Battle in Outer Space (Uchû daisensô)Ishirô Honda (1959) Japão


Eu adoro filmes de ficção-científica da chamada “Golden Age of Sci-fi”, essencialmente produções dos anos 50 até inícios de 60. Adoro filmes com foguetões, extraterrestres muito ameaçadores e invasões  de discos voadores só porque sim. [“Battle in Outer Space”] é um deles e curiosamente foi um filme que me tinha escapado até ontem. Já tinha visto o seu cartaz mas ainda não tinha colocado os olhos no filme e devo dizer que tanto me surpreendeu em muitos aspectos como me irritou por demais noutros.

battle in outer space 01

Muitos de vocês se calhar não sabem, mas existem inúmeros títulos associados aos estados unidos que na verdade nunca foram produzidos em Hollywood mas sim na Rússia (que estava muito (mas muito) à frente dos americanos em efeitos especiais nessa época).
Também o Japão a partir de Godzilla investiu forte e feio em cinema espectáculo dentro do género catástrofe e mal ou bem acabou por marcar uma época e definir um estilo que se mantêm até hoje.

battle in outer space 14

Enquanto na Rússia se produziram excelentes títulos de ficção-científica séria ao nível dos melhores romances da época com produções como “Road to the Stars (Doroga k zvezdam)“; “Planet of Storms (Planeta Bur)” ou “Voyage to the End of the Universe (Ikarie XB1)” que mais tarde foram comprados, dobrados e retalhados por Hollywood ao serem criadas “versões americanas” desses filmes para os drive-ins; o Japão atirava cá para fora uma sucessão de clones do Godzilla e também alguns exemplos daquilo que depois, com a chegada de Star Wars em 1977, viria a ser o género da space-opera no cinema ocidental.

battle in outer space 04

Este fascinante [“Battle in Outer Space”] estreou em 1959 e quase que aposto que George Lucas na altura com 16 anos o deve ter visto e o reteve na memória, pois curiosamente a batalha espacial final neste filme Japonês tem extraordinárias semelhaças com o ataque à Estrela da Morte no fim do Star Wars original. O tom é practicamente o mesmo intercalando cenas de tiroteio espacial entre caças trocando raios laser com inserts em grande plano dos pilotos dentro das naves a comunicarem uns com os outros.
Que eu me lembre, nunca tinha aparecido algo assim antes no cinema e pelo visto [“Battle in Outer Space”] foi pioneiro nisto. Vale a pena verem este filme pela batalha espacial final pois é muito divertida ao mesmo tempo que é completamente imbecil.

battle in outer space 30

Aliás, começando logo pelo que este filme tem de bom, os efeitos especiais para a época devem ter sido absolutamente inovadores. Dentro do contexto são realmente bons e penso que são até algo superiores ao que o Japão fazia na altura com os clones de Godzillas; em particular nas cenas espaciais.
As partes no espaço são fascinantes. Ao contrário dos série-b americanos que filmavam modelos de foguetões pendurados por fios essencialmente de perfil contra fundos pretos, em [“Battle in Outer Space”] há uma tentativa muito boa de apresentar algumas sequências com profundidade, filmando as naves de vários ângulos em viagem pelo espaço de uma forma até ainda bastante actual.

battle in outer space 29

O design dos foguetões também é bastante bom e não tem aquela estética de supositório com asas que era comum no primitivo cinema do género na américa, apostando já em apresentar as naves espaciais com alguma identidade e pormenores interessantes.
[“Battle in Outer Space”] em termos visuais começa logo bem, com uma pequena mas excelente sequência de ataque a uma estação espacial em órbita (no distante e futurista ano de 1965) e que só peca por ser muito breve. Não só o ataque alienígena é divertido como o próprio design da estação espacial tem muita pinta.

battle in outer space 17

Aliás, outra coisa muito boa neste filme são os matte-paintings que estendem paisagens naturais ou inserem elementos futuristas nos cenários. São muito variados, bem pintados e muito bem integrados no filme seja onde estiverem inseridos.
Muitas maquetas são bastante engraçadas, o design dos discos voadores alienígenas é muito cool e todo o conjunto visual funciona muito bem.

battle in outer space 32

Em termos de cenários idem. Especialmente nas partes lunares onde [“Battle in Outer Space”] consegue realmente ter uma atmosfera bem mais cuidada do que muito cinema da época costumava apresentar. Há alguma variedade de cenários e ambientes, mais uma vez os matte-painting expandem as paisagens lunares de uma forma excelente e tudo resulta para fazer com que o meio do filme passado a aventura na lua seja sem sombra de dúvida uma das melhores partes desta história sem pés nem cabeça.

battle in outer space 09

E é precisamente a história que afunda [“Battle in Outer Space”] e o remete automáticamente para o reino daquele mau cinema que é imperdível. Isto não é de todo a excelente ficção-científica séria da Russia mas também não é o típico filme simplistico de foguetão filmado no quintal produzido em Hollywood na época. Isto é algo muito à parte.
É uma espécie de cruzamento entre um filme catástrofe em modo Godzilla com cidades arrassadas porque sim, a típica aventura de foguetão americana (onde nem falta a inevitável cena dos asteroides que quase colidem com as naves; mil vezes repetida na FC da época), com algo que é na verdade uma espécie de proto-space-opera que mais tarde seria popularizada por Star Wars com os seus combates no espaço.

battle in outer space 19

Essa mistura torna [“Battle in Outer Space”] num filme estranho.
É ao mesmo tempo muito divertido e muito irritante também.
E a culpa é dos personagens.
[“Battle in Outer Space”] é absolutamente inepto quando tenta apresentar pessoas nesta história. É claramente um filme de efeitos especiais em que o realizador não tem qualquer talento para dirigir actores, tem personagens a mais e um argumento que não faz ideia do que apresentar para os personagens dizerem. É absolutamente atroz e quase inacreditável de tão mau que é.

battle in outer space 24

[“Battle in Outer Space”] sofre precisamente do mesmo mal que um dos grandes clássicos americanos da FC, “The Thing from Another World” sofria. Este filme que anos mais tarde foi refeito por John Carpenter no seu “The Thing”, na sua versão original de 1951 para mim é um dos filmes mais irritantes de sempre precisamente por causa dos personagens.
Tem pessoas a mais a passearem pelos cenários sem qualquer identidade e depois andam todos em fila indiana uns atrás dos outros quando acontece alguma coisa. Há cenas “de suspense” em que metade do elenco anda a correr em fila atrás do tipo que vai à frente e depois dá meia volta e segue tudo em fila noutra direcção.
[“Battle in Outer Space”]  sofre exactamente do mesmo mal.

battle in outer space 06

Por causa disso o início do filme tem cenas completamente rídiculas em que por exemplo dezenas de protagonistas (?) correm atrás de um vilão em grupo, estilo manada de vacas com o mau a correr à frente. E isto é aquilo que passa por cena de acção com personagens humanos nesta história.
Quando chega a parte da aventura na lua, a Terra envia não um mas dois foguetões para irem atacar a base dos extraterrestres (com um único canhão laser) e em cada nave há umas dez pessoas que não conhecemos de todo nem nos importamos minimamente com elas pois são peças do cenário. Não têm nada para fazer nesta história a não ser andar uns atrás dos outros “nas cenas de acção”.

battle in outer space 25

Quando exploram a lua a coisa agrava-se pois com os fatos de astronauta vestidos ainda menos sabemos quem é quem, embora “o heroi” deva ser quem vai á frente com a manada atrás. Eu sei que isto é suposto fazer parte do charme ingénuo deste tipo de cinema, mas acreditem-me, neste caso tal como acontecia no americano “The Thing from Another World” alguns anos antes, é algo extremamente irritante. Isto porque pura e simplesmente nos desliga por completo dos personagens. Em [“Battle in Outer Space”] não nos importamos minimamente com ninguém e só desejamos que passem á cena de efeitos seguintes para não ter que ouvir aquelas pessoas abrirem a boca sem nada para dizer ou com diálogos “técnicos & científicos” de morte. Poderia ser divertido, mas é irritante como o raio porque este tipo de coisa é o que passa por desenvolvimento de personagens neste filme e repete-se constantemente.

