Mongol (Mongol) Sergei Bodrov (2007) Russia/China/Kazaquistão


Este é um filme particularmente curioso.
Há quem o adore e o considere uma obra prima e quem não tenha ficado particularmente fascinado por ele.
Surpreendentemente encontro-me no segundo grupo e não estava nada á espera disto.



Por todo o lado existem reviews dvd e críticas de cinema a elogia-lo e embora eu não concorde propriamente com todos os elogios penso que percebo a razão de muitos deles.
É que na verdade os primeiros vinte minutos de [“Mongol”] parecem indicar-nos estar na presença de uma obra mágnifica em todos os aspectos e penso que essa primeira impressão foi certamente a que terá ficado na mente de muita gente que deu uma melhor nota do que eu pretendo atribuir-lhe agora.

Quase tudo nele é relativamente mediano mas no entanto está embrulhado numa atmosfera épica lindíssima e é isso que na minha opinião cria a ilusão de que [“Mongol“] será eventualmente um melhor filme asiático do que na realidade consegue ser.
A impressionante fotografia, as incrivelmente bem filmadas paisagens naturais e o extraordinário olho do realizador para compor imagens lindíssimas e inesquecíveis fazem-nos ficar de queixo caído durante os primeiros vinte minutos com toda a poesia visual desta obra.

Se nos últimos tempos saiu um filme que justifica plenamente a compra de um projector de video, [“Mongol“] é esse filme pois é definitivamente um daqueles que é para ser visto no maior ecran possível e eu tenho a sorte de poder fazê-lo. Portanto se estiverem a pensar comprar um projector este dvd é uma boa opção para o estrear, quanto mais não seja para impressionar os amigos pela vastidão das imagens que nos fazem querer saltar para dentro da parede a todo o momento e ir passar uma horas na mongólia por entre aquelas colinas verdejantes e eternos céus azuis.

Os primeiros vinte minutos são uma extraordinária sinfonia de grandes paisagens, autênticas fotografias em movimento e personagens completamente cativantes graças ao excelente casting infantil de [“Mongol“]. As crianças neste filme têm mais carisma que todo o elenco adulto junto durante o resto da história e isso é particularmente notório nas cenas que iniciam o romance que depois percorre o resto da obra.
As cenas em que o jovem Gengis Khan conhece aquela que virá ser a sua mulher limpam o chão com a restante atmosfera romântica que supostamente deveria ser o coração do filme mais tarde mas que nunca mais consegue atingir o mesmo nível emocional quando a história avança para a fase adulta.

E a história é precisamente um dos calcanhares de Aquiles deste filme. Não pelo que apresenta mas mais pela forma como tudo é narrado.
[“Mongol“]  á força de querer ser um filme com muito para contar vê-se obrigado a ter um ritmo irregular. Ás vezes tudo avança tão rápido que o espectador nem tem tempo para criar uma ligação emocional com os acontecimentos e como tal com o passar dos minutos o interesse começa a perder-se e damos por nós a descobrir que a certa altura já não estamos tão imersos nele como estavamos ao início.
Outras vezes parece que o argumento pára e alguém resolveu voltar a contar outra vez uma coisa que já foi estabelecida anteriormente nomeadamente nas cenas românticas que parecem repetir constantemente o mesmo tom emocional.

[“Mongol“] essencialmente pretende contar a história da ascenção ao poder do seu protagonista, só que em certas alturas não consegue decidir-se se pretende ser um épico histórico ou um drama romântico ficando a meio caminho entre ambos os géneros.
Como filme histórico tenta meter tanta informação em tão pouco tempo que acaba mais por parecer um catálogo cronológico de eventos do que uma narrativa sobre os seres humanos que os protagonizaram.

Como filme romântico repete-se constantemente e ficamos com a sensação de que a história de amor é mais usada para tentar amenizar a narrativa estilo aula de história do que para emocionar os espectadores ou humanizar os personagens. Não resulta porque enquanto a narrativa histórica avança a duzentos há hora, a parte emocional nunca evolui de forma a que o espectador se importe particularmente com o destino dos personagens.

Toda esta fragmentação narrativa acaba por reduzir o impacto dos personagens secundários e como consequência até aqueles que supostamente serviriam para criar algum drama ou tensão perdem toda a sua carga dramática pois lá para o final do filme já estão tão desenquadrados do que realmente se passa que não são mais do que cartão para ilustrar a ordem cronológica dos acontecimentos que levam Gengis Khan ao poder. Coisa que no início do filme não parecem, nomeadamente mais uma vez também devido ao carísma do elenco infantil ao protagonizar as versões jovens dessas pessoas e porque no início o argumento ainda parece que irá levar o filme por uma direcção entusiasmante.

