The Grandmasters(s) (Yi dai zong shi) Wong Kar Wai (2013) China


Quem não conhece o trabalho de Wong Kar Wai enquanto realizador e parte para [“The Grandmaster(s)”] convencido pelo trailer americano de que isto vai ser um filme de Kung-Fu ou uma aventura do Ip Man no reino da porrada de criar bicho cedo descobre que foi enganado pela forma como o filme lhe foi vendido e talvez isso explique o apedrejamento que esta incrível obra prima visual está a sofrer em praticamente todos os forúns públicos pela internet fora aqui no ocidente. Ou melhor, mais pelo lado americano como não podia deixar de ser.

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Felizmente não por toda a gente, mas é certo que o público do cinema de acção genérico (leia-se -á americana-) parece estar a descarregar bem a sua raiva por lhe terem vendido um filme que é bem mais do que a típica aventura de artes marciais a que estamos habituados no ocidente.
E desta vez até lhes dou razão.
Não há dúvida que [“The Grandmaster(s)”] não é de todo o filme de porrada que aparenta nos trailers. Em particular nos trailers remontados nos estados unidos. Há um então com aquela voz gringa estilosa do costume que é de cair a rir ou de chorar consoante a perspectiva.

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Os distribuidores americanos parece que pensaram que a melhor maneira de vender [“The Grandmaster(s)”] no ocidente seria enganar o público e tentar levar o máximo de gente ás salas convencidos que iam ver um filme de aventuras ou cinema de artes marciais como os americanos pensam que os filmes de artes marciais devem ser.
Resultado, o público tem toda a razão em sentir-se enganado e se calhar eu também protestava.

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Na minha opinião, no entanto estão a escolher o alvo errado. Se calhar em vez de apedrejarem o filme, deveriam mas era apedrejar a distribuidora gringa que resolveu ocidentalizar o trailer de forma a meter o maior número de pessoas nas salas pensando que iam ver um blockbuster.
Isto porque está a acontecer uma coisa interessante que não deixa de ser sintomática da forma como Hollywood formatou e estereotipou –o gosto– dos frequentadores de salas de centro comercial nestas últimas décadas.
Quem ataca o filme por ser uma seca, ter história a mais e porrada de menos, não são sequer a maioria dos apreciadores do puro cinema de artes marciais oriental pois muito desse mesmo público tenta inclusivamente defender [“The Grandmaster(s)”] perante os ataques de muitos “cinéfilos” ocidentais a espumarem desapontamento pelos blogs, youtube e afins.

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Quem ataca o filme são essencialmente aqueles espectadores que tanto foram ver isto por ter karaté pelo meio como iriam ver outro blockbuster qualquer saído dos enlatados que Hollywood lhes mandasse ver nesse fim de semana. Aliás, praticamente toda a gente ataca o filme porque ele no trailer ocidental parecia um blockbuster épico de cacetada e pontapés nas trombas e no fim saiu um épico sim senhor, mas um drama épico. Ainda por cima um drama com uma estrutura narrativa totalmente fragmentada que não transporta o espectador pela mão da cena A à cena B mas pede-lhe que esteja atento e construa por si próprio a narrativa; o que deixou logo muita gente desconcertada porque veio ver porrada e depois ainda teve que pensar…e pior, o filme não tem maus nem bons, nem nada !!! Onde está o vilão ?!!!

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O que eu acho absolutamente fascinante é [“The Grandmaster(s)”] estar a ser tão atacado por ter paleio a mais e porrada a menos quando cenas de acção é coisa que não falta neste filme.
É que [“The Grandmaster(s)”] tem porrada de criar bicho sim senhor; apenas não está colocada dentro de uma história linear à americana e esse facto desorienta logo 90% dos espectadores americanos e americanizados que de repente ficam tão baralhados ao (não) tentarem perceber o que se passa na história que nem notam que o que não falta neste filme são sequências de acção !
E nem são tão pequenas assim. A história conta com inúmeros duelos muito variados espalhados por todo o lado e portanto esta ideia de que o filme é uma grande seca porque não tem acção –bem feita- só demonstra o quão formatadas pelo pior de Hollywood estão as audiências ocidentalizadas.

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Por entre as duas horas e meia de drama não linear, [“The Grandmaster(s)”] conta com muitos e largos minutos de fabulosas cenas de artes marciais.
Talvez, o problema aqui seja porque o filme em muitos momentos até usa essas cenas de porrada para contar uma história e é isto a que o público ocidental não está habituado.
Esta coisa de se usar artes marciais como veículo narrativo do que se passa no argumento deixa muita gente baralhada sem saber a que deve prestar atenção.
Isto porque no ocidente estamos habituados a que as cenas de acção sejam quase o intervalo das histórias. Ou seja no cinema de Hollywood, as cenas de acção são qualquer coisa que serve para “descansar” da história, são aquilo que se passa no meio de qualquer coisa e normalmente não tem mais porpósito do que tentar impressionar as plateias com o efeito especial da moda.

The Grandmaster Zhang Ziyi

Acontece que em [“The Grandmaster(s)”] isso não é bem assim. Se calhar não se irão aperceber a um primeiro visionamento porque o filme apanha-nos realmente de surpresa, (até mesmo a quem está habituado ao cinema de Kar Wai), mas uma das coisas mais fascinantes neste filme sobre artes marciais é a forma como usa as próprias artes marciais para falar delas.
As artes marciais aqui não estão no écran apenas para impressionar as plateias comedoras de milho ocidentais mas são a alma do próprio filme. Aliás são quase como poesia visual.
A forma como a luz é usada por vezes provoca mais adrenalina do que a própria sequência de acção ao mesmo tempo que a torna totamente única e visualmente poética pois inclusivamente as artes marciais afectam a própria vida dos personagens a muitos mais níveis do que apenas terem levado uns tabefes e ficarem com vontade de se vingarem.
Uma das grandes mais valias deste filme está na forma como apresenta as artes marciais como sendo um modo de vida, uma herança cultural de um povo e não apenas um conjunto de socos e pontapés que o “heroi” aprende num daqueles “mosteiros de Shaolin” estereotipados por Hollywood como costumamos ver no cliché mais piroso.

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[“The Grandmaster(s)”] é um filme sobre artes marciais.
Não é um filme de artes marciais.
Até eu fiquei desorientado ao inicio, pois a primeira meia hora de filme parecia-me muito hermética e pensei seriamente que não iria atribuir uma classificação tão boa a isto quanto acabei por achar que merece.
Eu que detesto filmes sobre Máfia, gangsters; todo aquele ambiente sobre “Famílias”, rivalidades entre Clãs e universos semelhantes, durante a primeira meia hora estava a começar a ficar farto da atmosfera pois fazia-me lembrar “O Padrinho” de Coppola a todo o instante e pensei que isto não iria muito longe.

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[“The Grandmaster(s)”] ao início constrói um universo muito semelhante á volta da honra, da rivalidade entre chefes de clãs e tudo aquilo que remete imediatamente para a atmosfera do filme de máfia tal como Coppola o recriou nos seus clássicos e isso começou a afectar seriamente a minha atenção e predesposição para continuar a ver o filme, pois eu realmente detesto coisas sobre famílias do crime e pensei sinceramente que esta obra não ia passar de mais uma sobre honra e vingança entre clãs rivais, em versão Hong Kong e estereotipada atá ao limíte. Coisa que felizmente logo percebi a tempo que não seria de todo.

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Ao contrário do que é habitual no cinema de Kar Wai, desta vez a atmosfera do filme constroí-se pelos rostos, pelas pessoas, pelos retratos e não pela envolvência do cenário o que torna logo o filme bastante fechado em termos visuais. Se isso me apanhou de surpresa, imagino a cara do público que foi ver isto ao cinema pensando que era mais um título de aventuras ou um novo episódio da série –Ip Man– que lida essencialmente com cenas de kung-fu.
Essencialmente [“The Grandmaster(s)”] é um filme de interiores, um estudo visual sobre rostos humanos,  sobre fotografias paradas no tempo mas também uma história sobre sentimentos…o que para quem esperava ver uma aventura apenas com pontapés nas trombas imagino como se deve ter tornado frustrante.

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Eu confesso que levei pelo menos 45 minutos a recuperar do choque. E olhem que eu não esperava um filme de acção. Esperava um Wong Kar Wai mais aberto em termos de espaço cénico e toda aquela intimidade de espaço quase claustrofóbico desconcertou-me bastante ao início.
Até que de repente fez-se um clique cá dentro.
Assim que percebi o quanto [“The Grandmaster(s)”] era realmente um filme sobre artes marciais fiquei absolutamente fascinado pois nunca tinha visto nada assim antes dentro do género e já não consegui sair de frente do écran.
Mesmo que quisesse a partir de certa altura as verdadeiras pinturas de luz com que Wong Kar Wai inunda o écran cativaram-me por completo e o filme poderia ser sobre relva a crescer que se a relva tivesse sido tão bem filmada quanto este filme o é eu teria continuado a ver na mesma.