battle in outer space 11

Como resultado disto também a batalha final no espaço não tem qualquer interesse para além dos efeitos especiais e da dinâmica da coisa, porque os supostos herois do filme nem participam nela !! Estão sentados mais uma vez numa sala de comando na Terra a ver a coisa acontecer no espaço através de um enorme televisor e mais nada !
Curiosamente, esta é uma das características do cinema Japonês desta época dentro deste género e em particular desta produtora. No final das aventuras nenhum dos personagens costumava participar na acção porque toda a gente se limita a ficar numa sala de comando qualquer à espera que a batalha final se desenrole e acabe bem para o lado deles enquanto outros personagens completamente anónimos lutam.

battle in outer space 16

E vocês nem querem saber qual é o papel das mulheres neste filme. Neste tipo de cinema quando feito nos estados unidos já serviam apenas para gritar mas neste filme não servem só para gritar como também são burras como o raio. Esperem só até vocês chegarem à cena na lua em que uma astronauta é cercada por um bando de extraterrestres…
E por falar em extraterrestres…é melhor nem dizer mais nada.
A Terra foi invadida porque sim.

battle in outer space 27

E voltam vocês a perguntar; mas não é esse o charme deste tipo de filmes ? É sim, mas há uma linha que separa -o charme- de um argumento completamente imbecil (até mesmo para esta altura), que dispensa por completo qualquer personagem humano e no entanto desperdiça cena atrás de cena com dezenas deles no ecran a todo o instante quando não lhes dá absolutamente nada para fazer e muito menos faz com que nos importemos com eles.

battle in outer space 23

Sendo assim, [“Battle in Outer Space”]  recomenda-se moderadamente a quem se preparar para conseguir ver isto sem lhes apetecer enfiar uns murros nos protagonistas.
Ou se calhar é uma obra prima. Não sei, estão por vossa conta.
Não sei se lhes recomende a versão dobrada em inglés ou a versão original. Se calhar a versão dobrada é ainda pior. Eu vi a versão original legendada em inglés e apesar de tudo é suportável…apesar de eu não entender esta mania dos Japoneses de colocarem um elenco internacional espalhado pelo filme todo também, a falarem todo o tipo de idiomas quando depois mais uma vez o argumento não desenvolve qualquer personagem e portanto o cast internacional aqui também não serve para nada. Acontece aqui também como depois continuou a acontecer anos mais tarde, com efeitos ainda mais risíveis em “Sayonara Jupiter” por exemplo.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

[“Battle in Outer Space”] não deixa de ser um verdadeiro guilty-pleasure e totalmente obrigatório para quem gosta de conhecer títulos dos primórdios da FC, (na mesma linha de um “The X From Outer Space” ou “The Green Slime“); até porque em efeitos especiais este é realmente muito bom; bastante cuidado para a época e muito imaginativo visualmente.
Não fossem os personagens absolutamente vazios, sem um pingo de interesse para a história e este filme levaria uma classificação bem mais alta.

battle in outer space 28

Dentro do género “Message from Space” já uns anitos depois, ou até mesmo “War in Space” são bem mais divertidos. Até “X-Bomber” que é com bonecos consegue ter personagens melhores e bem mais humanizados que [“Battle in Outer Space”].
Portanto, três tigelas de noodles porque dentro do género retro é bom por ser bom em termos técnicos no que toca a design e efeitos.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg

A favor: o ambiente, o design, os efeitos, os matte-paintings, as cenas na lua, a batalha no espaço.
Contra: é um vazio absoluto para lá dos efeitos especiais, zero carisma ou interesse nos personagens humanos, a história ainda parece pior por causa dos personagens, nem se vêem os extraterrestres tirando uma sequência absolutamente ridicula na lua envolvendo a habitual rapariga astronauta que grita muito e é burra como o raio, os personagens podem ser absolutamente irritantes porque a escrita deste argumento é atroz, em termos de argumento é ainda pior do que aquilo que costuma ser o standart ingénuo da FC dos anos 50 o que pode tornar este filme insuportável em vez de divertido.

——————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

TRAILER

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0053388

battle in outer space 02

——————————————————————————————————————

Se gostou deste poderá gostar de:

capinha_mesagefromspace73x x-bomber04_capinha capinha_warinspace73x capinha_the-x-from-outer-space

——————————————————————————————————————

Cinema_oriental_no_facebook

Gatchaman ( Gacchaman ) Tôya Satô ( 2013 ) Japão


Não consigo entender o que há com os japoneses e os épicos de ficção-científica que tentam fazer.
O Japão parece ser o país perfeito quando se trata de produzirem histórias de amor de baixo ou médio orçamento, pela forma como os personagens são normalmente humanizados e as histórias nos agarram até ao último segundo por muito cliché que sejam, mas no entanto naquilo que deveriam ser absolutamente brilhantes falham sucessivamente.

Gatchaman-movie_review

O mesmo país que é fantástico a criar animes de acção e aventura envoltos em fantasia e ficção-científica por vezes extraordinária, quando se trata de cinema de animação, parece ter uma enorme dificuldade ao passar essas mesmas criações para filme “normal” de “imagem real” em estilo “live action” e infelizmente não é ainda com [“Gatchaman”] que este enguiço foi quebrado.

Gatchaman-movie_03

Quase que acertaram, mas ainda não está lá. E mais uma vez não se entende de todo porque um filme destes não se torna imediatamente brilhante no melhor sentido pipoca.
Até porque ainda por cima [“Gatchaman”] começa bem como o raio !

Gatchaman-movie_05

A primeira cena de acção é não só excelente e entusiasmante,  como ainda demonstra muito bem como se pode filmar acção caótica em estilo disaster movie sem precisar de recorrer a montagens a duzentos frames por segundo. Michael Bay deveria ver este filme e tomar notas pois é assim que se faz.
[“Gatchaman”] tem uma sequência inicial que nos faz pensar imediatamente que finalmente vamos ver um grande filme pipoca produzido no Japão dentro do cinema de super-herois.

Gatchaman-movie_13

Não só a acção é frenética, como enquanto espectadores conseguimos acompanhar perfeitamente tudo o que se passa na batalha inicial sem precisarmos de um saco de vómito ou ter um ataque de epilépsia. [“Gatchaman”] nos primeiros 20 minutos tem uma montagem do melhor que já vi em filmes de super heróis no que toca a forma como batalhas épicas são filmadas.
Ainda por cima mantém um estilo totalmente manga na forma como pausa algumas sequências por décimos de segundo e deixa as situações respirar mesmo no meio dos combates mais espectaculares.

Gatchaman-movie_37

Além disso as sequências de vôo ao melhor estilo super-homem no que toca a super heróis de capa, embora simples e breves são absolutamente entusiasmantes e ficam na memória pela sua estética anime totalmente conseguida.
Nota alta para os uniformes dos personagens também. Conseguem manter o estilo do anime original mesmo tendo modificado todo o seu visual de forma a moderniza-lo significativamente.

Gatchaman-movie_33

[“Gatchaman”] é a adaptação em “imagem real” de uma das clássicas séries anime do mesmo nome e que pelo ocidente ficou conhecida como “Battle of the Planets”,(em Portugal muita gente recordar-se-á até do jogo para o computador ZX Spectrum que saiu baseado nesta série por volta de 1985).
Segundo o que tenho lido, parece que o filme usa a base da série original mas modificou practicamente tudo o resto. O que nem seria problemático, pois na verdade o grande problema de [“Gatchaman”] nem sequer é esse.

Gatchaman-movie_01

O problema de [“Gatchaman”] é que passada aquela sequência inicial entusiasmente , o resto do filme vai caindo a pique a cada minuto que passa. E isto porquê ? Porque simplesmente perde toda a espectacularidade. Pelo meio a história à força que querer desenvolver personagens, entra por intermináveis cenas de telenovela dramática, onde os personagens gritam e sofrem muito por tudo e por nada, tendo por base acontecimentos traumáticos passados e que não levam a lado nenhum em termos de satisfação cinemática por parte de quem está a ver este filme e só pede que passem à frente.

Gatchaman-movie_31

Nem o twist pelo meio tem qualquer impacto porque quando acontece já ninguém quer saber dos personagens para nada pois estamos fartos de tanto dramatismo de pacotilha a todo o instante que ainda por cima é totalmente previsível em conteúdo.

