Kim Bok-nam salinsageonui jeonmal (Bedevilled) Chul-soo Jang (2010) Coreia do Sul


Quando eu me preparava para ver apenas mais um exploitation movie daqueles bem chungas em que uma tipa limpa com uma foice metade de uma aldeia eis que apanho uma das surpresas do ano no que toca a cinema oriental.

Já conhecia o filme pelo nome há algum tempo, mas nunca tinha visto sequer o trailer ou lido qualquer review sobre ele e portanto parti para [“Bedevilled“] completamente ás escuras, apenas porque não tinha nada de particularmente interessante para ver no momento e apetecia-me ver um filme de porrada e carnificina japonesa para descomprimir e que não me fizesse pensar muito para além de contar o numero de braços decepados ou cabeças rolantes.
Essencialmente estava com vontade de ver uma comédia e não pedia que este filme fosse algo mais do que um grande mau-filme ao pior estilo série-b oriental, pois estava plenamente convencido que o era.

Acontece no entanto que ainda [“Bedevilled“] mal tinha começado e muito para minha surpresa já eu não conseguia tirar os olhos do ecran.
A personagem pricipal dava-me cabo dos nervos, mas os pormenores da história pareciam cada vez mais cativantes a cada cena que passava e  dei por mim a pensar que se calhar este filme era bem capaz de ser bem mais interessante do que parecia á primeira vista.
Quanto mais não fosse porque em meros minutos conseguiu criar logo suspanse de cortar á faca e ainda por cima construiu um personagem com carísma suficiente para deixar qualquer espectador intrigado. Até porque não percebemos bem se gostamos daquela gaja ou não e por isso temos mesmo de continuar a ver.

De repente aquilo que começa quase como um qualquer thriller policial  entra por um registo diferente e o filme muda para um cenário rural que nada parece ter a ver com o que se passou nos primeiros dez minutos e damos por nós a perguntar o que raio vai acontecer a seguir em [“Bedevilled“] e qual será a direção da história. O que é bom.
Há que dizer que apesar de todo o ambiente rural bucólico que nos aparece pela frente, há qualquer coisa na própria realização do filme que aponta para uma atmosfera claustrofóbica. Não só os próprios enquandramentos até nos exteriores parecem sempre algo contidos como logo se percebe na história que a claustrofobia também será psicológica para condizer com tudo o resto e contrastar totalmente com o ambiente rural em estilo mundo perdido onde tudo se passa.

E de um mundo perdido é aquilo que essencialmente [“Bedevilled“] trata no fundo.
Um mundo perdido daqueles que ainda hoje existe em muitas partes do globo terrestre onde os valores conservadores ultra tradicionais e comportamentos morais que quase se podem considerar primitivos, ainda fazem parte do dia-a-dia de muita gente em muitas comunidades rurais isoladas  onde a mulher ainda é vista como uma espécie de gado.

Portanto, se procuram um filme que constroi todo o suspanse com base nos extremos a que a condição humana pode chegar e nos comportamentos que podem ser atribuidos a tradições quase das cavernas, [“Bedevilled“] é o vosso filme.
Na aldeia bucólica vão encontrar de tudo; escravidão, violência doméstica, violações, prostituição, pedófilia, pedófilia com incesto, crueldade social e todo o tipo de violência fisica e psicológica que só os orientais poderiam colocar num filme e ainda por cima fazê-lo de forma convincente, aterradora e completamente cativante no sentido cinematográfico.

Não porque este seja um grande filme, mas porque soube como poucos pegar num argumento que tinha tudo para ser apenas chunga e quase pornográfico na forma como mostra a violência e no entanto dá-nos uma visão humana totalmente inesperada que nos agarra do primeiro ao último segundo.
Nem sequer se pode dizer que será um filme com vilões, pois até o mais desprezivel parolo desta história parece pertencer áquele lugar, o que automáticamente lhe dá logo uma carga dramática humanizada no sentido em que ninguém é caracterizado como uma besta só porque é mau, mas percebe-se que houve ali a intenção de tentar mostrar como pode o isolamento de uma comunidade presa a valores morais completamente afastados do mundo moderno contribuir para criar pessoas para quem a crueldade é apenas a sua forma de vida. Como alguém diz no filme, não há nada de anormal nas pessoas da ilha porque a vida é mesmo assim.
É esta “normalidade” que acaba por ser a coisa mais assustadora deste argumento.