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Eu próprio também condicionado pela ideia que temos de artes marciais aqui pelo ocidente (até por culpa dos clubes desportivos também e da imagem sobre (blargh) desporto em geral), nunca me tinha passado pela cabeça de uma forma realmente consciente que por detrás de toda a espectacularidade  haveria um lado muito profundo, bem para lá do aspecto contorcionista da coisa que normalmente é a única vertente explorada pelo cinema de acção. Nunca me tinha apercebido o quanto as artes marciais na china fizeram inclusivamente parte de um modo de vida e definiram o rumo de gerações. O que é muito bem retratado nestea obra e por o fazer de forma visualmente extraordinária está a ser atacada por muita gente que não pedia mais que isto fosse apenas um titulo de karaté nas fuças.

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[“The Grandmaster(s)”] mesmo que não prestasse para mais nada, é fabuloso na forma como explica ao espectador o que está na verdadeira essência das artes marciais.
É fabuloso na forma como nos apresenta toda a alma e principalmente como demonstra muito bem o quanto é extraordinária esta tradição que se ramificou numa dezena de estilos que chegaram até nós claramente deturpados, bem longe da carga filosófica original e acima de tudo da importância cultural que este filme tão bem reproduz.
Eu que pensava que já tinha visto tudo sobre artes marciais e não tinha qualquer interesse no tema pois sempre o vi mais como uma temática desportiva alimentada por pseudo-paleio-new-age de treinadores ocidentais, fiquei absolutamente surpreendido com a profundidade desta história e com o que o filme nos ensina sobre esta verdadeira herança cultural da humanidade.

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Quem pensa que sabe tudo sobre artes marciais e quem pensa que as artes marciais não são mais do que técnicas de luta deve ver este filme sem sobra de dúvida, pois se calhar irá surpreender-se com a carga inimista, filosófica e até sentimental que muitas destas tradições carregam afinal em milénios de história.
Wong Kar Wai está de parabéns por ter feito um filme que realmente mostra as artes marciais como nunca se tinham visto até hoje no cinema. E ainda por cima mostra-o sem evitar um estilo mais comercial apenas este está disfarçado de cinema de autor ou vice-versa. E resulta ? Se resulta !!
Adoro a envolvência dos personagens e acima de tudo consegue ser um filme sobre vingança que não envolve os habituais clichés, até na forma como não utiliza sequer -um vilão.
O verdadeir mau desta fita é a modernidade que chega com o passar dos anos e a forma inevitável como o tempo acaba por destruir tudo o que um dia foi importante para alguém.
Na verdade se há um tema central neste filme é o de que o tempo tudo consome mas tudo tem o seu tempo.

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E o realizador consegue passar tudo isto de uma forma muito simples e acima de tudo, de uma maneira totalmente despretensiosa.
Comarem este “cinema de autor” com coisas verdadeiramente atrozes e pseudo-intelectualoides como “Visage” e vão notar uma grande diferença certamente.
Wong Kar Wai para mim actualmente é uma das melhores portas de entrada para o chamado cinema de autor, mas cinema de autor que não se tenta armar em inteligente. Apenas tem uma forma diferente de contar uma história.
Neste momento acho que o trabalho do realizador se encontra exactamente entre o comercial e o menos comercial, sendo [“The Grandmaster(s)”] o perfeito exemplo desse equilíbrio tão fascinante do seu cinema actual.
O filme na realidade parece mais complexo e intimista do que na realidade é. Apenas tem um estilo que não é americano. Nada mais.
Mal o espectador aceita as regras da história e percebe o que o realizador está a tentar passar sobre a tradição das artes marciais, o filme parece que se abre a um universo totalmente novo perante os nossos olhos.

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As cenas de acção são absolutamente incríveis, não pelas coreografias mas pela forma como estão filmadas. Quem conhece bem o estilo Kar Wai vai adorar a forma como ele mais uma vez cria poesia visual em cada frame.
E imagens lindíssimas é coisa que não faltam neste filme. Sejam, segmentos com chuva a cair, gotas de sangue contrastando com o azul do chão, nevoeiro que cria cenários de sonho ou a forma como filma cada rosto até no meio das mais intensas cenas de acção, [“The Grandmaster(s)”] tem imagens que vão ficar na vossa cabeça durante dias após terem visto o filme.
É uma espécie de cruzamento entre “2046” e “In the mood for love” com um novo look ainda mais intimista mas sempre baseado em luz e sombra como só Kar Wai consegue criar actualmente no cinema.

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Sendo um filme sobre pessoas, a maneira como Kar Wai filma cada figura humana é incrível e pelo menos eu nunca tinha visto nada assim. Há frames em que parece que até o figurante mais simples tem uma história por contar.
Há enquadramentos com figurantes que nos fazem querer ficar a saber mais sobre as suas vidas.
Kar Wai consegue com uma imagem de um figurante anónimo criar mais alma num “personagem” do que mil linhas de guião o fazem naquele tipo de filmes que os espectadores ocidentais gostariam de ter visto em lugar deste.

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[“The Grandmaster(s)”] tem a melhor colecção de retratos e imagens extraordináriamente poéticas sobre pessoas que eu vi em cinema em muitos muitos anos.
Cada rosto, quase que conta uma história por sí só e quando um filme como este vive de rostos expressivos e incrivelmente bem filmados, temos ambiente para dar e vender.
Algumas imagens parecem verdadeiras pinturas a óleo e só apetece passar o filme todo a carregar no botão de pausa, pois é quase inacreditável o nível de detalhe que está presente em muitas imagens que não chegam a estar no écran mais do que um segundo apenas. No entanto ficam na memória e é esse o poder do cinema de Wong Kar Wai que também aqui não deixa os seus créditos por mãos alheias.

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Este filme tem a melhor colecção de imagens inesquecíveis de que me recordo de ver desde…se calhar desde o “In the Mood for Love” ou “2046” do mesmo realizador.
E mais uma vez não só temos imagens belíssimas a todo o instante como acima de tudo temos personagens que nos parecem seres humanos de verdade. Não só alguns figurantes parecem ter uma história de vida para contar como inclusivamente até os personagens secundários têm uma identidade bem marcada, com actores sólido por detrás de cada um deles e onde há sempre um momento para brilharem na história.

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Muito público ocidental parece ter ficado bastante chateado por [“The Grandmaster(s)”] não ser mais outro filme com o “super-heroiIp Man na linha mais comercial que tem feito parte de uma série bastante popular.
No entanto, [“The Grandmaster(s)”] é um filme sobre artes marciais em que um dos personagens é o Ip Man, nada mais do que isso.
Não é um filme de artes marciais com o Ip Man.
E isto porque Ip Man é incontornável na história das artes marciais e sinceramente estava mais que na altura de alguém explicar ao ocidente quem era este homem que muitos conhecem apenas por ter sido a pessoa que treinou o jovem Bruce Lee (que aparece brevemente representado enquanto criança no final do filme num pequeno segmento fascinante).
Conhece-se a técnica, extrapolaram-se muitas das suas “aventuras” mas nunca tinha havido um filme sobre essencialmente aquilo que ele representava. Sobre a sua alma e de que forma a tradição o moldou. [“The Grandmaster(s)”] é esse filme.

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Mas não só, essencialmente [“The Grandmaster(s)”] sendo um filme sobre a tradição das artes marciais, é também uma história sobre todos os mestres que décadas atrás tanto lutaram para que as suas tradições  familiares não se vulgarizassem, tendo Ip Man acabado por se tornar talvez no último dos grandes símbolos desses tempos onde as artes marciais ainda representavam uma filosofia, uma tradição e um modo de vida e não eram apenas tema de paleio “new age” de treinadores de Karaté nos ginásios modernos; muitos dos quais certamente acharão o filme uma seca, aposto.
Toda aquela aura a fazer lembrar filmes como “O Padrinho” parte precisamente dessa introdução inicial da história, pois o filme começa essencialmente por nos apresentar esse universo tão fechado e secreto, apresentando-nos muitos dos anciões que guardam cada segredo familiar a sete chaves. Cada golpe é um mistério, cada técnica um tesouro e quase um acto sagrado. Portanto o filme não é apenas sobre mortes e vinganças, mas sim sobre tradição.
Apesar de ser um filme de interiores, por vezes abre-se em vastas paisagens momentâneas que quase pertencem a uma outra obra mas não deixam de ser benvindas em certas alturas, pois ajudam a narrativa a respirar.

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Como não podia deixar de ser no cinema deste realizador, [“The Grandmaster(s)”] é também uma história de amor e como também não podia deixar de ser nas mãos de Wong Kar Wai, é mais uma das grandes histórias de amor do cinema.
Novamente temos o extraordinário Tony Leung a fazer par com a não menos incrível Zhang Ziyi que não contracenavam juntos desde “2046”; novamente num par romântico totalmente real perante um romance impossível como seria de esperar.
Grande parte do epílogo final desta história é precisamente sobre a relação destes dois personagens e sobre a forma como as artes marciais inclusivamente definiram o percurso do seu amor.
Esta ideia está realmente bem desenvolvida e dá a esta história de amor uma vertente diferente do que encontramos habitualmente, que culmina num pequeno monólogo fantástico de Zhang Ziyi e coloca este filme também como uma excelente proposta para aqueles que chegam a este blog procurando por cinema romântico oriental.

