Kinpatsu no sougen (Across a Gold Prairie) Isshin Inudou (1999) Japão


Imaginem que um dia descobrem que tudo aquilo que consideram a vossa realidade não passou de uma ilusão.
Não, me enganei nas fotografias desta review e não vou falar do Matrix ou sequer de uma qualquer versão oriental do mesmo.

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A minha vontade agora seria transformar a review deste filme num extenso artigo detalhando a minha experiência com o tema de [“Across a Gold Prairie“] pois estamos na presença de uma história sobre Alzheimer e sobre este assunto eu podia escrever uma tese de doutoramento pelas razões mais negativas que possam imaginar pois o meu pai morreu com esta doença sem qualquer apoio social ou dos serviços de saúde deste país á-beira-mar-naufragado onde só se fala desta doença quando os telejornais precisam de arranjar um tema com choradeira para uma reportagem á pressão.
Sendo assim e voltando ao que interessa, estranhamente [“Across a Gold Prairie“] é um pequeno grande filme oriental sobre o tema e na sua simplicidade consegue apresentar-nos não só a história menos deprimente sobre Alzheimer que vocês encontrarão pela frente como ainda por cima nos surpreende com uma original história de amor.

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Esta obra não lhes ficará na memória como um grande objecto cinematográfico, não é por isso que funciona.
A realização apesar de muito eficaz não deixa de ser curiosa pois está filmado ( e ás vezes montado ) como se fosse um moderno documentário televisivo, embora nunca assuma por inteiro esse estilo porque ao mesmo tempo pretende contar uma história de um ponto de vista mais tradicional.

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E a história é um dos pontos altos deste [“Across a Gold Prairie“].
Como já disse tem por base a doença de Alzheimer, mas não se preocupem pois este não é um filme deprimente, clinico ou sequer intensamente dramático. Por causa do  estilo de realização, quando muito poderá talvez ser enquadrado dentro do cinema-de-autor mas não deixem este comentário afastar-vos desta história.

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Para quem não sabe, ou para quem tem a sorte de nunca ter tido que lidar com uma pessoa atingida por esta doença, uma das possíveis características do Alzheimer está no facto de poder eliminar por completo todas as memórias recentes de uma pessoa deixando intactas recordações com décadas e décadas de existência.
Tentem imaginar que vocês têm agora 80 anos, mas todas a vossa vida dos últimos sesenta anos foi apagada do vosso cérebro e portanto para vocês é como se essa vida nunca tivesse existido.

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Essencialmente [“Across a Gold Prairie“] é sobre um idoso com 80 anos que se julga ainda com 20 anos  e todo o filme é mostrado dessa perspectiva.
Antes que me esqueça, nota absolutamente fantástica para o jovem actor que representa o personagem principal. Quem procura supreender-se com uma interpretação absolutamente fascinante tem mesmo que ver este filme.

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Ainda o filme não começou há dez minutos e já nem nos lembramos que estamos a ver um jovem no ecran.
[“Across a Gold Prairie“] não recorre a qualquer efeito especial de maquilhagem, digital ou o que quiserem e no entanto percebemos imediatamente que estamos a ver um idoso no ecran apenas pelos maneirismos e tiques que o actor usa para interpretar uma pessoa de 80 anos.
Nunca vemos um actor idoso neste filme e no entanto é capaz de ser a melhor e mais realística história sobre a terceira idade que vi em muitos muitos anos.

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Quem conhece bem o problema da doença de Alzheimer e tem, ou teve um familiar próximo afectado pela doença tem mesmo que ver este filme.
Quem não consegue conceber como raio é que um velho de 80 anos se pode alguma vez julgar ainda uma criança e viver numa autentica realidade passada completamente alheia á realidade contemporanea de quem o rodeia, tem mesmo que ver este filme.
Quem alguma vez, olhando para um familiar algum dia se perguntou como seria a realidade vista pela mente de uma pessoa a quem décadas de memória  foram simplesmente desintegradas, tem mesmo que ver [“Across a Gold Prairie“].

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Volto a lembrar que se pensam que se vão deprimir muito com este filme asiático, estão redondamente enganados.
O facto do filme partir do ponto de vista da pessoa que sofre da doença, automáticamente faz com que este seja uma história com uma perspectiva muito ligeira e positiva.
O protagonista não está propriamente a sofrer e nem sequer faz ideia de que é vitíma de uma doença degenerativa, porque na sua mente ele está no início da sua vida.  Como tal tudo é positivo e para ele o futuro ainda está na sua frente apesar de não perceber bem porque é que se custa tanto a mexer e nunca tem a energia que deveria, afinal ele “só tem” vinte anos.

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E como tem vinte anos, está ainda por cima na idade certa para se apaixonar.
Coisa que inevitávelmente acontece quando uma rapariga de 18 anos é contratada por uma agência para tratar do velhote e este por se julgar ainda jovem imediatamente se apaixona por ela.
Esta personagem feminina é o outro lado desta história simples mas muito bem contada pois é a partir dela que vemos o nosso lado da questão.
Tudo aquilo que nos faz confusão quando vemos um doente de Alzheimer é nos apresentado através dos mesmos problemas e dúvidas que o personagem da rapariga enfrenta ao tentar cuidar do idoso e é através dela que seguimos os acontecimentos que irão unir estes dois personagens e levar o filme até ao seu inevitável desfecho.