Gatchaman-movie_16

[“Gatchaman”] sofre exactamente da pior coisa que pode acontecer a um blockbuster. Em vez de nos mostrarem o que acontece ou aconteceu na história, os personagens falam sobre isso uns com os outros.
[“Gatchaman”] podia perfeitamente ter continuado a ser bastante divertido e espectacular se nos mostrasse aquilo que é suposto ir acontecendo na história; no entanto os personagens insistem em passar minutos intermináveis a falar sobre isso (ao mesmo tempo que sofrem muito por tudo e por nada) e o espectador nunca se sente imerso naquele universo; salvo um breve momento que mais uma vez tenta ser dramático quando se calhar deveria antes ter mantido a espectacularidade própria de um filme de super-herois.

Gatchaman-movie_27

Depois há outra coisa muito estranha com o design deste filme. [“Gatchaman”] começa fantásticamente bem com a batalha inicial onde visualmente tudo funciona como um relógio suíço, mas depois parece que o orçamento para o filme vai sendo reduzido a cada minuto que passa. Como se não bastasse os personagens passarem o tempo todo a falar de coisas que o espectador preferiria estar a ver, estes fazem-no normalmente em cenários cada vez mais despidos e desinteressantes. Seja em quartos vazios, hangares vazios, ou corredores vazios, [“Gatchaman”] parece cada vez mais despido do que quer que seja a cada minuto que passa.

Gatchaman-movie_19

A base dos heróis tem um par de sets bem anime com um design interessante mas tudo o resto é por demais pobre em termos criativos. Especialmente a base dos alienígenas invasores que é surpreendentemente desinteressante como o raio.
Visualmente os CGI que a reproduzem exteriormente são espectaculares mas depois o design do interior dessa suposta base alienígena ultra avançada parece ter saído de um mau episódio de sábado de manhã dos Power Rangers no pior dos sentidos. Verdadeiramente incrível, pela negativa

Gatchaman-movie_10.

Não só todo o climax do filme se passa essencialmente em cavernas sem qualquer interesse visual como ainda por cima parecem aquilo que são; cenários de cartão, esferovite e plástico que inclusivamente abanam por todo o lado quando os actores encalham sem querer por exemplo numa mesa de controlo. Tudo o que é cenário alienígena em [“Gatchaman”] faz lembrar um set do Star Trek original dos anos 60 com a diferença de esta suposta mega produção japonesa parece não ter tido qualquer interesse em desenvolver visualmente metade do filme. Parece até que o dinheiro acabou e resolveram utilizar uns sets quaisquer que estavam por lá à mão de um episódio dos Power Rangers.

Gatchaman-movie_29

Para agravar a coisa, a parte final da aventura é absolutamente desinteressante. Depois de passarmos pelo menos uma hora a meio do filme a ter que levar com drama de pacotilha sem qualquer interesse (nem me perguntem sobre a inevitável história de amor);  aquilo que esperávamos era que a batalha final fosse pelo menos tão divertida e espectacular como a batalha do inicio. Esqueçam.

Gatchaman-movie_32

O desenlace da história em [“Gatchaman”] é uma verdadeira decepção também. Não só não tem qualquer suspanse ou sentido de aventura como passamos meia hora a ver combates de artes marciais com super-herois a lutarem em cima de plataformas de plástico todas iguais em cavernas de cartão absolutamente aborrecidas do ponto de vista criativo. E o pior é que nem as lutas têm qualquer interesse e o suspense é praticamente inexistente pois percebe-se logo como tudo irá acabar e só queremos é que os personagens se despachem com aquilo para a gente ir embora.

Gatchaman-movie_28

Portanto [“Gatchaman”] é mais uma verdadeira oportunidade perdida do Japão conseguir finalmente fazer aquele blockbuster de “Live Action” que toda a gente quer ver. [“Gatchaman”] tinha tudo para ser um verdadeiro “Pacific Rim” oriental devolvendo a sua inspiração a casa mas acabou por se parecer mais com uma sequela de “Space Battleship Yamato” que curiosamente sofre exactamente do mesmo tipo de problemas e não se entende porquê.
O que é mesmo pena, pois o início é fantástico, os personagens prometem e até há uma química muito boa entre os actores naqueles papeis. Por momentos [“Gatchaman”] parece realmente um filme dos Power Rangers muito bem feito. E deveria ter sido.

Gatchaman-movie_20

Outra coisa excelente são os efeitos especiais o que ainda torna [“Gatchaman”] num desperdício maior.
Como já referi as cenas de vôo iniciais são do melhor que já vi em cinema de super-herois e depois a qualidade continua no CGI em geral, que não fica nada a dever ao que de melhor estamos habituados a ver vindo de Hollywood.
Provavelmente gastaram o orçamento todo em animação de computador e depois não houve verba para cenários ou algo assim…

Gatchaman-movie_36

Para aqueles de vocês que se lembram também de outro filme no mesmo estilo, o já mais velhinho “Casshern” e querem perguntar-me como se compara com este filme agora, ao menos essa outra adaptação anime igualmente falhada tinha um visual extraordinário, coisa que não acontece em [“Gatchaman”]. Infelizmente no caso de “Casshern” a parte dramática ou de acção ainda foi pior, tendo um filme sido um dos primeiros exemplos da ineptitude dos Japoneses para conseguirem produzir cinema de super-herois. De qualquer forma, se gostarem de [“Gatchaman”] espreitem “Casshern”.

Gatchaman-movie_38

Apesar de todo este rol de queixas da minha parte, por ter ficado realmente muito decepcionado com [“Gatchaman”], a verdade é que o filme acabou e até fiquei com vontade de ver uma sequela, (e vai haver; vejam depois dos créditos).
Ao contrário do que me aconteceu em “Space Battleship Yamato”, aqui em [“Gatchaman”]  sente-se que existe material suficientemente bom para que á segunda acertem finalmente de vez e possamos ter um blockbuster Japonês realmente bom que já tarda em aparecer.

Gatchaman-movie_35

Como habitualmente não irei revelar nada da história porque eu ainda sou daqueles que gosta que me recomendem filmes sem me dizerem sobre o que eles são. De qualquer forma se já viram um filme de invasões extraterrestres com super heróis e super vilões já sabem com o que contar.

Gatchaman-movie_11

Este é mais um. Apenas não é tão interessante como merecia ter sido.
Começa bem e depois sabe-se lá porquê perde-se por completo. Embora, se vocês gostarem muito de filmes de super-herois e especialmente se nunca tiverem ouvido falar destes personagens, vale a pena espreitarem isto, até para compararem os efeitos especiais com aqueles a que estão habituados a ver em cinema americano.

—————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO

É com pena que não lhe dou melhor classificação mas de qualquer forma [“Gatchaman”] é um filme a ver, especialmente por quem gosta de cinema de super-herois, ou até por quem se lembra bem da série anime dos anos 80 e gostava dela.

Gatchaman-movie_12

Trés tigelas e meia porque apesar de tudo, como filme não é verdadeiramente mau. Apenas sofre de excesso de exposição e grande pobreza visual no que toca a ambientes. Leva mais meia tigela de noodles na classificação apenas porque a sequência de acção do início é verdadeiramente entusiasmante e os efeitos especiais são de grande nível no que toca a animação digital.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2emeia.jpg
A favor: a cena de acção do inicio, as cenas com os heróis a voarem entre prédios, a montagem inicial é excelente e não se perde um fotograma da batalha, o design dos uniformes e tudo o que é criado em CGI é excelente, existe boa química entre os cinco heróis e nota-se que há muito potencial aqui para uma sequela como deve de ser.

Contra: passada a invasão inicial os personagens falam demais sobre coisas em vez de nos serem mostrados todos esses acontecimentos em primeira mão, há uma tentativa de dramatizar os personagens que simplesmente não resulta pois tudo parece histérico e forçado demais, perdemos totalmente o interesse nos vilões e toda a ameaça de invasão fica sem qualquer suspense, tenta ter duas histórias de amor que são uma anedota sem qualquer emotividade, a cada minuto que passa o design do filme em termos de cenários e ambientes fica mais pobre, os ambientes alienígenas na nave extraterrestre são de uma pobreza visual incrível e parecem saídos de um episódio dos Power Rangers sem qualquer orçamento (são obviamente de plástico e cartão e isso nunca deveria transparecer num set design), a aventura final não tem qualquer suspense ou interesse, as cenas de acção do fim idem, é mais uma oportunidade perdida do Japão conseguir fazer um blockbuster de “Live Action” com a mesma qualidade com que sabem produzir animes ou histórias de amor de baixo orçamento.