[“Bedevilled“] é um daqueles filmes com um argumento tão bem apresentado que nem nos lembramos que o realizador existe, o que pode criar á partida aquela ideia de que não há nada de especial com esta obra quando no entanto se calhar está aqui uma das suas grandes mais valias.
O realizador “apaga-se” totalmente para deixar as personagens respirar…ou neste caso, violar, gritar, gemer, chorar ou pior ainda,- ignorar- e dar-nos cabos dos nervos a cada segundo de tensão que passa.
Não encontrarão em [“Bedevilled“] um daqueles filmes com imagens inesquéciveis; com excepção talvez da inesperada imagem da ilha que fecha com chave de ouro uma história que foi muito além do que seria de prever e que tem a ver directamente com o enquadramento imediatamente anterior com a actriz protagonista.

Também não encontrarão uma montagem , digamos, “moderna”. Nem sequer nas sequências de gore ou acção que compõem o climax do filme o que o torna ainda mais surpreendente.
Todo o filme é construido com base numa estrutura perfeitamente clássica e sem recurso a grandes inovações estilisticas ou sequer estilizadas e como tal também é um bom antídoto para quem procura um titulo oriental moderno que não tem pretenções a estilo Anime e sabe contar uma história da forma mais tradicional possível sem recorrer a montagens podres de chiques ou designs arrojados em modo gráfico histérico. [“Bedevilled“]  não necessita de nada disso para ser arrepiantemente eficaz e nos dar cabo dos nervos a cada segundo que a sua história avança em direcção ao sangrento desenlace.

Para quem como eu apenas esperava encontrar apenas um banho de sangue e cabeças abertas com uma montagem estilosa em estilo Anime fiquei bastante surpreendido até na forma como o gore e o sangue é usado nos ultimos 40 minutos de filme. Mantendo-se fiel á estrutura do resto do filme até então, também no apocaliptico e totalmente entusiasmante acto final desta história ultra violenta o suspanse é totalmente controlado de uma forma eficaz e [“Bedevilled“] não entra apenas em modo gore com sangue aos litros mas equilibra toda a tensão com a própria carga dramática que foi construindo á volta dos personagens, (muitas vezes até sem o espectador se ter apercebido).

O que não quer dizer que o filme não tenha um genial banho de sangue no final, porque tem. Quem gosta de decapitações com foices vai curtir [“Bedevilled“] até ao último segundo.
No entanto a grande força do filme está não na violência e no acto final, mas principalmente na forma como usa tudo isso para construir personagens excelentes com particular destaque para as duas protagonistas.

A personagem da tipa toda coquete que nos dá cabo dos nervos é a chave do desenvolvimento dramático em todo o filme e o registo contido da própria interpretação da actriz poderá até parecer mais apagado do que o que se torna evidente na outra protagonista que é alvo de todos os abusos ao longo da história, mas ambas têm um trabalho fantástico que equilibra as duas prestações e contribui em muito para que a tensão da história a partir de certa altura chegue a níveis quase insuportáveis.
Se gostam de filmes em que lhes apetece mandar qualquer coisa contra o televisor, não percam este.
Ainda por cima é um daqueles titulos que compensa plenamente o espectador até ao último segundo por ter acompanhado aqueles personagens que ficam na memória.

Curiosamente devido ao seu tom de extrema violência fisica e psicológica, notei que o filme é algo menosprezado em algumas reviews por o considerarem demasiado exagerado no que toca ao que acontece á rapariga que é abusada e maltratada por toda a aldeia. Muita gente parece achar que algo assim seria impossível nos nossos dias.
Apenas como nota curiosa, posso garantir-vos que o tipo de pensamento e o tipo de tratamento social de extrema crueldade pela parte que me toca ainda estava bem vivo bem no interior do meu Portugal há alguns anos atrás.
Por incrivel que vos pareça, a minha mulher há 17 anos a quando de um anterior casamento que a “raptou” literalmente para as brenhas interiores do distrito de Viseu numa aldeia totalmente isolada, passou por situações tão extremas quanto muitas das coisas que poderão ver representadas neste filme e pelo que ela me relatou, só não acabou por ter a mesma reacção que a protagonista de [“Bedevilled“] porque tinha o filho ainda bébé e conseguiu fugir uma noite de volta para o Algarve escondida de tudo e todos, inclusivamente dos familiares do marido que tinham exactamente a mesma forma de pensar que poderão agora encontrar representada nos personagens das velhas senhoras da aldeia deste fabuloso argumento sul-coreano.

