não é um drama melodramático em extremo, não é particularmente emotivo sequer, mas contém um grupo de pessoas que vocês irão gostar de acompanhar.
O ambiente é excelente, a pouca história que tem é estranhamente interessante e tudo se desenrola junto ao mar numa localidade que é muito bonita.

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Aliás, segundo consta o filme é criticado por não ter aproveitado de todo o ambiente cénico que está de verdade à sua volta e sinceramente se assim é também não entendo porquê. Sente-se a todo o instante que aquela àrea deve ter paisagens naturais fabulosas e teria sido bom até para abrir o filme um bocadinho que tivessem sido melhor aproveitadas.
Provavelmente o orçamento também não deu para muitas deslocações, afinal isto em termos de comparação nem um série-b seria nos estados unidos pois [“The Furthest End Awaits“] custou pouco mais de um milhão de dolares a produzir o que no panorama actua é o mesmo que nada.

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CLASSIFICAÇÃO:

Se procuram um drama ligeiro, com um ambiente calmo e até poético num daqueles filmes que não tem pressa de ir a lado nenhum, [“The Furthest End Awaits“] é uma escolha excelente que se recomenda vivamente.

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Apesar de lento, não é um daqueles filmes de autor pretencioso, tudo o que faz resulta e inclusivamente tem uma banda sonora minimalista bastante bonita que cria uma excelente atmosfera com acordes de piano e viola salpicados nos pontos chave da história.
Quatro tigelas de noodles pois é muito, muito bom mesmo.

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A favor: a simplicidade de tudo resulta, é passado num local natural muito atmosférico, bons desempenhos do elenco, banda sonora minimalista agradável, boa realização e fotografia.
Contra: o personagem masculino mais evidente neste drama está totalmente deslocado do tom do filme pela sua caracterização excessiva enquanto grunho, a criancinha masculina poderá ser algo irritante também pois quando aparece quebra alguns dos momentos bonitos da história.

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILER

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt3524792

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A girl at my door (Dohee-ya) July Jung (2014) Coreia do Sul


FILME NÚMERO 200
Uma jovem comandante da polícia com um passado atribulado, é destacada para capitanear uma esquadra localizada numa remota região da Coreia do Sul onde os costumes ainda não acompanharam as leis modernas e onde qualquer estranho nunca é bem recebido pelos locais.
Ao chegar depara-se com uma miuda de 14 anos que pela vila piscatória é diáriamente abusada, espancada e torturada não apenas pelo padrasto como também pela avó perante o olhar impávido da população local que prefere ignorar o óbvio a reconhecer que um dos seus será capaz de tais actos.
Uma noite esta miuda bate à porta da jovem comandante da polícia pedindo-lhe ajuda.
E é tudo o que vocês precisam saber sobre [“A girl at my door”].

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[“A girl at my door”] inesperadamente foi um dos melhores dramas deste género que vi em muito, muito tempo e como tal, o filme que eu tinha planeado recomendar agora em comemoração da review número 200 aqui neste blog, acabou de ficar para depois. Sim, já escrevi sobre 200 filmes no “Cinema ao Sol Nascente”.
[“A girl at my door”] é o filme número 200 de que falo aqui neste blog e é a recomendação certa para comemorar duas centenas de reviews.

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É um daqueles filmes que nos agarra por completo e ao início não percebemos bem porquê, até porque visualmente ou em termos de narrativa nem parece ter muito de original para lá do que estamos acostumados a ver neste tipo de histórias sobre criancinhas espancadas pela família.
Acontece que [“A girl at my door”] tem um trunfo na manga. Não é bem um twist, mas trata-se do rumo que o argumento segue a partir de um determinado momento.
Quando percebemos o que vai acontecer isso ainda cria mais tensão na história pois agora somos nós que estamos á frente dos personagens.
A partir de uma certa cena, o espectador dá-se conta que este filme ou irá ter uma história espectacular até ao fim ou irá afundar-se por completo se não a souber aproveitar.
Tem uma história espectacular até ao fim.

