Himalayaeui sonyowa (Himalaya, Where the Wind Dwells) Soo-il Jeon (2008) Coreia do Sul


Há filmes aparentemente tão estúpidos que só podem ter sido pensados para pessoal muito inteligente.
[“Himalaya, Where the Wind Dwells“] será certamente um deles.
Só pode.
Quando se passou mais de meia hora e os personagens nem sequer debitaram cinco minutos de diálogo coerente uma pessoa começa a suspeitar que este filme deve pretender ter um QI muito elevado.
Os personagens ás vezes falam, mas nestas alturas o espectador corre o sério risco de começar a ficar irritado.

Isto partindo do principio que [“Himalaya, Where the Wind Dwells“] até tenta ter uma história. O que duvido.
Se gostam de filmes onde passam eternos minutos a ver personagens contemplando o vazio, filmes em que as pessoas olham para paredes de um quarto de hotel sem se mexer depois de os termos visto a desfazer uma mala de viagem durante outros tantos largos minutos então este filme é para vocês.
Este filme é tão genial que eu não resisto a contar-lhes agora toda a sua história (?) ao contrário do que costumo fazer, só para vocês verem como eu também sou um gajo inteligente que gosta de filmes para pessoas que compreendem a verdadeira Arte cinéfila.

[“Himalaya, Where the Wind Dwells“] começa com um tipo que possivelmente terá sido despedido pois não está com uma cara de bons amigos no primeiro plano, depois vemos a mesma pessoa no seu apartamento a olhar para o televisor em total estado de zombie deprimido, seguidamente vai até uma casa funerária e debita um par de diálogos, então somos transportados para o Nepal e o senhor está dentro de um táxi cujo o percurso é filmado em plano subjectivo durante largos minutos enquanto somos conduzidos por uma espécie de viagem virtual pelas caóticas ruas de uma cidade nas montanhas em que se guia quase tão bem quanto em Portugal ( a sequência de acção do filme).

Seguidamente o tipo fica durante mais uns minutos parado á chuva á porta de um estabelecimento porque sim.
Depois está num quarto de hotel a olhar para a parede após ter desmanchado a sua mala bem devagarinho para o espectador poder contemplar aquela fascinante actividade. E tudo isto sempre num único e mesmo plano. Deve ser uma metáfora qualquer.
Repentinamente estamos nas montanhas e o senhor segue a pé num estado absolutamente lastimável uma espécie de guia por caminhos de pedras enquanto tenta respirar e finalmente cai para o lado.

Mais um bocadinho de diálogo entre o guia e um nativo local e alguém se presta para levar o nosso heroi completamente desmaiado num burro montanha acima.
Chegando ao seu destino o senhor encontra a casa da familia que procurava (?), conhece uma criança absolutamente enervante que toca (mal) flauta mas insiste em presentear-nos com uma melodia daquelas que nos torna a todos fãs imediatos da Celine Dion quando já julgavamos que nada poderia ser mais irritante.

Seguidamente, o tipo conhece a mãe do puto com dote musicais e dá-lhes um envelope de dinheiro que supostamente o pai e chefe de familia lhes enviou como resultado do seu trabalho numa qualquer fábrica da Coreia do Sul que explora emigrantes Nepaleses.
É por esta altura que também vislumbramos um gajo que deve ser uma espécie de avô que não faz mais nada no filme a não ser decorar o cenário e que certamente ainda não percebeu que está morto ou então deve andar a fumar qualquer coisa da boa que se planta nas montanhas e não contou nada a ninguém.

O nosso heroi sempre com cara de gajo aborrecido como o caraças, vagueia pela vila das montanhas, saca umas frutas a um vendedor e ensaia uns passos de futebol com o puto da flauta.
Mais tarde conhece aquele que segundo o puto, é “outro dos seus vários pais” quando este uma noite visita o lar familiar. É aqui que entra a parte erótico-deprimente do filme quando o nosso heroi tem o prazer de ouvir através das paredes o pai número dois do puto ter a sexo com a mãe da criancinha porque sim. Embora aqui o ar chateado do gajo se justifique…
No dia seguinte passeia mais um bocadinho pela vila, tem um par de diálogos com a criancinha que não larga a #$%£ da flauta e a familia fica a perceber que o pai imigrante afinal está morto num qualquer acidente fabril, entretanto abrem uma cabra (don´t ask), a mãe do puto segue um ritual tibetano no alto de uma montanha e o nosso heroi caminha em direcção á câmara supostamente abandonando a aldeia, voltando para a civilização ou quem sabe tentando encontrar alguém que lhe saiba explicar se o filme já começou a ser filmado.

