Snowpiercer (Snowpiercer) Bong Joon-Ho (2013) Coreia do Sul – França – Eua – República Checa


Eu sei que este blog nos últimos tempos parece ser apenas sobre filmes que eu acho extraordinários, mas como não tenho tido muito tempo para ver cinema, tenho andado a tentar selecionar os títulos que me parecem mais prometedores e por acaso tenho acertado em cheio em coisas absolutamente fascinantes.
E atípicas também.

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Neste caso, [“Snowpiercer”] é não só um dos melhores filmes de ficção-científica que alguma vez me passaram pela frente como ainda por cima é mais um filme oriental que a um primeiro olhar parece ser apenas mais um produto americano made-in Hollywood. Que, diga-se já de passagem ainda não estreou nos States (e como tal parece que nem irá chegar a cinemas portugueses), porque os distribuidores ocidentais do outro lado do oceano exigem que o realizador corte pelo menos 25 minutos para tornar o filme menos denso em termos de história e focar-se mais na porrada imbecil como habitualmente.

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Até há alguns dias atrás eu nunca tinha visto qualquer publicidade sobre a sua existência, não fazia ideia que estava planeado sequer e curiosamente apesar de tentar andar a par sobre o mundo do cinema, nunca tinha visto qualquer menção a [“Snowpiercer”] em parte alguma até um amigo me recomendar o filme no outro dia; desconhecendo também por completo que isto seria cinema oriental.
O que não deixa de ser particularmente estranho, pois o filme está carregado de conhecidos actores ocidentais, não só europeus, como americanos e inclusivamente australianos.

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E um dos americanos é precisamente o mesmo actor que está bastante popular por causa dos filmes do Capitão América, por isso ainda mais surpreendido fiquei quando percebi quem era aquela cara que já tinha visto em algum lado e me deparei com uma estrela de Hollywood num filme Sul Coreano. Ainda por cima num papel de anti-heroi bastante negro que não passaria na censura do país da democracia e liberdade se o argumento deste filme tivesse dependido da aprovação de um qualquer executivo de estúdio cinematográfico habitual.

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Todo o conceito de [“Snowpiercer”] inclusivamente no tipo de produção, recordou-me imediatamente filmes orientais como “Virus” naquela “tradição” oriental/japonesa que havia em finais dos anos 70 quando contratavam estrelas ocidentais de toda a parte do mundo para as misturarem com actores asiáticos e criarem épicos de cinema catástrofe/aventura com um elenco enorme e totalmente multi-cultural.
[“Snowpiercer”]é um desses filmes e apesar de ser essencialmente um filme de grupo, acerta logo em cheio na forma como gere o seu elenco. Isto porque é um daqueles raros filmes em que todos os actores têm realmente um papel importante na história não se limitando a ser peças de cenário para fazer o herói brilhar, como aconteceria de certeza absoluta se isto fosse mais um típico enlatado americano.

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E de que trata este filme então ?
Bem, acima de tudo deixo ficar já aqui um aviso muito importante.
Se tal como eu nunca ouviram falar de [Snowpiercer], façam o que fizerem, não leiam nada sobre ele (além desta review sem *spoilers*), afastem-se de tudo o que lhes possa estragar as (muitas) surpresas que a progressão da história contém e sinceramente…meus amigos… não vejam o trailer antes de verem o filme também.
Curiosamente o trailer desta vez está bem feito e não estraga nada felizmente, mas acreditem-me, especialmente se gostarem de ficção-cientifica (estilo steampunk até), façam como eu fiz e partam para [Snowpiercer] sem tentar saber absolutamente nada sobre ele. Vão por mim. O impacto vai ser bem melhor.

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É que ainda por cima neste caso [“Snowpiercer”] está realmente carregado de surpresas. Não só na história, como uma das suas grandes mais valias, está no facto de ser um daqueles raros filmes em que por muito que tentemos imaginar o que pode acontecer a seguir, raramente conseguimos adivinhar o que vai aparecer no écran e isso é muito raro hoje em dia. O filme está carregado de surpresas não apenas no argumento escrito, mas principalmente conta com momentos visuais daqueles mesmo – WOW não estava mesmo nada á espera que isto aparecesse agora !!!

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[“Snowpiercer”] é um filme de Bong Joon-Ho, o mesmo realizador que fez o fantástico Sul Coreano “The Host” e que há alguns anos atrás redefiniu o cinema de monstros pela densidade e forma como mais do que mostrar o monstro, mostra como as personagens são afectadas por ele.
Curiosamente Bong Joon-Ho, conta de novo com os dois fantásticos actores principais de “The Host”, novamente no papel de pai e filha e em certas alturas não conseguimos evitar a sensação que a sua relação quase parece uma continuidade de um filme para o outro embora os seus personagens desta vez tenham um par de características bem particulares que não posso agora revelar.

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Outra coisa que adorei nesta história, foi a sua atmosfera visual numa mistura absolutamente perfeita entre o melhor da estética oriental e aquele estilo de banda-desenhada europeia do final dos anos 70 que já faz muita falta actualmente. Pelo que notei, adapta uma novela gráfica francesa actual que eu desconhecia em absoluto mas que no entanto me parece estar mais perto do estilo manga do que própriamente dentro da linha tradicional franco-belga.
No entanto, por outro lado, quem gosta daquele género de histórias de banda desenhada europeia com uma intensa aura negra passadas em futuros distópicos e um estilo visual a roçar a paleta de cores de autores de Bd como Bilal, ou Serpieri (com o seu Druuna por exemplo), vai adorar o que irá encontrar estéticamente em [“Snowpiercer”]. Em muitos momentos faz lembrar até o traço de Rosinsky (o autor de Thorgal), pois alguns cenários têm ali qualquer coisa de gráficamente familiar e vai encher as medidas de quem já tem saudades de uma boa estética de banda desenhada antes dos comics terem formatado tudo ao estilo americano sem um pingo de imaginação.

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Portanto, mais uma vez aviso. Afastem-se de tudo que lhes possa estragar as surpresas deste filme. Especialmente não tentem ver mais imagens sobre ele para além da fotos que lhes mostro neste blog.
Muitas das surpresas em [Snowpiercer] são visuais e vocês não querem dar cabo daquele momento de pura surpresa que há tanto tempo anda afastado do cinema comercial que nos chega da américa onde os trailers contam os filmes de uma ponta a outra.
Por isso se procuram um produto realmente diferente e onde podem voltar a sentir aquele ambiente de maravilhoso e de total imersão num mundo imaginário sem que lhes tenham estragado as reviravoltas todas este filme é o filme que procuraram durante muito tempo.

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[“Snowpiercer”] é também intensamente violento, por isso preparem-se os mais sensíveis. Contém aquele estilo de –crueldade– muito característico nas histórias intensamente dramáticas a que estamos habituados no cinema oriental e só por ali, nota-se que este é um daqueles produtos que não sofreu qualquer -suavização- por parte dos habituais censores de Hollywood que actualmente insistem sempre que um filme de terror tem que se “adaptar” todas as idades de modo a rentabilizar nas bilheteiras gringas e “gringadas” pelo mundo fora que tem que comer com essencialmente com a distribuição americana, que desde há décadas adora mutilar filmes “estrangeiros” cortando-os, remontando-os e destruíndo-os para se adaptarem áquilo que muitos executivos acham que deve ser –o gosto- mais rentável das plateias americanas e americanizadas.
Portanto, neste filme, a história é pesada, muitas surpresas podem até considerar-se chocantes e o politicamente incorrecto abunda.
E ainda bem, pois este mundo apocalíptico sem esses pormenores não seria o mesmo nem seria tão convicente.

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A história deste filme se não tivesse sido contada da forma que foi, teria perdido toda a sua alma e ainda bem que isto é do mesmo realizador Sul Coreano de “The Host” pois ele é especialista em criar cinema espectáculo tão impressionante quanto qualquer coisa saída de Hollywood sem no entanto se esquecer dos personagens.
Acima de tudo [“Snowpiercer”] é sobre as pessoas e vocês quando chegarem ao final da história vão lembrar-se de igual forma de todos os personagens e não apenas do -“herói”. Até porque heróis é coisa que não há por aqui.

