Dung che sai duk (Ashes of Time “Redux”) Kar Wai Wong (1994) China


Por falar em Wong-Kar-Wai ( a propósito do último post), lembrei-me que ainda não tinha visto a nova montagem do velhinho “Ashes of Time”, agora intitulada, [“Ashes of Time – Redux“].

O original é um daqueles meus filmes favoritos de que me esqueço por completo e de cada vez que me lembro de o rever parece que estou a ver um filme novo, sabe-se lá porquê.
Talvez seja do próprio tom hipnótico, da suas histórias fragmentadas e da narrativa em puzzle visual, mas este filme nunca me fica na memória por muito tempo.
Ou talvez seja porque se calhar não é só o vinho que é mágico na história de [“Ashes of Time – Redux“] e o próprio filme apaga também as nossas memórias passadas. O que é fixe.

[“Ashes of Time – Redux“] na sua versão original, sem o “Redux” á frente no título e com mais uns 8 minutos de duração há uns anos atrás era um dos dvds mais dificeis de encontrar no mercado; só havia uma cópia atroz disponível que acabei por comprar na PlayAsia na altura e é definitivamente uma das piores edições que alguma vez me passaram pela frente. A um ponto tal que o dvd nem tem menu nem nada, a qualidade de imagem parece para aí a vigéssima cópia pirata de um original em vhs gravado da TV e a legendagem queimada na imagem está ao mesmo tempo em Cantonês e Inglés sempre presente no ecran.

Por isso foi com grande agrado que soube que Wong Kar Wai reviu o filme e supervisionou finalmente uma cópia como deve de ser desta pequena grande obra dentro daquilo que se convencionou chamar Cinema de Autor.
Parece que havia no mercado tanta montagem alternativa deste filme, que o próprio realizador se viu na obrigação de colocar ordem na casa e revisionar o seu trabalho numa versão definitiva e foi assim que surgiu no mercado [“Ashes of Time – Redux“].
Uma versão ligeiramente reduzida, pois já não conta com uma atabalhoada sequência de acção inicial presente nas cópias maradas e entra logo pelo tom mais intímista a dentro para assustar a malta, mas que resulta plenamente.
Primeiro porque não engana ninguém e quem chegar a este filme a pensar que é mais um Wuxia de Artes Marciais comercial muda logo de ideias nos primeiros cinco minutos e ainda tem tempo para procurar algo mais comercial e depois porque torna o tom filosófico do filme mais imediato.

Além disso [“Ashes of Time – Redux“] está devidamente restaurado com uma qualidade incrível a nível visual. As diferenças a nível de cor e imagem são tão grandes que eu tive ontem que ir comparar esta nova versão com a antiga lado a lado, pois nem me lembrava de 90% dos enquadramentos que me estavam a passar pela frente e tudo aquilo me parecia um filme completamente novo.
Talvez porque também a banda sonora foi substituida o que ainda moderniza mais o filme, embora na minha opinião tão “má” seja a música nova como a antiga. Isto porque não me habituo de todo a sonoridades sintetizadas em filmes supostamente medievais e isso aqui também não é excepção. Embora não seja particularmente incomodativa neste caso e não é tão foleira quanto a música presente em “Musa the Warrior” por exemplo. Isto porque é mais usada para acentuar o tom intimista do filme do que própriamente para ilustrar cenas de acção.

E por falar em cenas de acção, [“Ashes of Time – Redux“] não parece, mas está cheio delas. São muito breves e estilizadas, como se as estivessemos a ver através das lentes de uma qualquer máquina do tempo, mas são todas espectaculares no que toca ao cuidado com a coreografia, o que as transforma mais numa espécie de bailado de emoções do que própriamente em cenas de acção e porrada habituais. Por isso fica desde já aqui o aviso ao pessoal que procurar algo com mais aventura pois não é esse de todo o espírito de [“Ashes of Time – Redux“].

Esta obra será talvez a coisa mais próxima de um “Era Uma Vez no Oeste” de Sergio Leone que alguma vez apareceu no cinema oriental e é muitas vezes comparado com isso, embora [“Ashes of Time – Redux“] seja ainda bem mais introspectivo e intimista. Por isso se aquele tipo de cenas filosóficas em que os personagens dissertam os seus pensamentos para a câmara os incomoda se calhar é melhor evitarem este filme a todo o custo pois todo o seu coração é composto por momentos desses alternados com sequências de acção que os complementam.

Toda a história é intensamente fragmentada de propósito para servir o tema central do filme a propósito do facto da memória humana ser a grande responsável por tudo o que há de mau na nossa existência e por todo o sofrimento das pessoas. A premissa é a de que se não houvesse memória, todos nós começariamos o dia sem qualquer mágoa e tudo poderia ser bem mais simples e feliz nas nossas vidas.
Como tal, o próprio filme parece fazer questão de baralhar a nossa memória constantemente, recorrendo a saltos na narrativa, flashbacks de personagens e acontecimentos, ou então avançando no tempo e voltando ao presente para no final ligar todos os acontecimentos e personagens num puzzle que cabe ao espectador desvendar e juntar as peças para poder apreciar devidamente toda a profundidade de [“Ashes of Time – Redux“].

No entanto, apesar de ser Cinema de Autor, isto poderia ter degenerado em algo extremamente pretencioso e intelectualoide mas não acontece de todo. [“Ashes of Time – Redux“] é chato, ou melhor, pode ser chato para muita gente, pois não é de todo um Wuxia comercial, mas não tem aquela carga de – “Ó para mim como sou um filme inteligente.” – que muitas vezes abunda no género.
O que acaba até por justificar o sucesso comercial que teve na altura, o que não deixa de ser mesmo estranho pois aqui no ocidente um filme como estes jamais levaria o público comum ás salas da forma como aparentemente aconteceu no oriente.

