Yôkai daisensô (The Great Yokai War) Takashi Miike (2005) Japão


Conhecem o Anime, “Spirited Away – A Viagem de Chihiro” ?
Se gostaram desse filme de animação, têm aqui o seu equivalente em live action, pois [“The Great Yokai War“] é quase uma obra de Hayao Miyazaki, só que por acaso desta vez, até foi realizado pelo polivalente Takashi Miike.
E não é que  [“The Great Yokai War“] é um filme para crianças ?!…

Onde está o espanto ?
Bem, Takashi Miike é bem mais conhecido pelos seus filmes cheios de baldes de sangue ou momentos de crueldade sado-maso do melhor requinte. A última coisa que se esperaria era que um dia ele se dedicasse a fazer um filme para crianças.
O facto de  [“The Great Yokai War“] ser uma obra de Miike, é quase como se o Spielberg tivesse realizado um porno gay com Talibans. Já estão a compreender a analogia. 🙂

Por esta ninguém esperava.
Por outro lado… de Miike já se espera tudo, tendo em conta inclusivamente que um dos seus mais recentes filmes é um western com cowboys orientais e falado em japonês mas com estilo a piscar o olho a Sergio Leone.
No entanto  [“The Great Yokai War“] não mete cowboys, mas simcriancinhas (que desta vez, note-se, nem cortam ninguém aos bocados) e tem inclusivamente criaturas simpáticas e fofinhas ao melhor estilo cute japonês.

O filme é um cruzamento entre, “A Viagem de Chihiro“, “História Interminável” e o “Pokemon” mas por entre toda a pirotécnia dos efeitos especiais e cenas de acção ao melhor estilo adolescente, é tambem uma história sobre o crescimento que deixará muita gente a pensar nos momentos finais do filme.
Ao contrário do habitual dentro do género de cinema infantil, Takashi Miike consegue dentro da mesma obra equilibrar elementos para crianças e adultos sem nunca perder o estilo do filme e esse é um dos principais trunfos de [“The Great Yokai War“].

Devo dizer no entanto, que não o consigo achar a obra prima que muita gente afirma que é. Não por ser um filme para crianças, mas porque tal como aconteceu em “A Viagem de Chihiro“, acho que só conseguirá ser devidamente apreciado na sua totalidade por quem conhece a fundo a numerosa mitologia japonesa.
É que este é um filme essencialmente baseado em conceitos tradicionais de histórias infantis japonesas e como tal está cheio, (mesmo, mesmo cheio) de personagens monstruosos que na realidade retratam a enorme quantidade de deuses, deusas e espíritos da Terra presentes no folclore daquele país.

Acho que o único problema do filme para um ocidental adulto é que toda a sua narrativa se baseia por demais nas referências culturais do Japão com que não estamos de forma nenhuma familiarizados e por vezes ao longo do filme o fascínio quebra-se pois não conseguimos compreender ou criar uma empatia com muitos dos personagens que supostamente nos deveriam tocar.
Claro que para os mais novos, isso pouco importa pois o filme está cheio de momentos ao melhor estilo Pokemon e isso é que lhes irá agradar, mas para um adulto o facto de não poder apreciar na totalidade a parte que lhe é destinada acaba por ser um bocado frustrante e este nunca se torna tão apelativo quanto merecia ser.

É que apesar de tudo, [“The Great Yokai War“] é realmente uma obra prima visual dentro de uma estética Pokemon. Os efeitos especiais representam perfeitamente a enorme quantidade de deuses que entram neste filme, as batalhas têm impacto e a atmosfera escura e assombrada funciona particularmente bem. Se calhar bem demais.
Uma das coisas que me surpreendeu foi precisamente isso. É que se isto é suposto ser um filme para crianças, contêm um par de sequências dignas de um filme de terror oriental em que realmente o ambiente perturbante e assustador não é normal encontrarmos em filmes destinados a esta faixa etária.

Por outro lado, isto é um filme do Takeshi Miike…por isso já seria de esperar que ele não se limitasse a fazer um produto comercial destes sem meter lá a sua assinatura muito particular.
O que só dá personalidade ao trabalho, agora não esperem que [“The Great Yokai War“] seja o típico filme vazio para putos ao estilo americano, pois o cinema deste autor tem sempre muitas camadas o que só valoriza as sua obras e também este não é excepção.
A realização é excelente, tudo tem uma identidade particularmente original e consegue ainda contar com alguns momentos inesperadamente assustadores, mas também tocantes, o que não deixa de ser inesperado, tendo em conta a quantidade de violência que normalmente existe nos filmes do autor.

O filme narra as aventuras sobrenaturais de um rapazinho que vive numa aldeia isolada no interior rural do Japão moderno.
Um dia num festival tradicional, este é escolhido para ser o “cavaleiro Qilin” que simboliza o protector sobrenatural de tudo o que é bom. Só que em breve ele descobre que a simbologia é bem mais real do que pensava, pois vê-se transportado para um mundo paralelo onde terá que colocar á prova toda a sua coragem lutando contra as forças do mal sendo ajudado por muitos espíritos e deuses da mitologia japonesa conhecidos por “Yokai“, daí o titulo do filme.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Óptimo filme infantil que agradará muito a adultos com imaginação pois não é o vazio que estes filmes costumam ser quando vêm de Hollywood.
Indispensável para os colecionadores do trabalho de Takashi Miike.
Trés tigelas e meia de noodles por ser um bom e original filme de fantasia. não lhe dou mais porque apesar de tudo isto ainda é uma obra para crianças e como tal contém partes com que um adulto não se identifica totalmente.
Mas é uma compra excelente para quem gosta de cinema oriental.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2emeia.jpg

A favor: é como se fosse um Miyazaki em “imagem real”, a originalidade do conceito, a imaginação da estética, a realização cheia de personalidade o que dá uma identidade única ao argumento, a atmosfera assombrada adulta numa história para crianças de todas as idades, o argumento inteligente, o final tocante pela sua naturalidade e que nos deixa com um sabor melancólico ao mesmo tempo que nos faz pensar.
Contra: os “maus” são demasiado estereótipados e todas as suas cenas são desinteressantes, algumas cenas de acção são banais porque o filme cola-se demasiado a um estilo Pokemon e portanto pode ser bastante aborrecido durante as cenas de acção pela previsibilidade das mesmas.

