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Bu san (Goodbye Dragon Inn) Ming-liang Tsai (2003) China/Taiwan

3 comentários


A minha primeira reacção a [“Goodbye Dragon Inn“] foi a pior possível e já me preparava para vir para aqui dizer o quanto tinha detestado este típico exemplo de cinema-de-autor no pior dos sentidos, pois há muito que não via um filme tão enervantemente secante !
Este é daqueles que a uma primeira visão pode criar um verdadeiro teste á nossa força de vontade para não carregarmos no botão de fast-forward dezenas de vezes.

Até eu que tenho “Solaris” (versão Tarkovsky), como um dos meus filmes favoritos, ao ver [“Goodbye Dragon Inn“] pela primeira vez só pude dizer: –“MAS CA GRANDA SECA DO #$#”%& !”
O “Solaris” soviético original comparado com isto é um filme do Michael Bay.
E não, não tentem imaginar, pois sem verem [“Goodbye Dragon Inn“] vocês não irão mesmo conseguir conceber a lentidão desta obra que não fica nada a dever ao mais clássico filme do Manoel de Oliveira, talvez com a diferença de que os do realizador Português têm uma montagem muito rápida em comparação…

Isto porque [“Goodbye Dragon Inn“] é o típico filme com que toda a gente goza !
(Pessoal do Brasil podem parar de rir, porque isto quer dizer outra coisa em Portugal e este não é um filme desses…)😉
[“Goodbye Dragon Inn“] é um daqueles filmes em que básicamente se aponta uma câmara para o chão e depois filma-se em tempo real a erva a crescer, por isso estão avisados.
E a história também é semelhante. Pelo menos á primeira vista.
[“Goodbye Dragon Inn“] é lento. MUITO LENTO ! Diria, até PARADO !
Basta dizer que tem uma sequência (genial?), em que se vê apenas um plano único que dura 4 minutos (sim, QUATRO MINUTOS) com uma sala vazia, por isso meus amigos, quem acha o “2001 Odisseia no Espaço” chato e vazio, nem imagina o que o espera aqui e só pela experiência vale a pena espreitarem.

Essencialmente, o filme é constituído por planos únicos e longos. Muito, muito, muito, muito, muito looooooooooongos (numa atmosfera algo deprimente, fria ou até doentia) e o primeiro diálogo entre personagens ocorre aos 40 minutos de um filme que só tem 80, por isso já estão a ver ideia.
Por isso, [“Goodbye Dragon Inn“] é um daqueles filmes de que é fácil não gostar.

No entanto…
O problema, é que ao vê-lo pela primeira vez, mesmo após ter-me arrastado ao longo dos seus penosos 80 minutos de duração, o raio do filme ficou-me na memória durante o dia todo e por mais que me preparasse para vir para aqui desancar este título, a verdade é que [“Goodbye Dragon Inn“] não se tinha tornado  tão simples de detestar quanto a frustração inicial que me causou. Só havia uma coisa a fazer.
Voltar a vê-lo.

E não é que a uma segunda visão, as coisas começam a tornar-se mais fascinantes ?
É que ao contrário do que é costume, apesar de ser lento, (ok,ok… chato), na verdade não tem aquela carga pretenciosa carregada de génio égocentrico que muitos filmes de autor costumam exalar de uma forma insuportável quando um realizador com pretenções a Artista plástico está mais interessado em fazer maravilhosas instalações artísticas videográficas cheias de metáforas e intervenção sociológica do que filmar uma história.

[“Goodbye Dragon Inn“] é um filme secante como há muito não me passava pela frente.
Por causa disso é um daqueles titulos que corre logo á partida o risco de alienar metade da audiência pois a sua estrutura faz com que o espectador casual passe ao lado um filme único sem lhe dar mais qualquer hipótese por este sair do tipo de cinema mais fácil de digerir.
Muita gente não aguentará vinte minutos disto sequer, mas quem conseguir vê-lo até ao fim, muito provavelmente ficará com muita da sua atmosfera assombrada no pensamento durante horas a seguir.

Quem ganhar coragem para o voltar a ver, então se calhar é porque também foi apanhado por aquilo que de certa forma torna esta obra especial e a sua falta de prentenciosismo para se armar em “inteligente” é uma mais valia, ao contrário do que costuma acontecer em muito cinema de autor supostamente Iluminado logo á partida.
Pode ser uma opinião pessoal, mas a ideia com que fiquei disto é que o realizador filmou assim porque simplesmente faz parte do seu estilo visual e nada mais e por isso se partirem para [“Goodbye Dragon Inn“] uma segunda vez e conseguirem acompanhá-lo  já conhecendo a forma como ele está apresentado, não estranhem se de repente começarem a ver esta história com outros olhos.

