A moment to remember (Nae meorisokui jiwoogae ) John H. Lee (2004) Coreia do Sul


Update: Esta review foi actualizada a 1-6-2014 também com a classificação para a versão longa do filme, mais abaixo.

[“A Moment to remember”], intitula-se originalmente – “Uma borracha na minha cabeça” – e é um filme sobre Alzheimer. Sobre o que acontece quando as nossas memórias pura e simplesmente são apagadas e sobre o que resta daquilo que fomos; colocando a questão – “será que ainda somos nós” ?…O que é que nos define ?…
Se investigarem este título na net, irão notar que será provavelmente a história de amor Sul Coreana que mais tocou o público ocidental; o que o torna talvez no mais popular filme romântico de que ninguém ouviu falar. Isto claro quando comparado com o cinema que consumimos nesta nossa parte do mundo. Ia haver um remake americano em estilo telefilme, mas consta que ficou no limbo, por isso deixem-no estar que assim é que está bem.

amomentoremember01

Até eu que sou um fã total de cinema romântico oriental, fiquei bastante surpreendido com a adoração da qual este filme é alvo em praticamente todo o lado. Isto porque apesar de ser uma história excelente, nunca pensei que tivesse algo de extraordinário que o pudesse colocar ao lado de outros títulos que adoro com por exemplo “The Classic” (com a mesma actriz), ou “Be With You” (para mim o melhor filme romântico de sempre no cinema oriental).

amomentoremember26

[“A Moment to remember”] parece ter tocado muito toda a gente que o viu e pelo que me tenho apercebido as pessoas ficam bastante emocionadas com o choque que apanham ao verem a forma como o filme retrata um doente de Alzheimer. Estou em crer que quem não passa por uma situação semelhante não faz mesmo ideia da realidade ao redor da doença e portanto acredito que muita gente ao ver esta história não estava nada preparada para os seus pormenores…perturbantes. Até porque o filme, por debaixo da sua capa de história de amor comercial não hesita em colocar muitas questões pertinentes sobre o tema e uma das suas mais valias está precisamente na forma como aborda a doença sem pudor ou sem tentar ir mais para além daquilo que a doença já traz de dramático.

amomentoremember31

Curiosamente eu comprei este Dvd há uns dez anos, pouco tempo depois do filme ter saído, só o tinha visto na altura e tem permanecido na minha prateleira de coisas a rever este tempo todo. Isto porque inicialmente eu não tinha ficado particularmente impressionado com ele quando o vi pela primeira vez. Lembro-me de ter gostado mas de não me ter atingido com a mesma força de coisas como “The Classic”, “Be With You”, “Il Mare” ou “My Sassy Girl” por exemplo. No entanto nunca me saiu da memória, há anos que ando para o rever e falar sobre ele aqui neste blog, mas precisava distanciar-me do seu tema a nível pessoal, para poder voltar a pegar neste filme.

amomentoremember06

E isto porque na verdade, se calhar a principal razão porque o filme não me tocou particularmente da primeira vez que o vi, foi porque eu estaria com todas a minhas defesas sobre o tema do Alzheimer activadas no máximo e portanto estaria naturalmente predisposto a que uma história assim não me atingisse de forma tão forte quanto atingiu muito do público que ainda hoje considera [“A Moment to remember”] possívelmente o melhor filme romântico Sul Coreano.
E não podia atingir-me da forma que me atingiu agora quando o revi ontem, porque na altura a história de [“A Moment to remember”] retratava essencialmente a minha própria história e mostrava essencialmente o meu dia-a-dia nessa altura. Como tal eu próprio estaria anestesiado perante tudo aquilo que o filme mostra e pelo visto chocou e tocou os outros espectadores que evidentemente não estariam inteirados do que se passa á volta do mundo da doença de Alzheimer, não só a nível do doente mas principalmente da perspectiva do prestador de cuidados.

amomentoremember18

Acreditem-me nada na história de [“A Moment to remember”] se encontra exagerado. Nada se encontra “trabalhado” de forma a servir de truque cinematográfico para fazer as plateias chorar. Se [“A Moment to remember”] é considerado demasiado melodramático por algumas pessoas e é acusado de ser demasiado xaroposo, açucarado ou demasiado “inventado”, então é porque essas pessoas nunca viveram uma situação como a que é mostrada no filme na sua vida real.
Eu vivi.
Posso garantir-lhes que [“A Moment to remember”] se tem algum defeito é porque suaviza demasiado muitas das situações.
Se [“A Moment to remember”] tivesse entrado pormenorizadamente por alguns momentos que mostra na história, este teria sido um filme de terror insuportável para muita gente e deixaria de ser uma história romântica que o público conseguisse aguentar emocionalmente.

amomentoremember21

Se o que podemos ver nesta história de amor Sul Coreana, é melodramático demais para ser real, é porque felizmente 99% do mundo não tem que viver a situação retratada no filme no seu dia-a-dia.
Acreditem-me. A realidade é muito mais melodramática do que poderão encontrar nesta produção sul coreana.
Eu sei, porque eu a vivi com os meus pais e tal como acontece com o personagem de [“A Moment to remember”] eu nunca poderia de forma nenhuma ter escolhido desistir. Portanto, meus amigos esqueçam a ideia que a história de amor deste filme está demasiado exagerada ou açucarada. Quando muito estará até algo contida visto a produção óbviamente ter preocupações comerciais.

amomentoremember27

Outra das coisas que lhe apontam é a velocidade da degeneração mental da personagem principal, pois no filme tudo parece acontecer demasiado rápido, mas aí penso que é apenas um problema de montagem e do próprio “pacing” narrativo da história. Se calhar teria sido mais claro se tivesse havido uma melhor identificação visual da passagem do tempo.
Aliás, essa passagem do tempo sente-se na resolução das duas pequenas mini-histórias paralelas do filme que de um momento para o outro aparecem resolvidas sem darmos por isso.
Descobri há tempo que [“A Moment to remember”] tem duas versões; a versão distribuída fora da Coreia do Sul e a versão -longa- original que passou nos cinemas da região, que segundo me recordo de ter lido terá uns vinte minutos de cenas a mais.

amomentoremember29

O dvd que eu tenho tem quase duas horas mas tudo se foca essencialmente nos personagens principais. De acordo como que li, parece que a versão longa do filme desenvolve muito mais em detalhe toda a parte da história a propósito da mãe do protagonista e também explica muito do que acontece em relação ao seu velho tutor. Tanto a mãe, como o personagem do tutor aparecem quase do nada a meio do filme e tudo parece ramificar-se na direcção dessas pequenas histórias. No entanto deixa-se de conhecer quaisquer detalhes do seu desenvolvimento e subitamente no final do filme esses dois personagens reaparecem de uma forma totalmente diferente e com os conflitos resolvidos sem que nós tivéssemos visto alguma coisa sobre isso.
Segundo o que li há um par de anos atrás, as cenas que foram retiradas para fazer a versão curta focavam precisamente esse aspecto e sinceramente não sei porque raio fizeram uma versão curta, pois os personagens secundários mesmo assim aparentam ser muito fortes e seria interessante podermos ver como todo o seu arco dramático em relação ao protagonista masculino desta história tinha sido resolvido.

amomentoremember22

Talvez por isso, a versão curta crie uma excessiva ilusão de velocidade na parte que retrata o desenvolvimento da doença de Alzheimer na jovem protagonista. O meu conselho quando virem o filme é que não pensem muito no assunto e assumam todo o processo degenerativo da sua condição como natural, até porque por experiência própria posso garantir-lhes que num caso como é retratado no filme, uma pessoa pode realmente mudar em pouco mais de um ano e portanto esqueçam aqueles comentários que dizem que tudo está demasiado dramatizado para se tornar melodramático. Não está.

amomentoremember09

Esquecendo agora o tema do Alzheimer por momentos, como filme romântico [“A Moment to remember”] é realmente um triunfo.
O facto de ser um produto comercial não lhe retira de todo o mérito, porque acima de tudo ao contrário daquilo que costuma passar por cinema romântico made-in-hollywood, mais uma vez temos aqui uma história de amor oriental com personagens realmente vivos e com muita alma.
Cedo nos esquecemos que estamos a ver um filme, pois toda a gente nesta história poderiam ser pessoas reais e isto é uma das coisas que [“A Moment to remember”] faz muito bem.

amomentoremember08

Inclusivamente, até em relação aos personagens secundários. A química entre os protagonístas e por exemplo o pai da jovem rapariga é excelente e nem por um momento nos lembramos que estamos a ver um trabalho de representação.
E por falar em representação, o trabalho dos dois actores que representam o casal do filme é absolutamente notável. [“A Moment to remember”] pode inclusivamente ser o exemplo perfeito daquilo que os Sul Coreanos melhor sabem fazer no que toca à criação de histórias de amor, por uma simples razão; ninguém melhor que eles sabem como criar personagens verdadeiramente humanos onde mal notamos que existe um trabalho de representação por de detrás. Este filme é mais uma verdadeira aula de como se consegue criar uma história com empatia no género romântico, inclusivamente sem precisar de fugir aos clichés do género. Está tudo na forma como se humaniza as relações e nesse aspecto o cinema da Coreia do Sul sabe muito bem o que faz.

amomentoremember14

A primeira metade de [“A Moment to remember”] é extraordinária na forma como nos cativa para a relação daquelas duas pessoas e é um verdadeiro manual de como se criam personagens românticos aparentemente sem esforço algum. Tudo na história inicialmente nos agarra. A forma como o casal se conhece e todas as sequências e peripécias em que se envolvem até ficarem juntos são retratadas de uma forma fantástica, cheia de momentos de humor perfeitamente naturais e é impossível não ficarmos totalmente cativados pela vida daquelas duas pessoas.

amomentoremember05

O realizador é brilhante na forma como usa o humor e o balança com pequenos vislumbres daquilo que irá ser uma tragédia. E faz isto tão bem, que mesmo já tendo visto o filme mais do que uma vez, dei por mim a desejar que nada de errado acontecesse com os protagonistas precisamente pela forma divertida e ligeira com que a relação deles está filmada logo ao inicio.
Depois a meio do filme o realizador tira-nos o tapete dos pés e (principalmente) o espectador que não sabe nada sobre a doença de Alzheimer apanha um choque de meia noite com o resto do desenvolvimento da história. Talvez por isso esta seja tão inesquecível para tanta gente.

amomentoremember15

Pelo meio da parte trágica [“A Moment to remember”] consegue sempre inserir algum humor e nisso é um trabalho de mestre pois há partes do filme que balançam incrivelmente entre a comédia sul-coreana típicamente alucinada com o drama mais intenso. Quem teve a ideia de colocar o médico especialista de Alzheimer com aquele visual de cientista maluco em estilo Einstein colocou no filme um toque de génio, pois as cenas em que o personagem entra são ao mesmo tempo divertidas, tristes, trágicas, ligeiras e dramáticas. E ás vezes nem precisa aparecer muito tempo no écran para resultar em pleno.
Outro pormenor interessante é a forma como usa a música para criar ambiente e em particular música latina ao melhor estilo canção-cubana (?) em sequências que remetem bastante para o tipo de universo que encontramos em “In the Mood for Love” de Wong Kar Wai. Muito bom e diferente.

amomentoremember13

[“A Moment to remember”] pode já ter alguns anos, mas continua realmente a ser uma das grandes histórias de amor Sul Coreanas. É o tipo de filme que inevitávelmente será sempre acusado de ser delicodoce e excessivamente comercial por ter sido cozinhado de modo a fazer com que as plateias chorem baba e ranho, mas eu sinceramente não entendo porque isso será motivo para se atacar o resultado, ou já agora este tipo de cinema em que os sul coreanos são mestres absolutos.
Se no cinema de terror ninguém se queixa quando todos os clichés estão bem usados e resultam em filmes assustadores, porque razão se deverá atacar o cinema romântico por ser melodramático se isso resultar em algo que toque realmente a alma das pessoas ?….
É que ao menos o melodrama no cinema oriental prácticamente resulta sempre em personagens realmente humanos. Tomara o cinema americano poder dizer o mesmo.
O filme é comercial ? É pois.
Melodramático ? Claro ! E neste caso com todo o direito pois a realidade que retrata é até bem mais melodramática do que eles apresentaram no écran.
E resulta ?
Se resulta !!!

amomentoremember11

O final desta história é absolutamente demolidor pela forma subjectiva com que termina. Mesmo que o resto do filme não os impressione por aí além, se estiverem atentos aos pormenores e chegarem ao seu desenlace final sem gastarem umas boas fronhas de travesseiros, então é porque vocês não têm um batimento cardíaco e já estão mortos.
[“A Moment to remember”] é um título perfeito para justificar os segundos finais e de certa forma justifica plenamente este título permanecer na memória de tanta gente como uma das melhores histórias de amor saídas do cinema da Coreia do Sul nos últimos anos.

