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Kokuhaku (Confessions) Tetsuya Nakashima (2010) Japão

6 comentários


Num par de reviews algures pela net alguém disse que assistir a [“Confessions“] é como ser atropelado por um Iceberg.
Eu próprio não poderia ter escolhido melhor expressão para classificar o impacto deste filme.

Refere-se também que este é um daqueles filmes que apesar dos prémios e de todo o reconhecimento que está a ter pelo mundo fora, muito certamente continuará a ser totalmente ignorado nos estados unidos e principalmente não se prevê uma distribuição americana tão cedo.
O que quer logo dizer que continuará desconhecido em Portugal porque nunca chegará ás salas “americanizadas” do resto do mundo. Especialmente no nosso país será um daqueles  filmes que estará condenado a aparecer um dia editado em dvd, retalhado em 4:3 e á venda naqueles cestos de promoções de kung-fu que os hipermercados têm por tendência classificar como cinema oriental por altura do Natal e afins.

O que é pena, pois [“Confessions“] é um daqueles filmes que nos faz perceber que afinal se calhar ainda não vimos tudo no que toca a cinema criativo e ainda existem maneiras cativantes e originais de se contar uma história. Especialmente uma história como esta que há partida não pedia mais que uma típica abordagem quase policial até.

Essencialmente [“Confessions“] começa quando uma professora de liceu no último dia de aulas perante a sua turma refere que a sua pequena filha de quatro anos foi encontrada afogada morta há pouco tempo numa piscina. Todos os indícios segundo a policia apontaram para que tudo não tenha passado de um acidente quando a criança caiu na água, mas na verdade a jovem professora tem outra explicação. A sua pequena filha foi assassinada num acto de bullying, os assassinos são precisamente dois alunos da sua própria turma, ela sabe quem eles são, em que carteiras estão sentados e preparou uma vingança inesquecível para fazer pagar bem caro a morte da sua bébé.

Digam lá se isto não é uma ideia fantástica para um filme de suspanse ?
E mais politicamente incorrecta não poderia ser. Se há um filme que jamais seria feito em Hollywood seria este e por isso ainda bem que existe cinema Japonês que mais uma vez marca pontos não só pela audácia como pela própria originalidade como todo o filme está estruturado.

Quem pensa que já tem uma ideia de como a história irá evoluir ,então é porque ainda não viu [“Confessions“].
Quem ainda não viu [“Confessions“] pensa que já viu tudo e não poderá ser surpreendido.
Este filme tem logo muita coisa boa á partida. Muitas vezes o cinema moderno é minimizado pela crítica por questões técnicas , por se parecer mais com um videoclip ou um anúncio publicitário do que com aquilo que é a formula clássica de se filmar e montar um filme.

É verdade que o estilo MTV ou a estética – “comercial de shampoo“- muitas das vezes é a morte de um bom projecto. O que não falta por aí , particularmente saído de Hollywood são videos musicais podres de chiques ou comerciais gigantes disfarçados de cinema mais interessados na estética que vende os produtos cuidadosamente colocados no meio das cenas do que em contar uma história e por isso é bom de repente encontrar pela frente um filme como [“Confessions“].

Estamos perante um trabalho que não só não esconde as suas influências visuais como as sabe usar de uma forma fascinante para criar um clima de tensão ainda mais angustiante do que esperariamos. Isto porque todos nós estamos habituados a ver nos comerciais e videoclips aquelas imagens fantásticamente estilizadas mas estas normalmente estão associadas ao prazer. A algo que nos querem vender ou a uma atmosfera de divertimento ou até sensualidade.
É aqui que [“Confessions“] também brilha.

Como se já não bastasse a história ser fantástica e com uma estrutura labirintica fascinante que os vai colocar a pensar sobre o assunto da violência infantil e a justiça de uma vingança, [“Confessions“] usa uma estética que normalmente associamos a coisas positivas para nos causar ainda mais arrepios na espinha á medida que a história se vai desenrolando e as revelações macabras se vão sucedendo.
Este filme pode inclusivamente ser considerado um filme de terror. Não assusta mas arrepia até á medula e apenas pela forma como desenvolve todos os pormenores referentes a uma das melhores e mais perturbantes vinganças que vi filmadas até hoje.

