“CITY OF LIFE AND DEATH” ( “Nanjing! Nanjing!”) Chan Lu (2010) CHINA


223-city-of-life-and-death_01

“Warning: This film hurts”

Começa assim uma review no IMDb para [“City of Life and Death”] e provavelmente deveria ter sido esta a tagline oficial do filme, pois essencialmente a frase resume tudo.
Não podia ter havido melhor filme para eu regressar aqui ao blog depois de alguns meses de pausa e também para comemorar ter ultrapassado as 400.000 leituras; mas [“City of Life and Death”] está a revelar-se ser uma das reviews mais difíceis de escrever que já coloquei aqui nestes anos todos, pois é realmente um daqueles filmes que tem que ser visto.

223-city-of-life-and-death_44 223-city-of-life-and-death_58

Se espreitarem abaixo a minha classificação final para este título vão encontrar uma nota máxima excedida com mais um Gold Award do que costumo atribuir quando um filme para mim rebenta a escala.
Tenho a certeza que não irão voltar a encontrar uma nota assim por aqui tão cedo pois não me deparo todos os dias com filmes assim.
Na verdade acho que nunca tinha visto nada como isto e já perdi a conta aos dramas sobre guerra que me passaram pela frente. Aliás tendo em conta que isto é um filme de 2010 ainda me pergunto como raio [“City of Life and Death”] me passou completamente ao lado. Só o vi agora porque encontrei o bluray na amazon Uk bem baratinho e resolvi espreitar sem saber nada sobre o filme. Mal sabia eu o que me ia cair em cima.

223-city-of-life-and-death_54 223-city-of-life-and-death_52

[“City of Life and Death”] é para mim o melhor filme que até hoje recomendei neste blog sem qualquer sombra de dúvida. Se eu medir a minha admiração pelo cinema através do impacto que um título me provoca, (seja pela parte técnica, pela história e tudo mais), então este terá sido o filme que mais me marcou talvez nas últimas décadas e não estava nada á espera disto.
Não me lembro da última vez que vi um filme que tivesse transmitido uma empatia tão grande e criado uma tensão tal, a ponto de a meio eu ter que fazer uma pausa para poder respirar e aconteceu agora com [“City of Life and Death”].

223-city-of-life-and-death_09 223-city-of-life-and-death_07

O filme narra os acontecimentos que levaram á devastação da cidade de Nanking em 1937 quando o sul da China foi invadido por tropas Japonesas com intenções expansionistas e é apenas baseado em relatos de sobreviventes, nos diários deixados pelos protagonistas da verdadeira história e na recriação das imagens documentais mais importantes que se conhece dos filmes contrabandeados na época para fora da região por membros do partido Nazi chocados com o massacre que ocorreu. Sim, Nazis chocados com o que viram.
Se nunca ouviram falar no tema, aposto que só com esta, ficaram curiosos.

223-city-of-life-and-death_08 223-city-of-life-and-death_34

[“City of Life and Death”] recria umas boas dezenas de momentos dramáticos e de horror que se sucediam em Nanking quando um par de comandantes Japoneses decidiram exterminar toda a população com requintes de tortura que, dizem os Historiadores nem os próprios Nazis conseguiram igualar; isto porque os Alemães criaram um sistema de extermínio sistematizado enquanto que os Japoneses mataram tudo o que lhes aparecia pela frente sem qualquer critério e com requintes de tortura inimagináveis até para o III Reich na altura.

223-city-of-life-and-death_48 223-city-of-life-and-death_55

Curiosamente a história do massacre de Nanking não é de perto nem de longe tão conhecido como tudo o que envolveu os campos de concentração Alemães, talvez porque a realidade inacreditável do que por lá se passou tenha chegado primeiro aos olhos de Hitler; mas isto são pormenores que recomendo vivamente que se interessem por conhecer vendo pelo os bons documentários que existem sobre o assunto ( e mais um par de filmes de que irei falar em breve também por aqui).

223-city-of-life-and-death_56 223-city-of-life-and-death_46

[“City of Life and Death”] tem a intenção de recriar apenas os relatos dos sobreviventes (vítimas e agressores) concentrando a narrativa num grupo de personagens baseados em pessoas reais sempre que possível embora juntando também alguns testemunhos compostos noutros mais secundários de forma a poder reproduzir o mais fielmente possível visualmente toda a tragédia absolutamente inacreditável que se passou em seis semanas de terror que tenho a certeza fará até muito adepto de cinema de horror se afundar na cadeira quando vir o que foi conseguido neste filme em termos de crueldade. Especialmente se depois compararem algumas das imagens recriadas em [“City of Life and Death”] com as imagens filmadas na altura; isto porque inclusivamente os Japoneses tinham por hábito filmar tudo o que faziam e portanto filme da época para recriar é coisa que nunca faltou. O problema foi mesmo decidir o que incluir no filme.

223-city-of-life-and-death_63 223-city-of-life-and-death_51

Por causa disso [“City of Life and Death”] é uma história com uma narrativa que inicialmente se estranha mas depois já não conseguimos largar. [“City of Life and Death”] é essencialmente contado sempre que possível por imagens, pela recriação dos eventos e só quando mesmo necessário é que os diálogos são usados.
Desenganem-se quem pensar que isto é um qualquer exercício estilístico de cinema de autor armado em inteligente. [“City of Life and Death”] apenas não segue uma estrutura comum para uma história de cinema porque não se quer parecer com uma história de cinema. Muito menos quer ser cinema americano.

223-city-of-life-and-death_24 223-city-of-life-and-death_14

[“City of Life and Death”] quer parecer-se com uma máquina do tempo.
Quer chocar o espectador até à medula.
Não pelo choque gratuito apenas porque sim mas para nos fazer prestar uma atenção diferente daquela que teríamos prestado se estivéssemos apenas a ver um dos bons documentários que há sobre o tema e distanciados no conforto do sofá de algo que aconteceu há mais de meio século.
[“City of Life and Death”] quer quebrar a distância que há entre o espectador e um produto visual.

223-city-of-life-and-death_18 223-city-of-life-and-death_23

[“City of Life and Death”] quis transformar-nos a todos em testemunhas.
Como se tivéssemos viajado no tempo e estivéssemos lá presentes em Nanking quando o Japão cometeu atrocidades que fazem um filme do SAW parecer um conto da Disney, mas sem podermos fazer nada para mudar a história.
Se o cinema é uma máquina do tempo provavelmente [“City of Life and Death”] será uma das mais incríveis viagens que realizou em muitos anos no que toca a colocar o espectador no local do acontecimento.

223-city-of-life-and-death_62 223-city-of-life-and-death_21

E consegue. Nas suas duas horas e meia faz-nos esquecer por completo que estamos a ver cinema. Para começar foi todo filmado a preto e branco com vários níveis de grão e tratamento de imagem dependendo do que pretendia mostrar para de uma forma subliminar criar no espectador todo o tipo de reacções viscerais aquilo que mostra sem pudores.
Depois apesar de ter uma estrutura aparentemente episódica consegue ligar cada personagem de uma forma absolutamente notável o que nos transmite uma perspectiva global sobre tudo o que aconteceu sempre com a intenção de ser o mais fiel aos documentos e testemunhos em que se baseia, mesmo quando usa um par de personagens “fíciticios” para poder condensar os acontecimentos num momento ou dois.

223-city-of-life-and-death_60 223-city-of-life-and-death_33

Talvez por isso [“City of Life and Death”] ao contrário do que muita gente na China esperava e apesar do horror inacreditável que os personagens Japoneses infligem em toda a cidade, estes não são apresentados apenas como monstros. Os Japoneses aqui não são vilões de um filme de guerra ou tortura; [“City of Life and Death”] apresenta os monstros que há na humanidade mas também joga com a humanidade que pode haver num monstro. O que não caiu nada bem, tendo inclusivamente o realizador e família sido alvo de ameaças de morte na China por ter tido a coragem de mostrar todos os personagens como seres humanos e não apenas como heróis ou vilões.
O filme quase que foi impedido de estrear mas foi salvo por um próprio membro do Partido Comunista que o apoiou dentro do Governo.
O filme saiu e segundo li foi um sucesso incrível de bilheteira por todo o lado.
Todo o lado excepto no ocidente claro, pois não foi distribuído por Hollywood, então não existiu claro. Muito menos em Portugal.
Muita gente na China ficou chocada pelo filme mostrar Japoneses com sentimentos quando a ferida Nanking ainda é algo totalmente contemporâneo no país.