[“Ashes of Time – Redux“] segundo rezam as crónicas por causa disso e de toda a sua original abordagem ao género Wuxia, acabou por se tornar numa das grandes obras inspiradoras de “O Tigre e o Dragão” que depois veio relançar o género no ocidente de uma forma já mais comercial, mas onde se nota apesar de tudo uma tentativa de lhe atribuir um toque ou dois de intimismo ao nível do que Wong-Kar-Wai apresentou neste titulo originalmente lançado em 1994.

Portanto, [“Ashes of Time – Redux“] não será para todos, mas quem se interessar por filosofia, tem aqui um filme obrigatório que explora muitas questões interessantes sobre todos nós, contém imagens absolutamente fabulosas e ainda por cima consegue ser mais uma vez intensamente romântico mas desta vez com uma grande aura melancólica. Não esperem uma história de amor fofinha ao estilo comercial oriental. Se esperarem uma aura romântica intensamente assombrada e não tiverem medo de acompanhar o estilo fragmentado do filme vão adorar todo o seu ambiente, seja nas histórias de amor cruzadas ao melhor estilo Wong Kar Wai, seja no ambiente desencantado mas muito realístico e vão curtir o estilo visual das cenas de acção Wuxia pois [“Ashes of Time – Redux“] contêm momentos intensamente poéticos.

Wong Kar Wai diz que tentou fazer um filme sobre os típicos herois Wuxia, mas contando as suas histórias e apresentando o seu passado antes destes se tornarem os habituais herois que vemos nos filmes e penso que a ideia além de ser bem interessante foi plenamente realizada.
Precisamente porque uma das coisas mais fascinantes e hipnoticas em [“Ashes of Time – Redux“] é precisamente sentirmos que a qualquer momento aqueles personagens podem ser apresentados como os típicos herois que conhecemos de outras aventuras Wuxia, mas ao mesmo tempo nunca sabemos bem quando isso irá acontecer ou sequer se irá acontecer.

Todos os personagens de [“Ashes of Time – Redux“] são os estereotipos que conhecemos; o guerreiro solitário, o assassino profissional, a princesa, a rapariga em busca de ajuda, a mulher amada que nunca foi de quem a amava, etc
Agora a genialidade da narrativa está precisamente em ter pegado tudo isso que conhecemos de outros lados e ter nos mostrado o lado humano desses personagens tipo. A partir daqui e depois de vermos [“Ashes of Time – Redux“] parece que todos os filmes de aventura Wuxia que virmos a seguir contam com estes personagens pois podemos imaginar os seus passados como algo semelhante mesmo que estes não sejam muito desenvolvidos noutros filmes.

[“Ashes of Time – Redux“] não será um filme para todo o público, mas quem curtir, vai curtir mesmo muito.
É não só um bom antidoto para uma dose de Wuxias mais comerciais, como acima de tudo é um complemento excelente para esses filmes de aventura.
É uma obra intensamente pessoal e filosófica e no entanto não é pretenciosa o que lhe dá logo muitos pontos na minha opinião e quem gostou de coisas como “In the Mood For Love” ou “2046”, poderá encontrar aqui a origem de muitos dos pormenores visuais que conhecem da obra mais recente do realizador pois [“Ashes of Time – Redux“] foi um dos primeiros filmes antigos dele onde o seu novo estilo se começou a fazer notar.

Nota-se e como ! Visualmente contém imagens estonteantes. Desde á fotografia das paisagens de deserto, aos interiores e á forma como os pormenores são filmados, onde o jogo de luzes e sombras está cuidadosamente planeado para amplificar ainda mais toda a filosofia e emotividade das caracterizações dos personagens.
Se gostam do estilo visual de Wong Kar Wai e nunca viram [“Ashes of Time – Redux“] nem sabem o que perdem, pois isto contém quadro atrás de quadro. Não só os enquadramentos são fantásticos como a própria cor do filme é fabulosa, especialmente no contraste entre o ceu azul e o amarelo do deserto.

Mesmo quem achar o filme uma seca mas gostar de espreitar imagens fascinantes, vai querer ver este filme.

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CLASSIFICAÇÃO:

Não posso deixar de dar a nota máxima a este filme também, apesar de na verdade não recomendar a toda a gente que o vá a correr ver, porque não é de todo um filme que irá agradar a todo o público. No entanto se estiverem numa de cinema de autor e quiserem ver um filme fascinante dentro do género e ainda por cima passado em ambiente Wuxia onde não faltam algumas cenas de acção fantásticas se calhar não irão perder o vosso tempo em espreitar [“Ashes of Time – Redux“].
Então para fãs do Wong Kar Wai que nunca tenham visto isto e muito especialmente para quem só viu a cópia ultra rasca que andava por aí á venda em dvd, esta nova versão é totalmente obrigatória pois nem irão reconhecer o filme.
Cinco tigelas de noodles e um Golden Award porque sim.

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A favor: o ambiente visual, a carga filosófica sem ser pretenciosa, os personagens e o desempenho fantastico dos actores, a estética nas cenas de acção, excelentes sequências de acção embora muito breves mas bem equilibradas com o lado intimista.
Contra: se não conseguem ver cinema de autor pela frente fujam, a banda sonora podia complementar bem melhor o filme.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=XFh55NaFVLc

Comprar Versão Redux em Blu-Ray
http://www.amazon.co.uk/Ashes-Time-Redux-Blu-ray-DVD/dp/B001L4I1VE/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1306786553&sr=8-1

Comprar Versão Redux em DVD
http://www.amazon.co.uk/Ashes-Time-Redux-Leslie-Cheung/dp/B001L4I1VO/ref=sr_1_2?ie=UTF8&qid=1306786553&sr=8-2

Download aqui Versão Redux remontada em 2008 com legendas em PT/Br

Download aqui Versão original de 1994 com legendas em PT/Br

OST da versão de 1994

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0109688

Entrevista com Charlie Yeung
Entrevista com Carina Lau
Entrevista com Tony Leung

Entrevista com Wong Kar Wai – Parte 1Parte 2Parte 3

Entrevista com Christopher Doyle – Parte 1Parte 2

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Se gostou, vai gostar certamente dos seguintes filmes abaixo.
Aliás, mesmo que não tenha gostado deste  vai gostar dos filmes abaixo.

