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Sigaw (The Echo) Yam Laranas (2004/2008) Tailândia/Usa

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Esta recomendação vai ser feita de uma forma diferente do habitual, e será uma espécie de dois-em-um, até porque a forma como cheguei até [“Sigaw“] seguiu o caminho inverso do que é habitual.

Há um par de meses atrás vi um filme de terror americano recente que me ficou na memória, tanto pelo excelente estilo visual como pela história atmosférica bem contada e perturbante.
Chamava-se “The Echo” e chamou-me a atenção pelo sentido estético dos enquadramentos, pois na habitual enxurrada daquilo que hoje passa por cinema de terror saído dos estados unidos não tem sido muito comum aparecerem produtos dentro do género que não pareçam mais do telefilmes.
Acontece que “The Echo” logo desde o início contrariava essa forma de filmar e na verdade até pensei que o filme deveria ter sido um fracasso pois nem a sua montagem se enquadrava dentro do estilo videoclip MTV habitual em Hollywood nem tinha própriamente teenagers com psicopatas mas contava uma boa e velha história de fantasmas.

Tudo em “The Echo” contraria um pouco aquilo que tem sido o cinema de terror para o grande público (americanizado) e inclusivamente a sua atmosfera algo melancólica (doentia até) resultou numa obra com um tom muito triste que não é de forma nenhuma recomendável para quem procura apenas divertir-se com um normal filme pipoca.
De qualquer forma, eu gostei mesmo muito de “The Echo”, pois acima de tudo está cheio de bons momentos de tensão e sequências arrepiantes quanto baste.
O conceito, embora não tenha sido particularmente original usou muito bem os clichés mais clássicos das típicas histórias de fantasmas e quando o filme acabou eu estava não só arrepiado (deprimido até), mas convencido que o realizador tinha criado um filme relativamente único dentro das produções modernas americanas e que seria dificil alguém ter feito melhor do isto com esta história.
Até que descobri uma coisa…

E não é que esta produção americana era na verdade outro remake de mais um filme oriental ?!!
“The Echo” é nem mais nem menos do que a versão para ocidentais consumirem de um filme Tailandes chamado [“Sigaw“] produzido no outro lado do mundo quatro anos antes.
Mas há mais !
E não é que o realizador do remake americano é o mesmo realizador do filme original ?!
Hollywood mais uma vez, foi beber á fonte e contratou o autor original para refazer a sua própria obra de modo a agradar ao público ocidental. Tal como já tinha acontecido com o remake do “Ju-On”.
Neste caso, como nunca ouvi falar alguma vez deste “The Echo”, e pelo próprio estilo algo intimísta (e deprimente) do próprio remake, aposto que o tiro saiu pela culatra aos produtores americanos e muito provavelmente o remake deve ter fracassado brutalmente nas salas e ido directamente para dvd.

Nunca irei entender esta moda dos americanos refazerem filmes que já são extraordinariamente bons no seu país de origem só porque o público gringo não sabe ler legendas. Normalmente a coisa dá para o torto e quando não dá, como aconteceu com “The Echo” o resultado ganha contornos quase de cinema de autor e é inevitável que o remake falhe totalmente nas bilheteiras ocidentais que esperam sempre mais do mesmo e não conseguem mais prestar atenção a um filme feito essencialmente por planos fixos e sem montagem de quinhentos frames por segundo ou cenas de acção a bombar de x em x tempo.
Eu gostei muito de “The Echo” e em termos visuais , penso que é bem superior ao original [“Sigaw“], até porque os meios de produção foram outros, nomeadamente no que toca á fotografia que é fantástica no remake; no entanto, quando eu pensava que “The Echo” já era suficientemente perturbante ao ver o original nada me preparava para o que me ia cair em cima.

Depois de vermos uma versão de qualquer história, é muito raro que o original cause o mesmo impacto, pois afinal o efeito surpresa do argumento já se perdeu e practicamente não há muito mais que nos possa assustar mesmo tratando-se de um filme de terror.
Isto pensava eu !
Comecei a ver [“Sigaw“] na maior descontração sem lhe prestar grande atenção, (até porque depois das fantásticas imagens cuidadas do remake, a qualidade visual do original parecia muito pobre em comparação).
No entanto, o filme começa logo com um plano realmente assustador. A primeira imagem do prédio onde toda a história se passa nesta versão original, bem que pode entrar directamente para uma galeria das mais emblemáticas sobre casas assombradas do Cinema.
Logo por aí comecei  a ter um vislumbre de que se calhar o filminho até nem iria ser tão levezinho quanto eu pensava mas nada me preparava para o que viria a seguir.

[“Sigaw“] é assustador como o raio !
“The Echo”, mete medo, mas é aquele medo á americana. Ou seja, está tudo tão bem filmado, todas as imagens são tão bem cuidadas que o espectador acaba por estar a ver a história numa posição de terceira pessoa, isto é, sem se deixar realmente envolver pelo que se passa no ecran. E depois a atmosfera triste, melancólica e deprimente também ajuda a suavizar um bocado a história principal. Isto porque “The Echo” conta ainda com um novo sub-plot completamente desnecessário que não existe em [“Sigaw“] e que distrai demasiado as atenções do horror principal que o filme original tão sabe orquestrar.