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Inevitável mas nem por isso, telenoveleiro, triste, piroso ou sequer demasiado dramático.
[“Across a Gold Prairie“] é um exemplo de contenção no que toca a trabalhar um argumento deste tipo.
Nas mãos erradas isto teria sido motivo para inúmeras cenas de choradeira interminável, ou exagero no tratamento da perspectiva do idoso mas felizmente, se alguma vez virem um filme que realmente equilibra de forma perfeita e muito simples um tema complicado como este será agora esta pequena obra que vale mesmo a pena espreitarem.

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Talvez o único senão, seja o facto de em alguns momentos sentirmos que o realizador se esforça demasiado por evitar filmar um produto comercial e se calhar com isto acaba por perder um pouco daquela emoção que deveria ter deixado fluir, particularmente no segmento final da história.

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Por causa disso, [“Across a Gold Prairie“] não será propriamente um filme romântico, mas mete uma original e bem contada história de amor, não será um filme dramático no mais trágico dos sentidos mas contém inúmeros momentos muito bem apresentados e que lhe dão um toque realístico absolutamente tocante ( a cena em que o idoso liga para todos os seus amigos “com 20 anos” e descobre que eles já morreram há décadas é mágnifica na sua simplicidade e eficácia para nos dar nós na garganta).

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Também não é uma comédia, mas consegue tratar alguns pormenores da doença com algum sentido de humor o que ainda humaniza mais esta história e neste ponto também acerta em cheio, pois se existe uma doença que vive num eterno equílibrio entre o drama mais trágico e a comédia de situação mais engraçada é a doença de Alzheimer por todas as situações inacreditáveis que provoca.

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CLASSIFICAÇÃO:

Possívelmente o melhor, mais humano e menos deprimente filme sobre a doença de Alzheimer que poderão alguma vez ver.
Nunca cai minimamente naquele tipo de drama muito comum no estilo americano (que normalmente ganha Óscares aos quilos) em que se explora até á migalha mais pequena todo o tipo de emoções óbvias que se podem extrair de uma história com um tema destes e normalmente dá origem a argumentos de telenovela do mais óbvio ou piroso.
Não neste filme, talvez até de uma forma demasiado radical.
A naturalidade com que todos os pormenores da doença são abordados e a forma quase subliminar com que tudo isto está filmado, coloca este filme de baixo orçamento num patamar muito acima de qualquer coisa que vocês já viram saída de Hollyood sobre este género de temas.

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Se já tiverem tido alguma experiência próxima com um doente de Alzheimer e gostariam de tentar compreender melhor o que se passará do outro lado desta doença sem apanharem uma depressão este filme é de visão obrigatória.
Quem nem faz ideia do que estou a falar também vai gostar pois acima de tudo é uma história muito bem contada que os fará ficar a pensar.
Trés tigelas e meia de noodles porque é realmente muito bom mesmo, e só não lhe dou mais apenas porque não é um daqueles filmes que visualmente nos fica na memória ou nos apeteça rever constantemente.
De qualquer forma na minha opinião é mais um daqueles imprescindíveis numa colecção de cinema oriental.
Não deixem que a aparente suave classificação que atribuo a [“Across a Gold Prairie“] os impeça de espreitar este pequeno grande filme cheio de personagens humanos e uma história absolutamente hipnótica que os fará questionar o que será a realidade muito mais do que se virem os trés Matrix juntos.

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A favor: o humanismo da história, a sua simplicidade é viciante e temos mesmo de ver o que vai acontecer a seguir, os pequenos pormenores que nos explicam por completo como será o ponto de vista de uma pessoa que sofre (sem saber) desta doença, a pequena história de amor por muito estranha que possa parecer a certa altura resulta plenamente, o jovem actor que faz de idoso tem um desempenho digno de Óscar sem se evidenciar a todo o momento, a actriz principal também é notável na sua simplicidade, apesar de ser um filme sobre uma doença tão desgastante e trágica como o Alzheimer o filme não é de modo nenhum uma obra triste ou deprimente, o argumento consegue colocar o espectador a pensar e discutir coisas que se calhar nunca lhe passaram pela cabeça, a estranha realização num estilo quase documentário televisivo funciona embora não fique na memória.
Contra: visualmente não tem nada de extraordinário ou sequer de muito cinemático, tem um certo sabor a cinema de autor que ainda não sei se o prejudica ou não e que poderá não agradar a toda a gente, os momentos finais se calhar pediam que se evitasse a conteção emotiva que percorre o filme, esta história merecia ter-nos tocado mais no fim pois todo o seu desenvolvimento do início até quase mesmo ao seu final é notávelmente boa mas ficamos com a sensação que o fim da história poderia ter ido mais longe, ás vezes parece que o realizador se esforçou demasiado por não fazer um filme muito comercial e não havia razão para isso pois o excelente argumento resistiria na boa a um bocadinho mais de emoção pelo menos no seu final.

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TRAILER
Pois eu gostava muito de lhes encontrar um, mas estranhamente não existe em lado nenhum a não ser no próprio dvd que comprei na Play-Asia.

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COMPRAR
Edição simples – foi esta que eu comprei.
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7j-49-en-15-across+a+gold+prairie-70-hv4.html
Só contém o filme e é uma edição mediana em todos os sentidos, mas vale a pena.
Edição especial
http://www.dvdasian.com/_e/Japan/product/23416/Across_A_Gold_Prairie_aka_Kinpatsu_No_Sougen_Limited_Edition_Region_3_DVD_.htm

IMDB

http://www.imdb.com/title/tt0260123/

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