Riri Shushu no subete (All About Lily Chou-Chou) Riri Shushu (2001) Japão


Eu não recomendaria este filme ao meu pior inimigo.
Agora que já disse isto, é melhor avisar que vão achar esta review completamente confusa e totalmente contraditória.
 
 
Este filme é absolutamente experimentalista a um nível próximo da mais detestável  – instalação “Artística” – (com “A” grande), deprimente, negativista, e a uma primeira visão chato, confuso e loooooongo como o #$%&.
[“All About Lily Chou-Chou“], chega ao ponto de nos fazer pensar que aquele cinema de autor ultra-pretencioso á boa e velha maneira portuga se calhar até nem será mau de todo.
Como tal e começando anormalmente desta vez logo pelo fim, [“All About Lily Chou-Chou“],  leva uma excelente classificação de cinco tigelas de noodles na boa porque as merece plenamente.
 
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CLASSIFICAÇÃO:
 
Por mais que eu não queira, tenho que reconhecer que o filme não só é extremamente original, está muito bem feito, tem uma atmosfera única, um grafismo ainda melhor e realmente torna-se numa obra bem curiosa que vale a pena ser vista. Duas vezes.
 
           
 
Duas vezes, porque da primeira vai acontecer-lhes o mesmo que a mim e a primeira reacção vai ser pegar no dvd e jogá-lo fora não antes sem o triturar na batedeira e colocá-lo a gratinar no micro-ondas.
Acontece que se depois virem o filme uma segunda vez, já sabendo com o que contam, as coisas parece que subitamente ganham uma nova dimensão e ficam bem mais claras e apelativas. Isto claro, se estiverem mesmo com pachorra para aturar cinema-de-autor com pretenções de ser Arte Digital moderna.
Na verdade por debaixo de tanta Arte, até que existe um bom núcleo e [“All About Lily Chou-Chou“],  bem vistas as coisas se calhar nem será tão pretencioso assim quanto aparenta á primeira vista e provavelmente mereceria mesmo um Gold Award e tudo.
 
 
Mas atenção, o facto de eu atribuir uma excelente classificação de cinco tigelas de noodles a esta …coisa, não significa que o esteja propriamente a recomendar ou a sugerir que vão imediatamente ver este filme.
Não comparem estas cinco tigelas de noodles com uma outra classificação semelhante que eu tenha atribuído a outro filme neste blog, pois no caso de [“All About Lily Chou-Chou“],  isto segue mesmo uma outra lógica de classificação á parte.
No entanto seria extremamente injusto se eu não lhe desse uma boa nota. A verdade é que este é um daqueles raros exemplos de cinema-de-autor tão desconcertante que se torna absolutamente hipnótico e mal ou bem não nos esquecemos do filme tão cedo.

A favor: provavelmente o estilo crú digital é a solução visual perfeita para contar esta história sobre violência adolescente que envolve não só bullying juvenil como aborda o problema da alienação social dentro dos frios liceus japoneses.
Como tal o tema da imersão virtual no mundo da net está fantásticamente retratado neste filme, o que o torna hipnótico e perturbante ao mesmo tempo.
Os actores são excelentes. Alguns enquadramentos e imagens contêm uma beleza única que contrasta com o tom frio e desumano da própria história. Todo o conceito do filme é muito bom e se calhar só poderia funcionar tão bem sendo o filme que é.  Vai agradar ao fãs de música estilo Bjork.

Contra: esta “instalação Artistica Digital” tem 140 minutos que nos parecem 6 horas quando vemos o filme pela primeira vez se não estivermos á espera do que nos vai cair em cima.
A meio do filme quando os personagens vão de férias para uma ilha, o realizador resolve mostrar-nos durante mais de quarenta minutos o filme das suas férias e o filme muda abruptamente de estética para algo que se assemelha ao pior video de familia que vocês alguma vez possam ser obrigados a ver e que se arrasta por um tempo infinito sem haver propriamente uma justificação narrativa para pregar tamanha seca ao espectador.
A fragmentação narrativa pode ser um pesadelo para o espectador mais desprevenido, pois os flash-backs podem ser extremamente confusos ao inicio, até porque os personagens ás vezes falam do ponto de vista dos seus nicks  de internet e outras com o seu nome próprio. Ainda por cima os nomes japoneses têm uma sonoridade semelhante e  a certa altura se não tivermos cuidado já nem sabemos quem é quem.
Algumas músicas da banda sonora enervam-me profundamente. Por outo lado quem gosta do estilo Bjork vai adorar tanto a música como o filme, pois este é quase um videoclip de duas horas para o seu tipo de sonoridade.
 
