Suwîto rein: Shinigami no seido (Sweet Rain) Masaya Kakei (2008) Japão


Se procurarem reviews deste filme na net, descobrirão que existe alguma tendência de [“Sweet Rain“] ser comparado com o americano “Meet Joe Black” até de uma forma algo depreciativa.
Na minha opinião, apesar de ambos os filmes terem como protagonìsta – a Morte – e terem mais ou menos o mesmo estilo de atmosfera, são no entanto duas obras diferentes e sem grandes pontos de contacto apesar das aparências.
Eu gosto muito dos dois e não tenho dúvida que [“Sweet Rain“] tem também um lugar á parte dentro deste género de cinema sobrenatural pois acima de tudo é um filme oriental com algum charme.

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Algo fúnebre, mas muito ligeiro e poético. Além disso, acima de tudo tem uma coisa que para mim será sempre imprescindível para que este tipo de história  funcione. Ou seja, é um filme filosófico daqueles que nos faz pensar e pelo meio ainda tem um sentido de humor subliminar muito divertido que aparece sempre nos momentos certos e ás vezes inesperados.
[“Sweet Rain“] é também um daqueles filmes ideais para quem tem medo de morrer, ou se calhar para quem perdeu alguém recentemente, pois como já referi contém um argumento filosófico que acaba por colocar algumas questões existenciais e no final deixa-nos com uma sensação de leveza, de confiança numa vida-depois-da-morte e até de felicidade, tudo através de um final particularmente simples mas poético e que resulta em pleno.

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Logo nos primeiros momentos sente-se que o filme irá ser especial. A breve sequência introdutória, embora de desfecho previsível define imediatamente a atmosfera e agarra o espectador fazendo-nos ficar mesmo com vontade de continuar a ver o que irá acontecer a seguir.
E o que acontece é cada vez mais curioso. A maneira como o universo da Morte está retratado é não só muito divertida, como atmosférica e bastante original pois parece que no Além, ser “Morte” deve ser uma espécie de profissão (estilo Terminator mas em versão bonzinho).
Ao contrário do que os humanos pensam, não há apenas uma Morte (neste caso, “um…Morte”), mas vários. Um verdadeiro esquadrão de “Mortes” profissionais que levam o seu trabalho não só muito a sério como até de forma divertida e além de serem absolutamente fascinados por música humana, custam a perceber porque razão as pessoas têm medo de morrer quando o processo é tão simples, natural e tudo não passa de uma continuídade.

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E isto porque ao contrário do que as pessoas pensam, a Morte quando aparece não vem para tirar a vida a ninguém, mas sim para guiar o espírito da pessoa que morre até ao próximo plano de existência. Curiosamente na minha banda desenhada também usei um conceito parecido e por isso lá se vai a minha pseudo abordagem original…Bolas pá.
[“Sweet Rain“] contém outro pormenor fascinante e só é pena não ter sido usado mais ao longo do filme. A “Morte” percorre o nosso mundo com um ajudante que tem a forma de um cão e com o qual tem alguns diálogos divertidos que são dos melhores momentos pela forma criativa como nos são apresentados.
Não lhes dou mais detalhes porque vão gostar de descobri-los e só é pena, na verdade não servirem para muito dentro do próprio argumento do filme pois estas trocas de opiniões pouco mais fazem do que transmitir um par de informações ao personagem principal num determinado momento, o que torna o cão quase num adereço visual quando poderia ter sido um personagem fabuloso.

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[“Sweet Rain“] tinha tudo para ser um daqueles pequenos grandes filmes orientais, mas infelizmente há uma coisa que quase estraga todo o resultado final. Apesar de tentar funcionar como um todo, o argumento está dividido entre trés episódios completamente distintos apenas interligados por se tratarem de missões do personagem principal e pela ligação no destino de alguns personagens.
A primeira parte do filme passa-se em 1985, a segunda em 2006 e a terceira em 2028 e neste aspecto a coisa parece logo de início muito prometedora. O problema é que o argumento parece nunca usar as potencialidades do próprio conceito imaginado. Nunca é dado grande destaque ás particularidades de cada época distinta, a falta de jeito da Morte para conviver com a humanidade uma vezes é evidenciada e explorada noutras parece que não se passa nada, a ligação emocional dos personagens nunca é devidamente desenvolvida e para culminar tudo isto, o segundo segmento do filme parece completamente deslocado do resto do argumento.