—————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO – para a VERSÃO CURTA (1hora e 57 minutos)

É realmente bem melhor do que eu me lembrava de ter sido quando o vi pela primeira vez há quase dez anos.
Se chegaram a esta blog procurando por cinema romântico oriental, então não perdem nada em começar por este título. Não será o meu favorito mas é uma das melhores histórias de amor que saíram da Coreia do Sul com toda a certeza, e até certo ponto, apesar de formulário é bem original pela forma séria como retrata a doença de Alzheimer.
Cinco tigelas de noodles forque é realmente excelente, especialmente nos minutos finais.
Não leva um Golden Award porque guardo a nota máxima para quando conseguir ver a versão integral um destes dias.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg

A favor: a forma realística e sem preocupações politicamente correctas como retrata a doença de Alzheimer, a forma como a própria doença está usada para se contar uma história de amor formulática mas nem por isso menos cativante, o trabalho extraordinário dos actores, a química entre todos os personagens principais ou secundários, a primeira metade do filme e a forma como nos faz apaixonar por aquelas pessoas, a segunda metade do filme e a forma como destrói aquelas pessoas, a subtileza do humor nos momentos mais inesperados, a inesperada banda sonora com músicas latinas cria uma atmosfera romântica curiosa, os minutos finais da história e a imagem com que termina.

Contra: o constante – product placement – à Coca-Cola é um bocado evidente e até algo irritante por ser tão “forçado(?)“, aparentemente existem duas versões disto e a mais curta que é a que temos acesso tem alguns problemas de ritmo narrativo pois há cenas que aparecem e desaparecem sem grande explicação, na versão curta as histórias da mãe do protagonista e da sua relação com o seu mentor estão demasiado aceleradas, na versão curta a passagem do tempo não é bem demonstrada e cria a ilusão de que a doença da protagonista se desenvolve em pouco tempo, ainda há pessoas que pensam que a forma como a doença de Alzheimer está representada neste filme é exagerada…

NOTA: Estou a tentar encontrar o “directors cut” com a versão longa e conto conseguir ver o filme em breve. Assim que o vir podem contar com comentários adicionais sobre o mesmo aqui neste texto.

—————————————————————————————————————
—————————————UPDATE 1-6-2014———————————
—————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO – VERSÃO LONGA (2h e 25 minutos)

Acabei de ver finalmente a versão integral deste filme e como eu já esperava, a versão longa leva sem qualquer problema a classificação máxima.

amomentoremember10

Além de tudo o que já referi na review a propósito da versão curta, esta versão integral resolve alguns dos buracos narrativos que agora deixam de existir.
Não só encaixam as cenas que estavam a menos envolvendo a mãe do protagonista como inclusivamente a passagem do tempo já se sente mais presente e real pois o filme inclui até bastantes pequenos pormenores sobre o que se passa no ambiente doméstico em redor quando alguém tem de prestar cuidados a um doente de Alzheimer.
Isto é mais uma vez dificil de explicar, mas além das cenas mais longas e que óbviamente tinham sido retiradas da versão curta; a meia hora de filme a mais inclui dezenas de breves momentos que ás vezes nem duram dois segundos no écran mas onde se visualizam muitos pormenores que só quem está neste momento a passar por uma situação semelhante ou tal como eu, passou por uma situação semelhante irá reconhecer e que no contexto do filme acabam por si só fazer toda a difrença, (por exemplo o maior destaque dado ás anotações por toda a casa (com que eu me identifico bastante)), entre muitos outros pormenores que dão realmente uma profundidade diferente à história.
Se a versão curta já era uma boa representação do que é a doença de Alzheimer, as dezenas de pequenos pormenores às vezes em meros segundos de écran na versão longa, fazem com que este filme practicamente não tenha falhas na forma como aborda a doença de Alzheimer ao contrário do que alguns críticos têm apontado. Mais uma vez volto a dizer. Se [“A Moment to remember”] é melodramático, não é por ter tiques de telenovela pirosa, mas sim porque a doença de Alzheimer É melodramática. E bem mais do que o próprio filme apresenta até. Confiem em mim.

amomentoremember17

Meia hora faz uma grande diferença em termos de filme. Não o modifica própriamente e não perdem nada em ver apenas a versão curta mas não há dúvida que a versão longa é muito mais densa e bem mais cuidada. Inclusivamente o próprio “moment to remember” do filme ganha uma nova vida na versão grande, isto porque na versão pequena ficava-se com a ideia de que o momento especial do fim seria realmente toda a experiência da rapariga a partir do momento *spoiler* em que regressa à loja onde tudo começou. Na versão longa o ênfase está realmente naquilo que é o verdadeiro coração do filme no que toca à história de amor – a palavra “amo-te” – que não é colocada no centro do momento fulcral na versão curta por faltarem pequenos segundos de diálogo entre o pai da rapariga e o marido desta que já estão presentes na totalidade na versão longa. Como tal, o “moment to remember” na versão integral tem ainda um impacto maior por se tornar ainda mais simples e evidente. *fim do spoiler*.

amomentoremember07

Portanto qual a versão a ver ? Qualquer uma delas, mas a versão longa é realmente mais profunda. Não só nos pormenores sobre o Alzheimer mas também na forma como solidifica a relação de todos os personagens ao longo do filme, inclusivamente dos secundários.
Por outro lado se vocês não estiverem muito por dentro do que é lidar com o Alzheimer se calhar não irão notar uma diferença substancial entre a meia hora a menos da versão curta e a meia hora  mais da versão longa.

Cinco tigelas de noodles e um Golden Award para a versão longa porque é realmente uma grande história de amor tendo por base uma situação real muito bem retratada ao longo de todo o filme.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg gold-award.jpg

A favor: As cenas adicionais trazem nova vida a esta história e aprofundam bastante tudo o que parecia faltar na versão curta. O foco do momento final torna-se mais simples e ainda mais poderoso e inesquecível.

Contra: O personagem do mentor do protagonista continua um bocado á deriva apesar de tudo pois grande parte das novas cenas mais longas serviram essencialmente para aprofundar a relação entre o protagonista e a mãe.

 

————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

Trailer
O trailer contém spoilers mas sinceramente penso que não há qualquer problema pois não tem nada que vocês não estejam à espera e portanto não vai retirar o prazer e o impacto do filme.
https://www.youtube.com/watch?v=uo9WSLv-lzs&feature=kp

Videoclip
O mesmo vale para o videoclip. Com spoilers mas não vai estragar o filme, de todo.
https://www.youtube.com/watch?v=BP4cnZeubyg

amomentoremember03

Comprar
A versão curta que eu tenho em dvd já está esgotada. Encontrei uma edição do director´s cut aqui…também esgotada, mas poderá aparecer de novo a qualquer momento. Estejam atentos.
http://www.yesasia.com/us/a-moment-to-remember-blu-ray-directors-cut-first-press-limited-edition/1024648818-0-0-0-en/info.html

Bluray na amazon.uk
http://www.amazon.co.uk/gp/offer-listing/B009P1VEPA/ref=dp_olp_0?ie=UTF8&condition=all

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0428870

——————————————————————————————————————

Outros títulos românticos totalmente recomendados:

My Sassy Girl capinha_love_in_space capinha_in-the-mood-for-love capinha_midnight-sun

Be With You Il Mare The Classic Fly me to Polaris

concerto_capinha_73x cyborg_she_capinha_73x capinha_my-girl-and-i

——————————————————————————————————————

Cinema_oriental_no_facebook

 

Hk Forbidden Hero (HK: Hentai Kamen) Yûichi Fukuda (2013) Japão


Ainda há poucas semanas atrás atribuí pela primeira vez a classificação de zero tigelas de noodles a um filme neste blog e portanto depois de “Visage” eu pensei que pior que aquela desgraça não podia haver.
Bem-vindos a [“HK: Hentai Kamen – Forbidden Super Hero”].
Um filme de Cock-Fu.

hentaikamen01

Sim, eu disse cock-fu. Não conhecem esta arte marcial milenar ?
Quando eu pensava que já tinha visto tudo no que toca a cinema inacreditável saído do oriente eis que o Japão decide mostrar-me mais uma vez que se calhar eu ainda não vi foi nada !
[“HK: Hentai Kamen – Forbidden Super Hero”] é um daqueles filmes que nem merece sequer zero tigelas de noodles, porque na verdade este filme não tem classificação possível.
Se calhar eu deveria arranjar por aqui uma outra escala de valor  para títulos como este pois uma obra assim é quase um género de cinema à parte !
Até eu que pensava que já tinha visto tudo o que havia para ser visto dentro do cinema chunga hilariante fiquei surpreendido.
Ao pé disto, coisas como “Sex is Zero“, “Sexual Parasite Killer Pussy” e “Sars Wars” parecem inocentes filmes da Disney.

hentaikamen17

Na verdade eu estava a ver o raio do filme e só me perguntava se uma coisa como [“HK: Hentai Kamen – Forbidden Super Hero”] não poderá ser também classificada como cinema de autor…
Quer dizer, isto à primeira vista está nos antípodas do género, porque cinema mais ultra comercial penso que seria impossível alguém conseguir fazer; mas pessoalmente eu acho que o filme, está tão à frente mas tão à frente que ainda tudo o resto ainda vai atrás e já isto deu a volta a todos os géneros possíveis e imaginários da história do cinema, acabando inevitávelmente por tocar no estilo de cinema de autor…mas de uma forma totalmente diferente.

hentaikamen06

Senão vejamos, [“HK: Hentai Kamen – Forbidden Super Hero”] é um série B japonês que mais parece um série Z a maior parte do tempo, tem um estilo tão alucinado e tão comercial que acaba por criar uma assinatura pessoal. Uma marca única. Um novo género cinematográfico por si só. E isto é dizer muito, considerando que eu já vi coisas como “Sars Wars” por exemplo…
Este é o tipo de filme que fica cravado na nossa memória, não só por tudo o que contém de genialmente inacreditável mas pelo próprio estilo de realização. Que na verdade não tem estilo nenhum. Ou tem…
Mau.
Ou se calhar é de génio. Ou genialmente mau.