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There´s Only One Sun – Wong Kar Wai


No outro dia perguntaram-me por esta curta metragem por isso apesar de eu já ter colocado o link para ela nos outros fabulosos filmes de Wong-Kar-Wai, nomeadamente em “In The Mood For Love”, “2046” ou “My Blueberry Nights” fica aqui agora o post em destaque para quem quiser espreitar esta fascinante produção que é quase um catálogo de todos os pormenores, toques visuais e ambientes presentes nas longas metragens para Cinema deste grande autor.

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Se gostou, vai gostar certamente dos seguintes filmes abaixo.
Aliás, mesmo que não tenha gostado deste  vai gostar dos filmes abaixo.

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Koroshiya 1 (Ichi the Killer) Takashi Miike (2001) Japão


Fartei-me de rir com este filme o que só demonstra o quanto eu devo ter um grave problema mental.
Por outro lado, não deve ser tão grave quanto o do realizador Takashi Miike pois quem cria uma coisa destas terá certamente um ou dois probleminhas por resolver…
Bem-vindos a [“Ichi the Killer“] provávelmente o filme mais inclassificável de todos que referi até agora neste blog.

É tão inclassificável que a minha própria classificação não tem lógica nenhuma.
Como podem ver atribuí-lhe “apenas” quatro tigelas de noodles apesar de eu continuar a achar que isto deverá ser uma verdadeira prima de…qualquer coisa e um dos melhores filmes de Takashi Miike. Isto para não dizer que será possivelmente um dos filmes mais violentamente doentios de todos os tempos mas também um dos mais nojentamente hilariantes que alguém já teve a lata de filmar.

[“Ichi the Killer“]  é daqueles que não conseguimos tirar os olhos do ecran porque além de estarmos horrorizados, não acreditamos no que estamos a ver e é tão extremo que se torna totalmente cartoonesco, pois o horror e o nojo chegam a tais extremos que a partir de certa altura só conseguimos desatar a rir.
Atinge uma fronteira de mau gosto tal que subitamente o filme ganha contornos de animação do Road-Runner-vs-BiBip.

Tinha comprado o dvd disto há anos em promoção na FNAC (edição Pt) e foi mais outro daqueles que estava na minha prateleira a ganhar pó á espera de oportunidade para ser visto; o que é o mesmo que dizer que estava á espera que eu estivesse com disposição para ver gente cortada aos bocados em ambiente extremo.
Apesar de eu nem sequer me impressionar particularmente com filmes gore, ser grande fã do “Evil Dead” e ter até achado bastante piada ao “Hostel” entre outros títulos do género, a fama de [“Ichi the Killer“] intimidava-me. Além disso, também é um filme sobre máfias e Yakuzas e portanto a temática também não me dizia grande coisa pois não acho grande piada a filmes de gangsters e portanto nunca me tinha apetecido ver o dvd até há um par de dias atrás.

Como tinha acabado de ver o fabuloso e ultra fofinho “Sky of Love”, achei que o contraste perfeito seria espreitar agora [“Ichi the Killer“] pois gosto de espreitar títulos diferentes, até para poder manter por aqui alguma variedade de recomendações, mas nada me preparava para isto.
Para começar, estava á espera de encontrar muito sangue…mas não desta maneira completamente indiscritível. Também estava á espera de me aborrecer de morte com outra história sobre Yakuzas, patrões do crime e guerras entre gangs e acabei por me fartar de rir com as suas aventuras.
Se bem que “aventuras” não será propriamente o termo correcto por aqui, mas de uma certa maneira designa perfeitamente o sentido de humor em que se movem todos estes personagens que têm tanto de repugnante como de fascinante e hilariante.

[“Ichi the Killer“] tem tanto sangue, tanta tripa, tanta viscera, tanta violência gratuita e acima de tudo tanta, mas tanta tortura inacreditável que rebenta a escala daquilo que seria o mau gosto e passa automáticamente para um universo cartoon. Ou melhor…[“Ichi the Killer“] é o melhor equivalente ao Happy Tree Friends que poderão alguma vez encontrar numa versão cinematográfica.

É doentio como o raio, tem cenas de tortura que fariam os censores americanos se agarrarem ás Biblias para excomungar Takashi Miike da face da terra se pudessem e este meus amigos, posso garantir-vos que não irá ter um remake americano, pois até qualquer “Saw” é um filme verdadeiramente ingénuo e infantil ao pé disto.
Embora “Hostel” tenha andado lá perto, (inclusivamente conta com o próprio Takashi Miike como actor na pele de um sádico), não deixou de ter aquele ambiente americano de Hollywood e como tal há sempre um distanciamento entre o espectador e o filme.
Desafio alguém a ver [“Ichi the Killer“] e a lembrar-se que apenas está a ver efeitos especiais ! Brrrr !

[“Ichi the Killer“] não só é sangrento e visceral como raio, mas acima de tudo é extraordináriamente politicamente incorrecto, especialmente no que toca a cenas relativas a maus tratos a mulheres. Tem duas cenas de espancamento e tortura de prostitutas que se calhar se vocês forem mulheres…é melhor não verem este filme, pois isto é mesmo muito doentio. Desde mamilos arrancados com ganchos a mamas cortadas com facas, violações, espancamentos sem sentido, tudo é usado neste filme para ainda chocar mais o espectador.
No entanto, se conseguirem aguentar, o final de tanta violência é sempre tão cartoon que de repente tudo parece deixar de ser tão horrorizante assim e como já disse, isto é mesmo o melhor equivalente ao Happy Tree Friendsque poderão encontrar pela frente.