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Apesar de estar sempre subjacente á história ao longo do filme por acaso não esperava que Kar Wai fosse entrar pela pura história de amor no momento em que o fez, mas ainda bem que assim foi, pois um filme dele sem um grande romance nunca seria o mesmo.
Inclusivamente seria um desperdício de dois personagens que se tornam ainda mais inesquecíveis porque enquanto espectadores torcemos por eles até ao último minuto de uma forma que me fez recordar “A Time to Love“, pela sua atmosfera de melancolia e saudade de algo que nunca aconteceu em pleno.
Mais uma vez a ideia de um amor impossível está presente numa história de Kar Wai e ninguém filma a saudade de momentos que nunca poderiam ter existido como este realizador.

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Portanto, eu passei-me com este filme.
Os primeiros 45 minutos foram-me difíceis pois não estava mesmo a ver qual a ideia por detrás de tanta aura “mafiosa” no tom da história até que de repente me caiu um piano em cima e eu finalmente acordei para o filme.
A partir daí agarrou-me por completo.
Inicialmente apenas pelas incríveis cenas de acção (que não são tão poucas como os descontentes afirmam), depois pela forma poética como Kar Wai filma cada pormenor mas principalmente como mostra cada rosto e cada alma; também pelo fascínio que conseguiu transmitir a propósito do mundo hermético das verdadeiras artes marciais e por último com a bonita história de amor entre os dois rivais que fechou em grande esta narrativa que não me sai da memória dois dias após ter visto o filme.
Só o visual do filme, aliado á vertente romântica da história vale o tempo que dispenderem a tentar habituar-se a ele. Se gostarem de filmes de Wong Kar Wai, então nem hesitem pois este é imprescindível.

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Se não gostam de filmes de Kung-Fu, então passam a gostar.
Correndo o risco de me repetir, nota alta para todo o visual do filme. [“The Grandmaster(s)”] tem visuais absolutamente incríveis e para mim enquanto ilustrador consigo encontrar pelo menos umas vinte ou trinta cenas neste filme que me irão servir de inspiração nas próximas décadas.
Há de tudo em [“The Grandmaster(s)”], desde ambientes á chuva, interiores incrivelmente iluminados e como não podia deixar de ser num filme oriental, cenas de tirar o fôlego em estações de comboio.
Muitas das imagens neste filme fizeram imediatamente lembrar-me das cenas mais intimistas e até da estética de Blade Runner. Nomeadamente a forma como os rostos estão iluminados e as cenas na estação com a Zhang Ziyi num estilo a fazer lembrar a “Rachel” no filme de Riddley Scott décadas atrás.

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Aliás mais uma vez Wong Kar Wai cria uma personagem feminina ao mesmo tempo forte e frágil, com montes de personalidade; ter a actriz perfeita para o papel também ajudou certamente pois mais uma vez a actriz rouba todas as cenas em que entra.
Há sequências fantásticas em que o personagem nem precisa de falar. Basta caminhar em direcção à câmera e mesmo sem explosões atrás em estilo Michael Bay consegue transmitir mais identidade e alma do que todos os bonecos de cartão que costumamos encontrar no cinema plástico que inunda os nossos centros comerciais todas as semanas.
Zhang Ziyi é definitivamente uma actriz com presença e se para tal ainda houvesse dúvida bastaria confirmar-mos o seu trabalho nesta história.

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Em termos narrativos, em certos momentos este filme é bastante parecido também a “Ashes of Time” um dos primeiros filmes de Hong Kar Wai e portanto fica aqui o aviso: quem detestou esse muito provavelmente terá bastante dificuldade em conseguir suportar o tipo de narrativa que está agora em  [“The Grandmaster(s)”]. Ambos os filmes funcionam bastante por flashbacks, narrativas fora de ordem cronológica e vivem muitas vezes de silêncios.
Curiosamente não me recordo da banda sonora…nem me lembro se o filme tem música para dizer a verdade.  O que só pode querer dizer que é tão perfeita a criar ambiente que eu nem notei que lá estava ou então que pura e simplesmente quase não deve ter existido e eu nem dei pela falta…

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Recomendo vivamente que vejam o cut de duas horas e meia, pois consta por aí que Hollywood pretende remontar o filme para  video e fazê-lo caber em 90 minutos, se calhar para deixar apenas as cenas de porrada como é costume. Por isso é vê-lo na integra enquanto podem, pois se os cortes acontecerem, é bem provável que a edição que chegar em dvd a Portugal possa ser a versão cortada (tal como aconteceu com The Big Blue de Luc Besson anos atrás e nem consigo imaginar como um filme tão incrível como [“The Grandmaster(s)”] seria sem as suas cenas mais intimistas, poéticas e filosóficas que lhe dão tanta alma e que tornam as cenas de kung-fu ainda mais espectaculares por contraste de adrenalina.

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CLASSIFICAÇÃO

Já entrou para a lista de filmes da minha vida também.
Depois do fabuloso e americano “My Blueberry Nights” Wong Kar Wai regressou a Hong Kong e ainda bem que o fez.
Juntamente com Makoto Shinkai na animação Wong Kar Wai é para mim actualmente o melhor realizador do mundo em filmes –live action– (nesta vertente semi-comercial talvez) e mais uma vez não me desapontou.
Poderá não ser um filme para todos os tipos de público, especialmente para aqueles que se deixarem enganar pelos trailers remontados no ocidente, mas é o filme perfeito para quem se interessa realmente por artes marciais pois garanto-vos que nunca viram nada assim; e não estou a falar da porrada.

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Contém no entanto cenas de acção incríveis e é um excelente exemplo de um filme que fica perfeitamente com o pé em dois mundos; tanto no mundo do cinema comercial como no mundo do cinema de autor.
É uma excelente introdução a esse universo que normalmente está cheio de filmes estúpidos e pretensiosos, por isso é refrescante ver que ainda há gente a fazer cinema intimista sem qualquer carga intelectual pindérica para impressionar intelectuais de café e ratos de festivais cinéfilos.
Ignorem as reviews negativas de muitos comentários espalhados pela net (especialmente no youtube) pois muita gente foi ver o filme pensando que era apenas mais uma aventura de artes marciais e ficou compreensivamente frustrada tendo descarregado no filme injustamente.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award para o melhor filme que vi este ano até agora.

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A favor: é uma enciclopédia fascinante sobre o verdadeiro mundo e tradição das artes marciais, tem cenas de acção fascinantes e cheias de adrenalina, é cinema de autor sem ser pretensioso, está carregado de personagens verdadeiramente humanos, tem imagens inesquecíveis espalhadas pelo filme todo, muito poético e cheio de momentos em que só apetece fazer pausa para contemplarmos as imagens, óptima história de amor intensamente romântica no estilo mais trágico e clássico, os actores são incríveis, contém diálogos excelentes especialmente na história de amor, personagens que não se esquecem tão cedo, duas horas e meia passam num instante pois a narrativa pode ser diferente e fragmentada mas não é de forma alguma confusa ao contrário do que muita gente diz pela net, quem gosta do estilo de cinema do Wong Kar Wai vai ficar plenamente satisfeito com o que vai encontrar neste filme também que a meu ver merece plenamente o 12 prémios que ganhou pelo oriente, é tão bom ou melhor quanto “Ashes of Time” (o qual faz lembrar bastante em certos momentos), “In the Mood for Love”, “2046” ou “My Blueberry Nights”(embora bem diferente deste último em todos os aspectos). Acima de tudo é realmente um filme diferente e com muita alma. Se não gostavam de Kung-Fu passam a gostar.

Contra: Quem o vir pensando que é um novo filme de acção e aventura da série Ip Man pode ficar muito decepcionado e até irritado com a carga poética e intimista de grande parte deste filme.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
https://www.youtube.com/watch?v=8Ngxn9NzLzs

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Comprar
Acho que ainda não há uma edição europeia…

Trailer americano…
https://www.youtube.com/watch?v=uC5amKLgnFU

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1462900

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Se gostou, vai gostar certamente dos seguintes filmes abaixo.
Aliás, mesmo que não tenha gostado deste  vai gostar dos filmes abaixo.

capinha_ashes-of-time-redux capinha_a-time-to-love

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Cinema_oriental_no_facebook

Visage (Visage) Ming-liang Tsai (2009) China – Taiwan – França


A menor classificação que dei a um filme por aqui até hoje foi de 1 tigela de noodles, mas já há muito que eu  procurava por algo realmente abjecto que tivesse a honra de inaugurar a pior classificação de sempre neste blog.
Só que isto pedia alguns critérios; sim porque eu não poderia atribuir a pior classificação de sempre apenas porque um filme era mau. A coisa teria de ir para além do mau, até porque filmes maus é coisa que não falta por aí.