——————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=xv9fW4TdY4Y

Outra review
http://www.dvdtimes.co.uk/content.php?contentid=60807

Comprar
Sugiro esta edição excelente.
Dois discos numa caixa de cartão muito forte, desdobrável em vários segmentos ilustrados e com um grafismo a condizer.
Excelente imagem e com um som perfeito tanto em 5.1 normal como no excelente DTS.
Além disso está tudo legendado em inglés e traz várias horas de extras contando tudo sobre o filme.

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0425661/

——————————————————————————————————————

Filmes “semelhantes” de que poderá gostar:

A Chinese Tall Story The Promise

——————————————————————————————————————

Ritana (Returner) Takashi Yamazaki (2002) Japão


Este filme não tem um pingo de originalidade.
É quase o equivalente oriental a um daqueles filmes do Steven Seagal mas com um argumento inteligente em vez da habitual história do gajo que se vai vingar porque lhe mataram a familia toda.
Em [“Returner“] não há nada disso, mas sim um gamanço descarado de filmes como “The Terminator” com um toque de “ET-O Extraterrestre” e um cheirinho de estética Matrix. Sem esquecer um sabor Anime mas sem bonecos animados.
E isto é mau ?
Bem, não. Por acaso o resultado surpreende em todos os aspectos.

[“Returner“] vai roubar bocados de todos os filmes e mais alguns, mistura tudo com criatividade e o por incrível que pareça obtém um divertido e  entusiasmante filme de acção e ficção-científica que a princípio nos agarra pelo rídiculo á força de querer meter estilo, mas depois acaba por contar uma história interessante. Embora cheia de lugares-comuns, consegue manter sempre o interesse graças a uma construção de personagens muito bem feita ao melhor estilo série B.

Nada falta a [“Returner“], viagens no tempo, extra-terrestres bonzinhos e outros menos bons, herois rebeldes sem família, miudas ingénuas mas com garra e personalidade e tem um vilão a condizer, que se calhar é o melhor de todos os personagens precisamente pela forma como está caracterizado. Ridículo, hilariante por vezes, mas sempre ameaçador e onde se nota permanentemente que o actor se está a divertir á brava no papel. É inclusive uma das melhores coisas no filme pois contrasta perfeitamente com a maneira como os herois estão caracterizados complementando muito bem tudo o resto.
[“Returner“] tem argumento bem estruturado mas que nunca se leva muito a sério e assume totalmente o espirito de série B, sendo executado com bons efeitos especiais criando divertidos e variados momentos de acção que percorrem todo o filme.

Num futuro próximo, o primeiro contacto com extra-terrestres corre horrivelmente mal e desencadeia uma guerra em que o planeta Terra é conquistado e practicamente destruído pela força invasora técnológicamente avançada.
Quando um dos últimos redutos da humanidade, escondido algures no Tibete é descoberto e invadido uma rapariga sem ter muito por onde escolher viaja no tempo até um periodo alguns anos atrás na posse de informações que eventualmente vão impedir que o primeiro contacto com extra-terrestes venha a acontecer da forma que sucedeu.
Chegando ao nosso tempo cruza-se com um rapaz que vive uma vida de mercenário urbano tendo por arqui-inimigo um membro de uma máfia criminosa japonesa que se apoderou de um extra-terreste cujo a nave se despenhou algures nas montanhas e mais não conto.

Até porque não há muito para contar, pois se vocês viram “The Terminator“, “Matrix” ou “ET” já estão a imaginar o tipo de história que se segue mas não é por isso que [“Returner“] possa ser imediatamente classificado de filme menor, pois mistura exemplarmente todos os ingredientes e obtém um filme sinceramente divertido e onde é difícil apontar o que quer que seja de verdadeiramente negativo.
É definitivamente um daqueles que é mesmo para deixar o cérebro á porta e disfrutar-mos dele sem ideias descriminatórias pré-concebidas.

Até porque, além de fazer tudo bem, [“Returner“] ainda tem tempo para criar um pequeno bom twist ao melhor estilo oriental para terminar com chave de ouro toda a história deixando-nos com vontade de ver uma sequela com estes personagens.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Excelente exemplo de um filme de acção bem feito, que não tenta ser mais do que um bom divertimento e consegue esse resultado a todos os níveis.
Não é uma obra prima da originalidade, mas demonstra perfeitamente que muitas vezes uma boa história nem sequer precisa de ser original, bastando ter apenas os ingredientes certos misturados de uma forma inteligente e criativa.
Não envergonha ninguém como filme de ficção-científica apesar da história simples e consegue mesmo ter uma identidade única, que o liga directamente ao melhor do Anime, apesar de [“Returner“], nem ser um filme de animação.
Por tudo isto, leva quatro tigelas de noodles…e mesmo assim, se calhar merecia mais meia tigela…