—————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

Trailer
https://www.youtube.com/watch?v=r56XwTGidsU

Gatchaman-movie_02

Anime original
https://www.youtube.com/watch?v=SmNs5DuXDdg
https://www.youtube.com/watch?v=6q5uy7VFZaE
https://www.youtube.com/watch?v=HJxcLCHhu4g

Imdb
http://www.imdb.com/title/tt2451110

——————————————————————————————————————

Se gostou deste poderá gostar de:

capinha_casshern capinha_sayonarajupiter73x capinha_mesagefromspace73x x-bomber04_capinha capinha_space_battleship_yamato

——————————————————————————————————————

Snowpiercer (Snowpiercer) Bong Joon-Ho (2013) Coreia do Sul – França – Eua – República Checa


Eu sei que este blog nos últimos tempos parece ser apenas sobre filmes que eu acho extraordinários, mas como não tenho tido muito tempo para ver cinema, tenho andado a tentar selecionar os títulos que me parecem mais prometedores e por acaso tenho acertado em cheio em coisas absolutamente fascinantes.
E atípicas também.

snowpiercer_poster_1

Neste caso, [“Snowpiercer”] é não só um dos melhores filmes de ficção-científica que alguma vez me passaram pela frente como ainda por cima é mais um filme oriental que a um primeiro olhar parece ser apenas mais um produto americano made-in Hollywood. Que, diga-se já de passagem ainda não estreou nos States (e como tal parece que nem irá chegar a cinemas portugueses), porque os distribuidores ocidentais do outro lado do oceano exigem que o realizador corte pelo menos 25 minutos para tornar o filme menos denso em termos de história e focar-se mais na porrada imbecil como habitualmente.

SnowpiercerSongFLPhotoonsetTsr1

Até há alguns dias atrás eu nunca tinha visto qualquer publicidade sobre a sua existência, não fazia ideia que estava planeado sequer e curiosamente apesar de tentar andar a par sobre o mundo do cinema, nunca tinha visto qualquer menção a [“Snowpiercer”] em parte alguma até um amigo me recomendar o filme no outro dia; desconhecendo também por completo que isto seria cinema oriental.
O que não deixa de ser particularmente estranho, pois o filme está carregado de conhecidos actores ocidentais, não só europeus, como americanos e inclusivamente australianos.

Tilda-Swinton-as-Mason-in-Snowpiercer

E um dos americanos é precisamente o mesmo actor que está bastante popular por causa dos filmes do Capitão América, por isso ainda mais surpreendido fiquei quando percebi quem era aquela cara que já tinha visto em algum lado e me deparei com uma estrela de Hollywood num filme Sul Coreano. Ainda por cima num papel de anti-heroi bastante negro que não passaria na censura do país da democracia e liberdade se o argumento deste filme tivesse dependido da aprovação de um qualquer executivo de estúdio cinematográfico habitual.

snowpiercer-outracoisa-01 images
snowpiercer_posters_john_hurt snowpiercer-poster-tilda-swinton

Todo o conceito de [“Snowpiercer”] inclusivamente no tipo de produção, recordou-me imediatamente filmes orientais como “Virus” naquela “tradição” oriental/japonesa que havia em finais dos anos 70 quando contratavam estrelas ocidentais de toda a parte do mundo para as misturarem com actores asiáticos e criarem épicos de cinema catástrofe/aventura com um elenco enorme e totalmente multi-cultural.
[“Snowpiercer”]é um desses filmes e apesar de ser essencialmente um filme de grupo, acerta logo em cheio na forma como gere o seu elenco. Isto porque é um daqueles raros filmes em que todos os actores têm realmente um papel importante na história não se limitando a ser peças de cenário para fazer o herói brilhar, como aconteceria de certeza absoluta se isto fosse mais um típico enlatado americano.

Snowpiercer-Movie-Review-image-3

E de que trata este filme então ?
Bem, acima de tudo deixo ficar já aqui um aviso muito importante.
Se tal como eu nunca ouviram falar de [Snowpiercer], façam o que fizerem, não leiam nada sobre ele (além desta review sem *spoilers*), afastem-se de tudo o que lhes possa estragar as (muitas) surpresas que a progressão da história contém e sinceramente…meus amigos… não vejam o trailer antes de verem o filme também.
Curiosamente o trailer desta vez está bem feito e não estraga nada felizmente, mas acreditem-me, especialmente se gostarem de ficção-cientifica (estilo steampunk até), façam como eu fiz e partam para [Snowpiercer] sem tentar saber absolutamente nada sobre ele. Vão por mim. O impacto vai ser bem melhor.

SNOWP13-600x256

É que ainda por cima neste caso [“Snowpiercer”] está realmente carregado de surpresas. Não só na história, como uma das suas grandes mais valias, está no facto de ser um daqueles raros filmes em que por muito que tentemos imaginar o que pode acontecer a seguir, raramente conseguimos adivinhar o que vai aparecer no écran e isso é muito raro hoje em dia. O filme está carregado de surpresas não apenas no argumento escrito, mas principalmente conta com momentos visuais daqueles mesmo – WOW não estava mesmo nada á espera que isto aparecesse agora !!!

snowpiercertrailer

[“Snowpiercer”] é um filme de Bong Joon-Ho, o mesmo realizador que fez o fantástico Sul Coreano “The Host” e que há alguns anos atrás redefiniu o cinema de monstros pela densidade e forma como mais do que mostrar o monstro, mostra como as personagens são afectadas por ele.
Curiosamente Bong Joon-Ho, conta de novo com os dois fantásticos actores principais de “The Host”, novamente no papel de pai e filha e em certas alturas não conseguimos evitar a sensação que a sua relação quase parece uma continuidade de um filme para o outro embora os seus personagens desta vez tenham um par de características bem particulares que não posso agora revelar.

snowpiercer-characterposters-song-full snowpiercer-outracoisa-06

Outra coisa que adorei nesta história, foi a sua atmosfera visual numa mistura absolutamente perfeita entre o melhor da estética oriental e aquele estilo de banda-desenhada europeia do final dos anos 70 que já faz muita falta actualmente. Pelo que notei, adapta uma novela gráfica francesa actual que eu desconhecia em absoluto mas que no entanto me parece estar mais perto do estilo manga do que própriamente dentro da linha tradicional franco-belga.
No entanto, por outro lado, quem gosta daquele género de histórias de banda desenhada europeia com uma intensa aura negra passadas em futuros distópicos e um estilo visual a roçar a paleta de cores de autores de Bd como Bilal, ou Serpieri (com o seu Druuna por exemplo), vai adorar o que irá encontrar estéticamente em [“Snowpiercer”]. Em muitos momentos faz lembrar até o traço de Rosinsky (o autor de Thorgal), pois alguns cenários têm ali qualquer coisa de gráficamente familiar e vai encher as medidas de quem já tem saudades de uma boa estética de banda desenhada antes dos comics terem formatado tudo ao estilo americano sem um pingo de imaginação.

oh0iz9

Portanto, mais uma vez aviso. Afastem-se de tudo que lhes possa estragar as surpresas deste filme. Especialmente não tentem ver mais imagens sobre ele para além da fotos que lhes mostro neste blog.
Muitas das surpresas em [Snowpiercer] são visuais e vocês não querem dar cabo daquele momento de pura surpresa que há tanto tempo anda afastado do cinema comercial que nos chega da américa onde os trailers contam os filmes de uma ponta a outra.
Por isso se procuram um produto realmente diferente e onde podem voltar a sentir aquele ambiente de maravilhoso e de total imersão num mundo imaginário sem que lhes tenham estragado as reviravoltas todas este filme é o filme que procuraram durante muito tempo.