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Resumidamente e sem lhes estragar nada, [“Snowpiercer”] conta a história de um comboio que percorre o planeta sem nunca parar (porque senão tudo congela), trilhando a única linha férrea mundial que existe, após a Terra ter mergulhado numa nova idade do gelo.
Em 2014 ao tentarem resolver o problema do aquecimento global espalhando um produto na atmosfera que iria agir com um escudo para radiações, essencialmente os políticos destruíram o mundo pois o produto teve um efeito tão bom que mergulhou a Terra numa temperatura glacial durante décadas tendo aniquilado a população mundial inteira com excepção das pessoas que conseguiram entrar num comboio experimental que tinha sido construído por um magnata dos transportes. O mesmo que agora vivendo na carruagem da frente é dono e senhor das vidas de todas as pessoas que vivem a bordo, o que inevitávelmente dá origem á típica história sobre regimes totalitários que o trailer indica mas que vai muito mais além daquilo que vocês possam imaginar.
Ah e se pensam que este é mais um daqueles em que depois se descobre que afinal havia mais sobreviventes algures pelo planeta e de seguida o herói encontra essa gente, há uma revolução e coisa e tal, esqueçam.
As 1000 pessoas do comboio são mesmo os últimos mil sobreviventes à superfície do planeta Terra.
Vão adorar.

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[“Snowpiercer”] consegue ser ao mesmo tempo, uma história de ficção científica com um bom conceito, um filme de acção ao melhor estilo Hollywood e um drama intenso completamente politicamente incorrecto como há muito tempo não se via dentro do cinema do género.
Cada carruagem do comboio tem as suas características muito pessoais e que servem como metáfora para se falar sobre uma série de temas  pertinentes e onde muitas vezes até no meio das mais intensas cenas de acção não deixam o espectador parar de pensar. Óbviamente que um filme assim teria ir á tesoura nos Estados Unidos.

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Acima de tudo tem aquele factor surpresa que eu adoro encontrar no cinema e que é cada vez mais raro neste mundo. Este filme está cheio de pequenos detalhes que o enriquecem em muitos aspectos, (especialmente a uma segunda visão) e a minha vontade era aqui comentar detalhadamente sobre os melhores momentos, mas não o posso fazer. Num mundo onde os trailers com que somos bombardeados mesmo que não os queiramos ver nos retiram por completo o prazer da descoberta de um filme, neste caso se vocês se mantiverem longe de tudo o que lhes poderá destruir o mistério, então irão dar por bem empregue o vosso tempo e apanhar o queixo do chão umas quantas vezes ao longo de toda a história. Garanto-vos.
Afastem-se até das imagens do filme espalhadas pela net, pois algumas revelam boas surpresas em termos de personagens e vocês querem partir para [“Snowpiercer”] sem saberem nada dele.

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Como já referi isto é essencialmente um trabalho de grupo e não há propriamente um personagem principal embora alguns se destaquem. Para além dos actores sul coreanos de “The Host” que mais uma vez têm uma empatia absolutamente perfeita, a mistura com o elenco internacional cria uma sensação de realismo excelente; mas é Tilda Swinton que arrebata o filme em cada cena que aparece como a ministra fascista. Vão adorar odiar o seu personagem pois é ao mesmo tempo, ameaçador, cómico e trágico.

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O -“Capitão América”- Chris Evans surpreendeu-me pois não esperava uma prestação tão intensa e perfeita de alguém que normalmente se vê limitado a entrar em pastilhas elásticas para adolescentes e pouco mais quando trabalha na américa. Tem um dos melhores monólogos do filme numa cena arrepiante só pela forma como o actor interpreta o texto e que acaba por ser outra das chaves da história, conduzindo-nos até ao seu final. Um final que quanto a mim deixa algo a desejar mas nem por isso é menos adequado, pois eu sinceramente numa história destas também não saberia bem como a terminar. O filme tem sempre tanto impacto a todo o momento, que inevitávelmente o final se calhar sofre um bocado por não ser própriamente surpreendente ou intensamente chocante.

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Nota especial também para a participação do “TintinJamie Bell com um personagem cativante numa prestação dramática excelente e para John Hurt e Ed Harris que com a sua habitual presença carismática dominam cada cena em que entram.
E claro também para todo o elenco secundário; algumas caras conhecidas inglesas e não só que povoam este úniverso bem negro mas muito bem imaginado e plenamente bem executado pela realização dinâmica e segura de Bong Joon-Ho num filme onde não se perde um fotograma na montagem e onde tudo, até o mais pequeno pormenor aparentemente desinteressante importa para o desenlace final e contribui para estar sempre um passo á frente do que o espectador pensa que vai acontecer.

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Portanto como não quero estragar o filme a ninguém fico-me por aqui e vamos a isto.

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CLASSIFICAÇÃO

Este filme entra directamente para a minha lista de filmes favoritos de ficção-científica pois é uma das melhores co-produções internacionais dos últimos anos e que demonstra bem o que se pode fazer dentro do cinema comercial quando não há interferência directa de Hollywood no seu processo criativo.
Quando eu pensava que já não havia imaginação dentro da ficção-científica cinematográfica; salvo raras excepções que normalmente são fracassos por tentarem sair da habitual fórmula a que os “adolescentes” comedores de milho estão habituados, eis que me deparo com [“Snowpiercer”]. Dos raros filmes de FC que são tão bons quanto um bom romance do género e portanto recomendo vivamente a quem procura algo fora do habitual que contorna hábilmente as inevitáveis cenas previsíveis e nos surpreende a cada instante até ao minuto final.
Cinco tigelas de noodles por mostrar que afinal ainda há gente a fazer ficção-científica adulta algures neste planeta.

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A favor: É ficção-científica para adultos a sério ao melhor estilo clássico, consta que é uma boa adaptação de uma nova BD europeia mesmo, não é nada politicamente correcto e é até bastante pesado e cruel em certas alturas chave, muito violento com baldes de sangue e tripas quanto baste, psicológicamente anda sempre na corda bamba entre até onde pode ir para não chocar demasiado o espectador ao mesmo tempo que o diverte pela espectacularidade de grande parte das cenas, está cheio de surpresas e não é tão previsível quanto poderão pensar, excelente cenas de acção, óptimos personagens, um design incrível com muita inspiração steampunk, um par de vilões extraordinários, agarra-nos do principio ao fim e nunca deixa de surpreender o espectador. Tem inclusivamente algum humor bem negro nos sítios mais inesperados.

Contra: Eu por mim ainda teria ido mais longe na violência e nas cenas repugnantes pois mesmo assim aposto que houve por aqui alguma contenção para não afugentar as plateias, não vai ter uma sequela e é pena; não ficamos com vontade de o rever muitas vezes e será um daqueles que veremos uma vez por ano ou algo assim simplesmente porque fica bastante na memória.

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CENSURA: O filme não foi lançado nos estados unidos e provavelmente irá ter uma distribuição muito pequena, porque o realizador Sul Coreano Bong Joon-Ho, se recusa a cortar os 25 minutos de cenas que a “censura” americana insiste de forma a que este possa ter uma classificação “mais familiar”, deixe de ser pesado e passe a ser mais “comercial“.
Será possível que ainda exista esta imbecilidade de tentarem destruir um filme absolutamente brilhante na sua forma original só para o adaptarem ás audiências americanas e pior, ás audiências  – americanizadas ?!!
Portanto se não for lançado nos estados unidos numa grande escala, muito certamente não chegará aos nossos cinemas pois todo o percurso de distribuição de cinema de grande público nas nossas salas está refém das políticas de distribuição controlas pelos estúdios de Hollywood.
Deve ser com políticas destas que esperam controlar a pirataria…

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NOTAS ADICIONAIS:

Trailer

https://www.youtube.com/watch?v=r6UmqNuMdY4

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Página oficial de Facebook
https://www.facebook.com/pages/Snowpiercer/304469566338971

Comprar
Ainda não existem edições inglesas e claro muito menos portuguesas. Apenas foi lançado em frança bem antes até de estrear no cinema cá pelo ocidente. Isto claro,  devido aos problemas de distribuição mundial porque esta é essencialmente controlada por Hollywood que exige cortes para colocar o filme nas salas americanas e americanizadas internacionais dos multiplexes que as companhias americanas controlam pelos nossos shoppings e não só.
A edição francesa á venda na amazon-fr, apesar de constar ser técnicamente excelente não contém legendas em inglés, (muito menos em portuga, claro), o que vai complicar o visionamento de muitos dos diálogos em Sul Coreano, pois o filme tanto é falado em inglés como em sul-coreano claro está, embora não sejam muitos.

