A Fei zheng chuan (Days of Being Wild) Wong Kar Wai (1991) China


Este é o primeiro filme numa trilogia que por acaso até nem existe.
Confusos ? Pois ainda irão ficar mais porque isto é um bocado dificil de se explicar de uma forma simples.

[“Days of Being Wild“], técnicamente será o primeiro capitulo não oficial de uma história que percorre mais outros dois filmes, “In The Mood for Love” e “2046“.
O mais estranho, é que actualmente, para que vocês consigam apreciar devidamente esta “primeira” parte, convém que já tenham visto os dois filmes “seguintes” pelo menos umas duas vezes de modo a captarem todas as referências que depois poderão reconhecer neste “primeiro” filme.
E vice-versa…
Eu avisei que isto seria confuso.
[“Days of Being Wild“], é como o epílogo de um livro que na verade narra a “primeira” parte de uma longa história de amor que acabamos de conhecer.
Por isso antes que vejam este “capítulo”, devem começar pelo “In The Mood for Love” (que é a “segunda” parte) e depois “2046” que é a  “terceira” e funciona como conclusão para todo o arco da história.
Parece estranho não é ?

Pois parece, mas esta é definitivamente a ordem pela qual esta complexa história de amor e saudade deve ser vista.
Por exemplo, se vocês virem “2046” sem conhecerem os “capítulos anteriores”, podem apreciar na mesma o filme e até compreende-lo perfeitamente, mas não estarão a acompanhar esta história na sua plenitude, porque nunca irão notar a incrível quantidade de pormenores que o ligam directamente aos outros filmes “anteriores” e dão um novo sentido a essa “terceira” parte.
Particularmente, um sentido ainda muito mais romântico, porque depois de verem os “capitulos” anteriores vão reconhecer em “2046” pequenos detalhes que completam e enriquecem de uma forma espantosa inúmeras coisas que “ficam em aberto” tanto em “In The Mood for Love” como neste [“Days of Being Wild“].
Mas isto só funcionará se primeiro começarem por ver ou o meio da história em “In The Mood For Love” ou o final em “2046“.
Vejam [“Days of Being Wild“] e se já conhecerem “2046“, da próxima vez que reverem essa “terceira” parte vão descobrir um “2046” completamente novo.

E antes que vocês fiquem mais confusos, o primeiro filme por onde devem começar a ver esta história é o “segundo”, o mágnifico “In The Mood for Love“.
No entanto que isto não os impeça de continuar agora a ler esta review de [“Days of Being Wild“].
Sim, porque isto pode não parecer mas é de [“Days of Being Wild“], que ainda trata este texto.
Acho que preciso de uma aspirina.

E perguntam vocês com copos de comprimidos na mão, – mas porque raio é que eu devo começar a ver isto fora de ordem cronológica ?
Porque a grande magia desta(s) história(s) está não na sua sequência cronológica de acontecimentos, mas em descobrirmos filmes completamentes novos da segunda vez que vemos os capítulos que se seguem a [“Days of Being Wild“],  nesta “trilogia”.
Depois de conhecerem o final das histórias, o verdadeiro prazer cinematográfico está em regressarem ás origens de tudo e descobrirem coisas que lhes renova por completo as “sequelas” da próxima vez que as virem.
Acreditem-me que irão apreciar muito mais esta história assim desta maneira, pois a sua grande magia está na forma como este formato de argumento estilo puzzle nos faz descobrir pormenores que depois tapam todas as “imprecisões” que encontramos nas narrativas de “In The Mood for Love” e “2046” quando os vimos enquanto filmes isolados. É como uma caça ao tesouro cinematográfica interactiva.
E não há dúvida que isto funciona perfeitamente, o que torna estas obras em algo muito surpreendente, especialmente se pensarmos que segundo Wong Kar Wai nenhum dos filmes tinha sido pensado como sequela do que quer que fosse.
O que para aqueles que estão a par da maneira como Kar Wai escreve e filma as suas obras não é nada de espantar, pois ele é conhecido por fazer filmes sem sequer ter argumento e ir inventado á medida que filma.
Ainda está alguém aí ?

Certamente a esta altura os que ainda me leêm gostavam de saber sobre o que trata este [“Days of Being Wild“].
Bem…para explicar isto tenho de voltar a “In The Mood for Love“e a “2046“.
Basicamente [“Days of Being Wild“], retrata a juventude da personagem que a actriz Maggie Cheung interpreta em “In The Mood for Love“. Ficamos a saber como era a vida dela na sua terra natal antes de conhecer o marido, (aquele que a atraiçoa na “sequela”) e antes de ir viver para o quarto de pensão que habita no “segundo” filme já em Hong-Kong. O seu futuro marido, aqui poderá eventualmente ser o personagem do jovem policia que é uma das histórias românticas desta “primeira” parte.

