Hyeongsa (Duelist – Duelo Sem Fim) Myung-se Lee (2005) Coreia do Sul


Agora que estamos no Natal e os cestos de promoções inundam os hipermercados, resolvi falar sobre este [“Duelo sem fim“] pois certamente que o irão encontrar algures no vosso hipermercado favorito.
Continuando a longa tradição portuguesa de editar tudo o que parece filme de porrada com karaté em vez de se lançarem as coisas boas que se fazem pelo oriente, também este filme está disponível numa edição nacional e possivelmente irão conseguir encontrá-lo até a pouco mais de 2€ se tiverem sorte. Ou azar.

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Azar porque se encontrarem este [“Duelo sem fim“] a um preço baixo, ao olharem para a contracapa irão, tal como eu, ficar com bastante curiosidade sobre ele.
As fotografias parecem bastante apelativas e pela “crítica” impressa na capa ficamos com a ideia de que estamos na presença de um qualquer clássico de culto esquecido. Cuidado.
Muito cuidado.
Eu como continuo a ser um idiota e não resisto a comprar estas coisas orientais quando me aparecem pela frente em obscuras edições portuguesas, claro está, trouxe para casa este filme antes de ter procurado informar-me  sobre ele na internet. Não recomendo que façam o mesmo.
E acreditem-me que poderão ficar tentados a comprá-lo. Especialmente se estiver barato e gostarem de filmes orientais com espadas ao melhor estilo Wuxia.
Há que reconhecer que o grafismo da edição portuguesa está muito apelativo mas atenção que nem tudo é o que parece.

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Deixem-me falar-lhes logo dos pontos positivos desta obra antes de lhes explicar o que tem de negativo.
Se virem o trailer e gostarem deste estilo de filmes, quase de certeza irão ficar com água na boca para verem este também.
Especialmente se o encontrarem barato e ainda por cima com legendas em portuga.
Na verdade, o trailer é capaz de ser a única coisa verdadeiramente positiva deste filme asiático, pois mostra exactamente tudo o que há de bom nele e faz um trabalho notável no que toca a esconder todos os seus defeitos.
[“Duelo sem fim“] contém uma estética apelativa e cheia de estilo no melhor dos sentidos. As imagens são vibrantes, com uma cor fabulosa, ilustram perfeitamente o ambiente e nem alguns toques visuais menos felizes (iluminação estilo teledisco anos 80) conseguem estragar o que em geral é um excelente trabalho de fotografia que merecia ter tido melhor sorte do que teve.

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O filme tem poucos cenários, mas também aí nota alta para o design de produção que consegue mostrar-nos ainda um par de ruas, palácios e corredores bem atmosféricos. Guarda roupa idem e portanto tudo a pedir uma história a condizer.
Resumindo, como podem ver no trailer, o filme aparentemente tem mesmo pinta e parece ser algo muito superior aos habituais low-budget de ninjas e porrada.
Inclusivamente, a montagem do próprio trailer é bastante coerente e cria no espectador a ideia de que estará na presença de um bom filme, editado num estilo Manga mas filmado em “imagem real” e com tudo no seu lugar. Basicamente na pior das hipóteses [“Duelo sem fim“] a julgar pelo trailer parece ser um filme estilo banda-desenhada divertido.
Certo ?

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Errado.
O que raio se passa com o cinema Coreano de estilo Wuxia ?!
Ninguém bate a Coreia do Sul no que toca a filmes românticos, fazem bons filmes de acção técnológicos, excelentes  filmes de guerra e em todas as obras existe sempre uma perfeita humanização de personagens.
No entanto, parece que todo o talento sul coreano para o cinema se evapora quando tentam fazer filmes “medievais” ao estilo Wuxia. Contráriamente aos Chineses que conseguem desencantar épicos históricos cheios de personalidade, identidade e humanidade, ainda está para aparecer um Wuxia sul coreano que não seja mais do que um longo videoclip de porrada estilosa sem qualquer substância. Infelizmente não será ainda com [“Duelo sem fim“] que esta maldição irá terminar.