MCDCIOF EC127 223-city-of-life-and-death_35

Não só o realizador na China, como os actores Japoneses foram alvo de ameaças de morte. Isto porque no Japão existe ainda hoje em dia uma corrente ultra-nacionalista que venera os assassinos de Nanking como heróis nacionais e semi-deuses e não gostaram nada de ver um filme como [“City of Life and Death”] ser o sucesso que parece ter sido por toda a ásia, excepto no Japão onde continua ainda proibido, porque oficialmente o massacre de Nanking pelos Japoneses nunca aconteceu e inclusivamente está totalmente banido dos livros de história. Nenhum aluno liceal no Japão alguma vez conhecerá de forma oficial o que o seu país fez décadas atrás porque tudo o que se refere a Nanking está simplesmente apagado da memória popular desde á décadas, excepto nos templos que foram eregidos aos comandantes – herois – que foram elevados a estatuto de semi-deuses no Japão apesar de tudo o que se passou.

223-city-of-life-and-death_49 MCDCIOF EC128

[“City of Life and Death”] levou 4 anos a ser filmado e foi uma verdadeira odisseia em termos de produção. Para começar os actores Japoneses que aceitaram participar no projecto tiveram a sua vida complicada , quase ao ponto de terem sido proibidos de sair do país para trabalharem no filme. A coisa só não se complicou mais porque o governo Japonês teve a inteligência de não agitar muito o assunto publicamente para que o tema Nanking não fosse de repente alvo de atenção dos media locais.
Nenhum actor Japonês de topo aceitou participar no filme; uns porque tiveram medo, outros porque foram proibidos de o fazer pelos próprios agentes.
Todos os actores Japoneses em [“City of Life and Death”] eram até este filme sair, actores de segunda linha, principiantes ou figuras televisivas mais ou menos anónimas. O que não se nota, pois as suas prestações são absolutamente geniais.

223-city-of-life-and-death_41 223-city-of-life-and-death_32

Do lado Chinês, [“City of Life and Death”] tem a particularidade de ter contado com 20.000 voluntários que se prontificaram a entrar no filme. Sim, leram bem.
20.000 voluntários entre estudantes universitários e população anónima que quis entrar na produção em homenagem a tudo o que se passou décadas atrás; o que como imaginam deu ao realizador material humano mais que suficiente para encenar cenas de massacres que não lhes irão sair tão cedo da memória.
Quando em [“City of Life and Death”] virem cenas com milhares de pessoas no écran, não são efeitos especiais, nem é CGI.
É simplesmente incrível e assustador quando nos lembramos que [“City of Life and Death”] recria factos reais que podemos depois comparar nos documentários.
Como por exemplo os três dias em que os Japoneses assassinaram 300.000 pessoas de seguida, fuzilando, decapitando, queimando e enterrando vivos todos os soldados Chineses capturados a quando da invasão inicial da cidade.
E isto foi apenas o começo.
O pior veio mesmo depois. Não em número mas em horror.

223-city-of-life-and-death_07 223-city-of-life-and-death_16

Já vi muito cinema pesado, mas acho que nunca tinha visto cenas de violação como [“City of Life and Death”] nos mostra.
Eu pensava que as cenas de violação em “Ensaio sobre a Cegueira” baseado no livro de Saramago eram potentes até ver isto há dois dias.
Eu que sou essencialmente imune a filmes de terror ultra violentos, tive que fazer uma pausa a meio do filme para tentar assimilar o que via e dizer a mim próprio que isto era apenas cinema. Mesmo baseado numa realidade… apenas cinema…

223-city-of-life-and-death_06 223-city-of-life-and-death_15

Sinceramente não sei se muitas espectadoras aguentarão passar do meio de um filme como  [“City of Life and Death”] a partir do momento em que se foca nas cenas de violações com mulheres e crianças. Não é pela forma explícita do que mostra, mas pelo incrível aspecto psicológico do que envolve essas sequências que são tudo menos cenas politicamente correctas e principalmente porque a história vai construíndo subliminarmente o suspense até rebentar de uma forma ainda mais grotesca do que poderiamos estar á espera.
Não posso explicar isto melhor sem estragar o impacto dessa parte da história, mas quero deixar aqui o aviso ao público feminino pois duvido que alguma vez tenham visto algo no contexto em que [“City of Life and Death”] encena todas as incríveis cenas de violação. Não mostra as 20.000 mulheres que a História registou como vítimas mas também não mostra apenas uma ou duas…
Quem se impressione facilmente, avance com cuidado seja de que género for.

223-city-of-life-and-death_02 223-city-of-life-and-death_61

Aliás quase parece mentira mas [“City of Life and Death”] está censurado.
O Governo Chinês até mais do que proibir , pediu ao realizador que não incluísse tudo o que estava nas filmagens originais da época, pois acharam que se o filme fosse demasiado minucioso politicamente ainda hoje em dia a coisa podia dar para o torto.
Por essa razão [“City of Life and Death”] não inclui o duelo de decapitações que dois comandantes Japoneses fizeram durante dois dias onde decapitaram cada um mais de 100 pessoas; homens, mulheres e crianças  para ver quem matava mais Chineses num curto espaço de tempo.
Essas cenas foram filmadas mas não foram incluídas na montagem final.

223-city-of-life-and-death_11 223-city-of-life-and-death_10

E [“City of Life and Death”] também não inclui as partes de violação das mulheres grávidas que depois foram esquartejadas e cujo as barrigas foram abertas para que os bebés fossem retirados e decepados na hora como se fossem carne para um talho pelos soldados Japoneses.
Essas nem sequer foram filmadas, porque o próprio elenco não aguentava.
Mas não pensem que [“City of Life and Death”] é um filme mais suave por não incluir essas partes.
As sequências em que os soldados vagueiam pelas ruas e invadem as casas à procura de sexo constante sem olhar a meios e ao que fazem ás mulheres e crianças , são suficientes para que muita gente desista pura e simplesmente de acompanhar a história até ao final. [“City of Life and Death”] volto a dizer, acredito ser um filme particularmente duro para o público feminino.

223-city-of-life-and-death_37 223-city-of-life-and-death_26

“Warning: This film hurts” – Acreditem que sim.
[“City of Life and Death”] é duro. Tão duro que mais provavelmente irão estar tão chocados com o que testemunham que mal se lembrarão de respirar; quanto mais ainda ter tempo para derramar lágrimas. Não é um daqueles para chorar baba-e-ranho pela simples razão de que para ter vontade de chorar precisamos de estar a respirar em condições…
O filma magoa de formas como eu não me lembro de ter visto… talvez nunca numa produção de cinema. Precisamente porque não se sente como sendo um filme.
A tal ponto que alguns actores tiveram acompanhamento de psiquiatras no set,  durante as filmagens e tudo teve de ser espaçado a intervalos que permitissem uma descompressão para que os intervenientes na produção pudessem respirar o mundo real por momentos. Inclusivamente houve pessoas que desistiram pois não aguentaram e precisaram simplesmente de se afastar definitivamente.

223-city-of-life-and-death_36 223-city-of-life-and-death_38

Mas se [“City of Life and Death”] é algo tão dificil assim, porque razão deve o leitor querer ver este título ?
Para além do que representa em termos históricos todo o acontecimento, [“City of Life and Death”] visualmente é um filme incrível. Até mesmo representando um horror inimaginável consegue estar cheio de imagens lindíssimas do ponto de vista cinematográfico.
Terá talvez a melhor fotografia a preto-e-branco desde Casablanca ou Manhattan , se não for até melhor e um estilo narrativo que torna o filme numa verdadeira experiência emocional interactiva.
Está cheio de personagens inesquecíveis, momentos humanos fabulosos e ainda um par de histórias de amor a sério sem Hollywoodices à mistura. Além disso tem um final que posso dizer aqui sem spoilers, é positivo e portanto não irão sair de [“City of Life and Death”] chocados apenas porque sim. O filme pode ser negro mas tudo aponta para uma luz ao fundo do túnel que irão sentir plenamente satisfatória quando lerem nos créditos finais sobre o que aconteceu a cada uma das pessoas.