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg

A favor: excelente trabalho de realização formulática e comercial ao máximo mas nem por isso um trabalho menor, bons e cativantes personagensm, boa história mesmo roubando bocados a todos os filmes e mais alguns, excelentes e estilizadas sequências de acção ao melhor filme Anime, efeitos especiais a condizer, o vilão é hilariante e ameaçador ao mesmo tempo, o final do filme deixa-nos com vontade de ver uma sequela, excelente filme pipoca, pode considerar-se um excelente Anime filmado em “imagem real”.
Contra: a banda sonora é do piorio mas isto sou eu que odeio música do género, e bem…os trailers são todos maus.
O trailer original é um vazio absoluto que me manteve afastado deste filme durante anos em vez de me cativar para vê-lo.
E o trailer americano também é a idiotice do costume com o narrador de voz estilosa a explicar em detalhe a história do filme aliado entre uma sucessão de cenas de porrada.

——————————————————————————————————————

Trailer americano
http://www.youtube.com/watch?v=2v4pWshsQ1U

Trailer original
http://www.youtube.com/watch?v=05U-kxiln-k

Comprar
Já se encontra também á venda na Amazon Uk a preço da chuva. 😉

——————————————————————————————————————

Filmes semelhantes de que poderá gostar:

Natural City 2009 Lost Memories

——————————————————————————————————————

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0339579/

S-Diary (S-Diary) Jang Kwan Kwon (2004) Coreia do Sul


Pelo trailer [“S-Diary“], prometia ser uma comédia oriental hilariante, no entanto o resultado fica um bocado aquém das espectativas que a apresentação cria nos espectadores.
É muito divertida, tem um par de gags brilhantes mas o filme balança entre o muito engraçado e o assim-assim nunca se conseguindo elevar ao nível que está sugerido no humor do trailer, que diga-se de passagem, tem uma montagem bem melhor que o próprio filme e talvez seja essa a grande diferença que se note na disparidade do humor entre ambos.

A meio parece que os seus criadores se aperceberam que havia algo que não funcionaria plenamente, pois subitamente a história entra por um interlúdio dramático/romântico ao melhor estilo do cinema Coreano, mas que acaba por não resultar porque a nossa empatia com a personagem feminina foi criada com base numa personalidade e depois pedem-nos para a ver de uma nova perspectiva de um momento para o outro.
Passado o interlúdio dramático, o filme regressa ao tom de comédia desmiolada ao melhor estilo oriental, mas o espectador fica sempre com aquela sensação que há algo que não resultou particularmente bem em  [“S-Diary“].

Na verdade, nota-se que houve aqui uma tentativa de colagem ao estilo do fabuloso “My Sassy Girl“, mas nem o argumento de [“S-Diary“] se pode comparar nem aquela personagem feminina sequer consegue assemelhar-se de forma positiva á presente no filme que [“S-Diary“] tenta emular.
Por isso por muito que tente disfarçar, este filme oriental acaba por parecer mais uma tentativa falhada de tentarem copiar o estilo de humor (e drama) de “My Sassy Girl“, (como muitos outros já tentaram também fazer, mas sem a poesia do “original” e muito menos o talento para criar uma verdadeira empatia com o espectador.

[“S-Diary“], não é um mau filme, e até como comédia romântica ao estilo típicamente alucinado coreano é algo que se vê muito bem pois contém alguns momentos divertidos.
Quem gostou de filmes como “O Diário de Bridget Jones” tem aqui o seu equivalente coreano, pois a temática é mais ou menos a mesma e tudo gira á volta das desventuras amorosas de uma rapariga coreana que tem imenso azar com os namorados que arranja e que a colocam nas mais variadas e ridiculas situações.
O filme está dividido em vários segmentos, um para cada namorado que a miuda arranja, com um interlúdio romântico pelo meio e finalizando com algumas sequências muito engraçadas que envolvem o tenebroso e divertido plano da rapariga para se vingar ao mesmo tempo de tudo o que cada namorado a fez passar.

Não há muito mais que se possa dizer sobre este filme asiático. É uma boa comédia mas não tem practicamente nada que a faça ficar por muito tempo na nossa memória. Ainda assim é uma comédia acima da média se compararmos com o habitual estilo completamente histérico de grande parte do cinema de humor oriental.
Nesse aspecto deve ser uma das comédias da Coreia do Sul que mais se poderá assemelhar a um estilo de cinema Ocidental e se calhar poderá estar aí uma das suas fraquezas, pois nunca se define própriamente enquanto filme.

[“S-Diary“], quer dizer, “Sex-Diary”, mas não esperem meninas nuas, cenas eróticas ou qualquer coisa do género neste filme, para além de algumas piadas estilo “American Pie” mas com roupa vestida, com roupa vestida.
O que não deixa de ser curioso, pois toda a promoção em cartazes deste filme aponta para uma comédia mais explicitamente picante e erótica, chegando inclusive a colocarem nos posters (e na capa do dvd), meninas despidas que nem sequer têm qualquer coisa a ver com o filme.
O que demonstra bem que os produtores de [“S-Diary“] a dada altura também não devem ter percebido bem que tipo de filme é que estavam a querer fazer e como tal devem ter tentado atrair público com imagens de meninas giras que depois não têm nada a ver com o espírito do filme presente no dvd.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Boa comédia mas não mais do que isso.
A partir de certa altura tenta seguir as pisadas de ”My Sassy Girl” mas falta-lhe alma, embora contenha muitos momentos divertidos e como tal que goste de comédias acima da média tem em [“S-Diary“] uma boa opção que o fará passar alguns momentos divertidos.
Trés tigelas de noodles porque é um bom filme e pronto. Nem mais nem menos.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg

A favor: é divertido, as situações provocadas pela variedade de namorados da miuda, um par de gags excelentes e hilariantes, a vingança final com o padre.
Contra: realização sem fôlego e com uma montagem dispersa que não tem de forma a noção de ritmo divertida que aparece no trailer, a meio do filme tentam seguir um caminho romântico demasiado sério que fica um bocado deslocado.