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Este deve ser um dos filmes orientais mais desconjuntados que me lembro de ter visto desde outra desgraça chamada Bichunmoo o Guerreiro, curiosamente mais um Wuxia Coreano.
Estava a tentar ver [“Duelo sem fim“] pela segunda vez, (da primeira nem consegui passar dos vinte minutos iniciais) e só me passava pela cabeça como este filme é estúpido. Eu sei, é uma designação também ela, bem… estúpida para dar a uma obra cinematográfica, mas na verdade é mesmo a palavra que mais correctamente consigo aplicar ás emoções que esta obra me provoca.
Há muito tempo que não via um filme tão irritante.
Supostamente [“Duelo sem fim“] tem uma espécie de história “policial” sobre dois agentes “undercover” que tentam apanhar uma rede de falsificadores de dinheiro mas tudo ambientado numa atmosfera medieval. No entanto esta suposta “história” deve ser o maior buraco negro de argumento que me recordo de ter encontrado pela frente em muitos anos. Senão vejamos…

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O filme tem pouco mais de 90 minutos.
Os primeiros 45 minutos e imediatamente desde que o filme começa, são passados numa constante perseguição entre personagens em que nada se passa a não ser vermos uns correrem atrás dos outros sem qualquer motivação interessante além de uns nos parecerem “os maus”, outros “os bons” e o anti-heroi o “assim-assim-que-se-calhar-é-bonzinho”. Muito interessante. Correm, param, lutam á espada, fazem umas acrobacias giras, correm, param, lutam á espada…já estão a ver onde quero chegar…
Não há qualquer desenvolvimento de personagens. Aliás, nem sequer há propriamente uma introdução coerente sobre quem é quem, pois o filme começa com perseguições, continua com perseguições e quarenta minutos depois ainda estamos a ver perseguições. Tudo em cenários bonitos e muito bem fotografados mas…que raio, onde está a história ?

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Ok, se calhar até poderia ter sido um conceito interessante. Seria bem curioso se toda a acção tivesse sido construída e montada de modo até a contar uma história. Os personagens poderiam ter sido desenvolvidos mesmo usando sequências de acção e não é por aí que o filme estaria condenado á partida.
No entanto, isto é mesmo dificil de explicar, mas nestas cenas de acção nunca se passa nada. São sequências de acção atrás de sequências de acção e meia hora depois ainda estamos a ver o mesmo tipo de acrobacias que já foram mostradas antes. É que o filme apesar de muito movimentado acaba sempre por nos estar a mostrar mais do mesmo.
As únicas alturas em que parece fazer uma pausa, é na própria montagem, quando de repente nos aparecem pela frente uma quantidade enorme de inesperadas sequências em câmera lenta apenas com o único propósito de criar imagens cheias de estilo que ainda tornam mais plásticos e vazios todos os personagens.
É que na verdade o “argumento” é tão mau que acho que [“Duelo sem fim“] nem tem personagens. Parece mais que estamos a ver uma quantidade de sequências de videogame saídas de um “Street Fighter” ou de um “Tekken” do que um filme com princípio, meio e fim.
A certa altura, eu próprio já não me surpreenderia, se antes de cada nova sequência de porrada ouvissemos um locutor qualquer a gritar: –  “FIGHT” !

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Diálogos neste filme são a coisa mais inútil que me recordo de ver numa obra deste género (ou em qualquer filme asiático que tenha visto até hoje). Qualquer linha de diálogo dos “Morangos com Açucar” tem mais utilidade numa suposta história do que alguma coisa que sai da boca dos personagens em [“Duelo sem fim“].
Devem pensar que estarei a ser demasiado duro com o filme. Mas o que dizer de um argumento que em quarenta minutos iniciais de porrada, quando coloca os personagens a dizer qualquer coisa, além do que eles têm para dizer não contribuir minimamente para acrescentar o que quer que seja de interesse á “história” ainda por cima o que sai da boca das pessoas são frases que terminam em “cagar”, “mijar” e outras escatologias que tal. Juro !
Como se os argumentistas achassem que seriam diálogos muito cool para criar uma identidade divertida (?) nos “bonecos”. Mais uma vez, isto é bem difícil de explicar. Só vocês vendo mesmo.
Depois fora estas pérolas, quando os personagens não estão a debitar bacoradas escatológicas por tudo e por nada, estão a falar uns com os outros sobre a tal suposta “história policial” que no fundo não serve para nada a não ser para ligar á próxima cena estilosa de porrada videocliptica.
Os argumentistas poderiam ter trocado os diálogos dos personagens todos que não se notaria qualquer diferença na caracterização de qualquer um deles.
Os herois são um vazio, os polícias são uns imbecis, o anti-heroi não sabe fazer mais nada a não ser posar para a câmara e a love story é tudo menos emocional.