Conta também a história de amor de outra rapariga, uma baliarina que neste caso é a outra personagem feminina “principal”, (se é que isto existe na obra de Wong Kar Wai).
Esta rapariga iremos mais tarde reencontrar em “2046” e ficar a conhecer o rumo que a sua vida tomou após os acontecimento narrados em [“Days of Being Wild“].
O seu personagem é um excelente exemplo daquilo que refiro a propósito dos filmes ganharem uma nova vida numa segunda visão, pois inicialmente se a virem em “2046” esta personagem aparece quase como apenas mais uma mulher como tantas outras na vida do personagem interpretado por Tony leung nessa “terceira” parte. Mas quando vocês virem [“Days of Being Wild“],  essa mulher em “2046” ganha nova vida  e uma nova conotação trágico-romântica que ilustra ainda mais o tema da saudade de um amor perdido, presente no “terceiro” filme.

O terceiro personagem “principal” em [“Days of Being Wild“], e na verdade o “heroi” do filme é um jovem rebelde ao estilo James Dean versão decadente oriental e que é um dos polos centrais do argumento, envolvendo-se românticamente com a jovem bailarina e dando origem á principal linha narrativa deste “episódio”.

E mais uma vez, também aqui [“Days of Being Wild“], se liga agora com “In The Mood for Love“, pois a tia deste jovem rebelde é a mesma personagem secundária que depois na “sequela” estará a viver em Hong-Kong e alugará um quarto aos personagens de Maggie Cheung e Tony Leung que nesse filme já serão as figuras centrais da história e onde já não existem vestígios aparentes deste primeiro filme no argumento.
No entanto este personagem da tia do jovem rebelde, de [“Days of Being Wild“], nunca se cruza nesta parte com os personagens com que depois irá interagir directamente em “In The Mood for Love“. Apenas habitam o mesmo filme como se vivessem num mundo normal e só os espectadores soubessem depois que os seus destinos se iriam cruzar no futuro.
Por causa disso, ao vermos o “In The Mood for Love“, conhecendo o personagem da tia, ficamos a perceber melhor a razões da sua melancolia “sem explicação”.
Simples não é ? 🙂

Mas se querem uma coisa realmente estranha neste filme, então podem encontrá-la no seu final.
E não se preocupem, pois isto nem sequer é um *spoiler*.
Os últimos minutos de [“Days of Being Wild“], não têm absolutamente nada a ver com o que se passa durante o resto do filme todo e subitamente surge no ecrã o personagem interpretado por Tony Leung em “In The Mood for Love” (?) a vestir-se num quarto de hotel obscuro sem nenhuma razão aparente e o filme acaba assim sem sequer concluir qualquer outra das histórias que supostamente tinha iniciado.

Isto sem razão absolutamente nenhuma para o actor sequer entrar no filme, ou o personagem da “sequela” lá estar, pois [“Days of Being Wild“], foi filmado pelo menos 10 anos antes de “In The Mood for Love” sequer ter sido pensado e muito menos o “2046” e como tal a coisa ainda fica mais estranha, embora Kar Wai também seja conhecido por introduzir coisas em filmes presentes que eventualmente depois poderá aproveitar no futuro.
Também filma sempre mais do que precisa pelos mesmos motivos e muitas das vezes como se queixou Maggie Cheung durante os mais de dois anos de filmagens de “In The Mood for Love“, Kar Wai, filma coisas que nem sequer pertencem ao filme ou a qualquer outro que já tenha pensado. Sempre com aquela ideia de ter algo que sirva para ser eventualmente usado no futuro, pois é esse o seu genial método criativo que até agora só deu excelentes resultados com obras intensamente românticas.

Se isto não é uma forma original de contar várias histórias de amor ao mesmo tempo, não sei o que será. Por tudo isto, o melhor é começarem a acompanhar estes personagens pelo “segundo” capítulo, pois garanto-vos que apanharão muito melhor as emoções de toda a história se depois forem descobrindo aos poucos as histórias por detrás de tudo quando voltarem ás origens.
Começar a acompanhar estas histórias românticas pelo início seria o mesmo que ver os Star Wars a começar pelos novos Episode I,II e III, pois a revelação de que Darth Vader é o pai de Luke Skywalker no Império-Contra-Ataca perderia todo o impacto drámatico e deixaria de ser uma surpresa para quem não conhece a história.
E não se preocupem, isto parece mais confuso do que na realidade é.

O problema é que como habitualmente os filmes de Wong Kar Wai não são para ser contados, mas sim para serem vistos e acima de tudo sentidos. Ninguém conta “histórias sobre nada” como Kar Wai o faz e apesar de [“Days of Being Wild“], não ser de forma nenhuma o seu melhor filme é no entanto obrigatório para quem já viu “In The Mood for Love” e “2046“.
Tenham em atenção que o estilo visual deste “primeiro” episódio ainda pertence á fase inicial do realizador e como tal não tem aquela aura refinada e muito trabalhada visualmente que os filmes actuais dele têm. [“Days of Being Wild“], é quase um Won Kar Wai estilo cinema amador experimental onde se sente que o realizador está ainda a aprender a ser aquilo que hoje em dia é.
Para quem não sabe, Wong Kar Wai não vem de qualquer escola de cinema, ou tem qualquer estudo na area. Kar Wai começou como desenhador gráfico a trabalhar numa banal empresa do ramo e tal como Peter Jackson, por acaso diverti-se a a fazer uns filmes “caseiros” com os amigos nos seus tempos livres, tendo conhecido nesse percurso a (agora) actriz Maggie Cheung que na altura trabalhava como caixa num hipermercado e a partir da sua colaboração e amizade fez-se história no cinema oriental.
[“Days of Being Wild“], é um bom exemplo da colaboração inicial dos dois, embora não seja propriamente o primeiro filme do autor.