 
E pronto agora que estão avisados, deixem-me parafrasear por momentos o site oficial e contar-lhes algo sobre o filme.
Ao contrário do que costumo fazer vou dar bastante detalhes sobre o argumento, mas não precisam agradecer-me, pois até o site oficial faz exactamente o mesmo.
E não se preocupem com os *spoilers* porque se calhar é melhor partirem para isto com uma ideia mínima do que vão ver no ecran no meio de tanta Arte.
Se não quiserem saber exactamente sobre o que trata esta história e quiserem experimentar ver o filme sem saber nada sobre ele podem parar de ler este texto, aqui.
 
[“All About Lily Chou-Chou“],
 
Yuichi Hasumi vive com a sua mãe, o namorado dela e o filho deste numa aldeia rural do interior do japão.
Na escola é atacado constantemente pelos colegas e para escapar dos seus problemas, refugia-se no seu mundo próprio ao som da sua cantora favorita, uma super-estrela nipónica ao estilo de Bjork de seu nome Lily Chou-Chou, que é venerada quase como uma deusa pela sua legião de fãs.
Yuichi vive fechado no seu quarto uma existência paralela online no site dos fãs de Lily Chou-Chou que ele criou e do qual é o webmaster comunicando através do nick  – “Philia”.
Um dia “Philia” encontra no site outro fã de Lily, chamada “Blue Cat” e nesses espaço virtual nasce uma amizade.

Seguidamente o filme volta atrás um ano.
Yuichi Hasumi ainda nao conhece a musica de Lily Chou-Chou e vive um bom periodo da sua infância,
entrou para o liceu e um dos seus colegas é Hoshino um excelente aluno. Ambos ficam amigos quando aderem ao clube de esgrima-kendo e depois de muitas peripécias políticamente incorrectas decidem fazer uma viagem até Okinawa onde pretendem passar umas férias á beira mar onde tudo corre bem até ao dia em que Hoshino quase se afoga e o ambiente parece mudar de um momento para o outro. Como se não bastasse os dois são depois espectadores de um trágico e sangrento acidente de automóvel que se torna num prenúncio dos tempos negros que se aproximam.

Começa um novo ano e todos estão mais velhos.
Hoshino mudou de personalidade , derrota o fanfarrão agressor da escola e torna-se ele o chefe de um gang desprezando a sua antiga amizade com Yuichi pois abusa psicológicamente dele constantemente também.
Chega o ano 2000 e ambos fazem 14 anos.
Yuishi está no 8º ano mas ainda tem que dar constantemente dinheiro a Hoshino a troco dele não o tratar mal e para isso rouba diariamente, comentendo pequenos furtos por onde pode.
Isto porque Hoshino controla tudo e todos á sua volta com a sua crueldade adolescente. Um dia ordena A Yuishi que siga Shiori Tsuda, uma adolescente da escola que também há muito é uma vitima de Hoshino sendo forçada por este a aceitar “compensated-dating” com homens mais velhos a troco de dinheiro.

Yuishi é portanto encarregado por Hoshino de a vigiar e controlar o dinheiro que a adolescente ganha nesta forma semi-legítima de prostituição juvenil no Japão.
Apesar da sua submissão á crueldade de Hoshino, a rapariga Shiori Tsuda é tambem uma aluna excelente e optima pianista mas no entanto com um passado obscuro pois tambem já tinha sido antes abusada por outro colega anterior ao estilo de Hoshino.

 
A solidao e os dias de escola sufocantes são o dia-a-dia destes adolescentes maltratados pelos próprios colegas e aos poucos a realidade torna-se sofucante. Apenas no website dos fãs de Lily Chou-Chou anónimamente e por detrás dos seus nicks virtuais estes jovens conseguem falar do que lhes aflige e confessar os seus problemas.
Yuishi/”Philia” confessa que se tentou matar um dia mas não foi capaz e “Blue Cat” diz que também passou por isso. Em comum o facto da música de Lili Chou-Chou os ter ajudado a curar a dor e ambos tal como a restante legião de fãs da cantora veneram-na de uma forma religiosa quase doentia afirmando que ela é a personificação do “Ether”, algo indistinto mas divino que simboliza tudo o que é belo e perfeito e que segundo os fãs está presente nas músicas da cantora, sendo a única coisa que os faz ainda querer viver.
 

Dezembro, vai haver um concerto especial de Lily Chou-Chou próximo da localidade e todos os fãs se encaminham para lá em profundo extase religioso, incluíndo “Philia” e “Blue Cat” sem saberem que a tragédia os aguarda.