Snowpiercer4

[“Snowpiercer”] é também intensamente violento, por isso preparem-se os mais sensíveis. Contém aquele estilo de –crueldade– muito característico nas histórias intensamente dramáticas a que estamos habituados no cinema oriental e só por ali, nota-se que este é um daqueles produtos que não sofreu qualquer -suavização- por parte dos habituais censores de Hollywood que actualmente insistem sempre que um filme de terror tem que se “adaptar” todas as idades de modo a rentabilizar nas bilheteiras gringas e “gringadas” pelo mundo fora que tem que comer com essencialmente com a distribuição americana, que desde há décadas adora mutilar filmes “estrangeiros” cortando-os, remontando-os e destruíndo-os para se adaptarem áquilo que muitos executivos acham que deve ser –o gosto- mais rentável das plateias americanas e americanizadas.
Portanto, neste filme, a história é pesada, muitas surpresas podem até considerar-se chocantes e o politicamente incorrecto abunda.
E ainda bem, pois este mundo apocalíptico sem esses pormenores não seria o mesmo nem seria tão convicente.

snowpiercer-final-trailer

A história deste filme se não tivesse sido contada da forma que foi, teria perdido toda a sua alma e ainda bem que isto é do mesmo realizador Sul Coreano de “The Host” pois ele é especialista em criar cinema espectáculo tão impressionante quanto qualquer coisa saída de Hollywood sem no entanto se esquecer dos personagens.
Acima de tudo [“Snowpiercer”] é sobre as pessoas e vocês quando chegarem ao final da história vão lembrar-se de igual forma de todos os personagens e não apenas do -“herói”. Até porque heróis é coisa que não há por aqui.

ah-sung-ko-in-snowpiercer-2013-movie-image

Resumidamente e sem lhes estragar nada, [“Snowpiercer”] conta a história de um comboio que percorre o planeta sem nunca parar (porque senão tudo congela), trilhando a única linha férrea mundial que existe, após a Terra ter mergulhado numa nova idade do gelo.
Em 2014 ao tentarem resolver o problema do aquecimento global espalhando um produto na atmosfera que iria agir com um escudo para radiações, essencialmente os políticos destruíram o mundo pois o produto teve um efeito tão bom que mergulhou a Terra numa temperatura glacial durante décadas tendo aniquilado a população mundial inteira com excepção das pessoas que conseguiram entrar num comboio experimental que tinha sido construído por um magnata dos transportes. O mesmo que agora vivendo na carruagem da frente é dono e senhor das vidas de todas as pessoas que vivem a bordo, o que inevitávelmente dá origem á típica história sobre regimes totalitários que o trailer indica mas que vai muito mais além daquilo que vocês possam imaginar.
Ah e se pensam que este é mais um daqueles em que depois se descobre que afinal havia mais sobreviventes algures pelo planeta e de seguida o herói encontra essa gente, há uma revolução e coisa e tal, esqueçam.
As 1000 pessoas do comboio são mesmo os últimos mil sobreviventes à superfície do planeta Terra.
Vão adorar.

Snowpiercer

[“Snowpiercer”] consegue ser ao mesmo tempo, uma história de ficção científica com um bom conceito, um filme de acção ao melhor estilo Hollywood e um drama intenso completamente politicamente incorrecto como há muito tempo não se via dentro do cinema do género.
Cada carruagem do comboio tem as suas características muito pessoais e que servem como metáfora para se falar sobre uma série de temas  pertinentes e onde muitas vezes até no meio das mais intensas cenas de acção não deixam o espectador parar de pensar. Óbviamente que um filme assim teria ir á tesoura nos Estados Unidos.

snowpiercer-trailer-0782013-105129

Acima de tudo tem aquele factor surpresa que eu adoro encontrar no cinema e que é cada vez mais raro neste mundo. Este filme está cheio de pequenos detalhes que o enriquecem em muitos aspectos, (especialmente a uma segunda visão) e a minha vontade era aqui comentar detalhadamente sobre os melhores momentos, mas não o posso fazer. Num mundo onde os trailers com que somos bombardeados mesmo que não os queiramos ver nos retiram por completo o prazer da descoberta de um filme, neste caso se vocês se mantiverem longe de tudo o que lhes poderá destruir o mistério, então irão dar por bem empregue o vosso tempo e apanhar o queixo do chão umas quantas vezes ao longo de toda a história. Garanto-vos.
Afastem-se até das imagens do filme espalhadas pela net, pois algumas revelam boas surpresas em termos de personagens e vocês querem partir para [“Snowpiercer”] sem saberem nada dele.

snowpiercer-620x338

Como já referi isto é essencialmente um trabalho de grupo e não há propriamente um personagem principal embora alguns se destaquem. Para além dos actores sul coreanos de “The Host” que mais uma vez têm uma empatia absolutamente perfeita, a mistura com o elenco internacional cria uma sensação de realismo excelente; mas é Tilda Swinton que arrebata o filme em cada cena que aparece como a ministra fascista. Vão adorar odiar o seu personagem pois é ao mesmo tempo, ameaçador, cómico e trágico.

Snowpiercer

O -“Capitão América”- Chris Evans surpreendeu-me pois não esperava uma prestação tão intensa e perfeita de alguém que normalmente se vê limitado a entrar em pastilhas elásticas para adolescentes e pouco mais quando trabalha na américa. Tem um dos melhores monólogos do filme numa cena arrepiante só pela forma como o actor interpreta o texto e que acaba por ser outra das chaves da história, conduzindo-nos até ao seu final. Um final que quanto a mim deixa algo a desejar mas nem por isso é menos adequado, pois eu sinceramente numa história destas também não saberia bem como a terminar. O filme tem sempre tanto impacto a todo o momento, que inevitávelmente o final se calhar sofre um bocado por não ser própriamente surpreendente ou intensamente chocante.

Jamie-Bell-and-Chris-Evans-in-Snowpiercer-2013-Movie-Image

Nota especial também para a participação do “TintinJamie Bell com um personagem cativante numa prestação dramática excelente e para John Hurt e Ed Harris que com a sua habitual presença carismática dominam cada cena em que entram.
E claro também para todo o elenco secundário; algumas caras conhecidas inglesas e não só que povoam este úniverso bem negro mas muito bem imaginado e plenamente bem executado pela realização dinâmica e segura de Bong Joon-Ho num filme onde não se perde um fotograma na montagem e onde tudo, até o mais pequeno pormenor aparentemente desinteressante importa para o desenlace final e contribui para estar sempre um passo á frente do que o espectador pensa que vai acontecer.

snowpiercer-le-transperceneige-snowpiercer-30-10-2013-9-g

Portanto como não quero estragar o filme a ninguém fico-me por aqui e vamos a isto.

—————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO

Este filme entra directamente para a minha lista de filmes favoritos de ficção-científica pois é uma das melhores co-produções internacionais dos últimos anos e que demonstra bem o que se pode fazer dentro do cinema comercial quando não há interferência directa de Hollywood no seu processo criativo.
Quando eu pensava que já não havia imaginação dentro da ficção-científica cinematográfica; salvo raras excepções que normalmente são fracassos por tentarem sair da habitual fórmula a que os “adolescentes” comedores de milho estão habituados, eis que me deparo com [“Snowpiercer”]. Dos raros filmes de FC que são tão bons quanto um bom romance do género e portanto recomendo vivamente a quem procura algo fora do habitual que contorna hábilmente as inevitáveis cenas previsíveis e nos surpreende a cada instante até ao minuto final.
Cinco tigelas de noodles por mostrar que afinal ainda há gente a fazer ficção-científica adulta algures neste planeta.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg

A favor: É ficção-científica para adultos a sério ao melhor estilo clássico, consta que é uma boa adaptação de uma nova BD europeia mesmo, não é nada politicamente correcto e é até bastante pesado e cruel em certas alturas chave, muito violento com baldes de sangue e tripas quanto baste, psicológicamente anda sempre na corda bamba entre até onde pode ir para não chocar demasiado o espectador ao mesmo tempo que o diverte pela espectacularidade de grande parte das cenas, está cheio de surpresas e não é tão previsível quanto poderão pensar, excelente cenas de acção, óptimos personagens, um design incrível com muita inspiração steampunk, um par de vilões extraordinários, agarra-nos do principio ao fim e nunca deixa de surpreender o espectador. Tem inclusivamente algum humor bem negro nos sítios mais inesperados.

