Hôrudo appu daun (Hold Up Down) Hiroyuki Tanaka (2005) Japão


Não fora a quantidade de piadas com Jesus Cristo presentes nesta divertida comédia japonesa e este [“Hold Up Down“] seria um sério candidato a remake americano.
Assim como está, dúvido que alguma vez vejam esta história em versão Hollywood pois o seu humor blasfemo teria certamente bastantes problemas com muito do público evangélico por terras do Uncle Sam com toda a certeza.

O que quer dizer que também não será própriamente um filme recomendado a pessoas mais religiosas ou que se ofendam facilmente com gags envolvendo o Jota Cê mais popular do planeta.
Quanto a mim contém algum do melhor humor blasfemo dos últimos tempos e só tenho pena que mesmo assim não seja tão ofensivo merecia ter sido, pois havia aqui material para ter sido ainda mais engraçado.

Na verdade apesar de conter algumas das melhores piadas com Jesus Cristo talvez desde “A Vida de Brian” dos Monty Python estas são na verdade até bem inofensivas para minha desilusão, pois muitos dos gags só teriam a ganhar se [“Hold Up Down“] tivesse tido coragem de ser menos politicamente correctos apesar de tudo, embora contenha gags hilariantes quanto baste envolvendo todas as situações inimagináveis com padres, psicopatas, policias malucos, ladrões azarados e Jesus deslizantes…

Este é um daqueles filmes que justifica plenamente a minha intenção original ao criar este blog para divulgar propostas cinematográficas originais daquelas que não se costumam encontrar nas salas com muita frequência; isto porque na verdade não se percebe bem que raio de filme é este.
Começa como sendo uma típica comédia de assaltos; uma espécie de – heist movie – em versão anárquica, estilo Pulp Fiction oriental em esteroídes algo contidos, mas logo entra por territórios completamente inesperados, tanto em estilo de argumento como em visual, o que levará a um par de bons momentos inesperados na segunda metade do filme quando entra por caminhos completamente parvos e totalmente inesperados.
O que torna [“Hold Up Down“] num daqueles titulos que nos agarra a partir do momento em que percebemos que na verdade não estamos a perceber o que raio estamos a ver e por isso precisamos mesmo de continuar a olhar para o ecran. Especialmente quando entra em cena o “Jesus Cristo” estilo picolé sobre rodas…

Mas [“Hold Up Down“] não vive apenas do humor blasfemo. Na verdade desde cedo se percebe que o seu estilo visual vai ser fundamental para que muitos dos gags tenham piada não pelo que se passa mas pela forma como muitas vezes os acontecimentos são filmados.
A sequência incial da esquadra de policia com todos os queixosos é um bom exemplo de como se pega em algo que no papel não passaria de um conjunto de personagens sem grande coisa para fazer e no entanto cria um momento de humor único envolvendo um turista perdido, um cidadão agredido, uma gaja boa vitima de assédio sexual, uma velhinha que perdeu um gato, um psicopata com um bastão e um “Jesus Cristo” assaltado frente a um par de policias totalmente ineptos.

Tudo numa sequência criativa que dura largos minutos em total plano fixo ao melhor estilo cinema-de-autor mas que aqui resulta num gag que essencialmente define o estilo visual que o filme irá tomar na forma como trata o humor da história.
[“Hold Up Down“] é por isso visualmente um filme muito estranho.
Para começar tem uma estrutura completamente imprevisível suportada por uma história daquelas que faz o espectador pensar a todo o instante que sabe o que vai acontecer , para de seguida lhe trocar as voltas  a todo o instante. É este um dos seus grandes trunfos para agarrar o espectador, isto porque se assim não fosse, o filme seria até demasiado estranho para poder ser considerado um comum filme comercial nos moldes a que estamos habituados devido á sua realização estilizada que nos lembra algo… a todo o instante…

Este é o tipo de filme que se tivesse sido produzido em Hollywood a máquina publicitária iria ter bastantes dificuldades em vendê-lo com um rótulo apontado a um target de audiências específico.
[“Hold Up Down“] tem um estilo visual e um ritmo tão estranho que não se enquadra própriamente no que estamos habituados a ver neste estilo de comédias totalmente anárquicas. Tem algumas semelhanças com “Men Suddenly in Black” mas se calhar consegue ir mais longe tanto nos momentos de humor como no próprio conceito.
Mas há mais.