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Muitos inclusivamente já me passaram pela frente e eu nem sequer os mencionei por aqui, porque sempre achei que nem valia a pena perder tempo com eles. Eram simplesmente maus e pronto. Pode-se até dizer, foram insignificantemente maus e sendo assim também teria sido injusto para muitos se eu tivesse feito reviews sobre eles. Apenas porque se eu atribuísse a pior classificação de sempre neste blog a um deles, em breve muitos nas mesma condições também teriam de ser mencionados e classificados como tal, o que retiraria qualquer força posterior á pior classificação de sempre.

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Não. A pior classificação de sempre teria de ser realmente bem merecida e para isso não bastava um filme ser fraco, desinteressante, ou mau. Muito menos poderia ser baseado em qualquer obra potencialmente mal filmada, até porque como comprovei agora com o filme que irei referir de seguida, o – filmar bem – não é para aqui chamado, pois não garante de todo um bom filme. Na verdade, o que não falta por aí são filmes geniais precisamente por muitos deles estarem tão mal filmados, montados ou produzidos que depois se tornam divertidissimos.

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Sendo assim como atribuir a pior classificação de sempre neste blog a um filme ?
É simples. Trés conceitos.
– A capacidade para – estupfactar – (sim eu sei, inventei agora um verbo novo);
– A capacidade para aborrecer de morte até moscas que já faleceram no ano passado;
– A capacidade para ser irritante como o raio ! Mas irritante ao ponto de sentirmos vontade de esmurrar o realizador e obrigar os produtores a explicarem onde estavam com a cabeça quando investiram nisto !

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Mas acima de tudo, aliado a estes três factores, o filme ideal para receber a pior classificação de sempre por aqui teria de ser pretensioso como o “#$#%”$ ! Pretencioso ao nível de – tá aqui, tá a levar um estalo na cara !
Bem vindos a [“Visage”], outro filme do realizador de “Goodbye Dragon Inn”, que já tinha sido um produto estranho mas ao menos não tinha ainda atingido o nível de –“instalação artística” que supostamente esta obra prima agora almejou alcançar…e pelo visto para muito crítico iluminado por aí, alcançou mesmo.
Aliás, segundo certa crítica iluminada, parece que [“Visage”] é de uma genialidade insuperável. Um filme onde se filma os momentos mortos que ocorrem entre uma história em vez de se filmar a história própriamente dita, o que tem deixado muito intelectual de festival de cinema europeu extasiado.

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Não tenho nada contra o conceito. Por acaso é uma boa ideia e nas mãos de Hong Kar Way poderia ser absolutamente poético, só que o realizador Ming-Liang-Tsai não é de todo Hong-Kar-Way embora o trailer desta obra até aponte para algo dentro do género, o que devo confessar, me fez ficar bastante interessado no filme.
Curiosamente o realizador aqui nesta entrevista refere que ofereceu o papel principal feminino á actriz Maggie Cheung e não entende porque esta recusou entrar no filme !!! (?!) Jura… Porque será…
Ainda bem que este dvd me foi oferecido por uma amiga minha que sabendo do meu interesse por cinema oriental, decidiu procurar um dvd que eu ainda não tivesse visto. Acertou em cheio. Pelo menos, o trailer é altamente !
[“Visage”] foi possivelmente um dos filmes mais irritantes que alguma vez vi. Mais que cinema é essencialmente uma instalação artística de duas horas e meia e é dificil descrever por palavras o quão pretensiosa esta coisa é.

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Na primeira meia hora de filme, iniciamos a “história” com um plano de uma chávena de bica em cima de uma mesa de café onde durante mais ou menos cinco minutos ouvimos conversas casuais. Depois passamos para o interior de uma cozinha de um apartamento onde assistimos a um homem lavando a loiça quando rebenta um cano e em tempo real durante largos minutos de plano fixo, assistimos ás tentativas do senhor para impedir que a água se espalhe pela casa.
Seguidamente com a casa toda alagada, a cena muda para aquilo que supostamente será o quarto onde está a mãe do senhor acamada e quase catatónica. O senhor aproxima-se da mulher, destapa-lhe a barriga e começa a aplicar-lhe uma pomada durante mais um par de minutos, até á altura em que a mulher lhe agarra na mão, a coloca dentro das suas cuecas e começa a masturbar-se com a mão do filho.

Eu repito…
O senhor aproxima-se da mulher, destapa-lhe a barriga e começa a aplicar-lhe uma pomada durante mais um par de minutos, até á altura em que a mulher lhe agarra na mão, a coloca dentro das suas cuecas e começa a masturbar-se com a mão do filho.

Bem, o filme [“Visage”] está classificado como – comédia – por isso, acho que esta foi a parte para rir.

É arte.
É metáfora.
É poesia.
É subversão.
É um statement sobre a solidão na terceira idade.
É um filme porno para doentes de alzheimer.
É cinema !
É só rir !

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E o cinema continua…lembrem-se que o filme vai no inicio e faltam ainda duas horas de looooooooooooooooooooooooooooooooonga metragem para nos extasiarmos com:
Cenas na neve com gente a correr numa floresta á volta de espelhos; cenas na neve com gente numa floresta a dançar á volta de espelhos; cenas na neve com gente numa floresta a cantar canções espanholas (mexicanas, venezuelanas(?)) á volta de espelhos e finalmente cenas na cidade… não, estava a brincar; são mais cenas na neve com gente numa floresta a falar ao telémovel. Está bem, estou a exagerar…é só uma pessoa a falar ao telemóvel. Numa floresta…com neve…e espelhos.
Na secção cenas sem neve…ainda numa floresta, temos a excitante sequência onde a meio da noite sabe-se lá porquê o realizador tem um encontro tipo cruising com outro tipo atrás das moitas e … bom, vocês já estão a ver a ideia. Grande momento de tensão sexual aqui também. Deve ser a parte de suspanse do filme. Ou a parte romântica, tipo – amo-te muito, joga-me a boca fachavor que eu tenho de passar á próxima cena sem qualquer lógica depois deste interlúdio em que fazemos o amor nas moitas.
Só é pena não sabermos porque tudo isto acontece. Não é o pseudo-erotismo gay que irrita, mas sim a total ausência de contexto para a cena existir !
Por outro lado, veados não faltam neste filme também…nos sítios mais inesperados…deve ser surrealismo inteligente concerteza…

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Pelo meio, temos a Flabella do Astérix que entra neste filme para fazer de gaja boa a cantar, gaja boa a ser apalpada por outras gajas boas e gaja boa para tapar vidros e espelhos com fita cola preta em tempo real por várias vezes, cortando e colando fita a fita enquanto olhamos maravilhados para esta treta a acontecer; o que naturalmente será outra metáfora inteligente sobre a negação da beleza ou uma estupidez qualquer. Ou então não…isto sou eu a armar-me.
Duas horas depois percebemos que o filme tem algo a ver com o Louvre pois aparece uma cena em que alguém sai de uma das suas paredes por debaixo de um quadro. Algo me diz que essa cena foi inserida à pressão quando o realizador se lembrou que o museu do Louvre tinha financiado esta -obra de arte- e ele ainda nem sequer tinha colocado nenhuma cena passada no seu interior.
É que o financiamento do Louvre teve por base a produção de obras de arte que tivessem a ver com o próprio museu. Devem ter ficado extasiados de contentamento quando descobriram que a única referência ao local foi o realizador ter mostrado uma parede com um quadro. Bora lá filmar uma parede porque ninguém nota e assim o Louvre entra “na história”. Fascinante. Tanta Arte junta é verdadeiramente sublime.

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E quando percebemos que gastamos tempo precioso da nossa vida a contemplar esta obra de arte, ainda somos brindados com um final magnifico em duas partes. Na primeira o realizador do filme dentro do filme está dentro de um saco de plástico, numa banheira rodeado por porcos abatidos pendurados em ganchos de um talho e uma gaja boa em bikini despeja-lhe concentrado de tomate em cima. Teoricamente a simbolizar sangue, digo eu que também sou iluminado. Depois várias raparigas desnudas dançam e apalpam-se ao seu redor em estilo dança indiana eventualmente simbolizando a deusa Khali com vários braços ou algo assim…(daqui pouco também já posso ir aos festivais extasiar-me)…
A cena muda para mais uma câmera fixa onde se vê um lago de jardim com gente a passar durante alguns minutos, aparece outro veado e o filme rola os créditos finais.