Se alguma vez tiveram na vossa cidade uma sala de cinema de que gostaram muito e que talvez tenha feito parte da vossa infância ou juventude mas que agora já não passa de uma relíquia do passado tendo sido substituída pelos plásticos cineplexes dos shoppings, se calhar encontrará em [“Goodbye Dragon Inn“] alguma magia e irão identificar-se com a sua nostálgica tristeza, pois apesar de “não ter história nenhuma” é um filme sobre a magia do Cinema e se calhar de como este era bem melhor (e bem mais mágico) quando o viamos, não com som DTS em cadeiras almofadadas e em salas de ar condicionado mas em cinemas antigos com som mono, ecrans de pano rasgados,  fitas queimadas e moscas quanto baste; em sessões onde ainda as pessoas viam os filmes caladas, era proíbido comer nas salas e estavamos numa altura em que não estreava um blockbuster todas as semanas que já estará esquecido na semana seguinte.

É esse o tema subliminar de [“Goodbye Dragon Inn“], apenas não usa uma história para falar desses tempos mas sim mostra os ambientes actualmente solitários que outrora tiveram dias de glória.
É chato ? É pois.
É uma seca do camandro ? Pois é.
Mas resulta ?
Resulta pois !

Não se deixem enganar com as comparações deste filme com o “Cinema Paradiso“. É certo que a sua alma é a mesma, mas a sua forma não tem nada de idêntico por isso não esperem o mesmo tipo de filme. No final a sua magia é a mesma, mas [“Goodbye Dragon Inn“] exige uma predesposição para o aturar que não era necessária no poético filme de Tornatore. No entanto ambos os filmes acabam por ir dar ao mesmo e ambos recordam uma época que já não volta mais no que toca á velha relação do público com a magia do Cinema e só por isso também vale a pena tentarem espreitar esta produção made-in-Taiwan.
No entanto façam-no por vossa conta e risco.😉

Mas afinal o que fazem os personagens neste filme ?
Não se preocupem com *spoilers* pois em [“Goodbye Dragon Inn“] isto não se poderá aplicar de todo e até poderá ajudar á navegação do pessoal que não está muito habituado a espreitar este género de cinema.
Resumindo:
Essencialmente acompanhamos várias histórias que representam as várias fases de glória de um velho cinema clássico através da presença e do olhar de quatro ou cinco personagens. A maioria nem sequer abre a boca durante o filme todo mas cada um conta um pouco da história do Cinema em geral.
Estamos na última noite antes de um velho cinema ir fechar para sempre e pela última vez, passam na última sessão um dos clássicos do cinema de artes marciais chinés, chamado precisamente “Dragon Inn“.

Outrora algo que enchia a velha sala com espectadores com o passar das décadas e o aparecimento dos novos cinemas modernos a situação inverteu-se e no momento presente em que [“Goodbye Dragon Inn“] decorre o filme Dragon Inn, atrai apenas almas solitárias que parecem tão deslocadas do ambiente da sala quanto a sala está isolada no tempo. Incapazes de comunicar uns com os outros, a única coisa que têm em comum é o facto de todos estarem presentes nesta última sessão e essencialmente o filme “filma” a sua presença nesse ambiente e nesse momento como se fosse o registo final de uma Era que apenas tem o tempo de vida da duração da última projecção de Dragon Inn.

Acompanhamos a empregada do cinema que deambula como um fantasma do passado pelos corredores do edifício com a sua deficiência física – (uma sombra da beleza que também ela teve um dia?) – tentando discretamente captar a atenção (romântica?) do projecionista como se fosse uma última tentativa para se fazer notar.
E enquanto o filme decorre na sala principal, observamos um turista homosexual japonês solitário que procura algo mais do que cinema, assistimos ao seu encontro incómodo com outro homem num corredor onde nada se passa mas onde se menciona que o edificio poderá estar cheio de fantasmas.
Simbólicos ou literais ?

Observamos ainda duas velhas estrelas do filme Dragon Inn original (os verdadeiros actores) que agora já idosos assistem á sua juventude perdida no ecran daquele cinema vazio mas em locais separados sem nunca notarem a presença um do outro. Essencialmente , estes e mais um par de outros personagens formam um padrão de figurantes que compõem toda a essência de [“Goodbye Dragon Inn“] e transportam o filme até ao seu final em que se mostra apenas a sala vazia, – (seriam alguns desses espectadores na verdade fantasmas ?)