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IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1706620/

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Quan qiu re lian (Love in Space) Tony Chan – Wing Shya (2011) China


Vi [“Love in Space”] quando saiu há um par de anos e apesar de ter sido o filme que me fez ter vontade de voltar a escrever para este blog na altura, lembro-me que apesar de ter gostado do que vi não lhe ia atribuir a nota excelente que desde já posso dizer que lhe vou dar agora.
A procura por filmes românticos orientais continua em alta neste blog como habitualmente e como há pelo menos quase três anos não recomendo por aqui um titulo do género achei que deveria voltar a este tipo de histórias com algo realmente especial e portanto na minha opinião [“Love in Space”] é a história de amor perfeita para lhes recomendar agora nesta nova fase do blog.

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Curiosamente aconteceu com este titulo o mesmo que me aconteceu com “Natural City”. Ou seja, da primeira vez que o vi, gostei mas achava que lhe faltava qualquer coisa para ser especial. O problema é que o raio do filme insistia em não me sair da cabeça ao mesmo tempo que me esquecia facilmente do que tinha visto de cada vez que o revia. E de cada vez que o revia ficava a gostar mais do filme e na verdade não tenho qualquer explicação lógica para isso.

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Se calhar é porque [“Love in Space”] é uma verdadeira manta de retalhos de pormenores com histórias entrecruzadas e a própria estrutura faz com que nos esqueçamos facilmente do que vemos semanas depois. Por outro lado não é tão complicado assim mas há aqui qualquer coisa de mágico neste pequena grande produção Chinesa…que sabe-se lá porquê durante este tempo todo eu tinha na ideia que era Sul Coreana…
Talvez porque o estilo de filme que encontramos aqui normalmente tem mais a ver com o cinema romântico Sul Coreano do que com o cinema chinês.

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[“Love in Space”] é um daqueles filmes verdadeiramente felizes. Não só porque resulta, mas porque é realmente um filme com um tom feliz fantástico e que se recomenda como cura para qualquer dia mais sombrio que vocês possam ter, pois é uma daquelas histórias que pode combater momentos de depressão apenas pelo seu visual e colocar um sorriso nos lábios do espectador quando acaba.

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Como comédia, se calhar nem tem momentos particularmente hilariantes, mas tem inúmeras sequências totalmente divertidas e tem o condão de numa única história conseguir equilibrar quatro tipos de clichés românticos que se cruzam e descruzam em personagens e situações paralelas que o espectador acompanha com imenso prazer sem conseguir encontrar um segmento preferido.

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Desde a pura comédia alucinada ao melhor estilo Sul Coreano que raramente se encontra no cinema romântico Chinês que costuma ser bem mais sério e até melancólico e sombrio até á aventura de ficção-científica numa versão quase cartoon e em conceito divertidamente percursora do filme “Gravity”, nada falta em [“Love in Space”] para divertir o espectador.

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Na primeira história a mais velha de três irmãs (astronauta) encontra-se numa estação orbital e tem o azar de ter como único colega de missão o seu ex-namorado o que leva a discussões sucessivas e gags non-stop em gravidade zero que são dos momentos mais espectaculares do filme pois os efeitos especiais em [“Love in Space”] são absolutamente perfeitos e nada ficam a dever ao melhor que se faz em Hollywood.
As cenas em gravidade zero são fantásticas e totalmente realísticas aproveitando certamente muito bem a experiência dos chineses a trabalharem com arames de suspensão.
Podem também contar com sucessivas referências a 2001 Odisseia no Espaço claro está, tudo em modo muito divertido e cheio de ambiente.

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A segunda história tem como protagonistas a irmã do meio que é totalmente germofóbica passando a vida a limpar tudo até á exaustão por causa dos virús que pode apanhar e que um dia conhece um rapaz que trabalha na recolha de lixo. A partir daqui já estão a ver o que se sucede com estes dois personagens; que na minha opinião têm uma das melhores químicas românticas dos últimos tempos neste tipo de cinema e protagonizam alguns dos momentos mais divertidos do filme também. Com especial destaque para a sequência em que os dois se vestem de cupido para tentarem ganhar um passatempo num programa de rádio. Ele com asas feitas de cartão retirado do lixo e ela com asas feitas de luvas médicas á prova de germes.

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A terceira história tem a ver com a irmã mais nova que é uma espécie de mega-estrela do cinema chinês mas que nem mesmo assim se livrou de receber o prémio para a pior actriz do ano. Para combater isso, resolve preparar-se muito bem para o próximo filme onde iria fazer de criada e portanto procura arranjar um emprego num café para tentar experenciar uma vivência real. Claro que por lá encontra um rapaz por quem se apaixona e por isso vocês já estão a ver o resto, até porque a rapariga está proíbida pelo agente de se envolver românticamente com quem quer que seja. Etc, etc, etc…
Este segmento é o mais tradicional de todas as pequenas histórias de amor, é o mais “sério” (mas não esperem um drama) e é aquele que mais se assemelha ao tipo de cinema romântico que vemos sair da Coreia do Sul e até do Japão.

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A quarta história envolve a mãe das três raparigas, viuva e cujo o cunhado a ama em segredo desde que esta, décadas atrás casou com o irmão deste, tendo o tio ficado solteiro para sempre por não ter tido coragem de se declarar quando eram novos.
Esta ao início parece ser o ponto fraco das histórias, mas garanto-vos que chegarão ao final do filme cativados por estes personagens mais maduros e que no fundo acabam por centralizar todo o enredo.

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Portanto muitos de vocês já estarão a dizer aí desse lado que já vimos isto mil vezes e portanto qual é a piada deste filme ? Bem, [“Love in Space”] para além do ambiente feliz que transmite é um daqueles filmes que está cheio de pormenores e muitos vocês só irão notar a uma segunda ou terceira visão tal como aconteceu comigo. É uma verdadeira tapeçaria de pequenos momentos que encaixam perfeitamente uns nos outros, com um ritmo fantástico e um timing para a comédia perfeito. Nunca tenta ser um filme daqueles para nos fazer apenas rir e consegue equilibrar tudo com personagens excelentes de que ficamos a gostar e temos pena de abandonar na cena final.

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Visualmente é absolutamente perfeito. O design gráfico e conceptual deste filme deve ser do melhor que me lembro de ter visto num produto do género, talvez desde o fabuloso (mas intensamente dramático) “Koizora – Sky of Love”. As cores em [“Love in Space”] estão cuidadas ao pormenor e nada é deixado ao acaso para criar a atmosfera certa para cada segmento que se torna visualmente único dentro de um filme que poderia facilmente ter descambado numa confusão visual demasiado abstracta mas tal nunca acontece.

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As cenas no espaço são fabulosas, o design e a iluminação nas sequências dentro da estação espacial são realmente do melhor e quase do outro mundo mesmo, tudo complementado por um cenário tecnológico perfeito e onde depois a própria banda sonora se encarrega de criar o resto da magia.
Antes que me esqueça, o uso da música neste filme é quase um personagem á parte, por isso recomendo vivamente que o vejam com a melhor qualidade audio possível pois [“Love in Space”] depende muito da música para nos remeter para o seu universo único.

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As histórias são simultâneamente passadas no espaço, na China e na Australia e cada segmento tem o seu tratamento visual próprio. As cenas na Austrália com o par romântico mais alucinado criam uma versão da realidade urbana deliciosamente simpática e cheia de momentos mágicos, (onde nem falta uma referência a “Manhatan” Woody Allen com a inevitável ponte em plano de fundo e os amantes no banco de jardim. As cenas na China são as mais nocturnas e talvez as mais encantadas até porque têm por base a ilusão do cinema na história de amor dos personagens e mais uma vez o uso da banda sonora é fundamental para criar uma envolvência com o espectador.

