CINEMAsiatico.wordpress.com

11 A.M. (Yeolhansi) Hyun-seok Kim (2013) Coreia do Sul

3 comentários


Agora que Blade Runner vai ter mesmo uma sequela oficial produzida por Ridley Scott prevista para estrear em 2017, se calhar começo esta review por dizer que o melhor que todos os fãs de Blade Runner (que gostem de cinema oriental) podem fazer, (se ainda não o fizeram), é ver o excelente “Natural City” produzido há alguns anos na Coreia do Sul.

natural1_300x.jpg

Se alguma vez imaginaram como seria um bom Blade Runner de sabor oriental, se alguma vez desejaram encontrar um universo cinematográfico semelhante ao do Blade Runner original mas que não fosse estragado por qualquer tentativa de remake americano, recomendo vivamente que não percam “a versão” Sul Coreana, até para depois poderem comparar.
Por esta altura vocês já devem estar a pensar que se enganaram na review. Não estão enganados, este texto agora é mesmo sobre [“11 A.M.” (Yeolhansi)], mais um raro título de ficção científica Sul Coreano pois história do género parecem continuar a aparecer a conta-gotas na filmografia daquela parte do mundo, sabe-se lá porquê.

11 A.M._01

Continuo a achar fascinante que do oriente saiam regularmente um sem fim de bons épicos históricos, excelentes histórias de amor, óptimo cinema de terror, algumas comédias originais e até um bom numero de filmes de aventuras e de fantasia, mas no que toca a ficção científica séria nos moldes que podemos ver no ocidente é raro depararmo-nos com algo que fique na memória pela sua qualidade. Sendo assim, aproveito este texto agora, para fazer um apanhado geral do que tem sido a ficção-científica saída do oriente pois não tem sido um género muito popular até junto de quem gosta de cinema vindo daquela parte do mundo.

Da China, não me recordo de nada que seja particularmente marcante dentro do género da ficção-científica cinematográfica com excepção talvez do divertido “Love In Space” que passa pelo género mas apenas como cenário de fundo para situar uma divertida  love story e nada mais.
O Japão parece criar excelentes histórias de FC em Anime (às vezes em tom bastante sério e adulto; “The place promised in our early days“;”Wings of Honeamise ), mas depois quando tenta reproduzir essa qualidade em cinema parece não conseguir passar das fórmulas televisivas mais kitsch, infantis ou foleiras e o melhor que consegue deitar cá para fora são coisas como “Space Battleship Yamato” (uma péssima tentativa de imitar o estilo Michael Bay em versão Japonesa), “Gatchaman” e/ou sucessivos clones de Power Rangers/Godzillas ( também em modo “Casshern que não contribuiem de todo para que do Japão tenhamos ainda um bom título de ficção-científica live-action até hoje para as salas de cinema.
Salvo talvez as excepções de “Sayonara Jupiter” e até mesmo “Returner” que ao menos parecem ter tentado fazer algo para dinamizar o género pelo Japão, a ficção científica não é coisa que pareça interessar o público japonês para lá dos Anime que todos nós conhecemos.

Já na Coreia do Sul o panorama da FC parece mais animador pois têm aparecido bons títulos embora esporádicamente.
Não são muitos, mas normalmente quando arriscam algum dinheiro numa produção mais séria, o resultado tem sido muito bom; com titulos como o dinâmico “2009 Lost Memories” ou o já mencionado “Natural City” (que embora com falhas não deixa de ser o melhor filme de FC produzido até agora no oriente naqueles moldes).  Não esquecendo também o fabuloso “Cyborg She” que por detrás de uma capa de comédia juvenil contém uma das melhores histórias sobre viagens no tempo que eu vi (ou li) até hoje, pela forma como humaniza os personagens e nos dá a volta à cabeça com os inúmeros twists do argumento;  (sim, melhor que o clássico “The Time Machine” e melhor que “Back to the Future”.)
Até no género cinema-catástrofe a Coreia do Sul produziu excelentes exemplos de cinema espectáculo; temos o fantástico “Flu” que quem gosta de filmes sobre virus que matam pessoas pelo mundo fora não deve perder de todo pois tem uma energia fantástica ou “The Host” que mostrou ao mundo que os filmes de monstros também podem ser FC séria e dramática. Ainda do mesmo realizador de “The Host”, saiu recentemente o excelente “Snowpiercer“, uma história sobre um futuro negro e distópico (com actores ocidentais) e que foi alvo de uma tentativa de censura nos estados unidos pelo tom negro que apresenta.