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Isto ultrapassa em muito todo o lixo intelectualoide pretensamente surrealista que já foi inclusivamente produzido cá por Portugal, um país que durante anos foi especialista em produzir “obras” semelhantes a esta maravilha. Aliás , [“Visage”] é tão mau e ridículo que poderia ser perfeitamente mais uma produção portuguesa destinada a mais um daqueles festivais para clubes de amigos onde se perpétua este tipo de cinema para conhecedores gourmet e que habitualmente é também produzido aqui neste meu Portugal à beira mar naufragado.
Em Portugal já filmamos de tudo; desde relva a crescer em tempo real, velhos a contarem pintelhos e até filmes com telas pretas (sim meus amigos do Brasil, Portugal fez um filme onde a tela está preta durante mais de metade da narrativa e os “espectadores” (ou)viam o filme (no escuro) como se fosse um … audio-book. No cinema. Chama-se “Branca de Neve” (a sério); procurem, vão “adorar”…e não o vosso televisor não estará estragado. O écran é mesmo para estar negro o tempo todo)…Como não podia deixar de ser, foi mais um filme do produtor portuga Paulo Branco, especialista em sustentar génios do cinema nacional que gastam dinheiro a fazer “instalações” cá por estas bandas e [“Visage”] não destoaria de todo de uma dessas obras de arte.

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Repito, [“Visage”]  é tão mau que podia perfeitamente ser um filme português !
O problema aqui nem é a total inexistência de uma história, mas sim a subjectividade da narrativa. Atiram-nos com vinhetas aparentemente isoladas (que se esticam por demais no tempo) e nunca há um contexto para as coisas acontecerem. Qualquer cena em tom níilista poderia ser atirada para esta montagem que não se notaria diferença. Estou seriamente convencido que o argumentista e realizador disto terá um grave problema existêncial. Se calhar queria ser realizador em Portugal mas nasceu Chinês !
Supostamente isto é suposto ser sobre as filmagens de uma versão de “Salomé” que está a ser produzida por uma equipa de cinema em França tendo por realizador um tipo Tailandês e portanto a coisa estará cheia de metáforas a condizer que farão paralelo com a obra pretensamente em produção; mas meus amigos…isto simplesmente não resulta.
E não resulta apenas pela inexistência de um contexto para as coisas acontecerem, mas principalmente por causa da aura “Artsy” que emana de cada fotograma desta coisa, como se o importante fosse a criação artística no sentido mais hermético e pessoal e não o filme.
Onde claro, nem sequer faltam as inevitáveis referências literárias que são o próprio equivalente em prosa desta maravilha cinematográfica.
Alguém se esqueceu que o cinema supostamente deveria ser feito para os espectadores e não apenas para contemplar o umbigo do realizador…pensando bem, se calhar este Ming até terá uma costela Portuguesa e não sabe…
Essencialmente esta obra de arte, estaria bem melhor numa daquelas galerias podres de modernas do que numa sala de cinema.

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É que na verdade não é o facto de [“Visage”] ser cinema de autor que enerva. Enerva por ser precisamente por causa de instalações artísticas como esta que o cinema de autor tem o mau nome que tem junto de muito público por cá !
Se eu pela minha parte não suporto cinema americano estilo Michael Bay, X-Men e pastilhas elásticas que tais por serem o exemplo perfeito da comercialidade levada a extremos secantes e previsíveis onde desaparece toda a magia do cinema, também não suporto o seu extremo oposto no que toca a cinema fora do circuito comercial. Esta coisa do cinema de autor para certos génios, ter que parecer obrigatóriamente muito hermético, inteligente e cheio de simbolismo tem um efeito tão mau e desinteressante como Hollywood só produzir pastilhas elásticas previsíveis sem graça.

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Aquela ideia de que um lixo intelectualoide e pretensioso como [“Visage”] será automáticamente um produto superior à pior pastilha elástica Hollywoodiana é precisamente a razão porque coisas como esta ainda continuam a ser produzidas sabe-se lá com que apoios, porque na verdade tão mau é o pior blockbuster gringo quanto a pretensiosa instalação artística seja de que país fôr.
Depois vêm com a história do “surrealismo” como se essa treta fosse a desculpa para tudo e quem não gosta, é porque não atinge o conceito, etc, etc, etc.
O facto de [“Visage”] se colar a Fellini em certas alturas não nos faz abrir a boca maravilhados pela audácia da homenagem; faz ter vontade de partir o écran o tempo todo ! E olhem que eu gosto muito de Fellini. Mais uma vez, isto é mesmo dificil de explicar. Só vendo mesmo.
O facto é que isto não se torna mais inteligente porque mete a martelo referências a tudo o que supostamente será “Arte” conceituadíssima. Acho que até há por aqui um toque de cinema no estilo Ken Russel algures… a atmosfera gélida de muitas cenas pseudo-eróticas tem ali qualquer coisa de cinema -artístico- inglés também…

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Portanto…
Capacidade para “estupefactar” o espectador desprevenido…
CHECK !
Aborrecer de morte até quem já está a dormir…
CHECK !
Irritar como o raio quem ainda consegue estar acordado…
CHECK !
Ser insuportávelmente pretencioso…
CHECK, CHECK , CHECK !

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Vão me perguntar se esta coisa não tem coisas positivas…
Tem sim senhor. O problema disto não é a realização mas sim o próprio conceito. O filme contêm alguns bons momentos esporádicos em termos visuais e a maneira como usa a música está bastante interessante, o que em certas alturas parece que vai fazer o filme descolar para algo realmente surreal e despretensioso.
Infelizmente depois voltamos à realidade…
Se ainda estivermos acordados…ou o televisor estiver intacto.

De qualquer forma como eu não percebo nada disto, aproveito desde já para deixar aqui também um link para uma review de um senhor que parece saber do que fala, caso queiram espreitar outra opinião antes de confirmarem as minhas conclusões finais…

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CLASSIFICAÇÃO

Tão mau que não merece sequer qualquer comentário adicional apenas desprezo por irritar por demais. Definitivamente o pior filme oriental que já me passou pela frente.
Tão mau que parece cinema Português com tudo o que o cinema-de-autor portuga acarreta. [“Visage”] está a esse nível e por vezes ultrapassa-o.
Foi o segundo pior filme de autor que vi nesta onda pseudo-surrealista.
O primeiro prémio continua a ir para um filme português de que um destes dias ainda falarei noutro blog, quando o tentar rever…

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Relembro que este [Visage] está classificado como – COMÉDIA… o que deve ser a única piada ligada ao filme… a não ser que a cena de incesto seja cómica e eu não apanhei o humor da coisa.

ZERO TIGELAS DE NOODLES

A favor: O trailer faz lembrar o melhor de um cruzamento entre uma homenagem a Fellini e o estilo Hong Kar Way na forma como usa a música; banda sonora com canções hipnóticas que dão um certo charme ao filme mas dura pouco.

Contra: Não passa de uma enorme e insuportável instalação artística cinematográfica ao pior nível, a total abstracção e subjectividade das sequências evidencia em demasia o esforço para mostrar o quanto este argumento será inteligente durante o tempo todo, é longo como o raio e parece maior por causa das típicas cenas onde se pode ficar a ver a relva a crescer durante dez minutos sem qualquer razão para isso…metafóricamente falando que eu também me quero armar em iluminado. Tenta ser subversivo e chocar pelo sexo mas depois nunca tem coragem suficiente para ir mais longe e fica a meio caminho entre um erotismo sem nexo e um porno que nunca foi feito, a fragmentação episódica da narrativa é absolutamente enervante, está cheio de diálogos que não servem para nada… a não ser que sejam -arte- e eu não tenha notado…Total desperdício dos excelentes actores franceses que sabe-se lá porque carga de água aceitaram participar nesta estupidez, consta que é uma comédia.

AVISO: Este filme pode prejudicar gravemente a vossa intenção de dar uma oportunidade ao cinema de autor. Não deixem que esta -obra de arte- os impressione, pois há cinema de autor muito divertido e empolgante. Se quiserem dar uma oportunidade ao género recomendo que comecem pelo cinema de Wong Kar Way pois actualmente é uma boa entrada. Ou então espreitem um Fellini dos anos 70 que é sempre bem mais divertido do que esta imitação imbecil e descaracterizada.

Se tiverem mesmo que ver isto, então recomendo que antes para se prepararem psicológicamente espreitem o bastante mais interessante “Goodbye Dragon Inn” do mesmo realizador e que embora não deixe de ser uma seca descomunal, ao menos não tem a aura pretenciosa de [“Visage”].

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NOTAS ADICIONAIS:

Trailer
https://www.youtube.com/watch?v=uQJRR7OxnC8

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Comprar na FNAC portuguesa
http://www.fnac.pt/Face-Visage-sem-especificar/a670634

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1262420

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In-lyu-myeol-mang-bo-go-seo (Doomsday Book) Pil-Sung Yim – Kim Jee-Woon (2012) Coreia do Sul


Aviso, este texto poderá conter pequenos *spoilers*. Se ainda não viram o filme se calhar torna-se bem mais fascinante se o virem primeiro sem saber absolutamente nada sobre o que irão ver e como tal não sei se recomendo que leiam já o que vou escrever a seguir. Não revelo nada de mais, mas se calhar este é um daqueles filmes que é para mergulhar nele sem fazer a miníma ideia do que irão encontrar. Por isso estão por vossa conta. 😉

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Comecei a ver [“Doomsday Book”] da melhor forma. Sem saber nada sobre ele. Pela capa parecia-me algo de ficção científica e portanto não podia deixar de o espreitar.
Comecei a ver [“Doomsday Book”] e ainda nem tinham passado cinco minutos e já eu estava a pensar criar uma nova secção neste blog apenas para WTF filmes. Ou seja, ainda o primeiro episódio presente neste filme ia a meio e eu só pensava, what the fuck ?!! Mais uma vez o cinema da coreia do sul surpreende e quando eu pensava que já tinha visto tudo, dei por mim a não conseguir adivinhar o que iria aparecer a seguir, o que é sempre bom sinal num mundo cheio de histórias mil vezes repetidas. Especialmente quando a primeira história envolve os habituais zombies tresloucados.