——————————————————————————————————————

Trailers
http://www.youtube.com/watch?v=ndOL1JiSXUY&feature=related
http://www.youtube.com/watch?v=wpBXqzzhQoo

Comprar
Estranhamente este filme parece já não se encontrar á venda em lado nenhum.
A edição que eu tenho é esta http://global.yesasia.com/en/PrdDept.aspx/pid-1003919443/
É uma edição especial com um design excelente, 2 discos e pilhas de extras…embora só o filme esteja legendado em inglés o que é pena. Até os menus estão em Coreano o que complica imenso a navegação quando queremos procurar trailers ou algo assim.

——————————————————————————————————————

Filme “semelhante” de que certamente irá gostar:

My Sassy Girl

——————————————————————————————————————

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0426196/

Wu Ji (The Promise) Kaige Chen (China) 2005


[“The Promise“], é um dos melhores filmes de Fantasia que vi até hoje e considero-o uma compra essencial para quem gosta do género.
Para mim este filme é o equivalente oriental a um Lord of the Rings.
Enquanto que Lotr é o expoente máximo de um filme de Fantasia tendo por base uma historia clássica de características ocidentais,  [“The Promise“]  é sem dúvida nenhuma o seu equivalente dentro das referências de fantasia orientais, sendo na verdade uma perfeita representação cinematográfica de um típico conto chinês.
Coisa que muito público parece não compreender.

O facto deste filme ser absolutamente trucidado por quase toda a gente no IMDB para mim é o exemplo perfeito do quanto americanizados estão os gostos das audiências ocidentais em geral.
As pessoas parece que apenas têm uma fórmula de – Fantasia – na sua cabeça e tudo o que não se enquadra no estilo Dungeons & Dragons americano parece ser á partida rejeitado, mesmo por aqueles que depois afirmam a pés juntos serem apreciador de filmes do género.

A sorte de filmes como Lord of the Rings foi terem sido baseados no romance que inventou (sem querer) o estilo que depois foi adaptado aos gostos americanos dando origem ao D&D.
Na verdade a fórmula D&D, não é mais do que uma repetição da estrutura narrativa de aventura que Tolkien inventou mas simplificada ao máximo, retirando-lhe tudo o que são partes “chatas/literárias” e basicamente deixando-lhe apenas a porrada mística.
Como consequência desta generalização, para muita gente, o género de Fantasia tem que obrigatóriamente contar com um grupo de herois-formuláticos, porque de outra maneira as pessoas até chegam a remeter histórias diferentes para o género infantil menosprezando-o por isso. Como se uma história de fantasia de características “infantis” fosse algo menor.

Apenas o estilo D&D é genéricamente reconhecido como Fantasia pela maioria do público ocidental e grande parte das histórias que se tornam populares são só mais do mesmo, não passando apenas de variações de tantas outras que já foram mil vezes escritas.
Geralmente mete sempre um jovem heroi ingénuo, um cavaleiro, um feiticeiro (clone de Gandalf), uma amazona ou princesa guerreira, um elfo e um anão que inevitávelemente têm uma Quest por resolver e onde há sempre uma espécie de super-vilão, normalmente um feiticeiro negro qualquer que comanda exércitos de orcs, dragões ou criaturas semelhantes e quer conquistar o mundo só porque é mau. Depois a aventura tem sempre a mesma estrutura, os herois vão de A a B e pelo caminho avançam recolhendo objectos mágicos até que chegam sempre ao confronto final com o feiticeiro vilão de serviço e o vencem como se espera por entre batalhas épicas e muito fogo de artificio.

Ora [“The Promise“] não tem grande coisa a ver com esta fórmula e portanto leva imediatamente com o desprezo de muita gente que não o consegue associar a um estilo de Fantasia ou sequer reconhecê-lo como fazendo parte da fórmula tradicional Chinesa de contar histórias. E mesmo que o reconheçam, raramente lhe dão o valor que merece pelo simples facto de que não segue as regras de aventura americanas.
É que [“The Promise“] é um conto de fadas e como toda a gente sabe isso são histórias para putos.
Conclusão o filme não presta.

No entanto eu não posso estar mais em desacordo.
Para mim este é um dos melhores, mais gráficamente poéticos e fascinantes filmes de Fantasia que vi desde Lord of the Rings.
Está numa categoria á parte e como tal nem vale a pena ser alvo de comparações, porque dentro deste género particular de fantasia oriental nunca houve nada assim.
[“The Promise“], tem lugar numa espécie de mundo made-in-Photoshop ao estilo História Interminável versão oriental, (mas sem criaturas fofinhas).
Um mundo com a estética e a poesia visual do “Hero” mas levado aos limites da imaginação gráfica e que serve de palco a uma história de amor tradicionalmente decalcada da fórmula do conto-de-fadas e que desta vez é também complementada com extraordinárias coreografias de artes-marciais ao melhor estilo wuxia.