11 A.M._02

O que nos leva então ao filme deste dia; [“11 A.M.” (Yeolhansi)].
[“11 A.M.” (Yeolhansi)] é assim uma espécie de “Alien” em ambiente subaquático, mas sem monstros; onde estes são substituidos por consequências de viagens no tempo.
Quero com isto dizer que estamos na presença do típico thriller de ficção-científica em que os personagens vão sendo mortos um a um seguindo a habitual fórmula que toda a gente já conhece e viu mil vezes no cinema ocidental para filmes com bichos que mastigam pessoas. Apenas aqui o inimigo é outro. A fórmula é a mesma.

11 A.M._06

[“11 A.M.” (Yeolhansi)] é um filme de baixo orçamento, talvez mesmo o de mais baixo orçamento de toda a lista de filmes que mencionei atrás.
Os cenários são muito desinspirados embora se note que houve aqui e ali uma tentativa de fazer com que o ambiente visual do filme parecesse mais elaborado do que na realidade é.
Tirando um par de pequenos cenários “mais detalhados” como por exemplo a sala de comando central da base submarina que mesmo assim está por demais despida de detalhe; os outros cenários ou são pequenos corredores claustrofóbicos, salas essencialmente vazias ou então localizações reais que foram aproveitadas para simular tecnologia de ponta futurista (por exemplo o reactor é claramente filmado num qualquer laboratório real).
Nota-se uma grande diferença entre aquilo que são cenários e localizações reais e isso contribui um pouco para que nunca acreditemos muito que aquela base submarina seja um local a sério.

11 A.M._18

Mas na verdade isso nem sequer é o ponto mais fraco de [“11 A.M.” (Yeolhansi)].
Apesar do baixo orçamento, sente-se que houve neste título uma tentativa de se criar uma história de ficção-científica adulta a sério. No entanto enquanto filme o resultado não é muito interessante por vários motivos.
Primeiro, a história de viagens no tempo apesar de muito bem executada, por seguir tanto à risca todas as fórmulas já conhecidas não apresenta absolutamente nada de novo que surpreenda o espectador.

11 A.M._10

Em nenhum momento estamos atrás do argumento, isto porque é tão fácil adivinhar o que vai acontecer a seguir que até impressiona pela negativa. Isso retira logo toda a carga dramática que poderia haver em [“11 A.M.” (Yeolhansi)] e sem isso a história perde todo o impacto. Muito menos esperem surpresas. Não há. Até o suposto twist do epílogo não apanha ninguém de surpresa e se não estivesse lá também não fazia diferença nenhuma.

11 A.M._05

Apesar de ser uma boa e sólida história do género, não deslumbra e quando uma história sobre viagens no tempo não contém qualquer coisa que nos apanhe de surpresa, mau sinal.
Comparem este argumento com o fabuloso exemplo de “Cyborg She” e vão perceber como  [“11 A.M.” (Yeolhansi)] é realmente um desperdício de potencial quando colocado lado a lado com o que se pode fazer numa história realmente criativa sobre viagens no tempo.
[“11 A.M.” (Yeolhansi)] leva-se demasiado a sério mas essa seriedade não consegue injectar qualquer interesse ou qualquer carga dramática à história. Já “Cyborg She” é o contrário, pois parece mais uma comédia adolescente desmiolada mas contém a história de viagens no tempo que este filme agora gostaria de ter sido.

11 A.M._13

[“11 A.M.” (Yeolhansi)] nem seria tão fraquinho se ao menos tivesse bons personagens; mas estranhamente, mais uma vez, o mesmo cinema que no género romântico ou dramático consegue humanizar os seus protagonistas de uma forma fabulosa, quando chegamos à ficção científica parece que o estilo oriental perde todo esse dom e acabamos sempre com personagens-tipo absolutamente desinteressantes e que não criam qualquer empatia com o público. Se calhar porque os argumentistas que gostam de ficção-científica estão mais interessados na história calculista própriamente dita do que em desenvolver personagens, mas por outro lado, volto a dizer, temos “Cyborg She“como exemplo de como se pode ter excelente FC sobre viagens no tempo, precisamente suportada por personagens com muita alma.