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E mais uma vez é impossível para mim agora comentar este título da forma que gostaria pois para o poder fazer teria que revelar-lhes precisamente aquilo que os irá apanhar em choque frontal quando virem [“A girl at my door”].
E não, não é um filme de terror com um twist surpreendente. O twist aqui está no tom que a história segue e quando damos por nós já não conseguimos mais sair de frente do ecran; até porque nunca temos bem a certeza de como os personagens irão acabar. E os personagens são o grande trunfo deste filme, muito para lá da história propriamente dita.

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[“A girl at my door”] conta com interpretações fantásticas e incrívelmente intensas que nos deixa constantemente com os nervos à flor da pele e com vontade de roer o sofá de uma ponta a outra a todo o instante.
O trio de protagonistas é do melhor; ganhou com todo o mérito o direito à ovação em pé com que foi aclamado no festival de Cannes e merece por completo todos os prémios de representação arrecadados entretanto por onde o filme tem passado.

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Isto para além dos prémios que o filme ganhou tanto pela realização como pelo argumento.
Tudo merecido.
Mais uma vez o pequeno cinema independente dá cartas na qualidade e [“A girl at my door”] é um dos melhores exemplos de que se calhar cinema que nos prende do inicio ao fim  nem precisa de grandes orçamentos para nada quando tem uma equipa criativa por detrás de uma boa história.

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O elenco é perfeito para isto e nem nos lembramos que são actores. A miudinha é notável na forma como é ao mesmo tempo frágil e perturbante reagindo ao trauma da constante violência sem sentido na sua vida torturada; o padrasto vai dar-lhes cabo dos nervos (e este actor até então só tinha sido o heroi de comédias românticas ligeiras, o que não deixa de ser surpreendente); mas o grande destaque vai para a actriz Bae Doona (que provavelmente reconhecerão como Doona Bae no ocidente) e que já tinha aparecido naquele que é um dos meus filmes favoritos e para mim um dos melhores filmes (e história) de FC de todos os tempos – “Cloud Atlas” (dos irmão Washowski criadores de Matrix) – onde a actriz brilhou e fez vários personagens inesperados; tendo aparecido depois também mais recentemente no mediano –“Jupiter Ascending”– do mesmo par de realizadores ocidentais.
Curiosamente Bae Doona participou de graça em [“A girl at my door”] o que causou inclusivamente grande burburinho lá pela Coreia do Sul na altura da estreia.

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[“A girl at my door”] é também o filme de estreia da realizadora Sul Coreana, July Jung
e se este é o primeiro, mal posso esperar pelo segundo, pois o argumento agora também é dela e como estreia isto não podia ter corrido melhor.
A realização é fantásticamente invisível; a tal ponto que no início o filme nos parece simples demais e sem grandes qualidades por aí além. Toda a história é filmada de uma forma algo claustrofóbica por vezes, previligiando os espaços fechados e o vazio dos ambientes. Talvez para fazer com que o espectador também se sinta encurralado com os personagens. O que ao início parece uma fraqueza, na verdade vem depois a revelar-se precisamente o oposto.

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A verdade é que este é um daqueles filmes que não se nota que a câmera está lá.
Ao espreitarmos o making of com tanta gente atrás da câmera o tempo todo nas filmagens ainda nos deixa mais fascinados pelo ambiente solitário e angustiante que é captado à frente da lente, quando os bastidores do filme são absolutamente simpáticos.
Apesar de [“A girl at my door”] ser um filme essencialmente de actores, isto não quer dizer que de vez em quando também não se abra em escala para mostrar brevemente a atmosfera do bonito local onde a história é filmada. [“A girl at my door”] passa-se numa pequena vila piscatória com imensas ilhas no horizonte e todo o ambiente edílico ainda dá mais força dramática aos acontecimentos que o argumento retrata.

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Outro pormenor curioso é a maneira como a música é usada. Vão esquecer que lá está alguma coisa na banda sonora. Ela está lá, mas está nos pontos certos e portanto não esperem a típica banda sonora constante a que estamos habituados a ver nas produções americanas. Aqui a música complementa as emoções, não nos diz como nos devemos sentir. Ponto positivo que pouca gente irá notar mas que é também uma das mais valias desta pequena produção independente Sul Coreana, já multi-premiada.