Chinese Women Raped and Killed in the Raping of Nanking, China 1937.jpg 223-city-of-life-and-death_40

Irão sair de [“City of Life and Death”] a pensar e irão pensar neste filme e em tudo o que representa por dias e dias a fio. Até porque tendo em conta o que se passa hoje em dia no nosso próprio mundo , isto é tudo menos ficção em muitos aspectos.
Além disso como eu já disse, [“City of Life and Death”] não é um torture-porn de forma alguma. Tudo tem um propósito.
É mil vezes mais assustador do que praticamente tudo o que vocês viram até hoje no suposto cinema de terror gringo sem sombra de dúvida, vão torcer-se todos nas cadeiras mas duvido que consigam tirar os olhos do écran.
Especialmente se já conhecem os documentários ou já leram algo sobre o assunto.

223-city-of-life-and-death_59 223-city-of-life-and-death_57

Está cheio de actores orientais com prestações incríveis, figurantes absolutamente perfeitos e conta ainda com um pequeno grupo de actores ocidentais que interpretam os médicos, jornalistas, diplomatas e pessoal que rodeava o empresário Nazi que no meio de todo o caos acabou por salvar também a vida a mais de 200.000 chineses; embora  [“City of Life and Death”] não seja exactamente sobre este pormenor pois é algo já bastante focado noutras produções mas nem por isso limita as interpretações daquele pequeno grupo de actores com personagens ocidentais simples mas totalmente carismáticos, com destaque para quem interpreta o empresário Nazi – John Rabe.
Quanto a mim [“City of Life and Death”] deveria ser daqueles filmes obrigatórios desde logo nas escolas pois se o cinema tem o poder de influenciar tudo ao seu redor, este é um título para moldar consciências desde cedo; especialmente na era da informação onde anda tanta gente desenformada. É um daqueles filmes que deveriam ser mostrados aos putos, fechar toda a gente numa sala e á chave e só abrir a porta para levar algum desmaiado para o Hospital ou quando o filme acabasse. Tratamento de choque em termos moldar consciências não deve haver melhor que isto.
———————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO

Apesar do que procurei descrever acima [“City of Life and Death”] foi um dos raros filmes que na minha vida me deixou sem palavras. Nem ar.
Por isso é para mim o melhor título oriental que já recomendei neste blog e não poderia ter aparecido filme melhor para eu comemorar aqui as 400.000 visitas de Cinema ao Sol Nascente.

Cinco Tijelas de Noodles + um Gold Award + um Gold Award EXTRA como excepção.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg gold-award.jpggold-award.jpg

Recomendo vivamente que explorem depois , ou até antes os documentários que existem sobre o tema. Estão cheios de imagens que depois verão recriadas no filme o que ainda lhes causará mais impacto.
É que por incrível que pareça, o filme foi alvo de censura e parece que está bastante suave comparado com o que aconteceu na realidade. Na China foi bastante atacado por ter suavizado demais o que se passou realmente.
Links abaixo.
A favor: a fotografia a preto-e-branco é incrível, a realização não podia ser melhor, os actores idem, as cenas de guerra são espectaculares como habitualmente no cinema de guerra oriental, as cenas de horror vão muito para lá de assustar ou impressionar, a escala épica de tudo o que aparece no écran, a quantidade de figurantes, o final positivo, não tem maus nem bons, poderia ter sido um filme-propaganda muito facilmente e nunca entra por aí, a importância do cinema enquanto guardião de uma memória colectiva em filmes como este.

Contra: haverá cínicos por aí e muito homem de barba rija que irá achar que a exposição dos horrores recriados neste filme são apenas manipulação e exploração de emotividade com toda a certeza. Os nerds picuinhas da História irão apontar este ou aquele detalhe que teve de ser comprimido no filme por questões dramáticas embora a crítica especializada tenha sido unânime no que toca à atmosfera geral e á qualidade da recriação histórica de todo o acontecimento.
O Japão continua oficialmente a negar que tais eventos tenham acontecido.
———————————————————————————————————————
NOTAS ADICIONAIS

DOCUMENTÁRIO

TRAILER

COMPRAR DVD – REGIÃO 2 – EDIÇÃO UK
Apenas a 2 libras neste momento (3-11-2016) !!!
dvd

https://www.amazon.co.uk/gp/product/B003S4LEPA/ref=as_li_tl?ie=UTF8&camp=1634&creative=6738&creativeASIN=B003S4LEPA&linkCode=as2&tag=cinaosolnas00-21

 

COMPRAR BLURAY – REGIÃO B (2) – EDIÇÃO UK
bluray

https://www.amazon.co.uk/gp/product/B003S4LEPU/ref=as_li_tl?ie=UTF8&camp=1634&creative=6738&creativeASIN=B003S4LEPU&linkCode=as2&tag=cinaosolnas00-21

IMDb
http://www.imdb.com/title/tt1124052

223-city-of-life-and-death_29

223-city-of-life-and-death_30


Artigo sobre o filme.

http://english.cri.cn/6666/2009/04/21/1461s477172_1.htm

——————————————————————————————————————

Se gostou deste poderá gostar de:

assebly73x100 capinha_brotherhood

——————————————————————————————————————

 

 

 

 

Still the water (Futatsume no mado) Naomi Kawase (2014) Japão/França


Imaginem… … … que… … … … … eu … … … escrevia… … … … … cada … … … … … uma das minhas… … … … … … … … sugestões … … … … … … de … … … … … … … … … … … … cinema … … … … … … … oriental… … … … … … deste … … … blog … assim … … … … desta … … … … … forma … … … … … … onde … … … … … … pau … sa … da … men … t … e… … … … … … descrevia … a … … … … minha … … opini … ão … … … … sobre … … … … os … … filmes … que … … … aqui … apresento… muito… … … … devagarinho…

Pois…

stillthewater01

Não se deixem enganar pela beleza do poster. Isto pode parecer imediatamente apelativo especialmente para quem adora filmes como The Big Blue mas as aparências iludem.
Para começar ainda bem que me apareceu [“Still the Water”] na frente precisamente  a  seguir a eu lhes ter recomendado o excelente “Bread of Happiness“.
Dois filmes japoneses, dois filmes dentro do chamado cinema de autor, dois filmes bem calmos e sem pressa de ir qualquer lado.
Um é bonito, cheio de poesia e deixa-nos a pensar no final. Outro é chato como o raio e pretencioso a um nível que já há muito tempo não encontrava.
Adivinhem qual.

stillthewater07

[“Still the Water”] além de ter um dos trailers mais enganadores dos últimos tempos, teve o condão de me conseguir irritar profundamente e há muito que um filme não me provocava tamanha reacção a um ponto de decidir esperar um dia para descomprimir depois de ter visto tamanha –obra prima– antes de vir aqui falar sobre ela.
Dentro do cinema oriental, a última “obra de génio” que me tinha aparecido pela frente antes tinha sido o inenarrável “Visage“; curiosamente outra co-produção com o ministério da Cultura de França, portanto há por aqui um padrão que se começa a adivinhar no que toca a cinema com pretenções a –instalação artística– inteligente. Nota mental: começar a evitar cinema oriental produzido com dinheiro “cultural” francês…porque provavelmente são os únicos a patrocinar estas … obras …

stillthewater15

O que se pode dizer de uma –obra- que abre com um grande plano de vários minutos em câmera fixa em que se vê um senhor a cortar a garganta a uma cabra com uma navalha de fazer a barba ? E não, não é um efeito especial.
Depois ainda temos o prazer de assistir ao sangramento do bicho para um balde durante um bom bocado, até que depois a “história” avança… para a … história … própriamente … dita.
E querem saber o mais cómico ? [“Still the Water”] Está censurado !!
Deixam-nos assistir por duas vezes à degolação de um animal e ao seu sangramento; (sim aparece novamente a meio … “da história” … porque sim); em grande plano, mas depois [“Still the Water”] censura a sequência final onde os protagonistas nadam nús no oceano , colocando estratégicamente “zonas de névoa” no corpo dos actores para disfarçar as zonas genitais !!

stillthewater11

O que retira logo por completo qualquer suposta atmosfera da sequência, pois é tão evidente aquela censura gráfica que como espectadores nem conseguimos prestar atenção a mais nada.
Portanto, para [“Still the Water”], – degolar cabras com navalhas de barbear – (para efeitos “artísticos” (vou fazer de ti uma estrela, cabra); tudo bem ! Adolescentes a nadarem sem roupa debaixo de água é melhor censurar pois não queremos cá chocar a sensibilidade das audiências.
Ehm ?!!