11 A.M._15

Sendo assim [“11 A.M.” (Yeolhansi)] não tem desculpa por falhar precisamente nos personagens. Se este tivesse contado com pessoas mais interessantes, se calhar até acompanhariamos com muito mais entusiasmo o previsível desenvolvimento desta história corriqueira sobre viagens no tempo.
Acontece que não nos importamos minimamente com o destino de qualquer uma das pessoas que vive esta aventura e isso é o pior que pode acontecer num filme de suspense baseado numa história previsível. Ainda há pelo meio a tentativa de inserir um par de trágicas histórias de amor a ver se pega, mas são tão forçadas que acabam por ter o efeito contrário.

11 A.M._08

Os herois não têm qualquer química entre eles e pior ainda, em momento algum acreditamos que aquelas pessoas são cientistas de verdade pois tudo é um enorme vazio na composição dos personagens. O suporte dramático para muitas das suas motivações não tem qualquer credibilidae e não resulta de todo pois as pessoas deste filme parecem não acreditar nas vidas que vivem.
E não é um problema de actores. Nota-se que toda a gente aqui se esforça ao máximo por encarnar aqueles cientístas. No entanto é óbvio que no papel não havia nada onde um actor se pudesse agarrar para tornar a sua prestação mais interessante.

11 A.M._03

[“11 A.M.” (Yeolhansi)] conta a história de um cientista que está obcecado com a descoberta das viagens no tempo (para tentar salvar a sua mulher que morreu anos atrás) e que juntamente com um grupo de colegas financiados pela união soviética (?!), trabalham num laboratório subaquático algures nas profundezas do oceano ao melhor estilo “The Abyss”; onde está instalado um protótipo de uma máquina que pode viajar no tempo e que quando o filme começa já tem a capacidade de conseguir viajar 15 minutos para o futuro. Prestes a serem encerrados por falta de resultados mais expansivos e imediatos, os cientistas decidem fazer um último teste e tentar alcançar um período mais longo; o que leva um par deles a conseguir transportar-se para 24 horas depois.

11 A.M._17

Acontece que, quando chegam a esse breve futuro, deparam-se com toda a sua base destruida, o equipamento incendiado e o local abandonado.
O que aconteceu ? Para onde foi toda a gente nas últimas 24 horas e porque estará todo o laboratório à beira de implodir ?
É este o mistério que se torna desde logo para lá de evidente e totalmente previsível.
E sim, estamos num filme passado numa base subaquática. É claro que no momento em que toda a gente podia simplesmente pirar-se dali para fora, há uma tempestade à superfície que impede a evacuação imediata… … … (really ?!)

11 A.M._07

Para sermos justos, na realidade [“11 A.M.” (Yeolhansi)] não é um mau filme de ficção-científica. É apenas desinteressante, embora numa filmografia oriental onde a ficção-científica escasseia não deixe de ser uma tentativa bem vinda ao género. Por outro lado, é um titulo tão simples que desilude quando podia ter sido realmente uma história excelente se o argumento contivesse as surpresas e a humanização de personagens de um “Cyborg She” ou a atmosfera de um “Natural City“.

11 A.M._19

[“11 A.M.” (Yeolhansi)] faz tudo bem no sentido em que não se pode dizer que seja um filme mal feito. De todo. Até mesmo o que falha em termos de argumento não deixa de ser interessante a nível técnico apesar da previsibilidade. Quem gosta tanto como eu de cinema de baixo orçamento não pode deixar de ver este titulo pois nesse contexto tem algumas qualidade pelo esforço que demonstra em tentar ser mais do que na realidade é.
Os últimos dez minutos de [“11 A.M.” (Yeolhansi)] até conseguem ser divertidos quando tudo entra em total modo caótico e surpreendentemente tem um epílogo curioso que expande o filme para além do que é costume vermos neste tipo de produções. No entanto, é tudo por demais mediano quando merecia ter sido fantástico.