[“Ichi the Killer“] consegue usar a violência e a tortura para definir os próprios personagens, mostrar o seu estado de espirito e delinear personalidades. Conta com inúmeros personagens mas todos eles muito bem definidos e com o seu momento para brilhar. Seja a torturar alguém ou a ser torturado, cortado aos bocados, violado, espancado, decapitado, sangrado até á morte ou até mesmo colocado dentro de um televisor e espetado com agulhas de crochet ?)…

Parece que isto é já a segunda adaptação de um Manga de culto para cinema e embora da primeira ninguém tenha ouvido falar particularmente, seria impossivel [“Ichi the Killer“] ter passado despercebido nesta nova aventura. Eu imagino os protestos que isto deve ter gerado e o horror e indignação que deve ter causado por esse mundo fora. Especialmente nos Estados Unidos deve ter sido lindo !
Este é o tipo de filme que o Borat devia ter levado para projectar no meio de uma assembleia evangélica americana algures lá no Montana ou algo assim. Eu pagava para ver.

[“Ichi the Killer“] conta a típica história de rivalidades entre gangs de Yakuzas, só que vocês nunca viram vinganças como as que estão neste filme, isso garanto-vos. Essencialmente o chefe de um dos bandos desapareceu com uma pipa de massa e então o tipo mais sádico do gang começa a torturar tudo e todos na busca dessa pessoa ou de quem lhe terá limpado o sebo.

Entretanto, ficamos também a conhecer o Ichi, um tipo simpático, muito boa onda com um grave problema emocional e um sentido erótico algo perigoso que tem a mania de se masturbar enquanto vê prostitutas a serem espancadas ou violadas e tem por hobby cortar pessoas aos bocados com umas lâminas que tem acopladas nos sapatos. Muitas vezes sem querer…mesmo nas cenas de sexo oral…
Como podem ver isto é mesmo para rir, embora não seja propriamente uma comédia familiar. Ou se calhar até é.
Pensando bem…não há ninguém minimamente normal nesta história…

Portanto vejamos…por ordem…mulheres torturadas, masturbação, espancamento de prostitutas, gajos nús pendurados por ganchos a sangrarem no meio de uma sala, auto-mutilação de lingua em grande plano, sado-masoquismo e erotismo quanto baste, decapitações, pessoas cortadas ao meio literalmente de uma ponta a outra, pessoas cortadas ao meio de lado, pessoas cortadas ao meio de outras formas, decapitações, um gajo colocado dentro de uma TV e espetado com agulhas, sexo oral seguido de decapitação, sangue a jorrar da cabeça, sangue a jorrar da barriga, sangue a jorrar do pescoço, pernas decepadas, gajos esmagados, tripas a voar, rostos esfacelados e a escorrerem por paredes a sorrir, criancinhas abusadas, momentos de bullying infantil, violações de adolescentes, atrasados mentais, hipnotismo e um anti-heroi com um grande sorriso á joker.
Não, a sério, [“Ichi the Killer“] tem mesmo partes para rir … a sério. Voltem !!

E já agora…este meu texto é sobre a edição Portuga em DVD que descobri agora para variar está cortada e censurada pois foi baseada na edição internacional com os cortes da BBFC inglesa.
O que quer dizer que se o que eu vi foi uma versão censurada…agora é que tenho mesmo que ver a ver integral pois nem consigo imaginar o que poderá conter de ainda mais chocante !!!

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CLASSIFICAÇÃO:

[“Ichi the Killer“] é uma obra prima de qualquer coisa. Se calhar não se nota pela minha classificação mas isto é mesmo um filme fantástico…apenas me faz alguma confusão atribuir-lhe outra nota qualquer porque ainda nem sei o que pensar sobre tudo isto. De momento só posso dizer que [“Ichi the Killer“] é mesmo muito bom, pois consegue através de cenas de violência extrema construir personagens crediveis dentro do próprio universo da história e isto é mais do que se pode dizer em alguns outros filmes mais ambiciosos.
Se o vosso sentido de humor for suficientemente dark para conseguirem perceber todo o nonsense por detrás disto, vão adorar pois é realmente brilhante e totalmente despropositado. Faz lembrar muitos dos momentos gore presentes nalguns sketches clássicos dos Monty Python mas executados técnicamente de uma forma realística.
Quatro tigelas de noodles por agora, mas certamente irei aumentar isto quando vir a versão completa. Em breve digo aqui mais qualquer coisa.

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A favor: tudo. Acho que este filme não tem qualquer falha naquilo a que se propõe fazer, choca como o raio não só psicológicamente como visualmente, esquecemo-nos que estamos a ver efeitos especiais, tem um sentido de humor genial, parece um desenho animado do Happy Tree Friends“, a realização é excelente e percorre um sem número de estilos visuais ao longo da narrativa, consegue construir uma história interessante recorrendo apenas a cenas ultrajantes e chocantes, o Ichi é um tipo simpático.
Contra: é tão politicamente incorrecto que irá ofender mesmo muita gente que o levar a sério mas se calhar isto é uma virtude, não será propriamente o filme ideal para verem com a namorada…a não ser que sejam sado-masoquistas porque se assim for isto é intensamente romântico pois até cenas de sexo com violência consentida isto tem.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=coiVr5Pl4-s

Comprar
Não sei o que recomende, pois este filme tem tantas versões cortadas em dvd que não faço ideia de qual será a melhor opção. A portuguesa está cortada, mas podem explorar estas edições na Amazon Uk.

Donwload da versão integral não censurada com legendas em Inglés.

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0296042/

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Chi bi/Chi bi xia: Jue zhan tian xia (Red Cliff / Red Cliff 2 – Versão Integral Original com 300 minutos) John Woo (2008/2009) China


Comecei a ver [“Red Cliff“] no início de Janeiro e curiosamente embora tenha gostado do primeiro dvd, quando o primeiro  filme acabou não fiquei com vontade nenhuma de continuar a acompanhar esta saga apesar de ter deixado a história a meio e como tal só me decidi a ver o segundo disco ontem quase seis meses depois porque achei que estava na altura de falar sobre este título tão popular por aqui.
Se este blog não existisse é bem provável que não visse o resto do filme tão cedo o que não deixa de ser estranho até para mim que não costumo deixar coisas destas a meio.