Curiosamente o filme fazia-me lembrar aquele estilo “frio” do cinema de Stanley Kubrick mas em versão tresloucada a todo o instante. Até que percebi o porquê , o que me deixou bem surpreendido por não ter sido apenas impressão minha. E mais não posso dizer pois garanto-vos se conhecerem bem os filmes emblemáticos do realizador de Shinning vão curtir muito o que lhes vai aparecer pela frente na segunda metade da história pois se pensam que piadas com um Jesus Cristo seria o cúmulo da loucura nem imaginam o rumo que esta história toma a partir de certa altura com a sequência do casamento…

[“Hold Up Down“] é um daqueles titulos que valem mesmo a pena ser vistos pelo menos uma vez. Poderão não conseguir entrar fácilmente no seu estilo algo indefinido devido aos vários rumos que o argumento consegue tomar sem perder o fôlego e poderão até nem gostar do filme no final ou até achar-lhe grande piada. No entanto tenho a certeza que ficará na memória precisamente por ser tão diferente ao mesmo tempo que parece uma comédia de assalto típica.

Não procurem qualquer lógica na história. Não é para ter. É um daqueles filmes para curtir mesmo e não é para fazer sentido. Podia ser intitulado – “Mil e uma coisas para fazer com Jesus” – e vai agradar a toda a gente que tiver sentido de humor negro, gostar de filmes com policias, ladrões e … coisas do outro mundo em todos os sentidos.
Pode ser estípido como o raio, mas a ser alguma coisa poderá ser uma espécie de comédia dos Monty Python se alguma vez tivesse sido filmada pelo Stanley Kubrik e escrita pelo Quentin Tarantino, produzida no Japão.
Se estas referências lhes dizem alguma coisa não percam porque vale a pena.
Primeiro estranha-se, depois entranha-se.

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CLASSIFICAÇÃO:

Uma comédia cheia de momentos inesperados que muitas vezes até nem parece ter grande graça até que nos acerta com mais um gag totalmente inesperado para nos fazer rir á parva.
É um daqueles filmes para deixar o cérebro á porta e simplesmente curtir tudo o que de inesperado acontece nesta história que não tem ponta por onde se lhe pegue mas tem um grande sentido de humor negro de caríz biblico e até kung-fu sobrenatural. Além de ser uma história de policias e ladrões que também gostam de brincar com modelos de comboios e padres que de repente encontram Jesus na sua vida. E também mete um psicopata que ataca pessoas com bastões. E mais coisas inimagináveis…
Um filme bastante original que na verdade nem se consegue enquadrar em qualquer género, pois por vezes até parece cinema-de-autor para logo no momento a seguir se calhar até não.
Divertido quanto baste, inofensivo, braindead e muito criativo na forma como mistura géneros diferentes para um resultado que merece na boa cinco tigelas de noodles e só não leva um Gold Award também porque nem sei…

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A favor: a originalidade da estrutura da história, as piadas com “Jesus”, o inesperado de muitos gags, a realização que alterna entre o Kubrick pastilhado e o Tarantino na ganza, tem um argumento totalmente imprevisível, personagens alucinantes e completamente ilógicos, mistura uma quantidade de géneros num argumento que não tem ponta por onde se lhe pegue e faz tudo resultar num produto bem divertido.
Contra: na verdade não tem nada de negativo…poderá ser demasiado estranho para quem está habituado a um tipo de comédia mais comercial ao estilo ocidental, as piadas religiosas poderiam ter sido muito mais ácidas pois quanto a mim ficaram ainda demasiado politicamente correctas para o que eu gostaria que tivessem sido, a cena de acção com kung-fu parece demasiado longa, é original mas provavelmente não ficará na memória.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
NOTA: Não vejam o trailer antes de verem o filme pois vai quebrar muitas das surpresas visuais que fazem grande parte das piadas resultar pelo seu inesperado quando se vê o filme sem sabermos nada dele.
http://www.youtube.com/watch?v=h4tTAvgcGhs