stillthewater12

E não meus amigos, contrariamente a algumas opiniões extasiadas que poderão encontrar no imdb sobre esta obra que atacam quem detestou o filme, desta vez não se trata aqui da eterna guerra entre o estilo comercial de Hollywood em modo socos e pontapés nas trombas a cem explosões por segundo versus a realização de cinema com qualidade.

stillthewater14

O facto deste [“Still the Water”] estar a ser apontado como uma seca absoluta no que toca à escolha do estilo narrativo, (vão por mim), não tem nada a ver com isso, porque acima de tudo o que irrita não é o ritmo ultra pausado dos diálogos no filme por si só, mas principalmente a extensão dos takes onde se filmam cenas absolutamente vazias; pior ainda, sem qualquer importância para a história principal em sequências de nada absoluto onde parece que alguém se esqueceu de dizer, corta !
E olhem que um dos meus filmes favoritos de todos os tempos é o clássico soviético “Solaris” de Tarkosvky (um dos meus filmes favoritos de ficção-científica); portanto quem sabe do que estou a falar, já perceberam que não ia ser um filme -parado- como agora este vazio absoluto japonês avec dinheiro francês que me iria intimidar.

stillthewater10

[“Still the Water”] tem duas horas mas poderia perfeitamente funcionar como curta metragem. Se isto tivesse menos uma hora muito provavelmente seria um bom titulo.
Na verdade sente-se que há por aqui um bom filme a querer reaparecer à superfície mas as pretenções a “auteur” da realizadora parecem insistir em fazer com que esta história seja forçada a ser obrigatoriamente a instalação artística que não precisava de ter sido de todo.
Há aqui alguns pontos bons. Os actores parecem excelentes, a história poderia ter sido muito bem usada para fazer aquela ligação com a espiritualidade do oceano e a cinematografia é excelente , contando o filme até com algumas imagens particularmente inspiradas. Mas tudo vai literalmente … por agua abaixo.

stillthewater02

E não é pelo ritmo calmo da história ou por ser algo dentro do cinema de autor. Meus amigos, o facto de ser classificado pela crítica inteligente como –cinema de autor– não significa que seja garantia de qualidade, como este título bem prova. Isto é tão mau quando o mais desinspirado filme de porrada do Michael Bay. Se o blockbuster hollywoodesco sem cérebro abusa da velocidade e do vazio absoluto a todos os níveis, uma obra com pretenções a cinema de autor ao nível de [“Still the Water”] tem precisamente o mesmo efeito; apenas em vez de pipocas tem pretenções a obra muito profunda quando é simplesmente um vazio narrativo.

stillthewater04

O filme “Bread of happiness” também tem um ritmo narrativo semelhante, também é uma reflexão profunda sobre a vida, a morte e o sentido de tudo o que nos rodeia, mas nem por um instante atira qualquer coisa à cara do espectador. E também é um filme bem calminho, por isso não me venham dizer que [“Still the Water”] tem sido apontado por ser tão irritante apenas porque as pessoas que o viram apenas queriam ver um filme pipoca nos moldes blockbuster de Hollywood. Desta vez não têm razão.

stillthewater06

O facto de se armar em cinema-de-autor em jeito de contrariar o pior de Hollywood não significa que tenha resultado; [“Still the Water”] é simplesmente mau e acima de tudo torna-se insuportável a límites que testam verdadeiramente a nossa paciência, o que como nem podia deixar de ser culmina num final que se alonga também por demais e totalmente inconsequente para a história que supostamente acabou de ser contada.

stillthewater13

O filme é pretencioso como tudo, está cheio de takes extendidos de conteúdo totalmente irrelevante e como resultado não cria qualquer empatia com o espectador.
Pelo menos, pessoalmente custa-me bastante sentir qualquer emoção pelo que quer que seja quando de vez em quando alguém se lembra de abrir a goela a um bicho em grande plano só porque sim e durante o resto do tempo os … personagens … falam … muito … pausadamente … em … longos … takes … completamente … irrelevantes… numa … história … que … poderia …. ter … resultado … não … fosse … esse … pequeno … detalhe.
E a censura é mesmo irritante. Até a cena romântica de sexo parece decalcada do velho “A Lagoa Azul” na forma como os personagens são enquadrados.

stillthewater05

Ao ver o trailer de [“Still the Water”] fiquei plenamente convencido que isto ia ser o meu tipo de filme. Um dos filmes da minha vida, é o “The Big Blue / Le Grande Bleu” de Luc Besson com Jean Marc Barr e Jean Reno e pelo trailer de [“Still the Water”] parecia que iamos estar na presença de algo semelhante.
Um filme espiritual, sobre a própria vida e morte tendo por base o misticismo do próprio oceano com uma história simples mas de personagens humanos complexos com uma atmosfera muito própria.
Com um trailer assim (e tanta aclamação europeia em Cannes) o que poderia falhar ?
Bem … … …



TUDO !

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Um dos filmes mais irritantes que alguma vez vi dentro do cinema oriental (e não só); ao pior nível de “Visage” ou tão inconsequente quanto “Himalaya: Where the wind dwells“.
Tão pretenciosamente mau, que podia ser na boa Cinema Português.

Não leva zero só porque as cinematografia das cenas debaixo de água é absolutamente fantástica.
Meia tigela de noodles.

noodle2emeia.jpg

A favor: excelente cinematografia, algumas imagens muito atmosféricas ao longo de todo o filme, bom par protagonista.
Contra: o trailer engana por completo (o trailer tem o ambiente e o ritmo narrativo que o filme deveria ter tido mas não tem; não se deixem eganar), a história dramática perde-se pelo meio de tanta pausa narrativa no ritmo dos diálogos, torna-se um filme insuportávelmente irritante e só apetece enfiar um estalo nos personagens a ver se acordam, a violência gráfica com degolações de animais em grande plano é absolutamente inaceitável porque não serve em absoluto para a história e se a ideia era servir de metáfora sobre a inevitabilidade da morte e coisa e tal lamento muito mas é simplesmente estúpido, mostra degolações e sangramentos em grande plano mas depois censura todas as cenas com nudez de uma forma absolutamente inacreditável, o final não serve para nada mas também a história não tem qualquer carísma por isso tudo o que seria supostamente metafórico já se foi há muito antes do filme chegar ao fim, tem duas horas e poderia ter uma hora a menos que certamente só lhe faria bem.

Se procuram por cinema de autor oriental hà muito melhor (e muito menos pretencioso) à escolha até mesmo neste blog: “In the mood for love” ; “2046” ;  “Days of being wild” ; “My Blueberry Nights” ; “The Place Promised on our early days” ; “Goodbye Dragon Inn” ; “Rent a Cat” ; “Bread of hapiness” ; “5 Cm per second” ; “Bedevilled” ; “Citizen Dog” ; “Confessions” ; “Failan” ; “The Floating Landscape”  ; “The Grandmasters” ; “Kamome Dinner” ; “Sweet Rain” ; “Tears of the Black Tiger” ; “Ashes of Eden” ; “All about Lily Chou Chou” ; “Black coal thin ice” ; “The furthest end awaits” ; “A girl at my door” ; “Il Mare”  … por exemplo. 😉

——————————————————————————————————————

TRAILER

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt3230162

——————————————————————————————————————

Se gostou deste poderá gostar de:

capinha_himalaya-where-the-wind-dwels capinha_Visage

——————————————————————————————————————

Cinema_oriental_no_facebook

 

 

Black Coal Thin Ice (Bai ri yan huo) Yi’nan Diao (2014) China


Pensava que era desta que ia aqui escrever uma recomendação para um excelente policial em estilo oriental mas fui enganado. Tudo indicava que [“Black Coal Thin Ice“] ia ser realmente um bom título para um género de que ainda pouco falei por aqui na cinematografia oriental, mas afinal ainda não é desta.
As “iludências aparudem” meus amigos.

black coal thin ice 01

Estou cá com a impressão de que a crítica ocidental que diz maravilhas deste filme só deve ter visto mesmo apenas o trailer e nada mais.
Isto porque tudo o que tem sido escrito sobre [“Black Coal Thin Ice“] em tom exacerbado por alguns críticos iluminados em puro extase de intelectual de café, realmente está absolutamente certo se apenas virmos o trailer.