Por isso meus amigos, para quem duvida que este tipo de situações e de aldeias apresentadas no filme realmente possam existir, eu garanto-vos que ainda haverá certamente por este Portugal fora, muito local onde os primos casam com as manas e a tias e o cruzamento de genes não ajudará muito á própria evolução cerebral de certos habitantes. Isto aliado a velhas tradições machistas como as que se podem ver neste filme, (entre marido e mulher não se mete a colher/a mulher tem que fazer o que o marido manda / ir ás putas é de homem, a mulher se apanha nos cornos é porque fez alguma coisa errada, etc), de vez em quando dá numa daquelas notícias em que uma mulher se passa e abre uns buracos no marido com a faca de cozinha.
Por isso podem ter a certeza do que lhes digo [“Bedevilled“] não é de todo um filme exagerado. Vão por mim.

Posto isto, o que posso eu dizer mais sobre este fantástico thriller de suspanse sul coreano extremamente intenso ?
Primeiro não parece um thriller de suspanse, mas também não é um drama própriamente dito. Tem momentos mais arrepiantes que muitos filmes de terror daqueles assumidos mas também não será um filme de terror apesar das decapitações e baldes de sangue. Não será uma aventura, mas vocês passarão toda a parte final a torcer pela protagonista.

Não será um filme erótico, mas tem mais sexo do que seria de esperar embora muito violento mesmo; o que me surpreendeu bastante porque não é algo habitual no cinema oriental e em particular do Japão ou Coreia do Sul mais mainstream.
Aliás, não me lembro de ter visto até agora um filme com uma tensão sexual tão grande quando a que está presente em [“Bedevilled“] e isto de várias formas que os irá deixar em tensão total. Eu disse, tensão.

Não só as cenas de sexo pela sua violência quase que nos parecem explicitas como depois há uma carga dramática envolvendo uma espécie de história de amor lésbica não assumida ao longo de alguns momentos chave nas caracterizações das personagens principais. E isto para nem falar na tensão á volta da pedófilia que está absolutamente arrepiante, pois também aqui mais uma vez o realizador parece que nem lá está e deixa a situação falar por si.

Fiquei muito surpreendido com [“Bedevilled“] e não estava nada á espera disto.
Não será um filme a rever tão cedo, embora continue a não me sair da memória e já o vi há dias atrás; nem será se calhar uma obra prima do cinema ou particularmente um grande filme. Por outro lado se calhar até é.
A verdade é que não lhe consigo apontar qualquer falha relevante pois tudo o que faz, faz muito bem e acima de tudo mantem o espectador agarrado do primeiro ao último minuto com personagens excelentes e uma tensão constante que culmina num final inesquecível, onde ainda há espaço para pequenos pormenores e um par de twists inesperados no epílogo fechando tudo da melhor maneira possível.

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CLASSIFICAÇÃO:

Já disse tudo no texto acima, mas basta só realçar mais uma vez que isto foi a surpresa do ano pois não estava nada á espera que me saísse um filme assim.
Um filme completamente inclassificavel que passa por vários géneros e mistura-os de uma forma fantástica criando uma história cheia de personagens memoráveis com um desempenho extraordinário por parte das protagonistas, nomeadamente a rapariga que é maltratada pela comunidade. O argumento é excelente na forma como liga todos os pormenores invisiveis do filme e como nunca deixa o espectador respirar um segundo , mesmo isto sendo um filme relativamente calmo que não agradará de todo a quem estiver á espera de um filme de terror com psicopatas ou apenas á procura de uns baldes de sangue.
Um grande filme mais pela sua eficácia do que propriamente por ficar na memória cinéfilamente falando.
Fantástico e totalmente recomendado a quem quiser ver um filme de vingança inesquecível e cheio de carísma com sexo e sangue quanto baste. O cinema Sul Coreano continua vivo e de boa saúde até quando não faz filmes de amor fofinhos.
Só quero ver os americanos terem coragem para fazer um remake disto !
Cinco tigelas de noodles e um golden award porque vai deixá-los – on the edge of your seats – garanto-vos.