Alguém classificou [“The Promise“] como um filme de Super-Herois oriental passado num reino de fantasia, mas sem o vazio presente nas formulas de filmes americanos. Acho que é uma excelente classificação pois a mitologia chinesa está cheia de herois com super-poderes que já existiam em contos tradicionais milhares de anos antes dos X-Men terem sido pensados.

Recomendo este filme a 100% para toda a gente que goste de fantasia e não tenha problemas com o estilo oriental.
Tenho amigos que odeiam filmes estilo “Hero” porque os personagens voam quando lutam, mas já gostam dos filmes de super-herois de Hollywood porque – “…não têm fantasias parvas”.
Se o leitor também se enquadrar nesta opinião, então não vejam [“The Promise“] pois esta é a base das suas cenas de acção. Cenas que não pretendem ser “reais” mas sim ilustrar plenamente o conto-de-fadas que estão a servir.
E não o poderiam fazer melhor pois as cenas de luta são mágnificas apesar de completamente irreais pois são extremamente estilizadas e pensadas até ao último detalhe de cada coreografia de acção.

Para quem gostou de “Hero“, têm aqui um filme imperdível, desta vez além do visual incrível ainda levam uma história de amor única dentro do género que na realidade só peca por o personagem da princesa ser quase insuportável.
Tudo isto complementado a uma escala épica com cenários e batalhas que certamente agradarão ao mais exigente admirador do Lord of the Rings apesar deste estilo de fantasia não ter nada a ver com a fórmula D&D.
Além disso é uma excelente introdução ao género de Fantasia oriental para todos aqueles que não o conhecem ainda.

Na sua essência, [“The Promise“] é um perfeito exemplo de como se pode fazer bom cinema digital sem cair na desgraça que foi por exemplo o filme “Casshern” ou até mesmo “A Chinese Tall Story“, onde a pura exibição de efeitos digitais destruiu por completo os filmes que simplesmente deixaram de existir enquanto objecto cinematográfico.
Nada disto acontece em  [“The Promise“]. Apesar da enorme quantidade de efeitos deslumbrantes que este filme contém, a parte humana da história está lá no centro de tudo e por muito espectaculares que os visuais do filme sejam a todo o instante, estes estão lá para servir o conto que o realizador está a ilustrar e não apenas para mostrar efeitos especiais.
Isto, ao contrárido do que aconteceu em “Casshern” é o grande trunfo deste filme.

Muitas pessoas parecem ter ficado muito chateadas com o excesso de paisagens digitais, daquelas onde óbviamente se nota que existem montagens fotográficas, (quer dizer que nos filmes americanos não se nota ?!); mas  [“The Promise“] tem de ser visto como o conto-de-fadas que é.  Como tal, todo o estilo de ilustração que percorre o filme não é mais do que a tentativa de reproduzir no ecran a sensação de que estamos a ver um livro ilustrado.
Daí as cores vivas, a “falta” de naturalidade dos ambientes e tudo o mais daquilo que muita gente toma por falhas mas na minha opinião é precisamente a grande força do filme, pois vê-lo é como estar a ler um livro grandiosamente ilustrado em que todos os desenhos estão em movimento.

Num mundo actual , onde filmes de efeitos especiais existem ás centenas, é bom ver que num produto que é essencialmente uma obra de efeitos especiais, o realizador conseguiu afastar o filme de todas os excessos e armadilhas narrativas que o poderiam ter tornado numa obra falhada.

Visualmente tudo é perfeito como conceito, embora nem sempre técnicamente os efeitos digitais sejam os melhores.  Este filme na verdade tem variações técnicas estranhas entre excelentes efeitos digitais e efeitos digitais, digamos…assim,assim.
No entanto, desde as paisagens imaginárias, até ao guarda roupa exuberante e ás imaginativas coreografias de luta tudo se encaixa perfeitamente nos variados efeitos especiais sem nunca descuidar os personagens que são sempre a alma da história.
O que me leva ao único ponto negativo em  [“The Promise“] e que na minha opinião quase que estraga a ligação do espectador com a história de amor apresentada no filme.
É que infelizmente o personagem da princesa é tão irritante que uma pessoa quase que passa o filme todo a torcer para que alguém lhe enfie uma flecha nas trombas.

Deixem-me explicar-lhes melhor…
Alguém se importa que, por exemplo a Paris Hilton fique sem o novo namorado desta semana ?…
Pois, bem me parecia. 🙂
Agora imaginem que o centro da história de amor em  [“The Promise“] é precisamente o equivalente medieval oriental da Paris Hilton.
Resultado, por mais que o realizador se esforçe em tentar convencer o espectador de que aquela mulher merece ter tamanha influência emocional na vida dos dois herois que formam o triangulo amoroso do filme, as coisas nunca parecem muito lógicas.
É que a princesa é uma verdadeira bitch mimada, o que transforma imediatamente os dois herois e rivais em dois carneiros sem personalidade e ás vezes por causa disso pode ser complicado seguirmos certos momentos do filme sem nos questionarmos sobre esta “falha” porque pelo menos eu, não senti durante o filme a ligação emocional a esta história de amor que deveria sentir enquanto espectador e isso desapontou-me ligeiramente pois um filme visualmente tão romântico pedia uma história de amor com personagens a condizer e isso nem sempre acontece.

Felizmente que este pormenor é devidamente compensado pelo final, onde o realizador consegue arrancar mais alguns momentos tocantes, apesar de até aí não termos realmente compreendido porque os personagens estavam tão apaixonados pela rapariga, acabamos no entanto por nos identificar com as suas emoções e as inevitáveis escolhas trágico-romanticas, fechando com chave de ouro um filme incrível que merecia melhor protagonista feminina no que toca á construção depersonagens.