Tudo no trailer indica que isto vai ser um excelente policial noir sim senhor. O trailer tem mistério, puxa-nos para dentro da história e tem um ritmo que parece perfeito para um filme policial nestes moldes.
Depois vemos o filme e parece que alguém se enganou na montagem.
[“Black Coal Thin Ice“] contém realmente todos os elementos que estão na apresentação, mas este é um caso típico de como uma montagem pode determinar o tom e o estilo de um filme, para bem ou para o mal.

black coal thin ice 05

[“Black Coal Thin Ice“] tinha tudo para ser o thriller intenso, estilizado e emocionante que aparenta ser no trailer, mas na realidade é um filme muito diferente.
É uma pena, mas este filme é um daqueles que até irrita porque o potencial é absolutamente fantástico, a história é boa, o ambiente visual está lá mas depois deita tudo a perder quando entra por um estilo pretencioso nos moldes do pior cinema de autor.
Não que [“Black Coal Thin Ice“] seja chato como o raio, mas sinceramente deveria ter sido o filme que aparenta no trailer e não o filme que na realidade é.

black coal thin ice 03

Estou sinceramente convencido que muita gente deve ter escrito reviews à pressa para entregar ao editor no último minuto apenas tendo olhado para o trailer sem ter visto o filme.
[“Black Coal Thin Ice“] dispensava por completo aquelas pausas narrativas, aqueles enquadramentos longos e momentos contemplativos que parecem durar minutos a fio quando na verdade até só duram alguns segundos.
Não há nada de errado num realizador querer criar um ambiente intimista, criar uma atmosfera desencantada para basear a sua história numa realidade urbana em vez de a filmar numa espécie de versão da realidade num tom cinematográfico habitual, mas sinceramente bastava estabelecer essa premissa num par de cenas só para o espectador perceber onde está e depois deveria ter seguido em frente.

black coal thin ice 18

Em muitos momentos o tom narrativo de [“Black Coal Thin Ice“] parece o equivalente àquela velha piada que nunca mais acaba porque quem a conta repete a história sucessivamente minutos a fio antes da punchline final que deveria ter graça mas que depois perde todo o impacto.
São assim todos os bons momentos que acontecem na história deste título policial.
Quando a narrativa parece que finalmente vai reproduzir o filme que vimos no trailer, o realizador resolve entrar novamente em modo “artístico” e encalhar a montagem com mais uma daquelas pausas contemplativas de qualquer coisa, takes com segundos a mais que perpetuam momentos vazios (e nunca mais ninguém diz – “corta”); ou então inserindo cenas que na verdade não servem absolutamente para nada na história, mas parecem estar lá porque o realizador está mais preocupado em ser considerado – um autor – do que em contar uma história noir pura e simples nos moldes clássicos.

black coal thin ice 02

Há algures um excelente filme noir pelo meio de [“Black Coal Thin Ice“], visualmente é muito atmosférico, baseado numa realidade urbana fria e desencantada e a história no seu todo é muito boa.
A história gira à volta de um crime inicial que depois se ramifica por mais uns quantos e tinha um potencial fantástico para nos surpreender. Começa com o facto misterioso de que vários bocados de um cadáver apareceram ao mesmo tempo em várias regiões distantes da China mas logo se torna numa história mais intimista que leva a conclusões relativamente inesperadas. Tivesse [“Black Coal Thin Ice“] sido realmente o filme que parece ser no trailer, estariamos na presença de um excelente policial noir.

black coal thin ice 09

[“Black Coal Thin Ice“] falha pura e simplesmente porque todo o mistério, mas principalmente todos os twists e revelações da história são completamente diluídos por tantos momentos em modo -cinema de autor- que insistem em fazer com que o impacto da narrativa se perca constantemente.
Quando acontece algo que deveria ser um twist ou uma reviravolta na história, o espectador practicamente nem sente o impacto da revelação ;(nem notamos às vezes) e isso é o pior que para mim pode acontecer naquilo que supostamente seria uma história policial.

black coal thin ice 20

O problema de [“Black Coal Thin Ice“] é que nunca se define se quer ser cinema de entretenimento com uma boa história policial ou um título iluminado no cinema de autor cheio de metáforas pessoais sobre o isolamento, a depressão, vidas vazias, etc, mas num tom algo pretencioso.
Toda essa vertente estraga por completo o que deveria ter sido um excelente policial chinês.
Por um lado continua a ser. Se vocês conseguirem abstrair-se dos tiques -auter- da história e terem presença de espírito para se concentrarem apenas no mistério policial, se calhar irão gostar bastante.
O filme tem um enorme potencial. Mas na verdade são dois filmes colados num só e não resultam como um todo numa análise final.

black coal thin ice 13

Visualmente tem momentos excelentes e é um daqueles títulos que me recordou constantemente  Blade Runner. Estava a ver [“Black Coal Thin Ice“] e a imaginar que se o ambiente disto tivesse uns carros voadores pelo meio e uns edificios épicamente tecnológicos como background nos cenários, este seria uma argumento fantástico para uma espécie de sequela não oficial made in china para Blade Runner.

black coal thin ice 08

Todo o ambiente está cheio de neons, viela escuras contrastando com as luzes da cidade e é um filme essencialmente nocturno cheio de contrastes de cor e jogos de iluminação muito bem pensados. Os personagens parecem também ser absolutamente perfeitos para Blade Runner, o detective desencantado (que não detectiva por aí além), a femme fatale num estilo Rachel mas em tom urbano contemporâneo, um “vilão” que num mundo futuristico poderia muito bem ter sido um excelente replicant e todo um conjunto de referências actuais orientais que o próprio Blade Runner utilizou com uma estética futurista trinta anos atrás.
Até o anti-heroi tem qualquer coisa a fazer lembrar Rick Deckard.

black coal thin ice 22

Por este prisma [“Black Coal Thin Ice“] é um filme fascinante, pois sente-se que poderia ter sido realmente um Blade Runner a todo o instante. Inclusivamente o tom intimista e a história de amor melancólica estão lá também, (só falta Vangelis); apenas tudo leva com um estilo de realização que é por demais pretencioso para que os ingredientes certos resultem como deveriam ter resultado mesmo neste cenário contemporâneo.

black coal thin ice 07

[“Black Coal Thin Ice“] é também um filme algo deprimente. Uma coisa que contribui imenso para isso é a banda sonora clássica por vezes em tom de Adágios sucessivos (algum Richard Strauss), ou então entra pela música pimba chinesa mais atroz. Isto até nem teria sido problemático; o problema é que aliado àquele estilo de realização pretencioso em modo -instalação artística- por vezes, isso ainda contribui mais para que a sua história de mistério se perca por completo.
E o final também não ajuda. O mistério resolve-se mas depois há minutos a mais na conclusão quando o filme fecha assim com mais uma espécie de metáfora visual e que era perfeitamente desnecessária, até porque parece que irá levar a qualquer lado e não leva a lado nenhum. E o filme acaba. The end.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Há por aqui em [“Black Coal Thin Ice“] um excelente filme noir a querer saltar para fora a todo o instante. Precisamente aquele filme noir com que o trailer engana toda a gente mas não existe de todo nesta produção e não é de todo o que aparenta ser se vocês forem pelas críticas entusiasmantes que aparentemente tem recebido por todo o lado.

black coal thin ice 24

Todas as excelentes qualidades que ninguém nega a este título, são no entanto diluídas pela pretenção a cinema extremamente sério num tom de autor que era perfeitamente dispensável, pois neste caso só serviu para colocar em terceiro plano aquilo que deveria ter sido o seu maior atractivo; o argumento. Em [“Black Coal Thin Ice“] filma-se muito para lá do que o argumento pedia para resultar e tudo o que é adicional torna-se pretencioso como o raio e em alguns momentos secante também pois faz com que a história perca todo o impacto.

black coal thin ice 10

Duas tigelas e meia de noodles, porque é um filme extremamente interessante mas nem de perto ou de longe é a obra prima que certa crítica parece ter visto neste título. E podia ter sido.
Quanto a mim os críticos só viram o trailer mesmo. Esse sim, contém o filme que isto deveria ter sido e que aparenta ser nas reviews ocidentais.

noodle2.jpg noodle2.jpg 

A favor: a história é boa, o ambiente visual é excelente, boa fotografia, bons actores e bons personagens, o trailer é fantástico.
Contra: não se deixem enganar pelo trailer, tem cenas que se alongam por demais, o tom de cinema de autor torna-se pretencioso e é totalmente dispensável num titulo que não pedia mais do que ser aquilo que parecia ser quando vemos o trailer mas não é.