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Mas o que este filme tem é COR ! Há muito tempo que não via algo com uma paleta de cores tão bem explorada e esse detalhe é também aquilo que mais contribui para o ambiente ligeiro e descontraído destas histórias. [“Love in Space”] é um filme absolutamente luminoso em muitos sentidos.
Não será propriamente original nas suas histórias de amor, mas que raio, clichés há em todo o lado. O que seria do cinema de terror sem os tiques habituais que já vimos mil vezes mas que resultam sempre se forem bem geridos ? Porque haveria de ser problemático no cinema romântico ?…

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Também aqui agora neste tipo de histórias de amor totalmente fofinhas, o cerne da questão não está na ideia, mas sim na sua execução e na minha opinião [“Love in Space”] faz tudo muito bem e destaca-se por ser um produto único acima de tudo pela sua identidade visual mas também porque como romance consegue colocar quatro no écran quatro histórias e em todas elas o espectador ganha empatia com os personagens.

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Ainda por cima mesmo com todos os clichés consegue até ter algum suspanse, sabe-se lá como. Portanto na minha opinião este é um dos produtos românticos mais bem cozinhados dos últimos anos e um filme obrigatório para quem procura cinema oriental do género.
Ainda por cima não tenta ser mais do que é. Não se leva mais a sério do que deveria, não entra em dramatismos de pacotiha excessivos e nem precisa de nos atirar com a habitual tragédia/desgraça com uma doença qualquer  sempre tão popular no cinema romântico oriental para nos conseguir emocionar.

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Está tudo na forma como [“Love in Space”] sabe criar empatia com o espectador e posso garantir-vos que usam todos os truques e mais alguns de uma forma fantásticamente bem orquestrada que resulta em pleno para quem quiser deixar o cérebro á porta e simplesmente se divertirem com o tipo de histórias que já vimos mil vezes mas que se calhar nunca viram apresentada de uma forma tão feliz e colorida como nesta produção chinesa onde toda a gente está de parabéns.

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Quanto a coisas “negativas”…se vocês não podem com aquele estilo ultra-fofinho oriental, se calhar é melhor passarem á frente pois este filme é cute ao máximo.
Também houve alguém na net que disse que o filme não presta porque os astronautas não se comportam como astronautas reais e as cenas no espaço não são científicamente credíveis…what ?!! Eu nunca pensei que [“Love in Space”] pretendesse ser o 2001 Odisseia no Espaço. Isto não é suposto sequer ser um filme de ficção-científica julgo eu e como tal, deixem o cérebro á porta e divirtam-se pois se gostam de cinema romântico oriental , este é um daqueles que não devem perder de todo.

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E sendo assim vamos lá então passar ao que interessa.

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CLASSIFICAÇÃO

Uma das melhores comédias românticas que vi em anos recentes e um daqueles filmes que ganha a cada nova visão.
Portanto se não se assustarem com a falta de originalidade nas histórias de amor e não se importarem com a overdose cute presente em cada frame, têm aqui em [“Love in Space”] um produto muito simpático e acima de tudo um filme feliz totalmente coerente e que nunca se torna estúpido, forçado ou ridículo pois sabe equilibrar de forma perfeita o que tem para oferecer e mesmo apesar de ter sido realizado por duas pessoas e ser uma manta de retalhos com várias histórias por todo o lado o espectador nunca sente que está a ver um filme fragmentado.
Portanto e para evitar que eu mais tarde volte aqui para repensar novamente a minha classificação [“Love in Space”] leva logo cinco tigelas de noodles e um Golden Award pois de cada vez que revejo isto mais gosto dele, porque deixa-me sempre muito bem disposto e com vontade de criar coisas.

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A favor: O ambiente feliz, o design e iluminação de todas as cenas, a coerência entre todas as histórias mesmo sendo tudo tão dividido e aparentemente isolado, está cheio de gags divertidos e variados por todo o lado, a realização, a forma como a música é usada para nos fazer criar empatia com os personagens, os efeitos especiais são fabulosos, consegue apesar de tudo ter suspanse em alguns momentos mesmo quando já vimos o filme (?) várias vezes, a realização é excelente, a química entre todos os casais é simplesmente perfeita.

Contra: O trailer é fraquinho pois não consegue transmitir a verdadeira atmosfera das histórias por detrás do ambiente caótico de cartoon, é o tipo de filme que aquele pessoal que odeia atmosferas cute e fofinhas ao estilo oriental vai odiar de morte. I love it !

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NOTAS ADICIONAIS:

Comprar
Outro daqueles filme muito difíceis de encontrar em Dvd e estranhamente ainda mais complicado de o encontrar em Blu-Ray e não se entende porquê pois o visual deste filme está mesmo a pedir um tratamento de 1080P no máximo dos máximos.
Encontra-se em dvd na minha loja chinesa favorita, mas não faço ideia da qualidade da edição.
http://www.play-asia.com/love-in-space-paOS-13-49-en-70-4hn5.html

capa

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=iJQCmZRjZTQ

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1856038

Imagens da rodagem.

Behind the scenes

Behind the scenes2

Behind the scenes3

Não vou colocar nenhum link para download pois estes nunca tardam em desaparecer e não pretendo deixar que o blog se inunde de broken links como já tenho muitos por aqui. De qualquer forma é só procurarem o filme em Torrents que o encontram facilmente. ;)

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Filmes semelhantes de que poderá gostar:

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Cinema_oriental_no_facebook

In-lyu-myeol-mang-bo-go-seo (Doomsday Book) Pil-Sung Yim – Kim Jee-Woon (2012) Coreia do Sul


Aviso, este texto poderá conter pequenos *spoilers*. Se ainda não viram o filme se calhar torna-se bem mais fascinante se o virem primeiro sem saber absolutamente nada sobre o que irão ver e como tal não sei se recomendo que leiam já o que vou escrever a seguir. Não revelo nada de mais, mas se calhar este é um daqueles filmes que é para mergulhar nele sem fazer a miníma ideia do que irão encontrar. Por isso estão por vossa conta. 😉

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Comecei a ver [“Doomsday Book”] da melhor forma. Sem saber nada sobre ele. Pela capa parecia-me algo de ficção científica e portanto não podia deixar de o espreitar.
Comecei a ver [“Doomsday Book”] e ainda nem tinham passado cinco minutos e já eu estava a pensar criar uma nova secção neste blog apenas para WTF filmes. Ou seja, ainda o primeiro episódio presente neste filme ia a meio e eu só pensava, what the fuck ?!! Mais uma vez o cinema da coreia do sul surpreende e quando eu pensava que já tinha visto tudo, dei por mim a não conseguir adivinhar o que iria aparecer a seguir, o que é sempre bom sinal num mundo cheio de histórias mil vezes repetidas. Especialmente quando a primeira história envolve os habituais zombies tresloucados.

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Por outro lado, WTF ?!! É bom sermos originais, mas quando vocês virem o primeiro episódio disto vão perceber, porque razão agora não tenho palavras para o descrever.
[“Doomsday Book”] é aquele tipo de filme que eu normalmente odeio. Ou seja, em pouco mais de 100 minutos temos direito a trés curtas metragens independentes realizadas por várias pessoas (uma delas do mesmo realizador de “The Host“, as outras do realizador de “Hansel & Gretel“) o que é algo que me costuma logo afastar deste tipo de produtos.

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Neste caso, temos três histórias muito diferentes e tenho que dizer que me surpreenderam pela positiva. O cinema oriental não costuma levar muito a sério as suas histórias de ficção-científica e aqui também não é excepção. Na verdade, mais ou menos. Em três histórias que poderiam perfeitamente pertencer a uma boa antologia de contos do género temos direito a duas histórias completamente alucinadas e uma totalmente sci-fi num tom sério bem mais próximo de um bom conto de Philip K.Dick do que própriamente dentro do que se costuma ver pelo cinema oriental.
Temáticamente o  segundo conto está até perto do excelente “Natural City” que para mim é uma espécie de Blade Runner 2 não oficial made in Coreia do Sul e portanto se o assunto da inteligência artificial é algo que gostam de ver abordado no cinema não ficarão desapontados.

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Isto poderia ter desequilibrado [“Doomsday Book”] enquanto filme, mas a verdade é que há aqui algo que funciona bastante bem.
Agora preparem-se para algumas surpresas.
A primeira história é completamente indiscritível. Vocês já viram muitas histórias apocalípticas com zombies mas se calhar nunca viram uma como esta.
O primeiro conto, é ao mesmo tempo hilariante, absolutamente nojento e perturbante. Ah, e é romântico também.