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A favor: a originalidade da estrutura da história, a frieza e a coragem de se escrever uma história assim, os personagens e as incriveis interpretações especialmente da actriz principal, a tensão sexual da história, a forma como se move entre géneros sempre de forma coerente, a tensão de roer as unhas a cada minuto que passa, os ultimos 40 minutos são fantasticos, montes de sangue também, optimo final, o realizador apaga-se e deixa a história falar por si.
Contra: pode ser demasiado calmo para quem procura um thriller ou um filme de terror apenas.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
NOTA: NÃO VEJAM O TRAILER ANTES DE VEREM O FILME.
*Contem SPOILERS* que nunca mais acabam !
http://www.youtube.com/watch?v=eBq0SLWNF-E&feature=related

Comprar
Em Bluray ou então em DVD baratinhos na amazon.uk

Download aqui com legendas em PT/Br

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1646959

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Se gostou, poderá gostar de:

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Daisy (Daisy) Wai-keung Lau (2006) Coreia do Sul


Se gostam de dramas românticos Sul Coreanos, este [“Daisy“] é um daqueles que entra imediatamente pela alma a dentro logo a partir do genérico.
Mais uma vez o cinema romântico demonstra que está bem vivo pelas bandas da Coreia do Sul, até mesmo quando uma história  envolve assassinos profissionais e todo o seu coração emocional se centra em redor da morte.

Mais uma vez, pelo menos a mim continua a espantar-me o facto deste pessoal do oriente conseguir pegar até naquilo que em Hollywood seria o cliché mais corriqueiro conseguindo mesmo assim criar uma história com pessoas que parecem a sério e onde o romance está presente sem precisar de ser mencionado a todo o instante embora sempre presente.
Os orientais aprefeiçoaram a técnica de falar de amor sem precisarem de palavras no cinema e mais uma vez também este [“Daisy“] é um bom exemplo do que este género ainda consegue fazer mesmo depois de já termos visto dezenas de outras histórias de amor orientais.

[“Daisy“] é um daqueles filmes que apetece logo gostar mesmo muito. O início é luminoso, a atmosfera é incrível (sempre a piscar o olho a Van Gogh e á pintura impressionista na escolha das próprias paisagens), a banda sonora parece prometer e ainda por cima temos a sempre extraordinária e sempre luminosa Jeon Ji-hyun no papel principal; (agora também conhecida por bandas dos States com o despropositado nome ocidentalizado Gianna Jun).
Quem não está a ver quem é, basta dizer que se viram “Il Mare” ou “My Sassy Girl” não se esqueceram dela, tanto no seu registo dramático como de comédia.

E mais uma vez esta actriz se movimenta por outra história de amor sem sequer parecer que está lá. Ainda nem passou cinco minutos de filme e já nem nos lembramos que estamos a ver uma actriz a representar uma pessoa fictícia.
Aos dez minutos, já ficamos com vontade de nos mudarmos para Amsterdão e procurarmos pela miúda na praça a desenhar porque nos parece incrivel que esta pessoa não exista mesmo.
[“Daisy“]  mantém portanto aquela característica que torna os bons filmes românticos orientais tão fascinantes e que essencialmente está no facto de aquele pessoal nunca parecer que está a representar.

Este filme tem ainda uma característica curiosa como já devem ter notado. Passa-se de facto em Amsterdão apesar de ser uma produção Sul Coreana.
A componente da Arte e da pintura europeia é muito forte neste argumento e como tal basta contemplarmos as paisagens onde toda a trama decorre para começarmos se calhar a perceber o porquê desta escolha geográfica para ambientar uma história como esta.
E na verdade resulta mesmo bem. Amsterdão é um dos pontos fortes que dá grande identidade a [“Daisy“] e o filme se calhar não seria o mesmo se tivesse sido rodado no oriente.

[“Daisy“]  é um daqueles filmes que apetece logo gostar mesmo muito…
No entanto tenho que confessar que á medida que ia avançando foi perdendo muitos pontos na minha classificação e é na verdade com muita pena minha que não lhe posso atribuir uma classificação mais alta.
Nos primeiros vinte minutos tudo indicava que eu iria atribuir a classificação máxima a este filme, mas infelizmente tenho que dizer que fiquei bastante desiludido por alguns motivos que passo a mencionar de seguida.