——————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

TRAILER

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt3469910

——————————————————————————————————————

Filmes semelhantes de que poderá gostar:

capinha_breaking-news

——————————————————————————————————————

Cinema_oriental_no_facebook

 

 

 

Rent a Cat (Rentaneko) Naoko Ogigami (2012) Japão


Este [“Rent a Cat”] é mais um daqueles sérios candidatos a “-WTF Movie-” do ano, designação que por si só merece ser um sub-género único dentro do cinema oriental.

Retaneko 19

Ou seja, estamos mais uma vez na presença de um daqueles filmes inclassificáveis. Daqueles que só apetece gritar WTF !!!
Na verdade um “-WTF Movie-“ não quer necessáriamente dizer que seja um mau filme.
Por um lado pode ser verdadeiramente atroz como por exemplo, “Visage(provavelmente o pior e mais pretencioso filme (oriental) que alguma vez vi e o único que levou -zero- tigelas de noodles neste blog) que recomendo vivamente que não tentem sequer ver.
Por outro, pode ser uma surpresa agradável como por exemplo “Kamome Diner“, que apesar de ser um verdadeiro título -indie- também com vários momentos -WTF, é no entanto um filme muito simpático, cheio de personalidade, que se vê agradavelmente e fica na memória como algo muito diferente mas com substância. A mesma coisa não se pode dizer de “Visage”...

Retaneko 21

Se refiro agora “Kamome Diner“, é porque [“Rent a Cat”] é mais um pequeno filme independente da mesma realizadora, contando inclusivamente com a mesma actriz principal como protagonista, que segundo sei já se tornou uma espécie de musa do cinema independente, pois conta com uma beleza estranha e diferente da que estamos habituados a ver na tradicional história romântica e segundo esses moldes tem-se encaixado bastante bem no outro cinema mais indie, estando a ganhar excelente reputação.

Retaneko 06

E sim, [“Rent a Cat”] é outro -WTF Movie- sim senhor, porque eu passei o filme todo a tentar perceber o que estava a ver e a murmurar para mim – wtf ?!
Não que a história seja particularmente dificil de se entender, mas o objectivo do que estava a ver…na verdade deixou-me baralhado por completo.

Retaneko 08

Baralhado e aborrecido de morte. Eu não costumo ser daqueles tipos alérgicos a cinema de autor mas há titulos que me custa muito conseguir ver do princípio ao fim e este surpreendentemente foi mais um desses. Curiosamente “Kamome Diner” não foi tão dificil de ver quanto [“Rent a Cat”], pois este agora foi um daqueles raros filmes que eu tive que ver em duas vezes, pois da primeira não consegui passar do meio. Mais por estar irritado do que por aborrecimento. Chegou a uma altura que eu disse, chega desta “#$%& !!!

Retaneko 11

Agora, aviso já que esta review vai parecer totalmente esquizofrénica e muito do que eu disser se calhar não irá fazer sentido, mas não se preocupem pois será o exemplo perfeito daquilo que [“Rent a Cat”] é enquanto um daqueles filmes que apanha as pessoas desprevenidas e lhes dá a volta ao cérebro.
O cinema oriental, parece desde há muito ter inventado um novo género, vulgarmente denominado nas reviews por –“dramady”. Ou seja, tanto o Japão como a Coreia do Sul parecem ser prolíferos em produzir um estranho tipo de filme que não se encaixa em género nenhum e anda ali entre a comédia (mas não tem graça) e o drama (mas também não é dramático).

Retaneko 18

[“Rent a Cat”] é precisamente um “dramady” absolutamente exemplar. Aliás, enquanto “dramady” é capaz de ser possivelmente um dos melhores saídos do cinema indie japonês nos últimos anos.
Então porque o achei tão difícil de ver ? É simples, o filme irritou-me como o raio !
Aquela personagem principal é de arrancar os cabelos e atirar coisas ao televisor a todo o instante. Porta-se de forma absolutamente incompreensível o tempo todo e ainda por cima tem o hábito de andar a gritar “rentaneko” (alugue um gato) pela cidade com um megafone durante o filme todo de forma absolutamente enervante.

Retaneko 20

[“Rent a Cat”] conta a história de uma rapariga de trinta e poucos anos que vive sózinha com dezenas de gatos em luto permanente pela sua avó que morreu há anos e que percorre as margens do rio da cidade com um carrinho cheio de bichanos que tenta alugar às pessoas que passam. Naturalmente é considerada por toda a gente como a louca da cidade mas ela parece nem notar, pois o seu objectivo é nobre.

Retaneko 03

Ela pretende alugar um gato a cada pessoa que estiver solitária, pois segundo ela a companhia de um gato é o melhor remédio para a solidão e portanto percorre as ruas tentando mitigar o sofrimento das pessoas com que se cruza, alugando-lhes gatos de companhia.
Vive sózinha, è absolutamente incapaz de se relacionar com as pessoas em redor, mas tem o sonho de um dia se casar e ir passar a lua de mel no Havai e todo o filme gira à volta desta dinâmica sem no entanto se passar nada na história por aí além ou que leve a qualquer resolução final.
Isto é suposto ser a parte dramática.

Retaneko 13

A parte “cómica” vem pelo personagem da sua vizinha bisbilhoteira (por qualquer razão um actor em dragg vestido de mulher) e que está sempre a atirar-lhe bocas em como a miuda é uma falhada, feia, banal, etc. Essa é suposto ser a parte para rir, o que me deixa um bocado estupefacto, pois não só a caracterização do personagem é também particularmente irritante como o seu papel se repete constantemente ao longo da história desaparecendo logo a seguir.

Retaneko 24

Aliás a repetição é ao mesmo tempo aquilo que torna o filme dificil de se seguir e aquilo que em última análise lhe dá uma identidade muito particular.
Neste campo, destaque para a longa sequência de um sonho, onde a protagonista sonha que vai a uma agência de rent-a-cat para alugar um gato, onde ocorre um longo e pausado diálogo com a empregada que lá trabalha e que nunca viu entrar um cliente na loja antes. Essa sequência é depois repetida ao pormenor minutos depois quando já no mundo real a protagonista descobre que a loja existe mesmo mas em vez se ser uma rent-a-cat é na verdade uma rent-a-car; embora depois toda a sequência que se segue aconteça tal como no ocorreu no sonho, mas onde os diálogos que envolviam gatos, agora são sobre o aluguer de carros. Confusos ? Eu também.

Retaneko 05

Na verdade é óbvio que [“Rent a Cat”] pretende ser uma história sobre a solidão nas grandes cidades. Todos os personagens que a rapariga encontra refletem precisamente isso. Desde a velhota que mora sózinha porque o filho já adulto saiu de casa há muito, até ao homem de negócios que vive num apartamento vazio porque o trabalho o obriga a ficar longe da familia passando pela rapariga que trabalha na rent-a-car e nunca viu entrar um cliente na loja, é óbvio que o filme pretende reflectir sobre a solidão de uma forma ligeira e divertida (?).

Retaneko 01

A protagonista é a principal metáfora para tudo o que a rodeia, pois ela aluga gatos a pessoas sózinhas quando ela própria vive rodeada de gatos mas nunca consegue encontrar o conforto que ela julga poder dar a quem leva um dos seus gatos para casa.
O problema em [“Rent a Cat”] é que parece que se passa num universo onde só existem pessoas excêntricas e por demais irritantes. Se a intenção foi produzir uma qualquer metáfora visual sobre a alienação da sociedade em geral e coisa e tal, tudo bem, mas… será que não havia maneira de meterem um personagem neste filme que não fosse absolutamente enervante a níveis estratosféricos de ridiculo ?!

Retaneko 15

É que a protagonista parece ter consciência de que a sua excentricidade é aquilo que lhe impede de encontrar companhia mas depois em nenhum momento faz qualquer coisa para tentar mudar de vida e ter mais chances de encontrar alguém que lhe mitigue a solidão.
Ainda por cima nem os gatos são particularmente fofinhos (ou têm qualquer destaque) , o que é a pior coisa que poderia acontecer num filme que supostamente é sobre a empatia que podemos criar com um gato.
E eu adoro gatos.

Retaneko 23

Em termos de dinâmica, não acontece nada no filme durante duas horas. A história passa episódicamente por vários personagens solitários que alugam um gato, passa pela própria excentricidade da protagonista e quando finalmente até parece que vai conseguir criar alguma empatia com o espectador apresentando algo mais normal como uma possível perspectiva de um relacionamento amoroso entre a protagonista e um velho colega de escola, também esse personagem é tão enervante (e grunho) que percebemos logo que não irá servir para nada na história.