Comprar
http://www.cdjapan.co.jp/detailview.html?KEY=JABM-8003

Download aqui.

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0461523

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Blood: The Last Vampire (Blood: The Last Vampire) Chris Nahon (2009) Hong-Kong/China, França


Devo confessar que se há uma coisa que eu gosto no cinema comercial moderno é de filmes franceses que tentam parecer-se com produções americanas á força toda. Daqueles que se colam á estética podre de chique gringa ao pior estilo cinema-de-super-herois made-in-hollywood onde tudo parece igual.
Só muda o design dos monstros que na verdade parecem-se todos com o mesmo boneco musculado saído de livros da Marvel onde só se altera a cor do uniforme de capítulo para capítulo.

Por isso eu gosto muito de cinema francês em estilo Hollywood porque falha redondamente em tudo o que pretende fazer para se colar ao estilo americano.
Não sei o que há com estas produções europeias, que apesar de fazerem sempre tudo bem e de seguirem á risca a cartilha pipoca americana a verdade é que eu acho que se espalham todas no resultado final.
Tudo o que é filme francês de acção moderno que se tenta colar ao cinema do outro lado do oceano atlântico acaba sempre por se ficar por um resultado estranhamente hibrido que nem é carne nem é peixe. O mesmo acontece agora com este [“Blood: The Last Vampire“] uma estranha co-produção entre a Europa e Hong-Kong em piloto automático estilo Hollywood.

Mais uma vez temos um filme francês que á força de querer parecer-se com um filme americano acerta ao lado em tudo e na verdade ainda bem que assim é.
Ainda bem porque é essa falta de pontaria constante do moderno cinema-clónico francês que lhe dá imensa identidade e transforma qualquer produção europeia de efeitos especiais e acção á bruta numa coisa mais interessante do que costuma acontecer com as pipocas pré-fabricadas americanas. Talvez porque a europa use moldes diferentes.
Por muito que se tente estragar um filme rasca na europa tentando imitar o plástico americano, pelo menos eu fico sempre com a sensação de que o resultado é sempre bem mais carismático e isso ajuda a salvar da banalidade muita coisa que de outra forma poderia tornar-se absolutamente insuportável.

Há qualquer coisa de bom num mau filme pipoca europeu quando este tenta imitar o cinema de Hollywood e melhor ainda quando além de tentar imitar o cinema americano tenta ao mesmo tempo parecer-se com cinema oriental em estilo Hong-Kong.
Por isso eu gostei bastante de [“Blood: The Last Vampire“].
Estamos na presença de um bom filme de acção totalmente braindead no sentido mais positivo do termo e que mesmo com tanta mistura de estilo consegue ainda assim manter uma atmosfera europeia com um sabor intenso a baguette francesa de que não se consegue livrar apesar da overdose de pirotécnica digital á americana e kung-fu com fios á la Hong Kong.

Além disso, fiquei bastante surpreendido por este titulo ser protagonizado pela minha “Sassy Girl” favorita do cinema oriental que parece ter escolhido este papel para se tentar projectar internacionalmente, que é como quem diz, mostrar que também poderá ser uma boa escolha para filmes mais …americanos.
Quase que custamos a acreditar que esta é a mesma actriz que protagonizou também “Il Mare” num registo que não poderia ser mais oposto.