hentaikamen26

Aposto com vocês que eu quando vir a próxima…ehmobra…deste realizador eu nem precisarei de ler o nome de quem o fez para perceber que se trata de mais um filme de Yûichi Fukuda pois este desgraçado para o mal e para o bem já não me sai da cabeça tão cedo.
Portanto a partir do momento em que um gajo consegue um estilo tão demarcado e um produto tão genialmente mau (?) que se torna brilhante…para mim é um – autor – e quero lá saber dos génios da 7º arte que ganham festivais.
Este gajo é um génio.

hentaikamen09

Eu não sou própriamente fã de filmes de super-herois mas abro uma excepção para  [“HK: Hentai Kamen – Forbidden Super Hero”] mesmo sem fazer a mínima ideia do que acho sobre ele. Não sei se isto será o pior filme que alguma vez vi, porque por outro lado é um sério candidato ao melhor filme lixo que me passou pela frente em muitos anos e um verdadeiro filme de culto á espera de ser descoberto. Perfeito para um destes dias também aparecer mencionado no meu blog de cinema de culto e FC, o esquecido… “Universos Esquecidos”…
Pelo que me apercebi, é a adaptação de um Manga já com um grande culto lá pelo Japão e se a BD for metade do que o filme conseguiu mostrar, então só pode ser absolutamente genial.

hentaikamen16

[“HK: Hentai Kamen – Forbidden Super Hero”] tem a maior colecção de cenas parvas e inacreditáveis que vi em anos. Possivelmente um dos filmes com as piadas mais estúpidas que vi em muito tempo mesmo.
Mas por outro lado praticamente tudo nisto funciona à brava e consegue divertir o espectador porque quando pensamos que a história não pode descer mais baixo o filme entra por patamares de ver para crer.

hentaikamen04

O que deve querer dizer que não vamos ver o remate americano deste filme tão cedo. A não ser que o Nicholas Cage aceite passear pelo set de cueca e meia de liga sexy e aí eu pagava para ver.
[“HK: Hentai Kamen – Forbidden Super Hero”] é o super heroi mais genial de todos os tempos. É uma espécie de Homem Aranha japonês que vai buscar os seus poderes quando coloca na cara cuecas usadas de colegiais e se transforma no Panties-Man o super-heroi mais ehm … sexy (?) de todos os tempos ?…

hentaikamen08

Nada falta neste filme. Desde as poses hilariantes do personagem até aos piores super-vilões que alguma vez apareceram no género; tudo em  [“HK: Hentai Kamen – Forbidden Super Hero”]  parece estar feito para nos provocar estupefacção constante. Passamos o filme todo sem acreditar no que estamos a ver e se calhar é esse o grande truque do realizador para nunca percebermos como o raio do filme é do piorio. Ou será que não é ?… As cenas de luta são do mais rasca e amador possível, o suspanse não é para aqui chamado e tudo parece orquestrado para nos destruir o cérebro. Ah, e já agora se pensam que isto é uma cena gay qualquer, esqueçam, isto é muito mais à frente do que tudo aquilo em que vocês possam pensar.

hentaikamen12

E quem pensa que o personagem do Panties-Man bate todos os recordes de qualquer coisa para lá de indiscritível então é porque ainda não viu a mãe do herói que é striper-sado-maso e ao mesmo tempo uma séria candidata ao personagem mais inútil de todos os tempos. Por outro lado é mais um boneco genial que dá ao filme uma estranha aura de qualquer coisa que eu também não consigo definir.
Cromos é que não faltam em  [“HK: Hentai Kamen – Forbidden Super Hero”] , o vilão usa trancinhas à Willie Nelson e come pernas de galinha como um porco javardo, os super vilões que aparecem a desafiar o jovem herói são de ver para crer e claro não podia faltar a miúda fofinha que está perdidamente apaixonada pelo Panties-Man.

hentaikamen13

Eu estou para aqui a escrever mas na verdade estou a inventar coisas em modo automático para dizer, porque o cérebro ainda não recuperou e portanto esta review um dia destes ainda irá sofrer uma qualquer revisão radical quando eu me aperceber realmente do que acabei de ver.
[“HK: Hentai Kamen – Forbidden Super Hero”] não tem classificação possível.
O mesmo se pode dizer do uniforme deste super-heroi.

hentaikamen05

É muito divertido, mas por outro lado também tem coisas menos boas…por exemplo, depois do choque inicial que apanhamos e do divertimento que provoca pela surpresa, a partir da primeira meia hora, o estilo é mais do mesmo e sofre inclusivamente de alguma falta de ritmo a meio da história quando o herói defronta pela primeira vez o herói-bizzaro seu arqui-super-inimigo. A coisa arrasta-se por tempo demais e o filme perde algum do seu fôlego (e imaginação) o que é pena.
Por outro lado nota-se claramente que isto não teve orçamento nenhum e ás vezes ficamos com a ideia de que o argumentista foi inventando à medida que se iam filmando cenas. A montagem é amadora, as cenas de luta são uma anedota e os efeitos digitais são os piores que alguma vez vi numa produção profissional; mas isso não importa de todo pois tudo faz parte do charme do próprio filme que parece estar em esforço constante para nos provar que ainda consegue ser pior do que aquilo que nós julgamos.

hentaikamen14

A verdade é que este é um daqueles filmes que ou se odeia de morte ou nos divertimos totalmente com ele enquanto dura, apesar de se calhar também ter duração a mais. Se em vez de 1h45m tivesse tido apenas uns 80 minutos teria sido perfeito.
Como comédia sexual eu diria que se calhar seria genial, se a gente conseguisse ter tempo para rir.
Pela minha parte passei mais tempo estupefacto a olhar para o que aparecia no écran do que a achar graça ao suposto humor da história.  Mas fartei-me de rir à parva e não sei bem do quê.
O filme é hilariante porque é parvo como o raio mas para dizer a verdade eu nem me lembro dos gags que supostamente deveriam ser para rir…

hentaikamen02

De qualquer forma é impossível não curtir um filme assim e eu pela minha parte mal posso esperar pela sequela.
Quem parece ter-se divertido muito a fazer isto foram os actores e aqui nota alta para o gajo que faz de super-heroi pois é preciso realmente ter tomates para se expor fisicamente da forma que o faz num filme como este.
E tomates acompanhados do resto são essencialmente a temática desta história e parte fundamental nos combates de Kung-Fu… ou Bolas-Fu… ou Dick-Fu ?…

Karaté com pilas !

hentaikamen23

Hollywood suck on this !

—————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO

O que dizer de um filme inclassificável ?…
Se aguentarem o estilo, é imperdível. Se gostarem de super-herois e pensam que já não havia mais nenhum super-heroi que pudesse ser inventado, pensem duas vezes.
Três tigelas de noodles porque é bom demais, sendo mau como o raio mas provávelmente será o melhor filme de super-herois de todos os tempos e com todo o mérito. Por outro lado…não tentem fazer isto em casa…

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg

A favor: o conceito do personagem é genial, o uniforme é de ver para crer, o actor principal faz um trabalho excelente com um material potencialmente destruidor de carreiras, tem espírito de série B genuíno, é de ver para crer.

Contra:
é de ver para crer, a partir do meio sofre de várias quebras no ritmo narrativo e perde muita da piada pela repetição.

—————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

Trailer
https://www.youtube.com/watch?v=TozprFrnn10

———————————

gif

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt2708764

——————————————————————————————————————

Se gostou, vai gostar certamente dos seguintes filmes abaixo.

capinha_sex-is-zero capinha_sars-wars capinha_killer_pussy   

——————————————————————————————————————

Cinema_oriental_no_facebook

 

The Grandmasters(s) (Yi dai zong shi) Wong Kar Wai (2013) China


Quem não conhece o trabalho de Wong Kar Wai enquanto realizador e parte para [“The Grandmaster(s)”] convencido pelo trailer americano de que isto vai ser um filme de Kung-Fu ou uma aventura do Ip Man no reino da porrada de criar bicho cedo descobre que foi enganado pela forma como o filme lhe foi vendido e talvez isso explique o apedrejamento que esta incrível obra prima visual está a sofrer em praticamente todos os forúns públicos pela internet fora aqui no ocidente. Ou melhor, mais pelo lado americano como não podia deixar de ser.

grandmaster01

Felizmente não por toda a gente, mas é certo que o público do cinema de acção genérico (leia-se -á americana-) parece estar a descarregar bem a sua raiva por lhe terem vendido um filme que é bem mais do que a típica aventura de artes marciais a que estamos habituados no ocidente.
E desta vez até lhes dou razão.
Não há dúvida que [“The Grandmaster(s)”] não é de todo o filme de porrada que aparenta nos trailers. Em particular nos trailers remontados nos estados unidos. Há um então com aquela voz gringa estilosa do costume que é de cair a rir ou de chorar consoante a perspectiva.

grandmaster13

Os distribuidores americanos parece que pensaram que a melhor maneira de vender [“The Grandmaster(s)”] no ocidente seria enganar o público e tentar levar o máximo de gente ás salas convencidos que iam ver um filme de aventuras ou cinema de artes marciais como os americanos pensam que os filmes de artes marciais devem ser.
Resultado, o público tem toda a razão em sentir-se enganado e se calhar eu também protestava.

grandmaster16

Na minha opinião, no entanto estão a escolher o alvo errado. Se calhar em vez de apedrejarem o filme, deveriam mas era apedrejar a distribuidora gringa que resolveu ocidentalizar o trailer de forma a meter o maior número de pessoas nas salas pensando que iam ver um blockbuster.
Isto porque está a acontecer uma coisa interessante que não deixa de ser sintomática da forma como Hollywood formatou e estereotipou –o gosto– dos frequentadores de salas de centro comercial nestas últimas décadas.
Quem ataca o filme por ser uma seca, ter história a mais e porrada de menos, não são sequer a maioria dos apreciadores do puro cinema de artes marciais oriental pois muito desse mesmo público tenta inclusivamente defender [“The Grandmaster(s)”] perante os ataques de muitos “cinéfilos” ocidentais a espumarem desapontamento pelos blogs, youtube e afins.

grandmaster20

Quem ataca o filme são essencialmente aqueles espectadores que tanto foram ver isto por ter karaté pelo meio como iriam ver outro blockbuster qualquer saído dos enlatados que Hollywood lhes mandasse ver nesse fim de semana. Aliás, praticamente toda a gente ataca o filme porque ele no trailer ocidental parecia um blockbuster épico de cacetada e pontapés nas trombas e no fim saiu um épico sim senhor, mas um drama épico. Ainda por cima um drama com uma estrutura narrativa totalmente fragmentada que não transporta o espectador pela mão da cena A à cena B mas pede-lhe que esteja atento e construa por si próprio a narrativa; o que deixou logo muita gente desconcertada porque veio ver porrada e depois ainda teve que pensar…e pior, o filme não tem maus nem bons, nem nada !!! Onde está o vilão ?!!!

grandmaster26

O que eu acho absolutamente fascinante é [“The Grandmaster(s)”] estar a ser tão atacado por ter paleio a mais e porrada a menos quando cenas de acção é coisa que não falta neste filme.
É que [“The Grandmaster(s)”] tem porrada de criar bicho sim senhor; apenas não está colocada dentro de uma história linear à americana e esse facto desorienta logo 90% dos espectadores americanos e americanizados que de repente ficam tão baralhados ao (não) tentarem perceber o que se passa na história que nem notam que o que não falta neste filme são sequências de acção !
E nem são tão pequenas assim. A história conta com inúmeros duelos muito variados espalhados por todo o lado e portanto esta ideia de que o filme é uma grande seca porque não tem acção –bem feita- só demonstra o quão formatadas pelo pior de Hollywood estão as audiências ocidentalizadas.

grandmaster10

Por entre as duas horas e meia de drama não linear, [“The Grandmaster(s)”] conta com muitos e largos minutos de fabulosas cenas de artes marciais.
Talvez, o problema aqui seja porque o filme em muitos momentos até usa essas cenas de porrada para contar uma história e é isto a que o público ocidental não está habituado.
Esta coisa de se usar artes marciais como veículo narrativo do que se passa no argumento deixa muita gente baralhada sem saber a que deve prestar atenção.
Isto porque no ocidente estamos habituados a que as cenas de acção sejam quase o intervalo das histórias. Ou seja no cinema de Hollywood, as cenas de acção são qualquer coisa que serve para “descansar” da história, são aquilo que se passa no meio de qualquer coisa e normalmente não tem mais porpósito do que tentar impressionar as plateias com o efeito especial da moda.