Portanto, como já imaginam [“Red Cliff“] não me impressionou por aí além.
No entanto percebo porque tem tanto hype á sua volta, pois além de ser o regresso de John Woo á China visualmente é na verdade extraordináriamente apelativo e na minha opinião é precisamente o aspecto visual que cria aquela ilusão de que esta saga será a tal obra prima que muitos gostariam que fosse mas que não é de forma alguma.

Talvez John Woo tenha apanhado alguns maus hábitos por ter passado 16 anos a fazer filmes nos Estados Unidos pois [“Red Cliff“] é um claro exemplo de uma super-produção onde o estilo se sobrepõe e muito á substância. Neste caso, se calhar em vez do estilo poderemos até dizer que a opulência se sobrepõe á substância, pois garanto-vos que vão ficar impressionados com a escala visual deste épico sobre estratégia de guerra.

Por outro lado, épicos históricos saídos da China é coisa que não falta no mercado e cenas de batalha com milhares de figurantes já todos nós vimos muitas também e como tal nem nisso [“Red Cliff“]  difere muito do que é costume, nem na verdade acrescenta o que quer que seja de novo. Pelo contrário até.
No entanto, [“Red Cliff“]  é fantástico a criar a ilusão de que tudo é espantosamente  épico e apesar de se notar que falta ali qualquer coisa a todo o instante, o espectador consegue acompanhar com interesse toda a história precisamente porque visual não lhe falta.

Ficamos  essencialmente hipnotizados pelo estilo gráfico deste filme que é absolutamente fantástico embora em muitas alturas pareça bastante plástico o que contradiz um pouco aquela ideia de reconstituição histórica que pretende ser pois os seus ambientes são tão gráficos e artificiais que perdem muito da naturalidade que costumamos encontrar nos ambientes da maior parte dos épicos históricos orientais.
[“Red Cliff“]  é uma saga militar grandiosa mas sente-se constantemente o lado cinematográfico presente, naquele sentido em que apesar da opulência não se livra daquele sabor a cenário para cinema.

Ao contrário do que costuma acontecer-me com estes filmes, [“Red Cliff“]  não me transportou minimamente para dentro do seu universo e nunca por um momento me fez esquecer que estava a ver um filme, pois enquanto espectador sempre me senti totalmente distanciado do que estava a acontecer no ecran e isso para mim é o pior que me pode acontecer quando estou a ver uma história deste estilo.
Por mais que uma vez, dei por mim a olhar para o relógio do leitor para ver se ainda faltava muito para aquilo acabar e não foi por desejar que [“Red Cliff“]  durasse mais uns minutos. Isto aconteceu-me tanto na primeira parte como na segunda.

Como alguém também já referiu algures numa review,  [“Red Cliff“] não consegue criar qualquer empatia entre os espectadores e os personagens, pois pouco nos importamos com o seu destino, salvo uma ou duas excepções.
São muitos e variados mas na verdade podem morrer todos que pouco importa e por isso há aqui qualquer coisa que falha. Nota-se uma excessiva tentativa de caracterização nuns (o que alonga o filme em cenas inconsequentes que muitas vezes parecem desnecessárias), enquanto outros que até são importantes para a carga dramática da história pouco tempo têm de ecran e são apenas usados como peões nas extraordinárias coreografias de movimentação de exército para que o espectador possa saber quem é quem.

Nota-se uma tentativa de humanizar alguns deles através do recurso ao drama romântico pelo meio da história, mas as histórias de amor também não têm qualquer interesse ou atmosfera. Uma perde-se totalmente pelo meio de tanta estratégia militar e outra perde demasiado tempo a ser totalmente previsivel sem conseguir construir uma base emocional que a fizesse resultar no inevitavel desfecho e como tal pouco nos importa quando este acontece.

[“Red Cliff“]  também não se define bem enquanto género. Não é de forma nenhuma um filme de aventuras ou de acção medieval apesar das suas inúmeras sequências porque essas cenas apenas complementam as intrigas palacianas do costume e as sequências de estratégia militar. Por isso não esperem encontrar em [“Red Cliff“]  um blockbuster com um ritmo definido ou um espírito de aventura e preparem-se para intermináveis minutos onde se conta essencialmente uma história sobre estratégia política e militar que á força de não ter própriamente personagens cativantes se torna algo aborrecida e até demasiado técnica em certos aspectos.
Por outro lado quem gostar muito de estratégia militar, tem aqui em [“Red Cliff“]  provavelmente o melhor filme de todos os tempos, pois toda a sua acção gira á volta de tácticas de movimentação de exércitos, intrigas políticas, alianças e traições.

O que me leva a outra coisa que me desapontou e muito. Esperava muito mais de [“Red Cliff“]  nas cenas de acção tendo em conta que isto é um filme de John Woo. Não que estas não sejam espectaculares, mas não vão encontrar nada que já não tenham visto noutros filmes antes e como tal não vão encontrar aqui cenas de acção que os deixem completamente fascinados pela inovação.
Todas as batalhas são fantásticas, mas falta-lhes alguma identidade pois a sua espectacularidade vem mais do estilo gráfico do filme e da quantidade estúpida de figurantes no ecran do que própriamente nos cativam por nos preocuparmos com o rumo da história ou com os personagens que estão envolvidos nas lutas.