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Por outro lado, WTF ?!! É bom sermos originais, mas quando vocês virem o primeiro episódio disto vão perceber, porque razão agora não tenho palavras para o descrever.
[“Doomsday Book”] é aquele tipo de filme que eu normalmente odeio. Ou seja, em pouco mais de 100 minutos temos direito a trés curtas metragens independentes realizadas por várias pessoas (uma delas do mesmo realizador de “The Host“, as outras do realizador de “Hansel & Gretel“) o que é algo que me costuma logo afastar deste tipo de produtos.

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Neste caso, temos três histórias muito diferentes e tenho que dizer que me surpreenderam pela positiva. O cinema oriental não costuma levar muito a sério as suas histórias de ficção-científica e aqui também não é excepção. Na verdade, mais ou menos. Em três histórias que poderiam perfeitamente pertencer a uma boa antologia de contos do género temos direito a duas histórias completamente alucinadas e uma totalmente sci-fi num tom sério bem mais próximo de um bom conto de Philip K.Dick do que própriamente dentro do que se costuma ver pelo cinema oriental.
Temáticamente o  segundo conto está até perto do excelente “Natural City” que para mim é uma espécie de Blade Runner 2 não oficial made in Coreia do Sul e portanto se o assunto da inteligência artificial é algo que gostam de ver abordado no cinema não ficarão desapontados.

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Isto poderia ter desequilibrado [“Doomsday Book”] enquanto filme, mas a verdade é que há aqui algo que funciona bastante bem.
Agora preparem-se para algumas surpresas.
A primeira história é completamente indiscritível. Vocês já viram muitas histórias apocalípticas com zombies mas se calhar nunca viram uma como esta.
O primeiro conto, é ao mesmo tempo hilariante, absolutamente nojento e perturbante. Ah, e é romântico também.

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Eu disse romântico ? Bem, se vocês procuram uma história e amor entre dois zombies esta poderá ser a lovestory que queriam ver. Ou talvez não. Como disse isto é dificil de explicar sem lhes estragar o prazer da descoberta. Se calhar digo-lhes só que se vocês não gostam de carne têm no primeiro episódio a razão para tornar tornar toda a gente vegetariana neste planeta.
A primeira história é essencialmente o típico filme catástrofe sobre um virus que contamina o mundo inteiro e transforma a população em mortos vivos. Mortos vivos que nem por isso abdicam do seu telemóvel, o que dá logo um tom de sátira ao consumismo a esta pequena história inicial, tão intensa quanto repugnante, numa mistura entre amor, podridão, consumismo e comédia tresloucada ao melhor estilo Sul Coreano. Nisto tudo ainda consegue criar uma mini-história de amor ao melhor estilo caótico habitual por aquelas paragens. E mais não digo.

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A segunda história é o coração do filme. Se procuram apenas um pequeno grande filme de FC sem partes parvas ou personagens cartoonescos, podem saltar o primeiro filme de [“Doomsday Book”] e passar logo ao segundo “episódio” que é tudo o que vocês gostariam de ver se procuram uma daquelas histórias de ficção-cientifica dentro da tradição mais tecnológica e hardcore dentro do género. Como disse antes, esta história podia ter sido escrita por Philip K.Dick nos anos 70 ou até mesmo por Arthur C.Clarke pois é bem o género do que eles produziam. Se gostam do trabalho de algum desses escritores vão adorar o segundo conto.

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Esta segunda parte conta a história de um técnico de robots que num futuro próximo onde os robots fazem parte do nosso dia-a-dia, é chamado a um mosteiro budista para confirmar se o robot do templo é ou não a reencarnação de Buda.
A partir daí a história desenrola-se num tom algo gélido e quase clínico que na minha opinião era desnecessário, mas por outro lado lhe dá uma certa atmosfera cyberpunk Kubrikiana a fazer lembrar o ambiente frio dos diálogos com Hal em 2001 Odisseia no Espaço.

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O trailer de [“Doomsday Book”] engana muito bem o espectador. Faz-nos crer que o filme será bem mais ligeiro e divertido do que na realidade qualquer um dos episódios é. O primeiro episódio é algo nojento e doentio, este segundo chega a ser deprimente pela atmosfera fria de toda a história e o terceiro e último episódio parece uma espécie de comédia sem graça.

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De qualquer forma, este segundo conto sobre o robot que pode ser Buda reencarnado é uma história excelente e um daqueles conceitos que já fazia falta ao cinema de ficção-científica que hoje se resume mais a efeitos especiais do que a nos maravilhar com ideias. Neste segundo episódio o fascínio não vem do excelente personagem do robot e dos efeitos especiais mas sim do intenso conteúdo filosófico que envolve toda a discussão sobre o direito de uma máquina a ter um sentimento religioso.

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Em nenhum momento este episódio se torna chato, mesmo apesar do conteúdo filósófico ser bem denso por vezes, embora talvez o personagem do dono da corporação cibernética esteja um bocado á parte no tom geral da história pois achei o seu discurso algo forçado como se o argumentista tentasse criar um manifesto qualquer sobre inteligência artificial e tivesse despejado tudo o que pensa nos discursos exacerbados deste personagem.
De qualquer forma este segundo conto em [“Doomsday Book”] é fantástico. Grande ideia, muito bem executada, excelente atmosfera e com um final bem simples que pode deixar no ar muitos temas para o espectador continuar a discutir muito para além do filme ter acabado.

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Mas o filme não acaba sem passarmos primeiro pela terceira história.
Nela, o mundo também vai acabar porque uma criancinha no seu computador encomenda num site “alienígena(?)” uma bola de snooker numero 8 e esta vem dos confins do universo em entrega especial e em tamanho gigante chocar com a Terra na morada assinalada…

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Eu repito…
O mundo também vai acabar porque uma criancinha no seu computador encomenda num site “alienígena(?)” uma bola de snooker numero 8 e esta vem dos confins do universo numa entrega especial para em tamanho gigante chocar com a Terra na morada assinalada…

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Se eu tinha ficado baralhado com a primeira história mais baralhado fiquei com esta última. Ao ler algumas reviews do filme pela net, consta que isto é suposto ser uma comédia mas sinceramente não lhe achei particularmente graça…a não ser pelo visual com que os personagens ficam depois de passarem 10 anos a viver num bunker debaixo de terra após o apocalipse acontecer…por causa da bola de snooker…
O que dizer disto ? A verdade é que é divertido e bem original.
Este episódio tem uma estrutura muito alucinada mas onde entre falsas emissões e falsos debates televisivos sobre o fim do mundo nunca sobra muito tempo para desenvolver os personagens no tempo que resta e por isso talvez a sua única fraqueza não é a falta de graça (se é que isto era suposto ser para rir), mas sim o fraco desenvolvimento dos personagens, pois a história chega ao seu (ainda mais estranho) final e como espectadores nunca estivemos particularmente cativados por aquelas pessoas.

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Por outro lado, a ideia para a história é muito original e satírica e tudo funciona bem dentro da trilogia de histórias completamente diferentes que compõem [“Doomsday Book”].

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CLASSIFICAÇÃO

Mais um excelente exemplo de como podem ser originais os filmes orientais que nunca chegam aos cinemas desta parte do mundo.
O trailer deste engana, não é o filme em tom ligeiro que parece ser mas são sim trés histórias separadas com uma atmosfera algo doentia (muitos momentos repugnantes no primeiro conto) e até clinica e deprimente em muitas alturas e que o trailer não reproduz de todo por isso estão avisados.
Sci-fi fria e crua mas com muitos momentos de ironia á mistura como só poderia ser feito num cinema daquela parte do mundo.
Mais uma vez a coreia do sul mostra como ainda se pode fazer cinema de ficção-científica bem original e irá agradar a quem procura algo do género longe das formulas comic book infantis que estamos habituados a ver saídos de Hollywood.
Quem gosta de FC deve espreitar isto sem sombra de dúvida. Especialmente quem gosta de LER ficção-científica pois contém trés dos melhores contos do género que vi em muito tempo apesar de algumas fragilidades.
Trés tigelas e meia de noodles porque é bastante bom mas podia ter sido muito melhor se o segundo episódio sobre o robot Buda tivesse sido desenvolvido no filme inteiro. Não foi e é pena.