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Um filme visualmente tão cuidado, não merecia ter tido este resultado. Não será própriamente um “The Promise” ou um “Curse of the Golden Flower“, mas poderia ter sido a um outro nível mesmo com o seu baixo orçamento. É pena.
Este é um daqueles filmes asiáticos que merecia ter tido melhor sorte. A ideia de uma espécie de filme policial “á americana” dentro de um ambiente medieval oriental até é gira. O anti-heroi tinha potencial, a heroína é bonita e os restantes personagens poderiam ter sido um bom comic-relief.  Agora por muito que o trailer não indique, nada evita que este seja mais outra tentativa absolutamente falhada da Coreia do Sul produzir outro Wuxia.
Eu nem queria acreditar quando estive a ver os trailers presentes no dvd e uma das frases publicitárias apresenta o filme como a nova saga romântica da história do cinema moderno oriental. Uma história de amor que irá revolucionar o cinema de acção asiático, dizem eles.
Acreditem-me, se [“Duelo sem fim“] nem sequer pode ser considerado um filme de acção a sério apesar de toda a porradaria interminável que contém, muito menos alguma vez seria um filme romântico.
Algo vai mal quando não nos importamos mínimamente com os personagens. E mais mal ainda quando se poderiam trocar os papeis do suposto casal romântico que não se notaria qualquer diferença.

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A suposta química romântica entre os protagonistas está absolutamente abaixo de zero. O seu amor impossível é do mais banal, bacoco, rasca e previsível que alguma vez vocês poderão encontrar num filme e tudo se afunda num mar de lugares comuns estilosos muito mal desenvolvidos e que não conseguem envolver minímamente o espectador.
Até um enlatado pseudo-romântico ocidental terá mais emotividade que o romance presente em [“Duelo sem fim“]  e isto é talvez a pior coisa que se poderia dizer de um filme vindo do cinema oriental, especialmente de uma obra que promovida como sendo um futuro novo clássico romântico wuxia ao estilo Romeu & Julieta.
Se procuram um Wuxia oriental que mistura fantásticamente bem o melhor do cinema romântico comercial, com o estilo Wuxia, esqueçam este [“Duelo sem fim“] e não percam antes “An Empress and the Warriors“, esse sim um bom exemplo de como se consegue fazer bom cinema comercial de alma e coração, sem esquecer boas cenas de acção e que não precisa de meter estilo a todo o momento.

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[“Duelo sem fim“] deve ter uma das montagens mais estranhas de sempre num Wuxia. As sequências de acção a qualquer momento podem passar para um estilo em câmera-lenta e sequências dessas é coisa que não faltam nesta obra. Até chateia.
Ou então de repente aceleram a duzentos á hora e toda a narrativa visual entra estranhamente num registo cartoon a fazer lembrar os velhos filmes mudos dos famosos Keystone Cops o que cria um estranho ambiente nesta produção. Se por momentos apresenta-se como um filme de acção puro e duro, noutros parece querer entrar pelo estilo de comédia destrambelhada para depois tentar voltar ao drama pseudo-romântico que subitamente também pode retornar a qualquer instante ao registro de “porradaria” chunga. Há um estranho desiquílibrio neste filme e mais uma vez esta é outra daquelas coisas que só vocês vendo mesmo.