E por acaso acho que esta miúda foi a escolha perfeita para este papel. Eu não conheço bem o anime original mas do pouco que vi do desenho animado, penso que Jeon Ji-hyun (aqui com o pseudónimo internacional “Gianna Jun”), está fantástica apesar de em muitas alturas sentirmos que não estará muito confortável com os diálogos em inglés.
Sim porque [“Blood: The Last Vampire“] é um filme francês co-produzido com a China a tentar imitar o cinema americano com diálogos tanto em inglés como em japonês protagonizado por uma actriz Sul Coreana… Confusos ? Não se preocupem a coisa resulta.

Muita gente ataca [“Blood: The Last Vampire“] por causa dos seus péssimos efeitos digitais, nomeadamente o sangue em bolinhas 3D Studio em efeitos nada especiais que parecem saidos de um render amador criado para uma introdução de um jogo da Playstation-One. Tudo verdade. É quase mau demais para ser real e damos por nós a pensar como raio é que alguém deitou cá para fora um filme com efeitos tão datados assim e pensou que poderia competir com o que de mais moderno se faz no cinema deste mesmo estilo em Hollywood.
Por mim, que se lixe. Sim, o filme tem efeitos atrozes e até ridiculamente amadores e sim, aquele demónio é mau demais para ser verdade mas desde quando é que maus efeitos especiais fazem um mau filme ?

[“Blood: The Last Vampire“] apesar de todo o emaranhado de influências visuais consegue no entanto ser um produto comercial muito bem executado e com uma realização segura. Penso que o realizador francês conseguiu aqui um trabalho com personalidade e fiquei com a sensação de que só não fez melhor mais por culpa do argumento do que por causa dos péssimos efeitos especiais que tanta gente contesta.

Quanto a mim, [“Blood: The Last Vampire“] tem uma primeira metade totalmente cativante. Sequências de acção divertidas, uma estética de comercial de shampoo que resulta, actores carismáticos e uma atmosfera visual que por momentos faz lembrar Blade Runner em certos aspectos, nomeadamente no ambiente nocturno.
Infelizmente , achei que a segunda metade do filme perdeu toda a piada. Não sei o que se passou mas a partir de certa altura parece que mudaram de argumentista e todo o desenvolvimento deixa de conseguir envolver o espectador. Isto porque a história deixa de ser interessante não apenas por se tornar ainda mais previsível mas principalmente porque tudo culmina num climax que não tem particular entusiasmo ou grande espectacularidade.

No entanto, eu gostei muito da primeira metade do filme. Abre com uma sequência entusiasmante, continua com alguns personagens carismáticos, situações digitalmente sangrentas bem divertidas e a coisa resulta até meio onde de repente se instala alguma monotonia geral até ao final embora os actores bem se esforcem para dar vida a um argumento já em piloto automático no pior dos sentidos.
Não que seja própriamente muito grave, mas a verdade é que achei que este filme merecia ter-se mantido muito divertido até ao fim e na minha opinião isso não acontece como deveria ter sido.

Se há uma coisa que me aborrece de morte no cinema estilo super-herois á americana é a banalidade do típico confronto final com o vilão e achei muito decepcionante que a única vez em que [“Blood: The Last Vampire“]  se parece mesmo com um filme de Hollywood seja precisamente naquela parte em que se calhar deveria ter-se parecido mais com um produto de Hong-Kong pois a sequência final aborreceu-me pela sua previsibilidade e total falta de interesse previligiando mais a pirotécnia digital do que o carisma dos personagens e a criatividade das sequências de acção.

De qualquer forma, [“Blood: The Last Vampire“]  é um produto pipoca divertido e que se recomenda a quem não pedir mais do que ver uma boa aventura com vampiros e uma heroína cheia de personalidade suportada por um bom elenco internacional onde se destaca Liam Cunningham um actor que por vezes parece estar a incoorporar o espírito do ainda bem vivo Jean Reno na construção do seu personagem de agente da CIA que estará algures entre o “Leon” e o “Enzo” presentes nos fabulosos filmes de Luc Besson.
Só é pena que acabe por ser desprediçado dentro do próprio argumento.