Retaneko 02

O que não quer dizer que isto não traga originalidade ao filme. Tal como em “Kamome Diner” da mesma realizadora, também aqui é dificil classificar este filme. Por um lado é irritante como o raio, mesmo concordando que é um estudo sobre a solidão e tem o seu quê de original. Por outro lado, não é um daqueles filmes de autor pretenciosos. Muito pelo contrário, o que só lhe fica bem. Tem até um certo charme que não nos deixa esquecê-lo facilmente.

Retaneko 17

Visualmente é muito bonito e incrivelmente detalhado; em particular no que toca aos cenários típicamente japoneses, como o do interior da casa da rapariga, as roupas que enverga e principalmente as cores. Em termos de paleta de cor [“Rent a Cat”] é um espectáculo  se calhar não se nota logo porque estamos a tentar perceber o que raio estamos a ver.
Excelente fotografia, bons actores sem sombra de dúvida e a realização é definitivamente um estilo adquirido que já é uma marca desta realizadora, goste-se ou não do trabalho dela. É um filme eficaz dentro do género e muito bem feito.

Retaneko 12

Não é o tom lento que me chateia no filme, mas em última análise os personagens e a sua (falta de) motivação; os diálogos excêntricos e por vezes histéricos durante toda a história quanto a mim separa-nos daquele universo, pois é tão estranho e sem lógica quando comparado com a nossa realidade do dia a dia que quanto a mim é muito dificil criarmos uma verdadeira empatia com o que vemos. Por outro lado, reconheço qual a intenção por detrás desta abordagem, mas sinceramente isso não faz com que o filme seja menos irritante de se ver.
Ao mesmo tempo, é o facto de ser tão irritante, (e deprimente em alguns momentos) que lhe dá uma aura muito especial. Estou baralhado. Gostei e achei o filme insuportável ao mesmo tempo.

Retaneko 07

Pode parecer estranho, mas até eu não tenho dúvidas que este vai ser um daqueles títulos que irei começar a gostar bastante dele gradualmente e se calhar daqui a um par de anos refaço a classificação que lhe vou dar agora e dou-lhe mais uns pontos.
É que o raio do filme custou-me mesmo a ver até ao fim, mas o facto é que este não me sai da cabeça há vários dias e deixou-me uma quantidade enorme de imagens (e ambientes) bem marcados no pensamento. Por isso se calhar até gostei mais dele do que admito, para além da profunda irritação que a personagem principal e todos os “malucos” desta história me causaram.

Retaneko 16

[“Rent a Cat”] estranhamente, ou talvez não está a tornar-se aos poucos um filme de culto junto de muitas pessoas e curiosamente até está bem cotado no imdb o que não é muito comum com cinema de autor nestes moldes. No entanto a ideia principal de [“Rent a Cat”] parece ter tocado o coração de muita gente que se calhar se identificou com a imagem muito forte que este filme transmite sobre a solidão nas grandes cidades; ao ponto de estarem a começar a surgir pessoas que abriram de verdade um negócio de -alugar gatos- precisamente inspirados pela heroina deste filme. Podem ler sobre um destes exemplos da vida real inspirados por [“Rent a Cat”] se clicarem aqui. E não é único.

Retaneko

Actualmente podem espreitar [“Rent a Cat”] facilmente no youtube na sua versão integral. Inclusivamente conta com um excelente cópia a 720p, legendada em inglés e portanto só por isto já vale a pena irem ver este filme para me dizerem o que acham e de que forma os atingiu também.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Tal como em “Kamome Diner” da mesma realizadora, se estiverem á procura de um drama, esqueçam. Se estiverem á procura de uma comédia esqueçam.

Retaneko 10

É mais uma vez uma história original com o seu mérito próprio e que pelo que tenho visto pelas reviews espalhadas pela net irá atingir as pessoas de várias maneiras. Pessoalmente achei-o insuportávelmente irritante mas ao mesmo tempo extremamente cativante e um daqueles títulos que ficam no pensamento. Por isso se calhar é bom.
Três tigelas de noodles para já, mas se calhar no futuro irá ganhar mais.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg

A favor: o conceito e a ideia geral da história, a atmosfera visual, a actriz principal, o design, a fotografia.
Contra: não vai a lado nenhum para além de ser um estudo sobre a solidão, as motivações dos personagens são por demais excêntricas, a protagonista é totalmente enervante, alguns diálogos são insuportáveis e irritantes como o raio, pode ser incrivelmente chato porque não nos identificamos com os personagens mesmo quando nos indentificamos com o seu vazio, os gatos não têm qualquer carísma o que é o pior que podia acontecer num filme supostamente sobre gatos também…

——————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

TRAILER

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt2246953

FILME COMPLETO
No Youtube – Legendado em Inglés.

 

Rent a cat (de verdade)
http://www.themoscowtimes.com/business/article/rent-a-cat-service-comes-to-kiev/487892.html

——————————————————————————————————————

Filmes de autor “semelhantes”

capinha_all-about-lily-chou-chou capinha_godbye_dragon_inn capinha_kamome_diner

——————————————————————————————————————

Cinema_oriental_no_facebook

 

5 Centimeters per second – (O Manga / Banda Desenhada – Romance / Livro original) – Versão integral – (Japão) – Makoto Shinkai / Yukiko Seike


[“5 Centimeters per second”] será não só o meu anime favorito de todos os tempos como principalmente uma das melhores histórias românticas que alguma vez encontrei no cinema oriental, senão talvez até a melhor, ou pelo menos a que me mais me marcou (a par com “Be with You”, “Il Mare” e mais umas quantas). É também considerado umas das histórias de amor orientais mais tristes de todos os tempos (no bom sentido) e quem gosta dele sabe bem porquê. Se não sabem basta irem ao Youtube espreitar as centenas de comentários de pessoas de todas as idades que se identificaram com esta pequena grande história.

Manga - Makoto Shinkai

Entrei muito tarde no cinema de animação de Makoto Shinkai. Há anos que ouvia falar maravilhas daquele jovem realizador que tinha revolucionado a forma de fazer animação por trabalhar essencialmente de forma caseira, inicialmente sózinho no seu quarto, depois sem estúdio, em apartamentos alugados com uma pequena equipa de amigos que se desfaz a seguir a cada filme e um sem número de particularidades que pela qualidade final de cada obra mal custa a crer que tenha sido produzida dessa maneira. Pela sua obra ser essencialmente marcada por produção “caseira”; desde o verdadeiramente amador “Voices of a distant star“, feito por Shinkai completamente sozinho durante meses a trabalhar no seu quarto, até ao mais recente “Garden of Words”, o facto dos seus filmes costumarem ter curta duração sempre me afastou da compra dos dvds durante muito tempo pois apesar das reviews excelentes, custava-me dar dinheiro por 45/50 minutos de filme em média e na altura raramente se conseguia arranjar cópias em condições na internet para espreitar primeiro. No entanto a partir do momento em que arrisquei a primeira compra e vi “Voices of a distant star” fiquei estupefacto com a qualidade do trabalho de Makoto Shinkai e nunca mais parei de seguir todo o seu trabalho subsequente, tal como “The Place Promised on Our Early Days”, “Journey to Agartha” e mais recentemente “Garden of Words” (com review para breve).

MANG3081 Inlay

De todo o trabalho de Makoto Shinkai aquele que mais me marcou foi sem sombra de dúvida [“5 Centimeters per second”]; 50 minutos de verdadeira poesia visual com uma história romântica que hoje em dia é das mais populares de sempre dentro do cinema oriental, principalmente pelo seu final devastador que se tornou comentado em todo o lado pelo murro no estômago que os segundos finais provocaram e ainda provoca nos espectadores. Principalmente pela sua simplicidade. Se procurarem nos foruns de discussão ainda hoje muita gente especula sobre o destino dos personagens, o que terá acontecido depois e tudo o mais que possam imaginar de interpretações pessoais para esta história que cada espectador vive à sua maneira.