Não faço ideia se vi a versão normal ou o director´s cut. Segundo muito boa gente parece que há grandes diferenças no resultado final até a nível de montagem e estrutura e como tal se calhar devo ter visto a versão curta. Isto porque aquilo que muita gente menciona como falhas do filme eu também notei, por isso se eu vi a versão curta tenho curiosidade agora em ver a versão integral. Se vi a versão integral, então este filme ainda me decepcionou mais do que eu esperava.

[“Daisy“]  não é de todo um mau filme, ou mediano sequer. Longe disso. Na verdade é realmente muito, muito bom e totalmente obrigatório a quem procura uma história de amor com algum toque de originalidade dentro do cinema oriental, agora tem um par de coisas que na minha opinião quase que o arruinam por completo e lhe retiram muita da emotividade que merecia e deveria ter tido.

O filme conta a história de um assassino profissional que trabalha para a máfia oriental localizada em Amsterdão e que se ocupa a limpar o sebo não interessa a quem, desde que lhe paguem. No entanto o tipo é no fundo uma boa pessoa, um gajo solitário, culto, criativo, que gostaria até de mudar de vida e dedicar-se a actividades mais contemplativas do que dar tiros na testa de pessoas que nunca viu.
Um dia apaixona-se por uma rapariga sul coreana que vive na cidade de Amsterdão e que passa o dia na praça dos artistas a vender os seus esboços aos turistas. O jovem assassino compra um apartamento mesmo de frente para a praça e passa a observa-la diáriamente da janela, ao mesmo tempo que todos os dias lhe envia um vaso de malmequeres para a sua casa sem se identificar.

Uma manhã um outro jovem sul-coreano mete conversa com a rapariga na praça e esta confunde-o com o seu admirador secreto o que enche de ciúmes o verdadeiro autor das declarações de amor e portanto já podem imaginar o que acontece a seguir.
Claro que há muito mais para contar mas eu não gosto de estragar o prazer da descoberta aos leitores e odeio descrever histórias de filmes por isso fico-me por aqui.
Então qual é o problema de [“Daisy“]  enquanto filme ?
Bem, para mim só tem um grave problema que quase o arruina por completo.
Há cinema que se nota que foi pensado por artistas no sentido mais clássico da palavra. Pensado por pintores, por poetas ou por pessoas com uma sensibilidade visual que conseguem transformar qualquer argumento básico em poesia para os olhos onde quase nem seriam necessárias palavras.
[“Daisy“] parece ter sido planeado por um designer-gráfico.

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E digo isto no pior dos sentidos. Se há uma coisa que me irrita por demais é aquele tipo de realização tão podre de estilizada que se nota a todo o instante a presença do realizador. Isto a um ritmo tão alucinante que a certa altura parece mais que o filme é sobre a genialidade de quem está por detrás da câmara do que sobre a história que supostamente deveria ser o centro das atenções e o objecto da sua própria existência enquanto filme.
[“Daisy“]  é um desses filmes.
O pior é que por causa disso, em muitos momentos chave do argumento quando tudo deveria fazer com que o espectador entrasse pela vida daqueles personagens a dentro e criasse uma empatia com eles, isso é impedido de acontecer da forma mais artificial possível.

Quero dizer com isto que nas alturas em que nos deviamos estar a importar com o que acontece aos personagens , acabamos por estar tão distraídos com a estética gráfica em modo histérico, montagem podre-de-chique e overdose de tanto estilo visual que o conteúdo emocional da história passa automáticamente para segundo plano quando deveria ser o coração emocional do filme.
[“Daisy“]  é um daqueles filmes com uma realização típicamente –in your face– a todo o instante e isso evita que como espectadores nos sintamos transportados para o interior daquele universo como deveria de ser; o que a meu ver anulou logo muito da qualidade do trabalho fantástico dos actores neste filme.

Ás vezes parece que os actores estão na história para serem filmados com pinta e não para servirem o argumento e quanto a mim é algo que não deveria ter acontecido, pois uma história como esta pedia uma maior invisibilidade do próprio realizador e assim como está parece competir a todo o instante pela atenção do espectador quando o filme pedia mais alma e menos estética em estilo design.