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É que subitamente a história entra por uma atmosfera de filme de gangsters Yakuza sem grande interesse (até pela banalidade do que sucede) e só mais tarde nos apercebemos de qual a ligação de um novo personagem ao fio condutor do argumento. Mas quando isso acontece já é tarde, pois o filme já se arrastou por um segmento de meia hora completamente desajustado para com o tom inicial da primeira história que pedia algo mais cativante e que mantivesse o interesse gerado pela muito boa primeira meia hora de [“Sweet Rain“].

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A única coisa que salva este segundo segmento completamente desinteressante e deslocado são os contidos mas hilariantes momentos com as outras Mortes que aparecem nos sitios mais divertidos criando uma justificação para algumas das cenas mais tensas do segundo episódio.
Esta segunda parte, não é no entanto tão má quanto muitas reviews espalhadas pela net a pintam, mas a verdade é que parece não pertencer ao filme que nos cativa nos primeiros trinta minutos iniciais e é pena pois criou-se um buraco artificial nesta história quando ela pedia uma continuidade que nos transportasse até á terceira parte.

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Felizmente que no terceiro acto as coisas voltam a compôr-se e subitamente o personagem – Morte – volta a parecer ser a mesma pessoa de que ficamos a gostar no primeiro segmento. Volta também a atmosfera poética desta vez com um sabor rural que cria um ambiente ainda mais especial e acolhedor que nos prepara para o inevitável e previsivel desfecho da história mas nem por isso menos bonito e positivo.
A terceira parte tem lugar no ano 2028 e conta com uma personagem Cyborg.  Mas mais uma vez também esta não passa apenas de uma peça de cenário quando poderia ter sido usada para acentuar o tom filosófico do argumento mas tal nunca acontece.

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[“Sweet Rain“] é acima de tudo uma grande oportunidade perdida de se ter construido um filme asiático do caraças sobre o quão positivo, natural e até bonito será morrermos.  Este argumento tinha tudo para ser um objecto cinematográfico cheio de filosofia e questões pertinentes e no entanto parece que tudo se escapou por entre os dedos dos seus criadores, seja por um argumento que nunca aproveita os conceitos mesmo imaginativos que contém como pelo filme ter uma natureza episódica que nunca é bem interligada mesmo usando o personagem principal da – Morte – e é mesmo pena que isto tenha acontecido.  Este é uma daquelas obras orientais de que nos apetece mesmo gostar muito, até porque é um filme reconfortante e com um par de momentos bem bonitos e muito positivos sobre um tema que assusta grande parte da humanidade mas aqui é retratado de uma forma bem simples e com uma atmosfera quase mágica em algumas alturas.

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Pior do que um filme sem ideias é um filme oriental cheio de ideias não aproveitadas e [“Sweet Rain“] é um dos mais frustrantes exemplos deste tipo de situação que me apareceu pela frente nos últimos tempos.
E por isso é uma obra estranha. É um filme que acaba e não nos sai da cabeça, mas mais por causa do que poderia ter sido e que a gente gostaria de ter visto do que pelo que realmente vimos. É um filme que projecta na nossa mente uma imagem de algo que não é e no entanto no meu caso, fiquei com vontade de o rever e com a certeza de que este será mais um daqueles pequenos filmes “especiais” que ainda irei ver muitas vezes no futuro.
É um filme asiático estranho em muitos sentidos. Artisticamente anda algures entre o filme comercial e o cinema de autor. Ou se calhar é por ser uma obra Japonesa e isso sente-se. É um filme calmo, muito contido ao expressar emoções e que depende muito de imagens contemplativas silênciosas para produzir empatia com o público que se identificar (e sentir) a sua poesia.