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Como se não bastasse tudo isto, depois ainda temos de levar com uma banda sonora que não lembra ao diabo e acaba por ser o espelho do desiquilibrio do próprio filme. Se por um lado temos um par de composições orientais mais clássicas de repente em muitas cenas de porrada subitamente entram pelas imagens a dentro acordes e guitarradas ao pior estilo hard-rock como se subitamente alguns imitadores dos ZZ-Top tivessem tido com este filme a liberdade de “guitarrar” á sua bela vontade só porque alguém algures se calhar achou que uma “rockalhada” daria ainda mais pinta á violência estilosa e aborrecidamente coreografada que percorre [“Duelo sem fim“] .
Portanto…isto das opiniões é sempre subjectivo, por isso estão por vossa conta.
Pela minha parte não recomendo este filme a ninguém pois é uma verdadeira decepção em todos os sentidos.

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CLASSIFICAÇÃO:

Apesar do trailer não o indicar,  [“Duelo sem fim“]  é outro dos piores filmes Wuxia que vi até hoje.
Só comparável a outros monos como “Shinobi” ou “Bichunmoo”, portanto cuidado. Mesmo que gostem de filmes do género, se estiverem habituados a cinema realmente com substância atenção porque este filme poderá ser uma verdadeira decepção. É que nem sequer é um daqueles em que uma pessoa pode desligar o cérebro e ir na onda, visto que tudo é tão vazio, tão repetitivo e previsível que o filme se torna absolutamente aborrecido e nem algumas imagens bonitas o conseguem salvar. É tudo tão braindead que acho que nem o público adolescente lhe irá dar grande atenção, pois na verdade o filme é mesmo muito desiquilibrado e até mesmo quem não pede mais do que umas boas cenas de porrada poderá aborrecer-se de morte pois a partir de certa altura tudo parece igual e já visto.
Cuidado com as reviews que até classificam este filme de divertido, pois podem acabar com um dvd nas mãos que não vale o disco em que está gravado e sendo assim visto que esta coisa está editada em Portugal, sugiro que o vão buscar ao clube de video antes de correrem a ir comprá-lo. É que este nem vale sequer o tempo de download num torrent. Vão por mim.
Uma tigela de noodles, por ser um vazio absoluto apenas embrulhado em cores bonitas.

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A favor: a cenografia, o guarda-roupa e a fotografia (que mesmo assim não se safa dos habituais tiques estilo teledisco dos anos 80 com uma iluminação excessiva á base de evidentes focos de luz colorida em certas sequências de acção).
Contra: mais uma vez com tanto cinema oriental fabuloso a pedir uma edição portuguesa continua-se a lançar no nosso país filmes que só contribuem para a má imagem do cinema asiático junto de um público que só conhece pipocas americanas, o trailer é muito melhor que o filme, um vazio, os personagens não transmitem qualquer emoção, a estética esforça-se demasiado para ter estilo a todo o momento, passados quarenta minutos de filme ainda não aconteceu nada a não ser perseguições entre “bons”  e “maus”, a montagem abusa das sequências em câmera-lenta e pelo meio ás vezes acelera para uma velocidade em estilo cartoon completamente fora do contexto, as supostas partes de humor não têm graça nenhuma, não há qualquer empatia com o espectador, a realização do filme é muito má e totalmente desiquilibrada, a história de amor não tem um pingo de interesse, não se percebe se quer ser um filme para adolescentes ou um drama Wuxia a sério, o anti-heroi tem tiques de “Floribela” e passa o filme todo a “fazer beicinho”, quando os personagens debitam alguma linha de diálogo normalmente é para mandar bocas que envolvem expressões como “cagar” e “mijar” repetidamente,  a história não tem um pingo de interesse e serve apenas para ligar as cenas de porrada estilosa, não julguem que  [“Duelo sem fim“]  é algo semelhante a um “O Tigre e o Dragão”, “Hero” ou “House of the Flying Daggers”. Não é.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer (não se deixem enganar por isto)
http://www.youtube.com/watch?v=QuPNPUYXGfI

capinha_duelist

Comprar:
Encontrarão certamente a edição portuguesa desta coisa algures num cesto de promoções de hipermercado perto de vós, mas se assim não acontecer e quiserem muito comprar este filme podem encontrá-lo aqui http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7k-77-1-49-en-15-duelist-70-1ilo.html

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0475616/

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Se gostaram deste, poderão gostar desta outra banalidade:

Shinobi

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2 thoughts on “Hyeongsa (Duelist – Duelo Sem Fim) Myung-se Lee (2005) Coreia do Sul

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