Como resultado disto, ás vezes parece que [“Daisy“]  pretende ser um filme mais a puxar para – o inteligente – do que precisava de ser e isto resulta numa total fragmentação da atmosfera da história.
Começa como típico filme romântico oriental sul coreano num tom bem fofinho, depois entra pelo thriller estilizado podre-de-chique, passa pelo drama intímista quase gélido algo pretencioso e termina em cinema de acção estilo Anime com uma carga de tragédia romântica.
É esta indefinição que quanto a mim quase arruina a história, pois enquanto espectadores sentimos essas mudanças “climáticas” no tom do filme por demais e por demais acentuadas quase em registo bi-polar.

Isto é dificil de explicar mas [“Daisy“]  ganha uma certa atmosfera “erudita” que se calhar seria dispensável. Isto traduz-se na própria banda sonora e por arrasto aquilo que parecia um thriller romântico subitamente parece querer passar por drama intimista em tom gélido com uma atmosfera que não se percebe bem qual será a atenção.
Na minha opinião, isto acaba por esvaziar de emotividade grande parte do coração emocional do filme. Como espectador deixei de sentir totalmente a empatia inicial com os personagens a partir do momento em que o filme ganha aquele tom mais estéril quando se calhar deveria ter seguido um caminho que lhe desse mais alma.
E isto é tudo porque a realização ou se evidencia por demais nas alturas erradas ou porque então entra por caminhos que na minha opinião a história não precisava em termos de atmosfera.



Por outro lado tem coisas excelentes.
O inicio é muito bom e cheio de atmosfera, criamos logo empatia com os personagens, a história tem potencialidades românticas e os actores são excelentes com destaque para o trabalho da actriz principal que mais uma vez dá vida a um filme por ela própria. Além disso o final também é bastante bom e quase que consegue elevar o filme mais alto do que merece.

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CLASSIFICAÇÃO:

Tinha tudo para ser mais um filme romântico excelente, mas o realizador intromete-se demasiado na própria narrativa a todo o instante o que retira constantemente o espectador do coração do filme para passar a prestar atenção á montagem cheia de estilo e a outras componentes estéticas que sobressaem constantemente.
A ideia para a história é bastante boa e cativante e vai agradar a toda a gente que procura outro título romântico sul-coreano e apesar da minha clasificação não ser de todo a que eu acho que este filme merecia ter tido é no entanto um excelente título que se calhar irá agradar a muita gente. Vale como exemplo de mais outro trabalho excelente da actriz de “My Sassy Girl” aqui num registo dramatico impecável.
Trés tigelas e meia  de noodles porque é muito bom mas não fiquei com vontade nenhuma de o rever tão cedo, embora este se calhar seja um daqueles que se o rever no futuro ainda poderei gostar mais do que gostei dele agora.
Tenho que voltar a ele com outros olhos. Por agora decepcionou-me um bocado e gostava que não tivesse sido assim.
Acima de tudo, esperava emocionar-me muito mais com esta história de amor sul-coreana e quando isso não acontece…

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg 

A favor: mais uma vez temos outra boa história de amor sul-coreana, a actriz principal ilumina o filme, a humanização dos personagens novamente, é um bom cruzamento entre thriller e filme romântico oriental, está cheio de paisagens fantásticas, é passado na Europa e isso dá-lhe uma atmosfera única, bom aproveitamento da ideia á volta da arte e da pintura,  excelente início, bom fim, as pequenas cenas de acção têm a sua piada e fazem lembrar o melhor de “Leon” de Luc Besson.
Contra: o realizador parece competir pela atenção do espectador a todo o instante, a estética podre-de-estilizada totalmente desnecessária em alguns momentos chave da história (onde nem falta o foleiro split-screen), tem uma certa carga supostamente intimista algo pretenciosa traduzida até na própria música de tom erudito, aquilo que começa como filme ligeiro a certa altura torna-se gélido como o raio, excesso de tipos de filme alinhavados num único conceito por uma realização que tenta evidenciar-se a todo o instante, toda a artificialidade torna o filme demasiado estéril em termos emotivos quando deveria ter tido muita alma, em certas alturas consegue distanciar o espectador do que se passa no ecran e não mergulhamos de coração na vida dos personagens ao contrário do que costuma acontecer em outros dramas românticos sul-coreanos, não me tocou particularmente e isso é o pior que posso dizer sobre uma história de amor sul-coreana em filme.