Muitos fãs do anime, não gostaram da personagem teenager americana que pelo visto foi inserida a martelo nesta versão da história porque acusam-na de existir apenas para agradar ao mercado americano. Pessoalmente eu gostei da rapariga. Acho que tem um personagem dinâmico e que conduz bem o filme por entre as sequências protagonizadas por Jeon Ji-hyun e ajuda até a actriz principal a brilhar pois evita que nos concentremos demasiado no inglés limitado da actriz Sul Coreana que apesar de conseguir fazer um excelente trabalho nesta sua estreia “internacional” esteve sempre um bocadinho limitada pela lingua inglesa para poder ir mais longe e conseguir carregar sózinha o protagonismo de um filme assim.

Por isso, resumindo, eu curti.

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CLASSIFICAÇÃO:

Um estranho hibrido entre filme comercial americano, cinema francês e estilo Hong-Kong que só não resulta totalmente porque o argumento perde-se na banalidade a partir da segunda metade do filme e tenta depender demasiado de maus efeitos especiais para o climax da história quando esta pedia mais atenção aos personagens talvez.
De qualquer forma é um produto pipoca muito divertido, com uma primeira parte dinâmica e cheia de personalidade, uma actriz Sul Coreana que parece não conseguir ser má até quando tem limitações de idioma contra ela.
Não é um filme pipoca brilhante, mas recomenda-se bastante.
Trés tigelas e meia de noodles sem problemas mas com muita pena minha pois [“Blood: The Last Vampire“] merecia ter sido bem melhor e a culpa disso nao ter acontecido não é dos maus efeitos especiais como muita gente parece achar, mas sim de um argumento que poderia ter sido bem mais imaginativo.

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A favor: o elenco é excelente com destaque para a protagonista Sul Coreana que dá tudo para conseguir fazer um bom trabalho num idioma que lhe é claramente dificil de dominar, a primeira metade do filme tem pinta e uma atmosfera visual excelente, a realização faz milagres em conseguir manter todas as diversas influências coerentes ao longo do filme, contém algumas cenas de acção estilo Hong-Kong divertidas.
Contra: a segunda metade do filme parece apagada, o climax do filme depende demasiado dos maus efeitos especiais digitais que percorrem toda a história, os vilões não têm carisma nenhum e em nenhum momento causam qualquer tensão na história por tudo ser tão banalmente previsivel e vazio na sua própria caracterização.

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NOTAS ADICIONAIS:

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=Fk2L8Mgxd5Q

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Bem baratinho na Amazon Uk em DVD e em BluRay também.

Download com legendas em PT/Br

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0806027

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Filmes “semelhantes” de que poderá gostar:

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Kamome shokudô (Kamome Diner) Naoko Ogigami (2006) Japão


Para comemorar as 100.000 visitas que este blog atingiu recentemente não poderia ter encontrado melhor titulo oriental do que [“Kamome Diner“] , um curioso e cativante filme japonês rodado na Finlândia e onde não se passa nada durante 90 minutos.

E quando digo que não se passa nada, não se passa mesmo nada.
[“Kamome Diner“]  faz com que “Where the Wind Dwels” e “Goodbye Dragon Inn” pareçam intrigas de espionagem e é um daqueles filmes que logo á partida parece ser o candidato ideal para todos aqueles clichés hilariantes sobre cinema-de-autor. Não será um daqueles filmes sobre relva a crescer porque na realidade, se houvesse relva a crescer nesta história, tanta tensão dramática poderia até provocar ataques de ansiedade no espectador desprevenido.

