Kairo (Kairo) Kiyoshi Kurosawa (2001) Japão


Antes de mais, espero que ainda não tenham visto o trailer do remake americano deste filme.
Se o viram, então espero que já não se lembrem dele.
E isto, porque o trailer do remake americano, não só revela a história toda como ainda se dá ao trabalho de explicar tudo muito bem explicadinho.
Nem sequer esconderam o final do filme que infelizmente temos o azar de ser semelhantel ao da obra original japonesa e por isso se o virmos logo no trailer americano, lá se vai o impacto psicológico da história.
Embora tenha que ser justo e o remake nem sequer é dos piores…mas quando comparado com o original asiático é melhor nem dizer mais nada.
No entanto, se quiserem apreciar devidamente a versão original deste excelente filme sobrenatural oriental , afastem-se por favor do trailer do remake americano chamado “Pulse” pois precisam chegar ao filme japonês sem saberem muito dele.
Agora que estão avisados, bem-vindos a [“Kairo“].

Esta versão original japonesa consegue assustar e inquietar mais o espectador em dez minutos do que a videocliptica versão americana consegue em noventa. Tudo isto sem efeitos especiais daqueles que dominam os filmes da terra do tio Sam. Sem perseguições, cenas de acção e muito menos sem super-vilões sobrenaturais ao estilo Freddy-Kreuger como parece que alguém nos states achou que seria necessário introduzir no remake. Deve ter sido para os teenagers do milho terem algum “mau” para se assustarem nos intervalos das cenas em que admiram as mamas das rapariguinhas modelos que povoam a versão ocidental e que não servem absoutamente para nada a não ser de carne para canhão na habitual contagem de cadáveres á Scream.
Sim, porque foi num Scream que os americanos transformaram este excelente [“Kairo“] que apesar de ser um filme com adolescentes e jovens adultos felizmente é também um filme com personagens pelo qual nos importamos, ao contrário do que acontece no body-count americano.

Portanto, para quem pensar que [“Kairo“], é o equivalente japonês dos filmes de teenagers americanos, é melhor esquecer este filme.
[“Kairo“], é um filme lento.
Muito lento. Muito leeeeeeeeeeeeeento mesmo.
Não é uma lentidão ao estilo Manoel de Oliveira nos seus melhores dias, mas não é de forma nenhuma um filme sobrenatural com uma montagem MTV ou sequer algo que se possa considerar uma montagem ocidental.
E isto não é uma coisa negativa, pois aqui a lentidão no desenvolvimento da história é acima de tudo usada para criar um clima de inquietação constante no espectador que resulta plenamente e dá uma identidade única ao filme.

Este filme nota-se á distância que é um produto japonês, só pelo tempo que demora a criar ambiente. Não tem pressa na montagem para dizer muita coisa e muito menos para explicar o que está a acontecer e por isso este pode ser um filme complicado de seguir para qualquer público que não esteja habituado ao estilo japonês de contar histórias, ou apenas se interessar pela imediatez dos ritmos narrativos cinematográficos americanos.

Por outro lado, também não se assustem com esta descrição, porque não estamos a falar de puro cinema de autor, isto naquele sentido mais Artístico ou intelectualoide cheio de metáforas sobre a vida, a essencia do Ser ou a natureza dos cogumelos.
[“Kairo“], não quer mais do que nos dar cabo dos nervos com uma boa história, que se calhar nem notamos a uma primeira visão, porque é verdade que o ritmo lento do filme pode desarmar-nos quando espreitamos esta obra pela primeira vez.

Confesso que quando vi isto tendo lido apenas um par de críticas na net que garantiam que [“Kairo“], era a coisa mais maravilhosa do planeta dentro do cinema sobrenatural, fiquei bastante decepcionado.
Mas a verdade, é que a montagem errática desta obra me desarmou pois não estava nada á espera de encontrar um filme tão estranho em todos os sentidos.

É estranho, porque na verdade não deixa de ser um filme comercial, mas ao mesmo tempo o seu ritmo narrativo quase que o remete para o cinema de autor e [“Kairo“], quase que acaba por ficar numa espécie de limbo entre os dois géneros.
O que é bom, pois é precisamente de situações no limbo que esta fantástica história sobrenatural trata.
E notem que eu ainda não me referi a [“Kairo“], como filme de terror. Repararam ?
O filme pode ser japonês, ter um estilo estranho, mas tem a grande vantagem de nem sequer tentar imitar o já clássico “Ringu” que definiu as regras modernas do género e só este facto é logo motivo para prestarmos mais atenção a esta obra.
Na verdade se “Ringu” criou um estilo, depois popularizado em mil clones do género como por exemplo a saga “Ju-On”, já [“Kairo“], pode dizer-se que criou uma segunda fórmula seguida também por um par de outras obras menos conhecidas.

[“Kairo“], não é um filme de terror oriental naquele sentido em que nos assusta pelo que mostra, ou por imagens demasiado gráficas, mas por aquilo que não mostra. [“Kairo“], assusta porque não nos explica nada e apenas nos vai mostrando uma sucessão de acontecimentos que adensam o mistério, criando muito devagar e sem pressas nenhumas um clima de medo e tensão insuportável, que nos dá lentamente cabo dos nervos.
A certa altura o espectador dá por si sem saber porque raio é que está tão perturbado, ou o que raio se está a passar na história, ou como irá acabar, mas agora o realizador do filme poderia ter colocado o Bugs Bunny no ecran que metade do público se ainda se conseguisse mexer correria imediatamente para o interruptor da luz, isto antes se não tropeçar em metade da mobilia.