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Tivesse sido um trabalho Sul-Coreano e aposto que o resultado teria sido bem diferente. Uma coisa é certa, a pequena história de amor teria sido desenvolvida na sua plenitude de certeza absoluta. [“Sweet Rain“] por momentos parece que vai entrar por um caminho romântico mas depois tal não se concretiza e é pena. No início ficamos mesmo com vontade de vermos  a – Morte- começar a conhecer o que é ser humano ao principiar apaixonar-se por uma das suas “clientes” mas depois o filme fragmenta-se por completo ao entrar no episódio Yakuza e quando o tema é ligeiramente abordado no final já o espectador perdeu a ligação emocional á história perdendo-se assim mais uma oportunidade no argumento desta obra que nos poderia ter transportado para um final ainda mais emocional.

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De resto, tem uma boa fotografia e um actor principal que encarna uma -Morte- quase perfeita e só não faz melhor porque o próprio argumentista parece não saber bem quem é o personagem e por onde este deverá ir.
Mas não deixem que esta minha apreciação menos entusiasmada os impeça de ver este [“Sweet Rain“].

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CLASSIFICAÇÃO:

Apesar de todo o potencial desperdiçado é ainda assim um filme oriental com momentos muito bonitos e um par de questões filosóficas que proporcionarão boas discussões entre amigos.
Se gostarem de temas sobrenaturais, interessa-vos a temática da vida-depois-da-morte e quiserem ver um filme muito positivo sobre o assunto não vão mais longe.
Se calhar não merece tanto mas não deixa de ser um filme diferente que nos cativa pela atmosfera, por isso quatro tigelas de noodles sem grandes reservas.

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Aliás recomendo mesmo a compra se acham que gostam deste tipo de histórias pois está barato e a edição em dvd tem uma caixa com um dos melhores grafismos que andam no mercado.

A favor: está cheio de ideias imaginativas, os diálogos com o cão introduzem um toque especial no estilo do filme e estão apresentados de uma forma tão simples quanto criativa, o filme tem uma atmosfera mágica em alguns momentos, tem imenso sentido de humor ( e nem sequer é humor negro) contido, o personagem principal é muito bom embora algo esquemático e mal desenvolvido, as outras – Mortes – são muito engraçadas a tentarem disfarçar a sua existência, a primeira e a terceira parte são muito boas e estão cheias de momentos filosóficos e alguma poesia, o final do filme é bonito e muito positivo, é um bom filme para quem tem medo da morte ou perdeu alguém recentemente, tem uma terceira parte reconfortante e mesmo atmosférica. A caixa do dvd tem um design fantástico.
Contra: o segundo segmento de meia hora do filme com a história sobre mafiosos Yakuza é completamente deslocado do resto do argumento e não deveria existir nestes moldes, apesar da história se passar em trés épocas muito distintas o argumento nunca aproveita esse facto para trabalhar os personagens ou criar situações, o potencial para uma história de amor é completamente desperdiçado e como resultado perde-se uma oportunidade de humanização do personagem da -Morte- que poderia ter sido usada para um final ainda mais intenso, o personagem do cão é brilhante na sua simplicidade e mais uma vez o seu potencial é completamente desperdiçado parecendo mais um adereço do que outra coisa a tal ponto que nem sequer entra na parte final do filme, a natureza episódica da própria narrativa acaba por fragmentar muito o filme e há muitas quebras na sua fluidez que ás vezes (especialmente no segundo segmento) nos fazem dispersar a atenção.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=QYuu7np3DXU

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Comprar
Excelente edição de Hong Kong com legendas em inglés.
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7j-49-en-15-sweet+rain-70-34xq.html

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt1067086/

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One thought on “Suwîto rein: Shinigami no seido (Sweet Rain) Masaya Kakei (2008) Japão

  1. Boa análise. O filme é bom, mas o autor e diretor meio que se perde durante o segmento da história e quebra aquele clima dramática no começo e só volta com ele lá no futuro. E você falou tudo, se fosse um filme sul coreano, o resultado teria sido bem diferente, além da rígida dramtização, teria aquele tempero de romance na história.

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