Há muito tempo que não encontrava pela frente um filme tão desprovido de qualquer drama ou tensão quanto [“Kamome Diner“]. É absolutamente incrivel mas não há nada neste filme daquilo que possa ser considerado parte de uma estrutura habitual tal é a ausência de pormenores na sua narrativa.
Então isto é sobre o quê ? Bem é sobre uma rapariga japonesa que tem restaurante na Finlandia onde ninguém vai e que ao longo do filme conhece umas pessoas que se tornam empregadas ou clientes e no final acabam por transformar o espaço num local acolhedor. Acabou.

Pronto, pelo meio há uns indicios de – desenvolvimentos – mas são tão desprovidos de qualquer carga dramática que deixam o espectador totalmente desorientado, tanto pelo que (não) acontece, como pelas razões porque os…ehm…acontecimentos… (não) acontecem .
Acreditem-me, este deve ser o texto mais dificil que escrevi até hoje aqui no blog, porque na verdade á primeira vista não há nada para dizer sobre [“Kamome Diner“] que seja minimamente informativo.
Spoilers não existem, porque para se poder estragar um filme ao espectador primeiro era preciso que houvesse alguma coisa para revelar sobre a história.

Por outro lado, há muita coisa que se  pode dizer sobre  este vazio…[“Kamome Diner“] é um filme totalmente cativante e não se sabe bem porquê. Cheguei a meio e continuava cheio de vontade de acompanhar … esta história
O filme acabou e continuei sem perceber o que raio é que foi que me passou pela frente; no entanto estranhamente gostei muito do que vi, embora lá para o final já estivesse a olhar para ele em total estado hipnótico e quase á beira de cair para o lado com sono. Poderiam ter assaltado a casa comigo a olhar para a televisão que eu não notaria.

A verdade é que [“Kamome Diner“] é um filme extraordináriamente simpático como há muito não via. A total ausência de dramatismo ou de história torna-se absolutamente cativante e apetece-nos continuar a seguir as vidas daqueles personagens, quanto mais não seja porque ficamos muito curiosos com a direcção que o filme poderá tomar.
Não se iludam, não toma qualquer direcção.
No entanto, não se preocupem porque se conseguirem deixar ideias pré-concebidas de lado e interiorizarem que o grande charme desta história é não ter história nenhuma, muito provavelmente irão gostar tanto deste pequeno filme quanto eu gostei.

Se calhar é cinema-de-autor, se calhar é pretencioso como o raio, mas a verdade é que não se nota. A atmosfera do filme é tão simpática que a certa altura damos connosco a ter vontade de apanhar um bilhete para a Finlândia e ir visitar aquele local onde nunca se passa nada, porque a sua ausência de dramatismo é quase como uma espécie de pausa para descansar da vida diária. Uma espécie de Eden onde se pode fazer uma pausa nas nossas preocupações. Provavelmente será este o tema da história; provavelmente [“Kamome Diner“] será um dos filmes mais filosóficamente simpáticos dos ultimos anos pois não espetando qualquer conceito na nossa cara é tão aberto que qualquer pessoa pode interpretá-lo como quiser e provavelmente será essa a sua magia.

Por outro lado, pode tornar-se surporifero como o raio, por isso também será ideal para aquelas noites de insónia. No entanto essa atmosfera de comprimido para dormir é ao mesmo tempo cativante e se calhar contraditóriamente a mesma irá contribuir para mantê-los acordados. Faz sentido ?…
Não se preocupem, [“Kamome Diner“] também não.
É que o filme é chato como o caraças…mas ao mesmo tempo…não é. Confusos ? Eu também.

O que o filme tem é muito boa onda graças a um grupo de personagens estranhamente vazios mas ao mesmo tempo muito humanos e cativantes (sabe-se lá porquê).
A certa altura parece que irá entrar por um registo parecido ao que encontramos nos livros do fabuloso escritor japonês Haruki Murakami, pois tem momentos surrealistas bem ao estilo do autor. Por outro lado, o seu aparente vazio, também parece decalcado do melhor que se viu noutro pequeno grande filme independente americano e com uma atmosfera semelhante, o fabuloso (e fabulosamente esquecido), “The Station Agent” (em Portugal “A Estação“).