Esta estrutura narrativa não só tira vida aos personagens como ainda por cima reflecte-se negativamente  também nas próprias sequências de acção.
Há muito tempo que não via num filme deste género sequências de batalha tão aborrecidas e desinspiradas.
Não lhe falta baldes de sangue mas no entanto as cenas de acção não têm qualquer impacto dramático, até porque muitas das vezes não há sequer tempo para estas serem enquadradas dentro de algo que nos toque na própria história devido aquele tom “escolar” que percorre grande parte do argumento a partir de certa altura.

As batalhas são a própria antítese do estilo do resto do filme.
Se nas cenas calmas da narrativa [“Mongol“] parece um verdadeiro épico a uma escala larger than life as cenas de batalha perdem por completo essa atmosfera e mesmo com a quantidade de sangue que é usada a torto e a direito ficamos com a ideia de que o realizador seguiu um caminho muito mais politicamente correcto do que pretendeu fazer crer.

Nunca se vê ninguém a ser cortado aos bocados como é habitual neste tipo de cinema e toda a montagem parece tentar a todo o momento evitar que algo mais explícito apareça na imagem, o que cria uma atmosfera extremamente ambigua e arruina por completo a carga dramática que deveria suportar as cenas de batalha pois se por um lado há sangue a mais depois nota-se uma contenção quase de auto-censura pelo pudor que revela em nunca mostrar o resultado de tanto sangue a jorrar o que torna esses momentos em algo artificial que nos retira imediatamente do coração da batalha que estamos a ver.


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Em [“Mongol“]  as cenas de guerra têm mais estilo do que substância,  tentando talvez disfarçar a falta de um suporte dramático através de uma ilusória sensação de carnificina que nunca convence.
O drama, que deveria ter sido a alma destas sequências está completamente ausente, porque os personagens pouco mais são do que bonecos para o realizador enquadrar as suas mágnificas composições visuais.
A história ao centrar-se no personagem principal esquece todos os outros e como tal nem sequer aquele que deveria ser o antagonista do jovem futuro Khan provoca qualquer reacção emocional no espectador pois nota-se perfeitamente que o “mau” está apenas ali para levar na cara e pouco mais.
E o facto de mais uma vez também aqui repetir-se a velha fórmula dos velhos amigos que se tornam inímigos também não ajuda muito, pois tudo é tão previsível que anula por completo qualquer suposto suspanse que ainda poderia haver tanto no drama como nas cenas de guerra e o argumento nunca sabe como tornar esses momentos interessantes ao contrário de muitos outros filmes que também usaram a mesma fórmula mas com sucesso.

Quando virem o trailer oficial que está na Amazon.uk ficarão com água na boca ao verem as imagens que este apresenta pois tudo indica que [“Mongol“] vai conter aquela atmosfera de batalha clássica que parece prometer e do qual já vimos bons exemplos em filmes como The Warlords.
No entanto a realidade é bem diferente.
Além da diminuição da carga dramática á medida que o filme se desenrola por falta de uma narrativa coerente que a suporte (e vice-versa), aquilo que prometia ser o memorável momento bélico do filme com a habitual grande batalha á escala épica, acaba por ser umas das partes mais desinteressantes de todo o trabalho.

Muita acção, montagem quase estilo videoclip, sangue a espirrar, gente á porrada, cavalos a cair, mas tudo muito pouco impressionante. Apesar da espectacularidade que tentaram imprimir nessas sequências tudo parece realmente demasiado encenado.
Talvez por não provocar qualquer suspanse, pois nesta altura já os personagens intervenientes têm tão pouca dimensão que pouco importa o desfecho dramático dessas sequências até porque já se sabe que o protagonista irá vencer e tornar-se Khan.
Na verdade as cenas de acção neste filme são apenas isso – cenas de acção – e nunca conseguem transportar o espectador para o interior da guerra sem tréguas que supostamente retratam, principalmente porque a partir de certa altura já pouco nos interessa a sucessão cronológica de acontecimentos pois o que aparece a seguir é sempre mais do mesmo e repete practicamente o que já vimos anteriormente no início.
Sim, já sabemos que o antigo amigo se está a passar, sim já sabemos que a rapariga gosta muito do protagonista, sim já sabemos que têm de se separar novamente. Passem á frente !

Mas nem tudo é mau.
Na verdade não há nada de realmente negativo neste filme. Apenas nunca alcança aquilo que o próprio ambiente da história (e a publicidade) parece prometer a todo o instante mas não cumpre.
O filme vê-se bem mas quem já viu tantos épicos medievais orientais, como eu vi não pode deixar de ficar muito decepcionado pois para uma obra com o sugestivo nome de [“Mongol“] e ainda por cima sobre Gengis Khan no mínimo esperava-se que as cenas de batalha estivessem ao nível de por exemplo as realisticas sequências de The Warlords e que os seus personagens ao menos nos fizessem realmente importar-nos com eles como acontece quase sempre no melhor do cinema Asiático.
Por outro lado, há que não esquecer que  [“Mongol“] apesar de estar povoado de actores asiáticos e ser totalmente falado em Mongol continua na verdade a ser uma obra fruto da sensibilidade de um realizador soviético e isso sente-se ao longo de todo o tratamento da história pelo distanciamento que cria no espectador e um sentido de organização que se sobrepõe sempre á emoção que deveria ser a alma do filme.