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NOTAS ADICIONAIS:

Trailer
Atenção que isto não é o filme de acção que aparenta ser no trailer.
http://www.youtube.com/watch?v=0CMabeRr8-k

Comprar
http://www.amazon.com/Daisy-Korean-Movie-English-region/dp/B003GMGMYW

Download com legendas em PT/Br

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0468704

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Outros títulos românticos recomendados:

Be With You My Sassy Girl Il Mare The Classic Fly me to Polaris

Love Phobia concerto_capinha_73x cyborg_she_capinha_73x

ditto_capinha_73x midnightsun_capinha my_girl_and_i_minicapinha

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YouTube com muito cinema oriental – Filmes completos (!!!)


E não é que o Youtube esá cheio de cinema oriental ?!
E não estou a falar de pequenos clips mas sim de longas metragens completas legendadas em inglés e tudo !

Pode começar aqui pelo fabuloso “A Tale of Two Sisters” (leiam a minha review antes fachavor) e depois espreitem o filme aqui:

Não se esqueçam de explorar todos os outros filmes disponíveis de borla no youtube.

Inclusivamente está disponível o director´s cut do extraordinário “My Sassy Girl” (leiam minha review):

E nem falta o remake americano para quem quiser comparar. 😉

Posto isto, já vi que vou ter que abrir uma nova secção aqui no site sobre estas longas metragens colocadas no youtube porque uma descoberta destas não pode ficar por aqui. Por isso me aguardem. 😉

“Engrish.com” – O Website


Se calhar muita gente não conhece mas existe um website hilariante cheio de exemplos geniais no que toca á utilização da lingua inglesa por orientais; que como devem saber cultivam a sua própria forma de falar inglés…mais conhecida por “engrish” e que inclusivamente foi usada por Takeshi Miike no seu (falhado) “Sukyiaki Western Django” com resultados geniais.
De qualquer forma recomendo vivamente o site “Engrish” original pois está cheio de exemplos absolutamente hilariantes como podem ver pelo cartaz abaixo encontrado numa propriedade na Tailândia.

Querem mais ? Visitem o site Engrish.com e não se irão arrepender.
Ps: eu também odeio-vos a todos.

 


Pohwasogeuro (71: Into the Fire) John H. Lee (2010) Coreia do Sul


Um par de amigos meus costumam dizer-me que não têm interesse nenhum em conhecer cinema oriental porque este nunca se comparará em escala e espectacularidade com o que sai de Hollywood e por isso os filmes nunca terão grande interesse.
[“71: Into the FIre“] é mais um bom exemplo de um daqueles títulos que poderia contrariar esta ideia na cabeça de muitas pessoas se muita gente não insistisse em ver apenas o que lhes é vendido nos centros comerciais, até porque prova uma coisa; não é necessário um orçamento megalómano de centenas de milhões de dólares para se produzirem filmes de acção numa escala épica.

[“71: Into the FIre“] foi produzido apenas por 10 milhões de dolares na Coreia do Sul, o que técnicamente quer dizer que não passa de um verdadeiro série-B quando comparado com o que costumam ser as centenas de milhões que se gastam em Hollywood para produzir o mesmo efeito.
Mas se isto foi produzido por 10 milhões de dólares eu nem quero imaginar como o filme seria se pudesse ter contado com um orçamento ao estilo Avatar !

Nunca tive grande fascínio por filmes de guerra. Quando era pequeno curtia aqueles clássicos americanos mas depois desinteressei-me do género. Não gostei particularmente do Saving Private Ryan de Spielberg pelo seu tom de panfleto patriótico e portanto durante alguns anos não prestei muita atenção ao que saia dentro desse tipo de filmes pois pensei que seria tudo mais do mesmo.
Até que me apareceram para frente dois filmes orientais que da noite para o dia mudaram a minha perspectiva sobre o cinema de guerra. Os fantásticos, “Brotherhood of War” e “Assembly” que foram provavelmente os filmes de guerra mais espectaculares que me passaram pela frente e com um nível de violência politicamente incorrecta que fez com que o filme de Spielberg de repente parecesse menos inovador do que se calhar realmente pareceu ser no ocidente.

Além disso, tanto “Brotherhood of War” como “Assembly” tinham uma alma no que toca a personagens humanos que ainda não tinham encontrado no típico filme de guerra. Não tiveram apenas as cenas de batalha mais impressionantes que alguma vez vi (também com orçamentos reduzidos) como acima de tudo contaram histórias personagens com que me importei e onde tudo não se resumia apenas aos bons-contra-os-maus.