Contra: Eu por mim ainda teria ido mais longe na violência e nas cenas repugnantes pois mesmo assim aposto que houve por aqui alguma contenção para não afugentar as plateias, não vai ter uma sequela e é pena; não ficamos com vontade de o rever muitas vezes e será um daqueles que veremos uma vez por ano ou algo assim simplesmente porque fica bastante na memória.

—//—

CENSURA: O filme não foi lançado nos estados unidos e provavelmente irá ter uma distribuição muito pequena, porque o realizador Sul Coreano Bong Joon-Ho, se recusa a cortar os 25 minutos de cenas que a “censura” americana insiste de forma a que este possa ter uma classificação “mais familiar”, deixe de ser pesado e passe a ser mais “comercial“.
Será possível que ainda exista esta imbecilidade de tentarem destruir um filme absolutamente brilhante na sua forma original só para o adaptarem ás audiências americanas e pior, ás audiências  – americanizadas ?!!
Portanto se não for lançado nos estados unidos numa grande escala, muito certamente não chegará aos nossos cinemas pois todo o percurso de distribuição de cinema de grande público nas nossas salas está refém das políticas de distribuição controlas pelos estúdios de Hollywood.
Deve ser com políticas destas que esperam controlar a pirataria…

—————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS:

Trailer

https://www.youtube.com/watch?v=r6UmqNuMdY4

1393437905_snowpiercer-streaming

Página oficial de Facebook
https://www.facebook.com/pages/Snowpiercer/304469566338971

Comprar
Ainda não existem edições inglesas e claro muito menos portuguesas. Apenas foi lançado em frança bem antes até de estrear no cinema cá pelo ocidente. Isto claro,  devido aos problemas de distribuição mundial porque esta é essencialmente controlada por Hollywood que exige cortes para colocar o filme nas salas americanas e americanizadas internacionais dos multiplexes que as companhias americanas controlam pelos nossos shoppings e não só.
A edição francesa á venda na amazon-fr, apesar de constar ser técnicamente excelente não contém legendas em inglés, (muito menos em portuga, claro), o que vai complicar o visionamento de muitos dos diálogos em Sul Coreano, pois o filme tanto é falado em inglés como em sul-coreano claro está, embora não sejam muitos.

bluray_franca

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1706620/

——————————————————————————————————————

Se gostou deste poderá gostar de:

capinha_casshern capinha_virus

——————————————————————————————————————

Cinema_oriental_no_facebook

In-lyu-myeol-mang-bo-go-seo (Doomsday Book) Pil-Sung Yim – Kim Jee-Woon (2012) Coreia do Sul


Aviso, este texto poderá conter pequenos *spoilers*. Se ainda não viram o filme se calhar torna-se bem mais fascinante se o virem primeiro sem saber absolutamente nada sobre o que irão ver e como tal não sei se recomendo que leiam já o que vou escrever a seguir. Não revelo nada de mais, mas se calhar este é um daqueles filmes que é para mergulhar nele sem fazer a miníma ideia do que irão encontrar. Por isso estão por vossa conta. 😉

Doomsday_Book_10

Comecei a ver [“Doomsday Book”] da melhor forma. Sem saber nada sobre ele. Pela capa parecia-me algo de ficção científica e portanto não podia deixar de o espreitar.
Comecei a ver [“Doomsday Book”] e ainda nem tinham passado cinco minutos e já eu estava a pensar criar uma nova secção neste blog apenas para WTF filmes. Ou seja, ainda o primeiro episódio presente neste filme ia a meio e eu só pensava, what the fuck ?!! Mais uma vez o cinema da coreia do sul surpreende e quando eu pensava que já tinha visto tudo, dei por mim a não conseguir adivinhar o que iria aparecer a seguir, o que é sempre bom sinal num mundo cheio de histórias mil vezes repetidas. Especialmente quando a primeira história envolve os habituais zombies tresloucados.

Doomsday_Book_09

Por outro lado, WTF ?!! É bom sermos originais, mas quando vocês virem o primeiro episódio disto vão perceber, porque razão agora não tenho palavras para o descrever.
[“Doomsday Book”] é aquele tipo de filme que eu normalmente odeio. Ou seja, em pouco mais de 100 minutos temos direito a trés curtas metragens independentes realizadas por várias pessoas (uma delas do mesmo realizador de “The Host“, as outras do realizador de “Hansel & Gretel“) o que é algo que me costuma logo afastar deste tipo de produtos.

Doomsday_Book_13

Neste caso, temos três histórias muito diferentes e tenho que dizer que me surpreenderam pela positiva. O cinema oriental não costuma levar muito a sério as suas histórias de ficção-científica e aqui também não é excepção. Na verdade, mais ou menos. Em três histórias que poderiam perfeitamente pertencer a uma boa antologia de contos do género temos direito a duas histórias completamente alucinadas e uma totalmente sci-fi num tom sério bem mais próximo de um bom conto de Philip K.Dick do que própriamente dentro do que se costuma ver pelo cinema oriental.
Temáticamente o  segundo conto está até perto do excelente “Natural City” que para mim é uma espécie de Blade Runner 2 não oficial made in Coreia do Sul e portanto se o assunto da inteligência artificial é algo que gostam de ver abordado no cinema não ficarão desapontados.

Doomsday_Book_04

Isto poderia ter desequilibrado [“Doomsday Book”] enquanto filme, mas a verdade é que há aqui algo que funciona bastante bem.
Agora preparem-se para algumas surpresas.
A primeira história é completamente indiscritível. Vocês já viram muitas histórias apocalípticas com zombies mas se calhar nunca viram uma como esta.
O primeiro conto, é ao mesmo tempo hilariante, absolutamente nojento e perturbante. Ah, e é romântico também.

Doomsday_Book_12

Eu disse romântico ? Bem, se vocês procuram uma história e amor entre dois zombies esta poderá ser a lovestory que queriam ver. Ou talvez não. Como disse isto é dificil de explicar sem lhes estragar o prazer da descoberta. Se calhar digo-lhes só que se vocês não gostam de carne têm no primeiro episódio a razão para tornar tornar toda a gente vegetariana neste planeta.
A primeira história é essencialmente o típico filme catástrofe sobre um virus que contamina o mundo inteiro e transforma a população em mortos vivos. Mortos vivos que nem por isso abdicam do seu telemóvel, o que dá logo um tom de sátira ao consumismo a esta pequena história inicial, tão intensa quanto repugnante, numa mistura entre amor, podridão, consumismo e comédia tresloucada ao melhor estilo Sul Coreano. Nisto tudo ainda consegue criar uma mini-história de amor ao melhor estilo caótico habitual por aquelas paragens. E mais não digo.

Doomsday_Book_07

A segunda história é o coração do filme. Se procuram apenas um pequeno grande filme de FC sem partes parvas ou personagens cartoonescos, podem saltar o primeiro filme de [“Doomsday Book”] e passar logo ao segundo “episódio” que é tudo o que vocês gostariam de ver se procuram uma daquelas histórias de ficção-cientifica dentro da tradição mais tecnológica e hardcore dentro do género. Como disse antes, esta história podia ter sido escrita por Philip K.Dick nos anos 70 ou até mesmo por Arthur C.Clarke pois é bem o género do que eles produziam. Se gostam do trabalho de algum desses escritores vão adorar o segundo conto.

Doomsday_Book_17

Esta segunda parte conta a história de um técnico de robots que num futuro próximo onde os robots fazem parte do nosso dia-a-dia, é chamado a um mosteiro budista para confirmar se o robot do templo é ou não a reencarnação de Buda.
A partir daí a história desenrola-se num tom algo gélido e quase clínico que na minha opinião era desnecessário, mas por outro lado lhe dá uma certa atmosfera cyberpunk Kubrikiana a fazer lembrar o ambiente frio dos diálogos com Hal em 2001 Odisseia no Espaço.

Doomsday_Book_03

O trailer de [“Doomsday Book”] engana muito bem o espectador. Faz-nos crer que o filme será bem mais ligeiro e divertido do que na realidade qualquer um dos episódios é. O primeiro episódio é algo nojento e doentio, este segundo chega a ser deprimente pela atmosfera fria de toda a história e o terceiro e último episódio parece uma espécie de comédia sem graça.