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Eu disse romântico ? Bem, se vocês procuram uma história e amor entre dois zombies esta poderá ser a lovestory que queriam ver. Ou talvez não. Como disse isto é dificil de explicar sem lhes estragar o prazer da descoberta. Se calhar digo-lhes só que se vocês não gostam de carne têm no primeiro episódio a razão para tornar tornar toda a gente vegetariana neste planeta.
A primeira história é essencialmente o típico filme catástrofe sobre um virus que contamina o mundo inteiro e transforma a população em mortos vivos. Mortos vivos que nem por isso abdicam do seu telemóvel, o que dá logo um tom de sátira ao consumismo a esta pequena história inicial, tão intensa quanto repugnante, numa mistura entre amor, podridão, consumismo e comédia tresloucada ao melhor estilo Sul Coreano. Nisto tudo ainda consegue criar uma mini-história de amor ao melhor estilo caótico habitual por aquelas paragens. E mais não digo.

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A segunda história é o coração do filme. Se procuram apenas um pequeno grande filme de FC sem partes parvas ou personagens cartoonescos, podem saltar o primeiro filme de [“Doomsday Book”] e passar logo ao segundo “episódio” que é tudo o que vocês gostariam de ver se procuram uma daquelas histórias de ficção-cientifica dentro da tradição mais tecnológica e hardcore dentro do género. Como disse antes, esta história podia ter sido escrita por Philip K.Dick nos anos 70 ou até mesmo por Arthur C.Clarke pois é bem o género do que eles produziam. Se gostam do trabalho de algum desses escritores vão adorar o segundo conto.

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Esta segunda parte conta a história de um técnico de robots que num futuro próximo onde os robots fazem parte do nosso dia-a-dia, é chamado a um mosteiro budista para confirmar se o robot do templo é ou não a reencarnação de Buda.
A partir daí a história desenrola-se num tom algo gélido e quase clínico que na minha opinião era desnecessário, mas por outro lado lhe dá uma certa atmosfera cyberpunk Kubrikiana a fazer lembrar o ambiente frio dos diálogos com Hal em 2001 Odisseia no Espaço.

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O trailer de [“Doomsday Book”] engana muito bem o espectador. Faz-nos crer que o filme será bem mais ligeiro e divertido do que na realidade qualquer um dos episódios é. O primeiro episódio é algo nojento e doentio, este segundo chega a ser deprimente pela atmosfera fria de toda a história e o terceiro e último episódio parece uma espécie de comédia sem graça.

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De qualquer forma, este segundo conto sobre o robot que pode ser Buda reencarnado é uma história excelente e um daqueles conceitos que já fazia falta ao cinema de ficção-científica que hoje se resume mais a efeitos especiais do que a nos maravilhar com ideias. Neste segundo episódio o fascínio não vem do excelente personagem do robot e dos efeitos especiais mas sim do intenso conteúdo filosófico que envolve toda a discussão sobre o direito de uma máquina a ter um sentimento religioso.

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Em nenhum momento este episódio se torna chato, mesmo apesar do conteúdo filósófico ser bem denso por vezes, embora talvez o personagem do dono da corporação cibernética esteja um bocado á parte no tom geral da história pois achei o seu discurso algo forçado como se o argumentista tentasse criar um manifesto qualquer sobre inteligência artificial e tivesse despejado tudo o que pensa nos discursos exacerbados deste personagem.
De qualquer forma este segundo conto em [“Doomsday Book”] é fantástico. Grande ideia, muito bem executada, excelente atmosfera e com um final bem simples que pode deixar no ar muitos temas para o espectador continuar a discutir muito para além do filme ter acabado.

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Mas o filme não acaba sem passarmos primeiro pela terceira história.
Nela, o mundo também vai acabar porque uma criancinha no seu computador encomenda num site “alienígena(?)” uma bola de snooker numero 8 e esta vem dos confins do universo em entrega especial e em tamanho gigante chocar com a Terra na morada assinalada…

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Eu repito…
O mundo também vai acabar porque uma criancinha no seu computador encomenda num site “alienígena(?)” uma bola de snooker numero 8 e esta vem dos confins do universo numa entrega especial para em tamanho gigante chocar com a Terra na morada assinalada…

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Se eu tinha ficado baralhado com a primeira história mais baralhado fiquei com esta última. Ao ler algumas reviews do filme pela net, consta que isto é suposto ser uma comédia mas sinceramente não lhe achei particularmente graça…a não ser pelo visual com que os personagens ficam depois de passarem 10 anos a viver num bunker debaixo de terra após o apocalipse acontecer…por causa da bola de snooker…
O que dizer disto ? A verdade é que é divertido e bem original.
Este episódio tem uma estrutura muito alucinada mas onde entre falsas emissões e falsos debates televisivos sobre o fim do mundo nunca sobra muito tempo para desenvolver os personagens no tempo que resta e por isso talvez a sua única fraqueza não é a falta de graça (se é que isto era suposto ser para rir), mas sim o fraco desenvolvimento dos personagens, pois a história chega ao seu (ainda mais estranho) final e como espectadores nunca estivemos particularmente cativados por aquelas pessoas.

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Por outro lado, a ideia para a história é muito original e satírica e tudo funciona bem dentro da trilogia de histórias completamente diferentes que compõem [“Doomsday Book”].

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CLASSIFICAÇÃO

Mais um excelente exemplo de como podem ser originais os filmes orientais que nunca chegam aos cinemas desta parte do mundo.
O trailer deste engana, não é o filme em tom ligeiro que parece ser mas são sim trés histórias separadas com uma atmosfera algo doentia (muitos momentos repugnantes no primeiro conto) e até clinica e deprimente em muitas alturas e que o trailer não reproduz de todo por isso estão avisados.
Sci-fi fria e crua mas com muitos momentos de ironia á mistura como só poderia ser feito num cinema daquela parte do mundo.
Mais uma vez a coreia do sul mostra como ainda se pode fazer cinema de ficção-científica bem original e irá agradar a quem procura algo do género longe das formulas comic book infantis que estamos habituados a ver saídos de Hollywood.
Quem gosta de FC deve espreitar isto sem sombra de dúvida. Especialmente quem gosta de LER ficção-científica pois contém trés dos melhores contos do género que vi em muito tempo apesar de algumas fragilidades.
Trés tigelas e meia de noodles porque é bastante bom mas podia ter sido muito melhor se o segundo episódio sobre o robot Buda tivesse sido desenvolvido no filme inteiro. Não foi e é pena.

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A favor: Trés histórias de ficção científica originais que poderiam ser contos de uma boa antologia em livro, apesar de ser caótico por vezes [“Doomsday Book”] é sempre cativante pois nunca sabemos bem o que pode acontecer a seguir, o primeiro episódio é completamente alucinado e até repugnante mas contém personagens de que ficamos a gostar logo em pouco tempo, o segundo conto é o melhor do filme e é uma daquelas histórias de ficção-científica que vale mesmo a pena ver (quem estiver ligado ao Budismo irá adorar certamente), o personagem do robot está fantástico apesar de bem simples, o terceiro conto fecha bem a trilogia de histórias bem originais e apesar de não ser particularmente divertido é no entanto fascinante na mesma por ser imprevisível.

Contra: A segunda história deveria ter sido o filme todo e não durar apenas pouco menos de cinquenta minutos, [“Doomsday Book”] pode ser demasiado caótico e até impróprio para estômagos mais sensíveis por toda a atmosfera repulsiva que envolve o primeiro conto, o terceiro conto pode ser demasiado estranho e não funciona como comédia como supostamente deveria ser.

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NOTAS ADICIONAIS:

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Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=9GGfa0EybCI

Comprar
Existe edição ocidental em blu-ray que poderão encontrar aqui.

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IMDB
http://www.imdb.com/title/tt2297164

Não vou colocar nenhum link para download pois estes nunca tardam em desaparecer e não pretendo deixar que o blog se inunde de broken links como já tenho muitos por aqui. De qualquer forma é só procurarem o filme em Torrents que o encontram facilmente.

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Filmes “semelhantes” de que poderá gostar:

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Gamgi (Flu) Sung-su Kim (2013) Coreia do Sul


O meu ano de 2014 não podia ter começado melhor em termos de cinema do que com esta injeção de adrenalina proporcionada por [“The Flu”].
Há muito tempo que não encontrava pela frente um filme catástrofe daqueles que nos deixam literalmente “on the edge of our seats” e este foi absolutamente eficaz nesse sentido pois é daqueles que nos faz querer roer as almofadas até quase ao minuto final. Especialmente quando ainda nem sequer tinha visto o trailer ou sabia qualquer coisa sobre ele.