[“71: Into the FIre“] é mais outro titulo Sul-Coreano que segue a mesma fórmula, o que não quer dizer que seja algo negativo. Poderá ser visto talvez como apenas mais um filme de guerra porque na verdade não contém nada que vocês não tenham visto antes, especialmente se já viram os dois titulos Sul-Coreanos que referi atrás, mas por outro lado foi buscar o melhor desses filmes e aquilo que perde em grandiosidade por força de ser um titulo de baixo orçamento, conseguiu compensar em personagens com que o espectador se vai identificando ao longo do filme.

Desde os herois cercados de inimigos por todo o lado, até inclusivamente ao excelente vilão do filme tudo contribui para que [“71: Into the FIre“] comece de uma forma entusiasmante e depois vá ganhando suspanse quanto baste até ao seu dramático e muito sangrento acto final.
O filme essencialmente conta a história de um grupo de alunos de uma escola Sul-Coreana que décadas atrás resistiram ao invasor Norte-Coreano barricados na sua escola á espera de uma ajuda que tardou em chegar.

Não há muito que se possa dizer mais sobre este título. Os personagens são excelentes, as cenas de acção conseguem ser espectaculares e muito sangrentas e dramáticamente funciona bastante bem pois aqueles personagens vão ganhando a nossa admiração.
Não posso deixar de destacar o personagem do general Norte-Coreano. Além de ter um carisma fantástico que rouba a atenção em todas as cenas que protagoniza, é caracterizado de uma forma bastante interessante e até algo ambigua, o que o humaniza quando se calhar para o filme resultar até nem precisava de ser mais que um bom boneco de cartão.

Quem gosta do cinema de Samuel Fuller ou Sam Pekinpah vai curtir muito o estilo politicamente incorrecto e o desenlace desta história. As cenas de batalha disfarçam muito bem o baixo-orçamento do filme e não há nada de verdadeiramente negativo em [“71: Into the FIre“].
Se gostam de cinema de guerra este é mais um título obrigatório. Se ainda não viram “Brothers of War” e “Assembly”, provavelmente vão ficar até impressionados com o realísmo das cenas de violência. Caso já tenham visto os outros filmes no entanto, tal como acontece comigo provavelmente não ficarão particularmente entusiasmados com esta obra, mas tenho a certeza que os irá divertir bastante se gostam do género.

Além disso consegue ser um filme político sem o parecer e pelo menos pelo que me apercebi trata bastante bem o tema da divisão da Coreia sem tomar realmente partido por qualquer um dos lados. Ás vezes parece ser um documentário de um qualquer reality-show pois a excelente realização consegue apagar-se por entre as cenas que são fcaptadas de uma forma perfeitamente natural e totalmente realística e por mais do que uma vez faz-nos esquecer de que estamos a ver apenas uma recriação histórica de um evento já com várias décadas.

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CLASSIFICAÇÃO:

Se já viram muito cinema de guerra Sul Coreano ou Chinés moderno, não irão ficar particularmente impressionados com  [“71: Into the FIre“]. No entanto é um excelente filme de guerra que devem adicionar obrigatóriamente á vossa lista de filmes a ver se gostam muito do género.
Quatro tigelas de noodles porque é muito bom. Não deslumbra, mas tudo o que faz, faz mesmo muito bem.

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A favor: é impressionante aquilo que se consegue fazer com um baixo orçamento que nos estados unidos nem chegaria para pagar a uma estrela de Hollywood, as cenas de guerra parecem mais épicas do que na realidade até são e todas as limitações técnicas estão muito bem contornadas para apresentar ao espectador mais um excelente filme de guerra, é muito sangrento e politicamente incorrecto quanto baste, contém um grupo de personagens que cria empatia com o espectador e inclusivamente o vilão é bem melhor do que precisaria de ser para que o filme funcionasse perfeitamente na mesma, tiros bombas e socos nas trombas com muito sangue e tripas quanto baste.
Contra: se já viram outros títulos de guerra produzidos recentemente pelo cinema oriental este filme poderá não os impressionar por aí além.

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NOTAS ADICIONAIS:

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=Ud5g_aGxIEo

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IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1587729

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