Doomsday_Book_06

De qualquer forma, este segundo conto sobre o robot que pode ser Buda reencarnado é uma história excelente e um daqueles conceitos que já fazia falta ao cinema de ficção-científica que hoje se resume mais a efeitos especiais do que a nos maravilhar com ideias. Neste segundo episódio o fascínio não vem do excelente personagem do robot e dos efeitos especiais mas sim do intenso conteúdo filosófico que envolve toda a discussão sobre o direito de uma máquina a ter um sentimento religioso.

Doomsday_Book_05

Em nenhum momento este episódio se torna chato, mesmo apesar do conteúdo filósófico ser bem denso por vezes, embora talvez o personagem do dono da corporação cibernética esteja um bocado á parte no tom geral da história pois achei o seu discurso algo forçado como se o argumentista tentasse criar um manifesto qualquer sobre inteligência artificial e tivesse despejado tudo o que pensa nos discursos exacerbados deste personagem.
De qualquer forma este segundo conto em [“Doomsday Book”] é fantástico. Grande ideia, muito bem executada, excelente atmosfera e com um final bem simples que pode deixar no ar muitos temas para o espectador continuar a discutir muito para além do filme ter acabado.

Doomsday_Book_02

Mas o filme não acaba sem passarmos primeiro pela terceira história.
Nela, o mundo também vai acabar porque uma criancinha no seu computador encomenda num site “alienígena(?)” uma bola de snooker numero 8 e esta vem dos confins do universo em entrega especial e em tamanho gigante chocar com a Terra na morada assinalada…

Doomsday_Book_22

Eu repito…
O mundo também vai acabar porque uma criancinha no seu computador encomenda num site “alienígena(?)” uma bola de snooker numero 8 e esta vem dos confins do universo numa entrega especial para em tamanho gigante chocar com a Terra na morada assinalada…

Doomsday_Book_21

Se eu tinha ficado baralhado com a primeira história mais baralhado fiquei com esta última. Ao ler algumas reviews do filme pela net, consta que isto é suposto ser uma comédia mas sinceramente não lhe achei particularmente graça…a não ser pelo visual com que os personagens ficam depois de passarem 10 anos a viver num bunker debaixo de terra após o apocalipse acontecer…por causa da bola de snooker…
O que dizer disto ? A verdade é que é divertido e bem original.
Este episódio tem uma estrutura muito alucinada mas onde entre falsas emissões e falsos debates televisivos sobre o fim do mundo nunca sobra muito tempo para desenvolver os personagens no tempo que resta e por isso talvez a sua única fraqueza não é a falta de graça (se é que isto era suposto ser para rir), mas sim o fraco desenvolvimento dos personagens, pois a história chega ao seu (ainda mais estranho) final e como espectadores nunca estivemos particularmente cativados por aquelas pessoas.

Doomsday_Book_08

Por outro lado, a ideia para a história é muito original e satírica e tudo funciona bem dentro da trilogia de histórias completamente diferentes que compõem [“Doomsday Book”].

—————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO

Mais um excelente exemplo de como podem ser originais os filmes orientais que nunca chegam aos cinemas desta parte do mundo.
O trailer deste engana, não é o filme em tom ligeiro que parece ser mas são sim trés histórias separadas com uma atmosfera algo doentia (muitos momentos repugnantes no primeiro conto) e até clinica e deprimente em muitas alturas e que o trailer não reproduz de todo por isso estão avisados.
Sci-fi fria e crua mas com muitos momentos de ironia á mistura como só poderia ser feito num cinema daquela parte do mundo.
Mais uma vez a coreia do sul mostra como ainda se pode fazer cinema de ficção-científica bem original e irá agradar a quem procura algo do género longe das formulas comic book infantis que estamos habituados a ver saídos de Hollywood.
Quem gosta de FC deve espreitar isto sem sombra de dúvida. Especialmente quem gosta de LER ficção-científica pois contém trés dos melhores contos do género que vi em muito tempo apesar de algumas fragilidades.
Trés tigelas e meia de noodles porque é bastante bom mas podia ter sido muito melhor se o segundo episódio sobre o robot Buda tivesse sido desenvolvido no filme inteiro. Não foi e é pena.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2emeia.jpg

A favor: Trés histórias de ficção científica originais que poderiam ser contos de uma boa antologia em livro, apesar de ser caótico por vezes [“Doomsday Book”] é sempre cativante pois nunca sabemos bem o que pode acontecer a seguir, o primeiro episódio é completamente alucinado e até repugnante mas contém personagens de que ficamos a gostar logo em pouco tempo, o segundo conto é o melhor do filme e é uma daquelas histórias de ficção-científica que vale mesmo a pena ver (quem estiver ligado ao Budismo irá adorar certamente), o personagem do robot está fantástico apesar de bem simples, o terceiro conto fecha bem a trilogia de histórias bem originais e apesar de não ser particularmente divertido é no entanto fascinante na mesma por ser imprevisível.

Contra: A segunda história deveria ter sido o filme todo e não durar apenas pouco menos de cinquenta minutos, [“Doomsday Book”] pode ser demasiado caótico e até impróprio para estômagos mais sensíveis por toda a atmosfera repulsiva que envolve o primeiro conto, o terceiro conto pode ser demasiado estranho e não funciona como comédia como supostamente deveria ser.

—————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS:

Doomsday_Book_01

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=9GGfa0EybCI

Comprar
Existe edição ocidental em blu-ray que poderão encontrar aqui.

Doomsday_Book_14

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt2297164

Não vou colocar nenhum link para download pois estes nunca tardam em desaparecer e não pretendo deixar que o blog se inunde de broken links como já tenho muitos por aqui. De qualquer forma é só procurarem o filme em Torrents que o encontram facilmente.

——————————————————————————————————————

Filmes “semelhantes” de que poderá gostar:

capinha_natural_city capinha_host capinha_hansel-and-gretel capinha-the_flu capinha-happiness-of-the-katakuris

——————————————————————————————————————

Cinema_oriental_no_facebook

 

Gamgi (Flu) Sung-su Kim (2013) Coreia do Sul


O meu ano de 2014 não podia ter começado melhor em termos de cinema do que com esta injeção de adrenalina proporcionada por [“The Flu”].
Há muito tempo que não encontrava pela frente um filme catástrofe daqueles que nos deixam literalmente “on the edge of our seats” e este foi absolutamente eficaz nesse sentido pois é daqueles que nos faz querer roer as almofadas até quase ao minuto final. Especialmente quando ainda nem sequer tinha visto o trailer ou sabia qualquer coisa sobre ele.

the flu_08

O que não deixa de ser surpreendente pois na verdade em termos de argumento não tem nada que vocês não tenham já visto mil vezes dentro deste género de filmes, o que para mim só lhe dá ainda mais valor, pois conseguir manter um nível de suspanse como este filme mantém nos seus 40 minutos finais com uma história que á partida não surpreende pela sua originalidade é obra !!
Se também foram daqueles que acharam o Hollywoodesco “World War Z” uma desilusão, então têm aqui o antídoto perfeito na sua vertente oriental.
Não que [“The Flu”] seja propriamente um filme de zombies mas de certa forma na sua estrutura é tudo aquilo que “World War Z” não foi em termos de adrenalina e é o exemplo perfeito de que não é o facto de um argumento estar cheio de lugares comuns e clichés que estraga um filme mas sim a forma como se trabalha esse material e neste caso não poderia estar melhor na minha opinião.

the flu_04

Em termos de cinema espectáculo têm aqui também um excelente exemplo para mostrarem aquele vosso amigo que ainda pensa que só na américa se faz bom cinema comercial, isto porque visualmente [“The Flu”] conta com momentos assombrosos que não destoariam de um filme de Rolland Emerich ao melhor estilo pastilha elástica “2012”, só que aqui também temos personagens com que realmente nos importamos e não estão apenas na história para servirem de body-count e ilustrarem cenas de efeitos especiais.