11 A.M._14

Não é o baixo orçamento que deita tudo a perder, não são os cenários pobrezinhos que estragam o ambiente, nem sequer são os actores que arruinam a história.
É apenas o argumento. Parece um argumento daqueles que já vimos mil vezes em qualquer episódio banal de série televisiva que tenta criar uma história sobre viagens no tempo como história da semana.
Até a realização parece televisiva em muitos momentos num filme carregado de grandes planos do rosto dos actores em vez de abrir o ambiente com planos mais alargados. Por outro lado se assim não fosse notar-se-ia muito mais a simplicidade de toda a produção.

—————————————————————————————————————CLASSIFICAÇÃO:

Quem gosta de viagens no tempo e procura um titulo de ficção-científica no cinema oriental, tem em [“11 A.M.” (Yeolhansi)] uma opção interessante. Não irá supreender-se, mas por outro lado se não esperar muito também não ficará desiludido por aí além.
É uma produção de baixo orçamento competente, vê-se bem, apenas não deslumbra.
É um bom filme dentro das suas limitações. Nem mais, nem menos.
Três tigelas de noodles.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg

A favor: temos mais um filme de ficção-cientifica séria no cinema oriental, é uma história sobre viagens no tempo bem estruturada, alguns cenários mesmo pobrezinhos são bastante interessantes e atmosféricos, os últimos 10 minutos são divertidos pois a história apesar de simples está bem resolvida.
Contra: é totalmente previsível ao pormenor desde o princípio ao final, os personagens não têm qualquer interesse, suspanse zero, realização algo televisiva que retira algum ambiente ao filme pois nunca mostra muito, é um daqueles filmes que logo esquecemos ainda mal acabou.

—————————————————————————————————————
NOTAS ADICIONAIS:

TRAILER

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt3281394

——————————————————————————————————————

Se gostou deste poderá gostar de:

Natural City capinha_sayonarajupiter73x 2009 Lost Memories  cyborg_she_capinha_73x

——————————————————————————————————————

Cinema_oriental_no_facebook

 

Autor: Alcaminhante

Chamo-me Luis, tenho 45 anos e sou desenhador gráfico/ilustrador de profissão. www.icreateworlds.net Trabalho essencialmente como freelancer em ilustração tradicional e também em criação gráfica destinada á internet. Também trabalho em Banda Desenhada e quem quiser ir buscar os pdfs grátis do meu livro "As Aventuras do Príncipe Ziph" , sigam para aqui: http://icreateworlds.net/banda-desenhada-quadrinhos-gratis Interesso-me essencialmente por cinema, literatura, fotografia e longas caminhadas ao ar livre o mais longe de centros urbanos possível. De preferência junto ao mar e em praias isoladas. Tenho actualmente um blog sobre Cinema Oriental, outro sobre Ficção-Cientifica e ainda um site sobre Marte que podem encontrar aqui: http://www.o-enigma-de-marte.info Espero que gostem das sugestões e voltem sempre. Luis

3 thoughts on “11 A.M. (Yeolhansi) Hyun-seok Kim (2013) Coreia do Sul

  1. Após ler isso, tenho de concordar com algo que nunca havia notado, o cinema oriental de ficção parece não ter se desenvolvido até hoje. Em relação a lista de animes citados, senti falta de Akira e Ghost In The Shell, ambos fizeram muito sucesso no ocidente, e o segundo ainda imprime reflexões filosóficas que dificilmente são encontradas em obras de ficção científica.

    • Sim, Akira e Ghost in the Shell. Mas esses também são Anime.
      O que eu sinto falta é de bom cinema de FC live action especialmente do japão, pois em Anime não lhes falta qualidade e inovação na ficção cientifica. Nao entendo porque quando tentam fazer algo em live action a coisa sai sempre ao lado e normalmente é uma seca desinspirada salvo raras excepcoes. A Coreia do Sul já se sai melhor, mas mesmo assim os filmes escasseiam por demais.

      • Isso é realmente difícil de entender, pois como você bem disse, não lhes falta qualidade e inovação. Talvez seja por dificuldade no processo de adaptação. Saindo dos filmes orientais e olhando um pouco o mercado ocidental de FC, é bem notável como esse processo é sofrível. Eu, Robô deve ser o maior exemplo disso, ou qualquer filme baseado nas obras de Philip K. Dick.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s