5cm_per_second_09

Não que [“5 Centimeters per second”] seja propriamente uma história abstracta, mas na verdade o final teve tanto impacto na audiência, que muita gente parece ainda querer encontrar novas pistas para um desenlace final que todos gostaríamos de ver para aquela história de amor animada mas que se existisse hoje não estariamos aqui a falar dela. Ora acontece que curiosamente existem algumas pistas espalhadas visualmente ao longo do filme que não se notam a uma primeira visão (se nunca tiverem lido o Manga) e que podem realmente ser interpretadas de uma forma que eventualmente nem estará particularmente longe da verdade. Quero dizer com isto, que [“5 Centimeters per second”] tem realmente mais história para contar do que aquela que apareceu “filmada” em 50 minutos por Makoto Shinkai no filme original.

5cm_per_second_36

E tem história para contar não em filme, ou em qualquer extra do dvd, mas sim no argumento original que acabou sendo reduzido na versão de cinema mas que se transformou há pouco tempo numa banda desenhada Manga e num respeitável volume com mais de 500 páginas, tal como se fosse um comum romance de prosa. E é precisamente esse Manga que eu venho aqui agora recomendar.

5-centimeters-per-second-l0

O Manga, de [“5 Centimeters per second”] conta muito mais detalhes sobre a vida dos personagens e quem adorou o filme vai ficar fascinado com as histórias paralelas e com as motivações por detrás do que foi mostrado sobre cada história no filme original.

5-centimeters-per-second-2509879

O Manga é essencialmente o romance completo e percebe-se que muito provavelmente seria demasiado detalhado para funcionar como filme. Certamente se este argumento tivesse sido adaptado ao cinema de forma integral o impacto emocional do momento chave da história na versão animada, iria ficar um pouco diluído pois aqui na versão integral há tempo para se ficar a saber um pouco mais sobre os destinos dos personagens e até para introduzir personagens novos que acabam por justificar muito do que já se tinha visto no filme e que levou tanto fan a especular durante tanto tempo pela internet fora.

5-centimeters-per-second-2509921

O Manga é de compra e leitura obrigatória para toda a gente que adorou a versão de cinema já editada em dvd há alguns anos e à venda na amazon Uk. Tal como o filme “Be With You” ganha outra dimensão quando se lê o livro original (apenas) só depois de vermos o filme, também aqui em [“5 Centimeters per second”], a leitura do romance em forma de banda-desenhada dá uma nova perspectiva a toda aquela história que os fans bem conhecem. Não só reproduz todos os melhores momentos do filme, onde não falta um suspense gráfico que resulta plenamente até mesmo em Manga, como com mais de 500 páginas ainda tem tempo para desenvolver e responder a muitas das interrogações e especulações dos fans.

5-centimeters-per-second-2199745

Conta obviamente com o mesmo final demolidor do filme, mas aqui em Manga acaba por não ter tanto impacto por um simples motivo. O livro não termina nesse momento ao contrário do filme e mesmo subjectivamente dá-nos um segundo final para especular quando de repente inesperadamente se conclui a parte central da história… ou talvez não.

5-centimeters-per-second-2509919

Como todos os fans do filme original sabem, [“5 Centimeters per second”] tem 3 partes e essencialmente duas histórias de amor; sendo a segunda aquela que é considerada por muita gente a parte vazia da história. Ora bem, no Manga essa parte já tem uma razão de existir e esse segundo segmento de repente parece fazer outro sentido. Por outro lado, percebe-se perfeitamente que o segundo segmento no filme nunca poderia ser “concluído” pois esse epílogo iria retirar todo o fabuloso impacto emocional que encontramos na versão para cinema.

5-centimeters-per-second-2464851

Sendo assim, o que mais dizer. Se gostam do filme [“5 Centimeters per second”] este Manga é de compra totalmente obrigatória. É no entanto um livro para adultos. Não no sentido erótico, mas no sentido emocional. Este Manga não é a típica história de aventura para adolescentes mas sim um romance sólido e adulto bem pensado enquanto história de amor para um publico mais crescido e que não fica nada a perder em relação a muitos conceituados livros em prosa.

5-centimeters-per-second-2487015

O Manga é escrito por Makoto Shinkai mas não é desenhado por ele. Isto talvez porque o próprio realizador já disse que não gosta nada de desenhar bonecos e o que lhe move artisticamente é desenhar paisagens e ambientes (o que se nota perfeitamente no seu cinema) por isso deixa a bonecada humana para um dos seus colaboradores. Ao contrário do filme este Manga depende totalmente dos personagens e não dos ambientes e portanto é perfeitamente natural que a história tenha sido apenas escrita por Shinkai e não desenhada por ele na sua versão em banda desenhada. O livro é desenhado por Yukiko Seike mas todo o espírito de Makoto Shinkai está perfeitamente retratado principalmente pela poesia da própria escrita do autor.

5-centimeters-per-second-2486951

A diferença entre o livro e o filme está nos pormenores extra sobre cada história de amor, no final adicional e no facto do filme falar sobre emoções através dos ambientes visuais magistralmente desenhados e pintados por Makoto Shinkai enquanto o livro vai buscar a sua força á expressividade dos personagens.

—————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO Se gostam de [“5 Centimeters per second”] vocês sabem que têm mesmo que comprar este Manga. Não vale a pena resistirem porque vão adorar.

5-centimeters-per-second-2187365

Cinco tigelas de noodles e um Golden Award porque esta é daquelas histórias que rebenta qualquer escala seja de que forma for apresentada.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg gold-award.jpg

a favor: tem a resposta para quase tudo o que sempre quiseram saber sobre o que ficou por dizer no filme original, graficamente tem uma estrutura fantástica e consegue surpreendentemente manter suspense romântico até mesmo para quem já conhece o filme de trás para a frente, a humanização dos personagens mais uma vez é do melhor como em todos os trabalhos de Makoto Shinkai e toda a escrita é verdadeiramente poética. Tem mais de 500 páginas excelentemente ilustradas e com uma narrativa visual brilhante na forma como consegue retratar emoções.

contra: o impacto emocional do final cinematográfico é diluído por ainda existir um novo final a seguir a esse, o novo final também poderá ser demasiado subjectivo para muita gente, (inclusivamente já gerou muita discussão sobre o que significa na internet). O impacto visual é menor em relação ao filme, pois o Manga é a preto e branco e a história não assenta emocionalmente nos ambientes ao contrário do que acontece no filme. Não que seja algo verdadeiramente mau, pelo contrário, mas Manga e filme são realmente dois produtos diferentes.

—————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

COMPREM-NA AQUI EM ESPANHOL
https://www.amazon.es/Cm-Por-Segundo-Makoto-Shinkai/dp/8416476454/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1479487364&sr=8-1&keywords=5cm+por+segundo

COMPREM-NA AQUI EM INGLÉS
https://www.amazon.co.uk/gp/product/1932234969/ref=as_li_tl?ie=UTF8&camp=1634&creative=6738&creativeASIN=1932234969&linkCode=as2&tag=cinaosolnas00-21

A minha review do filme original
https://cinemasiatico.wordpress.com/2014/05/11/5-centimeters-per-second-byosoku-5-senchimetoru-makoto-shinkai-2007-japao/

A minha review alternativa no meu blog sobre Cinema de Culto
https://universosesquecidos.wordpress.com/2016/11/18/5-centimeters-per-second-byosoku-5-senchimetoru-makoto-shinkai-2007-japao/

5-centimeters-per-second-2199747

Trailer https://www.youtube.com/watch?v=wdM7athAem0

Clip Contém *Spoilers* Por outro lado, se não viram o filme, também não irão notar. E mesmo que notem, eu até lhes podia contar o final em detalhe que não lhes estragaria a beleza do filme. Estão por vossa conta. 😉

https://www.youtube.com/watch?v=FJmvvZk4C1A
com legendas
https://www.youtube.com/watch?v=egCHrY_gHGg

81F+hDip9RL._SL1500_

Comprar dvd na amazon UK
https://www.amazon.co.uk/gp/product/B0037B2WP0/ref=as_li_tl?ie=UTF8&camp=1634&creative=6738&creativeASIN=B0037B2WP0&linkCode=as2&tag=cinaosolnas00-21

O filme também está disponível numa copia legendada no youtube, mas não recomendo que o vejam assim. Este filme pede mesmo um bom ecran e principalmente um bom sistema de som pois muita da sua emoção vem da forma como usa a música. Não vejam o filme num simples ecran de computador.

——————————————————————————————————————

Se gostar deste vai gostar certamente de:

capinha_voices-of-a-distant-star capinha-the_place_prmised_in_early days capinha_agartha ——————————————————————————————————————

FB