[“Confessions“] está cheio de imagens absolutamente fascinantes. É um daqueles filmes que apetece fazer pausa de cinco em cinco segundos só para apreciar o cuidado de cada imagem e há aqui milhares de frames que lhes ficarão na memória de certeza absoluta. A sua estética incialmente muito estranha aliada a uma estrutura narrativa ainda mais original poderá parecer-lhes á partida algo muito artificial, mas garanto-vos que quando chegarem ao fim nem se lembram de criticar esta obra por ser mais um daqueles produtos –made in photoshop– que muitas vezes aparecem pelo mercado.

O filme é frio como o raio, mas ao mesmo tempo é gélidamente poético. Está carregado de sequências lindissimas , muitas em slow-motion que os fará por momentos esquecer até a temática arrepiante do argumento. Nota máxima também portanto a nível visual.
[“Confessions“] pela sua estrutura bastante diferente do habitual poderá não ser um filme para todos, pois não deixa de ser automáticamente inserido numa certa categoria de cinema-de-autor pois de outra forma não poderia deixar de ser porque isto é comercial mas ao mesmo tempo é tão diferente que poderá não ser bem assim.

[“Confessions“] é comercial no sentido em que o fabuloso “Magnólia” de Paul Thomas Anderson também o (não) era.
Aliás, se gostaram de “Magnólia” pela forma como entrelaçou a estética, a história e a música não vão mais longe, [“Confessions“] é o vosso filme.
Imaginem um “Magnólia”  sobre psicopatas infantís, misturado com um ambiente gélido próximo de um “Requiem for a Dream” de Darren Aronofsky e uma pitada de “Battle Royale” sem esquecer um cheirinho de cinema de autor próximo do “All About Lily-Chou-Chou” ; e tudo isto cozinhado dá exactamente [“Confessions“] sem tirar nem pôr.

Pode ser um filme complicado de ser seguido para quem está habituado a um estilo mais ocidental, mas experimentem porque certamente a sua história cheia de momentos arrepiantes irá agarrá-los concerteza e duvido que alguma vez vejam um remake americano disto. Muito menos ganhará um Oscar apesar de ser um dos filmes concorrentes por melhor filme estrangeiro.

Tem uma estética fabulosa, uma montagem fragmentada fascinante e interpretações mágnificas onde não se pode sequer destacar ninguém pois desde a personagem da professora até aos jovens assassinos, todos brilham num argumento particularmente dificil com interpretações que os irá surpreender. Se houvesse um prémio para uma interpretação colectiva num filme, se calhar o elenco de [“Confessions“] merecia levar todas as estátuas para casa pois toda a gente está absolutamente perfeita neste filme.

Como nota menos positiva, na minha opinião apenas falha na sequência final onde todo o novelo da intriga vai sendo revelado. Não pela forma como as revelações nos são apresentadas, mas porque penso que é a única altura do filme em que o estilo visual quase que se sobrepõe á substância.
Todo aquele momento deveria ser principalmente sobre a história e o seu climax final mas acaba por ter que competir pela atenção do espectador com o estilo visual pois é nesses últimos dez ou quinze minutos onde o realizador mais abusa da própria artificialidade de uma estética de comercial de TV que na minha opinião deveria ter dado lugar de destaque á história e não ao visual por muito bom que ele continue a ser.

De qualquer forma [“Confessions“] é um filme do caraças que vocês não deverão perder, especialmente se o tema do bullying lhes interessa e alguma vez pensaram no que fariam se um dia tivessem um filho que fosse vitima de agressões por parte de colegas até morrer ás suas mãos. Depois disto, irão ficar a pensar, garanto-vos.
E congelados também.

Curiosamente parece que o realizador disto pregou uma valente surpresa a toda a gente, pois até ter feito este filminho de arrepiar a espinha ele apenas tinha filmado comédias ligeiras naquele estilo parvo ultra histérico muito popular no japão, tendo ficado conhecido graças ao sucesso de “Kamikaze Girls” de que falarei mais tarde neste blog.