The Grandmaster Zhang Ziyi

Acontece que em [“The Grandmaster(s)”] isso não é bem assim. Se calhar não se irão aperceber a um primeiro visionamento porque o filme apanha-nos realmente de surpresa, (até mesmo a quem está habituado ao cinema de Kar Wai), mas uma das coisas mais fascinantes neste filme sobre artes marciais é a forma como usa as próprias artes marciais para falar delas.
As artes marciais aqui não estão no écran apenas para impressionar as plateias comedoras de milho ocidentais mas são a alma do próprio filme. Aliás são quase como poesia visual.
A forma como a luz é usada por vezes provoca mais adrenalina do que a própria sequência de acção ao mesmo tempo que a torna totamente única e visualmente poética pois inclusivamente as artes marciais afectam a própria vida dos personagens a muitos mais níveis do que apenas terem levado uns tabefes e ficarem com vontade de se vingarem.
Uma das grandes mais valias deste filme está na forma como apresenta as artes marciais como sendo um modo de vida, uma herança cultural de um povo e não apenas um conjunto de socos e pontapés que o “heroi” aprende num daqueles “mosteiros de Shaolin” estereotipados por Hollywood como costumamos ver no cliché mais piroso.

grandmaster21

[“The Grandmaster(s)”] é um filme sobre artes marciais.
Não é um filme de artes marciais.
Até eu fiquei desorientado ao inicio, pois a primeira meia hora de filme parecia-me muito hermética e pensei seriamente que não iria atribuir uma classificação tão boa a isto quanto acabei por achar que merece.
Eu que detesto filmes sobre Máfia, gangsters; todo aquele ambiente sobre “Famílias”, rivalidades entre Clãs e universos semelhantes, durante a primeira meia hora estava a começar a ficar farto da atmosfera pois fazia-me lembrar “O Padrinho” de Coppola a todo o instante e pensei que isto não iria muito longe.

grandmaster38

[“The Grandmaster(s)”] ao início constrói um universo muito semelhante á volta da honra, da rivalidade entre chefes de clãs e tudo aquilo que remete imediatamente para a atmosfera do filme de máfia tal como Coppola o recriou nos seus clássicos e isso começou a afectar seriamente a minha atenção e predesposição para continuar a ver o filme, pois eu realmente detesto coisas sobre famílias do crime e pensei sinceramente que esta obra não ia passar de mais uma sobre honra e vingança entre clãs rivais, em versão Hong Kong e estereotipada atá ao limíte. Coisa que felizmente logo percebi a tempo que não seria de todo.

grandmaster22

Ao contrário do que é habitual no cinema de Kar Wai, desta vez a atmosfera do filme constroí-se pelos rostos, pelas pessoas, pelos retratos e não pela envolvência do cenário o que torna logo o filme bastante fechado em termos visuais. Se isso me apanhou de surpresa, imagino a cara do público que foi ver isto ao cinema pensando que era mais um título de aventuras ou um novo episódio da série –Ip Man– que lida essencialmente com cenas de kung-fu.
Essencialmente [“The Grandmaster(s)”] é um filme de interiores, um estudo visual sobre rostos humanos,  sobre fotografias paradas no tempo mas também uma história sobre sentimentos…o que para quem esperava ver uma aventura apenas com pontapés nas trombas imagino como se deve ter tornado frustrante.

grandmaster30

Eu confesso que levei pelo menos 45 minutos a recuperar do choque. E olhem que eu não esperava um filme de acção. Esperava um Wong Kar Wai mais aberto em termos de espaço cénico e toda aquela intimidade de espaço quase claustrofóbico desconcertou-me bastante ao início.
Até que de repente fez-se um clique cá dentro.
Assim que percebi o quanto [“The Grandmaster(s)”] era realmente um filme sobre artes marciais fiquei absolutamente fascinado pois nunca tinha visto nada assim antes dentro do género e já não consegui sair de frente do écran.
Mesmo que quisesse a partir de certa altura as verdadeiras pinturas de luz com que Wong Kar Wai inunda o écran cativaram-me por completo e o filme poderia ser sobre relva a crescer que se a relva tivesse sido tão bem filmada quanto este filme o é eu teria continuado a ver na mesma.

grandmaster18

Eu próprio também condicionado pela ideia que temos de artes marciais aqui pelo ocidente (até por culpa dos clubes desportivos também e da imagem sobre (blargh) desporto em geral), nunca me tinha passado pela cabeça de uma forma realmente consciente que por detrás de toda a espectacularidade  haveria um lado muito profundo, bem para lá do aspecto contorcionista da coisa que normalmente é a única vertente explorada pelo cinema de acção. Nunca me tinha apercebido o quanto as artes marciais na china fizeram inclusivamente parte de um modo de vida e definiram o rumo de gerações. O que é muito bem retratado nestea obra e por o fazer de forma visualmente extraordinária está a ser atacada por muita gente que não pedia mais que isto fosse apenas um titulo de karaté nas fuças.

grandmaster31

[“The Grandmaster(s)”] mesmo que não prestasse para mais nada, é fabuloso na forma como explica ao espectador o que está na verdadeira essência das artes marciais.
É fabuloso na forma como nos apresenta toda a alma e principalmente como demonstra muito bem o quanto é extraordinária esta tradição que se ramificou numa dezena de estilos que chegaram até nós claramente deturpados, bem longe da carga filosófica original e acima de tudo da importância cultural que este filme tão bem reproduz.
Eu que pensava que já tinha visto tudo sobre artes marciais e não tinha qualquer interesse no tema pois sempre o vi mais como uma temática desportiva alimentada por pseudo-paleio-new-age de treinadores ocidentais, fiquei absolutamente surpreendido com a profundidade desta história e com o que o filme nos ensina sobre esta verdadeira herança cultural da humanidade.

grandmaster25

Quem pensa que sabe tudo sobre artes marciais e quem pensa que as artes marciais não são mais do que técnicas de luta deve ver este filme sem sobra de dúvida, pois se calhar irá surpreender-se com a carga inimista, filosófica e até sentimental que muitas destas tradições carregam afinal em milénios de história.
Wong Kar Wai está de parabéns por ter feito um filme que realmente mostra as artes marciais como nunca se tinham visto até hoje no cinema. E ainda por cima mostra-o sem evitar um estilo mais comercial apenas este está disfarçado de cinema de autor ou vice-versa. E resulta ? Se resulta !!
Adoro a envolvência dos personagens e acima de tudo consegue ser um filme sobre vingança que não envolve os habituais clichés, até na forma como não utiliza sequer -um vilão.
O verdadeir mau desta fita é a modernidade que chega com o passar dos anos e a forma inevitável como o tempo acaba por destruir tudo o que um dia foi importante para alguém.
Na verdade se há um tema central neste filme é o de que o tempo tudo consome mas tudo tem o seu tempo.

grandmaster29

E o realizador consegue passar tudo isto de uma forma muito simples e acima de tudo, de uma maneira totalmente despretensiosa.
Comarem este “cinema de autor” com coisas verdadeiramente atrozes e pseudo-intelectualoides como “Visage” e vão notar uma grande diferença certamente.
Wong Kar Wai para mim actualmente é uma das melhores portas de entrada para o chamado cinema de autor, mas cinema de autor que não se tenta armar em inteligente. Apenas tem uma forma diferente de contar uma história.
Neste momento acho que o trabalho do realizador se encontra exactamente entre o comercial e o menos comercial, sendo [“The Grandmaster(s)”] o perfeito exemplo desse equilíbrio tão fascinante do seu cinema actual.
O filme na realidade parece mais complexo e intimista do que na realidade é. Apenas tem um estilo que não é americano. Nada mais.
Mal o espectador aceita as regras da história e percebe o que o realizador está a tentar passar sobre a tradição das artes marciais, o filme parece que se abre a um universo totalmente novo perante os nossos olhos.

grandmaster17

As cenas de acção são absolutamente incríveis, não pelas coreografias mas pela forma como estão filmadas. Quem conhece bem o estilo Kar Wai vai adorar a forma como ele mais uma vez cria poesia visual em cada frame.
E imagens lindíssimas é coisa que não faltam neste filme. Sejam, segmentos com chuva a cair, gotas de sangue contrastando com o azul do chão, nevoeiro que cria cenários de sonho ou a forma como filma cada rosto até no meio das mais intensas cenas de acção, [“The Grandmaster(s)”] tem imagens que vão ficar na vossa cabeça durante dias após terem visto o filme.
É uma espécie de cruzamento entre “2046” e “In the mood for love” com um novo look ainda mais intimista mas sempre baseado em luz e sombra como só Kar Wai consegue criar actualmente no cinema.

grandmaster37

Sendo um filme sobre pessoas, a maneira como Kar Wai filma cada figura humana é incrível e pelo menos eu nunca tinha visto nada assim. Há frames em que parece que até o figurante mais simples tem uma história por contar.
Há enquadramentos com figurantes que nos fazem querer ficar a saber mais sobre as suas vidas.
Kar Wai consegue com uma imagem de um figurante anónimo criar mais alma num “personagem” do que mil linhas de guião o fazem naquele tipo de filmes que os espectadores ocidentais gostariam de ter visto em lugar deste.

grandmaster24

[“The Grandmaster(s)”] tem a melhor colecção de retratos e imagens extraordináriamente poéticas sobre pessoas que eu vi em cinema em muitos muitos anos.
Cada rosto, quase que conta uma história por sí só e quando um filme como este vive de rostos expressivos e incrivelmente bem filmados, temos ambiente para dar e vender.
Algumas imagens parecem verdadeiras pinturas a óleo e só apetece passar o filme todo a carregar no botão de pausa, pois é quase inacreditável o nível de detalhe que está presente em muitas imagens que não chegam a estar no écran mais do que um segundo apenas. No entanto ficam na memória e é esse o poder do cinema de Wong Kar Wai que também aqui não deixa os seus créditos por mãos alheias.

grandmaster03

Este filme tem a melhor colecção de imagens inesquecíveis de que me recordo de ver desde…se calhar desde o “In the Mood for Love” ou “2046” do mesmo realizador.
E mais uma vez não só temos imagens belíssimas a todo o instante como acima de tudo temos personagens que nos parecem seres humanos de verdade. Não só alguns figurantes parecem ter uma história de vida para contar como inclusivamente até os personagens secundários têm uma identidade bem marcada, com actores sólido por detrás de cada um deles e onde há sempre um momento para brilharem na história.

