2046 (2046) Wong-Kar-Wai (2004) China


Quando pensamos em ficção-científica o nome de Nat-King-Cole não será própriamente aquele que nos vem à ideia quando imaginamos um futuro em ambiente Blade Runner, mas eu já não consigo ouvir as suas canções ; (principalmente as canções em Espanhol ) sem imaginar imediatamente prédios imensos rodeados por neons coloridos, carros flutuantes, vielas escuras ou á meia-luz e um ambiente noir intensamente romântico assente numa aura nostálgica de solidão e saudade.
Bem vindos a [“
2046“].

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Bem-vindos ao terceiro filme de uma trilogia que por acaso até nem existe.

Se [“2046“] fosse cinema Lusitano seria um filme sobre Fado.
Um filme sobre vielas escuras, candeiros á meia luz, almas em câmera-lenta, destinos errantes, amores perdidos e muita Saudade.

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[“2046“] pode não ser um filme Português, mas esta história podia ter saído perfeitamente de qualquer poema presente nos nossos Fados.
[“2046“] é verdadeiramente um filme Chinês embora com uma imensa e inesperada alma Lusitana.
Isto apesar do argumento ser também em grande parte uma narrativa de ficção-científica que não fica nada a dever ao universo de Blade Runner.

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Aliás, se alguma vez houve uma “sequela” inesperada para um drama romântico, [“2046“] ganha esse prémio sem sombra de dúvida, pois a última coisa que se esperava era que Wong Kar Wai fosse continuar não só a história de [“In The Mood For Love“] como ainda por cima o fizesse usando um cenário futurista que mete cyborgs ao melhor estilo “replicant” e tudo.
A primeira vez que li a notícia dizendo que [“2046“] daria continuidade a “In The Mood For Love” pensei que seria uma piada de 1 de Abril, pois por mais que tentasse não conseguia conceber como raio se pegava num filme tão classicamente romântico para o transformar numa história com contornos de ficção-cientifica.

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Mal sabia eu que afinal [“2046“] não só, era uma continuação não oficial de “In The Mood For Love” como ainda por cima também uma “sequela” quase directa para [“Days of Being Wild“] outro dos filmes mais antigos do realizador e que por sua vez, também já tinha servido de base para “In The Mood For Love“.
Confusos ?
Ainda não viram nada, mas para saberem mais detalhes sobre tudo isto, recomendo que depois leiam sem falta a minha review sobre – [“Days of Being Wild“] o “primeiro” filme desta “trilogia”, num link que darei mais á frente para não os baralhar agora ainda mais.
Para já voltemos a  [“2046“].

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Lembram-se da famosa cena romântica de Blade Runner em que Rick Deckard seduz a Rachel ao som do icónico tema de saxofone composto por Vangelis ?
Pois bem, em [“2046“] é como se o realizador Wong Kar Wai tivesse pegado nesse ambiente que em Blade Runner dura pouco mais de cinco minutos para criar um filme de duas horas com o mesmo estilo de atmosfera romântica; onde não só as imagens importam mas principalmente a música é absolutamente essencial para traduzir em emoções um argumento que não precisa de diálogos para ser intensamente poético.

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Mas afinal,  [“2046“] é uma “sequela” para “In The Mood For Love” porquê ?
É muito simples…Tal como em “Days of Being Wild” conhecemos a juventude da personagem interpretada pela actriz Maggie Cheung tanto nesse filme como depois mais tarde em “In The Mood For Love“, também agora aqui em  [“2046“], ficamos a saber de que forma foi afectada a vida do personagem interpretado por Tony Leung após ter encontrado o amor da sua vida nesse “segundo” filme.
Em  [“2046“] ele é um novo homem; passaram-se alguns anos desde “In The Mood For Love“, estamos a meio dos anos 60 em Hong-Kong e longe vão os tempos do jornalista tímido e recatado completamente apaixonado por alguém que sabia nunca poder vir a ter nos seus braços.

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Agora toda a sua vida não passa de uma sucessão de mulheres, casas de alterne, casinos e clubes nocturnos por onde ele se cruza com outras almas tão perdidas quanto a dele, vivendo a vida e a noite ao sabor da saudade, da recordação de amores perdidos e da constante procura desse amor antigo sempre numa nova pessoa errada.
Uma constante solidão colectiva que Wong Kar Wai filma como ninguém e faz deste filme uma experiência cinematográfica inesquecível para todos aqueles que já gostavam de “In The Mood For Love” e querem voltar a encontrar aqueles dois personagens.

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Só que desta vez, Maggie Cheung, já não está presente.
Apenas a sua breve imagem aparece quase como um sonho que percorre alma do personagem de Tony Leung acentuando a eterna saudade que o move por todo este filme e o leva a escrever um conto de ficção-cientifica que na realidade é o espelho do que ele sente mas nunca demonstra a nenhuma das mulheres que agora em  [“2046“] percorrem a sua vida.
Nesse conto, passado precisamente no ano 2046, a humanidade conseguiu criar cyborgs extremamente avançados que se assemelham a humanos, em tudo menos numa coisa.
São incapazes de reconhecer emoções de uma forma imediata.