Visualmente, [“Kamome Diner“] é totalmente cativante pelo seu brilho. É um filme muito luminoso, com uma fotografia fantástica e cheio de pequenas imagens muito bonitas que contribuem bastante para a atmosfera contemplativa da história.
A banda sonora quase não se nota, mas também contribui bastante para o ambiente discreto do filme.
O elenco é uma mistura de actores japoneses e finlandeses que aparentemente não têm nada em comum, muito menos parecem ter alguma coisa para fazer no filme, mas que no entanto contribuem totalmente para o carísma da história, pois os personagens são estranhamente apelativos a tal ponto que até os figurantes parecem perfeitamente integrados nos espaços.

Essencialmente é isto o que se pode dizer sobre [“Kamome Diner“].
É um filme muito simpático que vale a pena espreitarem se estiverem á procura de uma proposta diferente.

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CLASSIFICAÇÃO:

Se estiverem á procura de um drama, esqueçam. Se estiverem á procura de uma comédia esqueçam.
No entanto há algo aqui que resulta em termos emocionais e que nos consegue cativar sem sabermos bem porquê.
Será o filme perfeito para quem nunca viu algo mais dentro do cinema-de-autor e quer espreitar um titulo simpático e sem pretenções a filme inteligente. Será também o filme perfeito para uma noite de insónia; no entanto…não é um filme chato…apenas não se passa nada…por outro lado é essa ausência de acontecimentos que o torna cativante e sendo assim já perceberam que até eu estou baralhado.
Essencialmente recomenda-se a quem quiser ver um filme totalmente simpático e muito boa onda sabe-se lá porquê.
Quatro tigleas de noodles pois é estranhamente muito bom e se calhar muito menos vazio do que aparenta á primeira vista, pois no fim de contas é um pequeno grande filme sobre amizade. Sem rodeios, intrigas, ou dramatismos de pacotilha. Um filme sobre amigos apenas e se calhar chega perfeitamente para ser um pequeno grande filme que merece ser descoberto por quem procura algo diferente e não tem receio de um filme calminho. Gostei.

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A favor: a originalidade da estrutura da história, o conceito simples, personagens cativantes, atmosfera luminosa e muito simpática, se calhar será bem menos vazio do que aparenta pois a total ausência de carga dramática acaba por o tornar numa história bem mais humana do que aparenta á primeira vista, é um pequeno grande filme sobre amizade, a ser cinema-de-autor é um titulo muito despretencioso que não assustará quem tem medo do género.
Contra: na verdade não tem nada de negativo…as motivações dos personagens nunca são explicadas, não acontece grande coisa na história mas se calhar é isso que torna o filme tão curioso e especial.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=HHA6PEcM7Gw&feature=youtu.be

Comprar
Muito dificil de ser encontrado nas lojas a um preço decente mas podem comprá-lo no Ebay bem baratinho.

Download aqui com legendas PT/Br

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0483022

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Se gostou, poderá gostar de:
* Na verdade não tenho nada semelhante neste blog*
Talvez gostem de “The Station Agent” um simpático filme independente americano que também recomendo vivamente e que tem algumas semelhanças com este Kamome Diner.

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100.000 visitas ?!


Notei agora que este blog atingiu as 100.000 visitas, o que não deixa de me surpreender pois nunca fiz qualquer publicidade de monta a esta coisa e portanto não deixa de ser surpreendente como tanta gente chega até aqui e acaba por voltar.
Portanto, obrigado a todo o pessoal que gravita por cá e espero que continuem a gostar das sugestões.

Isto tem estado um bocadinho parado porque tenho imenso trabalho de ilustração e não há tempo para escrever ou ver cinema. De qualquer forma continuem as visitas porque daqui a uns dias coloco por cá mais umas coisas.
Obrigado pelo apoio. 😉