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O que não deixa de ser surpreendente pois na verdade em termos de argumento não tem nada que vocês não tenham já visto mil vezes dentro deste género de filmes, o que para mim só lhe dá ainda mais valor, pois conseguir manter um nível de suspanse como este filme mantém nos seus 40 minutos finais com uma história que á partida não surpreende pela sua originalidade é obra !!
Se também foram daqueles que acharam o Hollywoodesco “World War Z” uma desilusão, então têm aqui o antídoto perfeito na sua vertente oriental.
Não que [“The Flu”] seja propriamente um filme de zombies mas de certa forma na sua estrutura é tudo aquilo que “World War Z” não foi em termos de adrenalina e é o exemplo perfeito de que não é o facto de um argumento estar cheio de lugares comuns e clichés que estraga um filme mas sim a forma como se trabalha esse material e neste caso não poderia estar melhor na minha opinião.

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Em termos de cinema espectáculo têm aqui também um excelente exemplo para mostrarem aquele vosso amigo que ainda pensa que só na américa se faz bom cinema comercial, isto porque visualmente [“The Flu”] conta com momentos assombrosos que não destoariam de um filme de Rolland Emerich ao melhor estilo pastilha elástica “2012”, só que aqui também temos personagens com que realmente nos importamos e não estão apenas na história para servirem de body-count e ilustrarem cenas de efeitos especiais.

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Aliás, a razão porque [“The Flu”] resulta tão bem, especialmente nos últimos 40 minutos finais, é porque por essa altura já estamos plenamente cativados pelas pessoas que vemos no ecran e não apenas pelos heróis; isto porque ao contrário do que costuma acontecer neste género de cinema, o filme não tem pressa de nos mostrar as coisas rápidas demais e aproveita o seu tempo não só para se ir tornando cada vez mais épico sem o espectador dar por isso como principalmente constrói personagens á melhor maneira sul coreana para um resultado final totalmente eficaz no que toca a criar empatia com o espectador. Em [“The Flu”] até o personagem mais secundário tem o seu momento e nada é deixado ao acaso para humanizar as pessoas que nós vemos na história, sejam elas “heróis” ou “vilões” também aqui um conceito que não se pode aplicar naquele sentido em que estamos habituados a encontrar.

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Alguma reviews ocidentais dão uma nota mediana ao filme porque dizem que os personagens choram demais e tudo é por demais melodramático. Acontece que esse melodrama é a principal característica do cinema Sul Coreano e portanto convém que o espectador entre no espírito da coisa, até porque a forma emotiva como os temas são tratados no cinema daquelas partes do mundo reflete muito a cultura desses povos. Por isso na minha opinião penalizar um filme como este apenas porque alguém acha que as pessoas choram demais para mim não faz qualquer sentido. Muito menos dentro do contexto da própria história, pois [“The Flu”] trata essencialmente de um potencial fim do mundo com tudo o que isso implica na vida das pessoas.

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[“The Flu”] centra-se essencialmente na quarentena de uma cidade na Coreia do Sul, mas tem um ambiente bem mais de ameaça global do que mais uma vez “World War Z” conseguiu ter mesmo adaptando um romance que tinha tudo para ser tão bom quanto [“The Flu”] agora conseguiu ser a partir de um argumento “original”.
Bom, mas isto é sobre o quê ? Essencialmente é a típica história sobre epidemias. Gripe das aves em versão extrema pois “flu” significa isso mesmo; -gripe- em inglés.
Se gostam de filmes em que morrem pessoas em quantidades apocalípticas estão no sitio certo. Muita gente a vomitar sangue, cadáveres ás pilhas, criancinhas mortas, pessoas espezinhadas, caos urbano e extermínio em massa. Tudo para divertir o espectador.
E resulta fantasticamente bem.

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Aquilo que na primeira parte do filme parece ser interessante mas não particularmente emocionante depressa se torna no segmento final numa jornada de adrenalina para o espectador daquelas que não nos deixa respirar quase até ao final. Pelo meio ainda temos direito a alguns momentos de humor á boa maneira sul-coreana e claro a uma proto-história de amor que não precisa de ser desenvolvida para ser eficaz.

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[“The Flu”] conta com excelentes interpretações do elenco sul-coreano com grande destaque para o trio de protagonistas onde sobressai a pequena actriz que no segundo acto da história acaba por ser o coração do filme e que dá um show de emotividade no desenrolar da verdadeira montanha russa de acontecimentos que ocorre nos segmentos finais de um filme catástrofe que equilibra muito bem o terror, a aventura, o suspanse, alguma comédia e o cinema de acção e efeitos especiais a um nível tão bom quanto qualquer coisa que vocês tenham visto saída de Hollywood nos últimos anos. Com a vantagem de que aqui temos personagens e não apenas bonecos de cartão.

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Um grande destaque também para aquilo que raramente se fala nestes filmes. As multidões de extras/figurantes que inundam esta produção e têm um papel fundamental em todo o ambiente e cenário apocalíptico de caos e confusão. O espectador nem nota, mas o trabalho de toda esta gente é fantástico neste filme e quem coordenou tudo isto está de parabéns pois as cenas de pânico em [“The Flu”] são do melhor que há e contribuem totalmente para a descarga de adrenalina que os acontecimentos do fim proporcionam no espectador desprevenido.

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Então e coisas más, tem ?
Bem, tem…
Vocês nem queiram saber os canastrões que arranjaram para fazer o papel de americanos(?) que essencialmente são “os vilões” deste filme. Onde raio foram buscar aqueles “actores(?)” ?!!
Quase que arruinam totalmente todo o esforço do realizador para tornar real todo o ambiente e não se entende de todo.
Por outro lado não deixa de ser hilariante, pois o cinema oriental já tem uma longa tradição em colocar os piores actores ocidentais do mundo em papeis secundários. Não acreditam ? Vejam, “Bye Bye Jupiter” pois é talvez o único titulo que consegue ter piores actores ocidentais que [“The Flu”].
Felizmente que o suspanse final da história está tão bem orquestrado que nem com estas interpretações desastrosas pelo meio a adrenalina se perde, mas mesmo assim os “americanos” neste filme são de ver para crer.

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De resto, o filme é um espectáculo. Se tiverem em casa um projector e poderem ver isto num écran pelo menos com uns três metros de largura vão se passar ! Embora também funcione bem numa tv normal, a escala épica do filme é perfeita para vocês exibirem o vosso projector aos amigos e ai de quem tiver coragem de tossir durante [“The Flu”].

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CLASSIFICAÇÃO

Pensei se haveria de dar a classificação máxima a [“The Flu”] ou se “apenas” lhe daria cinco tigelas de noodles, isto porque a força deste filme está no suspanse final e esse só se vive uma vez.
Lembrem-se que nunca temos bem a certeza se isto vai dar um final feliz ou não. No cinema oriental os heróis não têm obrigatoriamente que acabar bem e esse factor também aqui é determinante para criar incerteza e para aumentar ainda mais a tensão no espectador, o que contribui totalmente para o nosso divertimento.
Portanto [“Flu”] enquanto filme vive essencialmente de uma primeira visão. E nesse aspecto não podia ser melhor.

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Quando já o vimos uma vez, claro que tudo aquilo que é espectacular no final perde logo metade do impacto, mas nem por isso posso deixar de dar a classificação máxima a isto.
Já vi o filme duas vezes e aquilo que a uma primeira visão é pura adrenalina, a uma segunda visão torna-se essencialmente na apreciação do excelente trabalho de toda a gente que esteve envolvida nesta produção e para mim é mesmo um dos melhores filmes catástrofe dos últimos tempos. Dentro do cinema oriental é mesmo do melhor que vi no género até hoje. Um blockbuster com alma.

Cinco tigelas de noodles e um Gold Award também. O ano começa bem em termos de cinema oriental para mim.