[“Sigaw“] é assustador como o raio, mas não é por ser própriamente por ser uma história de fantasmas. Não há nada neste filme que vocês não tenham visto já dezenas de vezes neste género de cinema e inclusivamente para um filme que não é americano, o realizador usa e abusa dos típicos sustos estilo Hollywood com SOM ALTO REPENTINO  nos locais mais esperados o que poderia ter sido uma péssima opção.
[“Sigaw“] é assustador como o raio, porque não depende desses truques para meter medo, mas porque o medo é gerado pela própria atmosfera da história. Se calhar mais do que medo, será apropriado dizermos que [“Sigaw”] é uma história perturbante e é isso que a faz resultar enquanto filme de terror. Isto até poderia ser um filme sem qualquer cena sobrenatural que garanto-vos ia dar-lhes cabo dos nervos na mesma !

Essencialmente [“Sigaw“] é uma história sobre violência doméstica.
Mas uma história sobre violência doméstica, com uma intensidade que os fará ficar sem respiração em alguns momentos, pois tem sequências absolutamente terríficas que nem se comparam ao que acontece depois na versão bem mais politicamente correcta filmada para o remake americano onde tudo é bem mais encenado, plástico e cinematográfico ao contrário da crueza que existe no original e que os fará não conseguir tirar os olhos do ecrã a partir de certa altura mesmo se já viram o remake antes.

Básicamente o filme conta a história de um rapaz que vai viver para um apartamento onde tem por vizinhança um polícia violento que maltrata a sua mulher e filha ao mesmo tempo que se sente uma presença sobrenatural em todo o ambiente do andar onde vivem. No mesmo piso vive também outra pessoa que conhece bem os maus tratos a que a mulher do polícia está sujeita mas que pouco fez ou continua a fazer para tentar impedir que a situação continue.
Temos ainda, um senhorio, a namorada do heroi e a criancinha filha da rapariga maltratada. Tudo gira á volta do medo que toda a gente tem do polícia violento e de como as pessoas se podem unir para interferir neste tipo de situações. Além disso, o filme mete criancinha e  todos nós sabemos que quando um filme de terror mete criancinhas a coisa só tem que ficar ainda melhor e como se as cenas de violência doméstica não fossem desde logo brutalmente intensas pelo suspanse que provocam o realizador ainda resolve pregar-nos um par de arrepios com corredores ás escuras e menininhas na penumbra. Brrrrrr !

Portanto, eu adorei [“Sigaw“] e quanto a mim é um daqueles títulos que pode muito bem figurar entre os melhores filmes de casa assombrada de todos os tempos. O remake “The Echo” é muito bom, mas não se compara aos nervos que este filme original consegue provocar até mesmo em quem já conhece a história e é um daqueles raros filmes de terror que consegue sempre voltar a assustar mesmo quando revisto várias vezes, embora não fiquemos com muita vontade de o estar sempre a rever apesar das suas qualidades indiscutíveis.

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CLASSIFICAÇÃO:
Apesar de ser um filme de terror absolutamente eficaz, ainda pensei atribuir-lhe menos meia tigela de noodles, isto porque enquanto objecto visual, não é um titulo que fique na memória pelas suas imagens, enquadramentos ou sequências sequer, (ao contrário do que aconteceu depois no remake que se destaca pela sua estética cuidada), no entanto não há dúvida que [“Sigaw“] é um dos melhores filmes de terror que poderão ver se estiverem á procura de uma história de fantasmas ao melhor estilo clássico.
Por isso, cinco tigelas de noodles porque esta coisa, mais do que assustadora, é um filme perturbante e com suspanse quanto baste.

A favor: é uma história de fantasmas clássica, é assustador, é perturbante e não precisa de mais nada para ser excelente. É melhor que o remake, embora este também seja muito interessante mesmo e também se recomenda.
Contra: a história é por demais previsivel mas não é grave, nota-se que é um filme de baixo orçamento, a fotografia dificulta a apreciação de algumas cenas, usa e abusa dos sustos com som alto embora curiosamente isso nem estrague o resultado final pois a atmosfera da história é mais assustadora do que qualquer susto desse estilo.
Se este original já é tão bom, para quê um remake ?
A fraca nota no IMDB de ambos os filmes é um triste exemplo do plástico a que o público ocidental está habituado.

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NOTAS ADICIONAIS:

Trailer SIGAW
http://www.youtube.com/watch?v=spnUXeKwnMA

Trailer The Echo
http://www.youtube.com/watch?v=lPtwWaIOqEs



Comprar

Se descobrirem onde comprar o original, digam-me qualquer coisa. Podem no entanto ir buscá-lo em download aqui.
O remake americano podem comprar aqui e aqui.

IMDB – SIGAW
http://www.imdb.com/title/tt0423195/combined
IMDB – The Echo
http://www.imdb.com/title/tt0897347/combined

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Filmes semelhantes de que poderá gostar:

A Tale of Two Sisters Dark Water

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Autor: Alcaminhante

Chamo-me Luis, tenho 45 anos e sou desenhador gráfico/ilustrador de profissão. www.icreateworlds.net Trabalho essencialmente como freelancer em ilustração tradicional e também em criação gráfica destinada á internet. Também trabalho em Banda Desenhada e quem quiser ir buscar os pdfs grátis do meu livro "As Aventuras do Príncipe Ziph" , sigam para aqui: http://icreateworlds.net/banda-desenhada-quadrinhos-gratis Interesso-me essencialmente por cinema, literatura, fotografia e longas caminhadas ao ar livre o mais longe de centros urbanos possível. De preferência junto ao mar e em praias isoladas. Tenho actualmente um blog sobre Cinema Oriental, outro sobre Ficção-Cientifica e ainda um site sobre Marte que podem encontrar aqui: http://www.o-enigma-de-marte.info Espero que gostem das sugestões e voltem sempre. Luis

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