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Nesse ano futuro, cujo a data é precisamente baseada no número do quarto onde em “In The Mood For Love” o personagem interpretado por Leung se encontrava com a mulher da sua vida, um rapaz encontra-se apaixonado por um cyborg feminino ao melhor estilo replicant e essa máquina a pouco e pouco também se vai apercebendo que o ama.
Mas existe um grave problema pois a replicant tem uma característica especial e todas as suas emoções contêm um atraso temporal.
Só várias horas depois de viver um acontecimento é que ela reage emocionalmente a esse momento. Antes não o consegue fazer.

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O que na história provoca um dilema romântico na sua relação com o jovem humano que não reconhece esse facto e julga que estará a desperdiçar o seu amor numa máquina que jamais será capaz de lhe corresponder desconhecendo no entanto que esta também o ama embora só consiga reagir ao seu amor muitas horas depois quando os dois já não se encontram juntos.

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Quem conhece bem “In The Mood For Love” já está aqui a ver o parelelismo entre o amor platónico da “segunda” parte e esta história que o personagem interpretado por Tony Leung tenta agora metafóricamente passar para o papel como forma de confessar secretamente as suas verdadeiras emoções e confessar a saudade que ainda sente pela personagem de Maggie Cheung tantos anos depois.
Isso leva a que seja agora incapaz de viver um novo amor com as mulheres que o rodeiam; mulheres que o amam agora de verdade mas tal como ele, estão condenadas a viver presas á saudade de um amor que nunca poderá existir.
E basicamente esta é a história de  [“2046“].

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Não esperem um filme de ficção-cientifica com aventura, vilões e perseguições mas sim a continuação de uma inesquecível história de amor vista de uma perspectiva completamente inesperada, atmosférica e muito original.
Wong Kar Wai, filma essencialmente -a saudade- e de que forma esse sentimento pode impedir que um novo amor surja na vida de qualquer pessoa que se mantenha pressa ao passado.
Neste campo, uma nota especial, para os trés novos interesses românticos de Tony Leung. Nomeadamente para as actrizes Bai Ling, Zhang Ziyi (que desta vez não anda envolvida em combates de artes-marciais) e Carina Lau que regressa ao universo desta história.
Todas com interpretações emocionalmente extraordinárias que quase fazem esquecer a ausência de Maggie Cheung embora esta esteja sempre presente no tema da saudade que percorre o filme.

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Carina Lau, inesperadamente retoma aqui a personagem que foi anteriormente o centro de “Days of Being Wild”,  o que liga de forma genial todos os três filmes desta trilogia.
Um trilogia, que segundo o próprio Kar Wai nem se pode considerar oficial pois simplesmente aconteceu e nunca foi minimamente planeada.
E quem conhece o cinema do realizador e a forma como ele trabalha, não tem qualquer dificuldade em acreditar nisto.
A verdade é que o resultado mais uma vez não podia ter sido melhor e Kar Wai voltou a criar um filme romântico completamente original que vale por si próprio embora não seja para todos os públicos.

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Na verdade não é obrigatório que se conheçam “os filmes anteriores” para poderem apreciar  [“2046“], mas podem ter a certeza que se os conhecerem e principalmente se gostarem deles, esta “terceira parte” ganha nova vida e torna-se um filme ainda mais indispensável para quem gosta de cinema verdadeiramente romântico com muita alma e extraordinária poesia visual.

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Mas atenção; tal como em relação aos “filmes anteriores”, também  [“2046“] é puro cinema-de-autor ao melhor estilo Art-House.
É muito sofisticado, é certo, mas não é de forma alguma cinema comercial romântico ao estilo de um “The Classic“, por isso pode não ser um filme para todas as audiências.
Mas se gostarem de filmes românticos e quiserem experienciar uma história verdadeiramente única dentro do género, não podem de forma alguma deixar de ver pelo menos “In The Mood For Love” e este  [“2046“].

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Até mesmo quem procura um bom filme de ficção-científica tem aqui uma excelente proposta pois esse segmento em ambiente Blade Runner embora seja relativamente secundário dentro da história é no entanto absolutamente fascinante e a actriz que faz de cyborg é simplesmente perfeita  na composição da replicant que perde o seu primeiro amor porque não consegue demonstrar os seus sentimentos quando seria a altura certa.

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E claro depois disto, terão obrigatóriamente de querer ver “Days of Being Wild” porque a “primeira parte” tornar-se-á verdadeiramente indispensável.
Mas só a devem ver quando virem a “segunda” e esta “terceira” pelo menos uma vez.
Antes não.
Se já estão completamente confusos tudo está explicado aqui na minha review de [“Days of Being Wild“] originalmente publicada no meu site sobre cinema oriental.