Fiquei muito surpreendido por não ter encontrado o épico que esperava ver. Mas mais surpreendido ainda fiquei foi de ver um filme povoado de ambiente asiático em que pouco me importei com o drama ou o destino dos personagens. Este desinteresse normalmente é sempre mais comum em produtos americanos e por isso com todo o hype ao redor desta obra a última coisa que esperava seria que não me provocasse grande reacção emocional.
Já tinha lido algumas reviews que referiam grande parte daquilo que depois eu próprio confirmei, mas na altura em que me decidi a compra-lo, a verdade é que fui completamente enganado pelo trailer que está no site da Amazon Uk.
Gostei tanto do que vi no trailer e fiquei tão impressionado com a cinematografia das imagens que no fundo recusei-me a acreditar que muitas das reviews tinham razão quando avisavam que  [“Mongol“] não era bem o que aparentava.

De qualquer maneira não estou arrependido de ter comprado o filme, pois estéticamente é absolutamente mágnifico e os actores têm carísma, com destaque para o actor japonês que faz de Gengis Khan e para a actriz estreante que representa a sua mulher e que mesmo nunca tendo representado na vida faz um trabalho excelente.
Ambos se esforçam imenso para transmitir alguma humanidade nos seus personagens e não é de todo culpa sua que estes não consigam nunca ir muito mais além do boneco para ilustrar enquadramentos bonitos.

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CLASSIFICAÇÃO:

Não é de forma alguma um mau filme asiático, mas muito menos é a obra extraordinária que muita da publicidade quer fazer crer e que o trailer tenta fazer passar.
É uma obra extremamente mediana aquilo que se esconde por debaixo de uma capa de visual mágnifico.  [“Mongol“] é um daqueles filmes com tudo para dar certo mas em que estranhamente parce que todos os ingredientes foram adicionados com as doses erradas diminuindo o impacto do resultado. E é pena, pois este é um daqueles filmes que nos apetece mesmo gostar.
Trés tigelas e meia de noodles porque simplesmente não me fez ficar com vontade nenhuma de o rever tão cedo e isto não é nada comum acontecer-me com um filme deste estilo pois o género do épico histórico medieval oriental é um dos meus favoritos.
É um bom filme e pronto. Nem mais nem menos.
Leva mais meia tigela de noodles porque visualmente tem momentos absolutamente lindíssimos embora não a mereça particularmente pois é um filme incrivelmente mediano quando deveria ter sido algo inesquecível.

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A favor: a cinematografia do filme, cada fotograma é uma fotografia de grande qualidade com o qual se poderia fazer um quadro, a maneira como o ambiente natural é usado e filmado, as paisagens e a vastidão das mesmas, o elenco infantil é excelente, os primeiros vinte minutos do filme são completamente entusiasmantes e não fazem prever que tudo se tornaria tão mediano.
Contra: fica a meio termo em todos os géneros pois não é própriamente um épico histórico exacto, não é uma história de amor particularmente tocante, nem tem a carga dramática que deveria ter para funcionar sequer como épico de guerra; tem alguns momentos de acção mas com mais estilo do que substância, as cenas de batalha são medianas e aborrecidas com muito movimento, muito sangue mas pouca garra; os personagens á medida que o filme avança cada vez se parecem mais com bonecos para ilustrar sequências cronológicas da vida de Gengis Khan do que seres humanos com vida própria; o argumento umas vezes dá saltos na história que eliminam qualquer base de identificação do espectador com os personagens e outras vezes repete-se em temáticas que já ilustrou anteriormente; a banda sonora tem momentos completamente deslocados do que se vê no ecran devido a uma sonoridade demasiado moderna quando pretendia ilustrar uma história como esta.

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NOTAS ADICIONAIS:

Trailer
Podem espreitar o atmosférico trailer original na amazon.uk
http://www.amazon.co.uk/Mongol-Rise-Power-Genghis-Khan/dp/B0019GJ44W/ref=sr_1_1?ie=UTF8&s=dvd&qid=1222889349&sr=8-1
Ou a sua versão chunga americana estilosa no youtube.
http://www.youtube.com/watch?v=tsAdwoFDYW4

Comprar
Recomendo esta muito boa edição DVD com um excelente making of. Ou então em Blu-Ray. Como podem ver o preço está excelente na Amazon Uk e ainda se deve manter assim por algum tempo.

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0416044/

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