Por outro lado, como já disse, isto é um conto-de-fadas e por tradição as princesas no género sempre foram um bocadinho parvas…por isso se calhar  [“The Promise“]  até neste aspecto terá cumprido plenamente o seu propósito enquanto filme de fantasia oriental.
Sendo asim e porque este texto já vai longo, nem vou resumir a história, porque poderão ter uma excelente ideia se virem o trailer mais abaixo.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Apesar da princesa irritante  [“The Promise“]  é um dos melhores filmes de Fantasia que poderão encontrar no mercado e mereceu plenamente a nomeação para o Oscar do melhor filme estrangeiro em 2006, embora não o tenha ganho.
Agora precisa de uma mente aberta da parte do espectador, e este não pode estar á espera de encontrar aqui um filme de Kung-Fu ou um Épico medieval, pois o que temos aqui é uma história tradicional chinesa magistralmente passada a imagem.
Sendo assim dou-lhe a nota máxima…embora se calhar nem mereça tanto, pois o filme não é tão perfeito assim e o facto da história de amor que deveria ser a alma do filme nem funcionar particularmente tão bem quanto deveria, também lhe retira alguns pontos.
Mas a verdade é que mesmo assim eu adoro este filme e é um daqueles que tem qualquer coisa especial que me faz sempre ter vontade de o rever.
Por isso mesmo, leva cinco tigelas de noodles e um Golden Award como selo de qualidade pois é um excelente filme comercial com um toque artístico de cinema-de-autor que só lhe fica bem.

noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg noodle2.jpg gold-award.jpg

A favor: imagens mágnificas com enquadramentos poderosos que transmitem toda a poesia da história, o visual espantoso dos cenários, o guarda-roupa, as sequências de luta coreografada, o personagem do “vilão” amaldiçoado, a banda-sonora, o ambiente de conto-de-fadas, a atmosfera romântica clássica presente numa china imaginária, é uma história de fantasia original, o final do filme que em vez de resolver tudo com uma batalha épica adopta um tom intímista simples e emocional.
Contra: o personagem da princesa com o seu estilo Paris Hilton medieval é absolutamente irritante, a história de amor não é tão credível como deveria de ter sido e apenas agarra o espectador mesmo no final, a sequência de batalha inicial apesar de grandiosa torna-se um bocado rídicula por causa do seu estilo demasiado cartoon onde nem faltam os bárbaros com armas de plástico (?), alguns efeitos digitais são mesmo mauzinhos e nota-se um grande desiquílibrio técnico nesse aspecto ao longo do filme pois varia entre excelentes efeitos e outros não tão excelentes assim sem grande razão aparente para isso ser assim.

——————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS:

Excelente Trailer apesar de dobrado em inglés.
A apresentação narrada em inglés apesar do sotaque um bocado duvidoso, demonstra bem o ambiente do filme por isso se gostarem do que virem abaixo irão certamente apreciar [“The Promise“].
http://www.youtube.com/watch?v=WpUYSHUrueQ

Trailer original chinês
http://www.youtube.com/watch?v=ASix-v_-P2k


COMPRAR

Se ainda conseguirem encontrar esta edição, comprem-na imediatamente sem hesitar. Infelizmente parece que se encontra já esgotada em todo o lado, mas nunca se sabe, pois podem ainda conseguir encontra-la algures.
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7k-77-4-49-en-15-the+promise-70-1929.html
É a edição que eu tenho e vem numa embalagem particularmente criativa de plástico e cartão com um design excelente e um conteúdo ainda melhor. Tem uma imagem e som absolutamente perfeitos, excelente legendagem em inglés até nos comentários audio e pelo menos 150 minutos de extras com tudo e mais alguma coisa sobre o filme além de trazer na caixa um livro exclusivo só com ilustrações originais e uma pequena colecção de postais. E na altura quando estava disponível só custava 15€ !!

Mas…como certamente já não vão encontrar essa edição á venda, sugiro que comprem a edição UK em caixa normal, que basicamente é a mesma da edição especial mas sem todos os extras.
Caso prefiram, também já existe em Blu-Ray e este é um daqueles filmes que tem tudo a ganhar com o formato pois viusalmente é fabuloso.

AVISO IMPORTANTE SOBRE A EDIÇÃO PORTUGUESA
NÃO COMPREM a edição portuguesa editada pela Prisvideo !
A capa é esta :
http://www.wook.pt/ficha/a-promessa-dvd … id/1526254 Grr:-)

Finalmente lançaram o filme em Portugal mas mais uma vez temos direito a outra edição á portuguesa.
Para minha surpresa lançaram a versão “americana” do filme. Não está dobrado, mas o publico português tem de comer com uma nova introdução que logo nos créditos iniciais explica muito bem explicadinho, onde fica o reino dos bons, dos maus, quem são os personagens, o que são, o que farão dentro do contexto da história, etc, etc, etc.
Tudo muito bem detalhado, onde não faltam inclusivamente uns desenhos feitos á pressa que mostram logo o aspecto de personagens que aparecem ao longo do filme e que deveriam pelo menos manter um efeito de mistério.
Resumindo, na edição portuguesa, explica-se logo tudo muito bem explicadinho não vá depois o público não conseguir distinguir os maus dos bons mais tarde.