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A favor: Trés histórias de ficção científica originais que poderiam ser contos de uma boa antologia em livro, apesar de ser caótico por vezes [“Doomsday Book”] é sempre cativante pois nunca sabemos bem o que pode acontecer a seguir, o primeiro episódio é completamente alucinado e até repugnante mas contém personagens de que ficamos a gostar logo em pouco tempo, o segundo conto é o melhor do filme e é uma daquelas histórias de ficção-científica que vale mesmo a pena ver (quem estiver ligado ao Budismo irá adorar certamente), o personagem do robot está fantástico apesar de bem simples, o terceiro conto fecha bem a trilogia de histórias bem originais e apesar de não ser particularmente divertido é no entanto fascinante na mesma por ser imprevisível.

Contra: A segunda história deveria ter sido o filme todo e não durar apenas pouco menos de cinquenta minutos, [“Doomsday Book”] pode ser demasiado caótico e até impróprio para estômagos mais sensíveis por toda a atmosfera repulsiva que envolve o primeiro conto, o terceiro conto pode ser demasiado estranho e não funciona como comédia como supostamente deveria ser.

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NOTAS ADICIONAIS:

Doomsday_Book_01

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=9GGfa0EybCI

Comprar
Existe edição ocidental em blu-ray que poderão encontrar aqui.

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IMDB
http://www.imdb.com/title/tt2297164

Não vou colocar nenhum link para download pois estes nunca tardam em desaparecer e não pretendo deixar que o blog se inunde de broken links como já tenho muitos por aqui. De qualquer forma é só procurarem o filme em Torrents que o encontram facilmente.

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Filmes “semelhantes” de que poderá gostar:

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Hôrudo appu daun (Hold Up Down) Hiroyuki Tanaka (2005) Japão


Não fora a quantidade de piadas com Jesus Cristo presentes nesta divertida comédia japonesa e este [“Hold Up Down“] seria um sério candidato a remake americano.
Assim como está, dúvido que alguma vez vejam esta história em versão Hollywood pois o seu humor blasfemo teria certamente bastantes problemas com muito do público evangélico por terras do Uncle Sam com toda a certeza.

O que quer dizer que também não será própriamente um filme recomendado a pessoas mais religiosas ou que se ofendam facilmente com gags envolvendo o Jota Cê mais popular do planeta.
Quanto a mim contém algum do melhor humor blasfemo dos últimos tempos e só tenho pena que mesmo assim não seja tão ofensivo merecia ter sido, pois havia aqui material para ter sido ainda mais engraçado.

Na verdade apesar de conter algumas das melhores piadas com Jesus Cristo talvez desde “A Vida de Brian” dos Monty Python estas são na verdade até bem inofensivas para minha desilusão, pois muitos dos gags só teriam a ganhar se [“Hold Up Down“] tivesse tido coragem de ser menos politicamente correctos apesar de tudo, embora contenha gags hilariantes quanto baste envolvendo todas as situações inimagináveis com padres, psicopatas, policias malucos, ladrões azarados e Jesus deslizantes…

Este é um daqueles filmes que justifica plenamente a minha intenção original ao criar este blog para divulgar propostas cinematográficas originais daquelas que não se costumam encontrar nas salas com muita frequência; isto porque na verdade não se percebe bem que raio de filme é este.
Começa como sendo uma típica comédia de assaltos; uma espécie de – heist movie – em versão anárquica, estilo Pulp Fiction oriental em esteroídes algo contidos, mas logo entra por territórios completamente inesperados, tanto em estilo de argumento como em visual, o que levará a um par de bons momentos inesperados na segunda metade do filme quando entra por caminhos completamente parvos e totalmente inesperados.
O que torna [“Hold Up Down“] num daqueles titulos que nos agarra a partir do momento em que percebemos que na verdade não estamos a perceber o que raio estamos a ver e por isso precisamos mesmo de continuar a olhar para o ecran. Especialmente quando entra em cena o “Jesus Cristo” estilo picolé sobre rodas…

Mas [“Hold Up Down“] não vive apenas do humor blasfemo. Na verdade desde cedo se percebe que o seu estilo visual vai ser fundamental para que muitos dos gags tenham piada não pelo que se passa mas pela forma como muitas vezes os acontecimentos são filmados.
A sequência incial da esquadra de policia com todos os queixosos é um bom exemplo de como se pega em algo que no papel não passaria de um conjunto de personagens sem grande coisa para fazer e no entanto cria um momento de humor único envolvendo um turista perdido, um cidadão agredido, uma gaja boa vitima de assédio sexual, uma velhinha que perdeu um gato, um psicopata com um bastão e um “Jesus Cristo” assaltado frente a um par de policias totalmente ineptos.

Tudo numa sequência criativa que dura largos minutos em total plano fixo ao melhor estilo cinema-de-autor mas que aqui resulta num gag que essencialmente define o estilo visual que o filme irá tomar na forma como trata o humor da história.
[“Hold Up Down“] é por isso visualmente um filme muito estranho.
Para começar tem uma estrutura completamente imprevisível suportada por uma história daquelas que faz o espectador pensar a todo o instante que sabe o que vai acontecer , para de seguida lhe trocar as voltas  a todo o instante. É este um dos seus grandes trunfos para agarrar o espectador, isto porque se assim não fosse, o filme seria até demasiado estranho para poder ser considerado um comum filme comercial nos moldes a que estamos habituados devido á sua realização estilizada que nos lembra algo… a todo o instante…

Este é o tipo de filme que se tivesse sido produzido em Hollywood a máquina publicitária iria ter bastantes dificuldades em vendê-lo com um rótulo apontado a um target de audiências específico.
[“Hold Up Down“] tem um estilo visual e um ritmo tão estranho que não se enquadra própriamente no que estamos habituados a ver neste estilo de comédias totalmente anárquicas. Tem algumas semelhanças com “Men Suddenly in Black” mas se calhar consegue ir mais longe tanto nos momentos de humor como no próprio conceito.
Mas há mais.

Curiosamente o filme fazia-me lembrar aquele estilo “frio” do cinema de Stanley Kubrick mas em versão tresloucada a todo o instante. Até que percebi o porquê , o que me deixou bem surpreendido por não ter sido apenas impressão minha. E mais não posso dizer pois garanto-vos se conhecerem bem os filmes emblemáticos do realizador de Shinning vão curtir muito o que lhes vai aparecer pela frente na segunda metade da história pois se pensam que piadas com um Jesus Cristo seria o cúmulo da loucura nem imaginam o rumo que esta história toma a partir de certa altura com a sequência do casamento…

[“Hold Up Down“] é um daqueles titulos que valem mesmo a pena ser vistos pelo menos uma vez. Poderão não conseguir entrar fácilmente no seu estilo algo indefinido devido aos vários rumos que o argumento consegue tomar sem perder o fôlego e poderão até nem gostar do filme no final ou até achar-lhe grande piada. No entanto tenho a certeza que ficará na memória precisamente por ser tão diferente ao mesmo tempo que parece uma comédia de assalto típica.

Não procurem qualquer lógica na história. Não é para ter. É um daqueles filmes para curtir mesmo e não é para fazer sentido. Podia ser intitulado – “Mil e uma coisas para fazer com Jesus” – e vai agradar a toda a gente que tiver sentido de humor negro, gostar de filmes com policias, ladrões e … coisas do outro mundo em todos os sentidos.
Pode ser estípido como o raio, mas a ser alguma coisa poderá ser uma espécie de comédia dos Monty Python se alguma vez tivesse sido filmada pelo Stanley Kubrik e escrita pelo Quentin Tarantino, produzida no Japão.
Se estas referências lhes dizem alguma coisa não percam porque vale a pena.
Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

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CLASSIFICAÇÃO:

Uma comédia cheia de momentos inesperados que muitas vezes até nem parece ter grande graça até que nos acerta com mais um gag totalmente inesperado para nos fazer rir á parva.
É um daqueles filmes para deixar o cérebro á porta e simplesmente curtir tudo o que de inesperado acontece nesta história que não tem ponta por onde se lhe pegue mas tem um grande sentido de humor negro de caríz biblico e até kung-fu sobrenatural. Além de ser uma história de policias e ladrões que também gostam de brincar com modelos de comboios e padres que de repente encontram Jesus na sua vida. E também mete um psicopata que ataca pessoas com bastões. E mais coisas inimagináveis…
Um filme bastante original que na verdade nem se consegue enquadrar em qualquer género, pois por vezes até parece cinema-de-autor para logo no momento a seguir se calhar até não.
Divertido quanto baste, inofensivo, braindead e muito criativo na forma como mistura géneros diferentes para um resultado que merece na boa cinco tigelas de noodles e só não leva um Gold Award também porque nem sei…

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A favor: a originalidade da estrutura da história, as piadas com “Jesus”, o inesperado de muitos gags, a realização que alterna entre o Kubrick pastilhado e o Tarantino na ganza, tem um argumento totalmente imprevisível, personagens alucinantes e completamente ilógicos, mistura uma quantidade de géneros num argumento que não tem ponta por onde se lhe pegue e faz tudo resultar num produto bem divertido.
Contra: na verdade não tem nada de negativo…poderá ser demasiado estranho para quem está habituado a um tipo de comédia mais comercial ao estilo ocidental, as piadas religiosas poderiam ter sido muito mais ácidas pois quanto a mim ficaram ainda demasiado politicamente correctas para o que eu gostaria que tivessem sido, a cena de acção com kung-fu parece demasiado longa, é original mas provavelmente não ficará na memória.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
NOTA: Não vejam o trailer antes de verem o filme pois vai quebrar muitas das surpresas visuais que fazem grande parte das piadas resultar pelo seu inesperado quando se vê o filme sem sabermos nada dele.
http://www.youtube.com/watch?v=h4tTAvgcGhs

Comprar
http://www.cdjapan.co.jp/detailview.html?KEY=JABM-8003

Download aqui.