Resumindo, gostei muito de [“Himalaya, Where the Wind Dwells“].
Aviso já que esta review poderá parecer-vos algo confusa mas a verdade é que esta é uma daquelas obras fascinantes e compreendo perfeitamente ter sido tão falada e conceituada nos festivais por onde passou.
Ainda estou a tentar perceber o que vi, mas não se pode negar que o filme é absolutamente hipnótico.
É completamente secante, mas ao mesmo tempo não é. É lento, muito lento, mas está sempre a acontecer algo no ecran, mesmo quando na verdade não se passa absolutamente nada na história. Aliás…qual história ?

Até eu que gosto bastante de cinema de autor, daqueles que nem parecem ter história nem nada, fiquei agora sem saber o que dizer deste [“Himalaya, Where the Wind Dwells“].
É que comparado com a narrativa deste filme, até um argumento do Hong-Kar-Way tem uma estrutura mais complexa que o Senhor dos Anéis !
Aliás, ao contrário do que se passa nos argumentos “sem história” do Kar-Way, aqui , “o vazio” não serve para nada, não ilustra estados de espirito, não nos dá indicações de sentimentos e não cria qualquer ligação emocional entre os personagens. Muito menos com o espectador.

O personagem do filme só tem dois estados de espirito, ou está deprimido ou está desmaiado. Nenhuma das suas interacções cria qualquer empatia com as pessoas que o rodeiam e até mesmo quando parece que haveria alguma relação mais romântica com a jovem viuva(?) a coisa fica numa atmosfera completamente ambigua. As cenas com o puto enervante não servem para nada além de nos mostrar que o sotaque oriental não é o melhor para tentarem falar inglés uns com os outros e a narrativa não tem qualquer objectivo nem cria qualquer relação com o espectador.
O filme essencialmente é apenas sobre um tipo que foi ali a um sitio nas montanhas e depois foi-se embora.
Não evoluiu espiritualmente, não teve nenhuma epifania, nem sequer se envolveu com a viuva e passou o filme todo com ar chateado apesar de ter viajado pelo melhor conjunto de paisagens de montanha que vocês verão em muito tempo.

Supostamente segundo algumas entrevistas com o realizador, [“Himalaya, Where the Wind Dwells“] pretende ser uma crítica ás condições em que os trabalhadores emigrantes trabalham nas fábricas da Coreia do Sul…mas que raio…não se nota de todo. Se calhar alguém lhe deveria ter dito que seria bom ter mostrado pelo menos uma fábrica na história…ou então o gajo quis foi uma viagem ao Nepal e isto de ser realizador de filmes inteligentes dá jeito para se inventar desculpas para ganhar bilhetes de avião grátis.
Aliás, o que torna este [“Himalaya, Where the Wind Dwells“] numa obra memorável não são as suas supostas intenções de crítica social (?), mas sim as paisagens onde a obra foi filmada.
Todo o filme está polvilhado de ambientes cénicos absolutamente lindissimos e quem gosta de paisagens de alta montanha com sabor Tibetano não pode de maneira nenhuma perder este filme.
Quase que mete pena, alguém se ter dado ao trabalho de ir para um local destes filmar estas paisagens para depois as usar numa história tão estéril e descaracterizada que é a verdadeira antítese do sitio onde esta decorre.
As montanhas remetem-nos a todo o momento para algo grandioso e até completamente espiritual e no entanto o personagem principal passeia-se por aqueles locais como se estivesse a caminhar pelo corredor de um departamento de finanças na hora de declarar os impostos.
Isto tem mesmo de ser um filme muito inteligente pois não o compreendo de todo.

A realização é enervante.Entra por aquele estilo de plano único e continuado que a principio tem classe mas depois já mete nojo de tão genial que aparenta ser. Não estou a pedir uma montagem á Michael Bay mas que raio, alguém deveria ter dito a este realizador que fazer um filme inteiro numa sequência da practicamente planos únicos gerais tornava a coisa um bocado repetitiva.
Somos brindados com uma colecção fabulosa de postais turísticos ilustrados sobre as belezas naturais do Nepal, mas passada meia hora de tanta beleza visual estática damos por nós a pedir que a história tivessa alguma base emocional que desse vida e uma qualidade humana a tanta beleza geográfica.
Quando parece que o filme até ia começar a ganhar alguma paixão e alguma humanização, o heroi caminha para fora do enquadramento e o filme acaba.
Tal como acaba agora esta review.