Como tal, apesar do actual estilo narrativo Kar Wai já se fazer notar, [“Days of Being Wild“], ainda segue aquela estrutura muito fragmentada e crua, tornando este “episódio” mais um objecto de Art-House, (vulgo, Cinema-de-Autor) do que própriamente será um produto cinematográfico acessível aos gostos do publico que procure algo mais comercial no estilo romântico de por exemplo “The Classic“.
Apesar de alguns momentos bastante poéticos, [“Days of Being Wild“], não contêm aquela atmosfera romântica constante de “”In The Mood for Love“, “2046” e “My Blueberry Nights“, sendo essencialmente uma obra fria devido á crueza das imagens e ao próprio low-budget do filme que se nota perfeitamente.
Embora já conte com aquela ligação extraordinária entre imagem e música que hoje é habitual na obra do realizador, mas tudo ainda a um nível bastante mais rudimentar e experimental.

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CLASSIFICAÇÃO:

Se virem, [“Days of Being Wild“], sem conhecerem “In The Mood for Love” e “2046“, este poderá parecer-lhes um filme demasiado pretencioso e artístico no pior dos sentidos se estiverem á procura de um produto comercial.
Aliás, este é um daqueles filmes mesmo sem sentido absolutamente nenhum á primeira vista, sem história e sem conclusão.
Um Art-House no pleno sentido da expressão e não se pode propriamente considerar um filme para o circuíto comercial.
Além disso as cópias que existem têm não só um som muito mediano, como ainda por cima a imagem não é nada famosa, reflectindo plenamente a falta de orçamento do filme.
Portanto, se procuram uma típica história romântica mais comercial no melhor estilo oriental, não a irão encontrar aqui se esperam algo mais directo e imediato. Para isso vejam “Be With You“, “The Classic” ou “My Sassy Girl“.
Agora, se gostaram mesmo de “In The Mood for Love” e “2046” este [“Days of Being Wild“],  é não só de visão obrigatória como uma compra essencial que não só completa emocionalmente os dois filmes “seguintes” como é um excelente exemplo do cinema mais antigo de Wong Kar Wai.
Mesmo visto isoladamente é um excelente filme de autor, que embora apesar de frio, contém em alguns momentos suficientemente poéticos para dar vida ao lado romântico da história e onde se nota já aquilo que depois se viria a tornar no melhor das obras futuras de Kar Wai e que actualmente culminou no fabuloso “My Blueberry Nights“.
Um óptimo filme de autor para quem não tiver medo do género e por isso leva trés tigelas e meia de noodles.
Não leva mais porque comparado com fabulosas “sequelas” na minha opinião ainda se nota que não é um trabalho plenamente conseguido.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2emeia.jpg

A favor: a atmosfera, os momentos românticos, a fabulosa enorme sequência filmada num só take a meio do filme, a maneira como a música é usada para ilustrar as emoções da história, ficamos a conhecer o passado dos personagens de “In The Mood for Love” e “2046“.
Contra: pode ser um filme demasiado ilógico para muita gente pois é cinema de autor puro.

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NOTAS ADICIONAIS

Trailers
Sugiro que vejam os dois, pois dão uma boa ideia do estilo Art-House do filme.
http://www.youtube.com/watch?v=btsJHsuqF24
http://www.youtube.com/watch?v=IBhxLPNdG4o

Comprar
Á venda na Amazon Uk a um preço excelente. É de aproveitar.

Outras reviews
http://www.kfccinema.com/reviews/drama/daysbeingwild/daysbeingwild.html

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0101258/

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Se gostou deste vai gostar certamente dos seguintes filmes abaixo.
Aliás, mesmo que não tenha gostado deste  vai gostar dos filmes abaixo.

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2 thoughts on “A Fei zheng chuan (Days of Being Wild) Wong Kar Wai (1991) China

  1. Preciso dizer que vi a “trilogia” e foi já no primeiro que vi (2046) que me apaixonei por kar wai…

    nao entendi nada da viagem do perssonagem do Tony, a mulher que parecia com aquela que ele amava, o fetiche pelo quarto 2046, aquela mulher “espetaculosa” que ele conhece na pensao…

    dai vi DAYS OF BEING WILD (Dias Selvagens…) e entendi menos ainda… que era aquela menina, pq ele ta diferente, aquela tia louca, e aquela viagem, e olha a espetaculosa! e ele aparece no final…

    fiquei possesso até q veio AMOR Á FLOR DA PELE… tudo se encaixando, tudo se configurando, ele, ela, a menina do relogio, ele q aparece mais completo, o romance q reaparece em 2046, o quarto 2046…

    Hj, alem de ter visto A MAO (Eros), digo q sou apaixonado pelo cinema de kar-wai…

    E parabens pelas reviwes!

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