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CLASSIFICAÇÃO:

Não será propriamente um filme que andarei a rever muitas vezes e provávelmente não o irei ver novamente tão cedo mas não há dúvida que é um daqueles totalmente imperdível e completamente obrigatório para quem pensa que já não haveria muito mais para dizer sobre bullying  juvenil ou infantil.
Cinco tigelas de noodles e um golden award claro, embora congelados…

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg gold-award.jpg

A favor: a originalidade da estrutura da história, a frieza e a coragem de se escrever uma história assim, os personagens e as incriveis interpretações dos actores, a montagem do filme é fantástica, visualmente tem momentos fabulosos que chegam a ser poéticos, é um filme de terror arrepiante sem o ser, é cinema de autor que não se arma em inteligente.
Contra: pode ser demasiado intimista para quem procura uma história  mais comercial ao estilo ocidental, a sequência final abusa demasiado da estética quando o desenlace da história não precisava desse pormenor para dividir atenções.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
Ignorem este trailer estúpido, pois a sua atmosfera não tem nada , mas nada a ver com o que acontece no filme e não se percebe de todo a razão do trailer de um filme como este ter sido montado assim de uma forma que quase parece uma comédia japonesa hilariante.
http://www.youtube.com/watch?v=Vnws8ZymxME
Se calhar talvez para fazer com que [“Confessions“] se parecesse mais com os habituais filmes ligeiros do realizador que desta vez criou algo totalmente inesperado que não deve ter encaixado bem nos planos do estúdio que porventura esperaria mais do mesmo e levou com este bloco de gelo cinematográfico em cima.

Comprar
http://www.amazon.co.uk/Confessions-DVD-Takako-Matsu/dp/B004KISO60

Podem ir buscá-lo aqui com legendas em PT/Br

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1590089/

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Outros títulos semelhantes em tema e estilo:

   

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Autor: Alcaminhante

Chamo-me Luis, tenho 45 anos e sou desenhador gráfico/ilustrador de profissão. www.icreateworlds.net Trabalho essencialmente como freelancer em ilustração tradicional e também em criação gráfica destinada á internet. Também trabalho em Banda Desenhada e quem quiser ir buscar os pdfs grátis do meu livro "As Aventuras do Príncipe Ziph" , sigam para aqui: http://icreateworlds.net/banda-desenhada-quadrinhos-gratis Interesso-me essencialmente por cinema, literatura, fotografia e longas caminhadas ao ar livre o mais longe de centros urbanos possível. De preferência junto ao mar e em praias isoladas. Tenho actualmente um blog sobre Cinema Oriental, outro sobre Ficção-Cientifica e ainda um site sobre Marte que podem encontrar aqui: http://www.o-enigma-de-marte.info Espero que gostem das sugestões e voltem sempre. Luis

6 thoughts on “Kokuhaku (Confessions) Tetsuya Nakashima (2010) Japão

  1. Excelente comentário sobre o filme. Foi tudo que pensei depois que assistir o filme. Até comentei a um amigo, que tem um certo preconceito a filmes orientais, pedir para assistir esse filme.Digno de competir ao Oscar de melhor filme estrangeiro. E cheguei a pensar tambem que os Hollywoodianos nunca vão se arriscar a fazer um remake. No mínimo eles vão traze-lo para cá direto para as locadoras. Infelizmente a maioria dos Ocidentais são impacientes de ver um filme meio que parado e um tanto psicodélico como esse. Mas é um filme muito inteligente e Original. Os orientais tem muitos créditos por filmes assim. FILMAÇO, que deixa a gente ficar bem arrepiado no final.

  2. Acabei de vê-lo e vim ler algo sobre para poder compartilhar, pois fiquei estática e sem respiração. A critica está excelente e traduz exatamente o que estou sentindo após assistí-lo. Agradeço por compartilhar damesma opinião e sentimentos.

  3. Obrigado.
    O blog tem estado parado pois estou no meio de um mini inferno com a situacao de alzheimer da minha mae, mas assim que eu resolver isto, voltarei aos filmes e aos comentarios.😉

    Obrigado pelo apoio.

  4. Acabei de assistir o filme e fui correndo ao Google pesquisar mais sobre essa intrigante obra do cinema japonês. Eu fiquei absurdamente em choque com este filme, nunca vi nada igual. Eu pensava que nada mais poderia me surpreender, até que assisti Confessions. Eu não poderia encontrar algum defeito neste filme: atuações fantásticas, fotografia fascinante e um enredo espetacular.
    Mais um ponto para o cinema oriental. Hollywood nunca seria capaz de fazer algo assim, e já podemos esperar por um remake deles. Rs, coitados

  5. Cà para mim os americanos ja desistiram de fazer o remake disto…

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