grandmaster23

Muito público ocidental parece ter ficado bastante chateado por [“The Grandmaster(s)”] não ser mais outro filme com o “super-heroiIp Man na linha mais comercial que tem feito parte de uma série bastante popular.
No entanto, [“The Grandmaster(s)”] é um filme sobre artes marciais em que um dos personagens é o Ip Man, nada mais do que isso.
Não é um filme de artes marciais com o Ip Man.
E isto porque Ip Man é incontornável na história das artes marciais e sinceramente estava mais que na altura de alguém explicar ao ocidente quem era este homem que muitos conhecem apenas por ter sido a pessoa que treinou o jovem Bruce Lee (que aparece brevemente representado enquanto criança no final do filme num pequeno segmento fascinante).
Conhece-se a técnica, extrapolaram-se muitas das suas “aventuras” mas nunca tinha havido um filme sobre essencialmente aquilo que ele representava. Sobre a sua alma e de que forma a tradição o moldou. [“The Grandmaster(s)”] é esse filme.

grandmaster04

Mas não só, essencialmente [“The Grandmaster(s)”] sendo um filme sobre a tradição das artes marciais, é também uma história sobre todos os mestres que décadas atrás tanto lutaram para que as suas tradições  familiares não se vulgarizassem, tendo Ip Man acabado por se tornar talvez no último dos grandes símbolos desses tempos onde as artes marciais ainda representavam uma filosofia, uma tradição e um modo de vida e não eram apenas tema de paleio “new age” de treinadores de Karaté nos ginásios modernos; muitos dos quais certamente acharão o filme uma seca, aposto.
Toda aquela aura a fazer lembrar filmes como “O Padrinho” parte precisamente dessa introdução inicial da história, pois o filme começa essencialmente por nos apresentar esse universo tão fechado e secreto, apresentando-nos muitos dos anciões que guardam cada segredo familiar a sete chaves. Cada golpe é um mistério, cada técnica um tesouro e quase um acto sagrado. Portanto o filme não é apenas sobre mortes e vinganças, mas sim sobre tradição.
Apesar de ser um filme de interiores, por vezes abre-se em vastas paisagens momentâneas que quase pertencem a uma outra obra mas não deixam de ser benvindas em certas alturas, pois ajudam a narrativa a respirar.

grandmaster33

Como não podia deixar de ser no cinema deste realizador, [“The Grandmaster(s)”] é também uma história de amor e como também não podia deixar de ser nas mãos de Wong Kar Wai, é mais uma das grandes histórias de amor do cinema.
Novamente temos o extraordinário Tony Leung a fazer par com a não menos incrível Zhang Ziyi que não contracenavam juntos desde “2046”; novamente num par romântico totalmente real perante um romance impossível como seria de esperar.
Grande parte do epílogo final desta história é precisamente sobre a relação destes dois personagens e sobre a forma como as artes marciais inclusivamente definiram o percurso do seu amor.
Esta ideia está realmente bem desenvolvida e dá a esta história de amor uma vertente diferente do que encontramos habitualmente, que culmina num pequeno monólogo fantástico de Zhang Ziyi e coloca este filme também como uma excelente proposta para aqueles que chegam a este blog procurando por cinema romântico oriental.

grandmaster32

Apesar de estar sempre subjacente á história ao longo do filme por acaso não esperava que Kar Wai fosse entrar pela pura história de amor no momento em que o fez, mas ainda bem que assim foi, pois um filme dele sem um grande romance nunca seria o mesmo.
Inclusivamente seria um desperdício de dois personagens que se tornam ainda mais inesquecíveis porque enquanto espectadores torcemos por eles até ao último minuto de uma forma que me fez recordar “A Time to Love“, pela sua atmosfera de melancolia e saudade de algo que nunca aconteceu em pleno.
Mais uma vez a ideia de um amor impossível está presente numa história de Kar Wai e ninguém filma a saudade de momentos que nunca poderiam ter existido como este realizador.

grandmaster36

Portanto, eu passei-me com este filme.
Os primeiros 45 minutos foram-me difíceis pois não estava mesmo a ver qual a ideia por detrás de tanta aura “mafiosa” no tom da história até que de repente me caiu um piano em cima e eu finalmente acordei para o filme.
A partir daí agarrou-me por completo.
Inicialmente apenas pelas incríveis cenas de acção (que não são tão poucas como os descontentes afirmam), depois pela forma poética como Kar Wai filma cada pormenor mas principalmente como mostra cada rosto e cada alma; também pelo fascínio que conseguiu transmitir a propósito do mundo hermético das verdadeiras artes marciais e por último com a bonita história de amor entre os dois rivais que fechou em grande esta narrativa que não me sai da memória dois dias após ter visto o filme.
Só o visual do filme, aliado á vertente romântica da história vale o tempo que dispenderem a tentar habituar-se a ele. Se gostarem de filmes de Wong Kar Wai, então nem hesitem pois este é imprescindível.

grandmaster05

Se não gostam de filmes de Kung-Fu, então passam a gostar.
Correndo o risco de me repetir, nota alta para todo o visual do filme. [“The Grandmaster(s)”] tem visuais absolutamente incríveis e para mim enquanto ilustrador consigo encontrar pelo menos umas vinte ou trinta cenas neste filme que me irão servir de inspiração nas próximas décadas.
Há de tudo em [“The Grandmaster(s)”], desde ambientes á chuva, interiores incrivelmente iluminados e como não podia deixar de ser num filme oriental, cenas de tirar o fôlego em estações de comboio.
Muitas das imagens neste filme fizeram imediatamente lembrar-me das cenas mais intimistas e até da estética de Blade Runner. Nomeadamente a forma como os rostos estão iluminados e as cenas na estação com a Zhang Ziyi num estilo a fazer lembrar a “Rachel” no filme de Riddley Scott décadas atrás.

grandmaster02

Aliás mais uma vez Wong Kar Wai cria uma personagem feminina ao mesmo tempo forte e frágil, com montes de personalidade; ter a actriz perfeita para o papel também ajudou certamente pois mais uma vez a actriz rouba todas as cenas em que entra.
Há sequências fantásticas em que o personagem nem precisa de falar. Basta caminhar em direcção à câmera e mesmo sem explosões atrás em estilo Michael Bay consegue transmitir mais identidade e alma do que todos os bonecos de cartão que costumamos encontrar no cinema plástico que inunda os nossos centros comerciais todas as semanas.
Zhang Ziyi é definitivamente uma actriz com presença e se para tal ainda houvesse dúvida bastaria confirmar-mos o seu trabalho nesta história.

grandmaster09

Em termos narrativos, em certos momentos este filme é bastante parecido também a “Ashes of Time” um dos primeiros filmes de Hong Kar Wai e portanto fica aqui o aviso: quem detestou esse muito provavelmente terá bastante dificuldade em conseguir suportar o tipo de narrativa que está agora em  [“The Grandmaster(s)”]. Ambos os filmes funcionam bastante por flashbacks, narrativas fora de ordem cronológica e vivem muitas vezes de silêncios.
Curiosamente não me recordo da banda sonora…nem me lembro se o filme tem música para dizer a verdade.  O que só pode querer dizer que é tão perfeita a criar ambiente que eu nem notei que lá estava ou então que pura e simplesmente quase não deve ter existido e eu nem dei pela falta…

grandmaster19

Recomendo vivamente que vejam o cut de duas horas e meia, pois consta por aí que Hollywood pretende remontar o filme para  video e fazê-lo caber em 90 minutos, se calhar para deixar apenas as cenas de porrada como é costume. Por isso é vê-lo na integra enquanto podem, pois se os cortes acontecerem, é bem provável que a edição que chegar em dvd a Portugal possa ser a versão cortada (tal como aconteceu com The Big Blue de Luc Besson anos atrás e nem consigo imaginar como um filme tão incrível como [“The Grandmaster(s)”] seria sem as suas cenas mais intimistas, poéticas e filosóficas que lhe dão tanta alma e que tornam as cenas de kung-fu ainda mais espectaculares por contraste de adrenalina.

—————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO

Já entrou para a lista de filmes da minha vida também.
Depois do fabuloso e americano “My Blueberry Nights” Wong Kar Wai regressou a Hong Kong e ainda bem que o fez.
Juntamente com Makoto Shinkai na animação Wong Kar Wai é para mim actualmente o melhor realizador do mundo em filmes –live action– (nesta vertente semi-comercial talvez) e mais uma vez não me desapontou.
Poderá não ser um filme para todos os tipos de público, especialmente para aqueles que se deixarem enganar pelos trailers remontados no ocidente, mas é o filme perfeito para quem se interessa realmente por artes marciais pois garanto-vos que nunca viram nada assim; e não estou a falar da porrada.

grandmaster27

Contém no entanto cenas de acção incríveis e é um excelente exemplo de um filme que fica perfeitamente com o pé em dois mundos; tanto no mundo do cinema comercial como no mundo do cinema de autor.
É uma excelente introdução a esse universo que normalmente está cheio de filmes estúpidos e pretensiosos, por isso é refrescante ver que ainda há gente a fazer cinema intimista sem qualquer carga intelectual pindérica para impressionar intelectuais de café e ratos de festivais cinéfilos.
Ignorem as reviews negativas de muitos comentários espalhados pela net (especialmente no youtube) pois muita gente foi ver o filme pensando que era apenas mais uma aventura de artes marciais e ficou compreensivamente frustrada tendo descarregado no filme injustamente.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award para o melhor filme que vi este ano até agora.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg gold-award.jpg

A favor: é uma enciclopédia fascinante sobre o verdadeiro mundo e tradição das artes marciais, tem cenas de acção fascinantes e cheias de adrenalina, é cinema de autor sem ser pretensioso, está carregado de personagens verdadeiramente humanos, tem imagens inesquecíveis espalhadas pelo filme todo, muito poético e cheio de momentos em que só apetece fazer pausa para contemplarmos as imagens, óptima história de amor intensamente romântica no estilo mais trágico e clássico, os actores são incríveis, contém diálogos excelentes especialmente na história de amor, personagens que não se esquecem tão cedo, duas horas e meia passam num instante pois a narrativa pode ser diferente e fragmentada mas não é de forma alguma confusa ao contrário do que muita gente diz pela net, quem gosta do estilo de cinema do Wong Kar Wai vai ficar plenamente satisfeito com o que vai encontrar neste filme também que a meu ver merece plenamente o 12 prémios que ganhou pelo oriente, é tão bom ou melhor quanto “Ashes of Time” (o qual faz lembrar bastante em certos momentos), “In the Mood for Love”, “2046” ou “My Blueberry Nights”(embora bem diferente deste último em todos os aspectos). Acima de tudo é realmente um filme diferente e com muita alma. Se não gostavam de Kung-Fu passam a gostar.

Contra: Quem o vir pensando que é um novo filme de acção e aventura da série Ip Man pode ficar muito decepcionado e até irritado com a carga poética e intimista de grande parte deste filme.