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Se conhecem [“My Blueberry Nights“] ( o primeiro filme ocidental do mesmo realizador protagonizado por Norah Jones e Jude Law ) , se gostaram desse filme e do seu ritmo narrativo lento e hipnótico muito baseado na interacção com a banda-sonora então não tenham medo de arriscar ver  tanto “In The Mood For Love” como  [“2046“], pois o estilo visual é o mesmo, embora “My Blueberry Nights” seja ligeiramente mais comercial.

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Se virem os filmes sem ideias pré-concebidas sobre cinema-de-autor, irão descobrir uma trilogia de filmes românticos únicos e inesquecíveis, que podem divertir não pelas explosões mas sim pelas emoções, especialmente se vocês se identificarem com a alma dos personagens.
E mais uma vez, tal como aconteceu com “In The Mood For Love” depois de verem isto, nunca mais vão deixar de associar Nat-King-Cole ao universo de Wong Kar Wai.

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A maneira como ele usa em [“2046“], “The Christmas Song” cria uma atmosfera nostálgica única e é um verdadeiro mini-videoclip para a emoção dessa canção.
Aliás a banda sonora, como acontece sempre no cinema deste realizador mais uma vez é um personagem á parte dentro do filme, pois a forma como é usada para contar a história é um exemplo perfeito da sua forma única de fazer cinema onde a música é tão indispensável quanto a camera de filmar ou o director de fotografia.

E tal como acontece também no seu filme “My Blueberry Nights“, também em [“2046“], o espectador assiste a toda a história como se fosse a passar e por acaso; como se vislumbrasse sem querer uma cena entre duas pessoas ou ouvisse uma conversa que não deveria ouvir. Esta abordagem é verdadeiramente fascinante criando algumas das mais belas imagens que poderão encontrar no moderno cinema romântico seja de onde for.

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[“2046“] apesar de já ter alguns anos continua a ser visualmente um filme incrível, tal como “In the Mood for Love” já o era; e uma das minhas grandes referências também quando crio qualquer trabalho de ilustração.
E portanto…

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CLASSIFICAÇÃO:

Excelente filme de autor que ganha uma dimensão extraordinária se conhecerem as histórias de “In The Mood For Love” e “Days of Being Wild“.
Se gostaram do mais recente filme de Wong Kar Wai, “My Blueberry Nights” têm aqui algo de que muito provavelmente irão gostar também.

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Quanto a mim este é mais um daqueles filmes perfeitos. Embora não seja um filme fácil, todo o seu experimentalismo Art-House recompensa plenamente o espectador pelo romântismo que ilustra e será possivelmente um dos melhores filmes sobre – a Saudade – jamais feitos.
Com uma banda sonora extraordinária e uma fotografia absolutamente perfeita que junto com a fantástica e intimista realização de Wong Kar Wai, elevam este filme a um patamar único dentro do cinema romântico e até mesmo dentro da ficção-científica – menos comercial.

Cinco Tigelas de Noodles e um Gold Award

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Para conhecerem tudo sobre a trilogia de que este filme (não) faz parte, leiam a minha review de Days of Being Wild

A favor: tudo, poesia, personagens, ambiente, banda sonora, romantismo, fotografia, realização e argumento, a maneira como a música é usada, a estética das imagens, o design de produção, as partes de ficção cientifica intimistas, alguns discretos mas inesperados momentos de humor que equilibram a carga dramática do filme, o trabalho das actrizes é fantástico.

Contra: absolutamente nada ! Embora para muita gente este possa ser um daqueles filmes “pa intelectuais” onde não se passa népia e tudo anda muito devagar sem tiros.

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TRAILER

COMPRAR DVD – REGIÃO 2 – EDIÇÃO UK
dvd
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IMDb
http://www.imdb.com/title/tt0212712/

Curta metragem (publicitária) inédita de Wong-Kar-Wai para quem quiser ver mais um trabalho deste autor que não se encontra editado em lado nenhum.
http://www.youtube.com/watch?v=gBsbEopulOM&feature=related

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E se gostaram deste não vão querer perder

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4 thoughts on “2046 (2046) Wong-Kar-Wai (2004) China

  1. Assisti a este filme ontem de noite e fiquei fascinado pela maneira introspectiva como o autor vai abordando solidão, amores q não dão certo, entre outras coisas.
    Estou sentindo falta dos seus reviews, mas tenho visto sempre q possível alguma coisa recomendada aqui pq realmente aprecio o cinema oriental.

  2. Também gostei bastante do filme pela forma como aborda o tema da solidão num estilo poético. Fez lembrar-me as partes introspectivas e atmosféricas de Blade Runner.

    Estou a tentar manter um ritmo de escrita por aqui, embora ainda não o possa fazer como fazia pois tenho muito trabalho de ilustraçao em mãos e falta tempo para escrever. Mas mais reviews para muito breve pois filmes nao faltam. 😉

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