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A favor: leva o seu tempo a desenvolver personagens, cria suspanse aos poucos sem notarmos o esforço para nos impressionar, todos os personagens são excelentes (até mesmo os americanos se tornam divertidos), a primeira parte do filme consegue manipular bem as reviravoltas do argumento, a segunda metade do filme abre-se para aquela escala épica que esperamos que aconteça, excelentes cenas de pânico, não foge dos momentos gore e mostra sangue sem problemas, consegue um equilíbrio perfeito entre vários géneros, óptimas cenas de acção que embora curtas são sempre colocadas no momento certo, adrenalina pura nos 40 minutos finais.

Contra: Algum paleio “politico” repetitivo a mais pelo meio, tem actores ocidentais do piorio que destoam totalmente de tudo o resto e quase arruinam a tensão final, alguns momentos em CGI não são muito bem conseguidos (mas quase nem se nota). Se calhar poderia ter sido bem mais repulsivo e repugnante do que é pois nota-se que essencialmente isto é para ser um filme para o grande publico e portanto contém alguma contenção de modo a não tornar isto muito insuportável para aquelas pessoas que se assustam facilmente.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=1BvKZMg2LjU

Director´s trailer
http://www.youtube.com/watch?v=3vsm83GA7s4

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Comprar
Neste momento ainda não é fácil. Nem na Play Asia ainda existe.

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt2351310

Não vou colocar nenhum link para download pois estes nunca tardam em desaparecer e não pretendo deixar que o blog se inunde de broken links como já tenho muitos por aqui. De qualquer forma é só procurarem o filme em Torrents que o encontram facilmente. 😉

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Filmes semelhantes de que poderá gostar:

capinha_haeundae capinha_host capinha_tsunami capinha_virus

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Hoshi o ou kodomo (Journey to Agartha) Makoto Shinkai (2011) Japão


avatar_2011_200x200  Amigos do Cinema ao Sol Nascente, no dia 24 de Dezembro de 2013 fez dois anos que postei o meu último texto neste blog e parece que foi ontem. A última vez que escrevi algo por aqui sobre um filme foi já na véspera de Natal de 2011…
Por isso se calhar começo este meu regresso agradecendo a toda a gente que apesar do meu silêncio nestes 24 meses se manteve fiel a este pequeno espaço de opinião pessoal e contribuiu para que surpreendentemente as visitas não só se tenham mantido estáveis na maior parte do tempo como ainda por cima tivessem começado a aumentar durante 2013 sem eu perceber bem porquê. De qualquer forma obrigado a todos vocês que nunca deixaram de ler o que escrevo e também aqueles que comentaram nos posts, muitos dos quais eu não cheguei a responder (ainda).
O blog esteve parado por vários motivos. Por um lado tinha uma situação de Alzheimer muito complicada em casa (tendo a minha mãe depois morrido no verão de 2012)  e por outro nestes últimos dois anos o meu trabalho como ilustrador foi vindo a aumentar exponencialmente e muito pouco tempo me sobrou para ver cinema oriental ao ritmo que o podia fazer dantes, quanto mais ter tempo para escrever sobre ele como gostaria.
Portanto…
A minha ideia será a partir de agora tentar continuar a dar vida a este espaço, embora nos meses que se seguem a coisa ainda poder vir a ser algo intermitente pois ainda estou com muito trabalho de ilustração em mãos (visitem o meu facebook ou o meu site) e portanto o cinema oriental terá que encaixar algures nisto tudo.
Sendo assim, esta primeira review que estou a postar hoje será assim uma espécie de preview daquilo que ainda pretendo recomendar nos próximos tempos, pois ao longo destes dois anos de silêncio não deixei de acumular alguns títulos que se calhar vocês agora irão continuar a gostar de conhecer.
Recomecemos então…reboot !

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[“Journey to Agartha”] (no seu titulo ocidental), é mais um filme de Makoto Shinkai.
Isto para muitos se calhar, será suficiente e nem precisarão de continuar a perder tempo a ler o texto que se segue pois sei que vocês sabem que não querem perder mais esta obra.
Para outros tantos, este filme não será novidade, principalmente para o pessoal que acompanha as notícias Anime e muito provávelmente já o viram. Se assim for, não se esqueçam que este blog serve essencialmente para que eu possa apresentar coisas como esta a quem não conhece e portanto o texto que se segue será dedicado a esses leitores essencialmente.

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[“Journey to Agartha”], é mais um filme de Makoto Shinkai.
Se nunca ouviram falar dele, nunca viram o seu trabalho ou se calhar até nem gostam particularmente de cinema de animação, então para evitar que eu me repita nas referências e elogios a este jovem realizador, é melhor fazerem uma pausa aqui e lerem as minhas duas anteriores reviews sobre o seu trabalho, nomeadamente o seu primeiro filme caseiro “Voices of a distant star” e o já mais profissional (embora ainda produzido no seu já habitual método “caseiro”), “The place promised in our early days”.
Eu espero…

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Ok, já leram ?…
Então se calhar percebem melhor o valor que eu enquanto ilustrador dou ao trabalho de um autor com Makoto Shinkai, porque eu sei o que custa desenhar e também me identifico bastante com a sua paixão por cenários e paisagens imaginárias.
[“Journey to Agartha”], é mais um filme de Makoto Shinkai e mais uma vez, temos direito a uma história que apesar de ter que contar obrigatóriamente com personagens e bonecos é essencialmente contada através do uso de cenários incrivelmente bonitos e detalhados.

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Isto é, os personagens continuam lá, mas como sempre grande parte da atmosfera emocional da história depende muito do ambiente cénico que embrulha toda a narrativa e é aquilo de que eu mais continuo a gostar no trabalho de Shinkai. Toda a poesia da história, toda a emotividade da narrativa são acentuadas essencialmente pela luz dos cenários e principalmente pelos detalhes mínimos que os compõem. Pode ser uma gota de chuva a cair, pode ser uma folha a flutuar ao vento, pode ser uma nuvem de fumo a sair de uma chaminé, mas há sempre um pormenor assim integrado numa paisagem encaixado num momento chave do filme quando se trata de emocionar o espectador. Contrariamente ao habitual, Makoto Shinkai usa a paisagem para humanizar os personagens ao passo que normalmente nos filmes, os cenários costumam ser apenas o suporte visual onde se coloca a acção.

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Também em [“Journey to Agartha”] a acção está lá, (e até bem mais do que é costume no cinema deste realizador), mas não esperem o típico desenho animado Anime cheio de sequências estilizadas a duzentos frames por segundo. Se são daqueles leitores que nunca se atreveram a espreitar um Anime para cinema porque não podem com aquelas séries televisivas para adolescentes no estilo Naruto ou Dragon Ball, não se preocupem pois os filmes Anime de Makoto Shinkai não seguem de todo essa fórmula e basta terem visto “Voices of a distant star” ou “A place promised on our early days” para perceberem isso.
Os Anime deste realizador não são sobre acção, mas sim sobre temas e histórias apresentados de uma forma mais adulta apesar da aparência juvenil que caracteriza o próprio estilo nipónico de desenho.

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Shinkai, tem sido apelidado de -novo Myiazaki- e percebe-se porquê. Desta vez, não só os próprios bonecos se assemelham bastante ao que se costuma encontrar em filmes como “Princesa Mononoke”, ou “Nausicaa, Valley of the Wind” como até as temáticas da história se aproximam das preocupações ecológicas sempre presentes no também no trabalho de Hayao Myiazaki, como acontece em “Laputa Castle in the Sky”, “Conan o Rapaz do Futuro” ou até mesmo “O meu vizinho Totoro”; isto porque até [“Journey to Agartha”] conta uma história que gira essencialmente á volta da importância do mundo natural ao melhor estilo Myiazaki.
Aliás, não deixa de ser curioso Makoto Shinkai fazer cinema mais no estilo Myiazaki sem qualquer esforço quando o próprio filho do clássico realizador bem tenta e nunca chega lá, como ficou bem demonstrado na falhada adaptação “Tales of Earthsea” que ficou bem áquem das expectativas de toda a gente.

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Em [“Journey to Agartha”], Shinkai pela primeira vez não desenha os bonecos. Se conhecem o trabalho do realizador e já viram entrevistas com ele, sabem o quanto ele detesta desenhar bonecos, (como o compreendo…), preferindo antes passar tempo a criar paisagens imaginárias e cenários de fantasia, (idem…) com os resultados absolutamente notáveis que se podem ver em todos os seus filmes.
Na minha opinião, Shinkai desenha as melhores paisagens do Anime actual. Não apenas pelo design mas essencialmente pela forma como sabe iluminar cada cena e coloca sempre um toque de poesia visual que ás vezes só notamos a uma segunda visão.