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CLASSIFICAÇÃO:
Apesar de tudo não consigo deixar de gostar deste filme.
É um daqueles que tem tudo mas ao mesmo tempo não tem nada.
E se calhar até terá alguma coisa…
Neste momento já não sei. Só sei que eu gostei. Há aqui qualquer coisa de original e verdadeiramente único que nos agarra, embora fiquem desde já avisados que este não será o melhor filme para verem se estiverem com sono.
Essencialmente este é um daqueles filmes aparentemente tão vazios, que o seu vazio se torna na sua melhor qualidade.
Deve ser Arte.
Trés tigelas de noodles porque é realmente um bom filme, embora algo pretencioso, o que lhe retira alguns pontos. Mas recomendo vivamente se gostam de cinema de autor e quiserem ver um produto único e bem diferente do habitual.

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A favor: tem o actor de “Old Boy” no principal papel e este tipo é excelente até quando passa o filme todo com a mesma cara, as paisagens naturais são absolutamente lindissimas e quando aparecem no ecran abrem o filme por completo a uma escala que contrasta totalmente com o intimismo (ou a falta dele) da suposta história, é um produto diferente e apesar de tudo com alguma identidade.
Contra: não se passa nada neste filme, não há qualquer identificação emocional com os personagens ou qualquer empatia com o espectador, a realização em estilo de plano único acaba por cansar.

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NOTAS ADICIONAIS

TRAILER
http://www.youtube.com/watch?v=V1LIjn8wlUY

Encontrei-o para download neste website, caso queiram espreitá-lo mas ainda não o encontrei á venda. Digam-me qualquer coisa se souberem onde se vende isto em dvd pois estou a pensar comprá-lo no futuro.

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1179079/

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Filmes semelhantes de que poderá gostar:
(Não me lembro de nada semelhante a isto, mesmo dentro do cinema de autor)

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7 thoughts on “Himalayaeui sonyowa (Himalaya, Where the Wind Dwells) Soo-il Jeon (2008) Coreia do Sul

  1. Curioso como se acaba por aparentemente “gostar” de algo que se insulta desde o inicio praticamente ao fim do comentário! Uma autêntica zombaria ao filme e ao realizador mas que afinal até parece ser bom, sabe-se lá porque……é o Choi Min-sik dizem eles!
    Épico!

  2. Já tinha curiosidade em ver este filme. Depois desta crítica ainda fiquei com mais. Pensei mesmo em comprá-lo este mês mas depois estoirei o orçamento mensal noutras edições igualmente apetitosas.
    Encontrei-o à venda aqui: http://www.k2dvd.com/shop/p_detail.asp?idx=2792&location=&genre=Comedy/Drama
    Recomendo esta loja. Não são baratos mas o atendimento ao cliente é excelente, são rápidos e os dvds vêm muito bem embalados.
    Já agora, parabéns pelo blog. Gosto muito de ler as suas críticas. Tem uma maneira muito própria e interessante de escrever. Por isso espero que continue a postar a um bom ritmo. Cá estarei para o ler.

  3. Adorei este texto. Não fosse a curiosidade que me causou nunca teria visto o filme.
    Também gostei do filme e tenho mais ou menos a mesma opinião que o autor do blog porque ao principio também achei o filme muito desconcertante e ao mesmo tempo fascinante do princípio ao fim.
    Era bom que encontrássemos mais vezes análises a cinema dito mais sério com este sentido de humor. Só quem gosta de algo sabe como insulta-lo desta maneira que no entanto cativa quem lê a ir também buscar conhecer o filme.

  4. Eu compreendo a dificuldade de assimilar esse filme. Mas eu o achei fascinante. Choi Min Sik não escolhe qualquer obra pra atuar. Ele sabe que há algo nesse filme. E, do meu ponto de vista, o filme é para ser contemplado. Se algum de nós fôssemos para o Nepal, ou qualquer lugar afastado como tal, vivenciaríamos algo parecido em estado de espírito.

    1. Olá Douglas. Nunca hei de entender porque este é um dos textos mais “polêmicos” que coloquei por aqui. Talvez seja do meu estilo de humor negro ou algo assim. Na verdade este filme irritou-me e fascinou-me ao mesmo tempo. E eu gosto de cinema de autor oriental por isso não foi por causa do estilo mas talvez pela forma. Achei-o verdadeiramente hilariante no mais irritante dos sentidos. E eu nada tenho contra historias contemplativas pois wong kar way ta no meu topo de realizadores favoritos por exemplo mas este filme achei-o anedótico, fascinante e insuportavel ao mesmo tempo. Tenho que o rever um dia destes até porque conta com um dos meus actores orientais favoritos e tudo. Obrigado pelo comentário.

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