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Se procuram um drama intenso, com uma história verdadeiramente bem pensada e que os fará ficar constantemente na incerteza de como se irá desenrolar, trocando-lhes as voltas um par de vezes (não pelas surpresas mas pelo rumo da história), então é este.
No entanto [“A girl at my door”] não é para todos os espíritos, como a única crítica negativa que está no imdb bem exemplifica. Haverá gente que de certeza irá odiar o filme só pela temática; portanto eu gostava de lhes dar um melhor aviso, mas não posso senão estrago-lhes o filme.

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Pessoas de moralidade sensível, abstenham-se. Se não suportam ver histórias de violência cruel contra crianças se calhar eu passava à frente e ia ver o filme com gatos que recomendei no post anterior em vez deste.
[“A girl at my door”] não será um filme de terror mas poderá assustar mais que todos os filmes de terror feitos em Hollywood com teenagers nos últimos anos. Ah e não esperem remake americano deste pois jamais passaria num cinema dos states.

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Também não é um drama nos moldes do fabuloso “Hope” que recomendei há dias. Enquanto esse é uma espécie de –“feel good movie”– [“A girl at my door”] insiste em ser um  verdadeiro –“feel like shit”, mas no melhor dos sentidos. Mais uma vez tenho que estar calado para não lhes estragar a história toda.
Se pretendem ver o filme, lembrem-se, afastem-se de tudo o que existe sobre ele na internet e vejam-no como eu vi. Sem saberem o que vão ver.
Podem ver o trailer à vontade pois está muito bem montado e define bem a ideia da história. Também podem ver o mini-making-of no final deste texto, pois é muito interessante e não contém qualquer spoiler.

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[“A girl at my door”] no entanto não é perfeito. Quanto a mim concordo com algumas reviews e também acho que falha mesmo um bocado na explicação da motivação para que o padrasto da miuda seja um animal tão grande para com a criança.
O argumento insere algumas razões mas sabem a pouco e parecem algo forçadas contrariando toda a imaginação do resto do argumento, pois na verdade não explicam a razão para tanta violência sobre a rapariga.
Por outro lado o filme mesmo assim já tem duas horas e muito provávelmente uma história paralela desenvolvida iria quebrar o ritmo dos acontecimentos dramáticos centrais por isso não é grave.

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Até porque o fica a menos na história pessoal da familia da miuda, sobra na intensidade cruel e completamente grunha da personalidade do seu padrasto; (não esquecer também a -avó-) e o actor dá muito bem conta do recado “preenchendo” algumas lacunas com a intensidade da sua prestação incrivelmente natural, assustadora e ao mesmo tempo totalmente credível e carismática.

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CLASSIFICAÇÃO:

Os dramas Sul Coreanos começam a surpreender-me (pela forma como trabalham velhos temas com uma estrutura muito actual e criativa) mas deste não estava nada à espera, especialmente quando os primeiros minutos pareceram tão simples e tudo indicava um drama curioso mas mediano. Enganei-me.

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Portanto [“A girl at my door”] leva sem sombra de dúvida também a classificação mais alta neste blog pois a história é do melhor para quem gosta de vibrar com temas intensos que agitam consciências.
Não irão rever isto muitas vezes, mas enquanto dura é de nos deixar em estado de trepidação até ao último minuto.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award porque só os actores valem o filme.

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A favor: as actrizes e o actor principal são excelentes, alguns secundários idem, a história começa de forma simples mas depois desenvolve-se de uma forma que nos agarra até ao minuto final, o local onde filmaram isto é muito bonito, a realização é excelente e nem damos por ela, o filme tem duas horas e nem damos por o tempo passar.
Contra: falta desenvolvimento na motivação da crueldade contra a rapariga por parte do padrasto pois a explicação presente não parece suficiente para que o tipo e o resto da família sejam umas bestas, contém um par de histórias muito terciárias que não encaixam também muito bem pela mesma razão de saberem a pouco em termos de pormenores para a motivação dos personagens ou acontecimentos (ver, o emigrante indiano por exemplo).

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILER

 

MAKING OF

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt3661798

E agora passemos ao filme 201 , a ver quando chegamos por aqui aos 300.
Este blogo começou em 2008 e levou 8 anos para atingir 200 filmes, embora na verdade tenha estado parado mais de um ano por vários motivos.
Portanto vamos seguir em frente pois bons títulos para recomendar parecem não faltar ultimamente.

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Se gostou da intensidade deste , poderá gostar de:

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