Mas isto nem sequer é o pior.
O pior de tudo, é que num filme tão visualmente épico parece que alguém achou que pelo menos um terço da imagem dos lados não fazia cá falta nenhuma e mais uma vez temos uma edição Portuga que apesar de referir o tão reconfortante 16:9 na caixa, na verdade a beleza dos cenários está mutilada porque na práctica os portugueses vão ver algo semelhante a um 4:3 onde tudo está muito bem centradinho no ecrã mas onde falta muito da imagem nos lados. Muito mesmo.
Estive a comparar a edição PT da PRISVIDEO, com a minha edição Chinesa (região zero), e nem tem comparação.
The Promise depende extraordináriamente da beleza e da composição das suas paisagens e cenários para resultar como espectáculo cinematográfico e isso perde-se por completo na edição agora colocada á venda em Portugal pois todo aquele sentido épico visual fica constrangido por apenas se ver no ecrã a imagem essencialmente centrada sem dar qualquer valor ao enquadramento original. grr-)

E é melhor nem falar da diferença de som, entre a edição Portuga editada pela Prisvideo e a edição Chinesa por exemplo… eh-)
Se a vastidão das paisagens se perde por completo devido a faltar no ecrã um terço da imagem, o mesmo acontece com a fabulosa aura tridimensional que existe nas pistas sonoras deste filme na sua edição oriental.
Não sei onde raio vão buscar estas edições para lançar em Portugal, mas também aqui levamos com um 5.1 standartizado incomparável com o fantástico som surround que existe tanto nas pistas 5.1 como DTS das edições chinesas.
Ah…e claro que podem esquecer o DTS na edição Portuga também.
E as legendas estão coladas.

E como se não bastasse ainda por cima, há algo errado com a navegação do menú da edição Portuga que nos faz andar ás voltas com os botões pois insiste em querer passar os trailers que o disco contém, mesmo quando estamos a tentar começar a ver este filme de fantasia romântica e o dvd insiste em passar o trailer da nova obra do Steven Seagal (não estou a brincar)

——————————————————————————————————————

Website oficial
http://wip.warnerbros.com/promise/

IMDB
http://www.imdb.com/title/tt0417976/

——————————————————————————————————————

Filmes “semelhantes” de que poderá gostar:

A Chinese Tall Story The Myth Shinobi

——————————————————————————————————————

Jungdok (Addicted) Young-hoon Park (2002) Coreia do Sul


Se há algo em que actualmente os Sul-Coreanos são definitivamente os melhores do mundo, é na minha opinião em criar as mais inesperadas e originais histórias de amor cinematográficas.
E mais uma vez, também [“Addicted“] não é excepção.

Mas atenção, se calhar importa desde já dizer que esta não é a normal love-story oriental que por muito dramática que seja acaba sempre por ter um cunho positivo e nos faz sentir bem, mesmo ficando tristes no final. Nada disso, [“Addicted“] é um caso á parte, pois devido ao seu conceito acaba por ser uma história não só particularmente deprimente como acima de tudo perturbante e até doentia.
Portanto, se vão á espera de um filme romântico, cheio de beleza e poesia, se calhar é melhor passarem á frente e irem ver por exemplo “Be With You“, “My Sassy Girl” ou “Il Mare” em vez de [“Addicted“].

[“Addicted“], é um genuíno “feel-like-shit movie” e portanto não é definitivamente um “feel-good-romance“. Estão avisados.
O que não impede que os americanos não se preparem já para também lançarem um remake made-in-Hollywood deste filme. O que para mim foi uma verdadeira surpresa, pois o original nem sequer foi propriamente um sucesso no oriente e para mais o filme tem uma aura negativa que me surpreende muito que alguém na América tenha agora achado que seria uma boa ideia fazer uma versão ocidental desta história.
A não ser que a entregassem ao David Cronenberg, aí sim, a coisa se calhar já teria toda a lógica, pois definitivamente se há algo que caracteriza [“Addicted“] é o facto de abordar um tema perfeito para o realizador Canadiano. Mas aposto que vão transformar este filme em mais um “Scream” com umas cenazinhas de suspanse daquelas com sustos de música ALTA quando o original usa em vez disso os silêncios angústiantes para criar suspanse nos arrepiar.
Aguardemos…
De qualquer maneira e já que a versão americana também vem a caminho, achei que seria interessante dar-lhes uma pequena ideia do original caso estejam interessados em espreitá-lo antes que a publicidade ao filme americano acabe por também arruinar a surpresa final de mais esta história de amor completamente original made-in oriente. Porque apesar de tudo, deprimente ou não [“Addicted“] não deixa de ser uma história de amor. Será que vamos poder dizer o mesmo do remake americano quando ele chegar ?

[“Addicted“], conta a história de dois irmãos que vivem juntos na mesma casa junto com a esposa do mais velho. O irmão mais novo é piloto de corridas automóveis e pouco tempo tem para compromissos românticos. Isto para desespero de uma sua amiga que está plenamente apaixonada por ele e que vê constantemente os seus avanços serem preteridos em favor do desporto pelo qual o rapaz está completamente viciado, preferindo a adrenalina dos motores á paixão de quem o ama.

O irmão mais velho é o oposto. É um artista de temperamento calmo que cria, obras de arte á volta da construção de mobiliário no seu estúdio privado e é casado com uma jovem promotora de eventos vivendo uma relação amorosa que dá o tom aos poucos momentos realmente românticos e bonitos do filme. Momentos esses que por um instante quase nos fazem crer que vamos ver o típico romance sul-coreano cheio de poesia. Isto até que dois acidentes acontecem.