—————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

Trailer
https://www.youtube.com/watch?v=8Ngxn9NzLzs

grandmaster39

Comprar
Acho que ainda não há uma edição europeia…

Trailer americano…
https://www.youtube.com/watch?v=uC5amKLgnFU

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1462900

——————————————————————————————————————

Se gostou, vai gostar certamente dos seguintes filmes abaixo.
Aliás, mesmo que não tenha gostado deste  vai gostar dos filmes abaixo.

capinha_ashes-of-time-redux capinha_a-time-to-love

——————————————————————————————————————

Cinema_oriental_no_facebook

Rigor Mortis (Geung si) Juno Mak (2013) China


Os chineses reinventaram o filme de vampiros.
Ou melhor…segundo o que eu tenho lido sobre o tema, parece que a china já tem uma tradição particular no cinema de vampiros série-b que eu desconhecia por completo e ao qual este [“Rigor Mortis”] supostamente será uma singela homenagem ao mesmo tempo que pretende transportar o género para os tempos modernos.

Rigor-Mortis09

Uma coisa é certa, este filme é o antídoto perfeito para a desgraça do “Twilight”. Aqui não há vampiros lindos que brilham ao sol. Aqui há vampiros do c#”%#$” que lhes f%#$%#” a tromba sem dó nem piedade e os comem literalmente vivos num filme com baldes de sangue e entranhas quanto baste.
Vampiros inspirados no Nosferatu e não no Justin Bieber.

Rigor-Mortis28

[“Rigor Mortis”] foi uma verdadeira surpresa para mim pois não estava nada à espera disto.
Na verdade é melhor avisar já que o trailer engana.
[“Rigor Mortis”] não é o filme de terror em estilo Japonês que aparenta ser, não será própriamente um filme de fantasmas habitual e muito menos é o filme de aventura e acção que o trailer mostra. De todo.
O trailer mente !

Rigor-Mortis24

[“Rigor Mortis”] é a mistura mais estranha que alguma vez vi entre um filme de porrada ultra-comercial em estética Matrix e o mais introspectivo cinema-de-autor. Tanto podemos ficar estupefactos com a adrenalina das cenas de acção como logo a seguir levamos com longos takes intímistas que nos fazem mergulhar na vida deprimente e vazia de todos os personagens.

Rigor-Mortis11

Sendo uma abordagem aquilo que parece ser –o velho género– de cinema de vampiros chinês que eu desconhecia por completo, curiosamente o realizador/argumentista vai buscar inspiração á ideia do quanto a popularidade é efémera e acentua isso tendo chamado para o elenco precisamente bastantes daquelas caras que supostamente já terão sido bem populares no cinema deste género anos atrás, mas que actualmente andavam realmente afastados do grande écran na vida real, tendo caído no esquecimento público até serem convidados para entrar agora nesta história que de certa forma espelha não só o seu passado dentro do cinema do género como replica as suas vidas fora do écran até certo ponto.

Rigor-Mortis23

O que cai que nem uma luva, no tipo de universo que [“Rigor Mortis”] retrata. O velho prédio degradado e perdido nas zonas mais esquecidas de Hong Kong onde só vivem os mais idosos esquecidos de tudo e de todos, é também um mundo à parte onde a magia, as crendices populares e a bruxaria estão bem vivas e juntamente com a solidão alimentam aquelas almas que vagueiam por esse microcosmos onde apenas podem contar uns com outros e os dias são sempre iguais.

Rigor-Mortis29

O filme narra a história de um actor desempregado e esquecido com muitos problemas familiares e pessoais, que tentando fugir da sociedade e do esquecimento a que foi votado resolve alugar um apartamento num velho prédio com o propósito de se suicidar.
O realizador terá ido buscar para o papel principal, inclusivamente um actor que até este filme (segundo alguns artigos) teve uma vida particularmente semelhante ao personagem que agora interpreta, o que torna a sua prestação ainda mais real, pois muita da existência vazia do personagem, parece ter tido realmente eco na vida do actor que agora lhe dá vida neste filme.

Rigor-Mortis07

O que torna [“Rigor Mortis”] numa espécie de cinema-veritée em versão baldes de sangue, numa mistura entre drama sobre a solidão e o isolamento cruzado com o mais entusiasmaste filme de vampiros dos últimos tempos, pela forma absolutamente original com que tudo está orquestrado e apresentado ao espectador, deixando-nos curiosos, fascinados, entusiasmados, desconcertados; por vezes aborrecidos mas sempre hipnotizados.

Rigor-Mortis13

É dificil descrever este filme sem estragar as surpresas todas a quem ainda não o viu, pois este é um daqueles que merece ser visto sem sabermos nada sobre ele. Não porque a história tenha muitas surpresas mas porque o filme consegue surpreender visualmente nos momentos mais inesperados e portanto vale mesmo a pena ser visto, em especial se gostam de histórias com vampiros.
[“Rigor Mortis”] é o perfeito exemplo daquela originalidade que felizmente está bem viva pelas bandas do cinema oriental e aqui apesar do estranho cruzamento entre o cinema-de-autor e o cinema de efeitos especiais mais pipoca tem momentos que não irão esquecer tão cedo.

Rigor-Mortis02

O filme tem um design gráfico fabuloso. Não só a nível de estética, fotografia e cenários mas principalmente na forma com muita das sequências de acção estão filmadas. Por vezes parece que se irá tornar até demasiado estilizado mas não há dúvida que tudo está muito bem equilibrado e o realizador fez um trabalho excelente alternando entre o filme intimista de carga bastante triste e contemplativa e o cinema de porrada vampírica com adrenalina de fazer subir as paredes.

Rigor-Mortis14

Nota máxima também para o sangue.
Filme de vampiros que se preze tem que ter sangue mas sinceramente acho que nunca tinha visto um sangue tão realistico em filmes do género como neste [“Rigor Mortis”]. Se calhar pela forma como é usado, não só para dar vida á própria estética do filme mas porque há baldes dele espalhado pela história; muitas vezes mostrado de uma forma políticamente incorrecta que não passaria nos censores de Hollywood quando tentassem que isto se transformasse em mais um filme PG13 como parece que todo o suposto terror americano se tornou hoje em dia.
É um filme gráficamente violento a fazer lembrar “Dream Home” e felizmente não tem medo de o ser, para divertimento de quem adora filmes de vampiros, feios, maus e sujos, com sangue a sério e bem longe das tretas delicodoces do cinema para adolescentes americanos.

Rigor-Mortis33

Há sangue por todo o lado, esfaqueamentos múltiplos e mostrados de forma crua e explícita, pescoços quebrados da forma mais arrepiante, violações e muita violência psicológica à mistura que por vezes dá ao filme uma aura crua bastante doentia até, embora nunca desinteressante.
[“Rigor Mortis”] é uma estranha mistura entre filme de vampiros, filme de fantasmas e filme de bruxaria onde se cruzam drama sobre solidão e abandono com as mais entusiasmastes sequências de porrada em estilo CGI que já vi dentro do género.

Rigor-Mortis26

Segundo o que li, tal como aconteceu por exemplo em “In The Mood For Love” também este filme chinês está carregado de referências culturais que só o público oriental consegue notar e que certamente ainda o tornarão mais interessante na China, mas não há dúvida que há por aqui algo especial mesmo para o público ocidental que goste de cinema fantástico e não conheça muito da cultura sobrenatural chinesa em que esta história se assenta. O público ocidental pode curtir a referência ao Shinning para não se sentir deslocado.

Rigor-Mortis01

Em termos de falhas, independentemente do estilo mais intimista poder ser considerado uma falha por alguns espectadores ou não, quanto a mim [“Rigor Mortis”] só tem um problema que o impede de ser absolutamente brilhante.
[“Rigor Mortis”] supostamente é um filme de terror.
[“Rigor Mortis”] não mete medo absolutamente nenhum !!!
Népia !
Nicles !
Zero !
Tem pilhas de atmosfera, montes de sangue, fantasmas excelentes e bruxaria quanto baste, mas nunca em momento algum consegue criar qualquer clima de medo, suspanse ou terror a que estamos habituados encontrar no género.

Rigor-Mortis03
Tudo é espectacular ou tudo é intimista. Ambiente de terror é que não há em parte alguma apesar de toda a estética, dos baldes de sangue, dos esvíceraçamentos, das almas penadas em cgi e das mortes violentas.
Garanto-vos que ninguém se irá assustar minimamente com este filme e suspanse também não tem muito, o que é estranho, pois a partir de certa altura [“Rigor Mortis”] não consegue evitar a habitual previsibilidade apesar de toda a originalidade na maneira como mistura as ideias.

Rigor-Mortis16

Na verdade isto não será propriamente um ponto negativo, pois o filme funciona noutros níveis que atiram esta história de vampiros para um género particularmente único. No entanto eu tenho pena de não me ter assustado nada com isto, pois se há coisa que me decepciona no cinema de terror é precisamente quando este não assusta. Embora as almas penadas tenham um par de momentos arrepiantes mas também se tornam inconsequentes por serem tão estilizados.
Por outro lado [“Rigor Mortis”] compensa em adrenalina, construção de personagens e estilo visual e só por isso está de parabéns.

—————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO

Um dos filmes de vampiros mais originais e estranhos que alguma vez vi.
Pode não ser propriamente assustador mas compensa plenamente em tudo o resto. No entanto o estranho equilíbrio entre o cinema de acção em estilo cgi ultra comercial e o mais introspectivo cinema de autor pode deixar muita gente desorientada e sem vontade de continuar a seguir a história em muitos dos momentos do filme.
No entanto, quatro tigelas de noodles pois é muito bom, tem muita adrenalina e é um excelente exemplo de como a imaginação está bem viva pelos lados do cinema chinês. Não tarda muito, isto ainda vai dar remake americano.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg

A favor: Tem vampiros e caçadores de vampiros num estilo que ainda não tinha visto, está cheio de atmosfera e visualmente é fantástico e com muita personalidade, tem actores excelentes que merecem voltar à ribalta depois disto, está carregado de adrenalina mesmo nas cenas de lutas com muito cgi à mistura, tem um par de almas penadas arrepiastes, é uma excelente história sobrenatural embora não evite alguns clichés óbviamente, o equilíbrio entre o cinema comercial e o cinema de autor surpreendentemente resulta em pleno e torna o filme bastante original.

Contra: Possivelmente um dos filmes de terror menos assustadores de todos os tempos, por vezes a acção é tão estilizada que se sobrepõe àquilo que deveria ser mais assustador e menos artístico, as partes mais art-house podem matar de tédio e deixar desconcertado muito espectador que não esteja habituado a cinema menos comercial pois o cruzamento entre filme de porrada e cinema de autor intimista parece algo dificil de ser digerido ao inicio.

—————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

Trailer
https://www.youtube.com/watch?v=8ax65-ulouA

Rigor-Mortis00_anim

Comprar
Não está ainda disponível pelo ocidente.