A empregada e o projeccionista abandonam pela última vez a velha sala de cinema sem se cruzarem (seriam reais?) ao mesmo tempo que deixam para trás um passado que já não voltará e talvez também uma possível relação romântica que já não terá oportunidade de florescer, ao mesmo tempo que toda a emotividade do momento é resumida numa canção tradicional chinesa sobre a saudade e nostálgia.
The End
.

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CLASSIFICAÇÃO:
Hesitei entre dar-lhe apenas trés tigelas de noodles ou quatro, apenas porque é realmente um filme díficil…ok, chato !
No entanto decidi-me pelas quatro tigelas de noodles porque realmente há aqui qualquer coisa de especial e se entrarmos na onda enquanto espectadores quanto mais detalhes descobrimos naqueles planos únicos de 4 minutos, menos secante o filme nos parece.
Por isso e para prevenir logo isto, por agora fica com quatro tigelas embora algo me diga que um dia destes ainda lhe aumento a classificação.
No entanto isto não quer dizer que eu recomende [“Goodbye Dragon Inn“] a toda a gente e muito menos a quem chega agora á procura de cinema oriental “normal”, pois provavelmente se vir isto assim sem qualquer aviso prévio  se calhar não quererá ver mais nada depois.
De qualquer forma, é um filme que merece uma oportunidade.
Se estiverem habituados a cinema de autor provavelmente irão adorar, se não estiverem e quiserem começar por uma coisa mais levezinha dentro do género sempre podem começar pelo “In the Mood For Love” , pelo “Days of Being Wild” ou “2046” antes de experimentarem [“Goodbye Dragon Inn“]. 

Mas não deixem um dia destes de lhe dar uma chance.
É o antídoto perfeito para uma dose dupla do “Transformers” do Michael Bay. Vão por mim.
E sim, [“Goodbye Dragon Inn“], é uma seca descomunal, mas vale quatro tigelas de noodles na boa.
Se é que não vale até mais…

A favor: para além da seca inicial que pode provocar a uma primeira visão tem uma profundidade que na realidade nem precisa de diálogos para nada, a atmosfera assombrada, tem alma e evoca nostálgia, só tem 80 minutos, tem um bom estilo visual, não é um filme pretencioso e apesar de ser “art-house” tem uma identidade modesta e genuína sem pretenções, quanto mais se revê menos secante parece e mais fascinante se torna, será uma história sobrenatural ?
Contra: quem nunca viu cinema de autor é melhor não começar por este, planos fixos de 4 minutos com salas vazias é capaz de ser demais para muita gente, idem para muitas outras sequências de plano fixo ao longo do filme, a atmosfera assombrada ás vezes pode ser algo doentia a fazer lembrar um filme de terror, é uma seca do caraças se não estiverem com predisposição para o que irão encontrar pela frente.

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NOTAS ADICIONAIS:

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=zHMxMJ6qkOU



Comprar

Só o apanharão em Sellers da Amazon americana

Ou Podem ir buscá-lo aqui.

IMDB
Goodbye Dragon Inn

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Filmes semelhantes de que poderá gostar:

*Não tenho nada semelhante neste blog*

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Autor: Alcaminhante

Chamo-me Luis, tenho 45 anos e sou desenhador gráfico/ilustrador de profissão. www.icreateworlds.net Trabalho essencialmente como freelancer em ilustração tradicional e também em criação gráfica destinada á internet. Também trabalho em Banda Desenhada e quem quiser ir buscar os pdfs grátis do meu livro "As Aventuras do Príncipe Ziph" , sigam para aqui: http://icreateworlds.net/banda-desenhada-quadrinhos-gratis Interesso-me essencialmente por cinema, literatura, fotografia e longas caminhadas ao ar livre o mais longe de centros urbanos possível. De preferência junto ao mar e em praias isoladas. Tenho actualmente um blog sobre Cinema Oriental, outro sobre Ficção-Cientifica e ainda um site sobre Marte que podem encontrar aqui: http://www.o-enigma-de-marte.info Espero que gostem das sugestões e voltem sempre. Luis

3 thoughts on “Bu san (Goodbye Dragon Inn) Ming-liang Tsai (2003) China/Taiwan

  1. Bom saber que estás de volta a ativa, fico feliz e irei assistir aos recomendandos.
    Muito obrigado,

    Abraço

  2. Estou a tentar. Tenho um sério problema com uma mãe com Alzheimer fulminante por aqui ao mesmo tempo que ando a trabalhar bastante em ilustração por isso o tempo tem sido pouco para filmes orientais, mas vou tentar actualizar isto pelo menos uma vez por semana daqui para a frente.
    Obrigado pelo apoio.🙂

  3. E já agora, boa sorte se vais tentar assisitir a este filme também.
    Só os bravos sobreviverão meu amigo.😉

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