the flu_14

Aliás, a razão porque [“The Flu”] resulta tão bem, especialmente nos últimos 40 minutos finais, é porque por essa altura já estamos plenamente cativados pelas pessoas que vemos no ecran e não apenas pelos heróis; isto porque ao contrário do que costuma acontecer neste género de cinema, o filme não tem pressa de nos mostrar as coisas rápidas demais e aproveita o seu tempo não só para se ir tornando cada vez mais épico sem o espectador dar por isso como principalmente constrói personagens á melhor maneira sul coreana para um resultado final totalmente eficaz no que toca a criar empatia com o espectador. Em [“The Flu”] até o personagem mais secundário tem o seu momento e nada é deixado ao acaso para humanizar as pessoas que nós vemos na história, sejam elas “heróis” ou “vilões” também aqui um conceito que não se pode aplicar naquele sentido em que estamos habituados a encontrar.

the flu_06

Alguma reviews ocidentais dão uma nota mediana ao filme porque dizem que os personagens choram demais e tudo é por demais melodramático. Acontece que esse melodrama é a principal característica do cinema Sul Coreano e portanto convém que o espectador entre no espírito da coisa, até porque a forma emotiva como os temas são tratados no cinema daquelas partes do mundo reflete muito a cultura desses povos. Por isso na minha opinião penalizar um filme como este apenas porque alguém acha que as pessoas choram demais para mim não faz qualquer sentido. Muito menos dentro do contexto da própria história, pois [“The Flu”] trata essencialmente de um potencial fim do mundo com tudo o que isso implica na vida das pessoas.

the flu_03

[“The Flu”] centra-se essencialmente na quarentena de uma cidade na Coreia do Sul, mas tem um ambiente bem mais de ameaça global do que mais uma vez “World War Z” conseguiu ter mesmo adaptando um romance que tinha tudo para ser tão bom quanto [“The Flu”] agora conseguiu ser a partir de um argumento “original”.
Bom, mas isto é sobre o quê ? Essencialmente é a típica história sobre epidemias. Gripe das aves em versão extrema pois “flu” significa isso mesmo; -gripe- em inglés.
Se gostam de filmes em que morrem pessoas em quantidades apocalípticas estão no sitio certo. Muita gente a vomitar sangue, cadáveres ás pilhas, criancinhas mortas, pessoas espezinhadas, caos urbano e extermínio em massa. Tudo para divertir o espectador.
E resulta fantasticamente bem.

the flu_13

Aquilo que na primeira parte do filme parece ser interessante mas não particularmente emocionante depressa se torna no segmento final numa jornada de adrenalina para o espectador daquelas que não nos deixa respirar quase até ao final. Pelo meio ainda temos direito a alguns momentos de humor á boa maneira sul-coreana e claro a uma proto-história de amor que não precisa de ser desenvolvida para ser eficaz.

the flu_07

[“The Flu”] conta com excelentes interpretações do elenco sul-coreano com grande destaque para o trio de protagonistas onde sobressai a pequena actriz que no segundo acto da história acaba por ser o coração do filme e que dá um show de emotividade no desenrolar da verdadeira montanha russa de acontecimentos que ocorre nos segmentos finais de um filme catástrofe que equilibra muito bem o terror, a aventura, o suspanse, alguma comédia e o cinema de acção e efeitos especiais a um nível tão bom quanto qualquer coisa que vocês tenham visto saída de Hollywood nos últimos anos. Com a vantagem de que aqui temos personagens e não apenas bonecos de cartão.

the flu_12

Um grande destaque também para aquilo que raramente se fala nestes filmes. As multidões de extras/figurantes que inundam esta produção e têm um papel fundamental em todo o ambiente e cenário apocalíptico de caos e confusão. O espectador nem nota, mas o trabalho de toda esta gente é fantástico neste filme e quem coordenou tudo isto está de parabéns pois as cenas de pânico em [“The Flu”] são do melhor que há e contribuem totalmente para a descarga de adrenalina que os acontecimentos do fim proporcionam no espectador desprevenido.

the flu_16

Então e coisas más, tem ?
Bem, tem…
Vocês nem queiram saber os canastrões que arranjaram para fazer o papel de americanos(?) que essencialmente são “os vilões” deste filme. Onde raio foram buscar aqueles “actores(?)” ?!!
Quase que arruinam totalmente todo o esforço do realizador para tornar real todo o ambiente e não se entende de todo.
Por outro lado não deixa de ser hilariante, pois o cinema oriental já tem uma longa tradição em colocar os piores actores ocidentais do mundo em papeis secundários. Não acreditam ? Vejam, “Bye Bye Jupiter” pois é talvez o único titulo que consegue ter piores actores ocidentais que [“The Flu”].
Felizmente que o suspanse final da história está tão bem orquestrado que nem com estas interpretações desastrosas pelo meio a adrenalina se perde, mas mesmo assim os “americanos” neste filme são de ver para crer.

the flu_11

De resto, o filme é um espectáculo. Se tiverem em casa um projector e poderem ver isto num écran pelo menos com uns três metros de largura vão se passar ! Embora também funcione bem numa tv normal, a escala épica do filme é perfeita para vocês exibirem o vosso projector aos amigos e ai de quem tiver coragem de tossir durante [“The Flu”].

—————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO

Pensei se haveria de dar a classificação máxima a [“The Flu”] ou se “apenas” lhe daria cinco tigelas de noodles, isto porque a força deste filme está no suspanse final e esse só se vive uma vez.
Lembrem-se que nunca temos bem a certeza se isto vai dar um final feliz ou não. No cinema oriental os heróis não têm obrigatoriamente que acabar bem e esse factor também aqui é determinante para criar incerteza e para aumentar ainda mais a tensão no espectador, o que contribui totalmente para o nosso divertimento.
Portanto [“Flu”] enquanto filme vive essencialmente de uma primeira visão. E nesse aspecto não podia ser melhor.

the flu_02

Quando já o vimos uma vez, claro que tudo aquilo que é espectacular no final perde logo metade do impacto, mas nem por isso posso deixar de dar a classificação máxima a isto.
Já vi o filme duas vezes e aquilo que a uma primeira visão é pura adrenalina, a uma segunda visão torna-se essencialmente na apreciação do excelente trabalho de toda a gente que esteve envolvida nesta produção e para mim é mesmo um dos melhores filmes catástrofe dos últimos tempos. Dentro do cinema oriental é mesmo do melhor que vi no género até hoje. Um blockbuster com alma.

Cinco tigelas de noodles e um Gold Award também. O ano começa bem em termos de cinema oriental para mim.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg gold-award.jpg
A favor: leva o seu tempo a desenvolver personagens, cria suspanse aos poucos sem notarmos o esforço para nos impressionar, todos os personagens são excelentes (até mesmo os americanos se tornam divertidos), a primeira parte do filme consegue manipular bem as reviravoltas do argumento, a segunda metade do filme abre-se para aquela escala épica que esperamos que aconteça, excelentes cenas de pânico, não foge dos momentos gore e mostra sangue sem problemas, consegue um equilíbrio perfeito entre vários géneros, óptimas cenas de acção que embora curtas são sempre colocadas no momento certo, adrenalina pura nos 40 minutos finais.

Contra: Algum paleio “politico” repetitivo a mais pelo meio, tem actores ocidentais do piorio que destoam totalmente de tudo o resto e quase arruinam a tensão final, alguns momentos em CGI não são muito bem conseguidos (mas quase nem se nota). Se calhar poderia ter sido bem mais repulsivo e repugnante do que é pois nota-se que essencialmente isto é para ser um filme para o grande publico e portanto contém alguma contenção de modo a não tornar isto muito insuportável para aquelas pessoas que se assustam facilmente.

—————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=1BvKZMg2LjU

Director´s trailer
http://www.youtube.com/watch?v=3vsm83GA7s4

the flu_01

Comprar
Neste momento ainda não é fácil. Nem na Play Asia ainda existe.

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt2351310

Não vou colocar nenhum link para download pois estes nunca tardam em desaparecer e não pretendo deixar que o blog se inunde de broken links como já tenho muitos por aqui. De qualquer forma é só procurarem o filme em Torrents que o encontram facilmente. 😉

——————————————————————————————————————

Filmes semelhantes de que poderá gostar:

capinha_haeundae capinha_host capinha_tsunami capinha_virus

——————————————————————————————————————

Cinema_oriental_no_facebook