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Portanto, desta vez Shinkai delegou a bonecagem para o seu amigo e colaborador mais directo e focou-se essencialmente na realização e no desenho dos cenários, o que não poderia ter dado melhor resultado. Isto porque em [“Journey to Agartha”] os bonecos já deixaram de ter aquele leve toque amador que ainda estava presente nos trabalhos anteriores e os cenários são absolutamente de cortar a respiração na forma como o realizador sabe pintar luz.
Outra coisa curiosa nesta produção está no método de realização do filme. Mais uma vez não há cá estúdios, Makoto Shinkai alugou um apartamento pelos meses de produção, colocou um bando de amigos a viver permanentemente por lá e entretanto foram desenhando e realizando mais esta obra prima visual que apesar de extremamente profissional não deixa de ter sido produzida de forma realmente caseira entre sofás, pizzas e MACs, por um grupo de amigos que depois se volta a separar quando o projecto fica concluído como é habitual no cinema de Shinkai.

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Mas [“Journey to Agartha”] é sobre o quê ? Bem, como de costume, eu não pretendo contar nada da história, pois como espectador eu continuo a ser daqueles que odeia trailers americanos onde nos explicam a história de uma ponta á outra logo na apresentação e portanto já sabem que comigo nestes textos a ideia é fazer com que vocês sintam curiosidade em descobrir um filme de raíz sem saberem nada sobre ele.
Essencialmente [“Journey to Agartha”] é uma aventura de Fantasia. Uma espécie de mistura entre “Nausicaa, Valley of the Wind” e “Princesa Mononoke” mas com um toque contemporâneo e passada num mundo totalmente inspirado na estética Tibetana e do norte da India.

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Contráriamente ao que é costume no cinema de Makoto Shinkai, este filme é uma história de aventura mais directa com uma narrativa menos subjectiva e portanto se calhar será o filme mais comercial dele mas nem por isso um produto menor.
Curiosamente, temáticamente, [“Journey to Agartha”] é um filme sobre a morte.
O tema da morte e da perda das pessoas que amamos como sendo algo que faz parte da vida é o fio condutor “invisível” que movimenta toda a história e por vezes a coisa chega a tornar-se até algo pesada e totalmente inesperada embora nunca deprimente. Tem um par de momentos tristes e realmente surpreendentes pelo meio da história mas logo o realizador lhes dá a volta de uma forma poética , deixando-nos a pensar na morte de uma forma mais positiva do que se calhar costuma acontecer quando encontramos temáticas semelhantes em obras bem mais pretensiosas.

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É mais uma das virtudes de cinema de Makoto Shinkai e também aqui em [“Journey to Agartha”] isso se nota bastante. Os temas importantes estão sempre lá mas nunca nos são permanentemente atirados á cara como sendo a coisa mais importante da história. No entanto damos por nós constantemente a pensar no assunto. Especialmente no caso desta aventura que essencialmente é sobre morte e sobre a forma como cada um de nós tem que lidar com ela. Supreendentemente é um daqueles filmes que se recomenda a quem estiver em processo de luto, essencialmente por ser bastante filosófico e dar-nos algumas perspectivas bem positivas sobre uma coisa que se calhar deveria ser menos assustadora para nós do que é na nossa cultura ocidental. Neste aspecto [“Journey to Agartha”] é claramente um filme saído do cinema oriental sem qualquer sombra de dúvida.

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Como pontos menos bons, pessoalmente penso que se perde um pouco talvez pelo final, por entrar por conceitos visuais talvez demasiado abstractos quando todo o filme tinha sido bastante linear até então. Penso que as cenas de acção finais perdem um pouco da sua intensidade e toda a parte dramática não funciona particularmente bem, talvez porque nunca se afasta muito daquilo que já vimos mil vezes em mil Animes anteriormente, e até já vimos feito de forma bem mais emocionante.

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Por isso quanto a mim, aquilo que devia ser o climax emocional e dramático do filme e da história não tem a força que pedia e deveria ter tido. Apenas porque o filme perde um pouco da originalidade que construiu até aí e como tal perdemos um pouco a empatia com o que se passa á volta dos personagens, pois ou tudo é demasiado abstracto ou tudo se passa de forma demasiado rápida como se o filme precisasse de acabar ali e não houvesse mais ideias sobre como terminar o argumento.
Felizmente que depois os minutos finais da história voltam á atmosfera original e tudo termina de uma forma nostálgica e bonita que nos faz desejar que houvesse algures uma sequela a ser preparada. Ou talvez não.

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Apenas mais uma nota especial para a banda sonora. Novamente podemos contar com uma atmosfera musical totalmente perfeita para o tipo de história que conta. Quem gosta do estilo melódico e orquestral que normalmente acompanha brilhantemente grande parte dos bons Anime para cinema que podemos encontrar por aí, vai adorar a música deste filme.
Recomendo vivamente que espreitem o videoclip com a canção “Hello, goodbye hello”, que embora contenha um par de spoilers vocês nem irão notar sem terem primeiro visto primeiro o filme. É melhor que um trailer e se gostarem do videoclip vão adorar [“Journey to Agartha”].
Resumindo:

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CLASSIFICAÇÃO

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Mais um grande filme de Makoto Shinkai, talvez o mais comercial que ele produziu até agora por ser essencialmente uma aventura de fantasia com uma estrutura comum embora ambientada num universo visual bastante pessoal e inspirado no Tibete.
Não há muito mais que se possa dizer, porque quem gosta do trabalho deste realizador já sabe com o que conta e no que toca a ambiente este é mais um filme fabuloso que irá agradar a várias faixas etárias sem qualquer sombra de dúvida por diferentes motivos.
Completamente obrigatório em qualquer videoteca de quem gosta de cinema, independentemente disto ser um Anime ou não.

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A favor: Excelente personagem feminina, o espírito de aventura da história, a forma como trata o tema da morte ao longo de todo o argumento, as incríveis paisagens já habituais no trabalho de Makoto Shinkai, as cores são fabulosas, o ambiente de fantasia que nos apresenta um universo diferente, a diversidade dos momentos de aventura, mantém o mistério de se explorar um mundo novo, os personagens cativam-nos á medida que conhecemos os seus destinos, tem algumas supressas pelo meio, a banda sonora.

Contra: O climax da aventura não tem a originalidade do resto da historia pois já vimos isto antes mil vezes em mil Animes, ás vezes sentimos que não havia necessidade da história se ramificar em algumas direcções por onde entra, o tema constante da morte e do luto pode tornar por vezes o filme um pouco fúnebre para algumas pessoas apesar do enorme colorido que percorre todas as imagens (mas isto só será sentido pelo público adulto).

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NOTAS ADICIONAIS

Atenção que o filme tem dois títulos.
O título original é traduzido no ocidente por: “Children who chase lost voices” sendo o título ocidental oficial “Journey to Agartha”.

Journey to Agartha 21

Trailer
http://youtu.be/-62wqEfsKjo

Videoclip
http://youtu.be/gNCh3DWPkRg

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Comprar
Encontram-no facilmente em várias edições na Amazon UK.
Recomendo vivamente a edição especial em Blu-Ray pois é fantástica.
Journey to Agarthab 01
Especialmente se gostarem de desenho, pois a caixa contém um pequeno livro cheio de esboços, desenhos e testes de cor efectuados pelo realizador. Só este livro inédito vale a compra do Blu-ray.

Journey to Agartha 23

A caixa contém também o filme em DVD por isso estarão a comprar dois formatos pelo preço de um e ainda levam um disco com extras excelentes sobre todo o processo de produção do filme que vale mesmo a pena serem vistos.
Cliquem nas imagens do produto acima, para seguirem para esta edição na amazon UK.

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A edição normal em blu-ray é esta aqui.
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blu ray

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E a edição em dvd está aqui também.
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Journey to Agartha 00

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Não vou colocar nenhum link para download pois estes nunca tardam em desaparecer e não pretendo deixar que o blog se inunde de broken links como já tenho muitos por aqui. De qualquer forma é só procurarem o filme em Torrents que o encontram facilmente. 😉

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