Até porque grande parte das vezes as batalhas são travadas pelos figurantes enquanto os personagens principais ficam sentados a controlar as estratégias á distância num épico jogo de xadrez humano. Isto salvo excepções claro mas não consegui evitar sentir um total distanciamento das cenas de acção de [“Red Cliff“], o que muito me surpreendeu , pois estava preparado para me divertir totalmente com as batalhas épicas destes filmes e tal não aconteceu de forma alguma ao nível que eu esperava e que já encontrei antes em filmes como “The Warlords” por exemplo, onde a escala e a produção poderá ser menor mas a eficácia cinematográfica é bem superior porque conseguiu criar uma ilusão de realísmo que John Woo não conseguiu reproduzir de todo.

Notei uma gritante falta de sangue nestas batalhas. Em muitos momentos parecia que estava a ver um filme americano. Batalhas gigantes, montes de gente á espadeirada mas muito poucos salpicos e cabeças cortadas.
Isto depois de já ter visto tanta batalha extraordináriamente realística ultimamente em épicos de menor escala faz com que [“Red Cliff“]  ainda pareça ser uma produção mais plástica e desinteressante do que merecia ter sido.
Não quero dizer com isto no entanto, que as cenas de acção sejam chatas, não são; apenas a fama do filme faz com entremos nele á espera de uma coisa e depois não surpreende de todo e salvo raras excepções nem notamos que isto será um filme de John Woo pois falta-lhe alguma identidade.

Com tudo isto, pode parecer que detestei este filme e na verdade isso não é assim. [“Red Cliff“]  tem alguns momentos fantásticos. Por exemplo, todas as ideias para estratégias de batalha são absolutamente geniais e quanto a mim , o plano para os herois conseguirem arranjar flechas extra para os exércitos é dos momentos mais divertidos e brilhantes da história que marca definitivamente o que há de melhor nesta saga.
O primeiro filme também tem uma cena de batalha fabulosa com outra táctica de movimentação de exércitos incrível e que os irá surpreender. Curiosamente será talvez a melhor batalha do filme todo e surpreendeu-me não terem guardado este momento para o final da história pois todas essas cenas de guerra no primeiro [“Red Cliff“]  são bem mais entusiasmantes que o plástico ataque final que supostamente deveria ser o climax do filme e no entanto sabe a pouco.
Tal como os mais de 300 minutos de duração que a versão integral contém apesar de terem muita coisa positiva.

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CLASSIFICAÇÃO:

[“Red Cliff“] mesmo não sendo aquele acontecimento cinematográfico que tanta gente gostaria que fosse, é no entanto um bom filme sobre estratégia militar e intriga politica e palaciana que apesar do seu argumento algo disperso ainda contém um par de boas surpresas no que toca á parte de espionagem entre exércitos que os irá divertir.
Será talvez vitima do próprio peso de mostrar que é um épico histórico gigantesco e como tal a megalómania dos cenários e dos efeitos gráficos sobrepõe-se ao divertimento, o que é pena.
De qualquer forma, quatro tigelas de noodles porque é bastante bom mesmo e irá agradar muito a quem gosta de coisas sobre estratégia militar.

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A favor: visualmente é sumptuoso e com uma escala épica incrível a nível de produção, está cheio de paisagens fabulosas, a batalha do primeiro disco é fantástica e muito criativa, as cenas de espionagem são divertidas e com bastante humor o que foi algo inesperado de encontrar num filme tão sério sobre alianças e estratégias militares, uma das love-stories quase resulta e é divertida de seguir, contém um par de sequências de acção individuais muito boas mesmo, a cena do roubo das flechas no segundo disco é absolutamente clássica e muito engraçada, um elenco fabuloso que se esforça por dar vida a personagens que não cativam particularmente.
Contra: esforça-se demasiado para nos fazer notar que é um épico a todo o instante e com isso torna-se muito artificial, tem cenas longas e desnecessárias que repetem informação que já se sabe, não cria qualquer empatia com os personagens salvo uma ou duas excepções, muita acção mas não se percebe bem que tipo de filme estamos a ver, falta-lhe sangue, a batalha final não tem nada de surpreendente, nota-se o CGI e isso retira-nos automáticamente do ambiente do filme nos raros momentos em que quase conseguimos abstrair-nos de que estamos a ver um filme.

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Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=GPF6jaaBW7M&feature=related

Comprar Blu-Ray bem baratinho na Amazon Uk- Contém os dois filmes
http://www.amazon.co.uk/Cliff-Special-Blu-ray-Tony-Leung/dp/B002GDM2S2/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1306617909&sr=8-1

Download Red Cliff com legendas em PT/Br
Download Red Cliff 2 com legendas em PT/Br

IMDB – Red Cliff
http://www.imdb.com/title/tt0425637/
IMDB – Red Cliff 2
http://www.imdb.com/title/tt1326972/

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Valley of Flowers (Valley of Flowers) Pan Nalin (2006) India/Japão/França/Alemanha


De vez em qando aparecem filmes que desafiam qualquer classificação possível e este enigmático mas fascinante [“Valley of Flowers”] é o exemplo mais recente deste género.

É um daqueles filmes que não se podem encaixar em lado nenhum. Não é suficientemente comercial para poder correr o comum circuito de filmes pipoca, até porque este é um daqueles que fará com que 99% desse público abandone  a sala bem antes de chegar a meio, mas também não é suficientemente artístico para agradar ao mais acérrimo intelectual fundamentalista frequentador de festivais obscuros, porque afinal, [“Valley of Flowers”] se calhar tem acção e aventura a mais e apesar do seu ritmo lento não filma planos fixos de pedras a crescerem durante meia hora.

[“Valley of Flowers”] é também um filme Indiano, embora não esperem encontrar nele cantigas pimba e danças coloridas de dez em dez minutos pois neste filme Indiano ninguém canta ou dança. Talvez com excepção de uma atmosférica sequência lá para o final ao som de uma banda sonora e uma canção específica mas de que não posso aqui falar porque lhes estragaria o prazer da descoberta do argumento.

