Madeleine (Madeleine) Kwang-chun Park (2003) Coreia do Sul


[“Madeleine“] é um filme oriental muito bonito mas se calhar não se nota á primeira, pois é uma love-story asiática particularemente discreta.
Não tem o habitual estilo excessivamente melodramático muito característico do cinema romântico Coreano e por isso não nos causa aquele impacto inicial que muitas obras nos provocam.
Quando vi [“Madeleine“] pela primeira vez fiquei sem perceber se tinha gostado muito do filme, ou nem por isso.
Achei que lhe faltava algo, pois senti falta daquela emoção imediata de outros filmes como “The Classic” por exemplo e por isso pareceu-me particularmente ambiguo.
No entanto, apesar de ter arrumado o filme na prateleira, por qualquer motivo não me consegui esquecer dele ou tirar a sua história da cabeça; dei por mim até a comparar outras love-stories que vi posteriormente com [“Madeleine“] e aos poucos comecei a perceber porque muitas críticas de cinema  falam deste filme de uma forma especial.

[“Madeleine“], é um filme Sul Coreano diferente. Á primeira vista parece ser uma cópia de “My Sassy Girl ” com dois personagens até semelhantes e uma estrutura parecida. No entanto o filme revela-se um trabalho mais contido e as emoções dos personagens são trabalhadas de uma forma diferente, o que afasta a história de ser apenas um eventual clone e lhe confere uma identidade asiática muito própria com contornos mais realisticos do que é habitual no cinema romântico da Coreia do Sul.

[“Madeleine“], conta a história de um rapaz e de uma rapariga que se conhecem desde o liceu, mas não se viam desde esses tempos. Até ao dia em que o rapaz vai cortar o cabelo e encontra a sua antiga colega que sonhava ser designer de penteados mas não conseguiu ir muito além do emprego de cabeleireira que arranjou.
Sem nada em comum antes, também agora os dois não têm grandes motivos para se voltar a encontrar, mas no entanto acontece precisamente o contrário e desta vez esse facto atrai-os para uma nova relação de amizade que naturalmente vai evoluindo para um amor mais a sério.
Apesar de nenhum deles querer admiti-lo, pois afinal apesar de tudo parecer certo quando estão juntos continuam a não ter absolutamente nada em comum um com o outro.
Assim um dia combinam namorar durante um mês e nenhum dos dois pode acabar a relação antes desse período seja porque motivo for.
Isto a titulo de experiência e se tal não resultar cada um seguirá o seu caminho sem qualquer ressentimento.
Mas obviamente que as coisas não são assim tão simples.

Amores antigos regressam subitamente á vida dos dois protagonistas e a situação complica-se.
Mas não pensem que vão encontrar aqui os habituais triangulos amorosos formuláticos.
Isto é muito dificil de explicar mas tudo neste filme parece real e até as partes que se prestariam a uma abordagem mais típica de um filme de amor para adolescentes em [“Madeleine“], são apresentadas de uma forma perfeitamente natural.
Por exemplo do lado do rapaz, surge uma história paralela envolvendo uma amiga que depois do liceu se tornou vocalísta de uma banda rock e agora se encontra bastante interessada numa relação romântica com o protagonista ao mesmo tempo que tenta alcançar a fama.
Ora se isto fosse um filme romântico com adolescentes americanos made-in-hollywood, haveria logo de meter imensas traições e cenas com a heroína a descobrir o heroi nos braços de outra rapariga ou vice versa. E como o filme mete adolescentes e bandas de rock, inevitávelmente seria também uma daquelas histórias em que os protagonistas sonham ser estrelas rock e pelo caminho percorrem todos os clichés deste género de história tão repetido no cinema americano.
Não em [“Madeleine“].

A forma como [“Madeleine“], trata este tema é completamente refrescante pois evita todos os clichés do género e nunca cai no melodrama corriqueiro nem no típico filme para adolescentes sem cérebro.
Aliás na verdade quase que nem se sente uma carga dramática ao longo do filme.
As situações estão lá, mas parece que o espectador só as consegue verdadeiramente sentir quando estas já passaram.
Um pouco como acontecia com o personagem da robot-cyborg em “2046” de Hong-Kar-Wai, que tinha reacções emocionais atrasadas, neste filme parece que só quando as situações passam é que damos por nós a pensar nelas e só então apanhamos com o seu impacto emocional.
Como lhes disse isto é dificil de explicar porque este é realmente um filme muito diferente dentro do género romântico oriental o que o torna numa obra original.
Nem sequer é cinema de autor, mas tem uma carga intimista que não tinha visto num filme comercial com adolescentes, á excepção de “Nana” de que em breve irei também falar.
Até a parte sobre a banda de rock, que num filme americano dava logo motivo para muita história da treta sobre jovenzinhos que querem ser famosos, aqui serve apenas de suporte para a forma como as relações dos personagens são construídas.
Mas isto não impede que [“Madeleine“], tenha no entanto uma banda sonora com um par de temas rock excelentes, pois a banda que aparece no filme é mesmo real e a actriz que interpreta a sua vocalista está na verdade a interpretar-se a si mesma.