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0461523

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Kamome shokudô (Kamome Diner) Naoko Ogigami (2006) Japão


Para comemorar as 100.000 visitas que este blog atingiu recentemente não poderia ter encontrado melhor titulo oriental do que [“Kamome Diner“] , um curioso e cativante filme japonês rodado na Finlândia e onde não se passa nada durante 90 minutos.

E quando digo que não se passa nada, não se passa mesmo nada.
[“Kamome Diner“]  faz com que “Where the Wind Dwels” e “Goodbye Dragon Inn” pareçam intrigas de espionagem e é um daqueles filmes que logo á partida parece ser o candidato ideal para todos aqueles clichés hilariantes sobre cinema-de-autor. Não será um daqueles filmes sobre relva a crescer porque na realidade, se houvesse relva a crescer nesta história, tanta tensão dramática poderia até provocar ataques de ansiedade no espectador desprevenido.

Há muito tempo que não encontrava pela frente um filme tão desprovido de qualquer drama ou tensão quanto [“Kamome Diner“]. É absolutamente incrivel mas não há nada neste filme daquilo que possa ser considerado parte de uma estrutura habitual tal é a ausência de pormenores na sua narrativa.
Então isto é sobre o quê ? Bem é sobre uma rapariga japonesa que tem restaurante na Finlandia onde ninguém vai e que ao longo do filme conhece umas pessoas que se tornam empregadas ou clientes e no final acabam por transformar o espaço num local acolhedor. Acabou.

Pronto, pelo meio há uns indicios de – desenvolvimentos – mas são tão desprovidos de qualquer carga dramática que deixam o espectador totalmente desorientado, tanto pelo que (não) acontece, como pelas razões porque os…ehm…acontecimentos… (não) acontecem .
Acreditem-me, este deve ser o texto mais dificil que escrevi até hoje aqui no blog, porque na verdade á primeira vista não há nada para dizer sobre [“Kamome Diner“] que seja minimamente informativo.
Spoilers não existem, porque para se poder estragar um filme ao espectador primeiro era preciso que houvesse alguma coisa para revelar sobre a história.

Por outro lado, há muita coisa que se  pode dizer sobre  este vazio…[“Kamome Diner“] é um filme totalmente cativante e não se sabe bem porquê. Cheguei a meio e continuava cheio de vontade de acompanhar … esta história
O filme acabou e continuei sem perceber o que raio é que foi que me passou pela frente; no entanto estranhamente gostei muito do que vi, embora lá para o final já estivesse a olhar para ele em total estado hipnótico e quase á beira de cair para o lado com sono. Poderiam ter assaltado a casa comigo a olhar para a televisão que eu não notaria.

A verdade é que [“Kamome Diner“] é um filme extraordináriamente simpático como há muito não via. A total ausência de dramatismo ou de história torna-se absolutamente cativante e apetece-nos continuar a seguir as vidas daqueles personagens, quanto mais não seja porque ficamos muito curiosos com a direcção que o filme poderá tomar.
Não se iludam, não toma qualquer direcção.
No entanto, não se preocupem porque se conseguirem deixar ideias pré-concebidas de lado e interiorizarem que o grande charme desta história é não ter história nenhuma, muito provavelmente irão gostar tanto deste pequeno filme quanto eu gostei.

Se calhar é cinema-de-autor, se calhar é pretencioso como o raio, mas a verdade é que não se nota. A atmosfera do filme é tão simpática que a certa altura damos connosco a ter vontade de apanhar um bilhete para a Finlândia e ir visitar aquele local onde nunca se passa nada, porque a sua ausência de dramatismo é quase como uma espécie de pausa para descansar da vida diária. Uma espécie de Eden onde se pode fazer uma pausa nas nossas preocupações. Provavelmente será este o tema da história; provavelmente [“Kamome Diner“] será um dos filmes mais filosóficamente simpáticos dos ultimos anos pois não espetando qualquer conceito na nossa cara é tão aberto que qualquer pessoa pode interpretá-lo como quiser e provavelmente será essa a sua magia.

Por outro lado, pode tornar-se surporifero como o raio, por isso também será ideal para aquelas noites de insónia. No entanto essa atmosfera de comprimido para dormir é ao mesmo tempo cativante e se calhar contraditóriamente a mesma irá contribuir para mantê-los acordados. Faz sentido ?…
Não se preocupem, [“Kamome Diner“] também não.
É que o filme é chato como o caraças…mas ao mesmo tempo…não é. Confusos ? Eu também.

O que o filme tem é muito boa onda graças a um grupo de personagens estranhamente vazios mas ao mesmo tempo muito humanos e cativantes (sabe-se lá porquê).
A certa altura parece que irá entrar por um registo parecido ao que encontramos nos livros do fabuloso escritor japonês Haruki Murakami, pois tem momentos surrealistas bem ao estilo do autor. Por outro lado, o seu aparente vazio, também parece decalcado do melhor que se viu noutro pequeno grande filme independente americano e com uma atmosfera semelhante, o fabuloso (e fabulosamente esquecido), “The Station Agent” (em Portugal “A Estação“).

Visualmente, [“Kamome Diner“] é totalmente cativante pelo seu brilho. É um filme muito luminoso, com uma fotografia fantástica e cheio de pequenas imagens muito bonitas que contribuem bastante para a atmosfera contemplativa da história.
A banda sonora quase não se nota, mas também contribui bastante para o ambiente discreto do filme.
O elenco é uma mistura de actores japoneses e finlandeses que aparentemente não têm nada em comum, muito menos parecem ter alguma coisa para fazer no filme, mas que no entanto contribuem totalmente para o carísma da história, pois os personagens são estranhamente apelativos a tal ponto que até os figurantes parecem perfeitamente integrados nos espaços.

Essencialmente é isto o que se pode dizer sobre [“Kamome Diner“].
É um filme muito simpático que vale a pena espreitarem se estiverem á procura de uma proposta diferente.

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CLASSIFICAÇÃO:

Se estiverem á procura de um drama, esqueçam. Se estiverem á procura de uma comédia esqueçam.
No entanto há algo aqui que resulta em termos emocionais e que nos consegue cativar sem sabermos bem porquê.
Será o filme perfeito para quem nunca viu algo mais dentro do cinema-de-autor e quer espreitar um titulo simpático e sem pretenções a filme inteligente. Será também o filme perfeito para uma noite de insónia; no entanto…não é um filme chato…apenas não se passa nada…por outro lado é essa ausência de acontecimentos que o torna cativante e sendo assim já perceberam que até eu estou baralhado.
Essencialmente recomenda-se a quem quiser ver um filme totalmente simpático e muito boa onda sabe-se lá porquê.
Quatro tigleas de noodles pois é estranhamente muito bom e se calhar muito menos vazio do que aparenta á primeira vista, pois no fim de contas é um pequeno grande filme sobre amizade. Sem rodeios, intrigas, ou dramatismos de pacotilha. Um filme sobre amigos apenas e se calhar chega perfeitamente para ser um pequeno grande filme que merece ser descoberto por quem procura algo diferente e não tem receio de um filme calminho. Gostei.

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A favor: a originalidade da estrutura da história, o conceito simples, personagens cativantes, atmosfera luminosa e muito simpática, se calhar será bem menos vazio do que aparenta pois a total ausência de carga dramática acaba por o tornar numa história bem mais humana do que aparenta á primeira vista, é um pequeno grande filme sobre amizade, a ser cinema-de-autor é um titulo muito despretencioso que não assustará quem tem medo do género.
Contra: na verdade não tem nada de negativo…as motivações dos personagens nunca são explicadas, não acontece grande coisa na história mas se calhar é isso que torna o filme tão curioso e especial.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=HHA6PEcM7Gw&feature=youtu.be

Comprar
Muito dificil de ser encontrado nas lojas a um preço decente mas podem comprá-lo no Ebay bem baratinho.

Download aqui com legendas PT/Br

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0483022

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Se gostou, poderá gostar de:
* Na verdade não tenho nada semelhante neste blog*
Talvez gostem de “The Station Agent” um simpático filme independente americano que também recomendo vivamente e que tem algumas semelhanças com este Kamome Diner.

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