Por outro lado, se o dito Cinema de Autor produzisse filmes de aventura e fantasia em massa, [“Valley of Flowers”] poderia servir bem como template para algo dentro desse estilo pois é a coisa mais próxima de um Indiana Jones (ou de um Western) que eu pelo menos vi num filme com estas características.
Se por exemplo, “Ashes of Time” de Hong-Kar-Wai, é o equivalente Wuxia dentro do cinema-de-autor chinês, se calhar [“Valley of Flowers”] bem que poderia ser classificado o equivalente a um blockbuster de aventura ocidental dentro do cinema-de-autor Indiano. Não sei, estou baralhado.

Só lhes digo uma coisa. Se procuram um título diferente dentro do cinema feito no oriente e gostam de filmes de aventura com grandes espaços abertos e uma temática de fantasia baseada em muitos preceitos do budismo não vão mais longe, porque [“Valley of Flowers”] é mesmo muito bom no aproveitamento desses tópicos para criar uma história que por vezes poderá parecer demasiado longa, chata até, mas nunca deixa de ser totalmente hipnotizante. Especialmente quando o filme chega ao seu surpreendente capítulo final que quase que se pode considerar o twist da história se vocês não souberem nada sobre este filme.

O que me leva a uma nota muito importante:
AFASTEM-SE DE PROCURAR SABER MAIS QUALQUER COISA SOBRE [“Valley of Flowers”] NA NET.
Se nunca ouviram falar disto e pelo que já escrevi acham que lhes poderá interessar, nem pensem em ler mais qualquer coisa além do meu texto sobre este filme antes de o verem.
Se não conhecem nada sobre [“Valley of Flowers”] afastem-se não só das reviews da Net como principalmente das fotografias que estão espalhadas por todo o lado pois irão destruir-lhes por completo o prazer de serem surpreendidos pelo rumo do segmento final na história. Fiquem-se pelas fotos que eu seleccionei para colocar aqui sem grandes spoilers.
E já agora, nem pensem em consultar o IMDB sobre isto.
Vão por mim.
Vejam [“Valley of Flowers”] completamente ás escuras e sem saberem nada sobre ele e vão dar-lhe muito mais valor do que lhe dariam se já conhecessem a reviravolta e a temática completa da história.

Como tal, eu até poderia agora comparar isto com dois outros títulos ocidentais bem semelhantes  (um ultra comercial muito famoso e outro dentro do cinema independente americano),  mas não o irei fazer porque isso seria dar-lhes referências a mais e vocês percebiam logo o que iam ver pela frente.
[“Valley of Flowers”] é para ser apreciado sem saberem nada dele.
Continuem assim. 😉

Portanto, o que posso eu dizer sobre isto sem estragar-lhes o filme…
Coisas boas…a história passa-se nos Himalaias no ano de 1836, tem montes de atmosfera e gira á volta de um grupo de bandoleiros composto por exilados de várias terras e que sobrevive assaltando caravanas que percorrem a Rota da Seda por aqueles lados.
Um dia, num desses assaltos encontram uma misteriosa mulher que apaixonada pelo líder do bando tudo faz para se juntar a eles com a promessa de lhes indicar potenciais alvos para assaltos onde poderão enriquecer rápidamente.

Acontece que essa mulher além de estranhamente não possuir um umbigo, parece possuir capacidades sobrenaturais que coloca ao serviço do bando, embora os coloque também em risco pois no seu encalce sem conhecermos bem as razões para tal encontra-se um misterioso homem conhecido como Yeti (esse mesmo) que parece conhece-la e estar muito interessado em capturar não só o bando de assaltantes como principalmente a misteriosa mulher.
E não lhes digo mais nada para não estragar o prazer da descoberta.

[“Valley of Flowers”] visualmente é absolutamente grandioso embora de uma forma estranhamente contida e intimista. Imaginem-no assim como uma espécie de “Where the Wind Dwels” com muitas cenas de acção e aventura pelo meio mas filmado nas mesmas paisagens naturais absolutamente incriveis entre montanhas e vales majestosos e um céu aberto ao azul infinito.
No entanto, atenção, [“Valley of Flowers”] tem muita sequência de aventura, mas o seu ambiente é tão enigmático que não esperem cenas muito emocionantes ao estilo de aventura ocidental a que estão habituados.
Há muita acção mas toda ela é um bocado…parada e o suspanse é gerido de uma forma diferente. Se é que isto faz sentido.

[“Valley of Flowers”] é um filme sobre conceitos espirituais pois assenta muito na filosofia budista e em muitos conceitos a ela associada. Essencialmente estamos na presença de uma história sobre Karma e portanto isto saído de um realizador Indiano com um elenco multi-cultural onde nem sequer faltam japoneses, já podem imaginar que  não irão propriamente ver um filme de aventuras comercial comum.

Quanto a mim tem apenas uma única falha. Talvez tenha uma meia hora a mais na minha opinião. Isto porque começa muito bem, mas depois perde-se um bocado mais ou menos a meio do filme pois durante algum tempo repetem-se não só o mesmo estilo de cenas de aventura como principalmente repetem-se as mesmas ideias e o filme poderia ter evitado isso.
Além disso á força de tentar ser um filme intensamente romântico, este insiste em repetir as mesmas sequências de amor vezes sem conta e que em vez de tornar a história de amor mais poderosa, acaba por a tornar monótona.
Por isso não se espantem se começarem por gostar, mas depois lá pelo meio [“Valley of Flowers”] lhes começar a parecer gritantemente desinteressante e até algo secante. Não desistam porque vale a pena acompanhar o que ainda falta.

[“Valley of Flowers”] tem 15o minutos e se calhar seria um filme de aventura e fantasia ao melhor estilo cinema-de-autor bem mais empolgante se tivesse tido apenas duas horas.
Por outro lado, segundo algumas pessoas parece que existe uma versão curta que foi lançada no ocidente mas o filme não resulta tão bem pois foi-lhe retirada muita da carga filosófica quando deveriam ter encurtado apenas algumas sequências repetitivas.
Sendo assim, se espreitarem este filme, certifiquem-se que vão ver a versão de 150 minutos apesar de tudo.