 
[“All About Lily Chou-Chou“],   Fim dos *Spoilers*
 
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Resumindo, é isto que poderão acompanhar em [“All About Lily Chou-Chou“],  embora o filme e a história contenha muito mais e seja um argumento extremamente detalhado.
Essencialmente isto é cinema-de-autor japonês e como já disse poderá ser algo que vocês irão detestar profundamente, mas por outro lado, se entrarem no espírito a verdade é que encontrarão aqui uma obra única dentro do cinema mundial e que ilustra como nunca o problema do bullying, da solidão juvenil no japão moderno e da alienação do mundo exterior.

[“All About Lily Chou-Chou“],  tem não só um conceito diferente para um filme sobre adolescentes, como ainda por cima a origem deste projecto não podia ter sido mais original.
Senão vejamos, a certa altura o realizador do filme, muito antes do projecto sequer estar totalmente pensado, em jeito de experiência criou na internet um website para uma cantora fictícia chamada Lily Chou-Chou que incluia música composta por uma incógnita artista real japonesa.
Fazendo-se passar por vários utilizadores, o realizador começa a deixar na página várias mensagens de fãs ficticios da cantora inexistente.
A coisa inesperadamente pegou, e de um dia para o outro o site recebe inúmeras mensagens de adolescentes reais que discutem tudo á volta de uma personagem que aparentemente ninguém consegue descobrir quem é ou porque supostamente será tão famosa.
Por acaso um dia surge numa das mensagens reais a palavra “Ether” e logo toda a gente começa a discutir o seu significado, a sua ligação á cantora, ás suas vidas, etc. Exactamente como é apresentado no filme que conta precisamente com as verdadeiras mensagens reais enviadas para o site ilustrando a veneração por Lily Chou-Chou.
Eis que o realizador do filme, continuando a fazer-se passar por mais um fã, introduz na conversa outro facto fictício dizendo que uma fã foi assassinada e imediatamente todos os users começam a especular sobre quem terá sido o responsável e de que forma isso afectará a cantora.

 
E lembrem-se, tudo isto á volta de uma pessoa que nunca existiu. Nesta altura já o realizador daquilo que viria a ser o filme [“All About Lily Chou-Chou“],  tinha uma boa mão cheia de ideias para a sua história sobre adolescentes e o rumo que esta tomou acabou precisamente por ser ditado pelas narrativas dos verdadeiros fãs que compulsivamente frequentavam o site mesmo sem nunca ninguém ter tido na mão qualquer prova que a cantora existisse.
Subitamente o message board foi fechado pelo realizador, deixando toda a gente no Japão á deriva.

Com o material obtido nesta experiência verdadeiramente sociológica, foi criado o primeiro esboço do argumento do filme, mas apenas ainda na forma de uma novela que depois acabou por ser publicada ao longo de trés meses numa revista japonesa criando uma enorme publicidade á volta do conceito, o que depois levou a que o message board do site “oficial” de Lily Chou-Chou fosse re-aberto e as histórias de experiências traumáticas adolescentes voltassem a aparecer o que permitiu que o argumento fosse depois escrito á volta de tudo isto, dando origem ás situações que encontram agora no filme e que segundo consta são perfeitamente baseadas em narrativas reais.

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A Lily Chou-Chou mania chegou ao ponto de quando durante a produção do filme, o realizador precisou de encher um estádio para um concerto da cantora que nunca existiu, todos os figurantes presentes nessas cenas foram escolhidos precisamente entre os utilizadores do website da cantora ficticia que inicialmente foi criado pela produção.
E muitos deles pensando ainda inclusivamente que a cantora existia mesmo, tendo-se tornado inclusive verdadeiro Otaku em redor de uma artista que nunca existiu.
É caso para dizer, só no Japão meus amigos !
Resta só dizer que o filme apesar de todo o seu experimentalismo foi um sucesso não só de público no Japão como principalmente de crítica a nível mundial onde é quase tão venerado pelos críticos como Lily Chou-Chou o é pelos seus Otaku hoje em dia.
 
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NOTAS ADICIONAIS
 
Trailer
Á falta de um trailer, podem espreitar o início do filme pois dá perfeitamente a ideia do seu estilo.
http://www.youtube.com/watch?v=OJFYDTFQHlo

Comprar
A edição que eu tenho é esta.
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7j-49-en-15-all+about+lily-70-cmv.html
Não trás mais nada além do filme, mas técnicamente está muito boa e além do grafismo da capa ser elegante trás ainda um pequeno folheto com as notas explicativas que puderam ler reproduzidas acima nesta review.

Site oficial
http://www.lily-chou-chou.jp/

 
 
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E se gostaram deste não vão querer perder:
 
 
 
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