Acima de tudo,  [“Kairo“] não é uma história para assustar momentaneamente em segmentos para nos fazer saltar da cadeira, mas sim para provocar medo e transportar o espectador para o mundo que a pouco e pouco vai criando e que leva o filme a terminar de uma forma extremamente atmosférica, que só nos dá vontade de ver uma sequela quando o filme acaba.
Mas afinal isto é sobre o quê ?

Sem querer revelar muito da história, e partindo do princípio que vocês tiveram a sorte de ainda não terem visto o remake ou o trailer do remake americano, [“Kairo“] conta a história de um grupo de jovens que se começam a suicidar depois de passarem inúmeras horas obcecados com um misterioso website que encontram na internet.

Quando alguns deles começam a investigar o sucedido após inúmeras pessoas desaparecerem aparentemente sem motivo nenhum estes descobrem que a realidade é algo bem mais perturbante do que alguma vez imaginaram e onde a resposta a todas as suas questões pode não apenas trazer a solução do enigma mas também colocar em perigo o destino do mundo, porque os mortos estão á espreita em todo o lado e não haverá nenhum local no planeta onde nos possamos esconder.

Mas não pensem que estamos perante um filme de mortos-vivos, pois  [“Kairo“] apesar de conter uma atmosfera bem semelhante em alguns momentos é mais um filme sobre a morte enquanto dimensão paralela do que própriamente terá algo a ver com um filme do Romero.

Na verdade este filme tem tudo a ver com o ambiente do jogo Silent Hill. Quem gostar do título e procurar um filme de terror com uma atmosfera assombrada muito semelhante e onde o mesmo tipo de inquietação está sempre presente, então não pode perder isto. Apesar de não conter as sequências sangrentas do jogo para a PS2,  [“Kairo“] acaba por ser mais um Silent Hill do que a própria recente adaptação cinematográfica do jogo.

Para começar tem na minha opinião os fantasmas mais “realísticos” de sempre num filme de terror, nunca os vemos bem, aparecem como sombras furtivas no canto do olho e o realizador ainda consegue pregar um par de bons sustos com excelentes momentos inesperados apenas jogando com silhuetas e sombras que se movem. E isto sem ser necessário recorrer ao habitual som ALTO para assustar. Ou melhor, para pregar sustos.

Em [“Kairo“], o silêncio mete mais medo do que qualquer truque cinematográfico á americana e este filme asiático é um bom exemplo de como se constroi um clima de horror sem precisarmos de usar muitos truques baratos ou efeitos especiais caros completamente desnecessários.

E pronto, se calhar é melhor ficar por aqui, pois este é outro daqueles filmes orientais que merecem ser descobertos por vocês mesmo.
Se procuram um bom filme sobrenatural japonês com um toque de horror que ficará na memória mesmo que não lhes impressione muito á primeira por causa do seu estranho ritmo narrativo, não vão mais longe.
Este filme tem atmosfera, uma história intrigante e ainda um par de imagens perturbantes ao melhor estilo Silent Hill.

Não é o melhor filme de terror oriental de sempre, mas tem uns fantasmas que já definiram um estilo dentro do género e que lhes vão mesmo dar cabo dos nervos. E quanto a mim tem um final excelente, que embora um pouco ambiguo deixa-nos com vontade de ver uma continuação que infelizmente não existe.

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CLASSIFICAÇÃO:

Um filme diferente dentro do género sobrenatural. Contorna bem os clichés do cinema oriental e cria uma atmosfera de horror crescente em redor de acontecimentos perturbantes e com ajuda de uns excelentes fantasmas que os farão começar a olhar duas vezes para todas as sombras que têm em vossa casa.
Quatro tigelas e meia de noodles.

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A favor: a atmosfera perturbante assusta mesmo, a fotografia sombria, os silêncios e as sombras, os fantasmas arrepiantes, o sentimento de horror crescente, os sons inquietantes, o final do filme, quem gosta do jogo Silent Hill vai gostar disto.
Contra: a história tem falhas na sua estrutura e pode ser algo confusa de seguir ao inicio, a montagem é errática e a narrativa tem muitos ritmos estranhamente diferentes o que quebra um pouco os momentos de medo e horror, talvez tenha duração a mais pois a parte do meio da história arrasta-se um pouco.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailers
http://www.youtube.com/watch?v=Ubu7hVI48no
http://www.youtube.com/watch?v=y_JFO-Nrk5c&feature=related

Comprar
Existem um par de boas edição lá fora deste filme, e se não estou enganado, até uma edição em Português apenas com som em 2.0, por isso se tiverem 5€ sugiro a compra imediata desta edição
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7m-77-3-49-en-15-pulse-70-610.html pois contém um bom som e apesar do filme ser muito escuro a imagem até nem seja má de todo. Não é brilhante, mas pelo preço não precisam de mais para apreciar este filme. Eu tenho esta cópia e estou muito contente com ela.

IMDB (cuidado com os *spoilers*)
http://www.imdb.com/title/tt0286751/usercomments

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Se gostam deste poderão gostar de:

A Tale of Two Sisters Dark Water

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