Eu gostei mesmo muito disto, embora me tenha arrastado para conseguir passar da tal parte do meio quando tudo pareceu começar a repetir-se. No entanto [“Valley of Flowers”] está tão carregado de imagens extraordinárias a todo o instante e a sua atmosfera é tão misteriosa e hipnótica que não conseguia mesmo tirar os olhos do ecran só para saber o que iria acontecer a seguir, isto porque em muitos momentos a história do filme parece que não vai a lado nenhum o que nos deixa ainda mais intrigados para descobrir como será o seu final.

E o final é excelente.
Perde aquela carga de aventura e entra num tom desencantado, bastante filosófico e talvez ainda mais próximo do que é costume em cinema ainda menos comercial, mas resulta. E resulta bem, pois [“Valley of Flowers”] subitamente segue por um rumo totalmente inesperado para quem não conhece nada sobre este projecto e daí, volto a insistir AFASTEM-SE DE PROCURAR SABER O QUE QUER QUE SEJA sobre esta obra antes de verem o filme se nunca ouviram falar dele ou da sua temática central.

Algumas reviews, mencionam o facto da história colocar questões a mais e ter respostas a menos, no entanto, eu acho que isso só parece acontecer se tentarmos acompanhar este filme como se estivessemos a ver uma aventura comercial ocidental comum. Isto poderá fazer com que o espectador depois esteja sempre há espera que num determinado momento apareça no ecran um personagem a explicar tudo o que aconteceu e a detalhar qual a origem de tudo e mais alguma coisa.

[“Valley of Flowers”] contém todas as explicações para o que é enigmático na história; agora, não esperem que alguém lhes vá explicar de bandeja todos os seus mistérios, porque a solução está lá mesmo na frente dos olhos durante o filme todo e muito em particular na sua parte final, inclusivamente nos silenciosos derradeiros segundos.

Apenas não há nenhum personagem que diga coisas como – “isto foi assim porque ….” – ou ” afinal a mulher misteriosa era”.
Esqueçam a fórmula ocidental de explicar os filmes e prestem atenção.
Se calhar também convém informarem-se um bocadinho sobre a própria filosofia Budista e sobre alguma mitologia dos Hymalaias antes se puderem, pois se tiverem as referências necessárias vão não só perceber bem tudo o que há de misterioso no argumento quando este alcança o fim da história como se calhar ainda gostarão mais do filme por não ser paternalista.
Embora, por outro lado…alguém deve andar a vender droga da boa por aqueles sítios pois [“Valley of Flowers”] só pode mesmo ter sido escrito debaixo de uma grande moca ! Ou talvez não.

Estou para aqui tentado em falar-lhes sobre o fascinante segmento final deste filme que subitamente atira a história para um registo realmente inesperado mas não o posso fazer por isso se calhar é melhor passar á classificação final para isto antes que eu diga coisas demais.

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CLASSIFICAÇÃO:

É um excelente cruzamento entre o cinema de aventuras, (ou de viagem) onde as paisagens naturais majestosas são uma personagem por direito e um estilo de cinema intimista e filosófico que irá agradar a quem procura algo menos comercial.
Tem uma história deveras enimática embora nem sempre resulte enquanto filme pois 150 minutos talvez seja demais embora o segmento final seja fascinante pelo inesperado e tom filosófico.
Sendo assim, quantro tigelas de noodles pois é realmente muito bom e acima de tudo interessante quando se vê uma primeira vez e se calhar ainda é um daqueles que lhes apetecerá rever de novo um dia destes, até porque é um antídoto perfeito para um cinema de aventuras mais comercial produzido no ocidente.

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A favor: as paisagens naturais são do outro mundo, visualmente o filme está fantástico, o ambiente é mágnifico em todos os sentidos,  tem uma história enigmática que alterna com alguns segmentos de aventura interessantes, as partes sobrenaturais são muito curiosas e hipnóticas, o segmento final parece pertencer a um filme diferente mas resulta mesmo bem pois dá muita frescura a uma história que até aí parecia que não ia a lado nenhum, as explicações para os mistérios e origem dos personagens estão lá mas não esperem que algum deles lhes venha explicar o que se passou na história numa daquelas cenas paternalistas, contém uma canção excelente algures pelo fim.
Contra: ainda não sei se como história de amor isto resulta ou não pois não há grande química entre os protagonistas, esforça-se demasiado por ser um filme romântico e nota-se esse esforço a todo o instante o que lhe retira muita da naturalidade, não é cinema de aventuras ultra comercial e portanto irá desagradar a quem não suporta aquele toqeue de cinema mais intimista, pelo meio arrasta-se demasiado e a história parece não ir a lado nenhum durante minutos a fio, se não tiverem pelo menos algumas boas referências sobre budismo, filosofia e mitologia oriental não irão conseguir perceber a explicação dos mistérios da história pois ninguém lhes vai explicar nada e todas as soluções muito provavelmente irão passar-lhes ao lado por falta de referências para serem notadas, nota-se que foram buscar modelos para actores principais pois o heroi passa o tempo todo em pose constante para a câmara e há por ali alguma falta de naturalidade nas suas presenças físicas embora isso se note menos na actriz principal.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
NÃO VEJAM O TRAILER ANTES DE VEREM O FILME
especialmente se não sabem nada sobre esta obra, pois uma das melhores surpresas do rumo da história está no trailer.

Comprar
http://www.dvdasian.com/_e/India/product/25343/Valley_of_Flowers_Region_3_PAL_DVD_.htm

Download aqui.
AVISO: Não espreitem as fotos senão perdem a surpresa da história. E já agora, vejam se conseguem carregar no torrent sem ler a descrição do filme também porque revela como será a inesperada parte final.

IMDB
E nem pensem em carregar aqui antes de verem o filme.

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