Rigor-Mortis06b

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt2771800
——————————————————————————————————————

Se gostou deste, irá gostar de:

capinha_dream_home capinha_confessions capinha_darkwater capinha_ju-on capinha_kairo
capinha_infection capinha_a-tale-of-two-sisters capinha_audition capinha_blood_last_vampire

——————————————————————————————————————

Cinema_oriental_no_facebook

 

The Monkey King (Xi you ji: Da nao tian gong) Pou-Soi Cheang (2014) China


Quando em dois minutos de trailer não se vê uma única referência a qualquer história e apenas levamos com intermináveis sequências ultra mega cool de porradaria digital em estilo carton a gente sabe que isto só pode ser…
Não faço ideia…

Themonkeyking06

Aviso já que esta review vai ser totalmente esquizofrénica por isso não se espantem com as contradições.
Se há uma coisa que eu detesto mais do que galinhas são macacos. Especialmente macacos em filme.
Deve ser um trauma dos seriais do Tarzan dos anos 30 com a célebre Chita que vi em pequeno mas qualquer filme com chimpanzés, macacos e afins faz-me imediatamente mudar de canal. Especialmente documentários.
Portanto, um filme chamado [“The Monkey King”] não estaria propriamente na minha lista de prioridades cinematográficas.
O problema é que eu não resisto a filmes de fantasia chineses e as cores deste cativaram-me por completo no trailer. Como tal lá fui eu ver o filminho porque não podia continuar a ignorá-lo…apesar do macaco…

Themonkeyking28

Também me chamou logo a atenção por se tratar de mais outra adaptação de um texto clássico oriental que me fascina desde há muito quando li a primeira história baseada nele em criança.
O personagem do Rei Macaco, tem uma razão de ser e apesar de eu continuar a acha-lo absolutamente irritante e ridículo por outro lado percebo qual é a sua base o que me faz apreciar este filme de uma forma diferente do espectador comum que desconhece totalmente o contexto cultural em que um blockbuster chinês como este se insere.
Portanto, a minha relação com um filme como [“The Monkey King”] é algo confusa por vários motivos.
Se por um lado o acho insuportável e totalmente secante pelo excesso de acção a todo o instante, por outro lado o seu universo cativa-me. Especialmente o universo visual que conseguiram desencantar para esta nova versão cinematográfica.

Themonkeyking37

[“The Monkey King”] para quem não sabe assenta naquilo que é um dos grandes clássicos da literatura na China. Uma espécie de poema épico tradicional que narra os feitos mais incríveis de alguns heróis míticos dentro da cultura chinesa, entre os quais o popular –Monkey King.
Esta já é uma de entre várias versões que ao longo dos anos foram produzidas mas é definitivamente a mais cativante…ao mesmo tempo que nos consegue aborrecer de morte também.
Tal como já acontecia com um filme semelhante, o imensamente popular lá pela china, “A Chinese Tall Story” que também é baseado no mesmo texto épico e do qual eu já falei por aqui no meu blog alguns anos atrás.

Themonkeyking23

Se quiserem fazer uma comparação e me estiverem a ler em Portugal, esta aventura em [“The Monkey King”] é apenas um segmento de uma história bem mais épica ainda (se é que tal parece possível), pertencente a uma história conhecida como “Journey to the West” e que segundo consta pelas bandas da China toda a gente sabe de cor porque é ensinada ás crianças tal como nós aqui pelo ocidente ensinamos histórias como a branca de neve, o capuchinho vermelho, a bela adormecida, etc, etc, etc.
Acontece que neste caso, “Journey to the West” não é apenas uma história infantil mas pertence desde logo á própria literatura máxima dentro da cultura chinesa e em muitos locais é inclusivamente tida como um relato histórico e até religioso.
Imaginem que nós aqui em Portugal em vez de contarmos histórias infantis ás nossas crianças lhe contávamos aventuras retiradas de “Os Lusíadas” de Luis de Camões e não andarão muito longe do conceito.

Themonkeyking40

Com a diferença que em termos de imaginação “Journey to the West” limpa o chão com qualquer canto lusitano por mais imaginativo que possa parecer aos olhos de qualquer portuga patriota, pois o nosso –Adamastor– levaria uma carga de porrada até do personagem mais insignificante que se pode encontrar no épico de fantasia chinês.
Ainda por cima macacos me mordam, se “Journey to the West” não terá qualquer coisa a ver com os épicos indianos no estilo Marabahata, epopeias vedicas e narrativas idênticas saídas dos primórdios do tempo na India. Isto porque a quantidade de elementos de “fantasia” e “ficção-científica” é semelhante em muitas das narrativas e ao contrário do que por exemplo acontece com os Lusiadas em Portugal, “Journey to the West” está cheio de referências a mundos exteriores, civilizações avançadas e todo um manancial de pormenores que não destoariam do próprio Star Wars.

Themonkeyking08

Essas referências foram muito bem evidenciadas também no ultra histérico “A Chinese Tall Story” (que em português significa algo como “Um conto chinês exagerado”) que contém sequências espaciais e tecnológicas que não destoariam de uma qualquer space-opera moderna apesar de tudo ter sido baseado nas ideias já presentes nos textos clássicos da cultura chinesa há mais de mil anos.
Se “A Chinese Tall Story” em grande parte assenta também bastante em civilizações técnologicamente avançadas, onde não faltam “Vimanas” ao melhor estilo indiano (talvez a justificar a sequência totalmente Bollywood do inicio daquele filme e ligando culturalmente a base das suas histórias tradicionais); em [“The Monkey King”] o destaque vai mais para o lado de pura fantasia ao melhor estilo conto popular chinês onde nem falta um genial dragão oriental e grandes paisagens épicas.

Themonkeyking14

O que dá num cruzamento bastante feliz entre algo como o velhinho “The Neverending Story/A Historia Interminavel”, o cinema Wuxia oriental e um design digital semelhante ao que se tornou popular pelo ocidente com “Avatar”, (embora este tenha ido inspirar-se em conceitos orientais já existentes para definir a sua identidade gráfica) e portanto isto é como um ciclo onde tudo volta a casa.

Themonkeyking36

Portanto [“The Monkey King”] é essencialmente um filme de fantasia oriental. Com tudo o que tem de típicamente exagerado dentro deste género de filmes que só os chineses parecem saber como cozinhar com sucesso.
Talvez por isso, por ter uma identidade e um estilo tão marcadamente chinês, o filme seja totalmente trucidado no ocidente, acusado de total falta de coerência, exageros sem nexo, história sem ponta por onde se lhe pegue, etc.
Na verdade concordo com tudo.
Por outro lado, para conseguirmos apreciar devidamente este tipo de cinema há que deixar não só o cérebro à porta como toda a nossa bagagem cultural e referências ocidentais têm que ser momentaneamente colocadas de parte.
E é isto que 99% do público pura e simplesmente não consegue fazer ainda e como tal é totalmente incapaz de apreciar o que há de bom neste género de filmes verdadeiramente únicos pelo que eles são. Um conto popular chinês na melhor tradição daquela parte do mundo.

Themonkeyking12

O que se passa com o público ocidental é que devido à popularidade do estilo “Dungeons & Dragons” cozinhado pelos americanos a partir do modelo inventado por Tolkien nos anos 30 e 40, este não consegue conceber outra fórmula de fantasia que não seja a habitual – quest- com um grupo de heróis, um feiticeiro, um elfo, um anão, etc.
Dê por onde der, por mais que remisturem os ingredientes, no ocidente toda a fantasia de consumo popular vai sempre beber á mesma fórmula. As pessoas estão totalmente formatadas para olharem apenas para o estilo Tolkien com sendo o único género de fantasia que pode existir; da mesma forma que há alguns anos atrás devido ao sucesso do Star Wars original, muita gente pensava que o género da Space-Opera era a única ficção-científica que devia existir e tudo o que não encaixasse na fórmula popularizada (e não inventada) por George Lucas não era digno de consideração popular.

Themonkeyking11

Actualmente o desprezo pela fantasia chinesa no ocidente é total, apenas porque ela não assenta nas fórmulas ocidentais. As pessoas querem ver –quests– com elfos e anões e nem conseguem perceber que existe um outro género de fantasia bem mais antigo e que até já foi bem popular gerações atrás através de livros; – o conto de fadas chinês.
Só a expressão –conto de fadas– é suficiente para fazer logo metade dos espectadores –muito machos– argumentarem imediatamente que não vêem filmes para crianças e só querem é X-Men e Transformers porque isso é que Hollywood lhes dá permissão gostarem sem correrem o risco de serem apontados como esquisitos pelos amigos ao lado que fingem ser tão homens quanto eles.
Como tal, o conto popular chinês actualmente no ocidente não só é completamente ignorado e desconhecido como depois quando aparece um produto como [“The Monkey King”] é simplesmente atacado e ridicularizado porque não imita os filmes do Peter Jackson.

Themonkeyking31

O que é pena, pois finalmente como está plenamente demonstrado em [“The Monkey King”] a técnologia chegou a um ponto onde a reprodução dos universos de fantasia dos contos de fada chineses finalmente é totalmente possível.
Só é pena que o espectador ocidental já não tenha referências que lhe permitam dar valor a produtos como este apenas porque nada do que podem ver no écran se encaixa na ideia pré-definida que Hollywood selou há muito na cabeça das últimas gerações sobre o que deverá ser um filme de fantasia.

Themonkeyking07

O que não quer dizer que muita da culpa desta situação também não seja dos chineses.
Por exemplo, filmes como [“The Monkey King”] são uma verdadeira oportunidade perdida para a china tentar penetrar no mercado de cinema de fantasia cá pelo ocidente. É são uma oportunidade perdida porque os filmes não fazem qualquer tentativa para – ensinar – as modernas audiências a gostar de novo da magia que se pode encontrar nos contos populares chineses. Ou seja, eu não digo que transformassem este tipo de cinema de fantasia nos Avengers, mas penso que pelo menos poderiam tentar incluir referências suficientes nas histórias de forma a que houvesse algo que o moderno público ocidental pudesse imediatamente identificar para conseguir criar uma empatia com o filme. Tanto a nível de argumento como no próprio estilo das cenas de acção. Essencialmente acalmar um bocadinho o CGI histérico à velocidade da luz…talvez ajudasse a que os espectadores ocidentais conseguissem até ver o filme e tudo…

Themonkeyking09

Eu compreendo que o estilo de cinema de fantasia em versão conto de fadas chinês tenha as suas regras mas por outro lado é essa pureza que os chineses mantêm neste tipo de filmes que os prendem ainda no ghetto dos épicos de fantasia chineses isolados do mundo que se calhar teria muito a ganhar em redescobrir a incrível imaginação que existe nos contos tradicionais do oriente.
[“The Monkey King”] é bem o exemplo disso.
Na verdade o raio do filme pode-se dizer que é do pior !
São duas horas em velocidade ultra acelerada e em total regime visual histérico que uma pessoa quase que tem um colapso nervoso. Epilépticos mantenham-se afastados.
Tudo aquilo que vocês podem ver no trailer, é o filme.
Mais nada.

Themonkeyking32

Imaginem que o trailer durava duas horas.
Aí têm o filme.
Ao fim de meia hora vocês já estão com vontade de clicar no botão de fast-forward e só com muita força de vontade é que a maioria de vós não o irá fazer. Ou então porque já estarão a dormir.
O que é um contrasenso total. Como raio é que um filme com tanta acção pode dar tanto sono ?!
Quando o virem vão entender. Se ainda estiverem acordados.
Aliás, se já viram o “A Chinese Tall Story”, percebem perfeitamente o que estou a tentar dizer agora.
[“The Monkey King”] tem tanta porrada, mas tanta porrada, tanto efeito especial digital mas tanto efeito especial digital que peca por excesso. Aliás, na verdade não há mais nada a não ser CGI histérico durante as duas horas deste filme, o que quer dizer que em duas horas de “história” devemos ter 110 minutos de cenas de acção.
Volto a dizer, vejam o trailer. O filme é o trailer durante duas horas sem parar.
Nem mais, nem menos.

Themonkeyking22

Insuportavel ?
Horrivel ?
Ridiculo ?
Mau como o raio com CGI do pior ?
Claro que sim !
E história tem ?
Claro que não !