Num determinado momento, os dois irmãos sofrem dois acidentes de automóvel ao mesmo tempo mas em locais diferentes, vindo o irmão mais velho a falecer e o mais novo a entrar em coma profundo durante meses.
Quando desperta, a jovem cunhada agora viúva, leva-o de regresso a casa, mas o rapaz já não é a mesma pessoa que era dantes. Perdeu todo o interesse pelos automóveis e aos poucos tanto a sua cunhada como a rapariga que continua a gostar dele começam a notar que o seu comportamento é bem mais estranho do que aquilo que seria de prever tendo em conta que ele acaba de recuperar de um coma profundo.
O rapaz tem agora todas as características do irmão mais velho falecido no acidente. Tem exactamente os mesmos tiques e trejeitos, começa também ele a trabalhar nas esculturas do irmão e uma certa noite apresenta-se á cunhada como sendo na realidade o seu marido falecido, pois segundo ele, o seu espírito na hora da sua morte não querendo perder o amor da sua esposa transferiu-se para o corpo do irmão em coma impedindo-o de também morrer e assumindo o corpo mais jovem para poder voltar para os braços da muher que tanto amava.

E mais não conto. Apenas posso dizer que daqui em diante, o argumento progride até ao seu habitual twist e que apesar de relativamente esperado é no entanto uma ideia realmente fantástica para uma história de contornos românticos muito negra e com uma boa pitada de ambiente sobrenatural á mistura.

Não há nada de errado com este filme, o argumento é excelente, os actores estão fantásticos e até contém algumas inesperadas cenas de sexo o que não é nada habitual em filmes românticos orientais diga-se de passagem.
Quanto a mim o único grande problema está na sua realização. Não que esta seja má, mas simplesmente o filme não fica na memória por mais nada a não ser pelo argumento. Afinal este realizador não é o Cronenberg e não filmou aquele tipo de filme que tenhamos vontade de rever pela combinação de elementos, atmosfera, poesia, fotografia, etc.
Na verdade [“Addicted“] esgota-se por completo numa primeira visão porque após nos ser revelado o twist final não há grande motivo para que nos apeteça voltar a colocar o dvd no leitor.
E o facto disto ser uma história de amor com uma aura particularmente negativa também não ajuda nada, embora ao mesmo tempo seja essa a grande originalidade e a força principal do filme.
Acima de tudo o grande problema aqui é a realização banal e quase em formato televisivo. Não há nenhuma sequência memorável, o filme não é composto de imagens inesquéciveis ou contém sequer qualquer coisa que nos faça ter vontade de o rever pelo prazer de ver cinema.
O estilo televisivo limita-se a servir a história, mas [“Addicted“] perde a sua identidade por ser tão banal enquanto trabalho cinematográfico, pois mais parece ter sido filmado para um canal de televisão-cabo do que para as salas de cinema.

Por isso, apesar do filme até ser bom e merecer ser visto pelo menos uma vez, não lhe posso dar uma nota muito alta, porque sinceramente não me cativou por aí além e não é um filme que volte a rever tão cedo, pois tirando a surpresa da história não tem muitos mais motivos que me atraiam para novo visionamento.

——————————————————————————————————————

CLASSIFICAÇÃO:

Um filme que agarra pelo mistério e pelas excelentes iterpretações, da primeira vez que o vemos, mas o seu desfecho poderá ter um sabor demasiado negro e amargo para quem procura uma história de amor poética no estilo sul-coreano habitual. Vejam antes “Be With You“, “My Sassy Girl” ou “Il Mare“.
Duas tigelas e meia porque é muito interessante como história original, mas como filme precisava de ter ido mais além. No entanto, aqueles que gostam daquela aura doentia dos filmes de Cronenberg podem adicionar mais uma tigela á minha classificação porque poderão gostar mais do que eu gostei.

noodle2.jpg   noodle2.jpg  noodle2emeia.jpg

A favor: o breve momento romântico do inicio com a habitual cena á chuva sempre presente no cinema do género sul-coreano, o mistério, o tom sobrenatural subliminar constante, o ambiente perturbante, o twist final, o conceito doentio da história, os actores.
Contra: realização sem fôlego banal e televisiva que acaba por tornar tudo o resto irrrelevante pois quando se conhece o final não há mais motivos para voltarmos a rever o filme.

——————————————————————————————————————

NOTAS ADICIONAIS

Trailer
http://www.youtube.com/watch?v=WrQLwxnzncU

Comprar
http://www.play-asia.com/paOS-13-71-7j-77-1-49-en-15-addicted-70-ox6.html

Pequeno update
Isto nas américas trabalha-se rápido…acabei agora de ver o trailer para a versão USA do filme e sinceramente não me parece totalmente má. Tirando desde já o facto de terem transformado um dos irmãos num gajo boé da mau com pinta de delinquente psicopata. Mas deve ser para que o filme possa entrar na linha dos habituais plásticos tipo “Scream” do Wes Craven , porque senão o público das pipocas nunca iria compreender o argumento se tivessem apresentado os dois irmãos como duas pessoas banais. E também deve ser para o público ver um vilão no trailer porque nos States um filme sem vilão é logo metade da receita nas bilheteiras.
O que acho uma idiotice terem feito esta mudança porque se isto é para ganhar suspanse na versão americana e meter umas perseguições a martelo, então mais uma vez Hollywood acabou de retirar uma das grandes forças do argumento original onde a história é construída ao redor de pessoas normais. A não ser que ser um delinquente estiloso na América seja tão banal que já passa por “boy-next-door”. Mas vamos lá ver o que isto vai dar…
Podem espreitar o trailer americano aqui http://www.youtube.com/watch?v=bPrFQv7ROzA