Outro tema absolutamente bem tratado e que se torna de certa forma o coração do filme é o tema do aborto. E mais uma vez não pensem que vão ver aquilo de que estão á espera.
O filme nem é contra nem a favor do aborto e na verdade apresenta-nos uma realidade que quase se torna uma terceira tomada de posição sobre o assunto, pois está muito baseada na cultura oriental e na forma filosófica como algumas religiões não católicas vêem de forma muito natural, extremamente poética e espiritual aquilo que para muita gente nascida debaixo de um severo catolicismo Mediterrânico será um pecado mortal que levará directamente ao inferno.
[“Madeleine“], aborda por momentos a questão e numa simples frase justifica de uma forma muito bonita aquilo que para muita gente será algo inconcebível, colocando este filme num patamar ainda mais elevado, pois se isto fosse um filme americano eu nem quero imaginar o tom moralista que estaria a envolver todo este pequeno segmento da história.

O titulo [“Madeleine“], vem no entanto não de qualquer personagem, mas sim de um bolo.
Madeine é o nome de um bolo, que julgo em Portugal chamar-se precisamente “Madalenas” e está no título do filme, porque é um elemento que liga vários personagens e simboliza essencialmente os bons momentos simples e felizes que podemos ter na nossa vida e que a que se calhar nem damos o devido valor.
As cenas envolvendo o respectivo bolo, são quase uma coisa á parte dentro do argumento principal do filme, mas no entanto são precisamente o coração emocional da história e que acaba por nos emocionar mais no final com uma das cenas mais bonitas onde os personagens partilham pela última vez um bocado de bolo de uma Madalena em tamanho grande.

Não há muito mais para dizer, pois este é um daqueles filmes orientais que não precisa de descrição, porque a simplicidade das suas imagens e personagens não precisa de mais nada para tornar [“Madeleine“], num filme romântico oriental muito bonito que nos toca mais do que parece fazer a uma primeira visão.

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CLASSIFICAÇÃO:

Uma história de amor sem história onde a simplicidade dos personagens e situações diz tudo.
Muito bonito, poético e cheio de alma e mais um excelente exemplo de como a Coreia do Sul produz actualmente as melhores e mais originais histórias de amor.
Cinco tigelas de noodles porque as merece plenamente.

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A favor: a simplicidade das situações e personagens, não entra por nenhum cliché de filmes adolescentes, tem um argumento inteligente, é poético sem se evidenciar a todo o momento, é um filme de adolescentes com um tratamento adulto que agradará a todas as faixas etárias, aborda temas polémicos de uma forma natural e muito bonita, nunca tenta pregar qualquer moral ou filosofia.
Contra: o seu estilo diferente pode retirar-lhe algum impacto emocional inicial. Por isso vejam-no pelo menos duas vezes porque este é um filme para ser interiorizado.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailer
Este é um filme muito dificil de ser encontrado como deve de ser actualmente.
Como nem sequer um trailer existe no YouTube, fiquem antes com um dos videoclips da banda sonora pois serve perfeitamente como trailer porque mostra plenamente a atmosfera do filme.
http://www.youtube.com/watch?v=OYkrJ3D9yBE

Comprar
Aqui estão com azar…
Este filme não se encontra já em parte alguma, por isso se o conseguirem descobrir nem hesitem em comprá-lo imediatamente. É uma edição de dois discos e o segundo é o CD da banda sonora com todas as músicas do filme remasterizadas com um som fantástico.
Estejam de olho neste link, pois o filme pode ter uma nova edição a qualquer momento e poderão depois comprá-lo aqui.
http://global.yesasia.com/en/PrdDept.aspx/did-90/code-k/section-videos/pid-1002531967/
Ah…e por qualquer motivo, alguém ainda me há de explicar porque raio é que a capa do dvd deste filme não tem absolutamente NADA a ver com o conteúdo do mesmo. Nada !
Os personagens de [“Madeleine“], nem sequer são parecidos com os que aparecem nas capas do dvd !Não entendo mesmo esta…Se visse alguma destas capas numa loja jamais me passaria pela cabeça que lá dentro das caixas estaria o filme [“Madeleine“].

O dvd do filme parece não estar já á venda, mas não terão grande dificuldade em descobri-lo nos torrents, porque [“Madeleine“], já se tornou um filme de culto dentro do género romântico Coreano, precisamente por ser diferente e ter uma aura de Rock muito bem apanhada.
Também está disponível no Youtube mas não recomendo de forma alguma aquela cópia, até porque o devido á banda sonora do filme, seria preferível poderem vê-lo com um som a condizer.

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0345603/

Outra review
http://www.kfccinema.com/reviews/drama/madeleine/madeleine.html

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