Themonkeyking38

Ou melhor, tem.
Mas sofre do pequeno problema de mais uma vez ser baseada naquilo que na sua forma original é um épico literário gigante e como tal, se “A Chinese Tall Story” cometeu o erro de tentar incluir centenas de sequências diferentes de forma a conseguir reproduzir pelo menos as primeiras partes da história original e falhou redondamente por tentar encaixar á força tudo num curto espaço de tempo, também [“The Monkey King”] se espalha ao comprido mas pelo motivo contrário.
Essencialmente [“The Monkey King”] adapta apenas um bocadinho da odisseia épica. Talvez a parte mais “intimista” da coisa o que retêm a acção praticamente no mesmo sitio o tempo todo.

Themonkeyking17

Enquanto em “A Chinese Tall Story” o espectador viajava por mundos e cenários sem conta, aqui em [“The Monkey King”] limitado-nos a acompanhar as intermináveis cenas de acção praticamente nos mesmos três ou quatro sítios. Montanhas, céu, floresta dos macacos, reino celestial, inferno e pouco mais. Pode parecer muito, mas acreditem-me, não é suficiente para dar variedade á história. Ou manter-nos acordados a partir do meio do filme.
Uma história que praticamente não existe, pois todo o filme gira á volta do Monkey King, da forma como cresce, como é treinado, como desafia os deuses, como lida com os demónios e pouco mais. O resto é CGI a duzentos á hora durante os restantes 110 minutos ou algo assim.
Verdade seja dita que o CGI evoluiu bastante no cinema chinês.
[“The Monkey King”] já não se parece com um enorme jogo da Playstation ONE…
Agora parece-se com um enorme jogo da Playstation 4 !
Volto a repetir; nada do que eu possa descrever aqui lhes poderá dar ideia do quanto este filme se torna verdadeiramente insuportável, sendo um verdadeiro teste à nossa paciência enquanto espectadores.

Themonkeyking29

Isto pode querer parecer que eu estou a concordar com tudo o que os ocidentais dizem quando atacam o filme pela net, mas não é bem assim. Isto porque por outro lado [“The Monkey King”] tem coisas absolutamente fascinantes.
Para começar anda sempre na corda bamba entre o – vou mas é desligar esta porcaria – e o – pá, eu tenho mesmo que ver o que vai acontecer a seguir !
É que visualmente se alguma vez houve um conto de fadas plenamente bem ilustrado esse conto de fadas é esta versão de [“The Monkey King”].

Themonkeyking41

O filme conta com imagens absolutamente incríveis e verdadeiras obras primas da ilustração digital para cinema.
Se a ideia foi a de criar um livro ilustrado cinematográfico, [“The Monkey King”] acerta em cheio pois independentemente de algum CGI ser do pior, a verdade é que em termos de design de produção será provavelmente o filme de tantasia oriental mais bem desenhado que alguma vez vi. E já vi muitos.
E também não perde nada em comparação com que se se faz em fantasia no ocidente. Apenas lembrem-se, isto é um conto de fadas chinês e tem uma estética própria totalmente tradicional. Isto é suposto ter este visual !

Themonkeyking19

As cores neste filme são absolutamente incríveis. O design dos cenários, o guarda roupa e até alguns efeitos de maquilhagem fazem com que mais do que um filme [“The Monkey King”] seja um dos melhores livros ilustrados que alguma vez vi no écran.
Tivesse este filme uma história a condizer e poderia ter sido o melhor filme de fantasia dos últimos anos competindo na boa com o melhor da fantasia ocidental como o Lord of the Rings/Hobbit, independentemente das diferenças de estilo.
Infelizmente a história disto é não só, muito pouca como é totalmente desinteressante e se calhar mais uma vez a culpa está na sua pureza pois é apenas um bocadinho muito pequenino de um imenso conto popular chinês e como tal deixará o público ocidental de olhos em bico sem dúvida nenhuma.
O filme pressupõe demasiado que o espectador já conhece o poema épico “Journey to the West” e confia que este preencha na sua imaginação tudo aquilo que não é mostrado ou referido. Ora isto pode funcionar muito bem na China pois toda a gente conhece o conto de trás para frente, mas [“The Monkey King”] apresentado ao público ocidental nunca se aguentaria de todo pois as pessoas não irão conseguir apreciar o que tem de bom por detrás de todo o estilo histérico que nos deixa sem conseguir respirar a todo o momento e muito menos mostra qualquer indício de que [“The Monkey King”] faz na realidade parte de um épico tão grande que precisaríamos pelo menos de mais uns 20 filmes como este para o abranger de uma ponta a outra.
A Chinese Tall Story” tentou fazê-lo em duas horas. [“The Monkey King”] nem tentou.

Themonkeyking16

Ao contrário do que também vem sendo habitual agora no cinema de fantasia, [“The Monkey King”] mantêm-se também essencialmente como um conto de fadas infantil.
Nunca se nota um esforço para fazer com que esta história possa apelar também aos mais crescidos e por isso muito do que falha aqui, falha porque além do excesso de porrada e efeitos, também não há muita coisa interessante para ver a nível de desenvolvimento de personagens e nunca agarra o público adulto como deveria.
O filme é claramente um filme para crianças, mas se calhar mais uma vez esta é a minha percepção enquanto ocidental, pois aposto que muito adulto na china ao ver isto ficou absolutamente maravilhado com o resultado, simplesmente porque cresceu com esta história e de certeza que acompanhou as suas várias versões cinematográficas e televisivas ao longo dos anos. Das quais esta é definitivamente a melhor.
Não há como fugir. Goste-se ou não, a verdade é que técnicamente o filme é um espectáculo e em IMAX 3D deve ter sido do outro mundo mesmo.

Themonkeyking38

Quem gosta de coisas como o Dragon Ball ou o Naruto, provavelmente vai amar este filme para o resto da vida, pois [“The Monkey King”] tem os melhores combates áereos em estilo anime que alguma vez vi num filme de “imagem real”…embora isto de imagem real seja discutível neste caso…
No entanto, as batalhas são totalmente imaginativas, absolutamente impressionantes e as sequências de porrada finais são verdadeiramente épicas e entusiasmantes, mesmo apesar do vazio dos personagens.
O problema não está nas cenas de acção, mas sim no facto de o filme nunca dar descanso e portanto tudo o que deveria ser do outro mundo, passa muito rápidamente a cansar se não fizermos um intervalo para ir beber um café a meio do filme só para recuperar o cérebro e trazer os olhos de volta.

Themonkeyking10

E os ouvidos.
[“The Monkey King”] fez-me lembrar porque razão eu detesto macacos. É uma sorte o meu televisor ainda estar intacto pois este filme tem sem sombra de dúvida o protagonista mais irritante que alguma vez vi num filme de fantasia. Sim, ainda pior, muito pior que o Jar-Jar-Binks nos asquerosos Star Wars modernos. Se acharam Jar-Jar-Binks insuportável nada os irá prepararar para os guinchos e tiques macacoides infantis do Monkey King !
De jogar o televisor ao rio.
Ah e a suposta –love story– com a “raposa” também não ajuda…eu adoro filmes fofinhos mas com macacos destes sinceramente não há pachorra. Mal empregada raposa…

Themonkeyking13

Portanto afinal o que dizer disto ?
Pá, adorei.
Eu sei.
Eu sei que isto tem tudo para ser do pior. E é.
Eu sei que não se consegue aguentar muito tempo sem entrar em stress total.
E sim, o CGI nota-se que é CGI !!
Este filme ou levava uma das piores classificações de sempre aqui ou levava a nota máxima se calhar pelos mesmos motivos. Por isso se calhar é melhor ficarmos pelo meio.

Themonkeyking22

É que eu nos momentos em que estava acordado adorei tudo o que está visualmente representado neste filme e tenho que admitir que [“The Monkey King”] não me sai da cabeça desde que o vi portanto se calhar devo ter gostado mais do que estou preparado para admitir.
Se calhar foi porque fechou em grande. Adorei o último minuto do filme !
Sim, o último minuto. E porquê ?
Porque [“The Monkey King”] termina exactamente da mesma forma que “A Chinese Tall Story”.
Até parecem imagens do mesmo filme. O que faz com que [“The Monkey King”] seja uma espécie de prequela ou pelo menos mostre o que aconteceu em simultâneo com o outro filme sobre  “Journey to the West” unificando este universo de fantasia que ainda será inspiração para muito cinema, desta vez em mais dois filmes totalmente separados e sem qualquer relação entre si mas que ligam as duas histórias numa só de forma que quase parece combinada. Recomendo portanto que antes de verem [“The Monkey King”] vejam sem sombra de dúvida “A Chinese Tall Story”.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Possivelmente o pior filme de fantasia oriental que já vi, (se não contarmos com o “Zu Warriors” ou  “Shinobi“) o que o torna automáticamente eventualmente também no melhor que vocês poderão ver. Confusos ? Eu não. Ou talvez sim…
Se já viram o antigo “A Chinese Tall Story” e gostaram, então este é de visão obrigatória pois não só é mais do mesmo como técnicamente é bastante superior embora não menos plástico ou artificial.
Como podem constatar no IMDB, ou se ama ou se odeia.

Themonkeyking01

Trés tigelas de noodles que certamente irão aumentar de futuro pois eu ainda não sei se adorei isto ou detestei porque o raio do filme não me sai da cabeça e apetece-me revê-lo…acho… É um bom filme, ou se calhar até não. Estão por vossa conta.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg

A favor: é o filme de fantasia mais colorido que alguma vez vi, parece um livro ilustrado em movimento e nesse aspecto é uma obra prima visual, o design de produção é excelente e até o guarda roupa tem identidade, a caracterização do monkey king é tão boa que quem fala mal dos efeitos deste filme nem se lembra que á frente do actor está um personagem que só existe porque se calhar os efeitos não são tão maus quanto aparentam, alguns momentos de luta são verdadeiramente empolgantes e por vezes o filme torna-se divertidissimo para quem gosta de ver combates estilo Dragon Ball em live action, o final da história está perfeito pois faz a ligação com muito do que já foi mostrado sobre o épico “Journey to the West” em filmes produzidos anteriormente sem qualquer relação com este agora.

Contra: o excesso visual em tudo pode ser demais para muita gente, não dá descanso ao espectador com tanta luta e tanto CGI em modo histérico a todo o minuto, os personagens são um vazio absoluto ou então são irritantes como o raio, o estilo demasiado infantil pode afastar o público adulto num segundo mal percebe que o desenvolvimento de personagens é nulo, adapta apenas um segmento pequenino de uma história épica gigantesca, as lutas acabam por se tornar repetitivas, não há grande variedade de cenários, duas horas disto testa a paciência de um chinês !

——————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

Trailer
https://www.youtube.com/watch?v=zCj-XP5cjOY

Themonkeyking02 Themonkeyking03
Themonkeyking05 Themonkeyking04

Comprar
Ainda não está à venda por estas bandas ocidentais.

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1717715

Minha review do “A Chinese Tall Story” que os irá ajudar a situar Monkey King no tempo desta fantasia.
https://cinemasiatico.wordpress.com/2008/04/08/ching-din-dai-sing-a-chinese-tall-story-jeffrey-lau-2005/

——————————————————————————————————————

Filmes semelhantes que lhes poderão interessar:

A Chinese Tall Story Shinobi The Promise capinha_zu_warriors_from_the_magic_mountain_01

——————————————————————————————————————

Cinema_oriental_no_facebook